domingo, 26 de maio de 2019

Gilberto Gil - "Juazeiro"

A mulher esperando o homem

O tema da mulher esperando o homem há muito, muito tempo me fascina; sei que é velho, já serviu para sonetos, contos, páginas de romance, talvez quadro de pintura, talvez música. E eu que não sei fazer nada disso sou, entretanto, perseguido por histórias de sua mulher esperando homem, das mais banais às mais terríveis.
Agora mesmo, quando passou o aniversário da revolução húngara, eu me lembre que entre todos os relatos, alguns dolorosos, horríveis, de gente que fugiu da Hungria, havia o de uma mulher que contou com simplicidade a sua história; e foi o que mais me impressionou quando o li, de madrugada, no meu quarto de hotel em Nova York. O marido saíra para a revolução e lhe disse que ela não saísse de casa de maneira alguma, esperasse sua volta. Chegou a noite e ele não veio; no outro dia entraram na rua tanques russos atirando, e veio outra vez a noite, e veio outro dia, e veio outra noite, e ela esperando; cochilava um pouco sentada, acordava assustada julgando ouvir os passos ou a voz dele, até que chegou por um parente a noticia de que ele morrera.
Ela então saiu de casa e – “como eu não tinha mais nada que esperar”, segundo disse – fugiu para a fronteira da Áustria.
Não sei por quê, achei que essa mulher sentiu um alívio ao saber que não devia esperar mais; acontecera, naturalmente, o pior. Mas a angústia de esperar cessara.
O homem ausente era como um carcereiro que a prendia no lar transformado em câmara de torturas. Ela agora estava desgraçada, mas livre.
Mas não é preciso haver guerra nem nenhum perigo; nesta madrugada em que escrevo, em Ipanema, quantas mulheres não estarão esperando os maridos? Aquela pequena luz acesa em um edifício distante é talvez o apartamento da mulher insone que já telefonou meio envergonhada para várias casas amigas perguntando pelo marido, que já olhou o relógio vinte vezes e tomou comprimido para dormir, ligou a Rádio Relógio, tentou ler uma revista velha, fumou quase um maço de cigarros.
Não importa que seja a esposa vulgar de um homem vulgar; e que no fim a história do atraso dele seja também completamente vulgar. Neste momento ela é a mulher esperando o homem; e todas as mulheres esperando seus homens se parecem no mundo, e se ligam por invisível túnel de solidariedade que atravessa as madrugadas intermináveis.
Todas: a mulher do pescador, a mulher do aviador, e a do revisor de jornal, a do milionário e a do ministro protestante…
Devia haver um santo especial para proteger a mulher esperando o homem, devia haver uma oração forte para ela rezar; ela está desamparada no centro de um mundo vazio.
Ela começa a odiar os móveis e as paredes; a torneira da pia lhe parece antipática; a geladeira, que aliás precisa ser pintada, é estúpida, porque ronca de repente e depois o silêncio é mais quieto. A cama é insuportável.
Devia haver um número de telefone especial para a mulher que está esperando o homem chamar, reclamar providências, ouvir promessas, insistir, tocar outra vez, xingar, bater com o fone. Devia haver funcionários especiais, capazes de abastecer essa mulher de esperança de quinze em quinze minutos, jurar que todas as providências já foram tomadas, “estamos seguros que dentro de poucos minutos teremos alguma coisa a dizer à senhora…”
E diria que pelo menos no necrotério ele não está, nem no pronto-socorro, nem em delegacia nenhuma; mas não diria isso de uma só vez, e sim através de informes espaçados, que fossem formando etapas de ansiedades, que quadriculassem lentamente a insônia.
A mulher que está esperando o homem está sujeita a muitos perigos entre o ódio e o tédio, o medo, o carinho e a vontade de vingança.
Se um aparelho registrasse tudo o que ela sente e pensa durante a noite insone, e se o homem, no dia seguinte, pudesse tomar conhecimento de tudo, como quem ouve uma gravação numa fita, é possível que ele ficasse pálido, muito pálido.
Porque a mulher que está esperando o homem recebe sempre a visita do Diabo, e conversa com ele. Pode não concordar com o que ele diz, mas conversa com ele.
Rubem Braga, in 200 crônicas escolhidas

Uma visita inconveniente

O sociólogo estrangeiro desembarcou, dirigiu-se ao hotel, aboletou-se e no dia seguinte percorreu a cidade, exibindo a roupa de sábio, surrada e com joelheiras, o guarda-chuva de cabo torto, o chapéu de palha, sujo, roído nas abas, um grande pacote amarelo debaixo do braço.
Conhecidas várias ruas, encaminhou-se ao palácio do governo, entregou a um contínuo o cartão de visita e sentou-se. Pouco depois mandaram-no entrar, pois tinha vindo pelo telégrafo recomendação forte. Ergueu-se, afastou o reposteiro verde com símbolos bordados a ouro e achou-se na presença do poder executivo, a quem endereçou um pequeno discurso organizado na antecâmara, mentalmente.
Em seguida, sobre a mesa larga onde o expediente se acumulava, desatou os cordões do embrulho e ofereceu a S. Excia. diversas brochuras grossas, que encerravam, com largo saber, as transações humanas dos tempos pré-históricos e as do futuro.
O governador incluiu num rápido balanço os títulos sisudos, as dedicatórias amáveis, os milheiros de páginas cobertas de letra miúda, floresta raramente quebrada por espaços brancos. Juntou a isso as duas linhas que negrejavam no cartão, sob o nome do visitante, os termos da recomendação telegráfica, ministerial — e disse as palavras aplicáveis à situação.
Conversou durante os minutos precisos e regulamentares, pensando nos encrencados artigos dum vago decreto e numa criatura feminina, também vaga e encrencada. Ditas as frases necessárias, calcou o botão da campainha e mandou chamar um funcionário de vulto, conveniente às exigências do sociólogo que ali descansava na cadeira de espaldar alto, encimado por uma águia e outros objetos oficiais. Vindo o burocrata, fez a apresentação:
Professor Fulano, da universidade de... (Onde era a universidade, santo Deus?) A universidade de tal parte. Deseja...
Houve uma pausa, exame de papéis — e o sociólogo explicou minuciosamente o que desejava.
O governador não entendeu e transportou-se aos parágrafos difíceis do decreto e a certas palavras da mulher vaga. O funcionário balançou a cabeça:
Perfeitamente.
Despedidas protocolares, sorrisos, agradecimentos. O contínuo, percebendo que o sujeito era importante, franziu, curvando-se, os símbolos dourados do reposteiro verde.
Às suas ordens, professor, disse o funcionário, deixando o palácio.
E entrou num automóvel, dispôs-se, chateado, a mostrar ao homem do guarda-chuva de cabo torto as curiosidades indispensáveis à fabricação duma obra séria e acadêmica.
Percorreram secretarias, diretorias, o serviço de algodão. Viram e comentaram a estrada de rodagem, o hóspede exigindo pormenores, os construtores alargando-se em considerações alheias às perguntas. Estudaram, no aprendizado agrícola, o banheiro carrapaticida, as pocilgas, o estábulo e o galinheiro, coleções de animais desenvolvidos cientificamente e improdutivos. Foram ao tribunal e aos jornais, leram sentenças e artigos de fundo. As sentenças eram o que no lugar havia de melhor em sintaxe; os artigos, mal escritos, revelavam energia e lirismo.
Visitaram o mercado, o Instituto Histórico, os clubes de football, os cafés, os cinemas, casas de família e casas onde não existiam famílias, em pontas de rua.
O sociólogo estrangeiro, de olhos abertos, ouvidos abertos, a carteira aberta, o lápis na mão, possuía, decorrida uma semana, material suficiente para um livro de quinhentas páginas, corpo 8. Figurariam nele, com auxílio de algumas crônicas pesadas, as origens, o desenvolvimento, o fim provável duma sociedade que, partindo daqui, andando ali, chegaria necessariamente acolá.
Nesse ponto, como era preciso estirar o volume, exploraram-se as escolas. Tudo correu bem nas elementares. As professoras disseram o que sabiam e os meninos indicaram no mapa o sítio onde frei Henrique de Coimbra rezou a missa de estreia. Mas num estabelecimento secundário houve desastre.
Esse tipo, cochichou o funcionário a um lente sabido, quer uns esclarecimentos sobre os índios. Vou levá-lo à sua classe. Pensei em você para explicar direito esse negócio. Conte umas lorotas, que o homem é de universidade.
Muito bem, respondeu a douta personagem agradecida, feliz por sair da sombra e manifestar-se diante de quem pudesse compreendê-la.
Meia hora depois, numa preleção muito verbosa, dizia aos alunos (dirigia-se na verdade ao estrangeiro, que o escutava assombrado ali perto, o guarda-chuva entre os joelhos) coisas admiráveis a respeito de inscrições achadas no sertão. Garantiu que elas tinham sido feitas pelos egípcios e pelos fenícios, desembarcados no Brasil tantos séculos antes de Jesus (estabeleceu a data), agentes de colônias prósperas, ligadas por um comércio regular às metrópoles. Tentou decifrar alguns caracteres, percebeu neles os nomes de Osíris e dos engenheiros que, há quatro mil anos, executaram obras notáveis na cachoeira de Paulo Afonso. Sim senhor. Os devotos de Osíris e de Ísis misturados aos selvagens nacionais, que ainda não eram tupis.
Não senhor.
O estrangeiro embasbacava, arregalava os olhos. E o funcionário suava, agitava-se desesperadamente na cadeira, parecia mordido de pulgas. Trincava os beiços e fazia gestos inúteis. Segurava-se à ideia de que o sujeito importante, conhecedor de fatos relativos à pré-história e ao fim do mundo, não entendesse a linguagem do professor cambembe, provinciana e corrupta.
Ora muito bem. Dessas relações entre o elemento indígena, os egípcios e os fenícios nasceram os tupis. Os estudantes maus bocejaram.
Os estudantes bons sorriram. Os medíocres pegaram os cadernos e tomaram notas.
Felizmente lá fora ninguém entende um português assim estragado, consolou-se o funcionário. Estamos em segurança.
O sociólogo estrangeiro desiludiu-o, fulminou-o com uma pergunta brutal:
Os senhores não têm programa? Um homem pode aqui ensinar isso na escola?
Graciliano Ramos, in Garranchos (Cultura Política, ano 2, nº 22, Rio de Janeiro, dezembro de 1942)

A sofisticada Arte geométrica de Beatriz Milhazes


 



  


 
 A artista plástica carioca Beatriz Milhazes



Cores de parto

O que eu vi,
à nascença, foi o céu.

No rasgão da retina,
a desatada luz: o meu segundo oceano.

Aprendi a ser cego
antes de, em linha e cor,
o mundo se revelar.

O que depois vi,
ainda sem saber que via,
foram as mãos.

Parteiros gestos
me ensinaram quanto,
das mãos,
a vida inteira vamos nascendo.

As mãos foram, assim,
o meu segundo ventre.

Luz e mãos
moldaram a impossível fronteira
entre oceano e ventre.
Mia Couto

Woody Allen e as lamúrias da existência

No filme A última noite de Boris Grushenko, de Woody Allen, a morte vem buscar Boris, que, a caminho do além, passa na casa da namorada, Sonia, para se despedir. Sonia pergunta como é a morte.
Boris (depois de pensar um pouco) — Sabe a sopa no restaurante do Lipsky?
Sonia — Sei.
Boris — A morte é pior.
No humor de Woody Allen é constante esta justaposição de extremos do impensável — a morte, Deus, o universo, o nada e “por que diabo estamos aqui, irmão?” —, com uma referência ao banal. No mesmo filme, Boris e Sonia discutem a ideia de que o homem foi feito à imagem de Deus.
Boris — Você quer dizer que Deus se parece comigo? Deus usa óculos?
Sonia (hesitando) — Bom, talvez não com esses aros.
A banalização das últimas indagações da existência serve, primeiro, para amenizar os seus terrores. (“O que você tem a ver com o universo?”, pergunta a mãe do jovem Allen em Noivo neurótico, noiva nervosa, impaciente com a sua angústia precoce.) Segundo, para incorporá-las ao repertório de um cômico profissional que, no fim das contas, precisa ser engraçado antes de ser profundo. Woody Allen não é um filósofo. É um judeu da baixa classe média urbana do Leste dos Estados Unidos, como dez entre dez estrelas da comédia americana. Ele mesmo se situa na tradição dos stand-up comedians, como Henry Youngman, mestres da piada de uma linha e do monólogo, da troca de insultos com bêbados em clubes noturnos de costa a costa da América, embora reconheça que seu precursor direto seja Mort Sahl, o primeiro stand-up comedian cerebral. (Década de 1950. Sahl também foi o primeiro a fazer humor político de esquerda.)
A diferença entre Allen e os outros é que ele tem um pouco mais leitura e mais influência do contexto cultural de Nova York, podendo incluir mais significados num estilo de humor verbal que permanece, em essência, o mesmo desde o vaudeville e o burlesque. Mas, mesmo quando eleva o seu humor à metafísica, nunca falta a referência paroquial, americana, o contraste com o que existe. “Deus deveria nos dar uma prova de sua existência. Como repartir as águas do Mar Vermelho. Ou fazer o tio Sasha pagar a conta num restaurante.” Outra versão da mesma piada é: “Se Deus apenas me desse uma prova de sua existência... como depositar uma grande quantia em meu nome num banco suíço.”
O melhor humor americano é uma infindável lamúria pelos absurdos da existência urbana. Allen inclui a finitude humana, a transitoriedade do universo e as incertezas com a eternidade entre as contrariedades do cotidiano. “A minha preocupação constante é: haverá uma vida depois da morte? E, se houver, será que eles trocam uma nota de 500?” A maior piada de todas é que no fim a gente morre, mas ninguém ri disto. Se você disser, como Allen, que “o universo não passa de uma ideia passageira na mente de Deus — o que é um pensamento duplamente desagradável, se você tiver acabado de pagar a entrada da sua casa própria”, fica engraçado. Você pode ser profundo na superfície porque no fundo tudo é superficial, da sopa do Lipsky ao infinito.
Allen pertence ao pequeno mundo liberal-intelectual de Nova York. Escreve para o New Yorker, apóia todas as causas corretas, freqüenta os cinemas de arte, almoça no Russian Tea Room e abomina a Califórnia. Mas, com a lúcida irreverência de um emigrado do Brooklyn, sabe que há mais pose do que conteúdo no estilo da ilha. Sabe que Nova York, como ele, consome cultura de segunda mão: o cinema — que não é feito lá — e o alto pensamento europeu. Por isto a sua técnica preferida é a paródia, a arte de segunda mão, uma maneira de reverenciar um estilo e destruí-lo ao mesmo tempo. Todos os filmes de Woody Allen até agora foram paródias, salvo o semiconfessional Noivo neurótico, noiva nervosa.
Em Cuca fundida, o primeiro livro de Woody Allen traduzido para o português (obrigado, L&PM), todos os textos são paródias. O cara, sabiamente escolhido como texto de abertura da edição em português — no original, se não me engano, era o último texto —, apresenta, combinadas, as técnicas favoritas de Allen, a paródia e a banalização do grande tema. No estilo de uma novela policial da década de 40, Allen conta a história do detetive particular contratado por uma loura estonteante para descobrir o paradeiro de Deus. No fim descobre que Deus está morto. A loura, uma catedrática de física disfarçada, o matou. Textos como Os róis de Metterling, A história de uma grande invenção, Como alfabetizar um adulto, Os anos 20 eram uma festa e Conversações com Helmholz são paródias de erudição.
Em A morte bate à porta, Allen transporta a velha imagem medieval do homem jogando a sua alma no xadrez com a morte, que Bergman usou no filme O sétimo selo, para um subúrbio da classe média de Nova York. Nat Ackerman joga biriba com a morte — e ganha. Contos hassídicos, Correspondência entre Gossage e Vardebian, Reflexões de um bem-alimentado, Conde Drácula e Viva Vargas são paródias de formas literárias. Allen faz um humor intelectualmente pretensioso, cujo alvo principal é a pretensão intelectual. Não pode errar.
A ideia de que Woody Allen não pode ser entendido como deve fora do contexto intelectual judeu nova-iorquino me parece tão falsa quanto a ideia, que felizmente até hoje ninguém defendeu, de que Kafka não significa nada fora do contexto intelectual judeu de Praga na sua época. Não que Allen seja comparável a Kafka. A tradição do stand-up comedian é mais forte nele do que qualquer sombria herança literária da Europa Central. Mas certamente ele pode ser lido com prazer onde quer que coisas como a pretensão intelectual e o absurdo — sem falar na morte, em Deus, no universo, no nada e “será que na eternidade se consegue mulher?” — ocupem a mente das pessoas.
A tradução de Ruy Castro não surpreende. Está perfeita.
Luís Fernando Veríssimo, in Banquete com os deuses

sábado, 25 de maio de 2019

Caetano Veloso - Lapa

No silêncio da noite

Sempre me impressionou esse estranho caso que acontece no silêncio da noite e no interior das enciclopédias: a promiscuidade forçada das personagens dos verbetes, as quais, sem querer, se encontram alfabeticamente lado a lado... Não fosse a minha salutar preguiça, eu escreveria um novo Dialogues des morts. Deixo aqui a ideia a quem quiser aproveitá-la.
Que diria, por exemplo, Napoleão a Nabucodonosor, que, se não me engano muito, é ainda por cima o único lobisomem que aparece na Bíblia... Em todo caso, o orgulho do Imperador ficaria por demais ferido com a total ignorância de seu vizinho de página a respeito de suas andanças através da História. Ainda mais danado ficaria ele se pudesse ver os filmes em que é apresentado como um baixinho irrequieto, nervosinho, de gestos súbitos, um garnisé petulante. Por ocultos motivos, parece que é moda denegrir Napoleão entre os cineastas franceses. Isto apesar de os burgueses de França terem ficado seduzidos, até hoje, com as fitinhas da Legião de Honra, que ele, maliciosamente, criou exatamente para os civis — o que ainda agora o deve divertir muitíssimo.
Mas por que diabo foi ele vender a Louisiana aos Estados Unidos? Não fora isto, poderia transportar, depois de Waterloo, a sede do Governo para o Novo Mundo — como fez Dom João VI ao vir para o Brasil. Foi a mesma burrada (desculpem, não me ocorre no momento outra expressão), foi o mesmo, digo agora, que fez a Rússia ao vender o território do Alasca aos norte-americanos. Com que raiva não hão de pensar nisto os soviéticos, que, com um pé na América, aí sim, poderiam, literalmente falando, abarcar o mundo com as pernas. Mas, depois do que aconteceu, é tolice imaginar o que poderia não ter acontecido. Deixemos pois os guerreiros em imerecida paz e vamos falar daqueles cujo reino não é deste mundo.
Contudo, receio que Napoleão e Nabucodonosor não se estranhariam tanto como pessoas da mesma Era e da mesma Fé. Como Santa Teresa de Jesus, por exemplo, e Santa Teresinha do Menino Jesus, que se defrontam na mesma página. Deus me perdoe, mas creio até que o velho Teresão não daria importância àquela meiga menina, com suas chuvas de rosas... “Deixá-la falar! santinha de arrabalde...”
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

Ibn Sina, o teimoso

Leio – tento ler, no meu jeito torto e precário de leitor solitário – o Livro da alma, do filósofo persa Ibn Sina, conhecido no Ocidente como Avicena. O livro (editora Globo, tradução do árabe por Miguel Attié Filho) arrasta atrás de si uma longa tradição filosófica. Ibn Sina entrou para a história do pensamento como o homem que, na virada do século X para o século XI, lutou para reconciliar as duas grandes tradições do passado filosófico: a filosofia severa de Aristóteles e as ideias elevadas de Platão. É nesse vão estreito entre as duas grandes muralhas filosóficas que eu agora, leitor comum, me espremo e luto para ler. Mais ainda: luto para escrever.
Perfilando-se entre as duas tradições, e imitando os alquimistas, Sina concebeu uma versão abstrata da pedra filosofal, em que a filosofia, devorando as duas grandes árvores do passado, se endurece em princípios rígidos (de pedra) e reluz. Ela se torna, assim, uma síntese de tudo o que os homens, antes dela, chegaram a pensar. Sina foi um perseguidor do Um – a unidade salvadora, que amansa e disfarça as contradições. Ofereceu-se como uma espécie de grande sintetizador, na esperança de que na síntese (fusão dos contrários) chegasse, enfim, ao verdadeiro. Foi, não posso deixar de pensar, um homem que usou a filosofia para perseguir a ideia de Deus.
Ibn Sina escreve para pensar o funcionamento da alma e apontar o lugar que ela ocupa em nossa vida. Em outras palavras: escreve para classificar e adestrar o imaterial, que se caracteriza justamente por sua aversão a qualquer ordem. Seu esforço ainda hoje repercute: o mundo contemporâneo se origina justamente do congelamento e da consagração dessas duas tradições. De um lado, o desejo de perfurar o real, de obturar seus vazios, de fatiá-lo com a lâmina do pensamento, para emprestar-lhe uma classificação e uma ordem – Aristóteles. De outro, o desejo de elevá-lo, de repuxar suas fronteiras para o alto, de inundá-lo com a grande claridade das ideias – Platão.
Entre esses dois caminhos – que até hoje se desenrolam –, Ibn Sina oferece-se como o construtor de uma terceira via – impossível – de equilíbrio e inclusão. Ela se destina à cura da dor espiritual, tese que desenvolve em outro livro, batizado “A cura”. Aceitar o indizível, mas, ainda assim, insistir em nomeá-lo. Admitir a existência de uma grande escuridão, mas, mesmo assim, lutar para iluminá-la. Acolher o grande paradoxo que define o humano, mas, com devoção e teimosia, insistir em ordená-lo. Não foi pouco o que Sina tentou fazer.
Chego à literatura – que é sempre meu destino. Lendo Ibn Sina, acompanhando seu esforço desesperado para costurar o rombo que carregamos no peito, ocorre-me que, no mundo contemporâneo, este lugar terceiro é ocupado não por uma filosofia (uma síntese, em que Sina tanto acreditou), mas pela ficção (que é dispersão e fragmento). Nem a claridade cega (Aristóteles e suas classificações, de que derivam a ciência e a técnica) nem a elevação suntuosa (Platão e a alvorada das religiões monoteístas). Mas então o quê?
Imitando o pai que, em “A terceira margem do rio”, o relato genial de Rosa, pega sua canoa e nela se instala para isolar-se no coração de um rio (fluidez e mutação), a literatura oferece-se como o lugar por excelência do humano e da imperfeição. Instala-se como uma fronteira de precariedade e desamparo, sem nenhuma esperança de “solucionar” os grandes conflitos (ciente de que solução não há), resignada a contemplar (amar) o real naquilo que ele é. Não por desistência ou preguiça, mas porque sabe que nesta terceira margem o humano resiste.
Enquanto a literatura, desistindo do saber poderoso e da elevação, escolhe o centro do rio (água, imagem imperfeita e vacilante), Ibn Sina, em movimento oposto, deseja anular o rio ondulante, em eterno e desconhecido movimento – o rio ameaçador da vida contra o qual filosofia, religião e ciência se erguem. Lutando para sintetizar duas teorias da alma, Ibn Sina – arrisco-me a usar a palavra – comporta-se como um desalmado, que recusa e exclui a grande sujeira do humano. Sina, o teimoso, não desiste de buscar o que não há.
Agora eu – que vejo sempre a ficção espalhada por toda parte – leio (mais com meus defeitos do que com minha pequena lucidez) o esforço de Sina. E nele vejo, ao avesso, como um rio subterrâneo que escorre em silêncio, a imagem invertida da ficção. Nem perfuração nem elevação, mas acolhimento amoroso do que é. No lugar da pedra bem cortada dos sistemas, a beleza abstrata da respiração. Assim respiramos: primeiro puxamos o ar que nos mantém vivos, mas logo depois o expulsamos porque, retido no peito, ele pode matar. Ibn Sina não: tenta conservar para sempre o peito estufado com o ar filosófico. Crê que é preciso encher ainda mais esse pobre peito que sufoca. Quer Tudo. Aprisiona o diverso no saco do Um.
A ficção e a filosofia de Ibn Sina ocupam a mesma terceira margem que, no entanto, para cada uma delas é uma margem diferente. Ali onde a literatura acolhe e conduz o líquido benfazejo da dúvida, Ibn Sina – como um alfaiate metódico – costura a colcha do Um. Luta para cerzir com o fio do pensamento o rombo que define o humano. Sem esse rombo, porém, nada somos. Se Sina vencesse, em vez de alargar nossas almas, nós a perderíamos. Ali onde Ibn Sina retém e prende, a literatura descortina e rasga. Ficamos assim, de mãos vazias, mas cheias de desejo.
Entre os ideais elevados de Platão (perfeição) e as ideias bem afiadas de Aristóteles (técnica), entre um Platão que se assemelha a um profeta e um Aristóteles que joga de açougueiro, Ibn Sina se posta como uma sentinela, que zela pela porta de saída. Filosofou em um momento da história em que filosofia e ciência se misturavam. Escreveu na esperança de chegar a um grande oceano de ordem, no qual o rio do pensamento pudesse, enfim, desaguar. Pensou tê-lo vislumbrado. Enquanto isso, no meio do rio e desde os gregos, a ficção persiste. Não como solução ou salvação, mas como um reduto precário do humano.
José Castello, in Sábados inquietos

Calvin


Ignoramus

Os humanos procuram entender o universo pelo menos desde a Revolução Cognitiva. Nossos ancestrais dedicaram muito tempo e esforço a tentar descobrir as regras que governam o mundo natural. Mas a ciência moderna difere de todas as tradições de conhecimento anteriores em três aspectos cruciais:

a. A disposição para admitir ignorância: a ciência moderna se baseia na sentença latina ignoramus – “nós não sabemos”. Presume que não sabemos tudo. O que é ainda mais crucial, aceita que as coisas que achamos que sabemos podem se mostrar equivocadas à medida que adquirimos mais conhecimento. Nenhum conceito, ideia ou teoria é sagrado e inquestionável.
b. O lugar central da observação e da matemática: tendo admitido a ignorância, a ciência moderna almeja obter novos conhecimentos e o faz reunindo observações e então usando ferramentas matemáticas para relacionar essas observações em teorias abrangentes.
c. A aquisição de novas capacidades: a ciência moderna não se contenta em criar teorias. Usa essas teorias para adquirir novas capacidades e, em particular, para desenvolver novas tecnologias.

A Revolução Científica não foi uma revolução do conhecimento. Foi, acima de tudo, uma revolução da ignorância. A grande descoberta que deu início à Revolução Científica foi a descoberta de que os humanos não têm as respostas para suas perguntas mais importantes.
Tradições de conhecimento pré-modernas como o islamismo, o cristianismo, o budismo e o confucionismo afirmavam que tudo que é importante saber a respeito do mundo já era conhecido. Os grandes deuses, ou o Deus todo-poderoso, ou as pessoas sábias do passado detinham uma sabedoria universal, que revelavam a nós por meio de escrituras e tradições orais. Os meros mortais adquiriam conhecimento ao estudar tais tradições e textos antigos e entendê-los da maneira adequada. Era inconcebível que a Bíblia, o Corão ou os Vedas estivessem omitindo um segredo crucial do universo – um segredo que ainda pode vir a ser descoberto por nós, criaturas de carne e osso.
As antigas tradições de conhecimento só admitiam dois tipos de ignorância. Em primeiro lugar, um indivíduo podia ignorar algo importante. Para obter o conhecimento necessário, tudo que ele precisava fazer era perguntar a alguém mais sábio. Não havia necessidade de descobrir algo que qualquer pessoa já não soubesse. Por exemplo, se um camponês em alguma aldeia inglesa do século XIII quisesse saber como a raça humana se originou, ele presumia que a tradição cristã tinha a resposta definitiva. Tudo que precisava fazer era perguntar ao padre local.
Em segundo lugar, uma tradição inteira podia ignorar coisas sem importância. Por definição, o que quer que os grandes deuses ou os sábios do passado não tenham se dado ao trabalho de nos contar não era importante. Por exemplo, se nosso camponês inglês quisesse saber como as aranhas tecem suas teias, não fazia sentido perguntar ao padre, porque não havia resposta a essa pergunta em nenhuma das escrituras cristãs. Isso não significava, entretanto, que o cristianismo fosse falho. Ao contrário, significava que entender como as aranhas tecem suas teias não era importante. Afinal, Deus sabia perfeitamente bem como as aranhas fazem isso. Se fosse uma informação vital, necessária para a prosperidade e a salvação humana, Deus teria incluído uma explicação detalhada na Bíblia.
O cristianismo não proibia as pessoas de estudarem as aranhas. Mas os estudiosos de aranhas – se é que houve algum na Europa medieval – tinham de aceitar seu papel periférico na sociedade e a irrelevância de suas descobertas para as verdades eternas do cristianismo. Não importa o que um estudioso descobrisse sobre aranhas, borboletas ou tentilhões das Galápagos, esse conhecimento era quase trivial, sem qualquer influência sobre as verdades fundamentais da sociedade, da política e da economia.
Na realidade, as coisas nunca foram assim tão simples. Em todas as épocas, até mesmo nas mais devotas e conservadoras, houve pessoas que afirmaram que havia coisas importantes que sua tradição inteira ignorava. Mas tais pessoas geralmente eram marginalizadas ou perseguidas – ou então fundavam uma nova tradição e começavam a afirmar que elas sabiam tudo o que há para saber. Por exemplo, o profeta Maomé iniciou sua trajetória religiosa condenando seus colegas árabes por viverem na ignorância da verdade divina. Mas logo o próprio Maomé começou a afirmar que ele conhecia toda a verdade, e seus seguidores passaram a chamá-lo de “O Último dos Profetas”. Daí em diante, não havia necessidade de revelações além daquelas feitas a Maomé.
A ciência de nossos dias é uma tradição de conhecimento peculiar, visto que admite abertamente a ignorância coletiva a respeito da maioria das questões importantes. Darwin nunca afirmou ser “O Último dos Biólogos” e ter decifrado o enigma da vida de uma vez por todas. Depois de séculos de pesquisas científicas, os biólogos admitem que ainda não têm uma boa explicação para como o cérebro gera consciência. Os físicos admitem que não sabem o que causou o Big Bang, ou como conciliar a mecânica quântica com a Teoria Geral da Relatividade.
Em outros casos, teorias científicas concorrentes são alvo de debate acalorado com base no surgimento constante de novas evidências. Um bom exemplo são os debates sobre como gerenciar melhor a economia. Embora os economistas possam afirmar que seu método é o melhor, a ortodoxia muda a cada crise financeira e a cada bolha na bolsa de valores, e é amplamente aceito que a palavra final em economia ainda está para ser dita.
Em outros casos ainda, teorias específicas estão corroboradas de maneira tão consistente pelas evidências disponíveis que todas as alternativas foram há muito abandonadas. Tais teorias são aceitas como verdades – mas todos concordam que, se surgissem novas evidências contradizendo tais teorias, estas teriam de ser revisadas ou descartadas. Bons exemplos de teorias desse tipo são a teoria das placas tectônicas e a teoria da evolução.
A disposição para admitir ignorância tornou a ciência moderna mais dinâmica, versátil e indagadora do que todas as tradições de conhecimento anteriores. Isso expandiu enormemente nossa capacidade de entender como o mundo funciona e nossa habilidade de inventar novas tecnologias, mas nos coloca diante de um problema sério que a maioria dos nossos ancestrais não precisou enfrentar. Nosso pressuposto atual de que não sabemos tudo e de que até mesmo o conhecimento que temos é provisório se estende aos mitos partilhados que possibilitam que milhões de estranhos cooperem de maneira eficaz. Se as evidências mostrarem que muitos desses mitos são duvidosos, como manter a sociedade unida? Como fazer com que as comunidades, os países e o sistema internacional funcionem?
Todas as tentativas modernas de estabilizar a ordem sociopolítica não tiveram outra escolha senão confiar em um de dois métodos não científicos:

a. tomar uma teoria científica e, em oposição a práticas científicas comuns, declarar que é uma verdade final e absoluta. Esse foi o método usado por nazistas (que afirmaram que suas políticas raciais eram corolários de fatos biológicos) e comunistas (que afirmaram que Marx e Lenin haviam revelado verdades econômicas que jamais poderiam ser refutadas);
b. deixar a ciência fora disso e viver de acordo com uma verdade absoluta não científica. Essa tem sido a estratégia do humanismo liberal, que se baseia em uma crença dogmática nos direitos e no valor singular dos seres humanos – uma doutrina que tem embaraçosamente pouco em comum com o estudo científico do Homo sapiens.

Mas isso não deveria nos surpreender. Até mesmo a própria ciência tem de se apoiar em crenças ideológicas e religiosas para justificar e financiar suas pesquisas.
A cultura atual, entretanto, tem mostrado muito mais disposição para abraçar a ignorância do que qualquer cultura anterior. Uma das coisas que tornaram possível que as ordens sociais modernas se mantenham coesas é a disseminação de uma crença quase religiosa na tecnologia e nos métodos da pesquisa científica, que, em certa medida, substituíram a crença em verdades absolutas.
Yuval Noah Harari, in Sapiens: uma breve história da humanidade

A vez dos ferreiros

Dentro do Partido Antissituação surgiu a ideia de se criar outro partido, que seria, digamos, o Partido dos Ferreiros, por serem os ferreiros, como se sabe, classe até agora sem representação política.
Os ferreiros são o sustentáculo da nação. Sem eles não haveria o ferro trabalhado e convertido em inúmeros objetos da maior serventia, inclusive as ferraduras para cavalos, esses animais de que não podemos prescindir para as corridas de obstáculos e outras. Vamos fundar o Partido Ferreiral Copaibano — propôs um orador.
Partido Ferreirista Copaibano é que deve ser — aparteou outro prócer, e saiu na disparada para registrar a sigla PFC, comum aos dois projetos.
O partidário do Ferreiral saiu-lhe na cola, e os dois chegaram ao local desejado com cinco minutos de diferença entre um e outro. O oficial de registros partidários, vendo ambos bem vestidos e com as mãos primorosamente limpas, indagou:
Qual dos senhores é ferreiro?
Ao que responderam a una voce:
E precisa?
Carlos Drummond de Andrade, in Contos Plausíveis

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Construção - Chico Buarque

O universo: uma orquestra

Os filósofos antigos e Kepler achavam que o universo era uma orquestra tocando música, cada astro era uma esfera sonora. Achavam também que a função da ciência era encontrar meios para escrever a partitura divina de forma que ouvidos mortais a pudessem ouvir, música que Deus estava tocando desde a Criação, como um cânon sem fim, girando sempre, girando sempre. A Igreja acreditava já ter encontrado essa música: era o canto gregoriano. E eu me sinto tentado a acreditar, seduzido que estou pelos maravilhosos hinos pré-gregorianos, do CD Officium, com Jan Garbarek e o Hilliard Ensemble (ECM Records). “Cada organismo é uma música que se toca...”
O corpo é um instrumento, piano, hardware de carne e osso no qual um software musical foi instalado. A alma é um buraco escuro onde moram músicas. Não tem importância que seja escuro. Para se ouvir música bem é bom ter os olhos fechados. Disse “piano”, mas poderia ter dito flauta, violino, viola de dez cordas, rabeca de artesão caipira, ou bateria...
Milan Kundera, especialista em estórias de amor, disse que assim é feita a vida, “composta como uma partitura musical. O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, toma o acontecimento fortuito e o transpõe musicalmente, para fazer dele um tema que, em seguida, fará parte de sua própria vida. Voltará ao tema, repetindo-o, modificando-o, desenvolvendo-o e transpondo-o, como faz um compositor com os temas da sua sonata. O homem inconscientemente compõe a sua vida segundo as leis da beleza, mesmo nos instantes do mais profundo desespero”.
Rubem Alves, in Variações sobre o prazer

A Arte de Van Gogh

Um par de botas (1886), de Vincent Van Gogh

Engenhoca

De uma cabeça vazia
A poesia não salta,
Falta a mola paradigmática,
Enigmática engenhoca seletora,
Autora das possibilidades frasais,
Nasais, orais, escritas… não importa.
A porta linguisticamente se abrirá
Para os desfiles das palavras…
Escravas, obedecendo a ordem correta
Da reta do eixo sintagmático,
Enfático, para subverter o pragmático.
Marcos Cavalcanti, poeta de Santa Cruz - RN

Verdade

A verdade é o sapato sem sola de quem não sabe mentir.”
José Eduardo Agualusa, in Teoria Geral do Esquecimento

O ópio

Tinha ruas inteiras dedicadas ao ópio... Sobre estrados baixos estendiam-se os fumadores... Eram os verdadeiros lugares religiosos da Índia... Não tinham nenhum luxo, nem tapetes, nem coxins de seda... Tudo eram madeiras sem pintar, cachimbos de bambu e almofadas de louça chinesa... Emanava um ar de decoro e austeridade que não existia nos templos... Os homens adormecidos não faziam movimento nem ruído... Fumei um cachimbo... Não era nada demais... Era só um fumo caliginoso, fraco e leitoso... Fumei quatro cachimbos e fiquei cinco dias doente, com náuseas que me vinham da espinha dorsal e que me desciam do cérebro... E um ódio ao sol e à existência... O castigo do ópio... Mas aquilo não podia ser tudo... Tanto se tinha dito, tanto se tinha escrito, tanto se tinha metido nas maletinhas e nas maletas, tratando de esconder das aduanas o veneno, o famoso veneno sagrado. Tinha que vencer o asco... Devia conhecer o ópio, saber do ópio, para dar meu testemunho... Fumei muitos cachimbos até que conheci... Não há sonhos, não há imagens, não há paroxismo... Há um enfraquecimento melódico, como se uma nota infinitamente suave se prolongasse na atmosfera... Um desvanecimento, um vazio dentro da gente... Qualquer movimento do cotovelo, da nuca, qualquer som distante de carro, uma buzina ou um grito na rua se integram num todo, de uma delícia recusante... Compreendi por que os peões de plantação, os jornaleiros, os rickshamen que puxam o ricksha o dia inteiro, logo se deixavam ficar ali, na penumbra, imóveis... O ópio não era o paraíso dos exóticos que me haviam pintado, mas a fuga dos explorados... Todos aqueles do salão de fumar eram pobres-diabos... Não tinha nenhum coxim bordado, nenhum indício da menor riqueza... Nada brilhava no recinto, nem sequer os olhos semicerrados dos fumadores... Descansavam, dormiam?... Nunca soube... Ninguém falava... Ninguém falava nunca... Não havia móveis, tapetes, nada... Sobre os estrados gastos, polidos de tanto contato humano, viam-se pequenas almofadas de madeira... Nada mais a não ser o silêncio e o aroma do ópio, estranhamente repulsivo e poderoso... Sem dúvida existia ali um caminho para o aniquilamento... O ópio dos magnatas, dos colonizadores, destinava-se aos colonizados... Os salões de fumar tinham à porta sua licença autorizada, seu número e sua patente... No interior reinava um grande silêncio opaco, uma inação que amortecia a desdita e tornava doce o cansaço... Um silêncio caliginoso, sedimento de muitos sonhos truncados que achavam seu remanso... Aqueles que sonhavam com os olhos entrecerrados estavam vivendo uma hora submersos sob o mar, uma noite inteira em uma colina, gozando de um repouso sutil e deleitoso... Desde então não voltei mais aos salões de fumar... Já sabia... Já conhecia... Já tinha apalpado algo inatingível... remotamente oculto atrás do fumo…
Pablo Neruda, in Confesso que vivi