quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Vanessa Da Mata - Vá pro Inferno Com Seu Amor

Um momento de desânimo

Em algum ponto deve estar havendo um erro: é que ao escrever, por mais que me expresse, tenho a sensação de nunca na verdade ter-me expressado. A tal ponto isso me desola que me parece, agora, ter passado a me concentrar mais em querer me expressar do que na expressão ela mesma. Sei que é uma mania muito passageira. Mas, de qualquer forma, tentarei o seguinte: uma espécie de silêncio. Mesmo continuando a escrever, usarei o silêncio. E, se houver o que se chama de expressão, que se exale do que sou. Não vai mais ser: “Eu me exprimo, logo sou”. Será: “Eu sou, logo sou”.
Clarice Lispector, in A descoberta do mundo

Sabedoria

Com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos quarenta anos de vida, aprender a ficar calado.”
Millôr Fernandes

Copa 1958


Antes de 1958, Ari Barroso implicava muito com o futebol do Garrincha.
Dum episódio característico me lembro muito bem. Ari transmitia na tevê um jogo do Botafogo e dizia pausado: “Garrincha com a bola. Vai driblar. É claro. Vai driblar de novo. Vai perder a bola. Olha ali, um saçarico pra cá, outro pra lá. Garrincha passa pelo adversário. Assim também não é possível. Vocês estão vendo? Garrincha vai driblar de novo. Vai perder. Por que ele não centrou logo? Claro que vai perder. Gol de Garrincha.” A última frase veio seca e mal-humorada: também o Mi fora driblado lá na tribuna.
Principalmente por causa de Garrincha, ele e eu pegávamos discussões animadíssimas, que não só acabavam alegremente: já eram entremeadas de brincadeiras. Uma vez, no aceso da paixão, apelei para a linha dura e lhe disse a sentença fatal: “Você não entende nada de futebol!” Mi, apanhado de surpresa, achou engraçadíssima minha (falsa) opinião e ficou sacudido por tremores de riso durante mais de meia hora.
Aí veio a Copa da Suécia. Ouvi as irradiações num bar de Ipanema na companhia de amigos. Ari ainda não dera as caras. João Condé, tendo aparecido apenas no jogo com a Inglaterra (0 a 0), fora proibido de voltar. Terminada a partida com os suecos... Bem, não é difícil imaginar. Um senhor desconhecido, que ouvira o jogo a suar frio e extremamente pálido, como se fora ao vivo a descrição do Apocalipse, continuava em transe, hirto e bestificado, enquanto a turma o arrastava como um robô pela dança carnavalesca e enfiava-lhe pela boca paralisada grandes goladas de uísque. Darwin Brandão parou o bonde no peito e ofereceu uísque a motorneiro, condutor e passageiros. Os dois primeiros desceram para a confraternização, mas recusando a bebida: já vinham do Bar Vinte com uma garrafa de pinga. Mal terminado o jogo (tudo acontece em Ipanema), surgiu também no bar uma duquesa da França.
Uma duquesa no duro, dessas que ainda têm castelo, e cujos antepassados foram protegidos ou perseguidos por Luís XI. Chegara há pouco tempo da França e não falava português. Mas o repórter Nestor Leite, também conhecido por Boca Negra, há muitos anos que “tribo” na Amazônia e se instalou no Rio. Nestor entendeu perfeitamente o que a duquesa dizia: tinha torcido pela França, évidemment, évidemment... Tendo a França perdido, passara a torcer pelo Brasil, évidemment... Nestor abraçou a duquesa com uma ternura derramada de gratidão e comandou imediatamente uma champanha. A duquesa afirmou com veemência que preferia um chope, e todos nós acreditamos, menos o Nestor. Veio a champanha, muito nacional e meio morna, sempre sob os protestos da elegante e simpática duquesa.
Não sei se o leitor se lembra duma fabulosa champanha que jorra numa cena do filme Les Enfants du Paradis. Pois a do Nestor foi muito mais fabulosa: jorrou com uma força de jato de poço de petróleo, e inundou os cabelos tratados, o vestido de seda, a alma nobre da duquesa. Foi uma festa. Raimundo Nogueira, Haroldo Barbosa e Fernando Lobo tinham fugido da raia, por prudência de ordem coronária, e pescavam sem rádio na Barra da Tijuca. Ouvindo o foguetório, vieram em desabalada para Ipanema. Invadiram o bar com quilos de talco (reminiscência do carnaval pernambucano).
Uma cortina branca envolvia tudo e todas as pessoas quando ouvi uma voz que vinha da porta a clamar meu nome e sobrenome. Era o Ari, que continuou à porta gesticulando.
Atenuada a cerração de talco, vi que a sua expressão era dessa rara plenitude que limpa do rosto humano o desencanto, a decepção, o medo.
Ainda na porta, ele gritava para mim, escandindo as sílabas a seu modo: - Estou aqui para penitenciar-me! É o maior! É o maior! Que beleza, meu Deus! Que beleza! O Garrincha é o maior gênio que já houve neste país! Que beleza! Que beleza!!
Paulo Mendes Campos, in O gol é necessário

Trauma

Pais separados, o Artur, 12 anos, vivia com a mãe e passava os fins de semana com o pai. Quando chegava à casa do pai era submetido a um interrogatório. Sempre.
Como é que está sua mãe?
Sua mãe fala muito em mim?
Sua mãe arranjou namorado?
Ou:
Sua mãe tem visto alguém?
Quando voltava da casa do pai no domingo à noite, era submetido a outro interrogatório.
Como é que está o seu pai?
Seu pai fala em mim?
Seu pai está com alguma namorada?
Ou:
Seu pai está saindo com alguém? Saco.

* * *
Um dia a mãe disse para o Artur dizer ao seu pai que precisava falar com ele. Que quando ele trouxesse o Artur no domingo à noite era para entrar. Para conversarem. O pai achou ótimo. Também precisava conversar com a ex-mulher.
No domingo o pai entrou, a mãe mandou o Artur ir tomar banho, e antes que o pai pudesse se sentar, declarou:
Assim não vai dar, Gilson.
O quê?
Assim o Artur não vai poder continuar indo à sua casa.
Assim como?
Aquilo não é ambiente pra ele.
Por quê?
Ele me contou. Primeiro tentou esconder, mas eu apertei e ele acabou contando tudo.
Tudo o quê?!
As duas loiras. O hóspede travesti. As pílulas. Como é que você pôde, Gilson? Com o seu filho dentro de casa!
Peraí. Peralá. Que história é essa? Duas loiras? Travestis? Pílulas?
É. E ele vendo tudo.
Ele não viu nada!
É o que você pensa. Viu tudo. Me descreveu até as loiras. Uma magra, a outra mais cheinha. E as tatuagens do travesti. Ficou traumatizado.
Ele não viu nada porque não havia nada pra ver. É tudo invenção dele.
Por que o Artur iria inventar uma coisa dessas?
Não sei. Talvez por trauma, com o que ele tem visto aqui.
Aqui?!
É. O que ele ouve a noite inteira, quando seu namorado fica pra dormir.
Que namorado?!
Sei até o nome dele. Carlos Augusto. E que tem a metade da sua idade.
Ó Gilson, então você acha que eu... Isso é pura invenção do Artur!
Será? Ele me deu detalhes bem precisos. E do outro também.
Outro?!
Um que ele não sabe se é chinês ou japonês, e que leva uma malinha preta quando vocês vão pro quarto.
Artur! Venha cá!

* * *
Artur teve que pedir desculpas, mas deu resultado. Os interrogatórios acabaram. Hoje, de vez em quando, a mãe ainda começa a perguntar:
Seu pai...
Uma ruiva chamada Anabela e duas policiais militares.
Não. Sério, Artur.
Eu estou sendo sério.
A mãe ri e comenta: “Que imaginação.” Depois fica pensando: “E se for verdade?” Mas não pergunta mais nada.
O pai também tenta se controlar, mas às vezes não aguenta.
Sua mãe...
Agora anda com uma moça que parece homem, chamada Castro.
Não brinque com essas coisas, meu filho.
Eu não estou brincando.
O pai sacode a cabeça e ri, e pensa, “Esse garoto ainda vai nos sair um escritor...” E depois: “E se for verdade?” Mas não pergunta mais nada.
Luís Fernando Veríssimo, in Amor Veríssimo

A dor da ausência fica mais pequena

Quando vejo que meu destino ordena
Que, por me experimentar, de vós me aparte,
Deixando de meu bem tão grande parte,
Que a mesma culpa fica grave pena,

O duro desfavor, que me condena,
Quando pela memória se reparte,
Endurece os sentidos de tal arte
Que a dor da ausência fica mais pequena.

Mas como pode ser que na mudança
Daquilo que mais quero, este tão fora
De me não apartar também da vida?

Eu refrearei tão áspera esquivança,
Porque mais sentirei partir, Senhora,
Sem sentir muito a pena da partida.
Luís Vaz de Camões

Alpha - Trailer Legendado

O crepúsculo

[Junto ao mastro principal; Starbuck apoiando-se nele.]
Minha alma foi mais do que desafiada; foi subjugada; e por um louco! Oh, tormento insuportável, ter a sanidade de depor as armas em tal campo! Mas ele penetrou até o fundo e me despojou de toda a razão! Creio compreender seu objetivo ímpio, mas sinto também que devo ajudá-lo. Queira ou não, algo inexprimível uniu-me a ele; reboca-me com um cabo que com nenhuma faca consigo cortar. Velho horroroso! Quem está acima dele, ele brada a si mesmo; – sim, seria um democrata em relação a seus superiores; mas veja como domina todos os que estão abaixo! Oh! Vejo claramente meu triste papel – obedecer, revoltado; e pior ainda, odiar com um toque de compaixão! Porque em seus olhos vejo uma desgraça sombria, que me destruiria, caso a sentisse. Mas ainda há esperança. Mar e dia me são guias. Aquela baleia odiada tem toda a circunferência do mundo das águas para nadar, como o peixinho dourado tem o seu aquário. Seu propósito ofensivo aos céus, Deus ainda pode extirpá-lo. Esta ideia elevaria meu coração, se não estivesse pesado como chumbo. Mas todo o meu relógio está parado; meu coração, pêndulo que tudo regula, não tenho o estímulo para dar-lhe novo impulso.
[Ouve-se um barulho de festa no castelo de proa.]
Ai, meu Deus! Navegar com uma tripulação pagã, que dá tão poucas mostras de ter tido uma mãe! Paridos em um lugar qualquer deste mar de tubarões. A Baleia Branca é sua rainha demoníaca. Ouçam! As orgias infernais! A festa está à frente! Observem o silêncio absoluto à popa! Creio ser um retrato da vida. À frente, no mar radiante, a proa avança alegre, divertindo-se, pronta para o combate, mas apenas para arrastar o sombrio Ahab atrás dela, onde fica ruminando, em sua cabine na popa, construída sobre o rastro de água morta e, além disso, assombrada por barulhos ferozes. O infindável uivo me dá calafrios! Silêncio! Vocês, foliões, não se esqueçam da vigília! Ai, vida! É numa hora dessas, quando a alma abatida se torna mais perspicaz – que somos obrigados a aceitar as coisas desordenadas e descomedidas – Ai, vida! É agora que sinto seu horror latente! Mas não sou eu! Esse horror está fora de mim! Com os sentimentos humanos que estão em mim, vou tentar lutar contra vocês, sombrios, fantasmagóricos acontecimentos futuros! Ó! Fiquem ao meu lado, me deem amparo, me protejam, influências abençoadas!
Herman Melville, in Moby Dick

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

À luta!

Não vos aconselho o trabalho, mas a luta. Não vos aconselho a paz, mas a vitória! Seja o vosso trabalho uma luta! Seja a vossa paz uma vitória!”

Friedrich Nietzsche, in Assim falava Zaratustra

Recorrer à lógica

Vejamos, que vem a ser isto que me perturba?”, perguntou Levine a si próprio, sentindo, no fundo da sua alma, a solução para as suas dúvidas, embora ainda não soubesse qual fosse. “Sim, a única manifestação evidente e indiscutível da divindade está nas leis do bem, expostas ao mundo pela revelação que sinto dentro de mim e me identifica, quer queira quer não, com todos aqueles que como eu as reconhecem. É esta congregação de criaturas humanas comungando na mesma crença que se chama Igreja. Mas os judeus, os muçulmanos, os budistas, os confucionistas?”, disse para si mesmo, repisando o ponto delicado. “Estarão eles entre milhões de homens privados do maior de todos os benefícios, do único que dá sentido à vida?... Ora vejamos”, continuou, após alguns instantes de reflexão, “qual é o problema que eu a mim mesmo estou a pôr? O das relações das diversas crenças da humanidade com a Divindade? É a revelação de Deus no Universo, com os seus astros e as suas nebulosas, que eu pretendo sondar. E é no momento em que me é revelado um saber certo inacessível à razão que eu me obstino em recorrer à lógica!”
Eu bem sei que as estrelas não caminham”, prosseguiu, notando a mudança que se operara na posição de um planeta que subia por detrás de uma bétula. No entanto, incapaz de imaginar a rotação da Terra, ao ver as estrelas mudarem de lugar, tenho razão quando digo que elas caminham. Teriam os astrônomos chegado a compreender tudo isto, teriam chegado a calcular alguma coisa se porventura houvessem tomado em consideração movimentos da Terra tão variados e complicados? As surpreendentes conclusões a que eles chegaram sobre a distância, o peso, o movimento e as revoluções dos corpos celestes não terão por ponto de partida os movimentos aparentes dos astros em torno da Terra imóvel, estes mesmos movimentos de que eu sou testemunha, como milhões de homens o foram e o serão durante séculos e que sempre podem vir a ser verificados? Pela mesma razão que as conclusões dos astrônomos seriam vãs e inexatas se não fossem deduzidas das observações do céu aparente, em relação a um único meridiano e a um único horizonte, também as minhas deduções metafísicas se veriam privadas de sentido se eu as não fundamentasse neste conhecimento do bem inerente ao coração de todos os homens e de que eu tive, pessoalmente, a revelação, graças ao cristianismo, e que sempre me será dado verificar na minha alma. As relações das outras crenças com Deus continuarão para mim insondáveis, e eu não tenho direito de as perscrutar.
(...) “Este segredo só tem importância para mim, e palavra alguma o poderia explicar. Este novo sentimento não me modificou, não me deslumbrou, nem me tornou feliz, como eu supunha. Sucedeu a mesma coisa com o amor paternal, que não foi acompanhado de surpresa ou de deslumbramento. Devo chamar-lhe fé? Não sei. Sei apenas que me penetrou na alma através do sofrimento e nela se implantou com toda a firmeza. Continuarei, sem dúvida, a impacientar-me com o meu cocheiro Ivan, a discutir inutilmente, a exprimir mal as minhas próprias ideias. Sentirei sempre uma barreira entre o santuário da minha alma e a alma dos outros, mesmo a da minha própria mulher. Sempre tornarei Kitty responsável dos meus terrores, arrependendo-me logo em seguida. Continuarei a rezar sem saber porque rezo. Que importa! A minha vida não estará mais à mercê dos acontecimentos, cada minuto da minha vida terá um sentido incontestável. Agora possuirá o sentido indubitável do bem que eu sou capaz de difundir!”
Leon Tolstoi, in Ana Karenina

Zelito Coringa - Romance de Cordel

O pai e um violinista

Para Susana Scramim

I
No romance Paradiso, o grande escritor cubano José Lezama Lima diz que um ser humano só começa a envelhecer depois da morte do pai. Freud atribui a essa morte um dos grandes traumas de um filho.
Quem já perdeu um pai sabe disso e sente essa ausência com pesar. Aos poucos surgem lembranças de imagens e vozes que a língua portuguesa resume numa palavra intraduzível: saudade.
A amizade e a cumplicidade prevalecem sobre as discussões, discórdias e outras asperezas de uma relação às vezes complicada, mas sempre profunda. Às vezes você lamenta não ter conversado mais com o seu pai, não ter convivido mais tempo com ele. E essas lacunas jamais serão preenchidas, nem mesmo no divã das demoradas sessões de análise. No outro lado do espelho não há mais nada, apenas silêncio e lembranças.

II
Mas há também pais terríveis, opressores e tirânicos na vida e na literatura. Carta ao pai, de Franz Kafka, é um dos exemplos notáveis do pai castrador, que interfere nas relações amorosas e na profissão do filho. Um pai que não se conforma com um grão de felicidade do jovem Franz. A Carta é o inventário de uma vida infernal. É difícil saber até que ponto o pai de Kafka na Carta é totalmente verdadeiro. Pode ser uma construção ficcional ou um pai figurado, mais ou menos próximo do verdadeiro. Mas isso atenua o sofrimento do narrador? O leitor acredita na figuração desse pai. Em cada página, o que prevalece é uma alternância de sofrimento e humilhação, imposta por um homem prepotente e autoritário.

III
Na minha juventude conheci alguns pais demoníacos, que oprimiam seus filhos, pensando que os educavam. Quando eu terminava o curso de arquitetura e urbanismo na USP, o pai de um amigo me chamou para uma conversa formal. Perguntei qual era o assunto.
Meu filho”, respondeu.
Ele queria que eu convencesse o filho a abandonar a música para se tornar um grande arquiteto.
Argumentei que o meu amigo nunca ia ser arquiteto, nem talentoso nem medíocre. Ele tinha talento para música, ia abandonar a faculdade para ser violinista. Acrescentei que o meu caso era semelhante: eu estudava arquitetura, já trabalhava no escritório de um arquiteto, mas esta não seria minha profissão.
Dois idiotas, você e meu filho”, disse o pai. “Vão morrer de fome.”
Um artista da fome é o título de outro grande relato de Kafka. Ainda vejo aquele pai enfurecido e atormentado que tentou por todos os meios sufocar o desejo e o talento de seu filho.
Lembro que meu amigo rompeu com o seu pai e viajou para a Alemanha, onde tentou aprofundar seus estudos em música instrumental. Naquela época eu morava na França, e, quando soube que ele estava doente, fui visitá-lo. Para sobreviver, havia trabalhado com instalação hidráulica, pois era cobra nessa disciplina ministrada por um professor da Escola Politécnica que apavorava os estudantes da FAU.
Ganho dinheiro como operário”, ele me disse. “Mas tive que parar de trabalhar. Não tenho mais força…”
E o teu pai?”, perguntei.
Não fala comigo há quatro anos.”
Estava fraco e deprimido. Parecia a pessoa mais triste do mundo. Ele me deu a impressão de que não era um expatriado, e sim um exilado, um ser banido de seu país e de sua família. Falou no desejo de reconciliar-se com o pai e perguntou se eu poderia ajudá-lo.
Telefonei para São Paulo, ouvi um sermão e desliguei.
Meu amigo morreu ainda jovem, sem realizar o desejo de reconciliação com um homem que podia ser tudo, menos generoso.

IV
A vida é sempre mais complexa e imprevisível do que a literatura. O encontro aconteceu numa praça de São Paulo. Por ironia, eu passeava com o meu filho, que se afastou de mim e parou diante de um velho sentado num banco de madeira. Sozinho, entre uma estátua e um cachorro. Eu me aproximei e reconheci o pai do meu amigo. Já não era — nem podia ser — o homem intransigente e ríspido que eu havia conhecido. Ele pôs a mão na cabeça da criança que o observava e demorou um ou dois minutos para reconhecer o pai do menino. Eu me lembrei da nossa conversa em algum dia de 1976. Quase ao mesmo tempo me lembrei do meu amigo, o violinista. Não sei o que aquele homem velho e abatido pensou enquanto me olhava. Nem soube decifrar no olhar o sentimento dele. Parecia um estranho.
De fato, éramos estranhos.
Fui embora de mãos dadas com a criança, pensando como a incompreensão ou a loucura de um pai pode abismar o destino de um filho.
Nunca mais vi aquele pai.
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Da verdade e da mentira

Muito tempo há que a mentira se tem posto em pés de verdade, ficando a verdade sem pés e com dobradas forças a mentira.”
Padre Antônio Vieira

Circo do miudinho

Ih, grilos. Os grilos, lícitos. Os grilos charivários. O grilo hortelão. O grilo agrícola. Os grilos — sempre por um triz! Os grilos tinem isqueiros. Os grilos, aí. O chirpio dos grilos. O trilo intranquilo. O milgrilejo, o miligril, a griloíce, o visgrilo (bisgrilo é a cantoria das cigarras). O impertinir. O esmeril do grilo. O outro e outro grilo. (Os grilos do mato são mais langorosos, têm habitat úmido. Esses, tocam viola.) O grilo, trogloditazinho trovador, rabeca às costas, sai de seu hipogeu, para vir comer as folhas da framboeseira. Aí, o grilo:
Isto é, ele se sai, muito vestido, de pé, de botas, é o grilo-de-botas, de mosqueteiro, fininhas plumas no chapéu, fininhos bigodes, e de espada à cinta, flanflim, só que inda traz, saindo-lhe dos cantos da boca, um pedacinho verde de folha — para de inofensivo se fingir, ou por descuido, ou vício, ou garbo de grilo. Fazia lua cheia, um luar desses, de todo o ar, o luar estava com tudo. A lua: Ó. O grilo olha para ela. Diz, mão à ilharga, cofiando antenas, o grilinho:
A lua, hem... Saudade de quem?
Guimarães Rosa, in Ave, palavra

domingo, 10 de dezembro de 2017

A senhorita bisturi

Ao chegar ao fim do arrabalde, sob os clarões do gás, senti um braço passar devagarinho debaixo do meu, e ouvi uma voz dizer-me ao ouvido: — O sr. é médico? Voltei-me e vi uma moça alta e robusta, olhos arregalados, semiuniformizada, cabelos flutuando ao vento com as fitas do boné.
Não, não sou. Deixe-me passar.
Oh! Sim! O sr. é médico! Vejo bem que o é. Venha comigo. Garanto que ficará contente. Venha! Que diabo! Mais tarde, depois do médico, irei vê-lo.
E, sempre dependurada no meu braço e rebentando-se de rir: — Hahaha! O sr. é um médico muito tapeador. Conheço vários assim. Vamos! Eu sempre tive uma grande paixão pelo mistério, nunca perdendo a esperança de desvenda-lo. Deixei-me, por isso, arrastar por essa companheira, ou antes, por esse enigma inesperado.
Vou omitir a descrição da choupana, que se poderia encontrar em uma porção de velhos poetas franceses bastante conhecidos. Somente dois ou três retratos de doutores célebres — detalhe que passou despercebido a Régnier — havia pendurados nas paredes.
Como fui bem tratado! Um grande fogo, vinho quente, charutos. Oferecendo-me essas coisas e acendendo também um charuto, dizia-me a engraçada criatura: — Aqui é como se estivesse em sua casa, meu amigo, esteja à vontade. Assim se lembrará do hospital e do bom tempo em que era moço. Onde arranjou esses cabelos brancos? O sr. não era assim, ainda não faz muito tempo, quando trabalhava como interno de L... Lembro-me de que era quem o assistia nas operações graves. Que homem para gostar de cortar, talhar, esgravatar! Era o sr. quem lhe entregava os instrumentos, os fios e as esponjas. E, feita a operação, com que orgulho ele dizia, puxando o relógio: “Cinco minutos, senhores!” Oh! Eu ando em toda parte. Conheço bem esses senhores! Instantes mais tarde, tratando-me por você, continuou com a mesma cantilena, dizendo-me: — Você é médico, não é, meu gatinho?
Esse ininteligível refrão fez-me saltar: — Não! — gritei, indignado.
Cirurgião, então?
Não, e não! Só se fosse para cortar a sua cabeça! Com mil diabos!
Espere e verá, — disse ela.
Tirou de um armário um maço de papéis, que não era outra coisa senão a coleção dos retratos dos médicos ilustres da época, litografados por Maurin, que durante muitos anos puderam ser vistos no cais Voltaire.
Pronto! Reconhece este?
Sim, é X. O nome está embaixo, aliás. Mas, eu o conheço pessoalmente.
Eu sabia! Veja! Aqui está o Z, aquele que dizia na aula, referindo-se a X: “Esse monstro traz no rosto o negrume que tem na alma!” Tudo isso porque o outro não era da opinião dele sobre um mesmo assunto! Como nos ríamos disso na Escola, naquele tempo! Lembra-se? Mais outro, veja: é o K, aquele que denunciava ao governo os revoltosos que tratava no hospital. Era uma época de levantes. Como se explica que um homem tão bonito fosse tão ruim? Veja agora o W, o famoso médico inglês; apanhei-o numa viagem a Paris. Tem um arzinho de mulher, não tem?
E como eu tocasse num pacote amarrado, que estava em cima de uma mesa, ela me disse: — Espere um pouco, esses são os internos. Estes aqui são os externos.
E arrumou em leque um maço de fotografias, representando caras muito moças.
Quando nos tornarmos a ver, você me dará o seu retrato, não é, querido?
Mas, — disse-lhe eu, seguindo por minha vez o curso de minha ideia fixa,
por que pensa que sou médico?
É porque você é tão gentil e tão bom para as mulheres!
Que lógica esquisita! — murmurei.
Oh! Não me engano, conheci uma porção. Gosto tanto desses homens que, embora eu não seja doente, costumo procurá-los, só pelo prazer de vê-los. Há os que me dizem friamente: “A senhora não tem nada!” Mas, há outros que me compreendem, porque os trato com carinho.
E quando não compreendem?
Ora! Quando os amolo inutilmente, deixo dez francos em cima do aquecedor. São tão bons e tão amáveis! Na Santa Casa, descobri um moço interno que é bonito como um anjo! Tão delicado! E como trabalha, o pobrezinho! Os companheiros dele me disseram que não tem um vintém, porque os pais são pobres e não podem mandar nada para ele. Isso me encorajou. Além disso, sou bonita, embora ainda muito moça. Eu lhe disse: “Vá me visitar, vá me visitar de vez em quando. Não se preocupe comigo, pois não preciso de dinheiro.” Mas, você compreende que lhe dei a entender isso com uma porção de rodeios, sem lhe dizer a coisa cruamente. Eu tinha tanto medo de humilhar o queridinho! Pois bem, acredita que tenho um desejo estranho que não me atrevo a dizer-lhe? Eu desejava que ele fosse visitar-me com a maleta e de avental, mesmo que estivesse um pouco sujo de sangue! Disse isso com um ar de ingenuidade, como um homem sensível diria a uma comediante que amasse: “Quero vê-la vestida com a roupa que trazia no famoso papel de sua criação!”
Obstinado, repliquei-lhe: — Não se recorda da época e da ocasião em que lhe nasceu essa paixão estranha?
Foi difícil fazer-me compreender. Afinal, quando o consegui, ela respondeu-me com um ar muito triste e, se não me engano, desviando o olhar: — Não sei... Não me lembro mais...
Que maravilhas não se encontram numa grande cidade, quando se sabe passear e observar? A vida regurgita de monstros inocentes.
Meu Deus! Vós, que sois o Criador, que sois o Soberano; vós, que fizestes a Lei e a Liberdade; vós, rei indulgente e juiz que perdoa; vós, que sois cheio de motivos e de causas e que talvez tenhais posto no meu espírito o prazer do horror para converter-me o coração, como a cura na extremidade de uma lâmina; tende piedade, Senhor, tende piedade dos loucos e das loucas! Poderão existir monstros aos olhos do Criador, que sabe por que eles existem, como foram feitos e como não poderiam deixar de ser feitos?
Charles Baudelaire, in Pequenos poemas em prosa

A brasilidade no traço de Portinari

Meninos brincando (1958), de Cândido Portinari

Local

De onde me viria
esta história de o amor
ser de partida?

E esta agonia,
o inquirir de cada olhar
o revés
do esquecimento?

Minha praia é esta
meu convés o litoral
eu sou a minha nau
e o meu descobrimento.

Eu não conheço a dor dos navegantes
nem as areias escaldantes
dos salvados do mar...

Se sou assim desde o primeiro dia
por que fugir de mim
em travessia?
Abel Silva

O subsolo - 1

Sou um homem doente... Sou mau. Não tenho atrativos. Acho que sofro do fígado. Aliás, não entendo bulhufas da minha doença e não sei com certeza o que é que me dói. Não me trato, nunca me tratei, embora respeite os médicos e a medicina. Além de tudo, sou supersticioso ao extremo; bem, o bastante para respeitar a medicina. (Tenho instrução suficiente para não ser supersticioso, mas sou.) Não, senhores, se não quero me tratar é de raiva. Isso os senhores provavelmente não compreendem. Que assim seja, mas eu compreendo. Certamente, não poderia explicar a quem exatamente eu atinjo, nesse caso, com a minha raiva; sei perfeitamente que, não me tratando, não posso prejudicar os médicos; sei perfeitamente bem que, com isso, prejudico somente a mim e a mais ninguém. Mesmo assim, se não me trato, é de raiva. Se o fígado dói, que doa ainda mais.
Faz muito tempo que vivo assim – uns vinte anos. Agora estou com quarenta. Antes eu trabalhava no serviço público, mas agora não trabalho mais. Fui um funcionário cruel. Era grosseiro e encontrava prazer nisso. Já que não aceitava propinas, devia me recompensar ao menos dessa maneira. (Isso foi um gracejo infeliz, mas não vou apagá-lo. Eu o escrevi pensando que ia sair algo muito espirituoso, mas agora, quando constatei que, de maneira infame, estava apenas querendo me vangloriar, de propósito não vou apagar.) Quando os solicitantes se aproximavam da minha mesa para pedir uma informação, eu rangia os dentes para eles e sentia um prazer infinito quando conseguia contrariar alguém. Quase sempre conseguia. Na maior parte, era gente tímida, como são de hábito os solicitantes. Mas, entre os almofadinhas, particularmente eu não podia suportar um certo oficial. Ele não queria de modo algum submeter-se e fazia tinir seu sabre de maneira asquerosa. Por causa desse sabre, nós estivemos em guerra durante um ano e meio. Ganhei, finalmente. Ele parou com os tinidos. Aliás, isso se passou ainda na minha mocidade. Mas sabem os senhores em que consistia o ponto principal da minha raiva? A questão toda, a minha maior canalhice, se resumia a que a todo momento, até no instante do ódio mais intenso, eu percebia, envergonhado, que não só não era mau, como não era nem mesmo uma pessoa enfurecida, apenas assustava pardais sem nenhum propósito e com isso me divertia. Minha boca espumava, mas se me trouxessem um brinquedinho ou um chazinho com açúcar, na certa eu me acalmaria. Ficaria até enternecido, embora depois, provavelmente, rangeria os dentes para mim mesmo e, de vergonha, passaria alguns meses com insônia. Esse é o meu jeito de ser.
Eu menti antes, quando disse que era um funcionário cruel. Menti de raiva. Apenas me divertia com os solicitantes e o oficial, mas no fundo nunca me tornei mau. Constantemente observava em mim uma enorme quantidade de elementos contrários a isso. Sentia-os fervilhar dentro de mim. Sabia que em toda a minha vida eles fervilharam dentro de mim e ansiavam por sair, mas eu não deixava. Não deixava, de propósito não os soltava. Eles me torturavam ao ponto de me dar vergonha; até convulsões eu tinha por causa deles – e finalmente fiquei farto. Como fiquei farto! Não lhes parece que agora estou me arrependendo de alguma coisa diante dos senhores, que estou a lhes pedir perdão? Estou certo de que parece... Aliás, asseguro-lhes que para mim tanto faz, se isso assim lhes parece...
Não apenas não consegui tornar-me cruel, como também não consegui me tornar nada: nem mau, nem bom, nem canalha, nem homem honrado, nem herói, nem inseto. Agora vivo no meu canto, provocando a mim mesmo com a desculpa rancorosa e inútil de que o homem inteligente não pode seriamente se tornar nada, apenas o tolo o faz. Sim, senhores, o homem do século XIX que possui inteligência tem obrigação moral de ser uma pessoa sem caráter; já um homem com caráter, um homem de ação, é de preferência um ser limitado. Essa é a minha convicção aos quarenta anos. Tenho agora quarenta. E quarenta anos é toda uma vida, é a velhice mais avançada. Depois dos quarenta é indecoroso viver, é vulgar, imoral! Quem vive além dos quarenta? Respondam-me sincera e honestamente. Pois vou lhes dizer quem vive: os tolos e os canalhas. Direi isso na cara de todos os anciãos, dos anciãos respeitáveis, perfumados e de cabelos brancos! Direi isso na cara de todo mundo! Tenho direito de dizer isso porque eu mesmo vou viver até os sessenta. Até os setenta! Até os oitenta! Esperem! Deixem-me tomar fôlego!
Acaso os senhores estão pensando que quero fazê-los rir? Enganaram-se também quanto a isso. Não sou absolutamente esse sujeito brincalhão que os senhores imaginam, ou que talvez os senhores imaginem. Aliás, se os senhores, irritados com toda esta tagarelice (e já senti que estão irritados), inventarem de me perguntar: quem é o senhor exatamente? – eu lhes responderei: sou um assessor colegial. Eu tinha esse emprego para ter alguma coisa para comer (mas somente para isso) e quando, no ano passado, um dos meus parentes distantes deixou-me seis mil rublos no seu testamento, imediatamente me aposentei e mudei para este canto. Meu quarto é detestável, nojento e fica quase fora da cidade. Já vivia aqui antes, mas agora me instalei definitivamente. Minha criada é uma mulher da aldeia, velha, raivosa devido à ignorância e, além de tudo, tem um fedor insuportável. Dizem que o clima de Petersburgo está se tornando prejudicial para mim e que, com os recursos insignificantes de que disponho, é muito caro viver aqui. Sei de tudo isso melhor do que esses conselheiros e protetores experientes e sábios. Mas permaneço em Petersburgo; não vou sair de Petersburgo! Não vou sair porque... Ora! Não faz diferença nenhuma se vou sair ou não.
Mas sobre o que um homem de bem pode falar com mais satisfação?
Resposta: sobre si mesmo.
Então, vou falar sobre mim.
Dostoiévski, in Notas do subsolo