domingo, 25 de setembro de 2016

Explode

explode 
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Só como processo

Julgar de acordo com o bem e o mal é o único método de viver. Mas não esquecer que se trata apenas de uma receita e de um processo. De um modo de não se perder na verdade, que esta não tem nem bem nem mal.
Clarice Lispector, in Aprendendo a viver

O que dói primeiro

todo urubu titia gritava
urubu urubu sua casa
tá pegando fogo
todo estrondo na rua
papai dizia eita porra
aposto qué bujão de gás
todo avião vovó acenava
é seu tio! desquentrou preronáutica
num tenho mais sossego
temi e ainda temo toda espécie
inflamável lamentei tanto urubu
desabrigado desejei o fim
da força aérea brasileira
só custei a entender mamãe
e o que queria dizer com seu irmão
não vem mais brincar com você
papai do céu levou.
Bruna Beber

Famigerado

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Ilustração: Viviane Fonseca

Foi de incerta feita — o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça? Eu estava em casa, o arraial sendo de todo tranquilo. Parou-me à porta o tropel. Cheguei à janela.
Um grupo de cavaleiros. Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente à minha porta, equiparado, exato; e, embolados, de banda, três homens a cavalo. Tudo, num relance, insolitíssimo. Tomei-me nos nervos. O cavaleiro esse — o oh-homem-oh — com cara de nenhum amigo. Sei o que é influência de fisionomia. Saíra e viera, aquele homem, para morrer em guerra. Saudou-me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida.
Nenhum se apeava. Os outros, tristes três, mal me haviam olhado, nem olhassem para nada. Semelhavam a gente receosa, tropa desbaratada, sopitados, constrangidos — coagidos, sim. Isso por isso, que o cavaleiro solerte tinha o ar de regê-los: a meio-gesto, desprezivo, intimara-os de pegarem o lugar onde agora se encostavam. Dado que a frente da minha casa reentrava, metros, da linha da rua, e dos dois lados avançava a cerca, formava-se ali um encantoável, espécie de resguardo. Valendo-se do que, o homem obrigara os outros ao ponto donde seriam menos vistos, enquanto barrava-lhes qualquer fuga; sem contar que, unidos assim, os cavalos se apertando, não dispunham de rápida mobilidade. Tudo enxergara, tomando ganho da topografia. Os três seriam seus prisioneiros, não seus sequazes. Aquele homem, para proceder da forma, só podia ser um brabo sertanejo, jagunço até na escuma do bofe. Senti que não me ficava útil dar cara amena, mostras de temeroso. Eu não tinha arma ao alcance. Tivesse, também, não adiantava. Com um pingo no i, ele me dissolvia. O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo. O medo O. O medo me miava. Convidei-o a desmontar, a entrar.
Disse de não, conquanto os costumes. Conservava-se de chapéu. Via-se que passara a descansar na sela — decerto relaxava o corpo para dar-se mais à ingente tarefa de pensar. Perguntei: respondeu-me que não estava doente, nem vindo à receita ou consulta. Sua voz se espaçava, querendo-se calma; a fala de gente de mais longe, talvez são-franciscano. Sei desse tipo de valentão que nada alardeia, sem farroma. Mas avessado, estranhão, perverso brusco, podendo desfechar com algo, de repente, por um és-não-és. Muito de macio, mentalmente, comecei a me organizar. Ele falou:
— “Eu vim preguntar a vosmecê uma opinião sua explicada...”
Carregara a celha. Causava outra inquietude, sua farrusca, a catadura de canibal. Desfranziu-se, porém, quase que sorriu. Daí, desceu do cavalo; maneiro, imprevisto. Se por se cumprir do maior valor de melhores modos; por esperteza? Reteve no pulso a ponta do cabresto, o alazão era para paz. O chapéu sempre na cabeça. Um alarve. Mais os ínvios olhos. E ele era para muito. Seria de ver-se: estava em armas — e de armas alimpadas. Dava para se sentir o peso da de fogo, no cinturão, que usado baixo, para ela estar-se já ao nível justo, ademão, tanto que ele se persistia de braço direito pendido, pronto meneável. Sendo a sela, de notar-se, uma jereba papuda urucuiana, pouco de se achar, na região, pelo menos de tão boa feitura. Tudo de gente brava. Aquele propunha sangue, em suas tenções. Pequeno, mas duro, grossudo, todo em tronco de árvore. Sua máxima violência podia ser para cada momento. Tivesse aceitado de entrar e um café, calmava-me. Assim, porém, banda de fora, sem a-graças de hóspede nem surdez de paredes, tinha para um se inquietar, sem medida e sem certeza.
— “Vosmecê é que não me conhece. Damázio, dos Siqueiras... Estou vindo da Serra...”
Sobressalto. Damázio, quem dele não ouvira? O feroz de estórias de léguas, com dezenas de carregadas mortes, homem perigosíssimo. Constando também, se verdade, que de para uns anos ele se serenara — evitava o de evitar. Fie-se, porém, quem, em tais tréguas de pantera? Ali, antenasal, de mim a palmo! Continuava:
— “Saiba vosmecê que, na Serra, por o ultimamente, se compareceu um moço do Governo, rapaz meio estrondoso... Saiba que estou com ele à revelia... Cá eu não quero questão com o Governo, não estou em saúde nem idade... O rapaz, muitos acham que ele é de seu tanto esmiolado...”
Com arranco, calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar. O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos, inseqüentes, como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava. E, pá:
— “Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado ... faz-me-gerado ... falmisgeraldo ... familhas-gerado...? ”
Disse, de golpe, trazia entre dentes aquela frase. Soara com riso seco. Mas, o gesto, que se seguiu, imperava-se de toda a rudez primitiva, de sua presença dilatada. Detinha minha resposta, não queria que eu a desse de imediato. E já aí outro susto vertiginoso suspendia-me: alguém podia ter feito intriga, invencionice de atribuir-me a palavra de ofensa àquele homem; que muito, pois, que aqui ele se famanasse, vindo para exigir-me, rosto a rosto, o fatal, a vexatória satisfação?
— “Saiba vosmecê que saí ind’hoje da Serra, que vim, sem parar, essas seis léguas, expresso direto pra mor de lhe preguntar a pregunta, pelo claro...”
Se sério, se era. Transiu-se-me.
— “Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem têm o legítimo — o livro que aprende as palavras... É gente pra informação torta, por se fingirem de menos ignorâncias... Só se o padre, no São Ão, capaz, mas com padres não me dou: eles logo engambelam... A bem. Agora, se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que é, o que já lhe preguntei?”
Se simples. Se digo. Transfoi-se-me. Esses trizes:
Famigerado?
— “Sim senhor...” — e, alto, repetiu, vezes, o termo, enfim nos vermelhões da raiva, sua voz fora de foco. E já me olhava, interpelador, intimativo — apertava-me. Tinha eu que descobrir a cara. — Famigerado? Habitei preâmbulos. Bem que eu me carecia noutro ínterim, em indúcias. Como por socorro, espiei os três outros, em seus cavalos, intugidos até então, mumumudos. Mas, Damázio:
— “Vosmecê declare. Estes aí são de nada não. São da Serra. Só vieram comigo, pra testemunho...”
Só tinha de desentalar-me. O homem queria estrito o caroço: o verivérbio.
Famigerado é inóxio, é “célebre”, “notório”, “notável”...
— “Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?”
Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos...
— “Pois... e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana?”
Famigerado? Bem. É: “importante”, que merece louvor, respeito...
— “Vosmecê agarante, pra a paz das mães, mão na Escritura?”
Se certo! Era para se empenhar a barba. Do que o diabo, então eu sincero disse:
Olhe: eu, como o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado — bem famigerado, o mais que pudesse!...
— “Ah, bem!...” — soltou, exultante.
Saltando na sela, ele se levantou de molas. Subiu em si, desagravava-se, num desafogaréu. Sorriu-se, outro. Satisfez aqueles três: — “Vocês podem ir, compadres. Vocês escutaram bem a boa descrição...” — e eles prestes se partiram. Só aí se chegou, beirando-me a janela, aceitava um copo d’água. Disse: — “Não há como que as grandezas machas duma pessoa instruída!” Seja que de novo, por um mero, se torvava? Disse: — “Sei lá, às vezes o melhor mesmo, para esse moço do Governo, era ir-se embora, sei não...” Mas mais sorriu, apagara-se-lhe a inquietação. Disse: — “A gente tem cada cisma de dúvida boba, dessas desconfianças... Só pra azedar a mandioca...” Agradeceu, quis me apertar a mão. Outra vez, aceitaria de entrar em minha casa. Oh, pois. Esporou, foi-se, o alazão, não pensava no que o trouxera, tese para alto rir, e mais, o famoso assunto.
Guimarães Rosa, in Primeiras estórias

Isabella Taviani & Moska - Digitais

sábado, 24 de setembro de 2016

Ardendo sobre o rochedo

Foi então que, tendo repelido os apalaches, fiz meus quartéis de verão nas Ilhas Ébrias.
Ora, em uma dessas ilhas, a que tem o nome de Almenara, havia um homem chamado Emiliano;
Que vivia em uma choupana diante de uma pequena Angra, por isso mesmo conhecida como Angra Emiliana.
Pois há homens que são como cabos, outros que semelham ilhas, outros que parecem cubos de concreto.
Mas Emiliano é como que uma angra; nele todos os barcos têm porto inseguro, mas franco; e farta aguada.
Embora o perigo das cascavéis.
O clima é harto quente, mas chuvoso; e há ninfas.
No Calendário Emiliano os dias não se juntam em meses e anos, mas em procissões e piracemas.
E as noites são negras e brilhantes como auroras secretas. São como auroras.
Nossos baralhos tinham passado pelas mãos de muitas gerações, e mal se distinguia neles um rei de uma sota.
Jogávamos incessantemente, apostando cocos, siris e barregãs.
E o fumo de nossos vícios formava uma nuvem sobre nossas cabeças.
E jogávamos sempre e sempre, dizendo blasfêmias.
Até que essa nuvem, pejada e enegrecida, se rompia em raios e aguaceiros. Sobre as nossas cabeças.
Quando o mulungu dava suas flores, esse dia era chamado domingo.
E frequentávamos as moitas de pitangueiras e comíamos tristes jenipapos que as velhas mulheres da aldeia assavam com açúcar preto em seus fornos de barro.
Porém, quando soprava o sudoeste, Emiliano d’Almenara envolvia-se no silêncio de seus brocados barrocos.
Então não havia chamá-lo para os jogos nem para as danças e cauim;
Porque seu coração era enegrecido de soberba.
Emiliano d’Angra.
D’Angra d’Almenara.
Assim chamada por um facho que em muitas noites antigas era visto ardendo sobre o rochedo.
Era o coração de Emiliano ardendo sobre o rochedo.
Rubem Braga, in Ai de ti, Copacabana

Rupturas necessárias

Há um certo número de coisas que não podemos atingir a não ser dando deliberadamente um salto na direção contrária. É preciso partir para o estrangeiro, a fim de encontrar a pátria que abandonamos.”
Franz Kafka

A perda abstrata (À maneira dos... baianos)


O extraordinário professor de línguas passeando pelo Brasil punha sempre ouvidos à maneira de falar dos nativos, fossem professores, como ele próprio, ou gente simples do povo.
E o professor ficou fascinado com uma palavra que ouvia a todo momento - absurdo. E, daí em diante, sempre que podia, a toda hora dizia, absurdo! absurdo!, absurdo! E sorria deliciosa satisfação intelectual semântica.
Pois não é que um dia, atravessando a baía da Guanabara a passeio em direção a Paquetá, o professor achou a paisagem um absurdo de bonita e, que horror!, não lembrou a palavra?
Tentou, levantou-se, andou até a popa do barco, depois até a proa, procurando no mais fundo da memória, mas a palavra não veio. E estava ali, de cabeça baixa, andando pra lá e pra cá, sem nem mais olhar a paisagem, quando um taifeiro lhe perguntou: “Que foi, cavalheiro, está sentindo alguma coisa?” “Não, nada, estou só aborrecido. Perdi uma palavra.” “Uma palavra? Estava escrita num papel?” “Não. Não estava escrita em lugar nenhum. Só na minha cabeça.” “Perdeu uma palavra que estava na sua cabeça? Perdão, senhor, mas é um absurdo!” “É isso! Encontrou! Obrigado, meu amigo, obrigado”.
MORAL: A CULTURA ESTÁ EM TODA PARTE.
Millôr Fernandes, in Fábulas fabulosas

Rebelião

Liguei a tevê agora
Uma gorda com tatuagem
De caveira no peito esquerdo
Segura um cartaz de cartolina
No telhado da cadeia:
“fiz uma rebelião pra você”.
Quando se trata de amor
O crime compensa.
Diego Moraes

A voz da mãe: calma, arrastada, amigável e humilde

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Dois cães pastores, muito parecidos, chegaram, trotando alegres, até que farejaram os estranhos; estacaram, cautelosos, rondando-os a distância, as caudas movendo-se lentamente, mas os olhos e os focinhos prontos para o ataque ou para o perigo. Um dos animais, esticando o pescoço, avançou, pernas tesas prontas para fugir, aproximando-se aos poucos das pernas de Tom e farejou ruidosamente. Depois voltou para trás e ficou olhando o velho, como que à espera de um sinal. O outro cachorro era menos audaz. Foi procurar algo que o pudesse divertir e encontrou-o na forma de uma galinha de penas vermelhas, atrás da qual começou a correr, latindo. Ouviu-se, em seguida, o cacarejar estridente de uma galinha ameaçada; penas vermelhas giravam no ar e a galinha conseguiu escapar a muito custo, batendo as asas diminutas num esforço de velocidade. O cachorro, satisfeito com a brincadeira, olhou aflito para os dois homens e deitou-se na poeira, batendo, contente, a cauda no chão.
Vamo entrar — disse o velho. — Ela tem que te ver de qualquer forma, então vamo entrar logo duma vez. Quero ver a cara dela quando te enxergar. Vamos. A comida deve estar pronta, com certeza. Já tem um tempinho que vi tua mãe às voltas com um porco salgado na frigideira. — E foi andando, atravessando o terreiro poeirento. Não havia varanda nessa casa; apenas um degrau e uma porta, e, ao lado dela, um cepo desgastado, de superfície amassada e polida por anos e anos de uso. Via-se nitidamente os veios da madeira, pois a poeira arruinava a parte mais macia. Um aroma de folhas de salgueiro queimadas pairava no ar, e assim que os três homens chegaram à porta, a esse aroma se misturava o cheiro de carne frita, e de pão de centeio fresco e de café, que acaba de ser fervido. O velho subiu o degrau e bloqueou a porta de entrada com o corpo troncudo, cheio. E ele disse: — Ô, velhinha, tão aqui uns camaradas que chegaram pela estrada e perguntam se não tem alguma sobra pra eles.
Tom ouviu a voz de sua mãe, a tão lembrada voz calma, arrastada, amigável e humilde.
Que entrem — disse ela. — Tem comida bastante. Diz pra eles lavar as mãos. O pão já tá pronto. Estou cuidando da carne. — E o chiado da banha quente na frigideira seguiu-se às suas palavras.
O velho penetrou na casa, entreabrindo a porta, e Tom pôde ver sua mãe. Ela estava tirando da frigideira as fatias de porco fritas, meio enroladas. A porta do forno estava aberta, à espera de um grande tabuleiro de pães escuros. A velha deu uma olhada à porta, mas o sol estava atrás de Tom e ela só pôde ver uma figura escura que se recortava na luz solar de um amarelo brilhante. E ela fez um sinal amistoso e disse:
Vão entrando, moços. Foi sorte eu ter feito bastante pão esta manhã.
Tom quedou, olhando-a. A velha era corpulenta, mas não gorda; engrossara devido aos muitos filhos e ao muito trabalho que teve na vida. Trajava um vestido cinzento em que outrora havia flores estampadas, flores já desbotadas, de modo que agora as flores eram cinzentas. O vestido ia até seus tornozelos e os pés fortes, largos, descalços moviam-se rápida, vivamente no chão. Os cabelos ralos, cor de aço, estavam amarrados à altura do pescoço, formando um nó largo e bojudo. Os braços grossos, sardentos, estavam nus até os cotovelos, e as mãos eram polpudas, mas delicadas, como as das meninazinhas gorduchas. Ela olhou para fora, de encontro à luz do sol. Seu rosto cheio não era flácido, e sim firme, conquanto brando. Os olhos cor de avelã sugeriam os muitos dramas que devem ter presenciado e pareciam ter atingido a dor e o sofrimento, escalando, degrau após degrau, até alcançarem uma serenidade e uma compreensão sobre-humanas. Ela parecia cônscia do papel importante de baluarte da família que desempenhava, parecia saber da importância da posição que ocupava e que ninguém lhe poderia jamais disputar. E visto que o velho Tom e as crianças não conheciam doença ou medo desde que a mãe não os sentisse, ela acabava por não conhecer qualquer hesitação. E quando algo de alegre, prazenteiro, lhes acontecia, eles primeiro olhavam para ela, a fim de ver se ela estava alegre, a mãe estava acostumada a tirar alegria mesmo das coisas menos alegres. Melhor que a alegria, era a calma que ela demonstrava. Sabia permanecer imperturbável. E dessa sua posição ao mesmo tempo grande e humilde, extraíra serenidade e uma calma superior. De sua posição de médica de almas, ela hauriu segurança, tranquilidade e domínio de gestos; de sua posição de árbitro, tornou-se distante e fria como uma deusa. Parecia saber que dependia dela o edifício de sua família; que se ela se mostrasse perturbada ou tomada pelo desespero, todo esse edifício desmoronaria ao menor sopro de ventos adversos.
A velha olhou outra vez para fora, para a figura obscura do homem. O velho estava próximo, tremendo de excitação.
Entrem! — gritou o velho. — Vão entrando. — E Tom, algo envergonhado, atravessou a soleira.
A velha ergueu a cabeça, com um ar gentil, de sobre a frigideira. E aí suas mãos desceram lentamente e o garfo que segurava caiu ruidosamente no chão. Seus olhos abriram-se desmedidamente e as pupilas se dilataram. Respirava ofegante, pela boca aberta. Depois fechou os olhos.
Graças a Deus! — disse. — Oh, graças a Deus! — E logo seu rosto tomou um ar preocupado. — Tommy, cê fugiu, Tommy? Cê não fugiu, né?
Não, mãe. Fui perdoado. Tenho aqui os papéis. — Ele bateu no peito.
A velha aproximou-se do filho rapidamente, sem fazer ruído com os pés descalços, e a sua fisionomia refletia encantamento. A mão pequena procurou o braço do filho e tocou-lhe os músculos rígidos. E então seus dedos procuraram, tateando, o rosto, como se fossem os dedos de um cego. E a sua alegria parecia aproximar-se da mágoa. Tom mordeu o lábio inferior. Os olhos da velha seguiram, interrogativos, o gesto do filho e ela viu o pequeno filete de sangue que lhe tingiu os dentes e descia pelo canto dos lábios. Então ela soube, voltou-lhe o controle e sua mão baixou. Respirou ofegante e disse num suspiro:
Bem! Quase a gente vai embora sem ocê. E ficava admirada até se ocê achasse a gente algum dia. — Apanhou o garfo do chão enfiou-o na banha que fervia na frigideira, tirando-o com um pedaço de carne de porco espetado na ponta. E puxou a cafeteira, prestes a cair, para a beira do fogão.
O velho Tom Joad deu um risinho.
Então nós te enganamo, hein, mãe? A gente queria te enganar e enganou mesmo. Cê ficou aí parada que nem uma ovelha que leva uma paulada. Só queria que o avô visse. Parecia que ocê levou uma paulada entre os dois olhos. O avô daria tanta pancada nas coxa que até desconjuntava as cadeira... que nem ele fez quando viu o Al dando tiros naquele avião do exército que passou por aqui, lembra? Pois foi assim, Tommy. Um dia ele passou sobre nós a uns quinhentos metros de altura, o Al meteu uns tiros nele. O avô gritou: não atira no filhote, Al, espera até que passe um já adulto! E aí ele deu uma palmada nas coxa que desconjuntou as cadeira.
A mãe riu e tirou uma pilha de pratos de estanho da prateleira.
Onde tá o avô, aquele velho diabo? — perguntou Tom.
A mãe dispôs os pratos sobre a mesa de cozinha e colocou copos ao lado de cada um. E disse confidencialmente:
Oh, ele e a avó dormem no celeiro! Tinham que ir lá fora muitas vezes, de noite, e viviam tropeçando nas crianças.
O pai intrometeu-se:
Hum, todas as noites, o avô ficava bravo. Tombava sobre o Winfield, e se o Winfield berrava o avô ficava danado e molhava as ceroulas e aí ficava mais danado ainda e daí a pouco acordava todo mundo em casa aos berros. Ele berrava e a gente caía na gargalhada. Oh, a gente teve umas hora gozadas! Uma noite, quando todo mundo andava gritando em casa, o teu irmão Al, que agora é um rapagão crescido, disse: que diabo, avô, por que o senhor não experimenta ser um pirata? Bem, isso fez o avô ficar danado de raiva e ele quis até pegar na espingarda. O Al, naquela noite, teve que dormir no campo. E agora o avô e a avó dormem no celeiro.
Ali eles podem dormir e acordar quando quiser — disse a mãe. — Ô pai — dirigiu-se ao marido —, vai lá e diz que o Tommy tá aqui. O avô sempre gostou mais do Tommy que dos outros netos.
Vou, sim — disse o pai. — Já devia até ter ido. — E ele saiu porta afora, atravessando o terreiro, agitando largamente os braços.
John Steinbeck, in As vinhas da ira

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Nietzsche e as crianças

Por oposição ao propósito da máquina educacional de transformar crianças em adultos, Nietzsche sugeria o oposto e dizia que “a maturidade de um homem é encontrar de novo a seriedade que se tinha quando criança, brincando”.
Desanimado com a estupidez dos adultos, ele escreveu: “Gosto de me assentar aqui onde as crianças brincam, ao lado da parede em ruínas, entre os espinhos e as papoulas vermelhas. Para as crianças, eu sou ainda um sábio, e também para os espinhos e as papoulas vermelhas”. Os adultos não o entendiam porque ele escrevia como criança.
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

Pedra

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Google Imagens

A pedra
é uma criatura perfeita

igual a si mesma
percebe seus limites

é perfeitamente preenchida
por seu sentido de pedra

seu cheiro não lembra nada
não assusta não excita

seu ardor e frieza
são justos e dignos

sinto um grande remorso
quando a pego na mão
e seu corpo nobre
é envolvido pelo meu falso calor

Pedras não podem ser domadas
até o fim nos olharão
com olhos calmos e transparentes.
Zbigniew Herbert

Dominguinhos + Lenine: Arrebol

Manuela

Em Potosí, em 1825, Bolívar sobe ao topo do morro de prata. Fala Bolívar, falará a História: Esta montanha cujo seio é o assombro e a inveja do Universo... Ao vento as bandeiras das novas pátrias e os sinos de todas as igrejas. Eu estimo em nada esta opulência quando a comparo... Mil léguas abraçam os braços de Bolívar. Os vales multiplicam as salvas dos canhões e o eco das palavras: ...com a glória de ter trazido vitorioso o estandarte da liberdade lá das ardentes e distantes praias... Falará a História do prócer na altura. Nada dirá das mil rugas na cara desse homem, ainda não usada pelos anos mas talhada fundo pelos amores e pelas dores. A História não se ocupará dos potros que galopam em seu peito enquanto abraça a terra como se fosse mulher, lá dos céus de Potosí. A terra como se fosse essa mulher: a que afia as espadas dele, e com um só olhar o despe e perdoa. A que sabe escutá-lo por baixo do trovão dos canhões e os discursos e as ovações, quando ele anuncia: Tu estarás sozinha, Manuela. E eu estarei sozinho no meio do mundo. Não haverá outro consolo além da glória de termos vencido.
Eduardo Galeano, in Mulheres

O sítio do Ferreirinha

Pela primeira vez na vida ele estava seguindo uma dieta, fazendo tudo o que o médico mandava. Até exercício. Durante anos ele se lamentara por não ter um carro inglês.
- Por que inglês?
- Porque a direção é no lado direito. Você abre a porta e já está na calçada. Não precisa dar toda aquela volta.
E agora estava fazendo até exercício. Corria todas as manhãs. Comprara abrigo, tênis e saía para correr todos os dias antes do café. Chegava em casa eufórico.
- Descobri uma coisa genial.
- O quê?
- Oxigênio!
Cortara completamente os doces. Logo ele, que certa vez provara um enorme vexame. Estava caminhando na praça com a mulher - sob protestos -, quando de repente se inclinara para afagar a cabeça de um garoto. A mulher até estranhara, ele gostava de crianças mas não era dado àquelas demonstrações. Ele então se endireitara e a puxara pelo braço, forçando-a a apressar o passo.
- Vamos.
- Que pressa é essa?
- Eu roubei o pirulito do garoto. Vamos embora!
Mas era tarde. O garoto já dera o alarme, eles tinham tido que enfrentar uma falange de mães e babás indignadas, ele fora obrigado a devolver o pirulito. Agora fazia abdominais no meio da sala. Volta e meia se olhava no espelho, alisava a barriga e perguntava:
- Diminuiu, hein? Não diminuiu?
Realmente, a barriga diminuíra. A mulher ficou tão intrigada que foi procurar o novo médico dele, sem ele saber. Precisava conhecer o responsável por aquele milagre. O médico disse que não havia milagre nenhum. Quando ela perguntou como ele conseguira que o marido se dedicasse tanto a perder peso, o que nenhum outro conseguira, o médico sorriu e disse:
- Com o sítio do Ferreirinha.
Contou que, durante a primeira consulta com o novo cliente, perguntava, como quem não quer nada, se o cliente conhecia o Ferreirinha. Não? Pois o Ferreirinha tinha um sítio. E todos os fins de semana o Ferreirinha reunia no seu sítio um grupo de amigos e algumas mulheres. O Ferreirinha conhecia muitas mulheres. Modelos. Misses. Grandes mulheres. E outras. E todo fim de semana tinha o que o Ferreirinha chamava de "A Corrida do Ouro". As mulheres saíam correndo pelos campos do Ferreirinha e os homens saíam correndo atrás. Quem pegasse uma ficava com ela para passar a noite. Os mais rápidos pegavam as mais bonitas. Os mais gordos e fora de forma não pegavam nenhuma. O cliente gostaria de entrar no grupo de amigos do Ferreirinha? Nada mais fácil. O médico apresentava. Mas antes ele precisava perder peso. Entrar em forma. Para não fazer feio no sítio do Ferreirinha. Quando o cliente estivesse no ponto - prometia o médico - seria apresentado ao Ferreirinha.
- Mas - perguntou a mulher - o sítio do Ferreirinha existe mesmo?
- Nem o sítio, nem o Ferreirinha - disse o médico.
- E como é que o senhor faz quando eles chegam no ponto para serem apresentados ao Ferreirinha?
Pensava no marido com uma mistura de raiva e pena. Ele estava perdendo a barriga para correr atrás de mulheres no sítio do Ferreirinha, o cretino. Mas que decepção ia ter quando descobrisse que o sítio não existia, pobrezinho.
- É uma coisa engraçada... - disse o médico. - A senhora sabe que, até hoje, nenhum dos meus clientes pediu para ser apresentado ao Ferreirinha? Eu digo: “Acho que você já está pronto para o sítio”, “Amanhã vou apresentá-lo ao Ferreirinha”. Mas nenhum se acha em condições. Sempre querem treinar mais um pouco.
- Que raça - disse a mulher.
E o médico, mesmo sendo do gênero, teve que concordar:
- Que raça.
Luís Fernando Veríssimo, in As mentiras que os homens contam

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Nem bom nem mau

O ser humano não é intrinsecamente bom nem mau. O que verifico é que a bondade é mais difícil de alcançar e de exercer. E bem e mal são conceitos demasiado amplos. É mais fácil ser mau, mau nas suas formas menores, mau em tudo aquilo que nos afasta do outro, do que ser bom.”
José Saramago, in As palavras de Saramago

Mafalda


Sozinho com todo mundo

a carne cobre os ossos
e colocam uma mente
ali dentro e algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e
a carne busca
muito mais do que mera
carne.

de fato,
não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.

ninguém nunca encontra
o par ideal.

as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam

nada mais
se completa.
Charles Bukowski, in O amor é um cão dos diabos

O diplomata e linguísta Guimarães Rosa

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Antes de diplomata, Guimarães Rosa trabalhava como médico no interior de Minas Gerais; à época da prova para ingresso no Itamaraty, servia como oficial-médico no 9º Batalhão de Infantaria em Barbacena. Seu interesse por línguas, política e cultura internacionais o levaram ao concurso.
A história de sua aprovação no Itamaraty é lendária. Classificado em segundo lugar, por conta das restrições literárias que fizera a Rui Barbosa na prova de português, surpreendeu os examinadores na arguição oral: “o que o senhor conhece da literatura clássica francesa?”, perguntaram-lhe. “Tudo”, respondeu. “Desde quando o senhor lê francês?” Nova resposta: “Os clássicos comecei a ler aos 9 anos”.
Aos 7, Joãozito, seu apelido de infância, já havia começado o estudo de francês sozinho, quando um viajante amigo de seu pai lhe levou uma gramática e um dicionário para que pudesse decifrar as revistas francesas que chegavam às suas mãos em Codisburgo, interior de Minas, onde nasceu. Aos 9, aperfeiçoou os estudos com um padre franciscano, e iniciou-se no holandês. Começou a aprender japonês em Belo Horizonte, quando cursava o ginásio, com um funcionário da Companhia Força e Luz que mudava a luz do poste em frente a casa em que morava com o avô. Para completar, fez aulas de esperanto. Quanto entrou para o Itamaraty, as línguas que dominava passavam de 20.
Mariana Delfini, in Palavras de guerra, Revista Bravo (fevereiro/2008)