domingo, 17 de junho de 2018

Mover os ânimos

Quanto é mais eficaz e poderosa para mover os ânimos dos homens a esperança das coisas próprias, que a memória das alheias?
Padre Antônio Vieira, in História do futuro

Lenine - Simples Assim


O fantasma que tanto temia

Comecei a ver cada vez mais se aproximando, cada vez mais claramente, o fantasma que tanto temia. A volta a casa, o voltar a encerrar-me no quarto, o ter de permanecer quieto diante do desespero! Não podia escapar a isso ainda que continuasse caminhando horas e horas: o regresso à minha porta, à minha mesa cheia de livros, ao divã com o reto de minha amada pendurado em cima; não podia escapar ao instante em que tomaria a navalha e teria de cortar o pescoço. Esta imagem fazia-se cada vez mais clara diante de mim e cada vez mais precisa; sentindo o coração bater-me fortemente, provava a angústia maior de todas as angústias; o medo à morte! Sim, tinha um pavoroso horror à morte. Embora não vislumbrasse outra saída, embora o tédio, a dor e o desespero me tivessem sitiado, embora já nada me atraísse nem pudesse causar-me alegria ou dar-me esperanças, horrorizava-me indizivelmente a execução, o último instante, a fria ferida aberta na própria carne! Não enxergava nenhum caminho por onde pudesse escapar daquilo que tanto temia. Se na luta contra o desespero e a covardia esta última vencesse também hoje por acaso, amanhã e todos os dias seguintes estaria diante de mim o desespero, aumentado pelo desprezo de mim mesmo. Tantas vezes apanharia a lâmina para tornar a afastá-la, que uma vez decerto chegaria ao fim. Então era melhor fazê-lo logo, hoje! Falava comigo mesmo como se falasse com uma criança assustada, mas a criança não me ouvia, fugia dali, queria viver. Continuei minha caminhada inconstante pela cidade, fiz amplos círculos em torno de minha casa, com a ideia do regresso em mente, mas sempre procrastinando. Parava aqui e ali nas tabernas, enquanto esvaziava um copo ou dois; logo voltava a caminhar, em amplos círculos em torno da meta, em torno da navalha, em torno da morte. Às vezes, sentava-me, morto de cansaço, num banco, na borda de uma fonte, à beira da calçada; ouvia bater meu coração, limpava o suor da face, continuava meu trajeto, cheio de angústias mortais, cheio de vacilantes ânsias de viver. Desta forma, cheguei, já avançada a noite, a uma hospedaria de ura quarteirão afastado e que pouco conhecia, por trás de cujas janelas soava uma estridente música de dança. Sobre a porta li ao entrar um velho letreiro: Água Negra. Dentro havia grande animação, muita fumaça, cheiro de vinho e algazarra; no salão, mais para dentro, estavam dançando ao som de uma música ensurdecedora. Detive-me na primeira sala onde havia umas pessoas simples, na sua maioria pobremente vestidas, enquanto que na sala de baile podiam-se ver pessoas elegantes. Empurrado pelos circunstantes, acabei por sentar-me a uma mesa, junto ao balcão; uma jovem bonita e pálida estava sentada num divã junto à parede; trazia um vestido de baile com grande decote e uma flor enfiada nos cabelos. Lançou-me um olhar observador e cordial ao me aproximar e com um sorriso chegou-se para o lado a fim de ceder-me lugar.
Com licença? — perguntei, sentando-me ao seu lado.
À vontade — disse ela.
Obrigado — respondi. — Não consigo ir para casa. Não quero, não quero, não posso. Quero ficar aqui, ao seu lado, se é que me permite. Não, não devo ir para casa.
Ela assentiu com a cabeça como se me compreendesse, e enquanto o fazia, observei a onda de cabelo que lhe ia da testa até atrás da orelha e descobri que a flor já murcha era uma camélia. No salão a música ressoava e diante do balcão as garçonetes transmitiam aos gritos os pedidos do público.
Pode ficar aqui à vontade — disse, numa voz que me fez muito bem. — Por que não quer voltar para casa?
Não posso. Tenho algo à minha espera. Não posso, não posso; é horrível.
Pois deixa esperar à vontade e fique por aqui. Mas antes de mais nada, vamos limpar esses óculos, que assim não vai conseguir ver nada. Empreste-me o lenço. Que vamos beber? Borgonha?
Limpou meus óculos e pude então vê-la melhor: o rosto pálido e a boca vermelha cor de sangue, os claros olhos cinzentos, a testa lisa e fresca, com a onda a cair-lhe sobre a orelha. Afável c com um toque de ironia, começou a deixar-me à vontade; pediu vinho, brindou comigo e olhou para os meus pés.
Santo Deus! de onde esta vindo? Parece ate que veio a pé de Paris. Isso não é maneira de se vir a um baile. Eu disse sim e não, sorri um pouquinho e deixei-a falar. Estava achando-a bastante encantadora, para surpresa minha, pois até então sempre olhara com desconfiança a esta classe de moças. E foi muito bondosa comigo, começou a tratar-me da maneira que melhor me convinha naquele momento. E assim foi sempre a partir daquele instante! Tratou-me com a doçura de que eu necessitava e troçou de mim exatamente da maneira que convinha. Pediu um sanduíche e ordenou-me que o comesse. Serviu-me de vinho e mandou-me bebê-lo devagar e não de um trago. Depois elogiou minha obediência
Estou vendo que é um bom menino — disse, para animar-me. — Não é de tornar as coisas difíceis. Mas sou capaz de apostar que há muito tempo não obedece a ninguém.
Isto mesmo. Como soube?
Não é difícil. Obedecer é assim como comer ou beber. Quando se passa muito tempo sem fazer uma ou outra coisa, não é preciso que insistam conosco. Não é verdade? Não ficou satisfeito de fazer o que lhe disse?
Muito contente. Como sabe de tudo?
Você é que facilita as coisas. Sou capaz talvez de lhe dizer o que está esperando em casa e o que tanto o angustia. Mas, você sabe muito bem o que é e não precisamos falar no assunto, não é mesmo? Assunto desagradável! Ou a gente se enforca e está tudo muito bem, pois se deve ter lá suas razões para isso, ou então continua vivendo sem se preocupar senão com a vida. O negócio é este!
Ah! — exclamei — se fosse simples assim! Deus sabe o quanto me tenho preocupado com a vida e que isto de nada me serviu. Enforcar-se deve ser uma coisa difícil, suponho. Mas viver, viver é muito mais difícil! Só Deus sabe o quanto é difícil!
Verá como é sumamente fácil! Já começamos bem. Limpamos os óculos, você comeu, bebeu. Agora vamos escovar um pouco essas calças e sapatos e em seguida você vai dançar o shimmy comigo.
Vai ver que eu tinha razão! — exclamei exaltado. Nada mais desagradável para mim do que deixar de satisfazer um desejo seu. Mas não posso aceder ao que me pede. Não sei dançar o shimmy, nem a valsa, nem a polca, nem como se chamam todas essas outras; nunca aprendi a dançar em toda a minha vida. Agora está vendo que a coisa não é assim tão fácil quanto diz?
A bela jovem sorriu com os lábios cor de sangue e balançou a cabeça firme e resoluta. Enquanto a olhava, pensei ver nela alguma semelhança com Rosa Kreisler, a primeira jovem de quem me enamorei quando rapaz, só que Rosa tinha os cabelos castanhos e a pele morena. Não, não me lembrava com quem se parecia aquela estranha jovem; era alguém de minha primeira juventude, talvez de minha infância.
Hermann Hesse, in O Lobo da Estepe

Friedenreich

Artur Friedenreich

Em 1919, o Brasil venceu o Uruguai por 1 a 0 e se sagrou campeão sul-americano. O povo se lançou às ruas do Rio de Janeiro. Presidia os festejos, levantada como um estandarte, uma barrenta chuteira, com um cartazinho que proclamava: O glorioso pé de Friedenreich. No dia seguinte, aquela chuteira que tinha feito o gol da vitória foi parar na vitrina de uma joalheria, no centro da cidade.
Artur Friedenreich, filho de um alemão e de uma lavadeira negra, jogou na primeira divisão durante 26 anos, e nunca recebeu um centavo. Ninguém fez mais gols que ele na história do futebol. Fez mais gols que o outro grande artilheiro, Pelé, também brasileiro, que foi o maior goleador do futebol profissional. Friedenreich somou 1.329 gols. Pelé, 1.279.
Este mulato de olhos verdes fundou o modo brasileiro de jogar. Rompeu com os manuais ingleses: ele, ou o diabo que se metia pela planta de seu pé. Friedenreich levou ao solene estádio dos brancos a irreverência dos rapazes cor de café que se divertiam disputando uma bola de trapos nos subúrbios. Assim nasceu um estilo, aberto a fantasia, que prefere o prazer ao resultado. De Friedenreich em diante, o futebol brasileiro que é brasileiro de verdade não tem ângulos retos, do mesmo jeito que as montanhas do Rio de Janeiro e os edifícios de Oscar Niemeyer.
Eduardo Galeano, in Futebol ao sol e à sombra

Calvin


Chocando com os olhos

O povo acredita firmemente que os sáurios e certas aves, como as emas, não chocando os ovos com o calor do corpo, colocando-os a distância e ficando a olhá-los insistentemente, conseguem a operação com a força do olhar. Quem executa esse aquecimento indispensável é o calor solar. Os ovos ficam expostos à luminosidade ardente e o animal permanece vigilante, guardando a futura ninhada com o ciúme natural, responsável pela sobrevivência da espécie.
Quem viveu em terra onde os jacarés aparecem sabe muito bem desse costume do repelente anfíbio. Onde estiverem os ovos o bicho estará nas vizinhanças, impassível na contemplação do seu tesouro, pronto a defendê-lo pelo ataque imediato. Quando a fêmea se retira, o jacaré a substitui na missão de sentinela orgulhosa.
Como não retiram os olhos da pilha de ovos, o povo explica que o jacaré choca os ovos com os olhos.
A ema também realiza essa proeza embora aqueça a ninhada com seu peso. Vez por outra, fica por perto, sentada nas imensas patas, olhando os imensos ovos que o Sol esquenta como num forno.
Vale salientar aqui a importância vital que o povo empresta à potência visual. O olhar pode determinar o bem e o mal, proteger e destruir, como uma grandeza material, de ação imediata e direta. Bons e maus olhos dividem a Humanidade e os romanos foram obrigados a criar a deusa Invídia, com a cabeleira de serpentes, inimiga de toda a ventura alheia, insaciável de rancor para as alegrias dos outros, tendo a vitória do próximo como uma agressão à sua soberania monstruosa e bastarda.
In Invidia est virtus, dizia Cícero, inveja adversária perpétua da virtude, virtude dos outros, porque ela só possui o rancor de não possuí-la.
Cerca de noventa por cento dos amuletos são destinados contra o mau-olhado. Não há povo, nível de cultura, tempo na História, em que o homem não haja temido a inveja, e como a deusa sinistra aja preferencialmente pelo olhar, o pavor humano é a ameaça desses olhares magnéticos, implacáveis na ruína da felicidade terrestre. Tanto assim que, no arsenal dos amuletos, a quase totalidade mobiliza-se com o mau-olhado, contra a força do olhar rancoroso, humilhado, diabólico na constatação do bem alheio.
Mas agora a convicção popular faz o elogio do olhar mágico na propagação da vida, da guarda familiar, na custódia aos filhos no amanhã.
Nem mesmo ao Sol permitem a função fecundadora no desenvolvimento da existência guardada nos ovos. O olhar é o responsável. É com ele que o animal anima a vida latente da espécie. Choca com os olhos…
Luís da Câmara Cascudo, in Coisas que o povo diz

Das cátedras da virtude

Louvaram para Zaratustra um sábio que falaria muito bem do sono e da virtude: por isso era bastante reverenciado e recompensado, diziam, e todos os jovens se sentavam perante sua cátedra. Foi até ele Zaratustra, e com todos os jovens se sentou perante sua cátedra. E assim falou o sábio:
Respeito e pudor ante o sono! Isso em primeiro lugar! E evitar todos os que dormem mal e passam a noite acordados!
Mesmo o ladrão tem pudor diante do sono: sempre anda furtivamente pela noite. Sem pudor, no entanto, é o guarda-noturno, que despudoradamente carrega sua corneta.
Não é arte pequena dormir: requer passar o dia inteiro acordado.
Dez vezes é preciso superar-se durante o dia: isso gera um bom cansaço e é papoula para a alma.
Dez vezes é preciso reconciliar-te contigo mesmo; pois superação é amargura, e dorme mal o não reconciliado.
Dez verdades tens de achar durante o dia: senão buscas ainda verdades durante a noite, tua alma permaneceu faminta.
Dez vezes tens de rir e ser jovial durante o dia: senão és incomodado à noite pelo estômago, esse pai das aflições.
Poucos o sabem, mas é preciso ter todas as virtudes para dormir bem. Darei falso testemunho? Cometerei adultério?
Cobiçarei a criada do meu próximo? Tudo isso combinaria mal com o bom sono.
E, mesmo possuindo todas as virtudes, deve-se ainda saber uma coisa: mandar dormir também as virtudes no momento certo.
Para que não briguem umas com as outras, essas graciosas mulherezinhas! Por tua causa, infeliz!
Paz com Deus e com o vizinho: assim pede o bom sono. E paz até mesmo com o demônio do vizinho! Senão rondará tua casa durante a noite.
Respeito e obediência à autoridade, mesmo à autoridade torta! Assim pede o bom sono. Que fazer, se o poder gosta de caminhar sobre pernas tortas?
Sempre será o melhor pastor, para mim, aquele que leva suas ovelhas ao prado mais verde: isso condiz com o bom sono.
Muitas honras não desejo, nem grandes tesouros: isso inflama o baço. Mas dorme-se mal sem um bom nome e um pequeno tesouro.
Uma companhia escassa me é mais bem-vinda que uma má: mas tem de ir e vir no momento certo. Isso condiz com o bom sono.
Também muito me agradam os pobres de espírito: eles promovem o sono. Bem-aventurados são eles, sobretudo quando sempre lhes damos razão.
Assim transcorre o dia para o virtuoso. E, quando vem a noite, eu bem me guardo de chamar o sono! Pois o sono, que é o senhor das virtudes, não quer ser chamado!
Em vez disso, penso no que fiz e pensei durante o dia. Ruminando me pergunto, paciente como uma vaca: quais foram, afinal, tuas dez superações?
E quais foram as dez conciliações e as dez verdades, e as dez risadas com que se regalou meu coração?
Isso refletindo, e acalentado por quarenta pensamentos, assalta-me de repente o sono, o não chamado, o senhor das virtudes.
O sono bate em meus olhos: eles ficam pesados. O sono toca em minha boca: ela fica aberta.
Em verdade, com solas macias ele chega até mim, meu predileto entre os ladrões, e me rouba os pensamentos: e lá fico eu em pé, estúpido como essa cátedra.
Mas já não fico em pé por muito tempo: logo estou deitado.—
Quando Zaratustra ouviu assim falar o sábio, riu-se no coração: pois uma luz raiara nele. E assim falou ele para seu coração:
Um tolo me parece este sábio, com seus quarenta pensamentos: mas creio que ele entende de dormir.
Feliz aquele que mora na vizinhança deste sábio! Um sono como esse contagia, mesmo através de uma grossa parede contagia.
Mesmo em sua cátedra habita um encanto. E não foi em vão que os jovens sentaram perante o pregador da virtude.
Sua verdade diz: ficar desperto para bem dormir. E, em verdade, se a vida carecesse de sentido e eu tivesse de escolher o sem-sentido, também para mim este seria o sem-sentido mais digno de escolha.
Agora vejo claramente o que antes buscavam as pessoas, ao buscar professores da virtude. Buscavam o bom sono, e virtudes opiáceas para ele!
Para todos esses louvados sábios de cátedras, a sabedoria era o sono sem sonhos: eles não conheciam sentido melhor para a vida.
Ainda hoje existem alguns como esse pregador da virtude, e nem sempre honestos: mas seu tempo acabou. E já não ficam em pé por muito tempo: logo estão deitados.
Bem-aventurados são esses que têm sono: pois em breve adormecerão. —
Assim falou Zaratustra.
Friedrich Nietzsche, in Assim falou Zaratustra

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Aconteceu alguma coisa ruim na Media Luna?

  

A senhora está vendo aquela janela, dona Fausta, lá na Media Luna, onde a luz sempre ficava acesa?
Não, Angeles. Não vejo nenhuma janela.
É que justinho agora ficou escura. Será que aconteceu alguma coisa ruim na Media Luna? Faz mais de três anos que aquela janela está alumbrada, noite a noite. Dizem, quem esteve lá, que é o quarto onde habita a mulher de Pedro Páramo, uma coitadinha louca que tem medo do escuro. E olha só: agora mesmo, a luz apagou. Não será um acontecimento ruim?
Talvez tenha morrido. Estava muito doente. Dizem que já nem reconhecia as pessoas, e dizem que falava sozinha. Bom castigo deve ter suportado Pedro Páramo casando-se com essa mulher.
Coitado do senhor dom Pedro.
Não, Fausta. Ele merece. Isso e muito mais.
Olha, a janela continua escura.
Deixa essa janela em paz e vamos dormir, que é noite alta para que nós duas, esse par de velhas, andemos soltas pela rua.
E as duas mulheres, que saíam da igreja muito perto das onze da noite, perderam-se debaixo dos arcos do portal, olhando como a sombra de um homem cruzava a praça na direção da Media Luna.
Escuta, dona Fausta, não parece que o senhor ali é o doutor Valência?
Parece mesmo, mas ando tão cega que não conseguiria reconhecê-lo.
Não se esqueça que ele veste sempre calças brancas e paletó preto. Eu aposto que está acontecendo alguma coisa ruim na Media Luna. E olha só como ele vai rijo, como se a urgência o empurrasse.
Pode ser de verdade uma coisa ruim. Sinto vontade de voltar e dizer ao padre Rentería que se achegue por lá, vai que essa infeliz morre sem se confessar.
Nem pense nisso, Angeles. Nem Deus queira. Depois de tudo que ela sofreu neste mundo, ninguém desejaria que se fosse sem os auxílios espirituais e continuasse a penar na outra vida. Embora os bruxos digam que nos loucos a confissão não vale, pois mesmo quando têm a alma impura são inocentes. Isso só Deus sabe... Veja só, já tornaram a acender a luz na janela. Oxalá tudo dê certo. Imagine só em aonde iria dar o trabalho que tivemos todos esses dias para arrumar a igreja para que pareça bonita agora no Natal, se alguém morrer naquela casa. Com o poder que tem, dom Pedro aguaria a nossa festa num triz.
A senhora sempre pensa o pior, dona Fausta. Era melhor fazer como eu: encomende tudo à Providência Divina. Reze uma ave-maria à Virgem e tenho certeza que nada vai acontecer de hoje para amanhã. Depois, que seja feita a vontade de Deus; afinal de contas, ela não deve estar tão contente assim nesta vida.
Acredite em mim, Angeles, a senhora sempre me repõe o ânimo. Vou dormir levando ao sono esses pensamentos. Dizem por aí que os pensamentos dos sonhos vão direto para o céu. Tomara que os meus alcancem esta altura. Amanhã nos vemos.
Até amanhã, Fausta.
As duas velhas, porta a porta, se meteram em suas casas. O silêncio voltou a fechar a noite sobre o povoado.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

Soneto 54

Ó, muito mais linda parece a beleza
Docemente ornada pela verdade!
A rosa é linda, mas a julgamos ainda mais bela
Pelo suave odor que exala.
As rosas silvestres têm o mesmo tom
Que as rosas perfumadas e coloridas,
Presas a seus espinhos, e brincam, voluptuosas,
Quando o hálito do verão as abre em botão;
Mas, como a aparência é sua única virtude,
Vivem esquecidas, e murcham abandonadas –
Morrendo solitárias. Doces rosas não fenecem;
De suas ternas mortes exalam os mais doces perfumes,
Assim como de ti, linda e amável donzela,
Ao feneceres, tua verdade destilará nos versos.
William Shakespeare

"The faithful colt" (1890), de William Michael Harnett


Dona Clara

Dona Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. “Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”
Eram seis da manhã. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “Papai, quando você morrer você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “Não chore que eu vou te abraçar...”. Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade porque lá a gente fica longe dessa terra tão boa...
Eu, por enquanto, não quero morrer. Já tive medo de morrer. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza.
Mas tenho muito medo DO morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer porque já não sou mais dono de mim mesmo, solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada.
A morte deveria ser como os últimos compassos de uma sonata: belos e tristes, até que venha o silêncio. Camus dizia que o suicida prepara seu suicídio como uma obra de arte. Seria possível planejar a própria morte, sem suicídio, como uma obra de arte? Mas quem, nos hospitais, se preocupa com a beleza?
Zorba morreu olhando para as montanhas. Uma amiga me disse que quer morrer olhando para o mar. Montanhas e mar: haverá metáforas mais belas para o Grande Mistério?
Mas a medicina não entende.
Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Dirigiu-se, então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos para que meu pai não sofra?”. O médico o olhou com olhar severo e lhe disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”. Impecável o médico, na sua severidade ética e religiosa. Enquanto sua consciência permanecia calma, o velhinho estava mergulhado num abismo de dor.
Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama, em meio aos fedores de fezes e urina — de repente, o acontecimento desejado, libertador: seu coração parou. Ah, com certeza fora o seu Anjo da Guarda que assim punha um fim à sua miséria! Aquela parada cardíaca era o último acorde da sonata alegre que fora a sua vida! Mas o médico, movido pelos automatismos éticos costumeiros, apressou-se a cumprir o seu dever: debruçou-se sobre o velhinho morto e o fez viver de novo.
Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Mas o que é vida? Mais precisamente: o que é a vida de um ser humano? Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.
Muitos dos chamados “recursos heroicos” para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Sou um pássaro engaiolado. Abram a porta! Deixem-me voar livre pelos ares!”.
Rubem Alves, in Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

O comunismo ideal

O modelo comunista falhou, não tenho dúvidas. É mais do que óbvio. Poderemos dar-lhe os nomes que quisermos, socialismo científico, socialismo real, mas os fatos estão aí, a dizê-lo e a prová-lo claramente: o modelo real falhou. Este era um dos modelos possíveis. Mas penso que o ideal não morre. Sobreviverá, disso tenho a certeza, e haverá tempo para pensar nele noutra escala, noutras condições.
José Saramago, in As palavras de Saramago

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Uma lição de moral

Meu amigo Baiano me pede que eu declare seu nome de batismo. Isso porque, segundo o Baiano, a rapaziada da terra dele não acredita que a gente bebe junto no Bar da Maria.
- ‘Xá-de-sê mintiroso, seu minino. Tu bebe cum Valdimir Branquis nada, ô xente!
Tá legal, Baiano. Alô, Nordeste! Atenção, Agreste, Sertão, Cerrado, Caatinga, Coqueirais e Mandacurus! O nome do Baiano é Wilson Flora! E, só pra não perder a viagem Valdimir Branquis é o cacete!
Tudo isso é pra dizer que Baiano inventou uma explicação muito original sobre os motivos que podem levar um senador a mandar matar um sargento comilão, sujeitando a digníssima esposa a um vexame nacional. É claro que tudo não passa de especulação e qualquer semelhança com vivos e mortos do Brasil de hoje é mera coincidência.
- Cê vê, Blanc: se o cara tivesse ficado boneco e não chiasse, ou se tivesse dado apenas ligeira aparadinha nos chifres, umas bolachas e coisa e tal, o negoço não extrapolava. Ora, pra virar suruba nacional, só tem uma explicação plausível...
Bom contador de história, Baiano acende uma cigarrilha e assume um arzinho altivo, coisa de Sherlock Holmes caboclo.
- Homem acostumado ao poder, o marido pirou por motivos concernentes à etiqueta e não necessariamente afeitos à esfera sexual!
Tem horas que o Baiano enche o saco, né?
- Pegou o espírito da coisa, Blanc?
- Ainda não.
- Pois eu vou reconstituir o crime pra você entender a jogada.
- Obrigado, Wilson.
- Disponha. Me acompanhe: o senador chega em casa mais cedo e grita: Queriiidaaa!
- Hum-hum.
- Que resposta obtém? Nenhuma. Do quarto chega uns gemidozinhos abafados, ai, ui, tira, bota, esses fundamentos. Que faz o senador?
- Puxa a parabélum.
- Nãozinho.
- Trinca a peixeira e parte pra cima.
-Never! Homem habituado aos meandros do poder, o senador fica frio e vai investigar a questão. Entra no quarto e dá de cara com o sargento, ou patente próxima, mais atochado na senhora dele que camarão em vatapá. Que atitude toma o senador?
- Sei lá, pô. Explode o cômodo.
- Nunca, jamais, em tempo algum. íntimo dos acidentes do poder, o senador delibera, tenta o debate, o que eles mesmo chamam de um “amplo entendimento”. Diz pro rapaz: “Mas logo você, que não tinha onde cair morto e a quem tanto ajudei?” E virando o foco pra cara-metade: “Será possível o que meus olhos veem?”
- Ah, Baiano, qualé?
- E o casal? Que reação tem o casal, diante desse exemplo de moderação?
- Bom, envergonhados, os dois se cobrem e...
- Errou de novo. O casal continua no vapt-vupt. Aí, sim, o senador, sentindo-se agredido na investidura do seu poder, perde as estribeiras. Porque um dos lemas do poder é: querem prevaricar, prevariquem, mas com muito respeito.
Aldir Blanc, in Brasil passado a sujo

RECOMECE (Thathi / Bráulio Bessa) - feat Ana Vilela

O outro Emílio Moura

Na redação, o secretário fazia a cozinha do jornal, quando a senhora, não primaveril, mas ainda não invernosa, dele se aproximou timidamente. E sacando da bolsa um recorte de suplemento, perguntou-lhe se sabia o endereço de Emílio Moura, autor dos versos ali estampados.
O secretário explicou-lhe que o assunto era da competência do Silva, encarregado da seção literária. O Silva não ia demorar, estava na hora dele. Não queria sentar-se, esperar?
Ela recolheu cuidadosamente o fragmento e dispôs-se a aguardar o Silva, que, como acontece nessas ocasiões, tardou um pouquinho. Mas que tardasse dois anos, não fazia diferença, a julgar pelo semblante da senhora, de paciente determinação.
Diante do Silva, exibiu novamente o papelzinho e fez-lhe a pergunta.
Endereço do Emílio Moura? Pois não, minha senhora. Com licença, deixe ver aqui no caderninho: rua tal, número tal, em Belo Horizonte…
O rosto da senhora se transfigurou:
Belo Horizonte? O senhor tem certeza de que ele está em Belo Horizonte?
Se está, no momento, não sei, minha senhora. Mas sempre morou lá, isso eu posso lhe garantir.
Nova mutação se operou na fisionomia da visitante, onde o desaponto parecia querer instalar-se, mas era combatido pela dúvida:
O senhor… o senhor conhece pessoalmente Emílio Moura?
Conheço, sim. Há muitos anos.
Muitos? Que idade tem ele, mais ou menos?
Fez cinquenta há pouco tempo, a senhora não leu nos jornais a comemoração?
Tem certeza de que não está enganado? Perdoe a insistência, mas podia me fazer o retrato físico de Emílio Moura?
Perfeitamente. Trata-se de um senhor alto, magro, cabelos ainda pretos, pequena costeleta, bigodinho, usa piteira e fuma cigarro de palha. Que mais? Meio calado, extremamente simpático, muito querido por todos. Completo a ficha: professor da universidade, casado, com filhos.
A senhora olhava para o papel, dobrava-o, esboçava o gesto de jogá-lo fora, depois o desdobrava e alisava com carinho. E, na ponta de um longo silêncio:
Sr. Silva, este pedacinho de jornal me trouxe uma grande esperança e agora uma profunda decepção. Muito obrigada. Desculpe.
Ia retirar-se, sem que o Silva compreendesse níquel, mas voltou-se, e rapidamente desfolhou esta confidência:
Há quatro anos ando à procura de Emílio Moura. Éramos muito amigos, ele fazia versos lindos, que eu, na qualidade de sua maior amiga, lia em primeira mão. Um dia, contou-me que ia viajar para Montevidéu, onde ficaria algum tempo. Escreveu-me de lá duas vezes, e da segunda anunciava que seguiria para o Canadá. Nunca mais tive a menor notícia. Ninguém sabe informar nada. Quando li no jornal esta poesia com o nome dele, fiquei cheia de esperança, mas agora não sei o que pensar. O senhor me diz que Emílio Moura tem cinquenta anos e é professor em Belo Horizonte. O que eu conheço tem trinta e dois anos e nunca morou em Minas, que eu saiba, mas como os versos dele são parecidos com estes que o seu jornal publicou! A mesma doçura, uma sensação de fim de tarde, muito triste, o senhor não imagina… Enganei-me. Desculpe mais uma vez, e passe bem, sr. Silva.
Saiu, levando nas mãos o papelzinho, como uma flor.
Carlos Drummond de Andrade, in 70 historinhas

Diferentes, no mesmo ser

Existem no mesmo ser humano conhecimentos que, a despeito da completa diferença entre eles, têm o mesmo objeto, de tal forma que só é possível concluir que há sujeitos diferentes no mesmo ser humano.
Franz Kafka, in Aforismos reunidos

Tempos modernos

Embora todos esses sapiens tenham se tornado cada vez mais impermeáveis aos caprichos da natureza, estão cada vez mais sujeitos aos ditames dos governos e das indústrias modernas. A Revolução Industrial abriu caminho para uma longa linha de experimentos em engenharia social e uma série ainda mais longa de transformações imprevistas na vida cotidiana e na mentalidade humana. Um exemplo entre muitos é a substituição dos ritmos da agricultura tradicional pelo cronograma preciso e uniforme da indústria.
A agricultura tradicional dependia de ciclos de tempo natural e crescimento orgânico. A maioria das sociedades não era capaz de medir o tempo com precisão, e tampouco estava muito interessada em fazê-lo. O mundo seguia seu curso sem relógios nem horários, sujeito apenas aos movimentos do Sol e aos ciclos de crescimento das plantas. Não havia um dia de trabalho uniforme, e todas as rotinas mudavam drasticamente de uma estação para outra. As pessoas sabiam onde o Sol estava e esperavam ansiosas por presságios da estação chuvosa e da época de colheita, mas não sabiam que horas eram e dificilmente se importavam em saber em que ano estavam. Se um viajante perdido no tempo aparecesse em uma aldeia medieval e perguntasse a um transeunte “Em que ano estamos?”, o aldeão ficaria tão perplexo diante da pergunta quanto diante da roupa ridícula do estranho.
Ao contrário dos camponeses e sapateiros medievais, a indústria moderna se importa pouco com o Sol ou com a estação do ano. Santifica a precisão e a uniformidade. Por exemplo, em uma oficina medieval cada sapateiro fazia um sapato inteiro, da sola ao cadarço. Se um sapateiro se atrasasse para o trabalho, isso não atrasava os demais. No entanto, na linha de montagem de uma fábrica de sapatos moderna, cada operário maneja uma máquina que produz apenas uma pequena parte de um sapato, que então é passada à máquina seguinte. Se o funcionário que opera a máquina número 5 perdeu a hora, atrasa todas as outras máquinas. A fim de evitar tais calamidades, todos devem aderir a uma grade horária precisa. Cada trabalhador chega no trabalho exatamente à mesma hora. Todos almoçam juntos, quer tenham fome, quer não. Todos vão para casa quando uma sirene anuncia que seu turno chegou ao fim – e não quando terminaram seu projeto.
A Revolução Industrial transformou a grade horária e a linha de montagem em um modelo para quase todas as atividades humanas. Logo depois que as fábricas impuseram seus cronogramas ao comportamento humano, as escolas também adotaram grades horárias precisas, seguidas dos hospitais, dos gabinetes de governo e das mercearias. Mesmo em lugares desprovidos de máquinas e linhas de montagem, a grade horária imperou. Se o turno na fábrica termina às cinco da tarde, é melhor o bar das redondezas abrir suas portas às 17h02.
Um elo crucial na disseminação do sistema de grades horárias foi o transporte público. Se os operários precisassem iniciar seu turno às oito da manhã, o trem ou ônibus tinha de chegar ao portão da fábrica até as 7h55. Um atraso de poucos minutos desaceleraria a produção e, talvez, inclusive levasse à demissão dos que chegaram atrasados. Em 1784, começou a operar na Grã-Bretanha um serviço de carruagem com um cronograma divulgado. Sua grade horária especificava apenas o horário de partida, não de chegada. Na época, cada cidade e vila britânica tinha seu próprio horário local, que podia diferir do horário de Londres em até meia hora. Quando era meio-dia em Londres, era, talvez, 12h20 em Liverpool e 11h50 em Canterbury. Como não havia telefones, nem rádio ou televisão, nem trens rápidos – quem poderia saber, e quem se importava?
O primeiro serviço de trem comercial começou operando entre Liverpool e Manchester em 1830. Dez anos depois, foi divulgada a primeira grade horária de trens. Os trens eram muito mais rápidos que as velhas carruagens e, por isso, as diferenças nos horários locais se tornaram um grande incômodo. Em 1847, as companhias ferroviárias britânicas se reuniram e concordaram que, dali em diante, todas as grades horárias de trens seriam ajustadas com o horário do Observatório de Greenwich, e não com o horário local de Liverpool, Manchester ou Glasgow. Cada vez mais instituições seguiram os passos das companhias ferroviárias. Finalmente, em 1880, o governo britânico deu o passo sem precedentes de legislar que todas as grades horárias na Grã-Bretanha deveriam seguir Greenwich. Pela primeira vez na história, um país adotou um horário nacional e obrigou sua população a viver de acordo com um relógio artificial, em vez de seguir os relógios locais ou os ciclos do amanhecer ao entardecer.
Esse começo modesto gerou uma rede global de grades horárias, sincronizadas até nas frações de segundo. Quando os meios de comunicação – primeiro o rádio, depois a televisão – fizeram seu début, entraram em um mundo de grades horárias e se tornaram seus principais agentes e divulgadores. Entre as primeiras coisas que as estações de rádio transmitiram estavam os sinais horários, apitos que permitiam que povoados distantes e navios em alto-mar ajustassem seus relógios. Mais tarde, as estações de rádio adotaram o costume de transmitir o noticiário de hora em hora. Hoje em dia, o primeiro item de todo programa de notícias – mais importante até mesmo que o início de uma guerra – é a hora. Durante a Segunda Guerra Mundial, o BBC News foi transmitido para a Europa ocupada por nazistas. Cada noticiário começava com uma transmissão ao vivo do Big Ben tocando a hora – o som mágico da liberdade. Físicos alemães engenhosos encontraram uma forma de determinar as condições do tempo em Londres com base em diferenças minúsculas no tom dos dim-dons transmitidos. Essa informação foi de inestimável ajuda para a Luftwaffe. Quando o serviço secreto britânico descobriu isso, substituiu a transmissão ao vivo por gravações do famoso relógio.
Para gerenciar a rede de grades horárias, relógios portáteis baratos, porém precisos, se tornaram onipresentes. Em cidades assírias, sassânidas ou incas possivelmente tenham existido no máximo alguns relógios de sol. Nas cidades medievais europeias, em geral havia um único relógio – uma máquina gigante no topo de uma torre alta na praça da cidade. Esses relógios de torres eram notoriamente imprecisos, mas, como não havia outros relógios na cidade para contradizê-los, não fazia muita diferença. Hoje, uma única família abastada costuma ter mais relógios em casa do que um país medieval inteiro. Você pode dizer a hora consultando seu relógio de pulso, passando os olhos por seu Android, espreitando o despertador ao lado da sua cama, observando o relógio de parede na cozinha, fitando o micro-ondas, dando uma espiada no aparelho de TV ou de DVD ou vendo de relance a barra de tarefas no seu computador. Você precisa fazer um esforço consciente para não saber que horas são.
Uma pessoa típica consulta esses relógios dezenas de vezes por dia, porque quase tudo que fazemos tem de ser feito em um momento específico. Um despertador nos acorda às sete da manhã, aquecemos nosso pãozinho congelado por exatos 50 segundos no micro-ondas, escovamos os dentes por três minutos até a escova de dentes elétrica apitar, pegamos o trem das 7h40 para o trabalho, corremos na esteira mecânica da academia até o alarme anunciar que se passou meia hora, sentamos em frente à TV às sete da noite para assistir a nosso programa favorito, somos interrompidos em momentos predefinidos por comerciais que custam mil dólares por segundo e acabamos por descarregar todo o nosso mal-estar em um terapeuta que restringe nosso falatório à hora de terapia, que agora, por convenção, dura 50 minutos. A Revolução Industrial provocou dezenas de reviravoltas importantes na sociedade humana. Adaptar-se ao tempo industrial é apenas uma delas. Outros exemplos notáveis incluem a urbanização, o desaparecimento da classe camponesa, a ascensão do proletariado industrial, o empoderamento do indivíduo comum, a democratização, a cultura jovem e a desintegração do patriarcado.
Mas todas essas reviravoltas são obscurecidas pela revolução social mais grandiosa que já atingiu a humanidade: o colapso da família e da comunidade local e sua substituição pelo Estado e pelo mercado. Até onde sabemos, desde os tempos mais antigos, há mais de 1 milhão de anos, os humanos viviam em pequenas comunidades íntimas, em que quase todos os membros eram parentes. A Revolução Cognitiva e a Revolução Agrícola não mudaram isso. Elas reuniram famílias e comunidades para criar tribos, cidades, reinos e impérios, mas as famílias e as comunidades continuaram sendo os tijolos essenciais de todas as sociedades humanas. A Revolução Industrial, por sua vez, conseguiu, em pouco mais de dois séculos, transformar esses tijolos em átomos. A maior parte das funções tradicionais das famílias e comunidades foram entregues aos Estados e aos mercados.
Yuval Noah Harari, in Sapiens: uma breve história da humanidade

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Entre o que Vejo

Entre o que vejo de um campo e o que vejo de outro campo

Passa um momento uma figura de homem.

Os seus passos vão com “ele” na mesma realidade,

Mas eu reparo para ele e para eles, e são duas coisas:

O “homem” vai andando com as suas ideias, falso e estrangeiro,

E os passos vão com o sistema antigo que faz pernas andar.

Olho-o de longe sem opinião nenhuma.

Que perfeito que é nele o que ele é — o seu corpo,

A sua verdadeira realidade que não tem desejos nem esperanças,

Mas músculos e a maneira certa e impessoal de os usar.

Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa

Outras Histórias, de Laerte