terça-feira, 19 de setembro de 2017

Primavera se abrindo

Prímulas

Uma coisa de que me orgulho é que sempre pressinto as mudanças de estação: alguma coisa no ar me avisa que vem coisa nova, e eu me alvoroço toda, não sei para o quê.
Na primavera do ano passado ganhei de uma grande amiga uma planta, prímula, tão misteriosa que no seu mistério está contida a explicação inexplicável de uma presença divina: o segredo do cosmos.
Essa planta, que aparentemente nada tem de singular, é dona do segredo da natureza.
Quando se aproxima a primavera, suas folhas morrem e em lugar delas nascem várias flores fechadas. A cor é roxo-violeta e branco, e mesmo fechadas têm um perfume feminino e masculino que é extremamente estonteador.
O segredo destas flores fechadas é que exatamente no primeiro dia da primavera elas se abrem e se dão ao mundo. Como? Mas como sabe esta modesta planta que a primavera acaba de se iniciar? E as flores se abrem de repente. A gente está sentada perto, olhando distraída, e eis que elas vagarosamente vão se abrindo se entregando à nova estação, sob os nossos olhos espantados. E a primavera então se instala. “Cresci como a vinha de frutas de agradável odor e minhas flores são frutos de glória e abundância.” (Eclesiástico, 24:33)
Clarice Lispector, in A descoberta do mundo

Quizas Quizas Quizas-Ibrahim Ferrer & Omara Portuondo

Abramowicz

Essa noite, não longe do cume da colina de Saint Pierre, uma valorosa e venturosa música grega nos acaba de revelar que a morte e mais inverossímil que a vida e que, por conseguinte, a alma perdura quando seu corpo é caos. Isto quer dizer que Maria Kodama, Isabelle Monet e eu somos três, como ilusoriamente acreditávamos. Somos quatro, já que também está conosco, Maurice. Com vinho tinto brindamos à sua saúde. Não fazia falta a tua voz, não fazia falta o roçar de tua mão nem tua memória. Estavas aí, silencioso e sem dúvida sorridente, ao perceber que nos assombrava e maravilhava esse fato notório que ninguém pode morrer. Estavas aí, ao nosso lado, e contigo as multidões dos que dormem com seus pais, segundo se lê nas páginas da Bíblia. Contigo estavam as multidões das sombras que beberam na tumba ante Ulisses e também Ulisses e também todos os que foram ou imaginaram os que foram. Todos estavam aí, e também meus pais e também Heráclito e Yorick. Como pode morrer uma mulher ou um homem ou uma criança, que foram tantas primaveras e tantas folhas, tantos livros e tantos pássaros e tantas manhãs e noites.
Esta noite posso chorar como um homem, posso sentir que pelas maçãs do rosto as lágrimas resvalam, porque sei que na terra não há uma só coisa que seja mortal e que não projete sua sombra. Esta noite me disseste sem palavras, Abramowicz, que devemos entrar na morte como quem entra em uma festa.
Jorge Luis Borges, in Os conjurados

Tradicional residêncial chinesa por Shi Zhifang

Fonte: Pinterest

Um dia eu conto

Choveu a noite anterior e Sidónio vem, pela calada do dia, canguruando pelas ruas. Saltita para rodear os charcos, no inglório esforço de poupar os sapatos. Contorna o mercado e vai deixando para trás a pensão onde se alojara desde que chegara a Vila Cacimba.
Encontra Dona Munda no pátio traseiro da casa, estendendo a roupa. O médico vai balançando, em rídicula dança, tentando escapar dos lençóis golpeados pelo vento.
Acha que ainda vai chover, Doutor?
Sidónio olha para cima, incompetente para tanto céu. Aquelas nuvens não são as suas, e mesmo que fossem as de Lisboa, ele não saberia ler nelas nenhuma previsão meteorológica. Não, ele nunca fora aquilo que na Vila se chama “um coleccionador de nuvens”.
Sempre que estendo lençóis — confidencia Munda — o fulano me espreita da janela. Coitado, ele pensa que preparo o leito da nossa nova noite de núpcias…
E por que não?
Nunca.
Porquê?
São razões minhas.
Mas a senhora ainda o ama. Vê-se bem que ainda o ama.
O amor não é chamado.
Pense bem no assunto, Dona Munda.
Quero que ele morra. Depois de Bartolomeu morrer, eu dormirei com ele todas as noites.
O médico vai seguindo a mulher por entre os esvoaçantes lençóis, como num jogo de cabra-cega.
A senhora tem que me dizer: porquê tanto ódio?
Ódio? Ódio seria sentimento demais para ele.
Por que pretende matar o seu marido? Que mal ele lhe fez?
Não é tanto o mal que fez: é o que ele vai fazer.
Bartolomeu não é suficientemente medroso para ser violento. Por que motivo fermentaria vinagres contra a própria esposa?
Bartolomeu não lhe fará mal.
Eu pergunto, então: por que motivo ele me ameaça todos os dias?
Mundinha deixa escorregar a bacia da roupa ao longo do ventre. Esfrega o rosto com o avental para secar o suor.
Pois eu vou-lhe dizer: esse fulano ameaça divulgar pelo bairro que eu sou uma feiticeira.
O destino das mulheres é serem culpadas. A idade torna-as ainda mais donas de perigosos saberes. Não é preciso prova. Basta que recaia sobre elas a acusação de feitiçaria. A justiça é sumária, sem juízes, sem juízos. O veredicto está facilitado: as mulheres já foram julgadas antes de haver tribunal.
A mais recente obra de feitiçaria de Munda poderia ser, por exemplo, a praga que recaiu sobre os soldados enlouquecidos. Mais do que outros exércitos, esses homens haviam, durante a recente guerra civil, desafiado poderes de natureza divina. Os tresandarilhos estavam pagando o preço dessa transgressão. Tudo por causa dos secretos poderes de Munda.
Sabe o que aconteceu a uma viúva que morava aqui ao lado? Acusada de bruxaria, foi apedrejada e morta.
Assassinada por mãos anônimas, legitimadas por receios milenares. Não muito diferente, afinal, da tentativa que ela buscava para matar o marido: um veneno disfarçado de remédio. A malograda vizinha enviuvara por completo. Munda era, apenas, a semiviúva. Os seus poderes esperavam pela morte do marido para se revelarem por inteiro.
Agora, Doutor, vá para dentro. Sossegue o fulano. Ele deve estar espreitando, nervoso de nos ver falando.
Eu vou, então.
E diga-lhe, já agora, que esta roupa não vem dos soldados. É roupa limpa, mais limpa que aquela que ele suja todos os dias.
O estrangeiro retrocede sem se virar, observando Munda aparecer e desaparecer entre os golpes de roupa branca. Acaba de abrir a porta que dá para o pátio, quando a mulher o faz parar:
Bartolomeu me disse que o senhor pensa visitar os lados do velho cemitério… Por favor, não vá.
O quartel fica para aqueles lados, eu tenho que ir lá, como médico sou obrigado…
Não vá, Doutor, eu lhe peço. Jura que não vai.
De qualquer maneira, terei que esperar que a chuva passe.
Não vá! Ainda fica contagiado pelos maus espíritos.
Vou pensar no seu conselho. Agora tenho é que ir ter com o meu doente predileto. Depois falamos, Dona Munda.
Sidónio Rosa entra na cozinha, sentindo que o olhar de Munda o segue até à obscuridade do ventre da casa. As cortinas estão fechadas, como sempre. Suspenso sobre um banco alto, o majestoso feto secou. Há tempo que morreu mas ninguém o deita fora. “Há-de renascer”, defende Munda. Sabida e consentida ilusão: a planta nunca mais viverá.
No fundo do corredor, a porta do quarto se abre, mesmo antes que o médico peça licença, e Bartolomeu dispara a pergunta:
Falavam de quê, vocês os dois?
Assim, sem bons-dias, nem saudações. As pálpebras tremem-lhe como folhas na ventania. A doença lhe minguara o rosto e fizera crescer os olhos a ponto de não poderem ser contemplados. A regra humana é: o corpo todo envelhece, menos os olhos. Em Bartolomeu, até o olhar o tempo embaciara.
Feiticeira, sim, é isso mesmo que ela é — proclama o doente.
Não diga isso, é perigoso…
Perigosa é ela mesmo.
Bastava encostar-se numa única lembrança para fazer prova: certa vez ele lhe oferecera uma flor, um lírio selvagem de grandes pétalas brancas. Colocada em jarra, a flor parecia iluminar a sala.
Cheira a carne, essa flor.
Foi o agradecer dela. Apenas isso, sem pitada de gratidão. No dia seguinte, a flor se havia convertido numa mão humana. A mulher confirmou o presságio:
Eu disse que não colhesse flores naquele campo?
Que mais tem esse campo?
Esse campo não podia dar flores. Esse campo foi um cemitério dos soldados alemães, é um lugar maldito.
Maldito porquê? Não foi ali que o seu avô alemão, esse muito transacto, foi sepultado?
Bartolomeu hesitou: deitava ao lixo a flor, aliás, a mão? Sem coragem para fazer, nem força para não fazer, acabou por não se aproximar da jarra. Não imaginava quanto se iria arrepender da sua passividade. Na manhã seguinte, a mão pingava sangue e, em vez de água, um líquido rosado preenchia o bojo transparente do vaso. Dona Munda advertiu:
Não tarda que daqui nasça um corpo inteiro.
Neste ponto do relato, o velho Bartolomeu cala-se, subitamente alheado de tudo.
E o que aconteceu à mão? — inquire o médico.
Que mão?
A mão que virou flor, essa história que me estava a contar.
Suspenso no vácuo, Bartolomeu Sozinho enfrenta o médico nos olhos e murmura:
Um dia eu conto. Neste momento estou muito cansado.
Só nós vemos a flor, em si mesma. Mas essa é uma visão ilusória: a flor é a planta toda inteira. A flor existe na fragilidade do caule, estende-se pelas profundezas da raiz; a flor é a terra em redor, é a água que ascende em seiva. Arrancar a flor do cemitério é rasgar a terra onde os mortos fazem morada. Tinha sido isso que sucedera: com as pétalas veio areia das campas, a sala tinha sido conspurcada, a casa amaldiçoada. Mas nada disso o mecânico relembrou. Ele estava ausente, arrependido de ter chamado o assunto.
Um dia conto, agora dói-me muito a alma.
Então por que não se deita? Vai ver que não tarda a dormir com os anjos.
Com quem?
Com os anjos, é uma forma de expressão.
Eu precisava era de uns comprimidos para me ajudar a dormir.
Vai ver que, esta noite, dorme como um santo.
Como quem?
É uma outra forma de expressão.
Sabe uma coisa? Sinto que os meus fígados estão a regressar à barriga. E não é uma forma de expressão.
É bom sinal, os fígados querem-se é na barriga.
O medicamento que me deu o mês passado está agora a fazer efeito.
Sidónio já nem se recorda da receita. Disfarça para não contrariar a aura de omnipotência que lhe cabe como médico.
Ainda bem, ainda bem.
Não me pode receitar mais?
Um vago “claro, claro” assegura que não haja mais assunto. Já se erguendo para as despedidas, ocorre ao médico um motivo para se demorar um pouco mais. Adia o regresso à pensão, com medo de marinar na solitária angústia de quem não sabe esperar.
Ah, é verdade, então eu hoje não tenho direito a um sonho?
A idade enevoou a cabeça de Bartolomeu. O homem não se lembra dos sonhos recentes. Por isso, narra apenas os velhos sonhos. Alguns, como ele diz, mais velhos que ele próprio.
Sente-se, Doutor, que eu tenho aqui um sonho, este sonho é muitíssimo bom, primeira qualidade. Mas, já sabe, depois do sonho, recebo uma qualquer coisita.
Está combinado.
Um cigarrito?
Olhos de menino, o português ganha assento na esquina da cama, mãos pousadas sobre os joelhos, enquanto o velho vai narrando:
Eu fiz este sonho na noite de… deixe-me ver… foi exatamente na noite de cinco de Fevereiro de 1989… ou, espere… talvez fosse a noite anterior… bom, se não era cinco era quatro.
Deixe a noite, Bartolomeu, o que importa é o sonho.
O médico estranha a sua própria ansiedade. Naquele lugar sem outra evasão, o relato dos sonhos de Bartolomeu era uma espécie de matinée de cinema. O doente desenrola a voz numa poalha luminosa e o português vai-se lembrando da sua cidade, dos rumores confusos provenientes das ruas atafulhadas de carros e gentes. E recorda Deolinda, o encontro fugaz e fabuloso, sob o fundo de luz branca de Lisboa.
Quando Sidónio volta a dar conta do tempo, já Bartolomeu desnovela: “… chovia aquela noite…”.
Chovia no sonho?
Oh, Doutor, o senhor sofre mesmo de poesias: então chove nos sonhos?
Eu, poesias?
Não é de agora. O senhor já anda poetando há muito tempo. Por exemplo, quando o senhor me aconselha para eu cortar nas bebidas…
Acha que isso é poesia?
Então não é? Cortar-se na bebida? A gente pode cortar nas árvores, cortar na roupa, cortar sei lá onde, mas diga lá, Doutor, que faca corta um líquido? Só a faca da poesia.
Você é que anda muito inspirado nestes dias, meu caro Bartolomeu.
Ah, é verdade! Há ainda mais outra: o senhor diz que beber me faz gota. Sabendo os litros que bebo, Doutor, é preciso muita poesia para falar em gota…
Que também ele, Bartolomeu Sozinho, fora dado a poesias. E pela centésima vez reabre a gaveta para reler num bloco de notas algo que escrevera sobre tempos e pensamentos. Avança para o centro do aposento e faz de conta que vai lendo um invisível manuscrito: “Aos 10 anos todos nos dizem que somos espertos, mas que nos faltam ideias próprias. Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com ideias. Aos 30 anos pensamos que ninguém mais tem ideias. Aos 40 achamos que as ideias dos outros são todas nossas. Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter ideias. Aos 60 ainda temos ideias mas esquecemos do que estávamos a pensar. Aos 70 só pensar já nos faz dormir. Aos 80 só pensamos quando dormimos”. A mão tomba-lhe num inesperado abatimento e Bartolomeu sacode a cabeça como que surpreso pela sua própria criação.
Munda diz que isto não é da minha autoria. Mas eu escrevi isto a bordo do Infante D. Henrique. Eu lá também sofri de poesia.
O português contempla o velho com comiseração. A inexistente folha de papel que lhe pende do braço pesa mais do que ele pode suportar. E ele mesmo, Sidónio Rosa, se sente subitamente envelhecido. A idade é uma repentina doença: surge quando menos se espera, uma simples desilusão, um desacato com a esperança. Somos donos do Tempo apenas quando o Tempo se esquece de nós.
Você devia sair, apanhar sol. Qualquer dia, você está da minha cor.
O senhor não tem cor, Doutor. As pessoas não têm cores. Ou têm cores que não têm nome.
Mia Couto, in Venenos de Deus, remédios do Diabo

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Fazer uma cadeira

Às vezes, digo que fazer um romance é o mesmo que fazer uma cadeira: a cadeira tem que ter quatro pés, tem que estar equilibrada, a pessoa tem que se sentar na cadeira e estar confortável, há uma estrutura e as coisas têm que estar apoiadas umas nas outras para que a cadeira não caia. E, por outro lado, se a cadeira, além de funcionar, de responder à necessidade que se tem, na hora de se sentar, de que ela seja sólida, puder carregar uma estética, puder ser bonita, bem desenhada, pois aí, sim… Mas tudo precisa de ser sólido, e o romance tem, do meu ponto de vista, que ter uma estrutura em que o leitor não diga “pois aqui falta algo” ou que se alongou excessivamente. Todas são partes de um todo que tem que funcionar de uma forma, no fundo, equilibrada. Talvez possa parecer surpreendente que eu diga que escrever um romance é o mesmo que fazer uma cadeira, mas isso só significa o respeito ao trabalho bem-feito: pode ser um romance ou pode ser uma cadeira, e quem diz uma cadeira pode dizer muitíssimas outras coisas.
José Saramago, in As palavras de Saramago

Roberta Sá, António Zambujo e Yamandú Costa | "Eu Já Não Sei"

Pós-escrito

Em favor da dignidade da pesca de baleias, eu não diria nada além de fatos comprovados. Mas se, depois de apresentar seus fatos, um advogado suprime totalmente as suposições razoáveis, que poderiam beneficiar eloquentemente sua causa – não seria censurável a conduta de tal advogado?
Todos sabem que na coroação de reis e rainhas, mesmo os modernos, se utilizam certos procedimentos curiosos para fazer com que se acostumem às suas funções. Há um saleiro de Estado, por assim dizer, e pode haver um galheteiro de Estado. Como usam o sal exatamente – quem sabe? Mas tenho certeza de que a cabeça do rei é solenemente ungida em sua coroação, tal como se fosse um pé de alface. Será que a untam para que funcione bem por dentro, como fazem com as máquinas? Muito poderia ser pensado sobre a dignidade essencial desse procedimento régio, porque na vida comum consideramos desprezível e ordinário um sujeito que passa óleo no cabelo e fica cheirando a óleo. Na verdade, um homem maduro que usa óleo no cabelo, a não ser que seja por motivos de saúde, provavelmente tem algo de débil em si. Como regra geral, não vale grande coisa.
Mas a única coisa a ser considerada aqui é a seguinte: que tipo de óleo é usado nas coroações? Certamente não é azeite de oliva, nem óleo de Macaçar, nem óleo de castor, nem óleo de urso, nem óleo de trem, nem óleo de fígado de bacalhau. Então o que pode realmente ser, senão óleo de cachalote, sem manufatura, em estado puro, o mais doce de todos os óleos?
Pensai nisso, leais Britânicos! Nós, baleeiros, fornecemos material para a coroação dos vossos reis e rainhas!
Herman Melville, in Moby Dick

Ao ponto

Há quem receite a palavra ao ponto de osso, de oco
ao ponto de ninguém e de nuvem.
Sou mais a palavra com febre, decaída,
fodida, na sarjeta.
Sou mais a palavra ao ponto de entulho.
Amo arrastar algumas no caco de vidro,
envergá-las pro chão, corrompê-las
até que padeçam de mim e me sujem de branco.
Sonho exercer com elas o ofício de criado:
usá-las como quem usa brincos.
Manoel de Barros

Um grande português

Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário.
Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa.
Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: “Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O senhor quer? Largo-lhas por vinte mil réis cada uma”.
Deixa ver”, disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as: “Para que quero eu isso?”, disse; “isso nem a cegos se passa.”
O outro, porém, insistiu. Vigário cedeu um pouco regateando e por fim fez-se o negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma.
Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos, negociantes de gado como ele, a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia da feira, na qual se deveria efetuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade, quando surgiu pela porta, cambaleando de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Eles disseram que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem.
Houve então a troca de outro olhar.
O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O Vigário continuou a conversa, e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho.
Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as coisas todas certas. E ditou o recibo — um recibo de bêbado, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, e “estando nós a jantar” (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa do bêbado...), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.
Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia a recebê-la devolveu-a logo, por ser escarradamente falsa, e o mesmo fez à segunda e à terceira... E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar.
Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atônito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido.
Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis. “E se eu tivesse pago em notas de cem”, rematou o Vigário, “nem eu estava tão bêbado que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam.” E, como era de justiça, foi mandado em paz.
O caso, porém, não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do “conto de réis do Manuel Vigário” passou, abreviada, para a imortalidade quotidiana, esquecida já da sua origem.
Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que, se há um céu para os hábeis, como constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade — nem um leve brilho de olhos de Macchiavelli ou Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Savile, Marquês de Halifax.
Fernando Pessoa, in A hora do diabo e outros contos

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Criativas ilustrações do livro "Being a writer"







O assalto

A casa luxuosa no Leblon é guardada por um molosso de feia catadura, que dorme de olhos abertos, ou talvez nem durma, de tão vigilante. Por isso, a família vive tranquila, e nunca se teve notícia de assalto à residência tão bem protegida.
Até a semana passada. Na noite de quinta-feira, um homem conseguiu abrir o pesado portão de ferro e penetrar no jardim. Ia fazer o mesmo com a porta da casa, quando o cachorro, que muito de astúcia o deixara chegar até lá, para acender-lhe o clarão de esperança e depois arrancar-lhe toda ilusão, avançou contra ele, abocanhando-lhe a perna esquerda. O ladrão quis sacar do revólver, mas não teve tempo para isto. Caindo ao chão, sob as patas do inimigo, suplicou-lhe com os olhos que o deixasse viver, e com a boca prometeu que nunca mais tentaria assaltar aquela casa. Falou em voz baixa, para não despertar os moradores, temendo que se agravasse a situação.
O animal pareceu compreender a súplica do ladrão, e deixou-o sair em estado deplorável. No jardim ficou um pedaço de calça. No dia seguinte, a empregada não entendeu bem por que uma voz, pelo telefone, disse que era da Saúde Pública e indagou se o cão era vacinado. Nesse momento o cão estava junto da doméstica, e abanou o rabo, afirmativamente.
Carlos Drummond de Andrade, in Contos plausíveis

Filhos da pátria

Lembro que no primeiro ano da invasão do Iraque, um canal de TV transmitiu um programa em que um norte-americano, negro, de dedo em riste para a câmera, gritava que Bush havia lhe tirado seu bem mais precioso: o filho.
Ao ver essa cena, recordei um conto de William Faulkner: “Dois soldados”.
É uma história triste e comovente, narrada por um menino de nove anos. Ele e Pete — seu irmão mais velho — moram com os pais em Frenchman’s Bend, um povoado nos confins do sul dos Estados Unidos. Ambos trabalham com o pai na pequena lavoura da família. Durante a noite, os dois irmãos acompanham furtivamente o noticiário transmitido pelo rádio de um vizinho, o velho Killegrew. Pete ouve a notícia do bombardeio de Pearl Harbor pelo Exército japonês em dezembro de 1941. Por algum tempo, eles ouvem notícias da guerra, até que um dia Pete diz ao irmão:

Tenho que ir.”
Ir para onde?”, pergunta o menino.
Para essa guerra”, responde Pete.
Antes de levarmos a lenha pra casa?”
Ao diabo a lenha”, diz Pete. “Não vou permitir que ninguém trate os Estados Unidos desse modo.”
Sim”, diz o menino. “Com lenha ou sem lenha parece que temos de ir.”

Em Memphis, Pete alista-se no Exército e em seguida viaja para a Ásia. Nesse relato de Faulkner, o que comove e faz pensar não é a decisão de Pete, cujo dever de defender a pátria é menos importante que a reação de seus familiares. Essa reação é o contrapeso ao arroubo patriótico de Pete. O caçula foge de casa, vai a pé para Jefferson, depois pega um ônibus até Memphis. O encontro dos irmãos — dois soldados — antes da partida sem volta de Pete é um dos momentos mais significativos do conto. Para o mais velho, o sentimento do dever e da honra prevalece sobre a separação da família. Para o caçula, o patriotismo é uma noção vaga, mas a batalha contra os japoneses lhe serve de pretexto para permanecer ao lado do irmão. Quando eles se separam em Memphis, o caçula regressa a Frenchman’s Bend; ao chegar à sua casa ele percebe ou sente que nunca mais verá o irmão e chora. O desfecho do conto é o choro convulsivo da criança.
Mas há outra passagem relevante, que remete à cena a que assisti na TV sobre um americano que perdeu o filho na invasão do Iraque. É uma página que diz respeito à estupidez da guerra, de todas as guerras. Uma única vez, os pais de Pete tentam persuadi-lo a não ir lutar na Ásia.
Ir para a guerra?”, pergunta o pai. “Por quê? Acho que isso não serve para nada. Não tens idade para o recrutamento, e não estão invadindo o país.”
Os pais de Pete mencionam um parente que participou na França da Primeira Guerra Mundial; o próprio pai alistou-se no Exército e passou nove meses em Memphis, à espera de uma convocação que, afinal, não aconteceu. Mas a mãe de Pete foi mais enfática, contrariando o senso comum do patriotismo norte-americano como algo sagrado. A mãe diz, chorando:
Se pudesse, eu mesma iria no lugar dele. Não quero salvar o país.”
Há várias formas de patriotismo. O tipo mais vulgar é fanático, ufanista, não raramente irmanado a uma religião, e cego e surdo à dor dos outros. Mas há também um patriotismo mais sofisticado e profundo, muito menos autorreferente, capaz de dialogar com outras culturas e superar limites estreitos de lealdade e honra. Em todo caso, nenhum patriotismo deveria ser mais forte do que o amor incondicional por um filho.
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

Ivan Lins & Band - Jazz San Javier 2017

Os bolsos do morto

O morto não é exatamente um amigo. Mais um conhecido, mas daqueles que você não pode deixar de ir ao velório. E lá está ele, estendido dentro do caixão forrado de cetim, de terno azul-marinho e gravata grená, esperando para ser enterrado.
Se fosse um amigo você ficaria em silêncio, compungido, lembrando o morto em vida e lamentando sua perda. Como é apenas um conhecido, você comenta com o homem ao seu lado — que também não parece ser íntimo do morto:
Poderiam ter escolhido outra gravata...
É. Essa está brava.
Já pensou ele chegando lá com essa gravata?
— “Lá” onde?
Não sei. Onde a gente vai depois de morto. Onde vai a nossa alma.
Eu acho que a alma não vai de gravata.
Será que não? E de fatiota?
Também não.
Bom. Pelo menos esse vexame ele não vai passar.
Você é da família?
Não. Apenas um conhecido.
Você examina o morto. Engraçado: ele vai partir para a viagem mais importante, e mais distante, da sua vida, mas não precisa carregar nada. Identidade, passaporte, nada. Nem dinheiro, o que dirá cheques de viagem ou cartões de crédito. Nem carteira!
Você diz para o outro:
A coisa mais triste de um defunto são os bolsos.
O outro estranha.
Como assim?
Os bolsos existem para ele carregar coisas. Coisas importantes, que definem a sua vida. CPF, licença para dirigir, bloco de notas, caneta, talão de cheques, remédio pra pressão...
Pepsamar.
Pepsamar, cartão perfurado da Sena, recortes de artigos sobre a situação econômica, fio dental... Isso sem falar em coisas com importância apenas sentimental. Por exemplo: um desenho rabiscado por uma possível neta que parece, vagamente, um gato, e que ele achou genial e guardou. Entende?
Sei...
E aí está ele. Com os bolsos vazios. Despido da vida e de tudo que levava nos seus bolsos, e que o definia. O homem é o homem e o que ele leva nos bolsos. Poderiam ter deixado, sei lá, pelo menos um chaveiro.
Você acha?
Claro. As chaves da casa. As chaves do carro. Qualquer coisa pessoal, que pelo menos fizesse barulho num bolso da fatiota, pô!
Você se dá conta de que está gritando. As pessoas se viram para reprová-lo. “Mais respeito” dizem as caras viradas. Você faz um gesto, pedindo perdão. Sou apenas um conhecido, desculpem. Mas continua, falando mais baixo:
A morte é um assaltante. Nos mata e nos esvazia os bolsos.
Sem piedade.
Nenhuma.
Luís Fernando Veríssimo, in Diálogos impossíveis