terça-feira, 28 de março de 2017

Incenso fosse música

Isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além
gardênias e hortênsias
não façam nada
que me lembre
que a este mundo eu pertença
deixem-me pensar
que tudo não passa
de uma terrível coincidência
À glória sucede
o que sucede à água:
por mais água que beba,
qual lhe sacia a sede?
Diverso o sucesso,
basta-lhe um verso
para essa desgraça
que se chama dar certo.
Paulo Leminski

Relendo Rilke (E com direito a Jorge Amado)

Ao som das canções de Sarah Vaughan, dei ultimamente - embora já dele tão distanciado por tantas e tão grandes causas - de reler o poeta Rainer Maria Rilke. Andei folheando as Cartas a um jovem poeta, os Sonetos a Orfeu e algumas Elegias de Duino. E o que tenho a dizer é o seguinte: poucos seres tão poéticos nasceram nunca de uma mulher. Pouquíssimos, como esse Grande Enfermo, viveram tanto em poesia e se abandonaram mais fundamente, náufrago irremediável, à avidez de suas águas onde o esperava o indizível abandono.
Nunca vida humana fechou-se mais completamente dentro de uma mística. Chega a ser impressionante. Rilke passou, como aquele “afogado pensativo”, a descer os “azuis verdes” dos céus e dos rios que a visão de Jean-Arthur Rimbaud confundiu no seu poema “Le Bateau ivre”. O poeta viveu em transe poético constante, amargurando seu espírito contra todos os temas da Vida, do Amor e da Morte, a que piedosamente amou como uma única entidade.
Sua simplicidade como poeta nasce dessa longa tortura lírica de ver a morte como um amadurecimento da vida, numa total compensação. Rilke acreditava que a morte nasce com o homem, que este a traz em si tal uma semente que brota, faz-se árvore, floresce e frutifica ao se despojar do seu alburno humano. Seus poemas menores vencem lentamente todos esses "graus do terrível", num crescimento espontâneo para a grande enflorescência, de onde penderão os melhores frutos, desejosos de renovação na terra.
Em 1910 Rilke terminava os seus famosos Cadernos de Malte Laurids Brigge, onde contou, com uma beleza raras vezes alcançada em prosa, a história elegíaca da destruição de um ser votado à fatalidade irremediável da mágoa. Porque é mágoa, mais que angústia, o que colhemos dessa narrativa: a mágoa do mal-entendido humano, o solilóquio desolador do homem desajustado à vida. A qualidade do sofrimento que lhe vem dessa torturante criação, como que lhe afina ainda mais a sensibilidade, já de si tão aguçada para todos os sussurros da poesia. O poeta pena, como penou por um momento o Cristo, da coexistência íntima da dúvida e da certeza, enquanto vagueia, morbidamente enfraquecido pela doença, pelos lugares que mais ama na Europa: Paris, a Rússia e os países escandinavos, intermitentemente.
Em fins de 1911, instado pelos príncipes de Tour e Taxis, Rilke vai passar sozinho o inverno no Castelo de Duino. Um belo dia de janeiro, passeando às bordas de um penhasco sobre o Adriático, diz ter ouvido no vento o mistério de uma voz que lhe dizia: “Quem, se eu gritasse, me ouviria em meio à hierarquia dos anjos?” Eriçado, e ao mesmo tempo atônito com o milagre dessas palavras que lhe surgiam com a própria poesia desejada, o poeta as anotou e, nesse mesmo dia, escrevia o primeiro movimento desse bloco sinfônico a que chamou Elegias de Duíno. Tão temperados se achavam nele os motivos da obra em perspectiva que, em poucos dias, escrevia a segunda da série e o começo de quase todas as outras.
Mas o impulso cessou. Por dez anos Rilke calou-se, à espera de que nele as palavras encontrassem seu lugar exato no grande puzzle poético que se desencadeara. Em Paris, na Espanha e em Munique acrescentou fragmentos a algumas das elegias, sofrendo terrivelmente da descontinuidade com que a poesia se revelava. E não seria senão depois da Primeira Grande Guerra, no seu refúgio da Suíça, em Muzot, que num sopro de criação poucas vezes igualado, só comparável talvez a certos instantes de música e de pintura em Miguelangelo e Beethoven, escreveria em três semanas as oito elegias restantes, Os 55 Sonetos a Orfeu e vários outros poemas a que chamou Fragmentarishes. Fora o último espasmo de vida nesse eterno, sereno moribundo. A Morte, sua amiga, desobjetivava-o poucos anos depois, como “um rio que leva”. Rilke recusou o médico: queria morrer a sua morte.
Mas, depois, o mal-estar em que me deixou essa combinação de Rilke e Sarah Vaughan... Foi quando tive a boa idéia de ler tua novela A morte e a morte de Quincas Berro D'água, Jorge. Que mortes tão diferentes... Que beleza, Jorge, que beleza!
Vinicius de Moraes, in Para viver um grande amor

Angeli: sempre atual*

*Publicado na Folha de S. Paulo em 2009

Novidades

Cada dia é preciso escrever sobre uma coisa nova — mas novidades, as últimas, só as há nas vitrinas de butiques, nos catálogos de acessórios domésticos, nos belíssimos e caros anúncios de medicamentos caros.
Estas é que importam, fascinam, dão água na boca — quem é que não deseja ser saudável como os ginastas das estátuas gregas ou, se mulher, ter o porte e o charme dos manequins de moda? Mas, por azar, o que mais interessa só pode ser sob prescrição médica...
O resto, quase o que só se lê, são ninharias: sequestros, estupros, assaltos e outras coisas que ficam além do alcance do vulgo. Resta a política, mas agora em mãos de especialistas, de modo que a gente fica igualmente por fora.
Parece que diante de tudo isso a única solução é fabricar fogos de artifício, girândolas, busca-pés e traques, na falta de outras coisas menos líricas.
Mas os cartolas dirão que não é tempo de lirismos. Ouçamos, pois, o que digressionam eles sobre assuntos econômicos. Isto, sim, é que toca a todos nós nestes tempos bicudos. Como?! Não entendeste nada? E alegas que é porque eles falam economês? Nada disto, meu santo. Eles acabam de expressar-se no mais puro chinês!
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

Representação

Porque em todas as circunstâncias da vida real, não é a alma dentro de nós, mas sua sombra, o homem exterior, que geme, se lamenta e desempenha todos os papéis neste teatro de palcos múltiplos, que é a terra inteira.”
Plotino

Visitante noturno

O inseto apareceu sobre a mesa como todos os insetos: sem se fazer anunciar. E sem que se atinasse por que motivo escolhera aquele pouso. Não parecia bicho da noite, desses que não podem ver lâmpada acesa, e logo se aproximam, fascinados. Era uma coisinha insignificante, encolhida sobre o papel e ali disposta, aparentemente, a passar o resto de sua vida mínima, sem explicação, sem sentido para ninguém.
Ninguém? O homem, que tem o hábito de ficar altas horas entre papéis e livros, sentiu-lhe a presença e pensou imediatamente em esmagar o intruso. Chegou a mover a mão. Não o mataria com os dedos, mas com outra folha de papel.
Deteve-se. Não seria humano liquidar aquele bichinho só porque estava em lugar indevido, sem fazer mal nenhum. Inseto nocivo? Talvez. Mas sua ignorância em entomologia não lhe dava chance de decidir entre a segurança e a injustiça. E na dúvida, era melhor deixar viver aquilo, que nem nome tinha para ele. Com que direito aplicaria pena de morte a um desconhecido infinitamente desprovido de meios sequer para reagir, quanto mais para explicar-se?
O inseto parecia pouco ligar para ele, juiz autonomeado e algoz em perspectiva. Dormia ou modorrava sobre a mesa literária, indiferente, simplesmente. Chegara por acaso, sumiria daí a pouco; deixá-lo viver a seu modo, que era um viver anônimo, desligado de inquietações humanas, invariável dentro da natureza: curto e pobre.
Uma ternura imprevista brotou no homem pelo animálculo que momentos antes pensara em destruir. Como se alguém viesse de longe para vê-lo, fazer-lhe companhia, em sua noite de trabalho. Não conversava, não incomodava, era uma questão apenas de estar à sua frente, imóvel, em secreta comunhão. Ele fora o escolhido de um inseto, que poderia ter voado para outro apartamento, onde houvesse outra vigília de escrevedor de coisas, mas aquela fora a casa de sua preferência.
A menos que o acaso determinasse aquele encontro. Era possível. O inseto voara a esmo. O homem quis aferrar-se a esta hipótese, bem plausível. Já se envergonhava de ter envolvido o estranho numa aura de sensibilidade, e talvez voltasse ao impulso inicial de eliminação. A essa altura, espantou-se com a mobilidade de suas reações. Passava de verdugo a sentimentalão, depois a observador cético e crítico, finalmente perdia-se na confusão das várias atitudes que podemos assumir diante de um inseto instalado na mesa de um escritório, a uma hora que ainda não é madrugada mas já é noite alta e de sono profundo.
Aquietou-se, afinal, na contemplação do “bicho da terra tão pequeno”. Era alguma coisa parecida com um botão marrom rombudo, que tivesse olhos e um projeto de asas — o suficiente para deslocar-se no espaço em aventuras breves. E não era uma aventura simples: a altura do edifício exigia esforço grande para chegar da árvore até o décimo primeiro andar. Entretanto, o botão vivo o fizera, e ali estava, tranquilo ou cansado, à mercê do gigante indeciso, que procurava entender, não propriamente sua presença, mas a turbação íntima que essa presença despertava no gigante.
O homem não pensou em recorrer às enciclopédias para identificar o visitante. Ainda que chegasse a identificá-lo como espécie, não avançaria muito no conhecimento do indivíduo, que era único por ser entre todos o que o visitava. E na multidão de insetos, imagináveis e inimagináveis, só lhe interessava aquele, companheiro noturno vindo de não se sabe onde, a caminho de ignorado rumo.
Já não escrevia. Olhava. Mirava. Sentia-se também olhado e mirado, quando o inseto fez ligeiro movimento que o colocou diretamente sob o foco de luz. Seria exagero encontrar expressão naqueles dois pontinhos negros e reluzentes, mas o fato é que deles parecia vir para os olhos do homem um sinal de atenção ou curiosidade. E os dois, homem e inseto, assim ficaram longo tempo, na muda inspeção, ou conversa, que não conduzia a nada.
A nada? Muitas conversas entre homens também não levam a resultado algum, mas há sempre a esperança de um entendimento que pode vir das palavras ou de uma troca desprevenida de olhares. E o olhar pode penetrar mais fundo que as palavras. O homem sabia disto. Mas aí notou que, sabendo falar alguma coisa, não era perito em ver diretamente o real. A figura do inseto dizia-lhe pouco. Dos dois, talvez fosse ele, homem, o que menos habilitado se achava para uma forma de comunicação, aquém — ou além — dos códigos tradicionais.
Distraiu-se avaliando essas limitações e, ao voltar à observação do visitante, este havia desaparecido, decepcionado talvez com a incomunicabilidade dos gigantes. Não é todas as noites que um inseto nos visita. E, se consegue insinuar-nos alguma coisa, esta nunca jamais foi captada para os homens que merecem crédito; só os ficcionistas é que costumam registrá-la, mas quem leva a sério ficcionistas?
Carlos Drummond de Andrade, in Boca de luar

segunda-feira, 27 de março de 2017

Pipoquinha e Pedro Martins - 8ª Edição Festival Choro Jazz

Corridinho

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.
Adélia Prado

Injustiça

Estava cavando um buraco quando reparei no Fábio Grande: com uma bacia de plástico, ele tirava areia do tanque e ia enchendo um caixote de madeira, ao lado. Parei de cavar e fiquei observando. Até então, para mim, tanque era buraco ou castelo. Não sabia que podia tirar areia dele, nem que era possível, usando uma bacia, remanejar um volume tão grande — o caixote cheio era quase como um tanque de areia paralelo. Fui até ele, empolgado:
Que que cê tá fazendo?! Que que cê tá fazendo?!
Fábio Grande me olhou com descaso:
Cê vai ver.
Ofereci ajuda, tentei pegar um pouco de areia com as mãos e jogar no caixote, ele recusou:
Não é assim que faz.
Magoado, voltei ao meu buraco, mas a curiosidade era maior do que o orgulho: não tirava os olhos do caixote, pensando numa maneira de ser aceito na brincadeira. Depois de uns minutos, Fábio Grande deu o trabalho por terminado. Pôs a bacia no chão, esfregou as mãos para tirar a areia, me deu uma olhada de esguelha, só pra confirmar que seu público estava atento, sentou em cima do caixote e anunciou, orgulhoso, a quem pudesse interessar:
É um trem.
Caramba, um trem.
Vagão ou locomotiva?
Ele não tinha pensado nisso. Hesitou.
Locomotiva, claro.
Era sensacional. A bacia, o caixote, agora uma locomotiva: coisa de gênio. E eu só tinha aquele buraquinho? Mandei a vaidade às favas:
Posso brincar também?
Não.
Por que não?
Porque o trem é meu.
Dizendo isso, Fábio Grande espalhou a bunda e esticou as pernas sobre o caixote, de modo a não deixar nem um cantinho para um segundo passageiro.
Nem parece um trem.
Não, é?
Ele sorriu com o canto da boca, começou a chacoalhar o corpo e fazer piuííí, piuííí, piuííí. Eu queria andar no trem. Eu queria muito andar no trem do Fábio Grande. O mundo era só trem, trem, trem, trem, trem: empurrei Fábio Grande para fora do caixote e me sentei em seu lugar. Fiz piuííí, piuííí, olhei pra ele, vingativo e assustado, e, já sabendo que minha glória duraria pouco, resolvi colocar potência total, fiz tchuctchuctchuc, piuúúúúú, tchuctchuctchuc, piuúúúúú, chacoalhando o corpo, mostrando pra ele como é que se brinca de locomotiva. Fábio Grande pegou a bacia do chão e a próxima coisa que eu sei é que estou sendo levado às pressas pra enfermaria, o sangue escorrendo pelo meu nariz e fazendo um trilho, sobre o qual Fábio Grande vem seguindo, de olhos arregalados, “Ele que começou! Ele que começou!”, eu chorando e apontando o caixote: “Por que só ele pode brincar no trem? Por que só ele pode brincar no trem?! Por que só ele pode brincar no trem?!”.
Antonio Prata, in Nu, de botas

O ori-game econômico, por Aroeira


Vontade e ação

Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?”
Fernando Pessoa

Alegorias

No meu último ano de escola, no Colégio Nacional de Buenos Aires, um professor cujo nome não me importo de ter esquecido leu para nossa turma o seguinte: Tudo que as alegorias pretendem dizer é somente que o incompreensível é incompreensível, e isso já sabemos. Mas os problemas com que lutamos diariamente são uma coisa diferente. Sobre esse assunto, um homem perguntou certa vez: “Por que tanta teimosia? Se apenas seguissem as alegorias, vocês também se tornariam alegorias e dessa forma resolveriam todos os seus problemas cotidianos”.
Outro disse: “Aposto que isso também é uma alegoria”.
O primeiro disse: “Você ganhou”.
O segundo disse: “Mas ai de mim, só alegoricamente!”.
O primeiro disse: “Não, na vida real. Alegoricamente, você perdeu”.
Esse texto curto, que nosso professor jamais tentou explicar, perturbou-nos e provocou muitas discussões no enfumaçado café La Puerto Rico, logo dobrando a esquina da escola. Franz Kafka escreveu-o em Praga, em 1922, dois anos antes de sua morte.
Passados 45 anos, ele nos deixava, adolescentes inquisitivos, com o sentimento inquietante de que qualquer interpretação, qualquer conclusão, qualquer sentimento de ter “compreendido” a ele e suas alegorias estavam errados. O que aquelas poucas linhas sugeriam não era apenas que cada texto pode ser lido como uma alegoria (e aqui a distinção entre “alegoria” e o conceito menos dogmático de “símbolo” fica obscurecida), revelando elementos de fora do próprio texto, mas que cada leitura é em si mesma alegórica, objeto de outras leituras. Sem conhecer o critico Paul de Man, para quem “as narrativas alegóricas contam a história do fracasso de ler”, estávamos de acordo com ele em que nenhuma leitura pode jamais ser final. Com uma diferença importante: o que De Man considerava um fracasso anárquico, nós víamos como uma prova de nossa liberdade enquanto leitores. Se não havia algo como “a última palavra” na leitura, então nenhuma autoridade poderia nos impor uma leitura “correta”. Com o tempo, percebemos que algumas leituras eram melhores que outras - mais informadas, mais lúcidas, mais desafiadoras, mais prazerosas, mais perturbadoras. Mas o recém-descoberto sentimento de liberdade jamais nos abandonou e ainda agora, deleitando-me com um livro que certo resenhista condenou ou deixando de lado outra obra que recebeu muitos elogios, acho que posso recordar vivamente aquele seu momento rebelde.
Sócrates afirmava que somente o que o leitor já conhece pode ganhar vida com uma leitura, e, para ele, o conhecimento não pode ser adquirido através de letras mortas. Os primeiros eruditos medievais buscavam na leitura uma infinidade de vozes que, em última instância, ecoavam uma única voz: o logos de Deus. Para os humanistas da Idade Média tardia, o texto (incluindo a leitura que fez Platão do argumento socrático) e os sucessivos comentários das diversas gerações de leitores implicavam tacitamente que era possível haver não apenas uma, mas um número quase infinito de leituras, todas alimentando-se reciprocamente. Nossa leitura em sala de aula do discurso de Lísias recebeu a contribuição de séculos dos quais Lísias jamais suspeitou – assim como não poderia fazer ideia do entusiasmo de Fedro ou dos comentários astuciosos de Sócrates. O livro na minha estante não me conhece até que eu o abra, e no entanto tenho certeza de que ele se dirige a mim - a mim e a cada leitor - pelo nome; está à espera de nossos comentários e opiniões. Eu estou pressuposto em Platão, assim como cada livro me pressupõe, mesmo aqueles que nunca lerei.
Por volta de 1316, em uma carta famosa ao vigário imperial Can Grande del a Scala, Dante sustentou que um texto tem pelo menos duas leituras, “pois obtemos um sentido da letra dele e outro daquilo que a letra significa; a primeira é chamada de literal, a outra de alegórica ou mística”. Dante prossegue sugerindo que o sentido alegórico compreende três outras leituras. Apresentando como exemplo o Verso bíblico “Quando Israel saiu do Egito e a casa de Jacó se apartou de um povo bárbaro, Judá tornou-se o santuário do Senhor e Israel o seu reino”, Dante explica: “Se olharmos apenas a letra , o que é posto diante de nós é o êxodo dos filhos de Israel no tempo de Moisés; se a alegoria, nossa redenção forjada por Cristo; se o sentido analógico, vemos a conversão da alma do sofrimento e da desgraça do pecado para o estado de graça; se o anagógico, mostra-senos a partida da alma santa da servidão dessa corrupção para a liberdade da glória eterna. E embora esses significados místicos recebam vários nomes, todos podem ser chamados em geral de alegóricos, uma vez que diferem do literal e do histórico”. São todas leituras possíveis. Alguns leitores podem achar uma ou várias delas falsas; talvez desconfiem de uma leitura “histórica”, se não conhecerem o contexto do trecho; podem fazer objeções à leitura “alegórica”, considerando a referência a Cristo anacrônica; talvez julguem as leituras “analógica” (por meio de analogias) e “anagógica” (mediante interpretações bíblicas) fantasiosas ou forçadas demais. Mesmo a leitura “literal” pode ser suspeita. O que significa exatamente “saiu”? Ou “casa”? Ou “reino”? Parece que mesmo para ler no nível mais superficial o leitor precisa de informações sobre a criação do texto, o pano de fundo histórico, o vocabulário especializado e até sobre a mais misteriosa das coisas, o que santo Tomás de Aquino chamava de quem auctor intendit, a intenção do autor. Contudo, desde que leitor e texto compartilhem uma linguagem comum, qualquer leitor pode descobrir algum sentido em qualquer texto: dadaísta. horóscopos, poesia hermética, manuais de computador e até na linguagem bombástica da política.
Em 1782, pouco mais de quatro séculos e meio depois da morte de Dante, o imperador José II promulgou um édito, o Toleranzpatent, que aboliu teoricamente a maioria das barreiras entre judeus e não-judeus no Sacro Império Romano, com a intenção de assimilá-los à população cristã. A nova lei tornou compulsória para os judeus a adoção de nomes e sobrenomes alemães, o uso da língua alemã em todos os documentos oficiais, o alistamento no serviço militar (do qual estavam até então excluídos) e a frequência às escolas seculares alemãs. Um século depois, em 15 de setembro de 1889, na cidade de Praga, o menino de seis anos Franz Kafka foi levado pela cozinheira da família à Deutsche Volks-und Bürgerschule, no Mercado de Carnes, um estabelecimento de língua alemã em larga medida dirigido por judeus em meio a um ambiente nacionalista tcheco, para começar sua instrução de acordo com o desejo do imperador habsburgo, morto havia muito tempo.
Kafka odiou a escola elementar e, mais tarde, a escola secundária. Achava que, apesar de seu sucesso (passou facilmente em todos os anos), tinha apenas conseguido enganar os mais velhos e “esgueirar-se do primeiro para o segundo ano do ginásio, depois para o terceiro e assim por diante”. Mas, acrescentava, “agora que chamei por fim a atenção deles, evidentemente logo serei posto na rua, para a imensa satisfação de todos os homens honrados, livres de um pesadelo”.
Alberto Manguel, in Uma história da leitura

domingo, 26 de março de 2017

Construção - Chico Buarque de Hollanda

Enguiço

Eis um amor que bate à porta
em hora imprópria.
Ousado, liga a lâmpada frouxa,
joga a trouxa de roupa ainda manchada
do sangue das costas lanhadas.
Impõe cadeado no portão,
como se não fosse sair mais,
caminha decidido sobre minha paz.
Esse temido amor de hora errada
já vem assobiando pelo corredor.
O trinco da porta é fraco
e não sustenta;
a oração é rala e pouco aguenta,
o medo é pequeno e permissivo.
A tal amor que chega inoportuno,
eu me condeno.
Porque me condeno é que me sinto vivo.
Flora Figueiredo

Você


Você que trabalhou, batalhou, criou os filhos, envelheceu... Os filhos cresceram, saíram de casa, você se aposentou... E agora o tempo se estende vazio à sua frente, pouco importa levantar-se cedo ou tarde, não faz diferença, os dias ficaram todos iguais, não há batalhas a travar, ninguém precisa de você... Cada dia é um peso, é preciso matar o tempo, descobrir um jeito de não pensar, pois o pensamento dói, e vem uma vontade de beber, uma vontade de esquecer, uma vontade de morrer...
Chegou o momento da inutilidade, e é isso que você não suporta, pois lhe ensinaram (e você acreditou) que os homens e as mulheres são como as ferramentas, que só valem enquanto forem úteis. Um serrote velho, uma enxada gasta, um alicate torto, um fósforo riscado, uma lâmpada queimada, não prestam para nada. Não merecem ser guardados. Só ocupam o espaço e devem ser jogados fora. Pois é, ensinaram-lhe que você é uma ferramenta que merece viver enquanto puder fazer. E agora que o seu fazer não faz mais diferença, você se coloca ao lado dos objetos sem uso. À espera de que a morte venha colocá-lo no devido lugar, pois nada mais há que esperar. Você está sem esperança.
Você aprendeu bem – a prova disso é o seu rosto triste e cansado de viver. Mas lhe ensinaram mal, muito mal. Pois nós não somos ferramentas. Não vivemos para ser úteis. Dizem os textos sagrados que Deus trabalhou seis dias para plantar um jardim. Terminado o trabalho, já não havia nada mais para ser feito. E foi justamente então que Deus sentiu a maior alegria. Terminado o tempo do trabalho, chegara o tempo do desfrute. E o Criador se transformou em amante: entregou-se ao gozo de tudo o que fizera. Com as mãos pendidas (pois tudo o que devia ser feito já havia sido feito), seus olhos se abriram mais. Olhou para tudo e viu que era lindo. Pôs-se a passear pelo jardim, gozando as delícias do vento fresco da tarde. E, embora os poemas nada digam a respeito, imagino que o Criador tenha também se deleitado com o gosto bom dos frutos e com o perfume das flores – pois que razões teria ele para criar coisas tão boas se não sentisse nelas prazer? Se há uma lição a ser aprendida desses textos, lição que você deve aprender com toda a atenção – esquecendo-se de tudo o mais que lhe ensinaram – é que não somos como serrotes, enxadas, alicates, fósforos e lâmpadas que, uma vez sem o que fazer, são jogados fora. A nossa vida começa justamente com o advento da inutilidade. Pois o momento da inutilidade marca o início da vida de gozo. Nada mais preciso fazer. Travei as batalhas que tinha de travar. Nada devo a ninguém. Estou livre agora para me entregar ao deleite.
E você me pergunta, então, onde está a escola em que se ensina essa sabedoria esquecida... Não, não há escolas para isso. Todas as escolas só nos ensinam a ser ferramentas. Será preciso que você procure mestres que ainda não foram enfeitiçados por elas. Você deve procurar as crianças. Somente elas têm o poder para quebrar o feitiço que o está matando ainda em vida.
As almas dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo. As crianças ainda sabem aquilo que os velhos esqueceram e têm de aprender de novo: que a vida é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria!
Entregue-se, sem vergonha e sem sentimentos de culpa, às delícias do ócio. Aprenda a andar sem ter de chegar a lugar algum, simplesmente gozando o mundo que nos cerca! Faça o fantástico turismo gratuito dos livros. Você irá a tempos e lugares aonde avião algum pode chegar; ao Japão dos samurais; ao Macondo do Cem anos de solidão; ao mundo jagunço do Riobaldo; e poderá mesmo voar na passarela do padre Bartolomeu de Gusmão, com o Saramago. Para isso não é necessário dinheiro, só imaginação. E, se a imaginação lhe falta, veja o vídeo As aventuras do Barão de Munchausen. Há também o mundo maravilhoso da música. Lembro-me do senhor Américo, que nos seus 85 anos descobriu a beleza da música clássica e a ela se entregou até a morte, como se ela fosse uma amante. Por fim, leia estas palavras de Hokusai, pintor japonês (1760-1849), escritas depois dos setenta anos:
Desde os seis anos tenho mania de desenhar a forma das coisas. Aos cinquenta anos publiquei uma infinidade de desenhos. Mas tudo o que produzi antes dos setenta não é digno de ser levado em conta. Aos 73 anos aprendi um pouco sobre a verdadeira estrutura da natureza dos animais, plantas, pássaros, peixes e insetos. Com certeza, quando tiver oitenta anos, terei realizado mais progressos, aos noventa penetrarei no mistério das coisas, aos cem, por certo, terei atingido uma fase maravilhosa e, quando tiver 110 anos, qualquer coisa que fizer, seja um ponto, seja uma linha, terá vida.

Vamos! A vida é bela. Pare de namorar a morte! Beba a taça até o fim!
Rubem Alves, in Se eu pudesse viver minha vida novamente

Mais que uma quimera


Os velhos manuscritos dos monges, iluminados por delicadas miniaturas, e os livros dos poetas alemães de há duzentos ou cem anos, esquecidos pelo eu próprio povo, livros manchados e carcomidos pela umidade, os impressos e manuscritos dos velhos compositores, as partituras vigorosas e amarelecidas, com seus imobilizados tons de sonho — quem escutava suas vozes espirituais, irônicas e nostálgicas? Quem tinha o coração repleto de seu encanto num mundo a elas estranho? Quem pensava até hoje naquele cipreste pequenino e tenaz que se erguia no alto da montanha de Gubbio que, embora partido e arrancado por uma avalancha de pedras, continuava entretanto a viver e havia levantado com suas últimas forças uma nova copa bisonha? Quem fizera justiça à diligente dona de casa do primeiro andar e ao seu luzido pinheirinho? Quem lia à noite, sobre o Reno, a inscrição que as nuvens formavam na névoa? O Lobo da Estepe. E quem buscava entre os escombros da vida o seu significado esvoaçante, quem sofria com a aparente insensatez, quem vivia com o que parecia louco, quem esperava em segredo no último e confuso abismo a revelação de Deus e sua vinda? Afastei o copo de vinho quando a dona da casa veio enchê-lo de novo, e levantei-me. Não necessitava mais vinho. A trilha dourada voltara a refulgir, eu havia recordado o eterno: Mozart, as estrelas. Podia voltar a respirar por uma hora, podia existir, não necessitava sofrer tormentos, nem temores, nem vergonhas. Quando saí à rua, que se tornara silenciosa, as gotas da chuva, açoitadas pelo vento frio, davam de encontro às lâmpadas em cintilações cristalinas. Aonde ir? Se naquele momento eu pudesse concretizar por encantamento um só desejo, gostaria de ver-me num gracioso salão estilo Luís XVI, onde um par de bons músicos estaria tocando para mim duas ou três peças de Handel e de Mozart. Tal era a minha disposição naquele instante e teria degustado a música como os deuses saboreiam o néctar. Oh! se tivesse agora um amigo, um amigo que vivesse nalguma água-furtada, sonhando à luz de uma vela, com o violino ao alcance da mão! Como o iria surpreender em sua paz noturna, após subir silencioso pela escada em espiral, e lá haveríamos de passar algumas horas espirituais a conversar sobre música! Em dias que já se foram, saboreei com frequência esse tipo de felicidade, mas também ela se distanciara de mim com o passar do tempo; entre o então e o agora muitos anos emurchecidos se interpunham. Iniciando lentamente o regresso a casa, ergui a gola do casaco e batia com a bengala contra o úmido pavimento. Por mais que me demorasse na rua, acabava sempre por regressar ao meu refúgio, ao meu falso lar, que eu não amava e do qual, no entanto, não podia prescindir, pois já se fora para mim o tempo em que podia passar na rua toda uma noite chuvosa de inverno. Agora tudo o que eu desejava era não deixar desvanecer em mim a animação do instante, nem pela ação da chuva, da gota que me afligia ou do sentimento que me causasse o pinheirinho. Embora não tivesse a música de câmara nem encontrasse o solitário amigo violinista, ressoava em meu interior aquela graciosa melodia e eu próprio podia executá-la para mim, trauteando-a ao rítmico compasso de minha respiração. Continuei meu caminho a meditar. Sim, eu podia arranjar-me mesmo sem música de câmara e sem amigo, e era ridículo consumir-me no impotente desejo de calor humano. Solidão é independência, com ela eu sempre sonhara e a obtivera afinal após tantos anos. Era fria, oh! sim!, mas também era silenciosa e grande como o frio espaço silente em que giram as estrelas. De um salão de dança, diante do qual passei, me veio o ritmo de uma vívida música de jazz, como o odor bravio e quente da carne crua. Detive-me um momento; aquela espécie de música sempre tivera para mim um secreto encanto, apesar do muito que a detestava. O jazz me repugnava, mas me era cem vezes mais agradável do que toda a música acadêmica de hoje, me submergia profundamente no mundo dos impulsos com seu alegre e rude barbarismo e respirava uma ingênua e honrada honestidade. Permaneci um momento no faro, a sentir o cheiro da música sangrenta e aguda, a olfatar malignamente cobiçoso a atmosfera daquela sala. Parte da música, a lírica, era pegajosa melíflua e cheia de sentimentalismo; a outra, selvagem, extravagante, cheia de força; no entanto, ambas as partes caminhavam juntas, ingênua e amistosamente, e formavam um todo. Era música decadente. Devia haver música assim na Roma dos últimos césares. Naturalmente era uma baboseira, comparada com Bach e Mozart e a música dos grandes mestres; mas assim também era toda nossa arte, todo nosso pensamento, toda nossa aparência de cultura, quando comparada com a verdadeira cultura. E esta música tinha a vantagem de possuir uma grande sinceridade, de ser sinceramente negróide, cheia de um humor alegre e infantil. Tinha algo dos negros e algo dos americanos, que a nós, europeus, parecem tão fortes e cheios de infantilidade. Chegaria a Europa a ser assim? Já estava a caminho disto? Éramos nós, velhos conhecedores e reverenciadores da verdadeira poesia de outros tempos, apenas uma minoria estúpida de complicados neuróticos, que amanhã seriam esquecidos e ridicularizados? O que chamamos cultura, o que chamamos espírito, alma, o que temos por belo, formoso e santo, seria simplesmente um fantasma, já morto há muito, e considerado vivo e verdadeiro só por meia dúzia de loucos como nós? Quem sabe se realmente, nem era verdadeiro, nem sequer teria existido? Não teria sido mais que uma quimera tudo aquilo que nós, os loucos, tanto defendíamos?
Hermann Hesse, in O Lobo da Estepe

Não pode dar certo

Estavam juntos havia alguns anos, eram bastante felizes e ela gostava muito dele. Mas o problema não era só esse.
Ela gostava dele demais. Aquilo não era mais gostar, era pior, era amar mesmo. Sabe amor, amor, que nem em música, em história de romance ou então em filme, amor que não acaba mais, amor de verdade, sabe lá o que é isso?
Pois imagine.
Ela amava aquele cara com todas as qualidades e todos os defeitos que ele tinha, pior ainda, amava os defeitos dele, inclusive aquela mania de exagerar as histórias que contava (ela sempre usava o verbo exagerar, em vez de mentir, quando ele era o sujeito da frase).
Ela amava o jornal inteiro que ele lia, o cachorro dele que latia, a toalha no chão do banheiro, o sapato no meio da sala, o sal de fruta, a pressa, o amigo chato, a noite besta, o dia a dia, mesmo quando ele estava mal-humorado, deprimido, insuportável, impossível, mesmo quando ele não estava, nem telefonava, mesmo quando ele se atrasava, não vinha, faltava, não ouvia, mesmo assim ela amava, fazer o quê?, o amor é assim mesmo, dizem.
Logo começaram a estranhar um pouco o fato.
Diziam que ela era insensata de amar daquele jeito, com aquela intensidade, sem medo nem cautela, sem fazer economia, diziam que ela era burra, que era cega, que era boba, diziam que ela era doida.
Doidinha.
Isso não pode dar certo.
Que ingenuidade, meu Deus.
Ainda vai quebrar a cara um dia.
Deixa ela.
A vida ensina.
As coisas mudam.
O tempo passa.
Mas o tempo ia passando e ela continuava a amar o mesmo amor, igualzinho. Quando as coisas iam mudando, ela amava mais ainda. Todos os casais que existiam já tinham se separado, e ela lá com ele. Todos os separados (inclusive os mais descrentes) já tinham encontrado outros amores, e ela lá na mesma.
Fosse em casa, na rua, no trabalho, nas férias, em Verona, em Fortaleza, em Niterói, em Ibiza, aqui mesmo, em qualquer lugar que fosse, em toda e qualquer circunstância, mesmo nas mais adversas, chovesse ou fizesse sol, ela amava incondicionalmente. Aquilo até irritava, que amor é esse, gente? Quem já viu uma coisa dessas? Ela não era normal.
Estava errado. Não podia.
Foi então que resolveram estudar o caso com detalhes, e ela virou fonte de pesquisa.
Fizeram exames psicológicos, psicotécnicos, semióticos, ergométricos, enzimáticos, neurogênicos, hemoculturas, eletrocardiogramas, gráficos, cálculos, análises, conjecturas, cronometraram tudo e deram o diagnóstico: aquilo não tinha cura.
Tente se pôr no lugar dela.
Quem não se preocuparia em saber que é pessoa desenganada?
Ela ficou meio confusa.
Será que não tinha jeito?
E decidiu tentar de tudo. Acupuntura, homeopatia, praia, ioga, teatro, reza, lógica, tequila, aula de dança, namorado, voo livre, nada disso adiantava, o problema era gravíssimo.
Terminou acontecendo: ela pôs a culpa nele, é claro.
Ele não era normal. Era bom demais pra ela. Muito direito, trabalhador, sincero (só um pouquinho exagerado), mas era moreno, por outro lado, inteligente, bonito. Pra completar, fazia tudo o que ela gostava, qualquer coisa, ainda por cima. Quem já viu uma coisa dessas? Não podia. Estava errado.
Tiveram uma conversa muito séria madrugada adentro com direito a choro, acusação e grito. Quando o dia nasceu, encontrou os dois mortos de cansaço. Era inútil, ao que parece, aquilo não tinha saída.
Decidiram ficar juntos assim mesmo, apesar disso. Qual é o casal, afinal, que não tem os seus problemas, não é mesmo?
Adriana Falcão, in O doido da garrafa

A chave - por Laerte


sábado, 25 de março de 2017

Idealismo

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isso que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?!

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
- Alavanca desviada do seu futuro -

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!
Augusto dos Anjos