quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Indubitáveis

Eu seria um péssimo governante porque seria o primeiro a duvidar daquilo que estivesse a fazer. E os políticos em geral nunca têm dúvida.”
José Saramago, in As palavras de Saramago

Mas, que Nada | Live in Brazil | Playing For Change

Um cão, outro cão

Vovô triste procura seu cachorro pointer, Toy, desaparecido. Boa recompensa para quem devolvê-lo ou souber onde ele se encontra. Tel. 287…”
Alô! É o Vovô Triste?
Como?
Não é o Vovô Triste quem está falando? Aquele que perdeu um cachorro de estimação?
Ah, sim. Sou eu mesmo. Estou tão triste que nem me lembrei do nome que pus no jornal. O senhor achou o meu Toy?
Antes de mais nada, meu caro senhor, quero cumprimentá-lo com respeito. Estou falando com um homem de sensibilidade, um homem de coração grande, que sofre com a perda de uma companhia animal. Eu divido os homens entre os que amam a convivência dos irracionais, e aqueles que…
Obrigado. Mas o senhor achou o meu Toy?
Um momento. Não posso deixar de me inclinar diante das pessoas sensíveis, realmente identificadas com o mundo natural. Isso é tão raro hoje em dia. — Não é tanto assim, o senhor exagera. Todo mundo que tem um cão é porque gosta dele, e gostando, sente falta quando ele some.
É o que o senhor pensa. Muita gente dá graças a Deus quando se vê livre do animal doméstico, que não quer ficar sozinho em casa e impede que o dono saia de viagem ou mesmo para jantar fora. Conheço casos…
Está bem. Agora me dê notícias do Toy.
Pois não. Ele é pointer, não é?
Exatamente.
Inglês ou alemão?
Inglês, com muita honra.
Por que o senhor diz “com muita honra”? Se fosse alemão, a honra era menor, ou nenhuma?
Absolutamente, cavalheiro. Prezo tanto a Inglaterra como a Alemanha, mas o meu cão é inglês, eu gosto do meu cão, então eu digo com muita honra que ele é inglês. Há algum mal nisso?
Entendi. O seu Toy é preto ou branco?
Branco, manchado.
De preto, de laranja, de que cor?
De preto. O senhor achou, o senhor viu em algum lugar o meu Toy? Diga logo, estou tão ansioso!
Tenha calma, Vovô Triste. Estou lhe perguntando porque tem tanto cachorro por aí, de tantas variedades da mesma raça, que só a gente vendo um retrato bem nítido do animal é que pode identificá-lo, né?
Eu conheço o meu Toy a léguas de distância. Conheço pela ligeireza, pelo aprumo, pela individualidade, mais do que pela cor ou pelo tamanho. Conheço de cor e salteado, sou capaz de distingui-lo entre mil pointers iguaizinhos uns aos outros.
Mas eu não, é lógico. Outra coisa. O senhor prometeu uma boa recompensa.
Exato.
De quanto?
Bem, eu acho que dois mil cruzeiros para quem me trouxer o Toy, ou mil para quem indicar o seu paradeiro, é uma boa recompensa, o senhor não acha?
Quer mesmo que eu diga? Acho pouco.
Pouco por quê? Sabe qual o preço máximo de um pointer inglês? Dois mil e quinhentos.
Sim, é o preço de mercado, para cães de pedigree, mas tem uma coisa mais importante do que pedigree: o amor a um animal de estimação. Seu amor está cotado em dois mil?
Ah, o senhor não deve falar assim, o senhor me tortura. Quisera eu dispor de cinco mil, de dez mil, de cinquenta mil cruzeiros, para resgatar o meu querido Toy. Mas sou um simples inativo do Ministério da Justiça, à espera de classificação no cargo inicial da carreira, o senhor entende?
Sendo assim… não se fala mais nisso. Desculpe. Não quero aumentar sua aflição. Mas já que entramos nessas intimidades, quero corresponder à sua confiança e dizer-lhe uma coisa.
Qual?
Não convém o senhor se amofinar por causa do Toy.
Como? Quer dizer que ele morreu?!
Deus me livre. Eu nunca seria portador de uma notícia dessas.
E então?
Então, é que numa cidade imensa como esta, com milhares de cães perdidos, a probabilidade de encontrar o seu bichinho é muito limitada. Enquanto espera, o senhor sofre, o senhor se angustia, o senhor fica mais triste ainda. Por que, em vez disso, não parte para outra?
Deixar de procurar o Toy? Seria uma infâmia!
Quem falou em infâmia? Quero apenas o seu bem, a ordem de suas coronárias, de sua cuca. O senhor evitará muitas decepções, conservando a memória do Toy encarnada em outro animalzinho adorável. Olhe, eu tenho aqui um filhote de miniatura pinscher que é uma graça, um amor de coisinha leve. Posso lhe dar por dois mil cruzeiros, exatamente a importância de que o senhor dispõe e que provavelmente não terá aplicação ao insistir em procurar o Toy… Assim o senhor, de Vovô Triste, na fossa, passará a Vovô Alegre, digo mais… a Vovô Feliz…
Bandido! Miserável!
Carlos Drummond de Andrade, in Boca de lua

A letra D


Numa escavação feita em Kalibangan, em 1922, pelo pesquisador inglês John Marshall, foi encontrada, em meio a estátuas de Vishnu e Shiva, homens de três cabeças e altares sacrificiais, a pedra shalagrama-shila, de que o arqueólogo ouvira falar e que se tornara sua obsessão ao longo de mais de vinte anos de buscas e trabalhos extenuantes. Conhecia a crença vigente no vale do rio Gandaki, que dizia que uma pessoa, apenas por tocar uma pedra como aquela, se libertaria dos pecados não somente de sua própria existência, como também das existências de milhões de nascimentos anteriores e posteriores ao seu, pois a pedra representa o Bhagavan em pessoa, a soma total de todos os universos. E, embora não partilhasse das crenças hindus que pregavam essas supostas verdades, também sabia que não poderia tocá-la frivolamente, porque não queria profanar um credo de tamanha beleza e fervor. Além disso, em algum lugar de sua memória e de sua alma obsessiva e cansada, afora o respeito que devotava aos hindus, existia uma sombra de fé, sem contar as experiências que havia testemunhado entre os hindus e mesmo entre os ocidentais, de pessoas que desmaiavam ou com quem ocorriam acidentes estranhos assim que ousavam dessacralizar um objeto adorado. Afinal, a adoração por aqueles objetos, deuses, manuscritos e estátuas em nada se assemelhava aos cultos ocidentais. Não era um culto a relíquias que aludia simbolicamente a uma totalidade a quem se devia submissão. Os objetos não eram somente a parte de um todo. Eram a própria totalidade e não pertenciam, como posse, a nenhuma divindade. Não eram as mãos que os haviam tocado ou utilizado que os sacralizavam; era o seu pertencimento à natureza, à terra e ao cosmo, o que em tudo os tornava diferentes dos outros objetos-relicários. John também sabia que não poderia vender a pedra, porque atribuir um valor a um objeto como aquele era, segundo os hindus, condenar-se ao inferno eterno, pois nisso também os hindus acreditam, embora o inferno hindu seja em tudo diferente do dantesco, cercado de pequenos diabos armados de tridentes e ocupado por fogueiras. John também não tinha por que pensar em lucrar alguma coisa com a pedra; vivia confortavelmente e tinha se desiludido das glórias adquiridas com a venda de objetos sagrados para museus ingleses. Afinal, havia mais objetos hindus no British Museum do que poderia comportar a Índia inteira, se nela pudessem ser dispostos os objetos encontrados até então. A pedra tinha formato ovalado e numa de suas faces havia um rosto pintado que sorria, enquanto na outra face da pedra o mesmo rosto tinha os lábios voltados para baixo, em sinal de submissão. Nas laterais da pedra havia faixas pretas e amarelas e, no canto inferior da face em que se via o rosto que sorria, podia ser lida a seguinte inscrição assinada por Purana: “Nenhuma shila do local das shalagramas nunca poderá ser não auspiciosa mesmo que rachada, riscada, partida ou até mesmo quebrada”. Aquela shila em particular continha uma pequena rachadura, mas, como dizia a própria inscrição, não havia com que se preocupar. John Marshall lembrava-se de já ter lido aquela mesma inscrição em outro lugar; era uma frase aparentemente sem importância, mas algo nela o incomodava. Deixou a shila preservada no mesmo local onde a encontrara, pois ainda não decidira o que fazer com ela, e não tinha coragem de tocá-la. Retornou ao hotel. À noite, num de seus sonhos em que misturava línguas, o hindu, o egípcio e o nepalês, além, é claro, do inglês e do dialeto irlandês de seus pais, sonhou com algumas palavras, que anotou imediatamente: “salagram namito’ham martyair”. Caminhou durante todo o dia seguinte pelas escavações do vale de Mohenjo Daro, com aquelas palavras em sua cabeça. Onde já as tinha lido? Ao lado da shalagrama que havia deixado guardada no dia anterior, Marshall percebeu, jogado ao acaso, um dado védico, um resto de marfim quebrado, em cujas faces ainda se podiam ver alguns traços de letras sagradas. Lembrou-se finalmente da origem daquelas palavras, que vira gravadas na shila, com as quais sonhara e que se recordava de ter visto inscritas num dos dados que possuía em casa, amontoados ao acaso, como cabe fazer com os dados, numa das vitrines que havia mandado fabricar especialmente para guardar seus objetos. John cultivava uma predileção estranha e descabida por aqueles pequenos objetos sagrados e profanos, porque, mesmo representando uma atividade proibida e vã, o jogo, ainda mantinham alguma relação incerta e única com as divindades. Marshall tinha aprendido que o acaso contido nos dados muitas vezes se encontrava mais próximo dos deuses do que os próprios Vedas ou até os seres que dedicavam sua vida ao sacrifício, abstendo-se dos prazeres mundanos, como o jogo, por exemplo. Sabia que o acaso, sua insubmissão ao destino, era também uma forma de lei não científica, mas atomística, cósmica, que regia as criaturas de maneira harmoniosa e poética, pela atração que as moléculas sabiam exercer umas sobre as outras. Marshall amava o acaso e via nos dados, especialmente os hindus, com suas inscrições religiosas, uma espécie de síntese de seu trabalho, que misturava fé e razão. Eram objetos tão bem construídos, tão matematicamente servis à sorte e carregados simultaneamente das histórias sacra e profana. Pensou em sua estante de dados e lembrou-se do dado específico onde havia essa inscrição. Era um dado feito de osso, de um branco amarelado, inteiramente rachado, com uma das faces totalmente apagada. No lugar de números, ou pontos, como costumava encontrar nos outros dados, havia letras e pequenas inscrições embaixo de cada uma delas. Eram o am, o jha, o ba, o ha e o tha, todos escritos no alfabeto devanágari. John percebeu que o lado em que faltava uma letra era justamente aquele em que se encontrava aquela inscrição com a qual sonhara. Olhou para a shila, pensou na inscrição que habitava tanto a pedra intocável quanto o dado todo gasto que possuía em seu armário e decidiu que, assim que chegasse em casa, inscreveria ele mesmo no dado a letra da. Percebeu que a inscrição referente às rachaduras, que dizia que mesmo a shila rachada não traria má sorte, entrava em estranha comunhão com o destino simples e mundano do dado e que a letra da, do hindu, representava perfeitamente a sensação que, instantaneamente, o retirava de sua melancolia e o encaminhava de volta a um sentido primordial de seu trabalho. Era a letra inicial de davaiana, cuja pobre tradução para o inglês era “encantamento”, “maravilhamento” — a totalidade do sonho, do acaso e do divino, a tradução da vizinhança entre a shila e o dado. Lembrou-se também de que na sua língua, o inglês, ainda não havia uma palavra para designar aquele objeto que lhe provocara aquela estranha potência de vida, tampouco uma letra para designá-lo. Em homenagem a davaiana, à letra da, do hindu, e ao alfabeto devanágari, Marshall inventou então a letra D, que imediatamente foi adotada para nomear aquele objeto como dado, assim como para designar o sentimento da divina dualidade, que governava a vida de John e governa a todos nós até os dias de hoje e para sempre.
Noemi Jaffe, in A verdadeira história do alfabeto

Street Art: Mural Salvador Dalí, de Eduardo Kobra, em Murcia, Espanha


Além da palavra

As nossas experiências verdadeiras não são tagarelas. Elas não poderiam se comunicar mesmo que quisessem. Isto é, falta-lhes a palavra. Tudo aquilo para que temos palavras é porque já fomos além. Em toda fala há uma pitada de desprezo. Parece que a linguagem foi inventada apenas para aquilo que é médio, comunicável.”
Friedrich Nietzsche, in O crepúsculo dos ídolos

Azo de almirante

Longe, atrás uma de outra, passaram as mais que meia dúzia de canoas, enchusmadas e em celeuma, ao empuxo de remos, a toda a voga. O sol a tombar, o rio brilhando que qual enxada nova, destacavam-se as cabeças no resplandecer. Iam rumo ao Calcanhar, aonde se preparava alguma desordem. De um Hetério eram as canoas, que ele regia. Despropósito? O caso tem mais dúvida.

Eventos vários. Em fatal ano da graça, Hetério sobressaíra, a grande enchente de arrasar no começo de seus caminhos. Fora homem de família, merecedor de silêncio, só no fastio de viver, sem hálito nem bafo. O gênio é punhal de que não se vê o cabo. Não o suspeitavam inclinado ou apontado ao êxito no século.
Na cheia, por chuvas e trombas, desesperara-se o povo, à estraga, em meio ao de repente mar — as águas antepassadas — por cima o Espírito Solto. Hetério teve então a suscitada.
Ajuntou canoas e acudiu, valedor, dado tudo, sabendo lidar com o fato, o jeito de chefe. Ímpetos maiores nunca houve, coisa que parecia glória. Salvou, quantidade. Voltado porém da socorreria, não achou casa nem corpos das filhas e mulher, jamais, que o rio levara.
Não exclamou. Não se pareceu mais com ninguém, ou ébrio por dentro, aquela novidade de caráter. Sacudia, com a cabeça, o perplexo existir, de dó sem parar, em tanta maneira. E nem a bola de bilhar tem caprichos cinemáticos. De modo ou outro, já estava ele adquirindo as boas canoas, de que precisava.
Para o que de efeito. Destruíra-se a ponte da Fôa, cortando a estrada, ali de movimento. Hetério despachou-se para lá, tripulantes ele e os filhos, e outros moços, arranjaram-se ao travessio. Durado mais de ano, versaram aquilo, transpondo gente e carga, de banda para banda. Até cortejos de noivos passaram, sob baldaquim, até enterros, o bispo em pastoral, troços de soldados. Foi tudo justo. Obedeciam os outros a Hetério — o em posição personificada — o na maior, canoa barcaçosa, a caravela com caveiras.
Ao certo, nada explicava, ainda que de humor benigno, homem de cabeça perpétua; cerrando bem a boca é que a gente se convence a si mesmo. Morriam-lhe os inimigos, e ele nem por isso se alegrava, ao menos. Segue-se ver o que quisesse.
A ponte nova repronta, o bom ofício tocava a termo. Hetério, entretanto, se reaviara. Descobrira-se, rio acima, uma mulher milagreira jejuadora, a quem os crentes acorriam. Vieram também, para passadores, ele e os seus; todo o mundo é, de algum modo, inteligente. Travessavam, com acuração, os peregrinos da santa, aleijados, cegos, doentes de toda loucura e lepra, o rico triste e o próximo precisado.
Semi-ator, Hetério, em mãos o rosário e o remo amarelo-venado de taipoca, tivesse mudado talvez a lembrança da enchente e de sua ocasião de herói, que já era apenas virtude sem fama, um fragmento de lenda. Ao adiante, assim às águas — outras e outras. No rio nada durava.

Agora, ao pôr-do-sol, desciam as canoas — de enfia-a-fino, serenas, horizonteantes, cheias de rude gente à grita, impelidas no reluzente — de longe, soslonge.

Ainda não.
Seguindo-se antes outros atos. Desaparecida de lá a mulher beata, Hetério com os dele saíram-se imediatamente a mascatear, revendendo aos ribeirinhos mercadorias e miudezas, em faina de ciganos regatões. Sobe e descendo, nessa cabotagem trafegaram até a águas sãofranciscas, ou abocando a outros rios, as canoas mercantes separadas ou juntas, como de estanceio chegaram ao porto de Santo Hipólito e ao Porto-das-Galinhas, abaixo de Traíras, lugares de negócio, no das Velhas, de praias amarelas. Trazia ele então lápis e uma grande caderneta, em que assentava e repassava difíceis contas. Os que o seguiam, pensavam na riqueza.
Daí, vai, começou a construir-se barragem para enorme usina, a do Governo, em tumulto de trabalhadores, mil, totalmente, de dezenas de engenheiros. Rearvorado, logo Hetério largou-se para lá, com seu lóide de canoas. Vales, a bacia, convertiam-se em remanso de imenso lago, em que podiam navegar com favor e proveito. Empreitaram-se, por fim, a contrato daqueles. Máquinas e casas, nas margens, barracões de madeira — e foi que um dos filhos de Hetério o deixou, para namorar e se casar. Hetério, ora, em oferecido tempo, encontrou um Normão, homem apaixonado, na maior imaginação. A paisagem ali tomava mais luz: fazia-se mais espelho — a represa, lisa — que não retinha, contudo, corpos de afogadas.
E esse Normão, propício, queria reaver sua mulher, que o pai guardava, prudente, de refém, na Fazenda-do-Calcanhar, beiradeã. Enquanto anos; e a usina deu-se por pronta. O rio não deixa paz ao canoeiro.
Assim ao de longe, contra raso sol, viu-se a fila de canoas, reta rápida, remadas no brilhar, com homens com armas, de Normão, que rumavam a rixa e fogo. Hetério comandava-as, defenitivo severamente decerto, sua figura apropriada, vogavante.

Certo, soube-se. Aproaram aos fundos da do-Calcanhar, numa gamboa, e atacaram, de faca em polpa. Troou, curto, o tiroteio. Normão, vencedor, raptada em paz a mulher, no ribanceiro acendeu fogueira de festa. As canoas todas entanto se perderam. Só na sua, Hetério continuou, a esporte de ir, rio abaixo, popeiro proezista, de levada, estava ferido, não a conduzia de por si, vogavagante; e seu outro filho na briga terminara, baleado. Adiante, no travessão do Fervor, itaipava perigosa, a canoa fez rombo. Ainda ele mesmo virou-a então, de boca para baixo, num completamento. Safo, escafedeu-se de espumas, braceante, alcançou o brejo da beira, onde atolado se aquietou. Acharam-no risonho morto, muito velho, velhaco a qualidade de sua pessoa.
Guimarães Rosa, in Tutaméia

Sete anos

Ela come tangerina
com centenas de dedos
meditativos
empenhados na função
de descascar, separar um gomo
do outro
mas não mastiga, empurra
com a língua até a pele
descosturar
feito tecido ou papel
e romper
em suco

depois caminha pelos quartos
acaricia os cabelos das bonecas
muda a posição dos objetos
desliza dedos pelas paredes

até que cada canto da casa
cheire como os dias de verão.
Alice Sant’Anna

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

A segunda vida de Jeremias Carrasco

Todos podemos, ao longo de uma vida, conhecer várias existências. Eventualmente, desistências. Aliás, o mais habitual. Poucos, contudo, têm a possibilidade de vestir uma outra pele. A Jeremias Carrasco aconteceu-lhe quase isso. Despertou, após um fuzilamento negligente, numa cama demasiado curta para o seu metro e oitenta e cinco, e tão estreita que, se descruzasse os braços, ambos penderiam, os dedos tocando o chão de cimento, cada um para o seu lado. Sentia fortes dores na boca, pescoço e peito, e uma terrível dificuldade em respirar. Viu, ao abrir os olhos, um teto baixo, descolorido e estalado. Uma pequena osga, pendurada mesmo por cima dele, estudava-o com curiosidade. A madrugada descia, ondulante e perfumada, através de uma minúscula janela, situada na parede em frente, junto ao teto.
Morri, pensou Jeremias. Morri, e aquela osga é Deus.
Supondo que a osga fosse Deus, dir-se-ia hesitante no destino a dar-lhe. Tal indecisão parecia a Jeremias mais estranha do que ver-se face a face com o Criador, e este assumir a forma de um réptil. Jeremias sabia, desde há muito, estar destinado a arder pela eternidade fora nas chamas do Inferno. Matara, torturara. E se ao princípio o fizera por dever, cumprindo ordens, a seguir tomara-lhe o gosto. Só se sentia desperto, inteiro, enquanto corria através da noite, perseguindo outros homens.
Decide-te, disse Jeremias à osga. Ou melhor, tentou dizer, mas o que lhe saiu da boca foi apenas um surdo novelo de sons. Experimentou de novo e, como num pesadelo, repetiu-se o escuro borbotar.
Não tentes falar. Aliás, não falarás nunca mais.
Jeremias julgou, por instantes, que fosse Deus condenando-o ao silêncio eterno. Depois rodou os olhos para a direita e viu uma mulher gordíssima encostada à porta. As mãos, de dedos mínimos e frágeis, bailavam diante dela enquanto falava:
Ontem, a tua morte foi notícia nos jornais. Publicaram uma fotografia, um pouco antiga, quase não te reconheci. Dizem que foste um diabo. Morreste, reencarnaste, tens uma nova oportunidade. Aproveita-a.
Madalena trabalhava há cinco anos no Hospital Maria Pia. Antes disso fora freira. Uma vizinha assistira, de longe, ao fuzilamento dos mercenários e alertou-a. A enfermeira conduziu sozinha até ao local. Um dos homens ainda vivia. Uma bala atravessara-lhe o peito, num percurso miraculoso, perfeito, sem atingir qualquer órgão vital. Um segundo projétil entrou-lhe pela boca, estilhaçando os dois incisivos superiores, e perfurando-lhe depois a garganta.
Não entendo o que aconteceu. Tentaste agarrar a bala com os dentes? Riu-se, agitando o corpo. A luz parecia rir-se com ela: Bons reflexos, sim senhor. E nem foi má ideia. Se a bala não tivesse encontrado os dentes, a trajetória seria outra. Ter-te-ia matado ou deixado paralítico. Achei melhor não te levar para o hospital. Cuidariam de ti e quando estivesses bom voltariam a fuzilar-te. Assim, paciência, tratei-te eu mesma com os poucos recursos disponíveis. Resta-me tirar-te de Luanda. Não sei por quanto tempo conseguirei esconder-te. Se os camaradas te encontram, fuzilam-me também a mim. Assim que for possível viajaremos para sul.
Escondeu-o durante quase cinco meses. Através da rádio, Jeremias foi seguindo a difícil progressão das tropas governamentais, apoiadas por cubanos, contra a improvisada e volátil aliança entre a UNITA, a FNLA, o exército sul-africano e mercenários portugueses, ingleses e norte-americanos.
Jeremias dançava na praia, em Cascais, com uma loira platinada, e nunca estivera na guerra, nunca matara, nunca torturara ninguém, quando Madalena o sacudiu:
Vamos, capitão! É hoje ou nunca.
O mercenário ergueu-se da cama, com esforço. A chuva estalava na escuridão, abafando o ruído do escasso trânsito que circulava àquela hora. Viajaram numa velha carrinha, uma Citroën dois cavalos, com a carroceria de um amarelo muito gasto, meio roída pela ferrugem, mas com o motor em perfeito estado. Jeremias ia estendido, atrás, oculto por vários caixotes com livros.
Livros infundem respeito, explicou a enfermeira: Se levasse caixotes carregados de garrafas de cerveja, os soldados iriam revistar o veículo de uma ponta à outra. Além disso, chegaria a Mossâmedes sem uma única garrafa.
O estratagema revelou-se acertado. Nos numerosos controles pelos quais passaram, os militares perfilavam-se ao verem os livros, pediam muita desculpa a Madalena, e deixavam-na seguir. Desembocaram em Mossâmedes numa manhã sem ar. Jeremias viu, espreitando através de um pequeno buraco, aberto na chapa ferrugenta do veículo, a pequena cidade girando ao redor de si mesma, lenta e atordoada, como um bêbado num funeral. Meses antes, as tropas sul-africanas haviam passado por ali, a caminho de Luanda, desbaratando facilmente uma tropa formada por pioneiros e mucubais.
Madalena estacionou a carrinha diante de um sólido casarão azul. Saiu, deixando Jeremias a assar lá dentro. O mercenário suava muito. Mal respirava. Achou preferível sair, arriscando-se a ser preso, a morrer assim. Não conseguia afastar os caixotes. Começou aos pontapés na chapa. Acudiu um velho.
Quem está aí?
Escutou então a voz suave de Madalena:
Levo um cabrito para o Virei.
Um cabrito para o Virei?! Ah! Ah! Ah! Um cabrito para o Virei!
Com a carrinha em marcha entrava algum ar fresco. Jeremias sossegou. Andaram mais uma hora, aos saltos, por caminhos secretos, através de uma paisagem que, a Jeremias, parecia feita por inteiro de duro vento, pedra, poeira e arame farpado. Finalmente, detiveram-se. Um alarido de vozes cercou o veículo. A porta traseira foi aberta e alguém retirou as caixas. Surgiram dezenas de rostos curiosos. Mulheres com o corpo pintado de vermelho. Algumas já maduras. Outras ainda adolescentes, de seios arrebitados e mamilos túrgidos. Rapazes altos, elegantíssimos, com um tufo de cabelo no topo da cabeça.
O meu falecido pai nasceu no deserto. Foi enterrado aqui. Esta gente tem-lhe muita devoção, explicou Madalena: Vão acolher-te e esconder-te o tempo que for necessário.
O mercenário sentou-se no chão, ajeitando os ombros, como um rei que desfilasse nu, a sombra espinhosa dum mutiati. Um grupo de crianças rodeou-o, tocando-o, puxando-lhe os cabelos. Os rapazes riam alto. Intrigava-os o áspero silêncio do homem, o olhar distante, o espetro de um passado que intuíam violento e agitado. Madalena despediu-se dele com um leve aceno de cabeça:
Espera aqui. Virão buscar-te. Quando tudo acalmar poderás cruzar a fronteira para o Sudoeste Africano. Suponho que terás bons amigos entres os carcamanos.
Decorreriam anos. Décadas. Jeremias jamais cruzou a fronteira.
José Eduardo Agualusa, in Teoria Geral do Esquecimento

Escrever

O dicionário diz que escrever é representar ou exprimir, relatar, transmitir por meio de escrita, compor, redigir, desenvolver obra literária: conto, romance, novela, livro etc.
É isso o que diz o dicionário. Porém, escrever é mais do que isso, é urdir, tecer, coser palavras, tanto faz ser uma bula de remédio ou uma peça de ficção. A diferença é que a ficção consome o corpo e a alma. Os poetas também poderiam ser incluídos aqui, se eles não tivessem pacto com o diabo.
O ficcionista quanto melhor pior, sofre mais, depois de algum tempo não aguenta o sufoco. Os mais sensatos, se é que se pode chamar de sensato um indivíduo como esse ― eu já disse alhures que todo escritor é louco ―, os que têm algum discernimento, e esses são poucos, desistem, no auge da sua carreira dizem BASTA, para desespero dos seus admiradores.
Os outros, cada vez mais desesperados com essa insana atividade, entregam-se às drogas ou cometem suicídio.
O que eu vou fazer?
Isso era para ser um poema, mas eu não tenho pacto com o diabo.
Rubem Fonseca, in Amálgama

Chico César - Caninana

Profeta urbano

Era a imagem de uma ruína do que antes devia ter sido um monumento de homem e portava as clássicas barbas do profeta. - Pois é - disse, limpando a boca com um gesto que acabou por levar seu dedo em riste em direção ao Corcovado [e no ímpeto quase cai de tão bêbado que estava].
- Pois é. Fica lá ele, coitado, o dia inteiro de braços abertos abençoando a cidade... [seu olhar dardejou em torno], abençoando a cidade que nem liga mais para ele. Eu, Mansueto, filho de Anacleto, digo isso porque sei. Eu, Mansueto, sei que aquele homem lá, que por sinal não é homem não é nada, é Jesus Cristo, filho de Maria, rei dos reis, tábua da salvação, esperança do mundo, conforto dos aflitos, pai dos pecadores [a partir daí sua voz embargou-se e ele começou a choramingar] - eu, Mansueto, sei que aquele homem lá está sozinho, está sozinho no alto daquela montanha também chamada Corcovado. Eu, Mansueto, sei que toda santa noite aquele homem lá derrama as suas santas lágrimas de pena por esta pobre cidade mergulhada no crime e no pecado...
Foi deste ponto em diante que eu tirei a caneta e comecei a anotar rápido o teor das lamentações do profeta urbano.
- Porque em cada coração habita a luxúria, a maldade e a sede de ouro! Porque todos só pensam no poder e no luxo! Porque cada um só quer ter o seu rabo-de-peixe [o profeta estava um pouco atrasado no tempo diante da atual mania dos Mercedes] e o povo nem sequer tem peixe para comer... [aí os soluços embargaram-lhe a voz e ele teve de parar para enxugar os olhos com a manga do paletó em farrapos].
E então exclamou com os punhos cerrados na direção do Cristo:
- Por que, Senhor, pergunto eu, Mansueto, filho de Anacleto, por que continuas abençoando esta cidade, de vício e abandonas o pobre ao seu triste destino de comer o resto dos ricos? Por que ficas de braços abertos feito um pateta em vez de lançar os vossos exércitos conta o fariseu - feito o seu Guimarães lá do armazém que só fia se apalpar a mulher dos outros. Eu sei porque eu vi. Português descarado! Ainda hei de fazer o mesmo com a tua mulher, ouviu! que embora seja uma santa senhora há de pagar pelo pecador!
Neste momento ele olhou em torno com ar de briga e dando comigo me interpelou com veemência:
- Você aí! Que sabes da maldade humana? Repara só nele lá em cima, de braços abertos, abençoando esta cidade toda esburacada, chorando de noite de tristeza porque seus filhos o abandonaram para cair na farra com mulheres que não valem nem para jogar no lixo, em todas essas Copacabanas [seu braço girou violentamente em torno] de mulatinhas todas pintadas como se fossem umas [censura], que aliás são! São umas [censura] de [censura] que saem remexendo a [censura] e atacando os homens como se fossem tigres. E para quê? Dizei-me para quê? Não sabe? Ah! [apontando-me] ele não sabe... Bem se vê que é um mocinho [obrigado, profeta!] rico que não sabe de nada senão cavar o ouro e ir gastar com as mulheres de todas essas Copacabanas! Mas eu te peço, Senhor: lança os vossos exércitos contra o fariseu e deixa dessa pose que não te adianta nada, porque esse negócio de ficar de braço aberto não resolve, a gente quer ver mesmo é diminuir o preço das coisas, as pessoas vão acabar mesmo é comendo umas às outras, porque carne não tem, só a carne dessas [censura] de todas essas Copacabanas que o raio de Deus fulmine e consuma e toque fogo em toda essa [censura] que anda por aí!
Dito o quê, ele me olhou com um olhar cheio de lágrimas, que parecia vir do fundo de um caos bíblico de recordações, misérias, humilhações e ressentimentos sofridos, moveu a cabeça com um ar trêmulo de animal vencido e saiu em frente, dois passos para cá, três para lá, em meio à risota e aos comentários dos circunstantes; mas mesmo de longe sua voz me chegava como a de um Isaías imprecando:
- Mas essa sopa vai acabar! Essa sopa vai acabar!
Vinicius de Moraes, in Prosa

Os implacáveis


Um dos uruguaios campeões do mundo, Perucho Petrone, foi para a Itália. Estreou em 1931, no Fiorentina: nessa tarde, Petrone fez onze gols.
Na Itália, durou pouco. Foi o goleador do campeonato italiano, e o Fiorentina lhe ofereceu o que quisesse; mas Petrone se cansou muito depressa das fanfarras do fascismo em ascensão. O tédio e a saudade o devolveram a Montevidéu, onde continuou fazendo seus gols de terra arrasada durante um tempinho. Ainda não tinha feito trinta anos quando teve que deixar o futebol. A FIFA obrigou-o, porque não tinha cumprido seu contrato com o Fiorentina.
Dizem que Petrone era capaz de derrubar uma parede com uma bolada. Quem sabe? Está comprovado, isso sim, que desmaiava os arqueiros e perfurava as redes.
Enquanto isso, na outra margem do rio da Prata, o argentino Bernabé Ferreyra também disparava canhonaços com fúrias de possuído. Torcedores de todos os clubes vinham ver a Fera, que chutava de longe, atravessava as defesas e metia a bola com goleiro e tudo.
Antes e depois das partidas, e também no intervalo, os alto-falantes transmitiam um tango composto em homenagem à sua artilharia. Em 1932, o jornal Crítica ofereceu um prêmio de muito dinheiro ao goleiro que fosse capaz de impedir que Bernabé cravasse um gol nele. E numa tarde daquele ano, Bernabé teve que se descalçar perante os jornalistas, para mostrar que não tinha nenhuma barra de ferro na ponta das chuteiras.
Eduardo Galeano, in Futebol ao sol e à sombra

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Ruínas

Se é sempre Outono o rir das Primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair...
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras,
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino das Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais alto do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!... Deixa-os tombar... Deixa-os tombar.
Florbela Espanca

Tirando o pé da lama, de Laerte


Sobre a realidade do corpo

Eu jamais compreenderei por que se pôde chamar o corpo de ilusão - não mais do que compreenderei como se pôde conceber o espírito à parte do drama da vida, de suas contradições e de suas deficiências. Isto é, de toda evidência, não ter consciência da carne, dos nervos e de cada órgão. Incompreensível, me parece, tudo isto, ainda que eu desconfie que esta inconsciência seja uma condição essencial da felicidade. Aqueles que permanecem ligados à irracionalidade da vida, subservientes ao mesmo ritmo orgânico anterior à aparição da consciência, não percebem o estado em que a realidade corporal está ligada a esta mesma consciência. Tal ligação denota, com efeito, uma doença essencial da vida. Pois não é uma doença sentir constantemente suas pernas, seu estômago, seu coração, etc., de ter consciência da menor parte de seu corpo? A realidade do corpo é uma das mais assustadoras que existem. Eu gostaria de saber o que seria do espírito sem os tormentos da carne, ou a consciência sem uma grande sensibilidade dos nervos. Como se pode conceber a vida na ausência do corpo, como se pode imaginar uma existência autônoma e original do espírito? Pois o espírito é o fruto de uma desorganização da vida - tanto quanto o homem é um animal que traiu suas origens. A existência do espírito é uma anomalia da vida. Por que eu não renunciaria ao espírito? Esta renúncia não seria também uma doença do espírito, antes de ser uma doença da vida?
***

Eu não sei o que é bem e o que é mal; o que é permitido e o que não é; eu não posso nem louvar, nem condenar. Neste mundo, nenhum critério ou princípio consistente. Surpreendo-me com que alguns ainda se preocupem com a teoria do conhecimento. Para ser sincero, eu deveria confessar que não dou a mínima para a relatividade do nosso saber, pois este mundo não merece ser conhecido. Às vezes me vem o sentimento de um saber integral que esgota todo o conteúdo do mundo, e às vezes eu não compreendo estritamente nada do que se passa em meu entorno. Eu sinto como um gosto pungente e uma amargura diabólica e bestial que fazem com que o problema da própria morte me pareça insosso. Eu me dou conta, pela primeira vez, do quanto esta amargura é difícil de definir. Isto vem, talvez, do fato de que eu também perca meu tempo em procurar fontes de ordem teórica, enquanto esta amargura procede de uma região eminentemente “pré-teórica”.
Nestes momentos, eu não creio em nada e não tenho nenhuma esperança. Tudo aquilo que faz o charme da vida me parece vazio de sentido. Eu não tenho nem o sentimento do passado, nem o do futuro; e o presente não me parece mais do que veneno. Eu não sei se estou desesperado, pois a ausência de qualquer esperança não é necessariamente o desespero. Nenhum qualificativo saberia definir-me, pois eu não tenho mais nada a perder. E dizer que eu perdi tudo no momento em que, ao redor de mim, tudo desperta. Como estou longe de tudo!
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

Capítulo 65 - Olheiros e Escutas

Interrompeu-nos o rumor de um carro na chácara. Veio um escravo dizer que era a baronesa X. Virgília consultou-me com os olhos.
- Se a senhora está assim com dor de cabeça, disse eu, parece que o melhor é não receber.
- Já se apeou? perguntou Virgília ao escravo.
- Já se apeou; diz que precisa muito de falar com sinhá!
- Que entre!
A baronesa entrou daí a pouco. Não sei se contava comigo na sala; mas era impossível mostrar maior alvoroço.
- Bons olhos o vejam! explodiu ela. Onde se mete o senhor que não aparece em parte nenhuma? Pois olhe, ontem admirou-me não o ver no teatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! Gosta da Candiani? E natural. Os senhores são todos os mesmos. O barão dizia ontem, no camarote, que uma só italiana vale por cinco brasileiras. Que desaforo! e desaforo de velho, que é pior. Mas por que é que o senhor não foi ontem ao teatro?
- Uma enxaqueca.
- Qual! Algum namoro; não acha, Virgília? Pois, meu amigo, apresse-se, porque o senhor deve estar com quarenta anos... ou perto disso... Não tem quarenta anos?
- Não lhe posso dizer com certeza, respondi eu; mas se me dá licença vou consultar a certidão de batismo.
- Vá, vá... E estendendo-me a mão: - Até quando? Sábado ficamos em casa; o barão está com umas saudades suas...
Chegando à rua, arrependi-me de ter saído. A baronesa era uma das pessoas que mais desconfiavam de nós. Cinqüenta e cinco anos, que pareciam quarenta, macia, risonha, vestígios de beleza, porte elegante e maneiras finas. Não falava muito nem sempre; possuía a grande arte de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se então na cadeira, desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. Os outros, não sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo que ela olhava só, ora fixa, ora móbil, levando a astúcia ao ponto de olhar às vezes para dentro de si, porque deixava cair as pálpebras; mas, como as pestanas eram rótulas, o olhar continuava o seu oficio, remexendo a alma e a vida dos outros.
A segunda pessoa era um parente de Virgília, o Viegas, um cangalho de setenta invernos, chupado e amarelado, que padecia de um reumatismo teimoso, de uma asma não menos teimosa e de uma lesão do coração: era um hospital concentrado. Os olhos porém luziam de muita vida e saúde. Virgília, nas primeiras semanas, não lhe tinha medo nenhum; dizia-me que, quando o Viegas parecia espreitar, com o olhar fixo, estava simplesmente contando dinheiro. Com efeito, era um grande avaro.
Havia ainda o primo de Virgília, o Luís Dutra, que eu, entretanto, agora desarmava à força de lhe falar nos versos e prosas, e de o apresentar aos conhecidos. Quando estes, ligando o nome à pessoa, se mostravam contentes da apresentação, não há dúvida que Luís Dutra exultava de felicidade; mas eu curava-me da felicidade com a esperança de que ele nos não denunciasse nunca. Havia, enfim, umas duas ou três senhoras, vários gamenhos, e os fâmulos, que naturalmente se desforravam assim da condição servil, e tudo isso constituía uma verdadeira floresta de olheiros e escutas, por entre os quais tínhamos de resvalar com a tática e maciez das cobras.
Machado de Assis, in Memórias póstumas de Brás Cubas

A bifurcação terrível


Foi-me enviada a seguinte pergunta: “Suponha que sua filha grávida de três meses vem lhe mostrar um ultrassom do feto, que mostra uma hidrocefalia. Qual o conselho que você daria a ela?”
Você está caminhando por um bosque. A sede é grande. Precisa beber água. Você chega a uma bifurcação. Na trilha da direita está escrito: “Caminho fácil. Ao final, uma mina”. Na trilha da esquerda está escrito: “Caminho difícil. Ao final, uma pedra”. Você não precisa tomar uma decisão; o caminho a ser tomado é óbvio. Você toma o caminho da direita. Segunda situação: você chega à bifurcação e no caminho da direita está escrito: “Caminho muito difícil. Ao final, uma mina”. À esquerda: “Caminho fácil. Ao final, uma pedra”. A situação se complica; haverá dores no caminho. Mas, no final do caminho difícil você encontrará o que você deseja: água. Você não será tolo de escolher o caminho fácil e chegar à pedra. Terceira situação: você chega à bifurcação e vê escrito, tanto no caminho da direita quanto no da esquerda: “Caminho difícil”. Mas um malvado apagou o que estava embaixo. Assim, você não sabe o que vai encontrar no final. E você não pode voltar. Você sabe que ambos os caminhos estão cheios de dor e o final é incerto e desconhecido. Você terá que decidir sem certezas, entre uma dor e outra, fazendo uma aposta.
A vida é assim. Seria bom se as alternativas com que nos defrontamos fossem sempre entre o certo e o errado, o bom e o mau. Seria fácil viver. Mas há situações que nos colocam diante de alternativas igualmente dolorosas e de resultado incerto.
Hidrocefalia é uma anomalia caracterizada pelo acúmulo anormal de líquido na caixa craniana e pela consequente compressão do cérebro e possível crescimento da cabeça, com uma série de consequências indesejáveis. No seu limite terrível essa pergunta pode significar: “Você aconselharia sua filha a abortar?”
Para começar, digo que não dou conselhos quando o que está em jogo são situações existenciais. Posso dar conselhos sobre mecânicos, itinerários de viagem, cães, maneiras de fazer sopa e livros. Mas, quando o que está em jogo é a vida e a consciência de uma outra pessoa – nesse caso minha filha –, a única coisa que é ético fazer é dar-lhe tranquilidade e ajudá-la a ver com clareza, para que sua decisão não seja fruto de uma alma agitada e de pensamentos confusos. Será ela que deverá tomar a decisão. Conversaria com ela para ajudá-la a ver com clareza. Ver, em primeiro lugar, o que significa essa anomalia. Como não sou médico, procuraria um médico amigo que nos esclarecesse e nos informasse sobre o prognóstico, levando em consideração os recursos médicos atuais. Ver, em segundo lugar, as implicações futuras sobre a vida da criança. Ver, em terceiro lugar, as consequências emocionais e morais de um aborto, se essa possibilidade vier a ser levantada.
Há pessoas que já têm respostas prontas. Elas acreditam em princípios fixos e os seguem. Se se acredita que toda vida – normal ou anormal – é resultado da vontade de Deus, não existe decisão a ser tomada porque a decisão já está tomada. Mas, se não se acredita assim, se se acredita que as anomalias são acidentes que nada têm a ver com a vontade de Deus, encontramo-nos diante da encruzilhada terrível: é preciso decidir, sabendo que qualquer caminho será doloroso e sem segurança sobre o final. Para ser honesto, esta é a condição geral da vida: nunca se sabe. “Se é bom ou se é mau, só o futuro o dirá.”
Todos os que esperam um filho desejam que ele seja saudável e perfeito. Quando se sabe que há alguma coisa errada com o nenezinho, vem a tristeza. Eu, como pai, estaria triste pelo nenezinho, pela minha filha e por mim. Terminaria a conversa dizendo que, qualquer que for a decisão dela, eu estarei sempre ao seu lado.
Rubem Alves, in Se eu pudesse viver minha vida novamente