terça-feira, 25 de julho de 2017

Mestrinho - Arte de quem se ama

O profeta

O Capitão Ahab, senhor do Pequod


Marinheiros! Vos engajastes naquele navio?”
Queequeg e eu havíamos acabado de deixar o Pequod e afastávamo-nos lentamente do mar, cada um ocupado com os seus pensamentos, quando aquelas palavras foram proferidas por um estranho, que parou diante de nós, e apontou seu grande dedo indicador na direção do navio. Estava vestido com um casaco surrado e calças remendadas; um pedaço de um lenço negro envolvia seu pescoço. Uma máscara pustulenta de bexigas espalhara-se por todas as direções de seu rosto, do qual restava algo como uma complicada rede de córregos, cujas águas já haviam secado.
Vos engajastes como marinheiros naquele navio?”, repetiu.
Você quer dizer o Pequod, eu imagino”, disse eu, tentando ganhar tempo para dar mais uma olhada nele.
Sim, o Pequod – aquele navio ali”, ele disse, retraindo o braço, e então lançando-o rapidamente para a frente de novo, com a baioneta fixa de seu dedo apontada para o navio.
Sim”, eu disse, “acabamos de assinar contrato.”
Alguma coisa nele sobre vossas almas?”
Sobre o quê?”
Bem, talvez vós nem tenhais almas”, ele respondeu depressa. “Não importa, conheço muitos tipos que não têm – estão numa situação melhor. A alma é uma espécie de quinta roda em uma carroça.”
Que conversa besta é essa, companheiro?”, perguntei.
Mas ele tem o suficiente para compensar todas as deficiências de outros camaradas”, disse o estranho, abruptamente, colocando uma ênfase nervosa na palavra ele.
Queequeg”, eu disse, “vamos embora; esse sujeito escapou de algum lugar; está falando sobre uma coisa e uma pessoa que não conhecemos.”
Parai!”, gritou o estranho. “Disseste a verdade – não viste o Velho Trovão, não é?”
Quem é o Velho Trovão?”, perguntei fascinado pelo seu jeito insensato e veemente.
O Capitão Ahab.”
O quê? O capitão do nosso navio, o Pequod?”
Sim, de todos nós, marinheiros velhos de guerra, é ele que atende por esse nome. Vós não o vistes, não é?”
Não. Disseram que está doente, mas que está melhorando e que em breve ficará direito de novo.”
Em breve ficará direito de novo!”, riu-se o estranho com uma gargalhada de escárnio. “Vede bem; quando o Capitão Ahab estiver direito, este meu braço esquerdo também ficará; não antes!”
O que você sabe a respeito dele?”
O que vos contaram a respeito dele? Dizei!”
Não contaram muita coisa sobre ele; sei apenas que ele é um bom pescador de baleias e um bom capitão para sua tripulação.”
Isso é verdade, isso é verdade – sim, as duas afirmações são verdadeiras. Mas quando ele dá uma ordem é preciso obedecer imediatamente. Marchar e rosnar; rosnar e ir – é assim com o Capitão Ahab. Mas não contaram nada sobre o que aconteceu com ele perto do cabo Horn, há muito tempo, quando ele ficou deitado como um morto por três dias e três noites; não contaram nada sobre o combate mortal com o espanhol diante do altar em Santa? – não ouvistes nada a respeito disso? E nada sobre a cabaça de prata na qual ele cuspiu? E nada sobre como perdeu sua perna na última viagem, para que se cumprisse uma profecia? Não ouvistes nada sobre esses assuntos e alguns outros, não é? Não, acho que não; como poderíeis? Quem é que sabe? Acho que ninguém sabe em Nantucket. Mas em todo caso ouvistes falar da perna e de como a perdeu; sim, isso vós escutastes. Ah, sim, isso todos sabem – ou seja, sabem que ele só tem uma perna; e que um cachalote levou a outra.”
Meu amigo”, eu disse, “aonde você quer chegar com esse blábláblá, eu não sei e nem quero saber; porque me parece que você não bate muito bem. Mas se estiver falando do Capitão Ahab, daquele navio ali, o Pequod, permita que eu lhe diga que sei tudo sobre a perda da perna.”
Tudo sobre a perna, é? Tens certeza? Tudo?”
Absoluta.”
Com o dedo apontado e os olhos erguidos na direção do Pequod, o estranho com cara de mendigo ficou parado por uns instantes, como se estivesse mergulhado numa conturbada meditação; depois se mexeu um pouco, virou-se e disse: – “Vos engajastes como marinheiros, não é? Com os nomes no papel? Bem, o que está assinado, assinado está; e o que será, será; talvez não aconteça nada. De qualquer modo, já está combinado e determinado; imagino que alguns marinheiros tenham que ir com ele; de uns e de outros, que Deus tenha piedade! Um bom dia, companheiros de bordo, bom dia; que os inefáveis céus vos abençoem; lamento ter-vos incomodado.”
Escute aqui, amigo”, eu disse, “se você tem algo importante a nos dizer, desembuche; mas, se estiver querendo engambelar a gente, está perdendo o seu tempo; é tudo o que tenho a dizer.”
Muito bem, gosto de ouvir um camarada falando desse jeito; você é o homem certo para ele – como outros iguais a ti. Bom dia, companheiros, bom dia! Ah, quando chegarem lá, digam que decidi não ser um deles.”
Ah, meu caro amigo, não pode nos enganar dessa maneira – não pode nos enganar. Nada mais fácil para um homem do que fingir que guarda consigo um enorme segredo.”
Bom dia, companheiros, bom dia.”
De fato, bom dia”, eu disse. “Venha, Queequeg, vamos deixar esse louco. Mas espere aí, não quer dizer como se chama?”
Elijah.”
Elijah! Pensei, e afastamo-nos fazendo comentários, cada um a seu modo, sobre o velho marinheiro maltrapilho; e concordamos que devia ser apenas um cara-de-pau querendo se fazer de bicho-papão. Mas não tínhamos nos afastado nem cem jardas quando, ao virar uma esquina e olhar para trás, vi Elijah a certa distância. De certo modo, fiquei impressionado ao vê-lo, mas não disse nada a Queequeg, e prossegui com meu camarada, ansioso por ver se o estranho viraria a mesma esquina que nós. Ele virou; então me pareceu que estava nos seguindo, mas não tinha idéia de qual seria sua intenção. Aquelas circunstâncias, combinadas com seu jeito ambíguo, meio revelador, meio escondido de falar, despertou em mim todos os tipos de apreensões e questionamentos em relação ao Pequod; ao capitão Ahab; à perna que tinha perdido; ao ataque que sofrera no cabo Horn; à cabaça de prata; ao que o capitão Peleg tinha dito sobre ele quando eu saí do navio no dia anterior; à profecia da indígena Tistig; à viagem que íamos empreender; e centenas de outras coisas obscuras.
Para saber, afinal, se o maltrapilho Elijah estava mesmo nos seguindo, atravessei a rua com Queequeg; do outro lado, andamos em sentido contrário. Mas Elijah prosseguiu como se não tivesse percebido. Foi um alívio para mim; e mais uma vez, e definitivamente, do fundo de meu coração, repeti para mim mesmo, que cara-de-pau.
Herman Melville, in Moby Dick

O Realismo brasileiro no traço de Almeida Júnior

O Violeiro (1899), de José Ferraz de Almeida Júnior

Quemadmodum

E é um gato. (Pela janela as grandes gaivotas do mar nunca entram, não está em nosso poder.) Saltara do chão à mesa, sem esforço o erguer-se, nada o sustentando ou suspendendo, tal nas experiências mágicas. São mestres de alta insinuação, silêncio. Dele, claro, tem-se só um avesso. Tudo é recado. Coisas comuns comunicam, ao entendedor, revelam, dão aviso. Raras, as outras, diz-se respondem apenas a alguma fórmula em nossa mente — penso, tranquiliza às vezes achar com rapidez. Mais há, vaga, na gente, a vontade de não saber, de furtarmo-nos ao malesquecido; o inferno é uma escondida recordação. O gato, gris. Não mero ectoplasma, mas corpóreo, real como o proto-eu profundíssimo de Fichte ou bagaço de cana chupada pelo menino corcunda. O gato de capuz. Se em estórias, ele logo falava: — “Meu senhor, dono da casa...” A lâmpada não o tira de penumbra. Seus olhos me iluminam mui fracamente.
Apareceu, ao querer começar a noite, feito sorriso e raio, e conquanto como entende de cavernas e corujas. A aventura é intrometida. Antes de cochilar, eu a ele me acostumara; decerto estranho-o, agora, quando o rapto de mim mesmo me faz falta. Que mundo é este, em que até insônia a gente tem! Desenrola volutas, ilude e imita o desenho de alma do amoroso. Circunscreve-se. Vá fosse um vulgar, sem ornato, gato de sarjeta. Porém, não: todo de lenda, de origem — corpo leonino, a barba cerimonial, rosto quase humano — formulador de pergunta. Senta-se nas patas de trás, por uma operação de inteligência. Convidado para sonhar eu morava perto de alguma mulher desconhecida... A beleza insiste — ao som de tornozelos e opalas, as danaides do mundo seco. A vida, essa função inevitável. Suas pupilas endireitam-se em quarto minguante. Só é preciso perder-se, a todo instante, o equilíbrio?
— “Bast...” Ouvisse-me. Sem fu nem fufo, nenhum bufido. Temo enxotá-lo, de quantas sombras. Quieto, quedo — “Sape-te!” Não é um sonho. Resiste, imoto. Imóvel pedra a cara, barbas até à testa, pintadas, crivadas as bochechas, donde os bigodes. Desfecha ideias. Amor mínimo qualquer preenche abismos formidáveis (não de sonho; no sonho só há ½ dimensão, nenhuma desordem)... E está aqui, idosamente, quer-se que em si imerso. Descobriu o fulgor da monotonia. O tempo é o absurdo de sua presença. (A que alvo buquê de dedos longos... mentiu que sorriu... Ininteligimo-nos. O adeus estreita-nos...) O tempo, fazedor, separador, escolhedor. Talvez eu tenha sido sozinho. Ainda vou viver anos, meses, minutos. Saio. Ora, deixemo-nos do que somos.
Sua dela lembrança, incristalizável — resumo de vertigens, indefinível como qualquer dor. Longe de nós, há alegria. Os ônibus tinham festa dentro. — “Fale e vou...” — digo, entre mim. É profundo o futuro: é. O passado é urgente... Marraxo! Morrongo.
Comina-me. Capta o menor movimento, esperdiçando perspicácia, decifrador de mímicas. Por um evo. Tem-me no centro de sua visão. O gato, inominado. Despiu-se de qualquer fácil realidade. (Ela — padeço-a, entre o eu inexistente e o movediço mim. Se para sempre? — por minha culpa, ignorância privativa...) Sentado, arrumadas retamente à frente as patas dianteiras, fita-me com fantasia luminosa, assesta-me os poderes mais sutis.
— “Quem é você?” — a interminável questão. Agora engatinho, ando, apoio-me: contra o nada, só minha memória trabalha, quase vencida. Juro por Tutmés, deus! E o mundo come-nos. Creio, que digo: — “Eu sou a minha própria lacuna, e todas...” — resposta de abismo a abismo.
Então, sim, sou. Ele apagou os olhos. Tem de ir-se, quando eu readormecer, como brinca o menino cego, no inesperado sossego. Salta, quadrilongo e real, sem pena o alar-se, precipita-se, feito impelido por meiga mão. Some-se, em esfumo — e contudo belo diverso, como uma análise de poema. A janela exata, a imensa curva da noite, o fundo, não são o contrário de mim; talvez seja-se o mesmo. Só podemos alcançar sábios extratos de delírios.
E ei-la (sua lembrança apaziguada) forma subsistente. Tanto o telefone é um frêmito, calado, na madrugada, na vida. Mas, a voz. A que o menino surdo sabe de cor. (Quem sabe a palavra mais doce: b u l b u l — como os árabes chamam o rouxinol.)
Guimarães Rosa, in Ave, palavra

Na cabeceira do rio

Ouviu a queixa do rio e prometeu salvá-lo. Dali por diante ninguém mais despejaria monturo em suas águas. Contratou vigilantes, e ele próprio não fazia outra coisa senão postar-se à margem, espingarda a tiracolo, defendendo a pureza da linfa.
Seus auxiliares denunciaram que alguém, nas nascentes, turvava a água. Foi lá e verificou que um casal de micos se divertia corrompendo de todas as maneiras o fio d’água. Os animais fugiram para reaparecer à noite. E explicaram, antes que levassem tiro na barriga:
Não fazemos por mal, apenas brincamos. Que pode um mico fazer para se divertir, senão imitar vocês?
A mim vocês não imitam, pois estou justamente lutando para proteger este rio.
Já não se pode nem imitar — observaram os micos, fugindo outra vez. — O homem é um animal impossível. Agora deu para fazer o contrário.
Carlos Drummond de Andrade, in Contos plausíveis

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Contradições

Antigamente se passava com gravidade de uma contradição a outra; agora sofremos tantas ao mesmo tempo que não sabemos mais por qual nos interessar, nem qual resolver.”
E. M. Cioran

Solidão e falsa solidão

Eu, que pouco li Thomas Merton, copiei no entanto de algum artigo seu as seguintes palavras: ‘Quando a sociedade humana cumpre o dever na sua verdadeira função as pessoas que a formam intensificam cada vez mais a própria liberdade individual e a integridade pessoal. E quanto mais cada indivíduo desenvolve e descobre as fontes secretas de sua própria personalidade incomunicável, mais ele pode contribuir para a vida do todo. A solidão é necessária para a sociedade como o silêncio para a linguagem, e o ar para os pulmões e a comida para o corpo. A comunidade, que procura invadir ou destruir a solidão espiritual dos indivíduos que a compõem, está condenando a si mesma à morte por asfixia espiritual.” E mais adiante: “A solidão é tão necessária, tanto para a sociedade quanto para o indivíduo que quando a sociedade falha em prover a solidão suficiente para desenvolver a vida interior das pessoas que a compõem, elas se rebelam e procuram a falsa solidão. A falsa solidão é quando um indivíduo, ao qual foi negado o direito de se tornar uma pessoa, vinga-se da sociedade transformando sua individualidade numa arma destruidora. A verdadeira solidão é encontrada na humildade, que é infinitamente rica. A falsa solidão é o refúgio do orgulho, e infinitamente pobre.
A pobreza da falsa solidão vem de uma ilusão que pretende, ao enfeitar-se com coisas que nunca podem ser possuídas, distinguir o eu do indivíduo da massa de outros homens. A verdadeira solidão é sem um eu.
Por isso é rica em silêncio e em caridade e em paz. Encontra em si infindáveis fontes de bem para os outros. A falsa solidão é egocêntrica. E porque nada encontra em seu centro, procura arrastar todas as coisas para ela. Mas cada coisa que ela toca infecciona-se com o seu próprio nada, e se destrói. A verdadeira solidão limpa a alma, abre-se completamente para os quatro ventos da generosidade. A falsa solidão fecha a porta para todos os homens.
Ambas as solidões procuram distinguir o indivíduo da multidão. A verdadeira consegue, a falsa falha. A verdadeira solidão separa um homem de outros para que ele possa desenvolver o bem que está nele, e então cumprir seu verdadeiro destino a pôr-se a serviço de uma pessoa.”
Clarice Lispector, in A descoberta do mundo

Mariana Aydar - Te faço um cafuné

A espingarda de Alexandre

Os senhores querem saber como se deu esse caso do veado, uma história que apontei outro dia? perguntou Alexandre às visitas, um domingo, no copiar. Ora muito bem. Olhem aquele monte ali na frente. É longe, não é?
Muito longe, respondeu o cego preto Firmino.
Como é que o senhor sabe, seu Firmino? grunhiu o narrador. O senhor não vê.
Não sei não, seu Alexandre, voltou o negro. Eu disse que era longe porque o senhor é o dono da casa e deve saber. O senhor achou que era longe e eu concordei. Não está certo?
Está, resmungou Alexandre. Mas eu quero a opinião dos outros. Que distância vai daqui àquele monte, seu Libório?
Seu Libório arriscou meia légua. Mestre Gaudêncio afastou o monte para duas léguas. E Das Dores afirmou que ele devia estar a umas cinquenta:
É o que eu digo, meu padrinho. Cinquenta léguas, daí para cima.
Alexandre, moderadamente, repreendeu a afilhada:
Isso não, Das Dores. Que desconchavo! Assim também é demais. Deixe esses despotismos, para os nossos amigos não fazerem mau juízo, não pensarem que eu ando com invenções. As minhas histórias são exatas.
Tudo ali no duro, opinou seu Libório. Ponha meia légua.
Eu propus duas, disse mestre Gaudêncio.
E eu cinquenta, cochichou Das Dores. Mas parece que foi bobagem.
Foi, gritou Alexandre. Vamos dividir isso. Juntamos tudo e depois repartimos. Cinquenta com dois são cinquenta e dois. Mais meio: cinquenta e dois e meio. Qual é a terça de cinquenta e dois e meio, Cesária?
Isso é um número muito comprido, respondeu Cesária. Se eu tivesse aqui os meus caroços de mulungu, a resposta ia logo; mas assim de cabeça, que dificuldade! Negócio de conta é um desespero, Alexandre. Você conhece a adivinhação dos lenços? Não conhece. Pois eu digo. Uma rua tem cem casas, cada casa cem janelas, cada janela cem moças, cada moça cem vestidos, cada vestido cem bolsos, cada bolso tem cem lenços, cada lenço quatro pontas e cada ponta um vintém. Quanto é o dinheiro que há na rua? Hem? Nunca houve quem soubesse. Quebro a cabeça desde pequena e não sei. Faz vergonha a gente confessar que ignora um troço? Não tenho vergonha não, Alexandre. Esses lenços me têm estragado os miolos. Conta é um buraco. Vou acender o cachimbo lá dentro. E penso na sua pergunta, Alexandre, que não gosto de pensar misturada com outras pessoas. Já volto.
Cesária entrou, alguns minutos depois regressou cachimbando e falou:
Alexandre, a terça de cinquenta e dois e meio é muita coisa, mais de quinze, mais de dezesseis. Talvez chegue a dezessete e ainda um pedacinho. Mas para que saber isso tão direito? Ninguém vai medir a terra. Bote dezessete léguas, Alexandre. Que acha?
Acho que devem ser pouco mais ou menos dezessete léguas, concordou Alexandre. Ou antes: apurada a opinião de vocês todos, ficam dezessete léguas bem estiradas. Eu não dei opinião, aceito o que os outros disseram. É muita légua, não é? Pois, meus amigos, tenho uma lazarina que engole todas elas e não falha. Nunca houve outra igual.
Alexandre levantou-se, foi à sala e voltou com uma espingarda velha e enferrujada, a coronha meio comida pelo cupim, enrolada em arame:
Olhem que beleza. Meu irmão tenente, em troca do couro da onça, ofereceu-me esta maravilha, quando entrou na polícia. Que presente! Qualquer dia hei de mostrar aos amigos quanto ele vale. Só vendo, seu Firmino. O senhor vai ver. Isto é: os outros vão ver e o senhor terá notícia. Já falei no porco bravo que partiu a cachorra pelo meio? E nas duas araras? Bem. O porco e a cachorra dão para uma noite e vêm depois, mas as duas araras podem vir logo, e os senhores ficarão de queixo caído. Um dia destes acordei ouvindo gritos. Cheguei aqui ao copiar e avistei duas araras, uma voando muito alto, outra mais baixo. Corri mais que depressa, fui buscar a espingarda e atirei nos bichos. Vinha amanhecendo, ainda havia um resto de escuridão, era difícil enxergar as coisas afastadas. Mas, como já sabem, este olho torto vê tudo. As araras morreram. A que voava mais baixo caiu ali no terreiro ao meio-dia; a outra chegou às seis horas da tarde e esbagaçou-se na queda. Eu não tinha intenção…
Quer dizer que a espingarda junta o chumbo, não é, seu Alexandre? perguntou mestre Gaudêncio.
Por que, seu Gaudêncio? Que lembrança foi essa?
É que as araras estavam longe. Se o chumbo se espalhasse, não havia pontaria que servisse.
Perfeitamente, seu Gaudêncio. O senhor entende. Faz gosto a gente conversar com uma pessoa de tino assim. A espingarda junta o chumbo. E não respeita distância. Só falei nas duas araras para mostrar aos amigos até onde vai um tiro dela. O que agora me ferve no pensamento é o caso do veado. Conhecem, não? Pois foi aquilo mesmo. O veado apareceu acolá, em cima do monte, espiou os quatro cantos, desconfiado, depois sossegou e pôs-se a comer. Percebi todos os movimentos dele. Um animal bonito e fornido. Peguei a espingarda, examinei a carga, limpei o cano por dentro com o saca-trapo e mudei a espoleta, já velha. Dormi algum tempo na pontaria, puxei o gatilho e — bum! — vi na fumaça o bicho dar um pulo, correr algumas braças e amunhecar. — “Aquele está esfolado e comido”, pensei. Saí de casa, andei muito, dezessete léguas, pela conta de Cesária, e achei o corpo já frio, com dois caroços de chumbo, um na cabeça, outro no pé direito.
Que está dizendo, seu Alexandre? exclamou o cego. O senhor garante que o veado tinha um caroço na cabeça, outro no pé?
Que pergunta, seu Firmino! Pois se eu tirei o couro dele e mandei fazer aquele gibão que está ali dentro, pendurado no torno!
Mas, seu Alexandre, insistiu o negro, o senhor não disse que a espingarda junta o chumbo? Se a espingarda junta o chumbo, como é que os dois caroços estavam tão separados? Creio que houve engano.
Alexandre baixou os olhos, tirou do aió um rolo de fumo e palha de milho, desembainhou a faca de ponta e fabricou lentamente um cigarro, procurando a resposta, que não veio.
Seu Firmino, o senhor duvida da minha palavra?
Deus me livre, seu Alexandre. Quem é que duvida? Estou só perguntando.
E pergunta muito bem, gritou Cesária, salvando o marido. Seu Firmino gosta de explicações. Está certo, cada qual como Deus o fez. Quer saber por que o chumbo se espalhou? Não se espalhou não, seu Firmino: o veado estava coçando a orelha com o pé.
Graciliano Ramos, in Histórias de Alexandre

domingo, 23 de julho de 2017

Rei Édipo (trecho)


Entra CREONTE, possuído de forte irritação
CREONTE
Cidadãos! Acabo de saber que Édipo formulou contra mim gravíssimas acusações, que eu não posso admitir! Aqui estou para me defender! Se, no meio da desgraça que nos aflige, ele supõe que eu o tenha atacado, por palavras ou atos, não quero permanecer sob o vexame de semelhante suspeita, pois para mim isso não seria ofensa de somenos valor, mas sim uma profunda injúria, qual a de ser por vós, e por meus amigos, considerado um traidor!
CORIFEU
Talvez essa acusação injuriosa lhe tenha sido ditada pela cólera momentânea, e não pela reflexão.
CREONTE
Quem teria insinuado a Édipo que por meu conselho o adivinho proferiu aquelas mentiras?
CORIFEU
Realmente, ele assim declarou, mas não sei com que fundamento.
CREONTE
E foi com olhar sereno e raciocínio seguro que ele ergueu tal denúncia?
CORIFEU
Não sei dizer... Não posso penetrar no íntimo dos poderosos; mas... ei-lo que sai do palácio.
Entra ÉDIPO, bruscamente
ÉDIPO
Que vieste fazer aqui? Tens coragem de vir a minha casa, tu, que conspiras contra minha vida, e pretendes arrancar-me o poder? Vamos! Dize-me, pelos deuses! pensas tu, por acaso, que eu seja um covarde, ou um demente, para conceberes tais projetos? Supunhas que eu nunca viesse a saber de tuas ações secretas, e que não as punisse logo que fossem descobertas? Não será intento de um louco pretender, sem riqueza e sem prosélitos, uma autoridade que somente nos podem dar o povo e a fortuna?
CREONTE
Sabes o que importa fazer? Deixa-me responder a tuas palavras de igual para igual, e só me julgues depois de me teres ouvido!
ÉDIPO
Tu és hábil em manobrar a palavra; mas eu não me sinto disposto a ouvir-te, sabendo que tenho em ti um inimigo perigoso.
CREONTE
A tal respeito, ouve o que te quero dizer.
ÉDIPO
Sim; ouvirei; mas não insistas em afirmar que não és culpado.
CREONTE
Tu te enganas, se crês que a teimosia seja uma virtude.
ÉDIPO
E tu não te iludas pensando que ofenderás a um parente, sem que recebas o devido castigo.
CREONTE
De acordo; tens razão nesse ponto; mas dize-me qual foi a ofensa que te fiz!
ÉDIPO
Foste tu, ou não, quem me aconselhou a mandar vir esse famoso profeta? CREONTE Sim; e mantenho minha opinião acerca dele.
ÉDIPO
Há quanto tempo Laio...
CREONTE
Mas que fez ele? Não compreendo!...
ÉDIPO
... Desapareceu, vítima de um assassino?
CREONTE
Já lá se vão muitos anos!
ÉDIPO
E já nesse tempo Tirésias exercitava sua ciência?
CREONTE
Sim; ele já era, então, sábio e respeitado.
ÉDIPO
E, nessa época, disse ele alguma coisa a meu respeito?
CREONTE
Nunca! pelo menos em minha presença.
ÉDIPO E vós não fizestes pesquisas a fim de apurar o crime?
CREONTE
Fizemos, certamente, mas nada se descobriu.
ÉDIPO
Como se explica, pois, que esse homem tão hábil, não tivesse dito então o que diz hoje?
CREONTE
Não sei; e, quando desconheço uma coisa, prefiro calar-me!
ÉDIPO
Tu não ignoras, no entanto, e deves em plena consciência confessar...
CREONTE
Que devo eu confessar? Tudo o que souber, direi!
ÉDIPO
... Que, se ele não estivesse de conluio contigo, nunca viria dizer que a morte de Laio foi crime por mim cometido.
CREONTE
Que ele disse, tu bem sabes. Mas também eu tenho o direito de te dirigir algumas perguntas.
ÉDIPO
Pois interroga-me! Tu não me convencerás de que haja sido eu o assassino.
CREONTE
Ora vejamos: tu desposaste minha irmã?
ÉDIPO
É impossível responder negativamente a tal pergunta.
CREONTE
E reinas tu neste país com ela, que partilha de teu poder supremo?
ÉDIPO
Sim; e tudo o que ela deseja, eu imediatamente executo.
CREONTE
E não serei eu igualmente poderoso, quase tanto como vós?
ÉDIPO
Sim; e por isso mesmo é que pareces ser um pérfido amigo.
CREONTE
Não, se raciocinares como eu. Examina este primeiro ponto: acreditas que alguém prefira o trono, com seus encargos e perigos, a uma vida tranquila, se também desfruta poder idêntico? Por minha parte, ambiciono menos o título de rei, do que o prestígio real; e como eu pensam todos quantos saibam limitar suas ambições. Hoje alcanço de ti tudo quanto desejo: e nada tenho a temer... Se fosse eu o rei, muita coisa, certamente, faria contra a minha vontade... Como, pois, iria eu pretender a realeza, em troca de um valimento que não me causa a menor preocupação? Não me julgo tão insensato que venha a cobiçar o que não seja para mim, ao mesmo tempo honroso e proveitoso. Atualmente, todos me saúdam, todos me acolhem com simpatia; os que algo pretendem de ti, procuram conseguir minha intercessão; para muitos é graças a meu patrocínio que tudo se resolve. Como, pois, deixar o que tenho, para pleitear o que dizes? Tamanha perfídia seria também uma verdadeira tolice! Não me seduz esse projeto; e, se alguém se propusesse a tentá-lo, eu me oporia à sua realização. Eis a prova do que afirmo: vai tu mesmo a Delfos e procura saber se eu não transmiti fielmente a resposta do oráculo. Eis outra indicação: se tu provares que eu estou de concerto com o adivinho, condenar-me-ás à morte não por um só voto, mas por dois: o teu e o meu. Não me acuses baseado em vagas suspeitas, sem me ouvir primeiro. Não é lícito julgar levianamente, como perversos, os homens íntegros, assim como não é justo considerar íntegros os homens desonestos. Rejeitar um amigo fiel, penso eu, equivale a desprezar a própria vida, esse bem tão precioso! O tempo fará com que reconheças tudo isso com segurança, pois só ele nos pode revelar quando os homens são bons, ao passo que um só dia basta para evidenciar a maldade dos maus.
CORIFEU
Para quem, sinceramente, quer evitar a injustiça, ele muito bem te falou, ó rei. É sempre falível o julgamento de quem decide sem ponderação!
Sófocles, in Rei Édipo

Atavismo

As crianças, os poetas e talvez esses incompreendidos, os loucos, têm uma memória atávica das coisas. Por isso julgam alguns que o seu mundo não é propriamente este. Ah, nem queiras saber... Eles estão neste mundo há muito mais tempo do que nós!
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

Discurso no mercado do desemprego

Talvez perca — se desejares — minha subsistência
Talvez venda minhas roupas e meu colchão
Talvez trabalhe na pedreira... como carregador... ou varredor
Talvez procure grãos no esterco
Talvez fique nu e faminto
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez me despojes da última polegada da minha terra
Talvez aprisiones minha juventude
Talvez me roubes a herança de meus antepassados
Móveis... utensílios e jarras
Talvez queimes meus poemas e meus livros
Talvez atires meu corpo aos cães
Talvez levantes espantos de terror sobre nossa aldeia
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez apagues todas as luzes de minha noite
Talvez me prives da ternura de minha mãe
Talvez falsifiques minha história
Talvez ponhas máscaras para enganar meus amigos
Talvez levantes muralhas e muralhas ao meu redor
Talvez me crucifiques um dia diante de espetáculos indignos
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Ó inimigo do sol
O porto transborda de beleza... e de signos
Botes e alegrias
Clamores e manifestações
Os cantos patrióticos arrebentam as gargantas
E no horizonte... há velas
Que desafiam o vento... a tempestade e franqueiam os obstáculos
É o regresso de Ulisses
Do mar das privações
O regresso do sol... de meu povo exilado
E para seus olhos
Ó inimigo do sol
Juro que não me venderei
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Resistirei
Resistirei.
Samih Al-Qassim

Calvin


Já nem carecia morrer

Lázaro dobrou o tronco para ir ao fundo do bolso e retirar algo que a Zero pareceu um pequeno rádio de pilhas.
Um telemóvel, meus amigos.
Zero e Mwadia permaneceram impassíveis enquanto o outro agitava o minúsculo telefone como uma bandeira vitoriosa.
Eu já estou no futuro. Quando chegar aqui a rede, já posso ser contactado para serviços internacionais. Entendem, meus amigos?
Entre nós dois quem percebe é Mwadia.
Ficaram a olhar a tarde, calados. Como se o que esperassem fosse o próprio tempo. Madzero sabia: era falta de maneiras expor logo a sua aflição. Até porque Lázaro sempre dizia que não resolvia problemas. Ele dissolvia os problemas, que é uma forma superior de prestar ajuda.
Mas, então, compadre: ficou-lhe a doer um sonho?
O pior, Ba Lázaro, o pior não foi o sonho. O despertar é que foi um pesadelo.
Explique-se, meu amigo, detalhe-se.
Acordei todo cansado, ombro derreado. E as mãos, as mãos eram um incêndio.
O curandeiro ergueu-se com pesos que lhe vinham não do corpo mas da tardia hora da consulta. Postou-se rente ao queixoso e soprou como se trombeteasse o ar, semelhando o vozear de um paquiderme. Pediu a Zero que estendesse os braços. Com inesperado vigor, repuxou a manga da camisa para lhe descobrir o ombro magro. Depois, o curandeiro fungou ruidosamente como se a alma lhe escapasse pelas narinas. Debruçou-se sobre o pastor e farejou-lhe a omoplata. Num ápice, desviou o olhar e passou a mão pelo rosto, limpando invisíveis transpirações. Em seguida, cuspiu repetidas vezes, parecendo expulsar a alma aos retalhos.
O que se passa, Ba Lázaro?, inquiriu Zero com o susto atravessado na garganta.
Você andou carregando um peso toda a noite.
Madzero estranhou, sobrancelhas em arco. O nyanga adivinhava a queda e o enterro da estrela? A medo, o pastor perguntou:
Peso? Que peso?
Uma mulher.
Uma mulher?
Sim, meu amigo, uma mulher. E lhe digo mais: uma mulher muito quente.
Isso não pode ser. Desculpe, mas não pode. Eu durmo sozinho. Mais do que sozinho, eu durmo com minha esposa.
Veja, então! Veja essa marca! E lhe apontou um espelho para que ele espreitasse a sua própria omoplata.
Marca de quê?
Não está a ver? Isso é a marca de um seio. Um seio de mulher.
Seio deixa marca? Nem objetou, por respeito. Lázaro Vivo adivinhou-lhe a descrença. E voltou a levantar-lhe a manga, apontando para um sulco redondo sobre a pele.
Isso, compadre, é a pegada de um seio. Mas também lhe digo: essa mama não é feita de carne.
Lázaro não tinha mais a dizer. Com um gesto vazio ordenou o fim da consulta. Madzero retirou-se confuso e abatido. O curandeiro desvariava. O burriqueiro só conhecia as belas e carnudas mamas de Mwadia. Era evidente que a marca tinha sido produzida pela estrela decadente que ele transportara e enterrara. Quem pode confundir mulher e estrela?
À despedida, o curandeiro enfrentou Mwadia que permanecia calada, olhos no chão.
E você, Mwadia, você não sonha?
Eu? Ora, compadre Lázaro, eu nunca lembro o que sonho.
Cuidado, minha filha, muita cautela: quem não vê os seus sonhos é porque está sonhando aquilo que está vendo.
Não diga isso que me assusta.
Espere um pouco, disse Lázaro, quero-lhe mostrar uma coisa.
Lázaro Vivo inclinou-se sobre a areia e arrancou uma planta pela raiz. Levantou a planta, virou-a ao contrário e pediu a Mwadia que contemplasse o recorte das raízes de encontro ao céu.
Espreite bem: o que lhe parece essa raiz?
Parece uma árvore, avançou com timidez.
Ele sorriu, confiante. Era a resposta que esperava. Sacudiu a raiz, espalhando areia úmida.
Isto é você. Parece uma raiz. Mas é uma árvore que vive enterrada.
Mwadia despediu-se, cumprindo a vénia respeitosa. Depois, correu para acompanhar o marido que, entretanto, ganhara caminho. As enigmáticas palavras do curandeiro ecoavam na sua cabeça. Rapidamente decidiu esquecê-las. Assim que contornaram o cabeço rochoso ela perguntou ao marido:
Não escutei tudo o que falaram: afinal, o curandeiro autorizou?
Hein?
Pergunto se Lázaro autorizou a nossa viagem à floresta.
O burriqueiro acenou afirmativamente. Depois, apressou o passo para que todos vissem que ele caminhava à frente da mulher, como era devido a um homem-macho. Mas logo ele se riu. Não havia ali ninguém para os ver passar. E o riso lhe foi murchando numa linha entristecida.
Marido, me diga uma coisa: você não inventou toda esta história da estrela só para me fazer esquecer da sua promessa...
Da promessa?
Há quantos anos você anda a prometer que me vai tirar desta porcaria desta vida?
Mas, Mwadia, você não desiste dessa ideia?
Eu já não tenho motivo de viver, Zero. E você me prometeu que me matava de boa maneira...
Eu ainda estou a pensar numa maneira.
Ainda estou a pensar, ainda estou a pensar... pois pense rápido, que um dia ainda me acontece como essa estrela, e me despedaço dos céus.
Longe da família, sem filhos, sem chuva, naquele canto para além do mundo, Mwadia não era nem a árvore nem a raiz de que falara Lázaro. Ela era um arbusto definhado e seco. Toda a morte tem o seu quê de suicídio. Mwadia, porém, já não se considerava vivente. Por isso, para deixar de viver, já nem carecia morrer.
Mia Couto, in O outro pé da sereia