segunda-feira, 26 de junho de 2017

Honra

Aos humildes a demasiada honra mais os embaraça do que os melhora.”
Padre Antônio Vieira

O salto no desconhecido


Viver no mundo como se não fosse o mundo, respeitar a lei e no entanto colocar-se acima dela, possuir uma coisa “como se não a possuísse”, renunciar como se não tratasse de uma renúncia, todas essas proposições favoritas e formuladas com frequência, todas essas exigências de uma alta ciência da vida somente pode realizá-las o humor. E no caso do Lobo da Estepe, a quem não faltam faculdades e disposições para tanto, se lograsse, no labirinto de seu inferno, absorver e transpirar essa bebida mágica, então estaria salvo. Ainda lhe falta muito para isso, mas a possibilidade, a esperança existem. Quem o ama, quem se interessa por ele, pode desejar-lhe esta salvação. Ela iria, é verdade, mantê-lo preso ao mundo burguês, mas seu padecimento seria suportável e produtivo. Suas relações com o mundo burguês quer no amor ou no ódio perderiam seu sentimentalismo e sua sujeição a ele cessaria de atormentá-lo continuamente como um opróbrio. Para alcançar isto, ou para, afinal, ser capaz de tentar o salto no desconhecido, teria um lobo da estepe de defrontar-se algumas vezes consigo mesmo, olhar profundamente o caos de sua própria alma e chegar à plena consciência de si mesmo. Sua existência enigmática revelar-se-ia então para ele em toda sua invariabilidade e ser-lhe-ia impossível para sempre no futuro escapar do inferno de seus impulsos e refugiar-se em consolos filosóficos e sentimentais. Seria necessário que o homem e o lobo se conhecessem mutuamente sem falsas máscaras sentimentais, que se fitassem nos olhos em toda a sua nudez. Então explodiriam ou se separariam para sempre, de modo que não voltariam a existir lobos da estepe ou chegariam a bons termos à luz nascente do humor. É possível que Harry tenha um dia esta última possibilidade. E possível que um dia aprenda a conhecer-se, seja porque receberá nas mãos um dos nossos espelhinhos, seja porque alcance o Imortal ou talvez encontre num dos nossos teatros mágicos aquilo de que necessita para libertar sua alma desgarrada. Mil possibilidades o esperam, seu destino as atrai irremediavelmente, pois todos esses solitários da burguesia vivem na atmosfera dessas mágicas possibilidades. Basta apenas um nada para que se produza a centelha. E tudo isso é amplamente conhecido pelo Lobo da Estepe, ainda que seus olhos nunca venham a dar com este fragmento de sua biografia íntima. Ele suspeita e teme a possibilidade de um encontro consigo mesmo, e está cônscio da existência daquele espelho no qual tem uma necessidade tão amarga de olhar-se e no qual teme mortalmente ver-se refletido. Para terminar nosso estudo resta esclarecer ainda uma última ficção, um engano fundamental. Todas as interpretações, toda psicologia, todas as tentativas de tornar as coisas compreensíveis se fazem por meio de teorias, mitologias, de mentiras; e um autor honesto não deveria furtar-se, no fecho de uma exposição, a dissipar essas mentiras dentro do possível. Se digo “acimas” ou “abaixo”, isso já é uma afirmação, que exige um esclarecimento, pois só existem acima e abaixo no pensamento, na abstração. O mundo mesmo não conhece nenhum acima nem abaixo. Da mesma maneira, para ser sucinto, o lobo da estepe também é uma ficção.
Hermann Hesse, in O lobo da Estepe

O Melhor Forró do Mundo - show ao vivo

Temas que morrem

Sinto em mim que há tantas coisas sobre o que escrever. Por que não? O que me impede? A exiguidade do tema talvez, que faria com que este se esgotasse em uma palavra, em uma linha. Às vezes é o horror de tocar numa palavra que desencadearia milhares de outras, não desejadas, estas.
No entanto, o impulso de escrever. O impulso puro – mesmo sem tema. Como se eu tivesse a tela, os pincéis e as cores – e me faltasse o grito de libertação, ou a mudez essencial que é necessária para que se digam certas coisas. Às vezes a minha mudez faz com que eu procure pessoas que, sem elas saberem, me darão a palavra-chave. Mas quem? quem me obriga a escrever? O mistério é esse: ninguém, e no entanto a força me impelindo.
Eu já quis escrever o que se esgotaria em uma linha. Por exemplo, sobre a experiência de ser desorganizada, e de repente a pequena febre de organização que me toma como a de uma antiga formiga. É como se o meu inconsciente coletivo fosse o de uma formiga.
Eu também queria escrever, e seriam duas ou três linhas, sobre quando uma dor física passa. De como o corpo agradecido, ainda arfando, vê a que ponto a alma é também o corpo.
E é como se eu fosse escrever um livro sobre a sensação que tive uma vez que passei vários dias em casa muito gripada – e quando saí fraca pela primeira vez à rua, havia sol cálido e gente na rua. E de como me veio uma exclamação entre infantil e adulta: ah, como os outros são bonitos. É que eu vinha do escuro meu para o claro que também descobria que era meu, é que eu vinha de uma solidão de pessoas para o ser humano que movia pernas e braços e tinha expressões de rosto.
Também seria inesgotável escrever sobre beber mal. Bebo depressa demais, e não há alternativas: ou praticamente adormeço dentro de mim e fico morosa, pensativa sem que um pensamento se esclareça como descoberta, ou fico excitada dizendo tolices do maior brilho instantâneo. Mas – mas há um instante mínimo nesse estado em que simplesmente sei como é a vida, como eu sou, como os outros são, como a arte deveria ser, como o abstracionismo por mais abstrato não é abstrato. Esse instante só não vale a pena porque esqueço tudo depois, quase na hora. É como se o pacto com Deus fosse este: ver e esquecer, para não ser fulminado pelo saber.
E às vezes, por mais absurdo, acho lícito escrever assim: nunca se inventou nada além de morrer. E me acrescento: deve ser um gozo natural, o de morrer, pois faz parte essencial da natureza humana, animal e vegetal, e também as coisas morrem. E, como se houvesse ligação com essa descoberta, vem a outra óbvia e espantosa: nunca se inventou um modo diferente de amor de corpo que é estranho e cego. Cada um vai naturalmente em direção à reinvenção da cópia, que é absolutamente original quando realmente se ama. E de novo volta o assunto morrer. E vem a ideia de que, depois de morrer, não se vai ao paraíso, morrer é que é o paraíso.
A verdade é que simplesmente me faltou o dom para a minha verdadeira vocação: a de desenhar. Porque eu poderia, sem finalidade nenhuma, desenhar e pintar um grupo de formigas andando ou paradas – e sentir-me inteiramente realizada nesse trabalho. Ou desenharia linhas e linhas, uma cruzando a outra, e me sentiria toda concreta nessas linhas que os outros talvez chamassem de abstratas.
Eu também poderia escrever um verdadeiro tratado sobre comer, eu que gosto de comer e no entanto não como tanto. Terminaria sendo um tratado sobre a sensualidade, não especificamente a de sexo, mas a sensualidade de “entrar em contato” íntimo com o que existe, pois comer é uma de suas modalidades – e é uma modalidade que engage de algum modo o ser inteiro. Também escreveria sobre rir do absurdo de minha condição. E ao mesmo tempo mostrar como ela é digna, e usar a palavra digna me faz rir de novo.
Eu falaria sobre frutas e frutos. Mas como quem pintasse com palavras. Aliás, verdadeiramente, escrever não é quase sempre pintar com palavras? Ah, estou cheia de temas que jamais abordarei. Vivo deles, no entanto.
Clarice Lispector, in A descoberta do mundo

Domado

Você pode enjaular um tigre, mas jamais terá certeza que ele está domado. Com os homens a coisa é mais fácil.”
Charles Bukowski

Um artista de Shanghai

Para May Zarif

Muita gente sonha em conhecer Paris, Roma, Barcelona, Londres, Cairo”, disse minha amiga. “Eu, desde criança, sonhava em conhecer Shanghai.”

Minha mãe falava muito de um artista chinês que encantou a cidade com seus desenhos e aquarelas. Ele morou uns anos em Manaus e ganhava a vida com sua arte de aquarelista. Perguntava a uma pessoa o nome de um parente morto, pedia que lhe contasse alguma coisa sobre o finado, depois pintava com aquarela manchas coloridas e dessas manchas surgia um rosto. O rosto do parente. Minha mãe dizia que esse chinês, além de ser um artista, era um bruxo. Por isso ficou conhecido como “O bruxo de Shanghai”.
Eu tinha nove anos quando vi o desenho do rosto da minha finada avó, uma aquarela do artista chinês. Minha mãe me mostrou fotografias dessa avó que não conheci, eu fiquei impressionada com a semelhança entre as fotos e a aquarela.
Quando eu ia completar treze anos, aconteceu uma tragédia. Minha mãe foi me apanhar na Escola Normal. Quando atravessávamos a praça São Sebastião, paramos no lugar onde o chinês trabalhava.
Ele ficava aqui, ao lado desse barco de bronze onde está escrito Ásia”, disse minha mãe.
Observei o monumento, o barco, imaginei o artista com seus pincéis, tintas, folhas brancas, e perguntei por onde ele andava.
Não sei”, ela disse. “Morou aqui nos anos 1950. Ainda estava em Manaus quando tu nasceste, mas um dia ele sumiu. Era um artista muito querido.”
Entramos em casa depois de meio-dia, minha mãe murmurou que não queria almoçar, estava indisposta e foi deitar na rede. Almocei com meu pai, conversamos sobre a Escola Normal e sobre um navio inglês que estava atracado no porto. Antes de fazer a sesta, meu pai perguntou à minha mãe se ela se sentia melhor. Ela não respondeu. Estava morta. Morreu deitada, dormindo.
Sim, uma coisa terrível… Quando me lembrava dela, recordava também do pintor de Shanghai, porque as últimas palavras que ouvi de minha mãe falavam do artista e do lugar onde costumava trabalhar. Aí passei anos com a ideia de visitar a China, ou melhor, Shanghai.
Meu pai dizia que isso era besteira, ou loucura. Não insisti, mas também não desisti de visitar Shanghai. Meu pai morreu muito velho, em 1996, quando eu já estudava mandarim com um chinês que trabalhava numa fábrica em Manaus. Quando meu professor envelheceu, eu já falava mandarim, mas não conhecia o dialeto falado na região de Shanghai. Há dois anos viajei à Ásia.
Shanghai, como tu sabes, é o maior porto do mundo, a cidade é enorme, mas essa metrópole tentacular não me intimidou. Visitei o museu de Belas-Artes, o Centro de Escultura de Shanghai, o maravilhoso Lu Xun; saía sozinha, sem intérprete: o nome e endereço do hotel bastavam. Mas fui com um guia até as ilhas Yangshan. Para quem conhece a China, o Ocidente é um diminutivo.
Dois dias antes de voltar para o Brasil, escrevi o nome do artista e perguntei ao guia se ele conhecia alguém com esse nome. Ele me levou a um bairro distante do centro, um bairro situado no coração de Puxi, a oeste do rio Huangpu. Paramos diante de um pequeno sobrado em estilo art déco, resquício da colonização francesa.
Esta é a casa do artista”, disse o guia. “Morreu em Shanghai, em 1978. Sei por que você se interessou por ele.”
Por quê?”
Porque ele morou nove anos na Amazônia.”
Entramos na casa. As paredes das salas estavam cobertas por desenhos e aquarelas de rios, igapós, furos, sementes, frutas, uma enorme variedade de plantas e árvores. E também aquarelas de horizontes, em que a floresta e o céu eram desenhados em vários momentos do dia. Não vi nenhum desenho de pessoas, nem de animais, peixes, insetos. Lembrei a aquarela do rosto da minha avó e pensei: ele desenhava o rosto dos mortos para sobreviver. Era um artista apaixonado pela natureza.
Perguntei ao guia quanto tempo o artista tinha morado naquela casa.
Quase vinte anos”, respondeu. “Mas ele só ocupava um quartinho do andar superior. Quando ele morreu, os outros moradores tiveram que sair daqui. A prefeitura fez esse pequeno museu.”
Quis visitar o quarto. Era de fato pequeno, mal cabiam uma cama, uma cadeira e uma mesinha. Reparei nos pincéis de vários tamanhos e formas, nos delicados estojos de tintas, na roupa dobrada, arrumada sobre o assento da cadeira. Um quartinho modesto, ou mesmo pobre, que contrastava com a riqueza e o luxo que eu tinha visto em Pudong. Mas não senti pena do artista. Por que sentiria pena de um artista talentoso e corajoso?
Quando observei a mesinha, vi uma fotografia ao lado de um caderno. Na capa, estava escrito em mandarim: ‘Passagem por Manaus’. Depois, quando observei a foto, vi o artista ainda jovem abraçado a uma moça. Reconheci o rosto de minha mãe. Não sei se a foto era anterior ou posterior ao meu nascimento. Sei que minha mãe parecia feliz. O sorriso no rosto dela foi a melhor lembrança de Shanghai.
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

domingo, 25 de junho de 2017

Fluência

Eu fiz um livro, mas oh, meu Deus,
não perdi a poesia.
Hoje depois da festa,
quando me levantei para fazer café,
uma densa neblina acinzentava os pastos,
as casas, as pessoas com embrulho de pão.
O fio indesmanchável da vida tecia seu curso.
Persistindo, a necessidade dos relógios,
dos descongestionantes nasais.
Meu livro sobre a mesa contraponteava exato
com os pardais, os urinóis pela metade,
o antigo e intenso desejar de um verso.
O relógio bateu sem assustar os farelos sobre a mesa.
Como antes, graças a Deus.
Adélia Prado

Dona Eduviges

Como se o tempo tivesse retrocedido. Tornei a ver a estrela ao lado da lua. As nuvens se desfazendo. As revoadas de tordos. E em seguida a tarde, ainda cheia de luz.
As paredes refletindo o sol da tarde. Meus passos ressoando nas pedras. O tropeiro que me dizia: “Procure a dona Eduviges, se é que ela ainda está viva!”
Depois um quarto escuro. Uma mulher roncando ao meu lado. Notei que sua respiração era desigual como se estivesse entre sonhos, ou como se não dormisse e só imitasse os ruídos que o sono produz. A cama era de palha coberta com sacos de estopa que cheiravam a urina, como se nunca tivessem sido arejados ao sol; e o travesseiro era um trapo que envolvia uma paina ou lã tão dura ou tão suada que tinha endurecido feito pau.
Junto aos meus joelhos sentia as pernas nuas da mulher, e junto à minha cara a sua respiração. Sentei-me na cama apoiando-me naquela espécie de adobe do travesseiro.
O senhor não dorme? — ela me perguntou.
Não tenho sono. Dormi o dia inteiro. Onde está o seu irmão?
Saiu por aí. O senhor ouviu onde ele tinha de ir. Talvez não volte esta noite.
Quer dizer que acabou indo mesmo? Apesar da senhora?
É. E talvez não volte. Assim foi com todos. Que vou até aqui, que vou até ali. Até que foram se afastando tanto que no fim não voltaram. Ele sempre quis ir embora, e acho que agora chegou a vez. Talvez sem que eu soubesse, me deixou com o senhor para que o senhor cuidasse de mim. Viu que era a oportunidade. Essa história do bezerro fujão foi só um pretexto. O senhor vai ver como ele não volta.
Quis dizer a ela: “Vou sair para buscar um pouco de ar, porque sinto náuseas”, mas disse:
Não se preocupe. Ele volta.
Quando me levantei, ela me disse:
Deixei alguma coisa em cima do braseiro. É muito pouco; mas pode ser que acalme a sua fome.
Encontrei um pedaço de carne-seca e em cima das brasas umas tortilhas.
São as coisas que consegui — ouvi que ela dizia lá de onde estava. — Troquei com minha irmã por dois lençóis limpos que eu tinha guardado desde os tempos da minha mãe. Ela deve ter vindo aqui buscar. Não quis dizer nada na frente de Donis; mas foi ela a mulher que o senhor viu e que o assustou tanto.
Um céu negro, cheio de estrelas. E ao lado da lua, a maior estrela de todas.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

A aventura grotesca do protoplasma

A espécie humana há de passar como passaram os dinossauros e os estegocéfalos. Pouco a pouco, a pequena estrela que nos serve de sol perderá o seu poder iluminador e aquecedor... Terá, nessa altura, cessado toda a vida sobre a Terra, que continuará, como astro caduco, o seu voltear sem fim nos espaços sem limites... E então, de toda a civilização humana ou sobre-humana – descobertas, filosofias, ideais, religiões -, nada subsistirá. Não restará mesmo, de nós, o que resta hoje do homem de Neandertal, do qual, pelo menos, alguns ‘despojos’ encontraram asilo nos museus do seu sucessor. Será anulada, para sempre, neste recanto do Universo, a aventura grotesca do protoplasma. Aventura que, talvez, se renove noutros mundos, sempre sustentada pelas mesmas ilusões, criadoras dos mesmos tormentos, sempre igualmente absurda, igualmente vã e igualmente condenada, desde o princípio, à frustração final e à treva infinita…”
Jean Rostand, in Pensamentos de um biólogo

O traço marcante de Van Gogh

A Siesta (1980), de Vicente Van Gogh

Requerimento

Caro Senhor Tempo, 
 
Espero que esta lhe encontre passando bem, ou melhor, passando o mais devagar possível.
Por aqui vai-se indo, como o Senhor quer e consente, meio rápido demais para o meu gosto, e quando vi já era dezembro.
Foi-se mais um ano.
E com ele se foi uma quantidade incalculável de amores, cores, idades, alguns amigos, não sei quantos neurônios, memórias, remorsos, desvarios, cabelos, ilusões, alegrias, tristezas, várias certezas (se não me engano, treze), algumas verdades indiscutíveis, umas calças que não fecham mais e aquele vestido de que eu gostava tanto.
Foi-se o meu gosto por vitrine.
Foi-se quase todo meu vidro de perfume.
Foi-se meu costume de imaginar asneiras à noite.
Foi-se meu forte instinto de acreditar no que me dizem.
Foi-se meu açucareiro de porcelana. Que pena.
Foi-se o tempo em que uma simples farra não significava necessariamente uma condenação sumária do dia subsequente.
Foi-se a poupança. O troquinho da gaveta.
Foi-se aquele antigo projeto.
Foram-se exatamente nove vírgula seis por cento de todas as minhas esperanças.
Será que o Senhor não cansa, seu Tempo?
Não pensa em tirar umas férias, dar uma pausa, respirar um pouco? Não lhe agrada a ideia de mudar o andamento? Diminuir o ritmo? Em vez de tique-taque, inventar uma palavra mais comprida para compasso, mantra, ícone, diagrama?
Me diz sinceramente: para que tanta pressa?
Anda difícil acompanhar seus passos ultimamente.
Não precisa dar meia-volta, eu não espero tanto. Eternidade? Não. Só queria sua amizade.
Mas já é dezembro.
Foi-se mais um ano.
E o Senhor passou voando, rebocou os meus momentos, foi desbotando minhas lembranças, carregou mais doze meses inteiros levando cada instante meu de carona.
Tentei voltar atrás em algumas decisões. Já era tarde.
Não deixei nada para amanhã. Mesmo assim, não fiz sequer metade do que pretendia. Imaginei várias maneiras de estancar os dias, segunda, terça, quarta, quando via já era quinta. Sexta. Sábado. Domingo. Pronto.
Pensei em fuga. Será que existe algum lugar deste mundo onde as horas não me encontrem? Fiquei meses trancada em casa. Foi inútil. Lá fora, o Senhor continua passando.
E já passou mais um pouquinho.
Calma, Tempo! Espera só um minutinho para eu explicar melhor meu ponto de vista.
Nem todo mundo é pedra, concorda? Dito isso, imagine então quantos pobres mortais sofrem da mesma agonia diária: giros e mais giros nos ponteiros, os cantos dos cucos, as denúncias das sombras, os grãos de areia escorrendo (parece até hemorragia crônica), tudo escapulindo, descendo, subindo, o frenesi dos dígitos, um, dois, três, quatro, cinco, cem, o Senhor vai tirar o pai da forca? Está fugindo de alguém? De quem? De mim? De ontem? Eu conheço de cor suas obrigações.
Estou convencida de suas utilidades.
Não fosse o senhor, não existiria saudade, retrato, suvenir, antiguidade, história, época, período, calendário, outrora, passatempo, novidade, creme antirrugas, disputa por pênaltis, antepassado, descendente, dia, noite, nada, não existiria sabedoria, eu sei disso.
Não tome como queixas minhas palavras, por favor não tome.
Aqui vai apenas uma súplica.
Ah, se o senhor fosse mais indulgente, mais piedoso, mais pensativo, se fosse baiano, menos estressado, mais manso, menos rigoroso, um bon vivant, e se distraísse aí pelo caminho, e se deixasse apreciar as paisagens, e sofresse um devaneio, e ficasse de bobeira, esquecido das horas, divagando.
Escute aqui, seu Tempo, que tal deixar passar o resto e parar quieto um pouco?
Adriana Falcão, in Requerimento

sábado, 24 de junho de 2017

Louvor do revolucionário

Quando a opressão aumenta
Muitos se desencorajam
Mas a coragem dele cresce.
Ele organiza a luta
Pelo tostão do salário, pela água do chá
E pelo poder no Estado.
Pergunta à propriedade:
Donde vens tu?
Pergunta às opiniões:
A quem aproveitais?

Onde quer que todos calem
Ali falará ele
E onde reina a opressão e se fala do Destino
Ele nomeará os nomes.

Onde se senta à mesa
Senta-se a insatisfação à mesa
A comida estraga-se
E reconhece-se que o quarto é acanhado.

Pra onde quer que o expulsem, para lá
Vai a revolta, e donde é escorraçado
Fica ainda lá o desassossego.
Bertolt Brecht

Solistência

Eu estou só. O gato está só. As árvores estão sós. Mas não o só da solidão: o só da solistência.
Guimarães Rosa, in Ave, palavra

Crime e castigo

Interrogado pelo comissário, jurou inocência. Inquirido pelo delegado, voltou a jurar. Não acreditaram. Foi indiciado, pronunciado, julgado, condenado. Sempre gritando que estava inocente.
No fim de cinco anos de prisão, acabou convencido de que era mesmo culpado. Pediu que o julgassem novamente, para agravamento de pena. Em vez disto, soltaram-no porque findara a pena.
Saiu confuso, já não tinha certeza se era culpado ou inocente, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Como toda gente.
Carlos Drummond de Andrade, in Contos plausíveis

Carpe diem

A vida não admite atrasos. Desde que o prazer está ao teu alcance, apanha-o. Cada hora que passa nos frustra de uma alegria e resfria nosso desejo.”
Samuel Johnson

A estrela enterrada (trecho)

Foi então assim?
Foi, mulher. Sem tirar nem opor.
Pois eu lhe digo, marido: temos que desenterrar essa estrela decadente.
Porquê?
No nosso quintal só os nossos é que plantamos, só os nossos de carne e osso.
O casal decidiu que, nesse mesmo dia, transladaria os restos imortais do corpo celeste. E os enterraria junto ao rio, no lugar do sagrado bosque. É lá que se sepultam as crianças.
Antes, porém, consultariam o curandeiro Lázaro Vivo. Não que essa consulta fosse do agrado de Mwadia, que ela não dava créditos àquilo que chamava de crendices. Nem Zero, se fosse coerente com os mandamentos dos vapostori, seprestaria a tais consultas. Quando olhou a sombra nos olhos do marido, Mwadia entendeu que aquele não era o momento para lhe requerer coerências.
Aliás, desde os tempos da Revolução que o velho Lázaro Vivo deixara de se apresentar como um nyanga. Ele era, agora, um conselheiro tradicional. Fosse qual fosse a sua oficial designação, o adivinho lhes daria a necessária permissão para entrar na floresta. Só isso, agora, importava.

Antes da visita a Lázaro, Zero Madzero teve ainda tempo para se deitar. Queria dormir, apagar o seu existir. Mwadia Malunga acariciou-lhe a fronte e ele se afundou no sono. A mulher voltou a espreitar a campa no quintal. Pobre Madzero, ele acreditava tratar-se de uma estrela. Não seria ela a desmenti-lo.
Mas a esposa sabia: aquilo que se vê no céu nem sempre são astros. Aprendera com o pai a distinguir os verdadeiros dos falsos corpos celestes. Esses outros, os enganosos astros, são barcos em que viajam os que não souberam morrer. A mulher sorriu: o que estava ali sepultado no quintal eram restos de uma desembarcação. Ela sabia de suas certezas: o seu nome, Mwadia, queria dizer “canoa” em si-nhungwé. Homenagem aos barquinhos que povoam os rios e os sonhos.
Depois, olhou a nascente madrugada como se procurasse um lugar vago nos céus. A lua ainda se destacava, lá no lusco-fusco. A Mwadia doeu-lhe uma súbita saudade da casa de infância. Chegou a escutar a voz de sua mãe, como se a lembrança fosse água tombando sobre água. Fixou aquela luz viúva e o seu olhar se embaciou. Esfregou o rosto, corrigindo tristezas, num gesto redondo:
A lua hoje está cheia de pólen.
Não tinha passado uma hora: a mulher escutou o pastor gemendo. Ardiam-lhe as mãos. Ela chamou-o. Mas o homem se queixava dormindo, o pranto lhe emergia do outro lado da consciência. Mwadia teve medo de tocar nas lágrimas que escorriam pelo rosto do marido e encharcavam a almofada. Quem chora dormindo pode também rezar sem despertar. E, assim, ela encorajou o pastor:
Isso, vá rezando, marido. Mas reze de sua maneira, você é um postori.
Os outros rezavam a Deus. Ele rezava com Deus. Os outros rogavam ao Criador. Madzero conversava com Ele, fazendo dele as Suas palavras.
A presença da esposa deve ter invadido o espírito do adormecido burriqueiro. Pois, segundo contou mais tarde, Madzero sonhou que as suas mãos se juntavam, duas chamas numa única fogueira. Em lugar dos dedos, lhe doíam dez pequenas labaredas. Foi então que outras mãos, feitas de água, se aconchegaram nas suas e aplacaram aquele incêndio. Eram as mãos de mulher. Seriam as minhas, adiantou-se Mwadia. Não. Aquelas eram mãos de mulher branca. E a mulher do sonho vaticinou:
As minhas mãos são de água. Sou feita para a sede dos homens.
A voz ecoou na cabeça do pastor. As palavras o sacudiram por dentro. A voz tomava posse dele, usando a sua boca para falar:
Eu sou a mulher.
Está maluco, marido? Agora sonha que é mulher?
Foi o trespassar da gota. Nenhum homem no mundo se envaidecia tanto de ser macho. Zero Madzero puxava lustro da tradição viril dos seus antepassados: os Chikundas [4] , bravos caçadores de elefantes, intrépidos viajantes do rio, lendários guerreiros. Como podia, agora, o seu homem se confessar mulher?
Mwadia sacudiu o marido, vestiu-o à pressa e o enca-minhou pelos carreirinhos até ao topo do morro Camuendje. Seguiram por velhos e secretos atalhos, ocultos entre areias e cascalhos, por onde, durante séculos, os Chikundas conduziram missionários, exploradores e comerciantes de escravos e marfim.

Em Antigamente toda a noite é derradeira. Cada dia é tão custoso e espesso que parece carregar o último sol. Depois deste escuro, pensou Mwadia, já nenhuma outra luz haverá. Talvez tenha sido esse receio que a fez sorrir, aliviada, quando, já no topo do monte, avistou na distância as escassas luzes de Vila Longe.
Contornaram as grandes rochas de granito: nas traseiras daquele cabeço morava o adivinho Lázaro Vivo.
Diga-me, marido: você quer mesmo consultar o conselheiro? E a sua igreja não proíbe as cerimônias tradicionais?
A nossa igreja proíbe, mas, às vezes, a circunstância é maior que a situação.

O compadre Lázaro refugiara-se no monte Camuendje desde que a Revolução perseguira os curandeiros. Dizia-se que, agora, os tempos tinham mudado, mas Lázaro Vivo não facilitava. Quisessem incomodá-lo e deveriam atravessar vales e rios e vasculhar por entre as penedias da montanha.
Chegados à vedação, Mwadia bateu as palmas, em pedido de licença, enquanto Zero Madzero foi entrando pelo pátio do curandeiro. Espreitou pelos recantos e não viu ninguém. Mwadia procurou uma sombra e recostou-se, decidida a esperar à entrada do recinto. Recordava-se bem de Lázaro Vivo, o adivinho. O homem se convertera numa figura mítica desde que, aquando do enchimento da albufeira de Cahora Bassa, ele se recusara a abandonar a sua velha casa. — Fico a fazer companhia aos mortos , teimara. Zero Madzero e Lázaro Vivo eram dois opostos: contrastando com a cabeça rapada do primeiro, o adivinho exibia longas e farfalhudas tranças; o burriqueiro vestia sempre uma camisa branca, o nyanga envergava uma túnica preta. Um e outro se colocavam em lados contrários do oculto: os feiticeiros trazem a chuva dos primórdios; os vapostori transportam o fogo do fim do mundo. Um ruído alvoroçou Mwadia: era o nyanga que entrava em casa, vindo do mato. A mulher se espantou: o adivinho mudara de aparência dos pés à cabeça. As tranças deram lugar a um cabelo curto e penteado de risca, a túnica fora substituída por uma blusa desportiva. Debaixo do braço trazia uma tabuleta e foi assim, surpreendido e meio torcido, que saudou a visitante: — Acabo de chegar de Vila Longe! Fui lá buscar esta tabuleta que mandei fazer para colocar aqui, na entrada do estabelecimento. Colocou a tábua no chão de modo a que o letreiro se tornasse legível. Estava escrito: «Lázaro Vivo, notável das comunidades locais, curandeiro e elemento de contacto para ONGs». O riso de confiante orgulho não esmoreceu quando o adivinho perguntou: — E Madzero onde está? — Já entrou, está aí no quintal. — Ele está bem? É que, lá na Vila, dizem-se coisas. — Zero só sai de noite. — Pois ele que se acautele e se torne mais diurno. Dá azar um homem deixar de ver a sua própria sombra. — Agora vá, compadre Lázaro: fale com Zero que ele está muito angustiado. Eu aguardo aqui fora . A mulher regressava à sua condição de esposa: retirou-se, convertendo-se em ausência. Lá fora, ela se dedicaria à sua mais antiga vocação: esperar. As vozes, mesmo aguadas, lhe chegariam, ora distintas ora enevoadas. Embalada, a mulher fechou os olhos, encurvou os ombros para reduzir o tamanho da sua sombra. Lázaro Vivo fixou os olhos em Mwadia e suspirou longamente. Há uns anos talvez ele ensaiasse um tropeção de pestanas com Mwadia. Agora era tarde. Corrigiu o devaneio, acertando os chinelos nos pés como se, desse modo, espantasse pensamentos e rematou: — Não fique aí, faça o favor de entrar. Surpreendida, a visitante ainda reagiu. Mas o curandeiro insistiu, peremptório: aquilo não era um ritual, era apenas uma conversa sem demais implicações. A mulher acabou por aceitar e, timidamente, cruzou o pátio onde Zero Madzero já ganhara assento.
Não contava que eu viesse, compadre Lázaro?, começou por inquirir Madzero.
O curandeiro espreguiçou-se demoradamente, como se entendesse expulsar o corpo de si mesmo.
Os que me conhecem, sabem: gosto de surpresa, mas só quando sou avisado.
Quer saber o que sonhei?, perguntou o burriqueiro, com voz pastosa.
Não. Era isso que ao curandeiro Lázaro lhe apetecia responder: que não, não queria que ninguém mais lhe contasse sonhos. Estava saturado. Já não suportava essa mentira que é o relatar dos sonhos. Porque nenhum sonho se pode contar. Seria preciso uma língua sonhada para que o devaneio fosse transmissível. Não há essa ponte. Um sonho só pode ser contado num outro sonho. Mas o curandeiro, amável, quase profissional, lá condescendeu:
Conte. Conte lá esse seu sonho.
Sabe uma coisa, Lázaro? Até tenho medo de contar...
Medo?
O compadre Lázaro sabia: havia o sagrado e o segredo. Lázaro ficava com um, Zero ficava com o outro. Assim se expressou o pastor, entre nervosos risos. Falava apenas para afastar o silêncio. E depois, perguntou :
Tem um beberico por aí?
Mas vocês, os vapostori, não podem beber...
Nós também não podemos estar aqui nas cerimónias. Um pecado perdoa outro.
Bom, acho que sobrou uma cabanga. Com este calor, porém, já deve estar muito fermentada.
O adivinho arrastou o braço e tomou a garrafa pelo gargalo. Um líquido espesso e esbranquiçado foi tombando num copo de metal. Madzero, primeiro, entornou uns pingos no chão, a lembrar os falecidos. Depois, fechou os olhos enquanto sorvia a bebida. Desconhecia se o que lhe sabia bem era aquele dedilhar de prosa ou o adiar do assunto da consulta. Só agora notava o quanto lhe fazia falta conversar com gente humana. Não o palavrear ligeiro que, às vezes, destrocava com Mwadia. Mas conversa de macho para macho. Estalou a língua nos dentes a aprovar a qualidade da bebida.
[…]
Mia Couto, in O outro pé da sereia

Cuidar de Mim - Paula Lima (Part. Especial - Seu Jorge)

Imperceptível

Teoricamente sabemos que a Terra gira, mas nós não percebemos; o solo que pisamos não parece mexer-se e vivemos tranquilos; o mesmo acontece com o tempo de nossa vida”.
Marcel Proust

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Quase soneto cheio de si

Ó minha amada, canto em teu louvor
como se fora nato noutras terras
mais adestradas nos bailes do amor,
em Franças, Alemanhas, Inglaterras;
canto-te assim com tal engenho e arte
que até Camões invejaria o fogo
com que me ardo, outrora degredado
entre mil musas lusas e andaluzas,
e agora regressado aos seus brasis,
ó minha ave, minha aventura
e sobretudo minha pátria amada
pra sempre idolatrada, salve, salve:
o resto é mar, silêncio ou literatura.
Geraldo Carneiro