quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Um tempo obscuro

O mal e o remédio estão em nós. A própria espécie humana, que agora nos indigna, se indignou antes e se indignará amanhã. Agora vivemos um tempo em que o egoísmo pessoal tapa todos os horizontes. Perdeu-se o senso da solidariedade, o senso cívico, que não deve ser confundido com a caridade. É um tempo obscuro, mas chegará, com certeza, outra geração mais autêntica. Talvez o homem não tenha remédio, não progredimos muito em bondade em milhares de anos na Terra. Talvez estejamos percorrendo um longo e interminável caminho que nos leva ao ser humano. Talvez, não sei onde nem quando, chegaremos a ser aquilo que temos de ser. Quando a metade do mundo morre de fome e a outra metade não faz nada… algo não funciona. Quem sabe um dia!
José Saramago, in As palavras de Saramago

Bom humor

O bom humor tem algo de generoso: dá mais do que recebe.”
Alain

Isso é o que ela diz

Amanhã eu paro, prometo. ”
Pode deixar que eu tenho dinheiro pro pedágio.”
Chico? Gato? Ele é meio velho…”
Claro que adoro sua mãe, suas irmãs. Elas que implicam comigo.”
Já fiz esta receita várias vezes. Não sei por que logo hoje deu errado.”
Ai, amor, desculpa. Dá um desconto. Estou de TPM.”
Adicionei, porque é um cliente. Ia pegar mal ignorar.”
Hoje não estou de TPM! Você que nunca me leva a sério.”
Acha que tenho ciúmes dela? Maior cara de fuinha…”
Ai, adoro esta sua barriguinha!” “Amei o vestido que você me deu de Natal. Você tem um bom gosto…”
Eu não estou bêbada.”
Baby, hoje tenho uma reuniãozinha com as amigas. Até te convidaria. Mas só vão as meninas.”
Amor, não precisa ter ciúme. Ele é gay.”
Acha que fico espionando o seu Face? Tenho mais o que fazer.”
Você está tão cheirosinho hoje.”
Um minutinho, só!”
Já estou chegando.”
Tô na esquina.”
Você pode escolher, amor. Eu como o que você quiser.”
A próxima conta eu pago.”
Não precisa, querido. Eu não gosto de diamantes.”
Tá bom, se você não quer casar no papel, tudo bem.”
Eu tô gorda?”
O próximo filme, você escolhe.”
Esta multa não é minha!”
Tenho certeza de que foi você quem ficou com o ticket do estacionamento.”
Claro que não comi o seu chocolate! Deve ter… evaporado.”
Não tenho ideia de onde veio essa batida no para-lama.”
Óbvio que eu deixo você sair com seus amigos.”
Ah, hoje não, estou com a maior cólica.”
Não sei quem era. Desligou.”
Você é, disparado, o melhor homem que eu tive na cama.”
Estou com esta minissaia pra te agradar, pra você me achar gata.”
Brad Pitt? Não pegava, não gosto de homem bonito.”
Faz você. Eu não sei fazer café.”
Eu adoro tudo o que você cozinha.”
Fica tranquilo. Eu enchi o tanque, coloquei óleo e calibrei os pneus.”
Imagina! Não fui eu quem raspou o seu carro.”
Eu não vejo muito a novela. Só sei de ouvir minhas amigas falando.”
Eu não estou chorando!”
Eu não estou brava!”
Eu não estou gritando!”
Você é que está nervoso!”
Não vou querer parar pra fazer xixi no meio da estrada.”
Só vou olhar. Não vou comprar nada.”
Deixa eu só experimentar?”
Eu não ligo pra roupa.”
Amor, eu só comprei porque estava tão baratinho…”
Mas estou no limite permitido de velocidade.”
Pode abrir. Eu sou resistente à bebida.”
Vou adorar passar o Natal com a sua família.”
Vamos passar o réveillon onde você quiser.”
Acho barriga tanquinho tão brega. Gosto de homem ao natural.”
É tão fofo quando você chora.”
Imagina, eu nem ligo pra romantismo.”
Não, eu só estou há dois minutos no telefone.”
Estou de regime. Mas só vou provar.”
Não fiz nada. Só apertei aquela tecla.”
Ah, não precisa me dar nada de aniversário.”
Vai, me apresenta a sua amiga. Sempre quis conhecê-la.”
Eu só estava dançando com ele porque ele dança bem.”
Amor, ele não estava me paquerando.”
Ai, segunda-feira, dieta!”
O banco já estava fechado. Não deu pra pagar.”
Pode deixar. Semana que vem eu compro.”
Eu não peguei as suas canetas.”
Tá, a gente não compra pipoca no cinema.”
Não é melhor pegar uma grande?”
Vai indo, que eu te alcanço.”
Eu amo ser casada com você. A gente nunca briga.”
A gente se dá tão bem. Não temos grandes problemas na relação.”
Deixa aí. Amanhã eu lavo a louça.”
Não posso, hoje é meu rodízio.”
Poxa, eu tô tão feia na foto.”
Podemos guardar no fundo do armário as fotos com a sua ex? Porque não tem espaço nesse álbum.”
É claro que gozei! Você não reparou?”
Você nunca repara em mim!”
Eu não demoro. Nem vou lavar o cabelo.”
Acho superlegal você manter contato com as suas ex.”
Só vou trocar de roupa, um segundinho.”
Nunca farei plástica ou colocarei silicone.”
Eu não sou teimosa!”
Tô pronta.”
Tenho certeza de que desliguei o farol. Esta bateria é que está com problemas.”
Fica tranquilo, eu tranquei a casa.”
Relaxa, não vai dar excesso de bagagem, só estou levando o básico.”
Nem vamos entrar no duty free.”
Não, estes chocolates são só para os amigos. Nunca aceito encomendas em viagens.”
Aquele radar não estava aqui ontem.”
Nem reparei que era vaga de idoso.”
Juro que as chaves estão nesta bolsa.”
Como você pode ser tão gostoso…?”
Já estou indo!”
Marcelo Rubens Paiva, in As verdades que ela não diz

Prometa ações, não sentimentos

Pode-se prometer ações, mas não sentimentos, pois estes são involuntários. Quem promete a alguém amá-lo sempre, ou odiá-lo sempre, ou ser-lhe sempre fiel, promete algo que não está em seu poder; mas o que pode perfeitamente prometer são aquelas ações que, na verdade, são geralmente as consequências do amor, do ódio, da fidelidade, mas que também podem emanar de outras razões, pois a uma ação conduzem diversos caminhos e motivos. A promessa de amar sempre alguém significa, portanto: enquanto eu te amar, manifestarei as ações do amor; se eu já não te amar, pois, não obstante, receberás para sempre de mim as mesmas ações, ainda que por outros motivos. De modo que a aparência de que o amor estaria inalterado e continuaria sendo o mesmo permanece na cabeça das outras pessoas. Promete-se, por conseguinte, a persistência da aparência do amor, quando, sem ilusão, se promete a alguém amor perpétuo.”
Friedrich Nietzsche, in Humano, demasiado humano

O drama de refugiados no traço de artistas brasileiros

Seis conhecidos artistas de rua brasileiros foram convidados para criar ilustrações comentando a crise dos refugiados na Europa.
Paulo Ito, Thiago Goms, Ícone K, Daniel Ferreira da Silva, Celo Santvs e João Pirolla aceitaram o convite de uma plataforma em Londres - a Cause2Create - que está juntando profissionais de mídia e artes em atividades de apoio a causas humanitárias.
As ilustrações deverão, em breve, ser comercializadas. Parte da renda será distribuída a ONGs de ajuda a refugiados - o restante do dinheiro ficaria com os próprios criadores, que não cobraram para produzir as peças.

Mulher de burca que chora, cercada por espadas e estrelas
Bandeira, de Daniel Ferreira da Silva, o "Bozó"

Familia diante de muro no qual um arame diz
Sejam bem-vindos, de Paulo Ito

Gato armado como se fosse um rebelde do ISIS 
Inocência perdida, de Thiago Goms

Barco com pêssegos navegando 
Lado bom, de Celo Santvs

Mulher abraçada a criança no chão e, atrás dela, a figura da morte com um avião ao fundo 
Ponto cego, de João Pirolla

Obra de arte que mistura cores e palavras 
Dor e esperança, de Ícone K 

Matéria completa da BBC Brasil aqui.  

Conto do tresloucado

Não adiantava colocar os retratos contra a parede para que não vissem nada... Que ficariam eles a imaginar? Na certa, o pior possível, como de costume.
Vai daí, então, ele furou os olhos dos retratos. Ele furou cuidadosamente os olhos de todos os retratos. Pronto! Agora, ninguém mais para espionar os seus mínimos atos...
Um suspiro.
E desistiu, mais uma vez, do “tresloucado gesto”.
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O guardador de rebanhos - XLVI

Deste modo ou daquele modo.
Conforme calha ou não calha.
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma coisa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma coisa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.
Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à ideia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.
Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.
E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.
Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.
Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe veem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos.
Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa

Padre João Inácio

Ponto de reunião e fuxicos era a sala de jantar, que, por duas portas, olhava o alpendre e a cozinha. Como falavam muito alto, as pessoas se entendiam facilmente de uma peça para outra. Nos feixes de lenha arrumados junto ao fogão, na prensa de farinha, nos bancos duros que ladeavam a mesa, a gente se sentava e ouvia as emboanças do criado, um caboclo besta e palrador. Rosenda lavadeira cachimbava e engomava roupa numa tábua. O moleque José e a moleca Maria esgueiravam-se da sombra, perdiam a condição e a cor, não se distinguiam quase dos meninos de Teotoninho Sabiá.
Vivíamos todos em grande mistura — e a sala de visitas era inútil, com as cadeiras pretas desocupadas, uma litografia de S. João Batista e uma do inferno, o pequeno espelho de cristal que Amando, afilhado de meu pai, trouxera do Rio ao deixar o exército no posto de sargento. Esse espelho caía da parede e nunca se partiu, rivalizava com o copo azul, lembrança do casamento de meu avô, e o paliteiro que representava dois galos e uma raposa. Há meia dúzia de anos o paliteiro ainda existia, mau um dos galos se tinha ausentado.
As cadeiras pretas não se espanavam. Certo dia o tenente de polícia desconfiou delas, tirou o lenço e esfregou uma. Horrível. Minha mãe se enfureceu, tencionou besuntar os móveis com azeite de peixe, arrumar a farda não-me-toque daquele safadinho. Desistiu da vingança — e a sala se conservou deserta, abrindo-se raramente para receber D. Conceição, D. Clara, D. Águeda, outras senhoras que se enfastiavam no silêncio, espiando o santo, os demônios chifrudos, o espelho, a sola do marquesão empoeirado.
Afinal aquilo se transformou em paiol. Retirou-se a mobília, transportou-se para ali o milho que no depósito era um viveiro de borboletas. Ficara o grão exposto, aguardando a carestia por causa da seca, e a lagarta dera nele.
Desvalorizava-se agora. Indispensável tratá-lo com veneno, matar os bichos.
Uma festa para as crianças. Eu e minhas irmãs revolvemos a tulha cor de ouro, espalhando o arsênico. Dispensou-se o trabalhador — e nós nos encarregamos gostosamente da tarefa. Abandonamos a prensa de farinha, o armazém atravancado de ferragens, o quintal nu, donde se ouvia o descaroçador barulhento do Cavalo-Morto.
Na sala, mudada em celeiro, o nosso ambiente se alargava de chofre, adquiríamos liberdade. As sementes se derramavam no corredor, iam-se acumulando, formavam uma ladeira, que subíamos até alcançar as janelas. Daí dominávamos a rua, víamos os transeuntes mais baixos que nós. Seu Acrísio errava o caminho, tropeçava, batia nas paredes e rosnava: “Diabo! diabo! diabo!” Alguns passos à direita, Seu Chico Brabo maltratava João. No solo movediço achávamos firmeza. A nossa brincadeira representava utilidade
e não viriam desmancha-prazeres aquietar-nos, impor-nos disciplina.
Contudo uma sombra às vezes nos toldava a alegria: a recordarão do Vigário. Na cozinha e na sala de jantar pintavam-no terrível, uma espécie de lobisomem criado para forçar-nos à obediência. Citavam-se os despropósitos dele na igreja.
Isto não nos interessava. Tínhamos, porém, razão para temer aquele homem tenebroso por fora e por dentro. Não ria. O olho postiço, imóvel num círculo negro, dava-lhe aspecto sinistro.
Além disso Padre João Inácio habituara-se a cuidar de variolosos, viventes que infundiam pavor a toda a vila. Se aparecia notícia deles, as portas se fechavam, o comércio enfraquecia, nas pontas das ruas queimavam excremento de boi e creolina em cacos de telha. Uma noite levavam os infelizes, enrolados, paia os barracões de palha feitos nas brenhas, onde a carne doente apodrecia quase ao abandono, sobre folhas de bananeiras. Alguns enfermeiros imunizados furavam-lhes as pústulas com espinhos de mandacaru, lavavam-nas com aguardente e cânfora. Havia grande mortandade, e as marcas dos sobreviventes eram horrorosas. Os curandeiros dessa praga inspiravam tanto receio como as vítimas dela. Cercava-os uma faixa de isolamento. Admiração e repugnância.
Pois numa epidemia das mais violentas Padre João Inácio e Capitão Badega isentos de preservativos, se haviam estabelecido nos barracões. Gente medrosa sucumbira. Os dois tinham saído ilesos e, em consequência, virado comendadores. Distinção balda. O Vigário nunca chegou a Cônego.
E Capitão Badega permaneceu capitão, sumido na fazenda, insensível a honrarias, lendo César Cantu, governando vários filhos naturais e um lote de cabrochas.
Depois da façanha, Padre João Inácio arranjara tubos de linfa e começara a furar os braços da humanidade na vila e circunvizinhança. Os sertanejos não queriam meter a desgraça no corpo, adoecer por gosto; Se um médico tentasse a inoculação, haveria distúrbios. Mas aquela autoridade franzina usava despotismo, não descia a explicações. Insultava a canalha, raça de cachorro com porco. Mandava porque tinha poderes: era Albuquerque e sacerdote. E os paroquianos se deixavam contaminar, covardes, lamentando que S. Rev.ma não se dedicasse inteiramente às cerimônias do culto. Não se dedicava. Dirigia um partido político — e o culto lhe merecia fraca atenção.
Fora condiscípulo do Padre Cícero. Falava no taumaturgo, que principiava a notabilizar-se: apagado, sofrível, por não ser Albuquerque.
Padre João Inácio era pobre e tinha credores, que dominava. Conseguia, cheio de necessidades, exibir independência, injuriar, gritar.
Fomos vacinados na loja, graúdos e miúdos. Na surpresa, ignorando a tendência má do homem, não senti dor nem medo. Mas as feridas que vieram, resguardos, febre, quarenta dias sem toicinho, me pareceram obra do reverendo.
Graciliano Ramos, in Infância

Dani Black - Essa Tal Liberdade

Uma vida simples e modesta

Uma vida exterior simples e modesta só pode fazer bem, tanto ao corpo como ao espírito. Não creio de modo algum na liberdade do ser humano, no sentido filosófico. Cada um age não só sob pressão exterior como também de acordo com a sua necessidade interior. O pensamento de Schopenhauer: “O homem pode, na verdade, fazer o que quiser, mas não pode querer o que quer”, impressionou-me vivamente desde a juventude e tem sido para mim um consolo constante e uma fonte inesgotável de tolerância. Esse conhecimento suaviza beneficamente o sentimento de responsabilidade levemente inibitório e faz com que não tomemos demasiado a sério, para nós e para os outros, uma concepção de vida que justifica de modo especial a existência do humor.
Do ponto de vista objetivo, pareceu-me sempre desprovido de senso querer-se indagar sobre o sentido ou a finalidade da própria existência ou da existência da criação. E, no entanto, cada homem tem certos ideais, que o orientam nos seus esforços e juízos. Neste sentido o bem-estar e a felicidade nunca me pareceram um fim em si (chamo a esta base ética o ideal da vara de porcos). Os ideais que me iluminavam e me encheram incessantemente de alegre coragem de viver foram sempre a bondade, a beleza e a verdade. Sem o sentimento de harmonia com aqueles que têm as mesmas convicções, sem a indagação daquilo que é objetivo e eternamente inatingível no campo da arte e da investigação científica, a vida ter-me-ia parecido vazia. Os fins banais do esforço humano: propriedade, êxito exterior e luxo pareceram-me desprezíveis desde jovem.
Albert Einstein, in Como vejo o mundo

Esse sou eu

http://imguol.com/c/entretenimento/2013/08/09/capa-do-livro-gilberto-bem-perto-de-gilberto-gil-e-regina-zappa-1376053611080_300x420.jpg?1376053624068

Na dimensão humana, das pessoas, dos homens, esses a quem a vida deu a possibilidade de especular sobre o significado dela, na vida desses homens há a dimensão individual – quem sabe de mim sou eu, aquele abraço –, que é a pessoa com seus próprios botões, preocupações, êxtases, lamúrias. A outra dimensão é a histórica, aquela que não pertence propriamente à pessoa: seu modo de criar, o jeito como é compreendido, aceito ou rejeitado pela sociedade. Mas são critérios da sociedade, não são suas coisas, é o jeito como o mundo o tem para si. Esse sou eu: eu, cá com meus botões de carne e osso, só eu posso pensar se Deus existe, coisas minhas que às vezes também torno públicas em minha carreira. O que sobra é o Gil do mundo, da História. Eu sou parcialmente gente e sou parcialmente ente.”
Mensagem de Gilberto Gil no final do seu depoimento ao Museu da Imagem e do Som

Miragens

https://rogeriopietro.files.wordpress.com/2015/08/moby-dick-rogerio-pietro.jpg?w=584&h=273 
 
Trate-me por Ishmael. Há alguns anos – não importa quantos ao certo –, tendo pouco ou nenhum dinheiro no bolso, e nada em especial que me interessasse em terra firme, pensei em navegar um pouco e visitar o mundo das águas. É o meu jeito de afastar a melancolia e regular a circulação. Sempre que começo a ficar rabugento; sempre que há um novembro úmido e chuvoso em minha alma; sempre que, sem querer, me vejo parado diante de agências funerárias, ou acompanhando todos os funerais que encontro; e, em especial, quando minha tristeza é tão profunda que se faz necessário um princípio moral muito forte que me impeça de sair à rua e rigorosamente arrancar os chapéus de todas as pessoas – então percebo que é hora de ir o mais rápido possível para o mar. Esse é o meu substituto para a arma e para as balas. Com garbo filosófico, Catão corre à sua espada; eu embarco discreto num navio. Não há nada de surpreendente nisso. Sem saber, quase todos os homens nutrem, cada um a seu modo, uma vez ou outra, praticamente o mesmo sentimento que tenho pelo oceano.
Eis a cidade insular dos manhattoes, rodeada pelo cais como o são as ilhas indígenas por recifes de corais – o comércio a cerca com sua ressaca. À direita e à esquerda, as ruas levam ao mar. No seu extremo sul fica Battery, onde o ilustre quebra-mar é lavado por ondas e refrescado por brisas, que poucas horas antes sopravam no mar alto. Veja o grupo de pessoas que ali contempla a água.
Perambule pela cidade numa tarde etérea de sábado. Vá de Corlears Hook para Coenties Slip e de lá para o norte, via Whitehall. O que se vê? Plantados como sentinelas silenciosas por toda a cidade, milhares e milhares de pobres mortais perdidos em fantasias oceânicas. Alguns encostados nos pilares; outros sentados de um lado do cais; ou olhando sobre a amurada de navios chineses; ou, ainda mais elevados, no cordame, como que tentando conseguir dar uma olhada ainda melhor no mar. Mas estes são todos homens de terra; que nos dias da semana estão enclausurados em ripas e estuques – cravados em balcões, pregados em assentos, fincados em escrivaninhas. O que é isso, então? Acabaram-se as verdes pradarias? O que eles fazem ali?
Mas veja! Aí vem mais gente, caminhando em direção à água e aparentemente chegando para um mergulho. Estranho! Nada parece contentá-los, salvo o limite mais extremo da terra; flanar sob a sombra protetora dos armazéns não é o suficiente. Não. Eles têm de chegar o mais perto possível da água sem cair dentro dela. E ali permanecem – milhares deles – a perder a conta. Todos de terra firme, vêm de becos e vielas, de ruas e avenidas – de norte, leste, sul e oeste. Mas aqui estão todos unidos. Diga-me, é a excelência magnética das agulhas das bússolas de todos esses navios que os atrai para ali?
E tem mais. Digamos, você está no campo, numa região montanhosa de lagos. Praticamente qualquer trilha que você escolha, nove em cada dez o levarão a um vale, perto do poço de um rio. Existe uma mágica nisso. Se o mais distraído dos homens estiver mergulhado em seus sonhos mais profundos – coloque esse homem de pé, ponha-o para andar, e não tenha dúvida de que ele o levará até a água, se houver água em toda essa região. Se você mesmo estiver com sede no imenso deserto norte-americano, faça a experiência, caso encontre em sua caravana um professor de metafísica. Pois, como todos sabem, a meditação e a água estão casadas para todo o sempre.
Mas eis um artista. Ele deseja pintar a paisagem romântica mais sedutora, mais umbrosa, mais tranquila e encantadora de todo o vale do Saco. Qual é o elemento principal que ele emprega? Lá estão suas árvores, todas com o tronco oco, como se abrigassem um eremita e seu crucifixo; e aqui dorme seu prado, e ali dorme seu gado; e lá, daquela casinha, sobe uma fumaça sonolenta. No fundo do bosque distante corre um caminho sinuoso, chegando a picos sobrepostos de montanhas imersas no azul de suas encostas. Mas, por mais arrebatadora que seja a cena, e o pinheiro se desfaça em suspiros como as folhas sobre a cabeça de tal camponês, tudo isso seria vão, caso os olhos do camponês não estivessem fixados na mágica correnteza diante dele. Visite as pradarias em junho, quando, por dezenas e dezenas de milhas, você caminha por entre lírios até os joelhos – qual é o único encanto que falta? – Água – não há uma gota de água por ali! Se Niágara fosse uma catarata de areia, você viajaria milhares de milhas para vê-la? Por que o pobre poeta do Tennessee, ao receber dois punhados de moedas, hesitou entre comprar um casaco, do qual, infelizmente, precisava, e investir seu dinheiro em uma prosaica viagem para a praia de Rockaway? Por que quase todo rapaz forte e saudável e provido de espírito forte e saudável, numa ocasião ou noutra, fica louco para ir ao mar? Por que em sua primeira viagem como passageiro você sentiu aquela vibração mística, quando lhe disseram que você e o navio estavam fora do alcance dos olhos da terra? Por que os antigos Persas consideravam o mar sagrado? Por que os Gregos lhe atribuíram uma divindade separada e fizeram dele o próprio irmão de Jove? Tudo isso certamente tem um significado. E ainda mais profundo é o significado da história de Narciso, que, por não conseguir chegar à imagem provocativa e difusa que viu na fonte, nela mergulhou e se afogou. Mas nós vemos essa mesma imagem em todos os rios e oceanos do mundo. É a imagem do insondável fantasma da vida; e esta é a chave de tudo.
Ora, quando digo que tenho o hábito de ir ao mar sempre que começo a sentir uma névoa nos olhos e me preocupar demais com os meus pulmões, não é minha pretensão dar a entender que alguma vez eu tenha ido como passageiro. Para ir como passageiro é preciso ter uma carteira, e uma carteira é somente um trapo se não tiver alguma coisa dentro dela. Além disso, os passageiros enjoam – tornam-se briguentos –, não dormem à noite – não se divertem muito, em geral; não, eu nunca vou como passageiro; tampouco, embora faça o tipo de marinheiro, embarco como Comodoro, Capitão ou Cozinheiro. Deixo a glória e a distinção de tais postos para os que gostam disso. Abomino todas as tarefas, testes e tribulações honrosas e respeitáveis de qualquer tipo. Tomar conta de mim mesmo, sem me ocupar de navios, barcas, brigues, escunas e outras embarcações é tudo o que sei fazer. Quanto ao emprego de cozinheiro – embora deva admitir que há muita glória nisso, pois o cozinheiro é uma espécie de oficial a bordo –, a verdade é que nunca até hoje gostei de assar aves; – ainda que, uma vez assada, judiciosamente amanteigada, e salgada e apimentada segundo a jurisprudência, não exista ninguém que fale sobre uma galinha assada com mais respeito, para não dizer com mais reverência, do que eu. Deve-se à idolatria estúpida dos antigos Egípcios por íbis assados e hipopótamos grelhados a existência das múmias dessas criaturas em seus fornos gigantescos, as pirâmides.
Não, quando vou ao mar, vou como marinheiro raso, logo à frente do mastro, no prumo do castelo de proa ou no topo do mastaréu de joanete. É verdade que recebo ordens, fazem-me saltar de verga em verga, como um gafanhoto num prado em maio. E, a princípio, esse tipo de coisa é bastante desagradável. Fere o sentimento de honra, sobretudo quando você descende de uma família antiga, há muito estabelecida no país, como os Van Rensselaers, Randolphs, ou Hardicanutes. E mais ainda, se pouco antes de botar a mão no barril de alcatrão você a teve em pleno domínio como professor no campo, fazendo com que os alunos maiores se curvassem de medo diante de você. A mudança de professor para marinheiro é brutal, posso garantir, e exige forte decocção de Sêneca e dos estoicos para aguentá-la com sorrisos. Mas até isso passa com o tempo.
E daí se um caco velho, um capitão decrépito me der a ordem de pegar uma vassoura e varrer os conveses? Qual é o valor dessa infâmia, quero dizer, se pesada na balança do Novo Testamento? Você acredita que o arcanjo Gabriel terá menos consideração por mim só porque obedeci com presteza e respeito a um velho miserável? Quem não é escravo? Responda essa. Pois bem, por mais que velhos capitães me deem ordens, por mais que me deem bordoadas e murros, tenho a satisfação de saber que está tudo certo, que todos os homens, de um jeito ou de outro, serviram do mesmo modo – isto é, tanto da perspectiva física quanto metafísica; e, assim, a bordoada universal dá a volta, e todos deveriam trocar tapinhas nas costas e dar-se por satisfeitos.
Como disse, sempre vou ao mar como marinheiro, pois fazem questão de me pagar pelo pepino, ao passo que não pagam, que eu saiba, um centavo sequer aos passageiros. Pelo contrário, são os passageiros que têm de pagar. E existe toda a diferença do mundo entre pagar e ser pago. O ato de pagar talvez seja o castigo mais desagradável que os dois ladrões do jardim nos legaram. Mas ser pago – o que se pode comparar a isso? A atividade urbana pela qual um homem recebe dinheiro é mesmo maravilhosa, considerando-se que acreditamos que o dinheiro esteja na raiz de todos os males terrenos, e que em hipótese alguma um homem endinheirado possa entrar no reino dos céus. Ah!, com que alegria nos entregamos à perdição!
Por fim, sempre vou ao mar como marinheiro por causa do exercício saudável e do ar puro do castelo de proa. Pois neste mundo os ventos de proa são mais frequentes do que os ventos de popa (isto é, se você não violar a máxima de Pitágoras), e assim, na maior parte das vezes, o Comodoro no tombadilho superior recebe dos marinheiros do castelo um ar de segunda mão. Ele pensa que respira primeiro, mas não é assim. De um modo muito parecido, a plebe está à frente de seus líderes em muitas outras coisas, enquanto os líderes nem suspeitam disso. Mas por que motivo eu, depois de ter sentido o cheiro do mar tantas vezes como marinheiro mercante, decidiria naquela ocasião partir numa viagem de pesca de baleias, isso o policial invisível das Parcas, que sempre me vigia, que me atormenta em segredo e que me influencia de um modo incalculável – ele pode responder a isso melhor do que qualquer um. Sem dúvida, minha participação nessa viagem baleeira fazia parte do programa maior da Providência, que fora traçado muito tempo antes. Apareceu como uma espécie de breve interlúdio e solo em meio a apresentações mais longas.
Herman Melville, in Moby Dick

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Fernando Pessoa me ajudando

Noto uma coisa extremamente desagradável. Estas coisas que ando escrevendo aqui não são, creio, propriamente crônicas, mas agora entendo os nossos melhores cronistas. Porque eles assinam, não conseguem escapar de se revelar. Até certo ponto nós os conhecemos intimamente. E quanto a mim, isto me desagrada. Na literatura de livros permaneço anônima e discreta. Nesta coluna estou de algum modo me dando a conhecer. Perco minha intimidade secreta? Mas que fazer? É que escrevo ao correr da máquina e, quando vejo, revelei certa parte minha. Acho que se escrever sobre o problema da superprodução do café no Brasil terminarei sendo pessoal. Daqui em breve serei popular? Isso me assusta. Vou ver o que posso fazer, se é que posso. O que me consola é a frase de Fernando Pessoa, que li citada: “Falar é o modo mais simples de nos tornarmos desconhecidos.”
Clarice Lispector, in A descoberta do mundo

Acerca do caráter

Suponho que homem algum pode violar a sua natureza. Todos os ímpetos da nossa vontade são torneados pela lei do nosso ser, assim como as desigualdades dos Andes e do Himalaia se tornam insignificantes na curvatura da esfera. Tampouco importa como o meças e experimentes. Um caráter é como um acróstico ou como uma estância alexandrina: lido para diante, para trás, ou de través, diz sempre o mesmo.
(...) Passamos pelo que somos. O caráter fala mais alto do que a nossa vontade. Os homens imaginam que podem patentear as suas virtudes ou os seus vícios somente através de ações ostensivas, e não se dão conta de que, a todo o momento, a virtude e o vício exalam o seu alento.
Ralph Waldo Emerson, in A confiança em si mesmo

Hagar, o Horrível


Hora do ângelus

A poesia é pura compaixão.
Até grávida posso ficar,
se lhe aprouver um filho apelidado Francisco.
Tem mesmo alguma coisa no mundo
que obriga o mundo a esperar.
O carroceiro pragueja: ô deus,
a minha lida é mais dura que a lida de um retireiro.
Sem paciência, a beleza turva-se,
esta que sobre as tardes se inclina
e faz defensáveis
areias, ervas, insetos,
este homem que jamais disse a palavra crepúsculo.
Adélia Prado

Costumes

A pior coisa que têm os maus costumes é serem costumes: ainda é pior que serem maus.”
Padre Antônio Vieira

Esperas e surpresas

Num interlóquio com Marisa Pires, disse-me ela que só gostava de poemas com rimas porque “a gente já ficava esperando com água na boca” o que viria depois... e, tendo eu, para manter o papo, adotado a tese contrária, acabamos ficando cada um com a sua opinião e também com a do outro. O que está “absolutamente certo!” — como lá diziam os antigos locutores.
Porque na verdade esta vida só tem dois encantos: o previsto e o imprevisto.
Um exemplo da curtição do primeiro. Despertar e ficar um momento de olhos fechados — sabendo que existe a luz. E no entanto verás, ao abrir os olhos, que é como se fosse uma revelação... Quanto ao imprevisto, pela sua própria natureza, é-me impossível sugerir-te exemplos: deves tu mesmo procurá-los na memória.
Mas ouso afirmar que, mesmo para o poeta que está fazendo um poema rimado, a rima ainda é ou pode ser um imprevisto. Com exceção desses que rimam “Meu Deus!” com “os olhos teus”. Sim! os olhos teus — coisa esta que ninguém diz no pleno uso de suas faculdades, mas tão encontradiça nas modinhas, inclusive as do grande Catulo, o da paixão brasileira.
Ora, voltando às revelações da rima, me lembro de que, ao ler pela primeira vez a Balada dos enforcados de François Víllon, e ao notar que a rima seria do princípio ao fim em “oudre” — rima rara em francês — e que aparentemente só lhe faltava o verbo “coudre”, senti um mal-estar, mas o poeta saiu do aperto dizendo que os enforcados, expostos ao ar e às bicadas dos pássaros, estavam “tout bécquetés comme des dés à coudre” — isto é, picotados como dedais.
E eis como um poeta da sua alta laia nos dá uma verdadeira surpresa com uma rima para lá de esperada.
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo