quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Quase balada (Romance) - (Do morto que amou a morte)

Para as Festas da Agonia
 
Vi-te chegar, como havia
Sonhado já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
sem saudade, pena, ou ira;
teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória.
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena —
Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.

ENVOI
Ide, Palavras, cantar,
No mar, nas praias, no porto,
O amor da Morte e do Morto
Que a Vida não quis amar.
Mário Faustino

Chico Brown - Por dentro de "Massarandupió" (Chico Buarque - Caravanas)

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Não existe no mundo tanta gente como o número de ordem que me deram no cartão de identidade, que não vou te mostrar porque não poderias lê-lo antes de o ter dividido da direita para a esquerda em grupos de três, para depois o pronunciares cuidadosamente da esquerda para a direita. Sei que o mesmo acontece contigo, mas que te importa, que nos importa isso — antes que um dia nos identifiquem a ferro em brasa, como fazem os estancieiros com o seu gado amado?
Esse número, de quintilhões ou quatrilhões, não me lembro mais, me faz recordar que venho desde o princípio do mundo, lá do fundo das cavernas, depois de pintar nas suas paredes, com uma habilidade hoje perdida, aqueles animais que vejo nos álbuns, milagre de movimento e síntese. Agora sou analítico, expresso-me em símbolos abstratos e preciso da colaboração do leitor para que ele “veja” as minhas imagens escritas.
Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas. Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha, nem desconfia que se acha conosco desde o início das eras. Pensa que está somente afogando os problemas dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar inquietação do mundo!
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

Falar

Há um princípio para o falar que tento obedecer, mas não consigo. No entanto, acho-o absolutamente correto: “Só fale se sua fala for melhorar o silêncio”. Se a sua fala não melhorar o silêncio, é preferível ficar calado, para que o silêncio seja ouvido. Estou me exercitando nesse princípio e acho que estou falando cada vez menos. Até se queixam de mim como sendo má companhia em festinhas alegres.
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

A bela ninfa do bosque sagrado


Hollywood, novembro de 1946: A noite é alta, Ciro’s terminou e estamos todos - um destacado grupo de “estrelas” e “astro”", entre os quais sou um modesto meteorito - na casa de Beverly Hills de Herman Hover, o notório dono da famosa boate de Sunset Boulevard. Vou nas águas de minha amiga Carmen Miranda, com quem saí e a quem, como um cavalheiro que sou, depositarei em sua vivenda de Bedford Street. Lá estão também as figuras ciclópicas de José do Patrocínio de Oliveira, o não menos conhecido Zé Carioca, e seu sonoplástico parceiro Nestor Amaral, ambos homens dos sete instrumentos, sendo que este é capaz de tocar o Hino Nacional batendo com um lápis nos dentes e o “Tico-tico no fubá” mediante pequenos cascudos acústicos aplicados no cocuruto - tudo diante de um microfone, bem entendido.
Carmen está quieta, sentada no braço de minha poltrona. Tornamo-nos rapidamente grandes amigos. Celebramo-nnos com o devido foguetório quando nos encontramos e uma vez juntos temos assunto para conversas intermináveis, sempre salpicadas de história sobre seus inícios como cantora, que me encantam. Sua verve é inesgotável e ninguém imita como ela antigas situações marotas em que se viram envolvidos, nos primeiros contatos com o público, seus velhos companheiros Mário Reis, Francisco Alves e Ari Barroso, na fase renascentista do samba carioca. Aprendi a querer-lhe muito bem e admirar a coragem com que enfrenta, ela uma mulher toda sensibilidade, a tortura de se ter tornado um grande cartaz comercial para Hollywood e de ter de sorrir à boçalidade, com raríssimas exceções, dos produtores, diretores, cenaristas, cinegrafistas, iluminadores e demais mão-de-obra dos estúdios. : Mas hoje Carmen está quieta. Seus imensos olhos verdes se horizontalizam numa linha de cansaço, quem sabe tédio, daquilo tudo já “tão tido, tão visto, tão conhecido”, como diria Rimbaud. Cerca de nós, o ator Sonny Tuffs toca um piano mais bêbedo que o do genial Jimmy Yancey nas faixas em que foi gravado sem saber. Depois seu corpanzil oscila, ele se levanta só Deus sabe como e sai por ali cercando frango, não sem antes abraçar à passagem a atriz Ella Raines, que compareceu de noivo em punho e deixa-se estar com este a um canto, com um ar de Alicinha que só enganaria os drs. Sobral Pinto e Albert Schweitzer.
Numa poltrona a meu lado estira-se, com um viso suficientemente decomposto, o magnata Howart Hughes. Troco duas palavras com ele, mas o tedioso multimilionário e playboy, descobridor e bicho-papão de “estrelas”, me parece muito mais interessado em Ella Raines - espécie de Grace Kelly de 1940, só que menos pasteurizada. Deixo-o, pois, à sua nova conquista, enquanto no meio da sala, Zé Carioca e Nestor Amaral "se viram" para chamar a atenção sobre os seus dotes de instrumentistas. Mas a pressão geral é grande e cada um procura cavar o pão da noite como pode, enquanto Herman Hover passeia com um ar de Napoleão em Marengo. Há propostas para um banho de piscina, para um concurso de rumba e outras trivialidades, mas ninguém topa mesmo porque o Sol (ou melhor “Ele”, como dizem com o maior nojo meus amigos Américo e Zequinha Marques da Costa) já deve, contumaz ginasta matutino, estar pendurado à barra do horizonte para a sua atlética flexão de cada dia. O ambiente se está nitidamente desgastando em álcool e semostração.
Vou propor a Carmen irmos embora quando uma cortina se entreabre e surge uma mulher espetacular. Não creio que ninguém houvesse reparado, mas a mim ela me pareceu tão linda, tão linda que foi como se tudo tivesse de repente desaparecido diante dela.
Fiquei, confesso, totalmente obnubilado ante tanta beleza, muito embora essa beleza se movimentasse, por assim dizer, um pouco à base da dança a que chamam quadrilha: dois passinhos para diante e três para trás com direito a derrapagem. Mas o que o corpo fazia, o rosto desconhecia; pois esse rosto tinha mais majestade que Carlos Machado entrando no Sacha's. Ela olhou em torno com um soberano ar de desprezo e logo, dando com Carmen, tirou um ziguezague até ela, vindo postar-se no esplendor de todo o seu pé-direito justo diante de mim, coitadinho que nunca fiz mal a ninguém.
- Hey, Carmen - disse ela.
- Hey, honey - respondeu Carmen com o seu sorriso no 3.
- Gee, Carmen, I think you're wonderful, you know. I think you're tops, you know. Tops. You're terrific.
Para quem não sabe inglês, esse diálogo inteligente exprimia a admiração da moça por Carmen, a quem ela chamava de “do diabo”, de “a máxima” e toda essa coisa. Passado o quê, dá ela de repente comigo lá embaixo, pobre de mim que tive bronquite em criança, e olhando-me por cima de suas pirâmides, fez-me a seguinte pergunta num tom de rainha para vassalo:
- Who are you? (- Quem é você?)
Declinei minha condição de modesto servidor da pátria no estrangeiro, o que não pareceu interessá-la um níquel. Em seguida, sem aviso prévio, ela debruçou-se a ponto de eu poder ver o algodãozinho que havia juntado no seu umbigo, pôs as mãos sobre os meus braços, trouxe o rosto até um centímetro do meu e cuspindo-me todo como devia fez-me a seguinte indagação:
- Do you think I'm beautiful? (- Você me acha bonita?)
Fiz-lhe os elogios de praxe. Ela esticou-se novamente e concordou comigo:
- You're right. I’m very beautiful. But morally, I stink! (- Você está certo. Eu sou muito bonita. Mas moralmente eu... como traduzir sem ofender tanta beleza, tirante os ouvidos do leitor? - não cheiro muito bem.)
Dito o quê, partiu como chegara, através da mesma cortina, para onde suponho houvesse um bar privado. Só sei que aquilo deu-me uma grande animação, a festa continuou até “Ele” raiar e eu acabei dançando com a linda moça, ela bastante mais alta do que eu, o que permitia ouvir-lhe bater o coração, de resto levemente taquícárdico. Antes de sair vi vários casais no Jardim que não se sabia mais quem era quem, vi Sonny Tuffs atravessado num sofá, vi coisas como só se vê em baile de carnaval. Festinha familiar, como diria a finada dona Sinhazinha.
Fora perguntei a Carmen se ela sabia quem era a deusa.
- É uma atriz nova que está entrando agora. Bonita, não é? Chama-se Ava Gardner.
Vinicius de Moraes, in Para viver um grande amor

Destino

- Sandoval não é um nome. É um destino.
Ele ficou só olhando, sem saber se ela estava caçoando ou filosofando. Depois perguntou:
- E o seu?
- Maria Alice.
Depois, sorrindo tristemente, ela disse:
- Meus pais não quiseram se arriscar.
E chamou um sorveteiro e pediu um Kibon de coco.
Luís Fernando Veríssimo, in As mentiras que os homens contam

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Agora não se fala mais

Agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início:
Agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.
Você não tem que me dizer
o número de mundo deste mundo
não tem que me mostrar
a outra face
face ao fim de tudo:
só tem que me dizer
o nome da república do fundo
o sim do fim
do fim de tudo
e o tem do tempo vindo:
não tem que me mostrar
a outra mesma face ao outro mundo
(não se fala. não é permitido:
mudar de id
eia. é proibido.)
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos.
está vetado qualquer movimento.
Torquato Neto

O espelho


Um homem medonho entra e mira-se no espelho.
Porque olha para o espelho, se só pode ver-se com desgosto? — perguntei-lhe — Senhor, — respondeu-me, — segundo os imortais princípios de 89, todos os homens são iguais em direitos: tenho, pois, o direito de mirar-me. Com prazer ou com desgosto, isto é com minha consciência.
Em nome do bom senso, é certo que eu tinha razão; mas, do ponto de vista da lei, a razão estava com ele.
Charles Baudelaire, in Pequenos poemas em prosa

Diálogo

A literatura é o resultado de um diálogo de alguém consigo mesmo.”
José Saramago

O ladrão

O bloco passava lá fora, “experimentando” o Carnaval. Minha amiga foi atender o telefone, e ao voltar viu que sumira o relógio de pulso, deixado sobre a mesinha de cabeceira. Abriu a gaveta e examinou a caixa de joias: vazia. Nada de preço, mas de estimação: colar de pérolas cultivadas, anéis, broches, essas coisas. Cada peça lhe viera de uma pessoa querida, e era como se os ofertantes vivessem ali, disfarçados e condensados pelo ourives. Minha amiga ficou aborrecida. Não que participasse do horror capitalista a ladrões. Sem capital, achava exagerado esse sentimento. Nas vezes em que discutira o problema, opinara quase favoravelmente aos gatunos. Coitados, não tiveram boa formação familial; a miséria é grande e espalhada, o corpo social se caracteriza pelo egoísmo. Erraram, apenas. E depois, tanto ladrão gordo por aí, recebido em sociedade, incólume, benemérito!
Por isso mesmo, sentia-se chocada com o acontecimento. Por que lhe faziam uma dessas? Pedissem qualquer coisa razoável, daria. Se não tinham coragem de pedir, se eram pobres envergonhados, que diabo, levassem objetos caseiros, sem história. É certo que ladrão não pode saber se um objeto está carregado de afetividade, e que dinheiro nenhum o compra.
Foi ao andar de cima conferenciar com o vizinho. Ele nada percebera, mas armou-se de pistola e resolveu caçar o ladrão, que pelo visto descera do morro próximo. Sempre desconfiamos do morro, como se esse acidente geográfico retivesse propriedades maléficas, extensíveis aos indivíduos que o habitam. Mas enfrentar o morro, àquela hora da noite, seria temeridade. Já ao transpor a porta da rua, o vizinho decidiu ficar por ali mesmo, pistola em punho, vistoriando os suspeitos que passassem, e não passaram.
Na noite seguinte, passou foi a patrulha de Cosme e Damião, que, inteirada do fato, pensou logo em Curió.
Curió hoje de tarde estava querendo vender uns troços de ouro, umas correntinhas.
Então me tragam o Curió que eu quero conversar com ele. Mas por favor, não o maltratem, hem — pediu minha amiga.
Curió apareceu pela manhã, encalistrado, com os policiais. Pequeno, modesto, simpático. O vizinho correu para apanhar a arma. “Não faça isso — ordenou-lhe minha amiga. Vamos conversar sentados no chão, que é melhor.” Cosme e Damião preferiram ficar de pé, Curió não se fez de rogado, e o vizinho adotou o figurino.
Curió, foi você quem levou minhas joias de estimação?
De cabeça baixa, Curió admitiu que sim. Passara por ali, à hora em que o bloco descia, viu luz acesa, nenhum movimento, janela baixa, e tal, ficou tentado. Conhecia de vista a moradora, até simpatizava com ela. Mas praquê deixar tudo aberto, exposto, provocando a gente?
Lealmente, ela aceitou a censura, reconhecendo que não cuidara.
Você fuma, Curió?
Aceito, madame.
Cigarro ajuda a resolver. Cheio de boa vontade, Curió não podia restituir tudo. Parte dos objetos fora vendida, os brincos ele dera a uma senhorita. O colar, o relógio e dois broches, sim, devolveria se madame quebrasse o galho — e apontou para Cosme e Damião.
Estão aí com você?
Não, madame, mas pode fiar do meu compromisso.
O vizinho ia exclamar: “Essa não”, porém minha amiga pediu-lhe que se abstivesse de comentários. Continuaram negociando amigavelmente. Aquela fora a primeira vez, Curió vive de biscates, vida apertada, madame compreende. No outro dia voltou com as joias, menos as vendidas, e prometeu tomar os brincos à namorada. Minha amiga achou que não valia a pena magoar a moça, e louvou o desprendimento de Curió. E agora sua casa tem, numa só pessoa, encerador, bombeiro e cão de guarda, procurados há muito. O vizinho é que, indignado, e dizendo-se sem garantias, pensa em mudar-se.
Carlos Drummond de Andrade, in A bolsa & a vida

O Realismo brasileiro de Almeida Júnior

Leitura (1892), de José Ferraz de Almeida Júnior

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Órfã na janela

Estou com saudade de Deus,
uma saudade tão funda que me seca.
Estou como palha e nada me conforta.
O amor hoje está tão pobre, tem gripe,
meu hálito não está para salões.
Fico em casa esperando Deus,
cavacando a unha, fungando meu nariz choroso,
querendo um pôster dele no meu quarto,
gostando igual antigamente da palavra crepúsculo.
Que o mundo é desterro eu toda vida soube.
Quando o sol vai-se embora é pra casa de Deus que vai,
pra casa onde está meu pai.
Adélia Prado

Na encruzilhada

À meia-noite, a natureza instala no mundo diversos palcos para que estranhas manifestações tenham a oportunidade de suceder. Ruídos bafientos, cruzamentos de espécies diferentes, violações de campos desertos, chuvas brilhantes, murmúrios de melaço, ocorrências mais assim — equívocas.
Foi uma vez: dois compadres caminhavam. Com olhares, escavavam o breu.
O Outro tinha uma barba imodesta, desarrumada em seus crespos pelos. Acompanhava-o, há anos, um tédio pegajoso que nem os futebóis nem as cervejas conseguiam despregar. Um semblante gêmeo da face obscura da lua. Os olhos, como que amarelados, em franca sonolência. Os pés, metidos muito para dentro, faziam dele um ser desinteressante a quem chamavam, com leveza, “o Outro”.
Ó compadre — começou o Outro. — O compadre frequenta encruzilhadas?
Eu? Frequentar encruzilhadas? — suspiro. — Deus me livre!
Mas porquê? Tem medo?
Eu? Ter medo? Não me faça rir, compadre!
Então... — pensativo, o Outro. — Se não frequenta encruzilhadas, tem medo delas.
Eu?! Medo delas? Tenha juízo, compadre.
Caminhavam. As árvores ao largo chocalhando barulhinhos de folhas nervosas, irritadas com o vento. A lua (quase) grávida, faltando-lhe uma unha negra para isso. E o mocho, certeiro, no seu olhar e pio.
Quer dizer que o compadre não tem medo de se pôr, à meia-noite, numa encruzilhada...? — o Outro recomeçou.
Eu? À meia-noite? Não tenho medo nenhum... mas não tenho razão para fazer isso, compadre.
Então fazemos uma aposta...! — pararam de caminhar.
Nós? Uma aposta? Pois seja, compadre; veja lá, não se vá endividar mais... Depois a comadre reclama — sorriu.
Se o compadre não tem medo de estar à meia-noite numa encruzilhada, também não tem medo que lá apareçam determinadas criaturas... — voltaram a caminhar.
Eu, medo d’outras criaturas...? Mas quê, fantasmas vestidos de branco? Assombrações? — desatou na sua aguda gargalhada.
Ou outras mesmo... — o Outro olhou-o seriamente. — Numa encruzilhada, à meia-noite, tudo pode suceder.
Bem — cogitou o compadre. — Se aparecer o Diabo é mais grave... Se for um lobisomem não há problema nenhum.
Então..., o compadre também não tem medo de lobisomens?
Eu? Medo do lobisomem?! Ó compadre, por amor de Deus! Por amor de Deus... Até lhe fazia festinhas!
O Outro coçou a barba, a mansos modos, numa apreciação da aposta possível — as unhas longas arranhando os incrustados pelos. A barba cerrada não permitia ver o queixo, a ossadura proeminente, as cicatrizes. Olhou a lua. Falou:
Então aposto consigo, compadre — pensativo.
Sim? O quê que aposta, compadre?
Aposto que o senhor amanhã não tem coragem de vir à encruzilhada, precisamente à meia-noite...
Quem, eu? Precisamente à meia-noite? Por amor de Deus, compadre... Está apostado! E vamos apostar o quê?
Aquela sua medalha de prata, compadre — sorriu o Outro, mas sorriu apenas usando o interior da garganta.
Pois seja, compadre. E se eu ganhar, aquele seu garrafão de vinho muito antigo... O que acha?
Pois seja, compadre... Mas amanhã, virá sozinho.
Pois sim, sozinho, claro está — sorriu o compadre.
Então está combinado. Meia-noite, sozinho — disse o Outro.
Seguiram calados. O mocho cessou o seu assobio noturno. A lua subia, subia, querendo esconder-se.
O dia seguinte passou de repente. O fim da tarde, a mais bem dizer, encontrou o compadre na taberna. Um copo atrás do outro, como convém ao bom cliente. O sabor delicado do vinho afagando a língua, pendurando-se na garganta, violando os ácidos corrosivos do estômago. Mais um, Belito. Traga-me só mais um..., disse, vezes sem conta.
O compadre, bem-disposto, jantou em casa. Lá pelas onze, pôs-se a caminhar em direção ao local combinado. A digestão exigiu um passo mais lento, os minutos estenderam-se. E, finalmente: a encruzilhada — um vislumbre de sombras dançantes.
A lua causa na terra sombras bem distintas das do sol. Enjeitadas figuras prateadas, um capim que dança ao vento, uma árvore gigante, um pássaro que, tardado, voa. Em plena encruzilhada, parou — o compadre. Do capim movediço, um grupo insignificante de gafanhotos voou, deixando à vista nua dois ou três pirilampos que se haviam escondido. Bem digo, a lua causa na terra sombras de prata que ornamentam encruzilhadas. À meia-noite.
O compadre quase adormecia. Esperar, no fundo, não passa de um exercício de paciência, um modo de estar pouco próprio aos humanos. Já as árvores suportam melhor esse estádio.
Encostou-se à árvore.
Por mais que quisesse ignorar, era difícil: sentiu, no cachaço, um ar quente penetrar-lhe a espinal medula. Do vinho..., pensou. Mas seguido de um arrepio gélido, o bafo fez-se sentir mais consistente. Uma respiração certeira, um momento próprio para se arrepiar de verdade. Querem ver...?
Virou-se, tão súbito quanto o álcool permitiu. Olhou, castanha, maciça, a árvore. E sentiu, instantaneamente, a quentura cobrir-lhe o pescoço, quase uma massagem gasosa; uma almofada de ar; um carinho quente. Apetecia deixar-se adormecer. Mas, a aposta! O Diabo não é! Não cheira a nada, não vejo fogo, não está o cão que o acompanha. Sorriu. Virou-se, novamente. Os capinzais dançavam mais exaltados. A lua estava prestes a parir, esférica como num poema; úmida até, pareceu-lhe.
Ouviu o primeiro ruído. Que susto — que susto!
Era uma passada consistente, uma boa quantidade de capim pisado. Arrepiou-se. Sentiu-se invadido por uma sinfonia de movimentos nos pelos dos braços, aperto de bexiga, esticão na coluna e umidade no olhos.
Ouviu o segundo ruído. Nitidamente, um arfar.
A criatura respirava a modos profundos, gastava muito oxigênio de cada vez, só podia ser grande. No chão, a sombra da evidência: a criatura era enorme. O compadre, ainda tonto, afastou-se da árvore, posicionando-se bem no centro da encruzilhada. Continuava com a sensação do bafo arfante no pescoço mas, virando-se, nada vislumbrava. No chão, quase em relevo, a sombra mantinha-se. Que criatura se expressa assim, a metades de consistência?
Fechou os olhos por segundos. Antes de os abrir, sentiu o primeiro cheiro. Quase se absteve de voltar a espreitar a realidade. O cheiro: um misto de cavalo, terra, avestruz... ou, simplesmente, o suor de um antílope. Abriu os olhos: o monstro enorme abriu a boca fétida. Urrou, expansivamente.
Mas!, diz que o susto é uma construção interna, carecendo de pressupostos. E o compadre não estava munido deles. A criatura estremeceu. Urrou expansivamente, como foi dito, bem junto à face neutra do compadre. E urrou renovadamente. O segundo cheiro chegou, vindo da boca: mistelas antiquíssimas, ervas raras, penas de pato, vinho e lama.
E, espante-se, o compadre sorriu.
A criatura quase entrou em pranto. Uma timidez repentina invadiu-a. O compadre não dispunha de condições para o devido susto. Aliás, o compadre sorriu, ele sim, desabando numa enorme gargalhada, ecoada nos mistérios daquela encruzilhada. Olhou para cima, para o cimo da criatura. Cambaleante, falou assim:
Calma, compadre!, calma. Não fique assim... É só uma aposta!
Ondjaki, in E se amanhã o medo

O mar gelado de nossa consciência

Kafka exprimiu de uma forma clara a grande missão da arte na sociedade quando diz que não vale a pena escrever nada (também exagera, não sejamos tão radicais…) que não seja um machado que rompe o mar gelado da nossa consciência. Se pensamos na grande obra de arte, seja ela literária, musical, pictórica, filosófica (filosofia também é arte), o objetivo foi sempre esse, quebrar o mar gelado da nossa consciência: são os preconceitos, as superstições, a dificuldade de enfrentarmos a realidade e inventarmos coisas que se sobrepõem a ela, que a ocultam e a deturpam.
José Saramago, in As palavras de Saramago

Aliança - Tribalistas

A longa busca

Anterior ao tempo ou fora do tempo (ambas locuções são vãs) ou em um lugar que não é do espaço, há um animal invisível, por acaso diáfano, que os homens buscam e que nos busca. Sabemos que não pode ser medido.
Sabemos que não pode ser contado, porque as formas que o somam são infinitas.
Há quem o tenha buscado em um pássaro, que está leito de pássaros; há quem o tenha buscado em uma palavra ou nas letras dessa palavra; há quem o tenha buscado, e o busca, em um livro anterior ao árabe em que foi escrito, e ainda a todas as coisas; há quem o busque na frase Sou O Que Sou.
Como as formas universais da escolástica ou os arquétipos de Whitehead, costuma baixar fugazmente. Dizem que habita os espelhos, e que quem se olha O olha. Há quem o veja ou entreveja na bela memória de uma batalha ou em cada paraíso perdido.
Conjectura-se que seu sangue bate em teu sangue, que todos os seres o engendram e foram engendrados por ele e que basta inverter uma clepsidra para medir sua eternidade.
Espreita nos crepúsculos de Turner, no olhar de uma mulher, na antiga cadência do hexâmetro, na ignorante aurora, na lua do horizonte ou da metáfora.
Nos elude de segundo em segundo. A sentença do romano se gasta, as noites roem o mármore.
Jorge Luis Borges, in Os conjurados

domingo, 13 de agosto de 2017

Atualidade do ovo e da galinha

De manhã na cozinha sobre a mesa está o ovo.
Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo apenas: ver o ovo é sempre hoje: mal vejo o ovo e já se torna ter visto um ovo, o mesmo, há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. – Só vê o ovo quem já o tiver visto. Como um homem que, para entender o presente, precisa ter tido um passado. – Ao ver o ovo é imediatamente tarde demais: ovo visto, ovo perdido: a visão é um calmo relâmpago. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar de novo a ver o ovo. – Olhar curto e indivisível; se é que há pensamento: não há; há o ovo. – Olhar é o necessário instrumento que depois de usado, jogarei fora. Ficarei sem o ovo. – O ovo não tem um si-mesmo. Individualmente ele não existe.
Ver realmente o ovo é impossível: o ovo é superinvisível como há sons supersônicos que o ouvido já não ouve. Ninguém é capaz de ver o ovo. O cão vê o ovo? Só as máquinas veem o ovo. O guindaste vê o ovo. – Quando eu era antiga um ovo pousou no meu ombro. – O amor pelo ovo também não se sente, o amor pelo ovo me é supersensível, não dá para chegar a saber que se sente.
A gente não sabe que ama o ovo. – Quando eu era antiga fui depositária do ovo e caminhei de leve para não entornar o silêncio do ovo. Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado: ainda estava vivo. – Assim como não se vê o mundo por este ser óbvio, não se vê o ovo porque ele é óbvio. O ovo não existe mais? Está existindo neste instante. – Você é perfeito, ovo. Você é branco, ovo. – A você dedico o começo. A você dedico a primeira vez.
Ao ovo dedico a nação chinesa.
O ovo é uma coisa suspensa. Nunca pousou. Quando pousa, não foi ele quem pousou, foi uma superfície que veio ficar embaixo do ovo. – Olho o ovo na cozinha com atenção superficial para não quebrá-lo. Tomo o maior cuidado de não entendê-lo. Pois, sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. Entender é a prova do erro. – Jamais pensar no ovo é um modo de tê-lo visto. – Será que sei do ovo? É quase certo que sei. Assim: existo, logo sei. – O que eu não sei do ovo é o que realmente importa. O que eu não sei do ovo me dá o ovo propriamente dito. – A Lua é habitada por ovos.
O ovo é uma exteriorização: ter uma casca é dar-se.– O ovo desnuda a cozinha. Faz da mesa um plano inclinado. O ovo expõe tudo. – Quem se aprofunda num ovo, quem vê mais do que a superfície do ovo, está querendo outra coisa: está com fome.
O ovo é a alma da galinha. A galinha desajeitada. O ovo certo: A galinha assustada. O ovo certo. Como um projétil parado no ar. Pois o ovo é ovo no espaço. Ovo sobre azul. – Eu te amo, ovo. Eu te amo como uma coisa nem sequer sabe que ama a outra coisa. – Não toco nele. A aura de meus dedos é que vê o ovo. Não toco nele. – Mas dedicar-me à visão do ovo seria morrer para a vida mundana, e eu preciso dela, da gema e da clara. – O ovo me vê? O ovo me medita? Não, o ovo apenas me vê. E é isento da compreensão que fere. – O ovo nunca lutou para ser um ovo. O ovo é um dom. – Ele é invisível a olho nu. De ovo a ovo chega-se a Deus, que é invisível a olho nu. – Um ovo terá sido talvez um triângulo que tanto rolou no espaço que foi se ovalando. O ovo é basicamente um jarro fechado? Terá sido o primeiro jarro moldado pelos etruscos? Não. O ovo é originário da Macedônia. Lá foi calculado, fruto da mais penosa espontaneidade. Nas areias da Macedônia um homem desenhou-o com uma vara na mão. E depois apagou-o com o pé nu.
Ovo é coisa que precisa tomar cuidado. Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe. Mãe é para isso. – O ovo vive foragido por estar sempre adiantado demais para a sua época: ele é mais do que atual: ele é no futuro. – O ovo por enquanto será sempre revolucionário. – Ele vive dentro da galinha para que não o chamem de branco. O ovo é branco mesmo, mas não pode ser chamado de branco. Não porque isso faça mal a ele, a quem nada faz mal, mas as pessoas que chamam a verdade de que o ovo é branco, essas pessoas morrem para a vida. Chamar de branco aquilo que é branco pode destruir a humanidade. A verdade sempre destrói a humanidade. Uma vez um homem foi acusado de ser o que ele era e foi chamado de Aquele Homem. Não tinham mentido: ele era. Mas até hoje ainda não nos recuperamos. A lei geral para continuarmos vivos: pode-se dizer “um rosto bonito”, mas quem disser “o rosto” morre por ter esgotado o assunto.
Com o tempo, o ovo se tornou um ovo de galinha. Não o é. Mas, adotado, usa-lhe o sobrenome. – Deve-se dizer “o ovo da galinha”. Se eu disser apenas “ovo”, esgota-se o assunto, e o mundo fica de novo nu. Ovo é a coisa mais nua que existe. – Em relação ao ovo, o perigo é que descubra o que se poderia chamar de beleza, isto é, sua extrema veracidade. A veracidade do ovo não é verossímil. Se descobrirem sua beleza, podem querer obrigá-lo a se tornar retangular. O perigo não é para o ovo, ele não se tornaria retangular. (Nossa garantia é que ele não pode: não pode é a grande força do ovo: sua grandiosidade vem da grandeza de não poder, que se irradia como um não querer.) Como estava-se dizendo, o ovo não se tornaria retangular, mas quem lutasse por torná-lo retangular estaria perdendo a própria vida. O ovo nos põe, portanto, em perigo. Nossa vantagem é que o ovo é invisível para a enorme maioria das pessoas. E quanto aos iniciados, os iniciados disfarçam o ovo como numa maçonaria.
Quanto ao corpo da galinha, o corpo da galinha é a maior tentativa de prova de que o ovo não existe. Pois basta olhar para a galinha para parecer óbvio que o ovo é impossível de existir.
E a galinha? O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho inatingível pela galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe realmente ovo. Se soubesse que tem em si mesma um ovo, ela se salvaria? Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser uma galinha é a possibilidade de sobrevivência mental da galinha.
Sobrevivência é a salvação. Pois parece que viver não existe. Viver leva à morte. Enquanto o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser uma galinha é isso. A galinha tem um ar constrangido.
É necessário que a galinha não saiba que tem um ovo. Senão ela se salvaria como galinha, o que também não é nada garantido, mas perderia o ovo em parto prematuro para se livrar de um ideal tão alto. Então ela não sabe. Para que o ovo use a galinha é que a galinha existe. Ela era só para cumprir sua missão, mas gostou. O desarvoramento da galinha vem disso: gostar não faz parte de nascer. Gostar de estar vivo dói.
Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha como um bom disfarce. A galinha não foi sequer chamada.
A galinha é diretamente uma escolhida. – A galinha vive como em sonhos. Não tem senso de realidade. Todo o susto da galinha é porque estão sempre interrompendo seu devaneio. A galinha é um grande sono. – A galinha sofre de um mal desconhecido. O mal desconhecido da galinha é o ovo. – Ela não sabe se explicar: “Sei que o erro está em mim mesma”, ela chama de erro a sua vida, “não sei mais o que sinto”, etc.
O que cacareja o dia inteiro na galinha é etc., etc., etc. A galinha tem muita vida interior.
Para falar a verdade só tem mesmo é vida interior. A nossa visão de sua vida interior é o que nós chamamos de galinha. A vida interior na galinha consiste em agir como se entendesse. Qualquer ameaça e ela grita em escândalo feito uma doida. Tudo isso no fundo para que o ovo não se quebre dentro dela. Ovo que se quebra dentro da galinha é como sangue. A galinha olha o horizonte.
Clarice Lispector, in A descoberta do mundo

Nasceu-te um filho

Nasceu-te um filho. Não conhecerás,
jamais, a extrema solidão da vida.
Se a não chegaste a conhecer, se a vida
ta não mostrou - já não conhecerás

a dor terrível de a saber escondida
até no puro amor. E esquecerás,
se alguma vez adivinhaste a paz
traiçoeira de estar só, a pressentida,

leve e distante imagem que ilumina
uma paisagem mais distante ainda.
Já nenhum astro te será fatal.

E quando a Sorte julgue que domina,
ou mesmo a Morte, se a alegria finda
- ri-te de ambas, que um filho é imortal.
Jorge de Sena

Denaide (1885), de Auguste Rodin, por diversos ângulos