segunda-feira, 25 de março de 2019

O traço irônico e ácido do polonês Pawel Kuczynski


Torpeza

É tão natural destruir o que não se pode possuir, negar o que não se compreende, insultar o que se inveja.”
Honoré de Balzac

O homem que gritou em plena tarde

Parou para espiar a vitrine. Sapatos e bolsas, pretos, amarelados, marrons, azuis. Não estava interessado em sapatos e bolsas. Olhava por olhar. Passava todos os dias por ali, cada dia observava uma vitrine, uma loja, um balcão, um canto. Costumava também olhar para cima. Assim tinha descoberto coisas que outros não viam. Um beiral antigo, esquecido na fachada de um prédio. Uma cornija. Uma grade, uma janela com vidros desenhados, vaso de flores, gaiola com pássaros, retrato pregado numa veneziana, números no alto de portais, rostos atrás de vidraças, aquários. Levava esbarrões, xingos, o que faz aí parado, bestalhão, pô, nesta cidade tem de tudo, até gente parada de boca aberta. Não ligava, falavam por falar. Para ter alguma coisa contra o que reclamar.
Enquanto admirava a vitrine, ouviu os passos. Era a primeira vez que prestava atenção no ruído dos passos. Virou-se, observando os pés do povo. Os sapatos batiam no calçamento; uns arrastavam os pés; outros saltitavam; uns pareciam flutuar. O que o impressionava mesmo era o barulho. Não, não era o barulho, percebeu. Era o silêncio, dentro do qual os passos sobressaíam. Silêncio espesso dentro da tarde. De tal modo que ele podia, com nitidez, distinguir cada ruído. O dos passos, o das vozes, o dos murmúrios (mesmo das pessoas que falavam sozinhas), dos chamados, das máquinas de escrever por trás das paredes, dos apitos dos guardas, de nomes gritados, sussurrados, chamados, de músicas que se confundiam, como se as letras fossem coisas absurdas, sem sentido algum, de motores engrenando, funcionando, buzinas, choros, soluços, zumbidos. Seu ouvido captava e selecionava, como um aparelho estereofônico, capaz de enviar para alto-falantes diversos, sons de instrumentos diferentes.
O silêncio pareceu incômodo ao homem acostumado dentro da cidade barulhenta, irritadiça, insuportável. O seu dia a dia era constituído por um barulho só, homogêneo, que se integrara à sua vida. Algo de que ele dependia, fazia falta ao seu organismo. Só conseguia pensar, trabalhar com eficiência, dentro daquele conjunto de ruídos absorventes que lhe davam a certeza de que a cidade marchava, a pleno vapor, e ele era parte dela, um acréscimo. E que sem ele, e sem ele – o outro – numa escala infinita, esta cidade iria parar, quebrando toda uma estrutura.
Então, aquele silêncio distinto, imenso vazio dentro da tarde, provocou nele primeiro um sentimento de desconforto. Em seguida, veio a insegurança, a dúvida sobre sua situação. Estava na sua própria cidade, ou caíra de repente dentro de um pesadelo? Quando o homem duvida, o seu mundo cai em ruínas, desaparecem os pontos de apoio, os suportes familiares e ele se balança como boneco João-teimoso.
O desconforto surgiu e ele teve vontade de gritar. Mas, se gritasse, iriam achar que ele estava louco. Loucos são eliminados dos grupos normais. Ele queria gritar. O ar que enchia o seu corpo precisava ser expelido. Sentia-se como o pneu que suporta vinte e duas libras e está com trinta e cinco, a ponto de estourar. Os músculos do seu peito, a carne toda, doíam, dentro da tensão. Então, gritou. Ouviu o grito com nitidez dentro do silêncio que abrigava os ruídos da tarde. Olhou assustado para as pessoas e foi como se elas estivessem surdas. Nem se viraram. Gritou de novo, percebendo que o primeiro grito fora mais um urro, só para expulsar a massa de ar. E gritou. E gritou de frente para uma moça de amarelo. E a moça gritou. E os dois gritaram juntos, e sorriram. Viram outros sorrindo.
Gritaram os dois; e eram três. Gritaram os quatro; e eram cinco. Gritaram todas as pessoas naquela quadra. As que passavam, as que passeavam, as que olhavam vitrines, as que olhavam para o chão, as que entravam e saíam dos prédios. Gritavam, e o grito ecoou pela rua. Foi respondido. Gritaram na esquina. Na outra esquina. Na praça. Gritaram dentro dos ônibus, dos carros, no interior dos cinemas e dos escritórios. Gritaram nos mictórios e nas lanchonetes, nos bancos e doçarias.
No fim da tarde, quando o sol se pôs, não havia mais ruídos, em silêncio, apenas o grito, uniforme, uníssono, unânime, solidário, de seis milhões de pessoas.
Grito sem fim, enquanto a noite descia.
Ignácio de Loyola Brandão, in Cadeiras proibidas

Róssini

Restaurante fino. Maître extremamente elegante, ar superior, grande linha. Sotaque nordestino. Turnedô à Rossini ele pronunciava “Róssini”.
Rossiní — corrigiu a madame.
A empáfia do maître era inabalável.
Madame quer saber mais do que eu?
A pronúncia certa é Rossiní.
O original é Róssini.
Na Europa se diz Rossiní.
Eu estou falando do Ceará, madame.
Ceará?
Inclusive, conheço Róssini pessoalmente.
O Rossini do turnedô é do Ceará?
Fortaleza.
O Rossini não era um compositor italiano?
Esse é outro. O Róssini que eu estou falando é cearense. Amigo do Bechamel.
Bechamel?
Paulinho Bechamel.
O do molho?
Esse. Também conheço o Gratiné.
Quem?
Severino Gratiné. Inventor da supe a lóion.
Certo...
Madame vai de turnedô?
Não, não. Acho que vou pedir camarões flambê.
Flambé.
Flambê.
Flambé.
Você conhece pessoalmente...
O Luizão Flambé?
Luís Fernando Veríssimo, in A mesa voadora

Gal Costa e Djavan - Nuvem Negra

domingo, 24 de março de 2019

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.

As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
Carlos Drummond de Andrade

Verdade x mentira

Enquanto o jornalista diz a verdade, não é seu trabalho se preocupar com as consequências. A verdade nunca é tão perigosa quanto uma mentira a longo prazo. Eu realmente acredito que a verdade liberta os homens.”
Ben Bradlee, editor do Washington Post, em 30/05/1973, sobre o caso Watergate

Não sei mesmo onde vamos parar

Fotograma do filme As vinhas da ira

Quarenta quilômetros de Castle a Paden, e o sol passara o zênite, começando a descer. A tampa do radiador começou a oscilar e o vapor escapou-se-lhe entre as frestas. Próximo a Paden havia uma construção à margem da estrada e duas bombas de gasolina defronte dela; e ao lado, diante de uma cerca, uma bica de água e uma mangueira. Al dirigiu o Hudson de maneira que o radiador do caminhão ficasse bem junto da bica. Assim que parou, um homem corpulento, de rosto e braços vermelhos, ergueu-se de uma cadeira colocada atrás das bombas de gasolina e veio ao seu encontro. Vestia calças de lona marrom, suspensórios e uma camiseta de malha; e tinha sobre os olhos uma viseira de cor prata. O suor gotejava de seu nariz e de sob os olhos, formando pequenos fios nos vincos do pescoço. Aproximou-se lentamente do caminhão, a cara fechada, truculenta.
Querem comprar alguma coisa? Gasolina, ou quê? — perguntou.
Al já tinha saltado e estava desatarraxando a tampa do radiador que estava envolta em vapor, utilizando-se da ponta dos dedos para que o vapor quente não lhe queimasse a mão quando brotasse em jato forte.
Preciso de gasolina, seu.
Tem dinheiro?
É claro. Pensa que estamos mendigando?
A expressão truculenta abandonou as faces do homem.
Bom, então tá certo. Pode se servir da água. — E tratou de explicar: — A estrada tá cheia de gente e todo mundo quer água e suja a privada e, que diabos, rouba o que pode e não compra coisa nenhuma. Não têm dinheiro pra comprar nada. Mendigam um galão de gasolina e vão-se adiante.
Tom pulou colérico do caminhão e postou-se em frente ao homem da bomba de gasolina.
Nós pagamos, tá compreendendo? — disse exaltado. — Você não tem o direito de nos interrogar, nem de falar com a gente desse jeito, ouviu? Meta-se com a sua vida!
Não tô me metendo com ninguém — escusou-se o homem, depressa. Sua camiseta já estava ensopada de suor. — Podem tirar água à vontade. E servir-se do banheiro, se quiserem.
Winfield já tinha achado o bico da mangueira e agora encostava-o à boca, e deixava que a pressão da água lhe lavasse a cabeça e o rosto. Depois deixou a água escorrer.
Tá quente — disse.
Não sei onde vamos parar — disse o homem da bomba de gasolina, com um jeito de quem não tinha a intenção de atingir os Joad. — Cinquenta a sessenta carros cheios de gente passam por aqui todos os dias, para o Oeste, carregando filhos e troços à beça. Aonde é que eles vão desse jeito? Que é que eles vão fazer?
Vão fazer o mesmo que nós — disse Tom. — Procurar um lugar pra viver. É só isso, nada mais.
Bem, eu não sei onde isso vai parar assim. Não sei, mesmo. Olhe eu, por exemplo. Também estou aqui tentando cuidar da minha vida. O senhor pensa que algum dos carros grandes e novos que passam por esta estrada para na minha bomba? Para coisa nenhuma! Vai direitinho à cidade, onde tem aqueles postos pintados de amarelo da companhia de gasolina. Eles não param em lugar que nem esse. Aqueles que param, é pra pedir coisas, nada de comprar.
Al tinha afrouxado a tampa do radiador, que, impelida por um forte jato de vapor, voou bem alto. Um som cavo, murmurante, subiu pelo tubo. No alto da carroceria, o cachorro, sofredor, foi se esgueirando para a traseira do caminhão, gania timidamente e olhava para baixo, em direção à água. Tio John subiu e carregou-o para baixo, segurando-o firmemente pela pele do pescoço. Por um instante, o animal ficou estacado, pernas retesadas, depois correu à poça d’água que se formara junto ao bico da mangueira. Pela estrada deslizavam os carros, cintilando ao calor, e o vento quente que levantavam na corrida atingia o posto de gasolina. Al enchia o radiador de água.
Não é que eu me queira aproveitar da gente rica — continuou o homem do posto. — Mas preciso manter o meu negócio. E aqueles que param aqui só vivem esmolando gasolina ou então querem fazer trocas. Posso mostrar, estão aí naquele quarto dos fundos, aquela porção de troços que tenho recebido em paga de gasolina e óleo: camas, berços, panelas e frigideiras. Uma família trocou até a boneca de uma filha por um galão de gasolina. Que é que eu vou fazer com esses troços todos? Abrir uma loja de quinquilharias? Um sujeito queria me dar até os sapatos em troca de um galão de gasolina. E se eu não fosse um camarada direito, até as... — Ele olhou para a mãe e não continuou a frase.
Jim Casy jogara água sobre a cabeça e as gotas lhe caíam ainda pela testa ampla; seu pescoço musculoso e sua camisa estavam molhados. Dirigiu-se para o lado de Tom:
É assim mesmo, eles não têm culpa — disse. — Você gostaria de vender até a cama em que dorme por um pouco de gasolina?
Eu sei que a culpa não é deles. Todos com quem conversei têm razões mais do que boas pra se meterem na estrada. Mas onde é que o país vai parar desse jeito? É o que eu queria saber. Aonde é que tudo isso nos vai levar? Um homem já não pode ganhar a vida decentemente. Nem as terras se pode cultivar mais. Eu lhe pergunto: como é que isto vai acabar? Não faço a menor ideia. E ninguém, dos que interroguei a respeito, soube me dizer nada. Um sujeito aí quis vender até os sapatos pra poder ir mais uns cem quilômetros adiante. Francamente, não sei, não compreendo nada.
Tirou a viseira prateada da fronte, limpando a testa com ela.
E Tom também tirou o boné e enxugou o suor com ele. Foi até a mangueira, molhou o boné, torceu-o e colocou-o novamente na cabeça. Mãe tirou um copo de folha de flandres de entre a carga do caminhão, encheu-o de água e levou-o ao avô e à avó, que ainda estavam sentados no veículo. Encostou-se às barras laterais do caminhão, ofereceu o copo ao avô, que molhou os lábios e sacudiu a cabeça dizendo que não queria mais. Seus olhos alquebrados miraram a mãe, doloridos e desvairados, até que um instante depois o brilho da inteligência tornou a sumir-se deles.
Al pôs o motor em movimento e foi em marcha à ré até a bomba de gasolina.
Bom, enche o tanque — disse. — Deve caber uns sete, mas quero só seis pra que não entorne gasolina.
O homem da bomba dirigiu a mangueira para o orifício do tanque.
Francamente — foi falando — não sei como é que este país vai acabar. Mesmo com o seguro-desemprego e tudo.
Casy disse:
Eu já percorri este país. E todo mundo me fez esta pergunta. Onde vamos parar? Acho que não vamos parar em lugar nenhum. Estamos sempre a caminho. Sempre indo. Por que é que ninguém pensa sobre isso? É um movimento que não acaba nunca. O pessoal anda, anda sempre. Nós sabemos por que, e sabemos como. Caminhamos porque somos obrigados a caminhar. É o único motivo por que todos caminham. Porque querem alguma coisa melhor do que têm. E caminhar é a única oportunidade de se obter essa melhoria. Se querem e precisam, têm que ir buscar. A fome tira o lobo da toca. Eu já percorri o país todo e ouvi muita gente falar como você fala.
O homem do posto encheu o tanque. O ponteiro do medidor marcou a quantidade do combustível pedido.
Sim, mas aonde nos vai levar tudo isso? É o que eu quero saber.
Tom interrompeu-o, irritado:
Você é que nunca vai saber disso. O reverendo já te explicou, e você continua a repetir suas perguntas bestas. Conheço muita gente como você. Não querem saber de nada, mas vivem repetindo a mesma ladainha: onde vamos parar? A você isso não interessa. O pessoal sai de sua terra, vai pra cá e pra lá. Talvez você também morra de uma hora para outra, mas nem quer pensar nas coisas. Conheço muita gente assim. Não querem saber de nada. Só vivem cantando a mesma cantiga: onde vamo parar?
Ele olhou a bomba de gasolina, que era velha e enferrujada, e o barraco construído atrás, de madeira velha, em que se viam ainda os buracos dos pregos usados nela pela primeira vez salientando-se na pintura amarela já desbotada, que pretendia imitar a dos grandes postos da cidade. Mas a pintura não conseguia ocultar os buracos dos pregos antigos, nem as velhas rachaduras na madeira, e a pintura não podia ser renovada. A imitação não passava de uma grosseira tentativa e o dono sabia disso muito bem. No interior do barraco, de porta aberta, Tom viu as latas de óleo, havia só duas, e sobre um balcão havia bombons velhos e barras de alcaçuz que o tempo tornara escuras e cigarros. Viu a cadeira quebrada e a tela de proteção contra moscas, com um buraco enferrujado ao centro. E o quintal desarranjado, que devia ser coberto de cascalho, e, atrás, um campo de cereais, secando e morrendo sob os raios do sol inclemente. Ao lado da casa, o pequeno sortimento de pneus usados e de pneus recauchutados. E, pela primeira vez, notou as calças ordinárias e mal lavadas do dono da barraca, o gordo homem da bomba de gasolina, e sua camiseta ordinária e a viseira prateada sobre os olhos.
Eu não queria ofender o senhor — falou. — É o calor, sabe? O senhor também não tem nada. De qualquer maneira, daqui a pouco o senhor estará indo embora. Para o senhor, não são os tratores, para o senhor são os grandes e novos postos de serviço das cidades. O senhor vai acabar indo embora também.
O homem do posto foi diminuindo a ginástica com que acionava a alavanca da bomba e parou de vez, enquanto Tom falava. Encarou-o, preocupado:
Afinal de contas, como é que você sabe que nós também estamos nos preparando para ir para o Oeste?
Casy foi quem lhe deu a resposta:
É porque todos estão indo para lá. Veja eu, por exemplo; antes lutava com todas as minhas forças contra o demônio, porque pensava que o demônio era o inimigo. Mas agora é outra coisa muito pior que o demônio o que está dominando o país, uma coisa que não acabará enquanto a gente não acabar com ela. Você já viu como se agarra um monstro de Gila? Aquele lagarto grande e venenoso do Novo México, sabe? Ele cerra os dentes com uma força extraordinária e pode-se cortá-lo em dois, que a cabeça ainda fica agarrada. Corte-lhe o pescoço, e a cabeça ainda fica presa. A gente tem que enfiar a ponta de uma chave de fenda na cabeça dele para que as presas se abram e soltem a carne, mas mesmo assim o veneno vai gotejando no buraco aberto pelos dentes dele. — Ele estacou e olhou Tom de lado.
O gordo fixou desanimado os olhos no chão. Sua mão recomeçou a movimentar a alavanca da bomba.
Não sei mesmo onde vamos parar — disse com brandura.
John Steinbeck, in As vinhas da ira

O traço sarcástico do iraniano Mana Neyestani


Nunca que o homem voará

Lançado há três meses, “The Collected Poems of Bertolt Brecht” mudou a estatura do escritor alemão no mundo anglo-americano. Dia virá em que a alteração atingirá outros idiomas. De dramaturgo datado, Brecht será visto como o grande poeta de tempos sombrios —do nosso tempo.
A mudança envolve quantidade e qualidade. A nova tradução inglesa, de David Constantine e Tom Kuhn, tem 1.287 páginas. Brecht escreveu mais de 2.000 poemas. Começou aos 15 anos e só parou ao morrer, de enfarte, aos 58. Menos da metade deles foram publicados em vida.
Mesmo em alemão, sua edição foi a conta-gotas. No original, o último dos quatro volumes de sua poesia saiu 37 anos depois de ele morrer, em 1956. Em português, nem se fala. A boa tradução de Paulo César de Souza (publicada pela editora 34) tem apenas 260 poemas.


Ilustração: Bruna Barros

A quantidade prodigiosa de versos corresponde a uma virtuosidade estupenda. Ele fez sonetos, elegias, sátiras, baladas, corais, paródias, aforismas, canções, poemas infantis, pornôs e de agitprop. Qualquer que seja a forma, a sua voz límpida é reconhecida de imediato.
Ela é a expressão de um homem que, como disse Hannah Arendt, “quase nunca esteve interessado em si mesmo”. Voltado para fora, Brecht apreendeu o seu tempo por meio do estudo e da inteligência. O pensamento —objetivo, engajado, provocador— é a qualidade maior de seus versos.
A poesia-pensamento não registra comiserações inefáveis, estados d'alma, finuras fugazes. Alheia ao borbulhar do gênio, ela duvida, argumenta, espicaça, quer convencer. É arma estética na luta de classes.
Brecht viveu uma revolução triunfante (a russa), outra derrotada (a alemã) e duas guerras mundiais. O nazismo o exilou, o macarthismo o caçou, o stalinismo quis comprá-lo. Fez sucesso, ganhou um bom dinheiro, era comunista e criativo —uma mescla de combustão calcinante.
Política, para ele, significava mudar a si mesmo, ao leitor/espectador e ao mundo. Algo do que pensou a respeito da chance e possibilidade de mudar está nesses dois poemas, transcritos e ilustrados por Bruna Barros.
Em “Esses Dois”, um casal quer dizer o que um sente pelo outro. Mas a dificuldade em falar, em confessar, os emudece. Resta o silêncio do poema. Ele capta a mudança que não ocorreu, que ficou para trás e, contudo, continua presente, foi posta em versos.
Esses Dois” encanta por ser simples e conciso. E porque, escrito em 1913, foi publicado pela primeira vez só 76 anos depois, mais de três décadas após Brecht ser enterrado. Quem o escreveu foi um carinha de 15 anos. Ele aprendia que é preciso dizer e mudar —e que tem de ser agora.
Ulm 1592” é uma canção infantil, “kinderlieder”. Reza a lenda que, em 1592, um alfaiate da cidade de Ulm, na Alemanha, tentou voar. Construiu asas, amarrou-as aos braços e subiu na torre da catedral gótica, até hoje a mais alta do mundo. Galgou os 161 metros da torre, saltou e...
Brecht se diverte com o alfaiate pinel, compartilha a ansiedade da criançada, tripudia da ranzinzice do bispo, muito cônscio de suas sensatas certezas. O afogueado alfaiate se dá mal. Mas a previsão do prelado de púrpura, de que o homem nunca voará, é risível também.
A simpatia de Brecht está com o artesão imaginoso, que se veste de asas para vencer a lei da natureza. O bispo, realista, a longo prazo se revela tacanho e pedestre. Cabe a pergunta: o alfaiate, com a sua queda, contribuiu para que o homem voasse? Ou seu esforço foi apenas ridículo?
Lucio Magri (1932-2011), dirigente do Partido Comunista Italiano durante décadas, escreveu um livro de memórias, ao qual deu o título de “O Alfaiate de Ulm”. O PCI, que foi o maior partido comunista europeu no pós-Guerra, ruiu junto com o Muro de Berlim.
Magri e um punhado de camaradas tentaram preservar a experiência, e as lutas, de uma geração de gente que batalhou uma sociedade nova, sem exploração. Criaram o jornal “Il Manifesto” e puseram de pé outras organizações de trabalhadores - que vieram a se cindir até virarem pó.
Viúvo e acabrunhado, Magri optou pelo suicídio, na Suíça, organizado pela filha e pela neta. “O Alfaiate de Ulm” (publicado pela Boitempo) foi sua última tentativa de dar um sentido à sua vida —e à de tantos outros.
Tudo isso passou e bispo é o que não falta. Melhor desistir de mudar, como “Aqueles Dois”? Dar um balanço e se suicidar, como o militante? Perseverar, como o poeta? Brecht diria:
Tantos relatos.
Tantas perguntas.”
Mario Sergio Conti, in Folha de S. Paulo, 23/03/2019

Noventa e três

Foram entrando um por um. O velho estava na cabeceira, cabeceando. À medida que entravam, alguém anunciava os nomes, descrevendo em alta voz o jeito dos vestidos. Os netos encheram sala, os bisnetos sobraram no quintal. O avô levantava um olhar silencioso, sem luz. Sorria o tempo todo: não queria cometer indelicadeza. O avô fingia, aniversariamente. Porque em nenhum outro dia os outros dele se recordavam. Deixavam-no poeirando com os demais objetos da sala.
Esta noite, as prendas se juntam e ele apalpa os embrulhos. O seu gesto não leva desacerto. Afinal, não há mão mais segura que a do cego. Porque o cego agarra o que há e o resto não acontece. Lugar de quem não vê está sempre certo: afinal, só erra quem pode escolher. O velho agradece, vidente invisual. Tudo estando longe da vista, perto do coração.
Os convidados ficam um tempito junto dele, não sabem o que dizer, não há quase nada a dizer, o velho ouve só acima das gritarias. Depois, quem sabe olhar um cego? Vendo-o assim esplendoloroso, acreditam, para sossego deles, que o avô já tenha adormecido. O dia lhe sendo igual à noite, o cego bem deve dormir de ouvido.
Mas o avô apenas se finge dormido. Naquele enquanto, ele apenas aguarda uma fresta para poder exercer sua mais secreta malandrice. Todos os dias escapa do lar. Quando a cidade refreia o pulso, ele sai à rua. Nunca lhe notaram essas ausências. Nem imaginam que, andando em tropeços tão pequenos que nunca chega a cair, ele diariamente se evade para o jardim público. Vai encontrar seus dois vigentes amigos: um gato silvestre e Ditinho, o menino da rua, desses que perderam morada. O miúdo lhe conversa e o velho lhe oferece uma nenhumita coisa que roubou de casa. Para ambos, o mundo é muito grande. Cansado de puxar estória, o miúdo adormece. Amolecido, o avô também se aplica no banco de jardim. Até que aparece o gato, mais meloso que rameloso. O gatito se esfrega, seu todo corpo é uma língua lambendo o velho. O bicho ronrosna, farfalhante. Gato que ama é sempre asmático?
Agora, por entre os barulhos que invadiram toda a casa, o avô sente saudade do jardim. Será que pode sair?
Sair?
Os familiares se admiram, indignados. Então, no preciso dia de anos? E aonde? O velho se resigna, desistido. Que ele era de manias já sabiam. Exemplo: há três anos atrás ele decidira fazer seu próprio caixão. A família se perguntava: que deu nele? A filha mais velha estremeceu: seria pressentimento? Os irmãos, contudo, riram: disparate! O velho, no enquanto, prosseguia a construção. Hoje um toque, amanhã um retoque. Esta é a morada a mais definitiva, obra para nossa eternidade, não será que vale a pena cuidar dela? Vocês estão a vida inteira trabalhando para erguer casa provisória; eu trabalho no definitivo.
Por isso, os familiares não se perturbam com os desejos do velho. Em plena comemoração da sua idade ele quer ir passear-se longe e sozinho? Coisa de menino, delírio infantil. E assim deixam o velho na poltrona da cabeceira, em aparência de sono. Todos se garantem de que ele não precisa mais cuidado. Mas a ilusão de se estar certo nasce de todos estarem errados no mesmo momento. Pois, o velho, de repente, proclama a súbita pergunta:
Me desculpem vocês todos: mas, fim ao cabo, quantos anos eu faço?
Riram-se. O velho malandrava, devia fingir esquecimento. Uma voz se levanta, lhe anunciando a idade. O velho franze a testa, desconfiado:
Noventa e três?
Parecia atônito. No restante da noite, ele intervalava a cadeira com repentinos espantos. E voltava:
Noventa e três?
Mais tarde, já as danças se emparelhavam. O velho tropeçando entre os casais, aborda um alguém: me desculpa, meu filho, em que ano estamos?
Noventa e três, pai.
Não, corrige o velho. Pergunto em que ano estamos. Mas já ninguém estava. A multidão, ruidosa, acelera os festejos. Naquela alegria não cabem avôs. As bebidas correm, as mentes se vão tornando líquidas.
Finalmente, trazem o bolo de aniversário. O velho sopra em todo o lado menos no bolo. Decidem todos juntos apagar as velas, na vez do festejado. O bolo é cortado rápido, há que regressar à alegria. O velho deve estar por aí dormindo, dizem, ele descansa assim no meio de qualquer momento. Mas o avô não dorme. Está quieto sofrendo de saudade dos seus companheiros da rua, Ditinho mais o gato. Esses, sim, mereciam pensamento. Só para eles, vadios do jardim, ele se sentia avô.
E sem que ninguém se aperceba, o aniversariante escapa do aniversário. Se adentra no jardinzito e se estende no banco, suspirando uma leve felicidade. O gato desce da paisagem e se enrosca docemente no braço. O velho lhe tinha reservado um doce roubado à festa. Ditinho chega depois, vindo de jantar um lixo.
Diante do banco, o miúdo espreita curioso. Nunca o velho se apresentara tão tardio. A criança se senta, familiar. Coloca a mão no bolso do avô, avalia-lhe o volume da carteira e pergunta:
Então, quanto temos aqui?
O velho sorri, leva a mão ao peito e proclama:
Noventa e três!
Os olhos do miúdo relampejam:
Tudo isso? Estás rico, vavô.
O velho concorda, acendendo um sorriso. O menino tinha o coração em trabalho de parto:
Com esse tanto dinheiro hoje vamos fartar por aí: comer, beber, gargalhotar.
E se levanta, puxando o velho por uma escura ruela. O avô ainda se lembra: a minha bengala! Mas Ditinho responde: sua bengala, a partir de hoje, sou eu. E se afastam os dois, cada vez mais longe dos ruídos da festa de aniversário. No jardim, o gato esfrega uma saudade na esquecida bengala. Depois, corre pelo beco escuro, juntando-se aos dois amigos que, já longe, festejavam o tempo, comemorando o dia em que todos os homens fazem anos.
Mia Couto, in Estórias abensonhadas

sábado, 23 de março de 2019

Medíocres

Os homens são egoístas medíocres, chegando os piores a atribuir mais importância ao hábito do que ao proveito.”
Friedrich Nietzsche, in A vontade de poder

Evolução


Capítulo 86 - O Mistério

Serra abaixo, como eu a visse um pouco diferente, não sei se abatida ou outra coisa, perguntei-lhe o que tinha; calou-se, fez um gesto de enfado, de mal-estar, de fadiga; ateimei, ela disse-me que... Um fluido sutil percorreu todo o meu corpo; sensação forte, rápida, singular, que eu não chegarei jamais a fixar no papel. Travei-lhe das mãos, puxei-a levemente a mim, e beijei-a na testa, com uma delicadeza de zéfiro e uma gravidade de Abraão. Ela estremeceu, colheu-me a cabeça entre as palmas, fitou-me os olhos, depois afagou-me com um gesto maternal... Eis aí um mistério; deixemos ao leitor o tempo de decifrar este mistério.
Machado de Assis, in Memórias póstumas de Brás Cubas

Sobre poesia

Não têm sido poucas as tentativas de definir o que é poesia. Desde Platão e Aristóteles até os semânticos e concretistas modernos, insistem filósofos, críticos e mesmo os próprios poetas em dar uma definição da arte de se exprimir em versos, velha como a humanidade. Eu mesmo, em artigos e críticas que já vão longe, não me pude furtar à vaidade de fazer os meus mots de finesse em causa própria - coisa que hoje me parece senão irresponsável, pelo menos bastante literária.
Um operário parte de um monte de tijolos sem significação especial senão serem tijolos para - sob a orientação de um construtor que por sua vez segue os cálculos de um engenheiro obediente ao projeto de um arquiteto - levantar uma casa. Um monte de tijolos é um monte de tijolos. Não existe nele beleza específica. Mas uma casa pode ser bela, se o projeto de um bom arquiteto tiver a estruturá-lo os cálculos de um bom engenheiro e a vigilância de um bom construtor no sentido do bom acabamento, por um bom operário, do trabalho em execução.
Troquem-se tijolos por palavras, ponha-se o poeta, subjetivamente, na quádrupla função de arquiteto, engenheiro, construtor e operário, e aí tendes o que é poesia. A comparação pode parecer orgulhosa, do ponto de vista do poeta, mas, muito pelo contrário, ela me parece colocar a poesia em sua real posição diante das outras artes: a de verdadeira humildade. O material do poeta é a vida, e só a vida, com tudo o que ela tem de sórdido e sublime. Seu instrumento é a palavra. Sua função é a de ser expressão verbal rítmica ao mundo informe de sensações, sentimentos e pressentimentos dos outros com relação a tudo o que existe ou é passível de existência no mundo mágico da imaginação. Seu único dever é fazê-lo da maneira mais bela, simples e comunicativa possível, do contrário ele não será nunca um bom poeta, mas um mero lucubrador de versos.
O material do poeta é a vida, dissemos. Por isso me parece que a poesia é a mais humilde das artes. E, como tal, a mais heroica, pois essa circunstância determina que o poeta constitua a lenha preferida para a lareira do alheio, embora o que se mostre de saída às visitas seja o quadro em cima dela, ou a escultura no saguão, ou o último long-playing em alta-fidelidade, ou a própria casa se ela for obra de um arquiteto de nome. E eu vos direi o porquê dessa atitude, de vez que não há nisso nenhum mistério, nem qualquer demérito para a poesia. É que a vida é para todos um fato cotidiano. Ela o é pela dinâmica mesma de suas contradições, pelo equilíbrio mesmo de seus polos contrários. O homem não poderia viver sob o sentimento permanente dessas contradições e desses contrários, que procura constantemente esquecer para poder mover a máquina do mundo, da qual é o único criador e obreiro, e para não perder a sua razão de ser dentro de uma natureza em que constitui ao mesmo tempo a nota mais bela e mais desarmônica. Ou melhor: para não perder a razão tout court.
Mas para o poeta a vida é eterna. Ele vive no vórtice dessas contradições, no eixo desses contrários. Não viva ele assim, e transformar-se á certamente, dentro de um mundo em carne viva, num jardinista, num floricultor de espécimes que, por mais belos sejam, pertencem antes a estufas que ao homem que vive nas ruas e nas casas. Isto é: pelo menos para mim. E não é outra a razão pela qual a poesia tem dado à história, dentro do quadro das artes, o maior, de longe o maior número de santos e de mártires. Pois, individualmente, o poeta é, ai dele, um ser em constante busca de absoluto e, socialmente, um permanente revoltado. Daí não haver por que estranhar o fato de ser a poesia, para efeitos domésticos, a filha pobre na família das artes, e um elemento de perturbação da ordem dentro da sociedade tal como está constituída.
Diz-se que o poeta é um criador, ou melhor, um estruturador de línguas e, sendo assim, de civilizações. Homero, Virgílio, Dante, Chaucer, Shakespeare, Camões, os poetas anônimos do Cantar de Mío Cid vivem à base dessas afirmações. Pode ser. Mas para o burguês comum a poesia não é coisa que se possa trocar usualmente por dinheiro, pendurar na parede como um quadro, colocar num jardim como uma escultura, pôr num toca-discos como uma sinfonia, transportar para a tela como um conto, uma novela ou um romance, nem encenar, como um roteiro cinematográfico, um balé ou uma peça de teatro. Modigliani - que se fosse vivo seria multimilionário como Picasso - podia, na época em que morria de fome, trocar uma tela por um prato de comida: muitos artistas plásticos o fizeram antes e depois dele. Mas eu acho difícil que um poeta possa jamais conseguir o seu filé em troca de um soneto ou uma balada. Por isso me parece que a maior beleza dessa arte modesta e heroica seja a sua aparente inutilidade. Isso dá ao verdadeiro poeta forças para jamais se comprometer com os donos da vida. Seu único patrão é a própria vida: a vida dos homens em sua longa luta contra a natureza e contra si mesmos para se realizarem em amor e tranquilidade.
Vinicius de Moraes, in Prosa

A Paz | Nádia Figueiredo, Gilberto Gil e João Donato

O poeta do nada

O poema é uma mensagem que o poeta envia para si mesmo a respeito de algo que desconhece. Ele a lacra em um envelope – o poema. Quando chega ao leitor, a mensagem também continua indecifrável; por mais que tente, ele não consegue abri-la. Tudo o que lhe resta são as palavras. Ler um poema é tentar rasgar um envelope inviolável.
Os poetas escrevem no escuro, mas alguns, além disso, escrevem de olhos vendados. Lacrados em si mesmos, recusam-se a ver. A escrita se torna, então, a luta para inventar um sexto sentido que substitua a visão mutilada. Eis o que chamam de poesia. Sempre penso que esse é o caso do português Mário de Sá-Carneiro. Sua poesia (que releio em Os melhores poemas de Mário de Sá-Carneiro, Global Editora) é o resultado de uma cegueira sobreposta a outra cegueira. Por isso é tão enigmática. Por isso também é tão apaixonante.
Arrisco uma primeira hipótese: o grande personagem da poesia de Mário é a ausência. Personagem esquivo, ele não comparece aos versos que o celebram. Só aparece em negativo – como um ausente. É como se o mais famoso convidado de uma festa cancelasse, subitamente, sua presença. Ou o craque mais celebrado fugisse de um jogo decisivo. De que mais falar senão dessa ausência tão sentida? É sobre ela que Mário escreve. Não sobre algo que tem, mas sobre algo que não tem.
Na primeira carta da longa correspondência que manteve com Fernando Pessoa, datada de outubro de 1912 e enviada de Paris, um enfastiado Mário, já na primeira linha, anuncia: “Francamente não tenho nada de interessante a dizer-lhe”. Desembarca na França para estudar Direito na Sorbonne. Quatro anos depois, aos 25 anos de idade e com cinco frascos de arseniato, suicida-se. Assim que chega a Paris, em outra carta ao amigo e numa antecipação do ato final, escreve: “Hoje sou o embalsamamento de mim próprio”. Dias antes de cometer suicídio, na última carta a Pessoa, anuncia seu desejo de lançar-se embaixo de um trem. Mas quem acreditaria em um homem para quem a ausência era tudo? Morrer não seria, para ele, ausentar-se da ausência?
Curiosamente, sua morte nunca foi registrada em Lisboa, onde, portanto, o poeta continua oficialmente vivo. Também a burocracia, às vezes, é sábia. Como fixar uma vida que se pauta pela negação? E pior: como anunciar a morte de alguém que, para si mesmo, nunca existiu? As duas medidas parecem desnecessárias, e o próprio Mário se encarregou de registrar isso em versos. A poesia é um recurso mágico que permite dar forma ao que desconhecemos.
Em “Como eu não possuo”, poema escrito em 1913, Mário se pergunta: “Serei um emigrado doutro mundo/ Que nem na minha dor posso encontrar-me?”. Repenso minha primeira hipótese: reduzir sua poesia a sentimentos negativos, como a tristeza e o sofrimento, é, ainda, recusá-la. Aproximo-me, então, da segunda hipótese. Para Mário, não basta ter; pois ter ainda não é possuir. Mais à frente, escreve: “Se tivera um dia,/ Toda sem véus, a carne estilizada/ Nem mesmo assim – ó ânsia – eu a teria...”. Esses versos apontam o objeto de sua poesia, que já não é algo que se ausenta, ou se recusa, e que um dia, quem sabe, se poderá ter; mas algo para sempre perdido. Não é a carne que não se tem, mas o desejo de possuí-la. Poeta da ausência? Talvez dizendo melhor: poeta do desejo.
Não a ausência disso ou daquilo, mas ausência do próprio desejo. O poeta pode ter tudo, mas ainda assim nada terá. Parece um homem a quem, já enfastiado depois de um longo banquete, se oferece um assado suculento. Não lhe falta o assado (o objeto), mas lhe falta o desejo de devorá-lo. Essa posição intermediária entre sujeito e objeto deixa Mário quase sempre “a ponto de”. Dizendo de outra forma: transforma-o em um fantasma que ronda entre as coisas, quase as toca, mas sempre falha. Em “Quase”, também de 1913, ele sintetiza: “Um pouco mais de sol – eu era brasa./ Um pouco mais de azul – eu era além”. Falta-lhe justamente “um pouco mais”, e esse passo a mais é o desejo, sem o qual nenhum contato com o mundo é possível.
Na minh’alma tudo se derrama”, ele descreve em outro verso, apontando a origem do sofrimento. Também o suicídio talvez se explique com os versos finais: “Pra atingir, faltou-me um golpe de asa.../ Se ao menos eu permanecesse aquém...”. Ao aquém do mundo, isto é, ao nada, só se retorna com a morte. Aproximo-me, lentamente, de uma terceira hipótese: Mário, poeta do nada. Já que não consegue desejar, prefere abrir mão da posição intermediária, onde as coisas o chamam. Ele as ouve, sabe que deve ir – mas não consegue se mover, já que algo (a ausência do desejo) o impede. O que lhe resta, então, não é o vazio, resultado de uma ausência, mas o nada, lugar onde ninguém esteve.
Em Mário de Sá-Carneiro a poesia se torna uma escavação. Para escrever, em vez de construir, ele arranca. “Desço-me todo, em vão, sem nada achar/ E a minh’alma perdida não repousa.” A poesia é uma prótese que preenche uma ausência? Não: ela é mais um adereço que sinaliza algo que nunca existiu. Que outra coisa é a língua, arbitrária e alheia, senão um substituto do inexistente? “Nada tendo, decido-me a criar”, Mário escreve. Constrói-se, então, fora de si, com a consciência de que a linguagem é tudo – mas nós somos outra coisa.
A consciência desse abismo entre o ser e a língua conduz um perplexo Mário, no mesmo poema, à terrível pergunta: “Onde existo que não existo em mim?”. Não é a ausência ou a falta do desejo que o impedem de encontrar. O que busca é o nada. Na dança em torno do nada se faz poeta. A poesia já não é prótese ou fantasia, mas objeto autônomo, que o poeta arranca de si.
A poesia de Mário de Sá-Carneiro afirma o poder da invenção. Ou temos a coragem de inventar a vida, ou vida não haverá. Em “A partida”, poema de 1913, assim resume sua condição de poeta: “Afronta-me um desejo de fugir/ Ao mistério que é meu e me seduz./ Mas logo me triunfo”. A expressão é clara: “me triunfo”. O poeta é aquele que vence a si mesmo. Que apesar de nada ter e de nada desejar, aproveita-se disso para existir.
José Castello, in Sábados inquietos

sexta-feira, 22 de março de 2019

Literato cantabile

agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto pode ser o fim
do seu início
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em minha orla
os pássaros de sempre cantam assim,
do precipício:

a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de id
eia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde quer que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício
e não se sabe nunca mais do mim. agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim. a guerra acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.
Torquato Neto

A noite da revolta

Cary Grant e Ginger Rogers

Minha velha, está na hora de tomar o comprimido para dormir.
Mas eu não quero dormir. Tem um filme na televisão que eu queria ver.
Acho melhor você não ficar acordada. Pode não gostar do filme e depois passa a noite em claro.
Não. Você tome o seu comprimido e eu prefiro ficar acordada.
Mas eu não sei tomar o meu comprimido sem você tomar o seu. Acho que não vou dormir se tomar o comprimido sozinho.
Experimente, Artur. Só esta noite.
Estamos tão acostumados que, se os dois comprimidos não forem tomados juntos, acho que um não faz efeito.
Ah, Artur, você é a cruz da minha vida. Será possível que eu não possa nem ao menos rever um filme de Cary Grant?
Estou te estranhando, Lindaura. Nunca pensei que você tivesse paixão por esse Cary Grant.
Muito bonito, cena de ciúmes a essa altura da vida. Trinta e oito anos de fidelidade, e você me vem com uma coisa dessas. Você se esquece que, quando a Ginger Rogers passou o Carnaval no Rio, o seu assanhamento não teve limites. Não sossegou enquanto não pediu a ela um autógrafo e Deus sabe o que mais.
Nunca tive nada com a Ginger Rogers. Juro!
Não teve porque ela não deu bola. Quer saber de uma coisa, Artur? Você diz que o seu comprimido sozinho não faz efeito. Então, tome também o meu. Tome os dois, tome cinco ou dez, e me deixe em paz curtindo o meu Cary Grant!
Carlos Drummond de Andrade, in Contos plausíveis