segunda-feira, 6 de abril de 2020

O esmagamento das gotas

Eu não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore. Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada do cair e aniquilar-se.
Júlio Cortázar, in Histórias de Cronópios e de Famas

Curta: Smash and Grab

Lavoura Arcaica - 29

O tempo, o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso, ele próprio conhecendo seus caminhos, recolhendo e filtrando de vária direção o caldo turvo dos afluentes e o sangue ruivo de outros canais para com eles construir a razão mística da história, sempre tolerante, pobres e confusos instrumentos, com a vaidade dos que reclamam o mérito de dar-lhe o curso, não cabendo contudo competir com ele o leito em que há de fluir, cabendo menos ainda a cada um correr contra a corrente, ai daquele, dizia o pai, que tenta deter com as mãos seu movimento: será consumido por suas águas; ai daquele, aprendiz de feiticeiro, que abre a camisa para um confronto: há de sucumbir em suas chamas, que toda mudança, antes de ousar proferir o nome, não pode ser mais que insinuada; o tempo, o tempo, o tempo e suas mudanças, sempre cioso da obra maior, e, atento ao acabamento, sempre zeloso do concerto menor, presente em cada sítio, em cada palmo, em cada grão, e presente também, com seus instantes, em cada letra desta minha história passional, transformando a noite escura do meu retorno numa manhã cheia de luz, armando desde cedo o cenário para celebrar a minha páscoa, retocando, arteiro e lúdico, a paisagem rústica lá de casa, perfumando nossas campinas ainda úmidas, carregando as cores de nossas flores, traçando com engenho as linhas do seu teorema, atraindo, debaixo de uma enorme peneira azul, muitas pombas em revoada, trazendo desde as primeiras horas para a fazenda nossos vizinhos e as famílias inteiras de nossos parentes e amigos lá da vila, entre eles divertidos tagarelas e crianças muito traquinas, tecendo agitações frívolas e ruídos muito propícios, Zuleika e Huda, ajudadas por amigas, já transportavam contentes garrafões de vinho, correndo sucessivas vezes todos os copos, despejando risonhas o sangue decantado e generoso em todos os corpos, recebido sempre com saudações efusivas que eram prenúncio de uma gorda alegria, e foi no bosque atrás da casa, debaixo das árvores mais altas que compunham com o sol o jogo alegre e suave de sombra e luz, depois que o cheiro da carne assada já tinha se perdido entre as muitas folhas das árvores mais copadas, foi então que se recolheu a toalha antes estendida por cima da relva calma, e eu pude acompanhar assim recolhido junto a um tronco mais distante os preparativos agitados para a dança, os movimentos irrequietos daquele bando de moços e moças, entre eles minhas irmãs com seu jeito de camponesas, nos seus vestidos claros e leves, cheias de promessas de amor suspensas na pureza de um amor maior, correndo com graça, cobrindo o bosque de risos, deslocando as cestas de frutas para o lugar onde antes se estendia a toalha, os melões e as melancias partidas aos gritos da alegria, as uvas e as laranjas colhidas dos pomares e nessas cestas com todo o viço bem dispostas sugerindo no centro do espaço o mote para a dança, e era sublime essa alegria com o sol descendo espremido entre as folhas e os galhos, se derramando às vezes na sombra calma através de um facho poroso de luz divina que reverberava intensamente naqueles rostos úmidos, e foi então a roda dos homens se formando primeiro, meu pai de mangas arregaçadas arrebanhando os mais jovens, todos eles se dando rijo os braços, cruzando os dedos firmes nos dedos da mão do outro, compondo ao redor das frutas o contorno sólido de um círculo como se fosse o contorno destacado e forte da roda de um carro de boi, e logo meu velho tio, velho imigrante, mas pastor na sua infância, puxou do bolso a flauta, um caule delicado nas suas mãos pesadas, e se pôs então a soprar nela como um pássaro, suas bochechas se inflando como as bochechas de uma criança, e elas inflavam tanto, tanto, e ele sanguíneo dava a impressão de que faria jorrar pelas orelhas, feito torneiras, todo o seu vinho, e ao som da flauta a roda começou, quase emperrada, a deslocar-se com lentidão, primeiro num sentido, depois no seu contrário, ensaiando devagar a sua força num vaivém duro e ritmado ao toque surdo e forte dos pés batidos virilmente contra o chão, até que a flauta voou de repente, cortando encantada o bosque, correndo na floração do capim e varando os pastos, e a roda então vibrante acelerou o movimento circunscrevendo todo o círculo, e já não era mais a roda de um carro de boi, antes a roda grande de um moinho girando célere num sentido e ao toque da flauta que reapanhava desvoltando sobre seu eixo, e os mais velhos que presenciavam, e mais as moças que aguardavam a sua vez, todos eles batiam palmas reforçando o novo ritmo, e quando menos se esperava, Ana (que todos julgavam sempre na capela) surgiu impaciente numa só lufada, os cabelos soltos espalhando lavas, ligeiramente apanhados num dos lados por um coalho de sangue (que assimetria mais provocadora!), toda ela ostentando um deboche exuberante, uma borra gordurosa no lugar da boca, uma pinta de carvão acima do queixo, a gargantilha de veludo roxo apertando-lhe o pescoço, um pano murcho caindo feito flor da fresta escancarada dos seios, pulseiras nos braços, anéis nos dedos, outros aros nos tornozelos, foi assim que Ana, coberta com as quinquilharias mundanas da minha caixa, tomou de assalto a minha festa, varando com a peste no corpo o círculo que dançava, introduzindo com segurança, ali no centro, sua petulante decadência, assombrando os olhares de espanto, suspendendo em cada boca o grito, paralisando os gestos por um instante, mas dominando a todos com seu violento ímpeto de vida, e logo eu pude adivinhar, apesar da graxa que me escureceu subitamente os olhos, seus passos precisos de cigana se deslocando no meio da roda, desenvolvendo com destreza gestos curvos entre as frutas e as flores dos cestos, só tocando a terra na ponta dos pés descalços, os braços erguidos acima da cabeça serpenteando lentamente ao trinado da flauta mais lento, mais ondulante, as mãos graciosas girando no alto, toda ela cheia de uma selvagem elegância, seus dedos canoros estalando como se fossem, estava ali a origem das castanholas, e em torno dela a roda passou a girar cada vez mais veloz, mais delirante, as palmas de fora mais quentes e mais fortes, e mais intempestiva, e magnetizando a todos, ela roubou de repente o lenço branco do bolso de um dos moços, desfraldando-o com a mão erguida acima da cabeça enquanto serpenteava o corpo, ela sabia fazer as coisas, essa minha irmã, esconder primeiro bem escondido sob a língua sua peçonha e logo morder o cacho de uva que pendia em bagos túmidos de saliva enquanto dançava no centro de todos, fazendo a vida mais turbulenta, tumultuando dores, arrancando gritos de exaltação, e logo entoados em língua estranha começaram a se elevar os versos simples, quase um cântico, nas vozes dos mais velhos, e um primo menor e mais gaiato, levado na corrente, pegou duas tampas de panelas fazendo os pratos estridentes, e ao som contagiante parecia que as garças e os marrecos tivessem voado da lagoa pra se juntarem a todos ali no bosque, e Ana, sempre mais ousada, mais petulante, inventou um novo lance alongando o braço, e, com graça calculada (que demônio mais versátil!), roubou de um circundante a sua taça, logo derramando sobre os ombros nus o vinho lento, obrigando a flauta a um apressado retrocesso lânguido, provocando a ovação dos que a cercavam, era a voz surda de um coro ao mesmo tempo sacro e profano que subia, era a comunhão confusa de alegria, anseios e tormentos, ela sabia surpreender, essa minha irmã, sabia molhar a sua dança, embeber a sua carne, castigar a minha língua no mel litúrgico daquele favo, me atirando sem piedade numa insólita embriaguez, me pondo convulso e antecedente, me fazendo ver com espantosa lucidez as minhas pernas de um lado, os braços de outro, todas as minhas partes amputadas se procurando na antiga unidade do meu corpo (eu me reconstruía nessa busca! que salmoura nas minhas chagas, que ardência mais salubre nos meus transportes!), eu que estava certo, mais certo do que nunca, de que era para mim, e só para mim, que ela dançava (que reviravoltas o tempo dava! que osso, que espinho virulento, que glória para o meu corpo!), e eu, sentado onde estava sobre uma raiz exposta, num canto do bosque mais sombrio, eu deixei que o vento que corria entre as árvores me entrasse pela camisa e me inflasse o peito, e na minha fronte eu sentia a carícia livre dos meus cabelos, e nessa postura aparentemente descontraída fiquei imaginando de longe a pele fresca do seu rosto cheirando a alfazema, a boca um doce gomo, cheia de meiguice, mistério e veneno nos olhos de tâmara, e os meus olhares não se continham, eu desamarrei os sapatos, tirei as meias e com os pés brancos e limpos fui afastando as folhas secas e alcançando abaixo delas a camada de espesso húmus, e a minha vontade incontida era de cavar o chão com as próprias unhas e nessa cova me deitar à superfície e me cobrir inteiro de terra úmida, e eu nessa senda oculta mal percebi de início o que se passava, notei confusamente Pedro, sempre taciturno até ali, buscando agora por todos os lados com os olhos alucinados, descrevendo passos cegos entre o povo imantado daquele mercado — a flauta desvairava freneticamente, a serpente desvairava no próprio ventre, e eu de pé vi meu irmão mais tresloucado ainda ao descobrir o pai, disparando até ele, agarrando-lhe o braço, puxando-o num arranco, sacudindo-o pelos ombros, vociferando uma sombria revelação, semeando nas suas ouças uma semente insana, era a ferida de tão doída, era o grito, era sua dor que supurava (pobre irmão!), e, para cumprir-se a trama do seu concerto, o tempo, jogando com requinte, travou os ponteiros: correntes corruptas instalaram-se comodamente entre vários pontos, enxugando de passagem a atmosfera, desfolhando as nossas árvores, estorricando mais rasteiras o verde das campinas, tingindo de ferrugem nossas pedras protuberantes, reservando espaços prematuros para logo erguer, em majestosa solidão, as torres de muitos cáctus: a testa nobre de meu pai, ele próprio ainda úmido de vinho, brilhou um instante à luz morna do sol enquanto o rosto inteiro se cobriu de um branco súbito e tenebroso, e a partir daí todas as rédeas cederam, desencadeando-se o raio numa velocidade fatal: o alfanje estava ao alcance de sua mão, e, fendendo o grupo com a rajada de sua ira, meu pai atingiu com um só golpe a dançarina oriental (que vermelho mais pressuposto, que silêncio mais cavo, que frieza mais torpe nos meus olhos!), não teria a mesma gravidade se uma ovelha se inflamasse, ou se outro membro qualquer do rebanho caísse exasperado, mas era o próprio patriarca, ferido nos seus preceitos, que fora possuído de cólera divina (pobre pai!), era o guia, era a tábua solene, era a lei que se incendiava — essa matéria fibrosa, palpável, tão concreta, não era descarnada como eu pensava, tinha substância, corria nela um vinho tinto, era sanguínea, resinosa, reinava drasticamente as nossas dores (pobre família nossa, prisioneira de fantasmas tão consistentes!), e do silêncio fúnebre que desabara atrás daquele gesto, surgiu primeiro, como de um parto, um vagido primitivo
Pai!
e de
outra voz, um uivo cavernoso, cheio de
desespero
Pai!
e de todos os lados, de Rosa, de Zuleika e de Huda, o mesmo gemido desamparado
Pai!
eram balidos estrangulados
Pai! Pai!
onde a nossa segurança? onde a nossa proteção?
Pai!
e de Pedro, prosternado na terra
Pai!
e vi Lula, essa criança tão cedo transtornada, rolando no chão
Pai! Pai!
onde a união da família?
Pai!
e vi a mãe, perdida no seu juízo, arrancando punhados de cabelo, descobrindo grotescamente as coxas, expondo as cordas roxas das varizes, batendo a pedra do punho contra o peito
Iohána! Iohána! Iohána!
e foram inúteis todos os socorros, e recusando qualquer consolo, andando entre aqueles grupos comprimidos em murmúrio como se vagasse entre escombros, a mãe passou a carpir em sua própria língua, puxando um lamento milenar que corre ainda hoje a costa pobre do Mediterrâneo: tinha cal, tinha sal, tinha naquele verbo áspero a dor arenosa do deserto.
Raduan Nassar, in Lavoura Arcaica

O real e o ilusório no traço do italiano Marco Melgrati


O primeiro olhar pela janela de manhã

O primeiro olhar pela janela de manhã.
O velho livro redescoberto.
Rostos entusiasmados.
Neve, o câmbio das estações.
O jornal.
O cão.
A dialética.
Duchas, nadar.
Música antiga.
Sapatos cômodos.
Compreender.
Música nova.
Escrever, plantar.
Viajar, cantar.
Ser cordial.
Bertolt Brecht

domingo, 5 de abril de 2020

Da felicidade

A raiz do mal reside no fato de se insistir demasiadamente que no êxito da competição está a principal fonte da felicidade. Não nego que o sentimento do triunfo torna a vida mais agradável. Um pintor, por exemplo, que viveu obscuramente na juventude, decerto se sentirá feliz se o seu talento acabar por ser reconhecido. Não nego também que o dinheiro, até um certo limite, é capaz de aumentar a felicidade; para lá desse limite, julgo que não. O que eu afirmo é que o êxito só pode ser um dos vários elementos da felicidade e que é demasiado o preço pelo qual se obtém se a ele se sacrificam todos os outros.”
Bertrand Russell, in A conquista da felicidade

Areia Branca

O lotação ia de Copacabana para o centro, com lugares vazios, cada passageiro pensando em sua vida; é o gênero de transporte onde menos viceja a flor da comunicação humana. Quando, em Botafogo, ouviu-se a voz de um senhor lá atrás:
Olhe aqui, vou atender a você, mas não faça mais isso, ouviu? É muito feio pedir dinheiro aos outros. Na sua idade eu já dava duro e ajudava em casa.
E passou a nota ao rapazinho de quinze anos, se tanto, que a recolheu com humildade. O homem continuava, agora dirigindo-se a outro passageiro:
Está vendo? Fica essa garotada aí vivendo de expediente, encontra uns sujeitos como eu, que vão na conversa, e depois…
Isto é um país sem solução, comentou o vizinho. Não há escola profissional para os meninos, andam jogados ao deus-dará, enquanto o governo só faz besteira. Não vê o porta-aviões?
O rapazinho não parecia interessado na crítica ao governo, e mudou de lugar. Foi para junto de outro senhor e expôs-lhe o problema, baixinho.
Como é?
Areia Branca. Lá é minha terra. Tou querendo voltar, falta só 27 cruzeiros…
O homem puxou lentamente a carteira, lentamente extraiu uma nota, passou-a ao rapazinho.
Está vendo?, comentou o senhor do fundo. Aquele ali caiu também, quem é que não cai? Aposto que esse menino não vai pedir àquela senhora da esquerda. Mulher não vai na onda, só tem pena de aleijado e de velhinho.
De fato, o postulante deixou de lado a senhora e a moça que havia no carro, e foi contar a história mais adiante (com êxito) a outro representante do sexo frágil, isto é, masculino.
Oba! Já tenho vinte, daqui a pouco posso ir para Areia Branca.
E foi sentar-se ao lado de outro jovem, que, pelos cadernos de capa grossa na mão, se revelava colegial.
Quer me ajudar? Então inteire minha passagem para Areia Branca.
Não era pedido; era recomendação, em tom natural, tão natural que o estudante não discutiu. Sacou do bolso o macinho de notas miúdas — dinheiro do sorvete e da volta —, contou-as uma por uma e estendeu cinco.
Se você quer ajudar, inteira logo. Mais dois.
O outro passou-lhe os dois, que esperara inutilmente salvar da requisição, e à guisa de agradecimento o beneficiado esticou o dedo:
Espia só o mar: que estouro! Areia Branca é do outro lado.
E levantou-se mais uma vez, foi ao motorista, curvou-se, passou-lhe o braço nas costas, numa conversa particular e macia. O senhor de trás, moralista e observador implacável, ia-lhe acompanhando as evoluções:
Olha só o garoto. Aposto que cantou o motorista para uma carona.
O motorista — de queixo comprido, lembrando agradavelmente o velho Ademir — sem volver o rosto, foi dizendo:
Cai fora, coisinha.
Eu não disse? — comentou o de trás, satisfeito com a própria agudeza.
O lotação parou, o meninote desceu. Aí, intervém a senhora, até então muda e queda como penedo:
Garanto que agora ele vai tomar outro lotação para Copacabana e repetir o golpe.
Não duvido nada — secundou o moralista, meio desapontado porque não lhe havia ocorrido esse desenvolvimento.
O rapazinho atravessou a rua — era no contorno do Morro da Viúva — e parou à espera, na calçada.
Vejam só — continuava exclamando o homem. — Vem com essa conversa de Areia Branca, Areia Branca, um nome tão poético, lembra o Caymmi, a gente não resiste mesmo. Se ele dissesse que queria voltar para Areia Preta, essa não, eu pensava naquela praia do Espírito Santo, em reumatismo, não soltava um níquel. Mas Areia Branca, esse moleque é impossível!
Carlos Drummond de Andrade, in A bolsa & a vida

Selvagens à Procura de Lei - Intuição

As cores

Maria Alice abandonou o livro onde seus dedos longos liam uma história de amor. Em seu pequeno mundo de volumes, de cheiros, de sons, todas aquelas palavras eram a perpétua renovação dos mistérios em cujo seio sua imaginação se perdia. Esboçou um sorriso... Sabia estar só na casa que conhecia tão bem, em seus mínimos detalhes, casa grande de vários quartos e salas onde se movia livremente, as mãos olhando por ela, o passo calmo, firme e silencioso, casa cheia de ecos de um mundo não seu, mundo em que a imagem e a cor pareciam a nota mais viva das outras vidas de ilimitados horizontes.
Como seria cor e o que seria? Conhecia todas pelos nomes, dava com elas a cada passo nos seus livros, soavam aos seus ouvidos a todo momento, verdadeira constante de todas as palestras. Era, com certeza, a nota marcante de todas as coisas para aqueles cujos olhos viam, aqueles olhos que tantas vezes palpara com inveja calada e que se fechavam, quando os tocava, sensíveis como pássaros assustados, palpitantes de vida, sob seus dedos trêmulos, que diziam ser claros. Que seria o claro, afinal? Algo que aprendera, de há muito, ser igual ao branco. Branco, o mesmo que alvo, característica de todos os seus, marca dos amigos da casa, de todos os amigos, algo que os distinguia dos humildes serviçais da copa e da cozinha, às vezes das entregas do armazém. Conhecia o negro pela voz, o branco pela maneira de agir ou falar. Seria uma condição social? Seguramente. Nos primeiros tempos, perguntava. É preto? É branco? Raramente se enganava agora. Já sabia... Nas pessoas, sabia... Às vezes, pelo olfato, outras, pelo tom de voz, quase sempre pela condição. Embora algumas vezes — e aquilo a perturbava — encontrasse também a cor social mais nobre no trato das panelas e na limpeza da casa. Nas paredes, porém, nos objetos, já não sentia aquelas cores. E se ouvia geralmente um tom de desprezo ou de superioridade, quando se falava no negro das pessoas, que envolvia sempre a abstração deprimente da fealdade, o mesmo negro nos gatos, nos cavalos, nas estatuetas, vinha sempre conjugado à ideia de beleza, que ela sabia haver numa sonata de Beethoven, numa fuga de Bach, numa polonaise de Chopin, na voz de uma cantora, num gesto de ternura humana. Que seria a cor, detalhe que fugia aos seus dedos, escapava ao seu olfato conhecedor das almas e dos corpos, que o seu ouvido apurado não aprendia, e que era vermelho nas cerejas, nos morangos e em certas gelatinas, mas nada tinha em comum com o adocicado de outras frutas e se encontrava também nos vestidos, nos lábios (seriam os seus vermelhos também e convidariam ao beijo, como nos anúncios de rádio?), em certas cortinas, naquele cinzeiro áspero da mesinha do centro, em determinadas rosas (e havia brancas e amarelas), na pesada poltrona que ficava à direita e onde se afundava feliz, para ouvir novelas?
Que seria a cor, que definia as coisas e marcava os contrastes, e ora agradava, ora desagradava? E como seria o amarelo, para alguns padrão de mau gosto, mas que tantas vezes provocava entusiasmo nos comentários do mundo onde os olhos viam? E que seria ver? Era o sentido certamente que permitia evitar as pancadas, os tropeções, sair à rua sozinho, sem apoio de bengala, e aquela inquieta procura de mãos divinatórias que tantas vezes falhavam. Era o sentido que permitia encontrar o bonito, sem tocar, nos vestidos, nos corpos, nas feições, o bonito, variedade do belo e de outras palavras sempre ouvidas e empregadas e que bem compreendia, porque o podia sentir na voz e no caráter das pessoas, nas atitudes e nos gestos humanos, no Rêve d’Amour, que executava ao piano, e em muita coisa mais... Ver era saber que um quadro não constava apenas de uma superfície estranha, áspera e desigual, sem nenhum sentido para o seu mundo interior, por vezes bonita, ao seu tato, nas molduras, mas que para os outros figurava casas, ruas, objetos, frutas, peixes, panelas de cobre (tão gratas aos seus dedos), velhos mendigos, mulheres nuas e, em certos casos, mesmo para os outros, não dizia nada...
Claro que via muito pelos olhos dos outros. Sabia onde ficavam as coisas e seria capaz de descrevê-las nos menores detalhes. Conhecia-lhes até a cor... Se lhe pedissem o cinzeiro vermelho, iria buscá-lo sem receio. E sabia dizer, quando tocava em Ana Beatriz, se estava com o vestido bege ou com a blusa lilás. E de tal maneira a cor flutuava em seus lábios, nas palestras diárias, que para todos os familiares era como se a visse também. — Ponha hoje o vestido verde, Ana Beatriz...
Dizia aquilo um pouco para que não dessem conta da sua inferioridade, mais ainda para não inspirar compaixão. Porque a piedade alheia a cada passo a torturava e Maria Alice tinha pudor de seu estado. Seria mais feliz se pudesse estar sempre sozinha como agora, movendo-se como sombra muda pela casa, certa de não provocar exclamações repentinas de pena, quando se contundia ou tropeçava nas idas e vindas do cotidiano labor. — Machucou, meu bem?
Doía mais a pergunta. Certa vez a testa sangrava, diante da família assustada e do remorso de Jorge, que deixara um móvel fora do lugar, mas teimava em dizer que não fora nada.
E quando insistiam, com visita presente, para que tocasse piano, era sistemática a recusa.
Maria Alice é modesta, odeia exibições...
Outro era o motivo. Ela muita vez bem que ardia em desejos de se refugiar no mundo dos sons, para escapar aos mexericos de toda a gente... Mas como a remordia a admiração piedosa dos amigos... As palmas e os louvores vinham sempre cheios de pena e havia grosserias trágicas em certos entusiasmos, desde o espanto infantil por vê-la acertar direitinho com as teclas à exclamação maravilhada de alguns:
Muita gente que enxerga se orgulharia de tocar assim...
Nunca Maria Alice o dissera, mas seu coração tinha ternuras apenas para os que não a avisavam de haver uma cadeira na frente ou não a preveniam contra a posição do abajur.
Eu sei... eu já sei...
E como tinha os outros sentidos mais apurados, sempre se antecipava na descrição das pessoas e coisas. Sabia se era homem ou mulher o recém— chegado, antes que se pusesse a falar. Pela maneira de pisar, por mil e uma sutilezas. Sem que lhe dissessem, já sabia se era gordo ou magro, bonito ou feio. E antes que qualquer outro, lia-lhe o caráter e o temperamento. Àqueles pequeninos milagres de sua intuição e de sua capacidade de observar, todos estavam habituados em casa. Por isso lhe falavam sempre em termos de quem via, para quem via. E nesses termos lhes falava também.
O livro abandonado sobre a mesa, o pensamento de Maria Alice caminhava liberto. Recordava agora o largo tempo que passara no Instituto, onde a família julgara que lhe seria mais fácil aprender a ler. Detestava o ambiente de humildade, raramente de revolta, que lá encontrara. Vivendo em comunidade, sabia facilmente quais os que enxergavam, sem que nenhum destes se desse conta disso ou dissesse que enxergava. Pela simples linguagem, pela maneira de agir o sabia. E ali começara a odiar os dois mundos diferentes, O seu, de humildes e resignados, cônscios de sua inferioridade humana, o outro, o da piedade e da cor. — Me dá o cinzeiro vermelho, Maria Alice... Maria Alice dava.
Vou ao cinema com o vestido claro ou com aquele estampado, Maria Alice?
Maria Alice aconselhava. Ninguém conseguia entender como sabia ela indicar qual o sapato ou a bolsa que ia melhor com este ou aquele vestido. Quase sempre acertava. Assim como ninguém sabia que, com o tempo, Maria Alice fora identificando as cores com sentimentos e coisas. O branco era como barulho de água de torneira aberta. Cor-de-rosa se confundia com valsa. Verde, aprendera a identificá-lo com cheiro de árvore. Cinza, com maciez de veludo. Azul, com serenidade. Diziam que o céu era azul. Que seria o céu? Um lugar, com certeza. Tinha mil e uma ideias sobre o céu. Deus, anjos, glória divina, bem-aventurança, hinos e salmos. Hendel. Bach. Mas sabia haver um outro, material, sobre as pessoas e casas, feito de nuvens, que associava à ideia do veludo, mais própria do cinza, apesar de insistirem em que o céu era azul. Aquelas associações materiais, porém, não a satisfaziam. A cor realmente era o grande mistério. Sentira muitas vezes que o cinza pertencia a substâncias ásperas ou duras. Que o branco estava no mármore duro e na folha de papel, leve e flexível. E que o negro estava num cavalo que relinchava inquieto, com um sopro vigoroso de vida, e na suavidade e leveza de um vestido de baile, mas era ao mesmo tempo a cor do ódio e da negação, a marca inexplicável da inferioridade.
E agora Maria Alice voltava outra vez ao Instituto. E ao grande amigo que lá conhecera. Voltavam as longas horas em que falavam de Bach, de Beethoven, dos mistérios para eles tão claros da música eterna. Lembrava-se da ternura daquela voz, da beleza daquela voz. De como se adivinhavam entre dezenas de outros e suas mãos se encontravam. De como as palavras de amor tinham irrompido e suas bocas se encontrado... De como um dia seus pais haviam surgido inesperadamente no Instituto e a haviam levado à sala do diretor e se haviam queixado da falta de vigilância e moralidade no estabelecimento. E de como, no momento em que a retiravam e quando ela disse que pretendia se despedir de um amigo pelo qual tinha grande afeição e com quem se queria casar, o pai exclamara, horrorizado:
Você não tem juízo, criatura? Casar-se com um mulato? Nunca! Mulato era cor.
Estava longe aquele dia. Estava longe o Instituto, ao qual não saberia voltar, do qual nunca mais tivera notícia, e do qual somente restara o privilégio de caminhar sozinha pelo reino dos livros, tão parecido com a vida dos outros, tão cheio de cores... Um rumor familiar ouviu-se à porta. Era a volta do cinema. Ana Beatriz ia contar-lhe o filme todo, com certeza. O rumor — passos e vozes — encheu a casa.
Tudo azul? — perguntou Ana Beatriz, entrando na sala. — Tudo azul — respondeu Maria Alice.
Orígenes Lessa, in Os cem melhores contos brasileiros do século

O genial Quino

 

Raízes

Ehrenburg, que lia e traduzia meus versos, implicava:
Raiz demais, demasiadas raízes em teus versos. Por que tantas?
É verdade. As terras da fronteira meteram suas raízes em minha poesia e nunca puderam sair dela. Minha vida é uma longa peregrinação que sempre dá voltas, que sempre retorna ao bosque austral, à selva perdida.
Ali as grandes árvores foram tombadas às vezes por setecentos anos de vida poderosa ou desenraizadas pela turbulência ou queimadas pela neve ou destruídas pelo incêndio. Senti cair na profundidade do bosque as árvores titânicas: o carvalho que cai com um som de catástrofe surda, como se golpeasse com uma mão colossal as portas da terra pedindo sepultura.
Mas as raízes ficam a descoberto, entregues ao tempo inimigo, à umidade, aos líquens, à aniquilação sucessiva.
Nada mais belo que essas grandes mãos abertas, feridas e queimadas, que atravessando-se em uma senda do bosque nos dizem o segredo da árvore enterrada, o enigma que sustentava a folhagem, os músculos profundos da dominação vegetal. Trágicas e hirsutas, mostram-nos uma nova beleza. São esculturas da profundidade, obras-primas e secretas da natureza.
Certa vez, andando com Rafael Alberti entre cascatas, matagais e bosques, cerca de Osorno, ele me fazia observar que cada ramagem se diferenciava da outra, que as folhas pareciam competir na infinita variedade do estilo.
Parecem escolhidas por um paisagista botânico para um parque estupendo – dizia.
Anos depois, em Roma, Rafael recordava aquele passeio e a opulência natural de nossos bosques.
Assim era – e não é assim. Penso com melancolia em minhas andanças de menino e de adolescente entre Boroa e Carahue ou até Toltén nas elevações da costa. Quantos descobrimentos! O garbo da caneleira e sua fragrância depois da chuva, os líquens cuja barba de inverno fica suspensa dos rostos inumeráveis do bosque!
Eu empurrava as folhas mortas, tratando de encontrar o relâmpago de alguns coleópteros: os cárabos dourados vestidos de furta-cor para dançar um minúsculo balé sob as raízes.
Ou mais tarde, quando atravessei a cavalo a cordilheira até o lado argentino, sob a abóbada verde das árvores gigantescas, surgiu um obstáculo: a raiz de uma delas, mais alta do que nossas montarias, cortando-nos o passo. Trabalho de força e de facas do mato tornaram possível a travessia. Aquelas eram como catedrais tombadas: a magnitude descoberta que nos impunha sua grandeza.
Pablo Neruda, in Confesso que vivi

sábado, 4 de abril de 2020

Queijos

Será inútil escrever um tratado sobre queijos e torná-lo leitura obrigatória nas escolas de um país onde nunca se viu um queijo. A palavra “queijo” só tem sentido para quem já comeu queijo. A compreensão exige um antecedente de experiência. É preciso primeiro ter a experiência do queijo para depois entender um texto que fale de queijos. Só de brincadeira, vamos imaginar o que passaria pela sua cabeça ao ler um texto em que o autor diz: “O rato roeu o queijo do rei de Roma”, sem que você jamais tivesse visto um queijo! Sua cabeça iria se esforçar por compreender. Mas, como não tem experiência alguma de queijos, ela iria procurar no estoque de experiências que a memória guarda das coisas que um rei deve ter e que poderiam ser roídas por um rato: sapatos, chapéus, livros, bolos, cuecas, camisas, cintos, meias... A única coisa que não sairia do estoque de experiências que a memória guarda seria um queijo. Daí a afirmação de Nietzsche de que, ao ler, os leitores tiram do seu estoque de experiências... as suas próprias experiências. Então estamos condenados a nunca sair das bolhas em que vivemos? Podemos sair desde que usemos uma chave chamada “a arte da desconfiança”... Ao ler sobre os queijos que nunca comeu, você poderia, roído pela curiosidade, fazer uma pesquisa à procura do país dos queijos. Você iria até lá, comeria um queijo e diria: “Agora sei o que é um queijo...”. É preciso, antes de mais nada, desconfiar do nosso estoque de experiências, colocar as nossas certezas de lado. Aqueles que imaginam que o mundo é do tamanho de suas experiências ficam autoritários. Frequentemente inquisidores. É preciso rezar diariamente a reza que Karl Popper nos ensinou: “Nós não temos a verdade. Nós só podemos dar palpites...”.
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

O maior computador do mundo


O magnífico monumento inglês chamado Stonehenge ergue-se solitário sobre a planície de Salisbury, ladeado por um estacionamento e uma loja de presentes para turistas. É famoso por suas grandes pedras e curiosa arquitetura: um círculo de pedras maciças e bem talhadas.
Em 1964, um astrônomo inglês, Gerald S. Hawkins, publicou seu tratado - hoje famoso - sobre Stonehenge como computador astronômico. Seu artigo, intitulado “Stonehenge: um computador neolítico”, foi publicado no número 202 da prestigiada revista inglesa Nature. Em 1965, foi editado o famoso livro de Hawkins, Stonehenge decoded.
Hawkins abalou o mundo arqueológico ao afirmar que o sítio megalítico não era apenas um templo circular erguido por alguns reis egocêntricos, mas um sofisticado computador para observação celeste.
Ele inicia seu artigo da Nature com uma citação de Diodoro sobre a Grã-Bretanha pré-histórica encontrada no livro de Diodoro, History of the Ancient World, escrito por volta de 50 a.C.:
Vista desta ilha, a Lua parece estar a uma pequena distância da Terra, mostrando proeminências como as da Terra, que são visíveis a olho nu. Diz-se que o deus [Lua?] visita a ilha a cada dezenove anos, período no qual se completa o retorno das estrelas ao mesmo lugar no céu. Há na ilha, ainda, tanto um magnífico local sagrado dedicado a Apolo [Sol] como um templo notável [...] e os sacerdotes são chamados boraedae, e a sucessão ao cargo permanece sempre nas mesmas famílias.
A teoria básica de Hawkins é que “Stonehenge era um observatório; os imparciais cálculos matemáticos de probabilidade e a esfera celeste estão do meu lado”. A proposição inicial era de que os alinhamentos entre pares de pedras e outros tópicos, calculados em computador a partir de plantas em escala reduzida, comparavam suas direções com os azimutes do nascer e do pôr do sol e da lua, nos solstícios e equinócios, calculados para o ano 1.500 a.C. Hawkins afirma ter encontrado 32 alinhamentos “significativos”.
A segunda proposição é que os 56 buracos de Aubrey eram usados como “computador” (ou seja, marcas de totalização) para aprevisão de movimentos da lua e dos eclipses, para os quais ele alega ter estabelecido um “ciclo até hoje desconhecido de 56 anos com irregularidade de 15%; e que o nascer da lua cheia mais próximo do solstício de inverno sobre a Pedra do Calcanhar sempre predizia com sucesso um eclipse. É interessante notar que não mais do que metade desses eclipses era visível de Stonehenge”. Diz Hawkins em Stonehenge decoded:
O número 56 é de grande importância para Stonehenge por ser o número de buracos de Aubrey dispostos à volta do círculo externo. Vistos do centro, esses buracos situam-se em espaçamentos iguais de azimute ao redor do horizonte, e, portanto, não podem marcar o Sol, a Lua ou qualquer outro objeto celeste. Isso é confirmado pelas evidências dos arqueólogos; os buracos abrigaram fogueiras e cremações de corpos, mas nunca pedras. Bem, se os responsáveis por Stonehenge desejavam dividir o círculo, por que não fizeram simplesmente 64 buracos valendo-se da bissecção de segmentos do círculo - 32,16, 8, 4 e 2 -? Acho que os buracos de Aubrey proporcionavam um sistema de contagem de anos, um buraco para cada ano, para ajudar a prever os movimentos da Lua. Talvez se fizessem cremações em um buraco de Aubrey específico no decorrer do ano, ou talvez aquele buraco fosse assinalado com uma pedra móvel.
Stonehenge pode ser usado como uma máquina de cálculo digital [...] A pedra no buraco 56 prevê o ano em que um eclipse do Sol ou da Lua irá ocorrer no período de 15 dias por volta do meio do inverno - o mês da Lua de inverno. Ela também irá prever eclipses para a Lua de verão.
Os críticos de Hawkins, as principais mentes acadêmicas de sua época, debruçaram-se imediatamente sobre suas descobertas e puseram-se a criticá-las. Em 1966, um artigo intitulado “Decodificador equivocado?”, de R. J. Atkinson, astrônomo inglês, foi publicado na Nature (volume 210, 1966), e criticava Hawkins por muitas de suas declarações relativas à natureza de Stonehenge como computador astronômico.
Disse Atkinson acerca de Stonhenge decoded, de Hawkins:
É tendencioso, arrogante, descuidado e pouco convincente, e pouco nos ajuda a compreender melhor Stonehenge.
Os cinco capítulos iniciais, sobre o pano de fundo legendário e arqueológico, foram compilados sem senso crítico, e contêm vários erros bizarros e interpretações estranhas. O resto do livro é uma tentativa mal-sucedida de emprestar corpo à alegação do autor - que “Stonehenge era um observatório; os imparciais cálculos matemáticos de probabilidade e a esfera celeste estão do meu lado”. De suas duas alegações principais, a primeira diz respeito a alinhamentos entre pares de pedras e outros tópicos, calculados com um computador a partir de plantas baixas em escala reduzida, pouco adequados a esse propósito.
A crítica mordaz de Atkinson em relação a Hawkins é reveladora, pois mostra como os acadêmicos já estabelecidos podem ser resistentes a novas ideias. A relutância de Atkinson em acreditar que Stonehenge era um tipo de computador astronômico provavelmente se deve à crença popular de que o homem antigo simplesmente não vivia um estágio civilizacional que lhe permitisse dedicar-se a temas intelectuais superiores.
Mas esses críticos não são mais ouvidos, e parece não haver dúvidas, mesmo por parte dos arqueólogos mais conservadores, de que Stonehenge é um tipo de templo astronômico. Diversas verdades astronômicas simples podem ser discernidas em Stonehenge. Por exemplo: há 29,53 dias entre as luas cheias, e há 29,5 monólitos no círculo exterior de Sarsen.
Dezenove das imensas “pedras azuis” encontram-se na ferradura interior, com diversas explicações e usos possíveis. Há um período de quase dezenove anos entre os pontos extremos do nascer e do pôr da lua. Além disso, se uma lua cheia ocorre em um dia específico do ano, digamos no solstício de verão, faltarão dezenove anos até outra lua cheia ocorrer no mesmo dia do ano. Finalmente, há dezenove anos de eclipses (ou 223 luas cheias) entre eclipses similares, tais como o eclipse que ocorre quando o Sol, a Lua e a Terra retornam às mesmas posições relativas. As posições dos outros planetas variam em ciclos ainda mais longos.
Sugere-se ainda que os cinco grandes arcos de trílitos representam os cinco planetas visíveis a olho nu: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.
O escritor inglês especializado em antiguidades, John Ivimy, faz uma espantosa sugestão no final de seu popular livro sobre Stonehenge, The Aphinx and the megaliths. Ele passa a maior parte do livro tentando provar a tese de que Stonehenge foi construído por um punhado de aventureiros egípcios que foram enviados às ilhas Britânicas para estabelecer uma série de sítios astronômicos em latitudes mais elevadas, a fim de poderem prever com precisão eclipses solares, algo que os observatórios egípcios não podiam fazer, pois estavam próximos demais do equador.
Ivimy apresenta evidências como a construção megalítica, os cortes em “L” nos gigantescos blocos de pedra, o óbvio propósito astronômico e, acima de tudo, o uso de um sistema numérico baseado no número seis, e não no dez, como usamos hoje. Ivimy mostra que os egípcios usavam um sistema numérico baseado no número seis, e que o mesmo sistema foi empregado em Stonehenge. Posteriormente, sugere que os mórmons usam um sistema numérico com base no número seis para construírem seus templos, especialmente o grande templo de Salt Lake City.
No fim, a tese de Ivimy é bastante controvertida: ele acredita que Brigham Young e os primeiros povoadores mórmons de Utah são a reencarnação do mesmo grupo de pioneiros egípcios enviados à Inglaterra para construir Stonehenge. Diz Ivimy:
Sempre se fez referência ao grande domo de madeira, feito totalmente sem metal, que cobre o Tabernáculo Mórmon. Será que sua construção foi inspirada em uma pálida recordação do modo como as mesmas pessoas, em uma encarnação vivida alguns séculos antes, usaram um domo para cobrir aquele que depois se tornou o Templo de Apolo Hiperbóreo?
É fascinante a ideia de que os egípcios teriam ido à Inglaterra para construir um observatório megalítico com o intuito de prever eclipses lunares com precisão. Há registros de que, em 2.000 a.C., aproximadamente, um imperador chinês mandou executar seus dois principais astrônomos por deixarem de prever um eclipse solar. Um dos proponentes da teoria dos astronautas da Antiguidade, Raymond Drake, pergunta: “Será que hoje algum soberano ligaria para isso?” Egípcios, chineses, maias e muitas outras culturas antigas tinham obsessão por eclipses e por outros fenômenos planetários e solares. Acredita-se que associavam catástrofes, inclusive o afundamento da Atlântida, a movimentos planetários e eclipses. Talvez os antigos egípcios, maias e outros povos imaginassem poder prever o próximo cataclismo acompanhando os eclipses lunares e as posições dos planetas em relação à Terra.
Heródoto escreveu sobre cataclismos e astronomia no antigo Egito em seu Livro Dois, capítulo 142:
[...] Até agora os egípcios e seus sacerdotes contaram a história. E mostraram que já existiram 341 gerações de homens desde o primeiro rei até este último, o sacerdote de Hephaestus [...] Bem, em todo esse tempo, 11.340 anos, disseram que o Sol se afastou de seu caminho correto em quatro ocasiões; e nasceu onde hoje se põe, e se pôs onde hoje nasce; mas nada no Egito foi alterado com isso, nem no que concerne ao rio ou aos frutos da terra, nem no que concerne às doenças ou à morte.
Se Heródoto merece crédito, então a Terra deslocou-se ao redor de seu eixo, o que hoje chamamos de deslocamento polar. Com isso, o sol parece nascer em uma direção diferente da normal. Os deslocamentos polares são acompanhados de uma ampla gama de mudanças na terra e de severos fenômenos climáticos. Portanto, se os egípcios estavam familiarizados com esse tipo de ocorrência, e não tinham sido muito afetados pelos cataclismos, é possível que tenham se esforçado para aprimorar seus conhecimentos astronômicos, incluindo-se aí a colonização da Inglaterra e a construção de Stonehenge.
Com efeito, as magistrais mentes megalíticas colonizaram praticamente todo o planeta, do Egito à Inglaterra, Américas, Ilha de Páscoa e Tonga. Há megálitos em lugares remotos como a Manchúria, as Filipinas, a Mongólia e as colinas Assam, no nordeste da índia. Houve época em que essas mentes magistrais estiveram por toda parte. Mas que tecnologia esses mestres construtores utilizavam?
David Hatcher Childres, in A Incrível Tecnologia dos Antigos

Medo da libertação


Paysage aux Oiseaux Jaunes, de Paul Klee

Se eu me demorar demais olhando Paysage aux Oiseaux Jaunes (Paisagem com Pássaros Amarelos, de Klee), nunca mais poderei voltar atrás. Coragem e covardia são um jogo que se joga a cada instante. Assusta a visão talvez irremediável e que talvez seja a da liberdade. O hábito que temos de olhar através das grades da prisão, o conforto que traz segurar com as duas mãos as barras frias de ferro. A covardia nos mata. Pois há aqueles para os quais a prisão é a segurança, as barras um apoio para as mãos. Então reconheço que conheço poucos homens livres. Olho de novo a paisagem e de novo reconheço que covardia e liberdade estiveram em jogo. A burguesia total cai ao se olhar Paysage aux Oiseaux Jaunes. Minha coragem, inteiramente possível, me amedronta. Começo até a pensar que entre loucos há os que não são loucos. E que a possibilidade, a que é verdadeiramente, não é para ser explicada a um burguês quadrado. E à medida que a pessoa quiser explicar se enreda em palavras, poderá perder a coragem, estará perdendo a liberdade. Les Oiseaux Jaunes não pede sequer que se o entenda: esse grau é ainda mais liberdade: não ter medo de não ser compreendido. Olhando a extrema beleza dos pássaros amarelos calculo o que seria se eu perdesse totalmente o medo. O conforto da prisão burguesa tantas vezes me bate no rosto. E antes de aprender a ser livre, tudo eu aguentava — só para não ser livre.
Clarice Lispector, in Crônicas para jovens: de escrita e vida

O homem que as meninas idolatravam

O rei, viva o nosso rei. Rei, rei, rei.
O Rei, lá de cima, olhava. Abria os braços e elas gritavam. As meninas. Que tinham vindo de todos os pontos da cidade. Pobres e ricas. Tinham deixado suas casas, os empregos, as escolas. A cidade estava parada por causa do Rei. E ele sabia disso. Por isso sorria e abria os braços.
Viva o Rei, viva o Rei.
Mandara avisar a todos. Subira à sacada. A rua e os prédios estavam cheios. Era como um grande auditório. Havia brigas, palmas, gritos, choros, cantos, lamentos, uivos, histerismo, desmaios. Cantavam suas músicas. Havia conjuntos, orquestras, bandas. E as pajens, bem embaixo. Na porta do prédio. Fiéis. Via suas roupas coloridas, os cabelos compridos, ouvia os guizos das pulseiras. As pulseiras marca Rei. Via outras pajens, no meio da multidão, comprimidas, sem conseguirem furar o bloco de gente.
Para onde olhasse, o Rei via povo. Acenavam com os lenços. Choravam. Bobagem. Pra que chorar? Vou fazer isto porque amo vocês. Amo demais.
As mãos lá embaixo erguiam as imagens. Ele = bloquinhos de gesso branco. Seu rosto nas mãos das meninas, das mães, dos homens.
Rei, rei, abençoa, abençoa aqui.
Aqui.
Não aqui.
Aqui, rei.
Eu te amo, eu te amo.
Ele ergueu as mãos, abençoou. As pajens sacudiram os guizos e o som suave encheu a rua.
Os helicópteros desciam. Jogavam redes. Não me pegam. Os homens nos prédios em frente tentam me laçar. Eu rio deles. Não se laça um Rei. Não, não vou contar para vocês. Eu amo todo mundo. Mas ninguém me odeia. Eu me sufoco por ser tão amado.
Atirou para o ar um maço de fotos. Elas tinham o fundo prateado. O Rei se atirou também. Tudo flutuou no ar. O papel prateado brilhava ao sol. As pajens do Rei gritaram. Estavam alucinadas. O Rei gritou: Viva as minhas fãs. Eu vivo por vocês. Amo estas pajens.
E as pajens, firmes, à frente, enquanto o Rei descia. Rápido para elas; lento, uma eternidade para ele. O Rei, quando pequeno, na aula de educação física, saltava de cinco metros na lona. O professor mandava. Demorava muito para cair daquela altura.
Via os caminhões vermelhos furando lentamente a multidão. Mal se percebia se estavam andando. Fazia horas que os caminhões vermelhos dos bombeiros tinham aparecido no fim da rua. Não adiantava mais. Tiravam fotografias do prédio em frente, lá debaixo, de cada teto, de todos os edifícios. Lá em cima, tentavam arrombar. Fiz meu apartamento fortaleza. Minha porta de ferro onde nunca ninguém podia entrar.
A hora. Está chegando a hora. As pajens me esperam. Sempre me esperam, fiéis. Firmes nos auditórios, na compra dos discos, nas caravanas, nas estreias dos filmes. Com seus uniforminhos, ganhos no quarto de amor, que a companhia de decoração montou. Especial, cheio de bossas.
As faixas. Como tinham demorado a chegar. Mas quando chegaram, vieram aos montes. As faixas e fotografias e cartazes e as imagens de gesso. Tudo erguido para o alto.
As pajens começaram a aplaudir. Som das palmas e dos guizos das pulseiras Rei. E o Rei vinha voando. Parecia que vinha do céu, tão bonito ele vinha. Agora, as fotografias flutuavam acima dele, como uma nuvem prateada para proteger o Rei. Lindo, lindo, tudo que o Rei faz para nós é lindo, gritavam as pajens. Viva o Rei, o nosso Rei.
Não era publicidade, não era publicidade. A imprensa gritava.
Claro, ele não precisava mais de publicidade.
Foi amor, disse a velha, beijando a estatuetinha branca.
O Rei descia. Eu sempre quis voar, a vida inteira eu quis voar.
As mães choravam, alguns homens sorriam, os fotógrafos fotografavam, os laçadores guardavam os laços, o helicóptero subia, o carro de bombeiros desistia. Todos ficaram olhando para cima.
Para ele, a descida durou horas. Para a multidão, foi um raio. Caiu no meio das pajens. As pajens se atiraram. Beijaram o corpo. E começaram a arranhar a pulseira, o colar, o relógio, os anéis, o cinto, os botões da camisa, a botinha, as meias, a camisa rasgada em mil pedaços, a calça, a cueca.
E todo mundo quis. E todo mundo avançou. E todo mundo correu. E quando uns correram, os outros correram atrás, e a multidão inteira começou a correr. As pajens cantavam.
Viva nosso Rei.
Agora está no céu.
Os anjos estão contentes.
Nosso Rei canta para eles.
Os anjos.
Todos os anjos.
Louvem ao Rei para sempre.
Amém.
Cantavam, erguiam as faixas, mostravam os troféus. E corriam.
E ao correr pisavam o corpo do Rei, estendido na calçada. Do alto, ainda caíam as fotografias com fundo prateado.
Agora, estava escurecendo. E todos corriam pela rua, no meio dos prédios cinzentos, pisavam e repisavam o corpo do Rei. Que foi se transformando numa pasta. Cada vez mais fina.
Uma película apenas sobre a calçada. Pisavam sobre a película e ela se desmanchava. Mais e mais. Até que se dissolveu. Ficou apenas a mancha escura na calçada. Os sapatos pisavam a mancha, ainda úmida. E a mancha ia embora, aos poucos nos sapatos, sandálias, tênis, pés da multidão que corria para um ponto qualquer da cidade. Lá da frente, muito à frente, vinha o canto das pajens.
O Rei está com Deus.
Deus ouve o Rei cantar.
Agora, a calçada estava limpa, a rua vazia, nas árvores havia fotografias enroscadas nos galhos. O povo, longe, corria.
Sem saber para onde.
Ignácio de Loyola Brandão, in Cadeiras Proibidas

Sétimo sapato: a ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros

Todos os dias recebemos estranhas visitas em nossa casa. Entram por uma caixa mágica chamada televisão. Criam uma relação de virtual familiaridade. Aos poucos passamos a ser nós quem acredita estar vivendo fora, dançando nos braços de Janet Jackson. O que os vídeos e toda a sub-indústria televisiva nos vêm dizer não é apenas “comprem”. Há todo um outro convite que é este: “sejam como nós”. Este apelo à imitação cai como ouro sobre azul: a vergonha de sermos quem somos é um trampolim para vestirmos esta outra máscara.
O resultado é que a nossa produção cultural se está convertendo na reprodução macaqueada da cultura dos outros. O futuro da nossa música poderá ser uma espécie de hip hop tropical, o destino da nossa culinária poderá ser o McDonald’s.
Falamos da erosão dos solos, da desflorestação, mas a erosão das nossas culturas é ainda mais preocupante. A secundarização das línguas moçambicanas (incluindo da língua portuguesa) e a ideia de que só temos identidade naquilo que é folclórico são modos de nos soprarem ao ouvido a seguinte mensagem: só somos modernos se formos americanos.
A nossa sociedade tem uma história similar à de um indivíduo. Ambos os percursos são marcados por rituais de transição: o nascimento, o fim da adolescência, o casamento, o fim da vida.
Olho a nossa sociedade urbana e pergunto-me: será que queremos realmente ser diferentes? Porque vejo que esses rituais de passagem se reproduzem como fotocópia fiel daquilo que sempre conheci na sociedade colonial. Estamos dançando a valsa, com vestidos compridos, num baile de finalistas que é decalcado daquele do meu tempo. Estamos copiando as cerimônias de final do curso a partir de modelos europeus da Inglaterra medieval. Casamo-nos de véus e grinaldas e atiramos para longe da avenida Julius Nyerere tudo aquilo que possa sugerir uma cerimônia mais enraizada na terra e na tradição moçambicana.
Mia Couto, in Os sete sapatos sujos (Oração de Sapiência no ISCTEM, Maputo, 2006).

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Um Café Lá Em Casa | João Gaspar e Nelson Faria

A Fortuna cega

No golfo de uma privança, nunca o perigo é mais certo, que quando a fortuna é mais próspera. De duas maneiras cega a fortuna, porque cega como luz e cega como foice; com uma mão abraça, e com outra corta; com a que abraça introduz a cegueira, e com a que corta mostra o desengano. Consiste a prudência em que se temam os resplendores da luz, para que se não cegue aos rigores do golpe. Não faz mal à embarcação o penedo que sobressai por cima da água; porque para evitar o perigo sabe o piloto desviar a nau, por ver manifesto o perigo. Nos penedos que as águas escondem, aí naufraga sempre o baixel; porque cobriu com capa de cristal uma ruína de penhasco, e os que, navegando pelo mar, caminham com os olhos nas ondas, facilmente se esvaem, e quanto maior é na cabeça o esvaecimento, vem a ser mais no coração a fraqueza. Não sabe o que navega quanto tem vencido de distância, se do mesmo mar não tira os olhos, e só fazendo balizas na terra sabe o quanto no mar caminham. É um golfo grande o da privança, e a maior prudência consiste em que se divirtam de alguma vez os olhos, e que façam balizas em terra firme, que é a verdade.
Padre Antônio Vieira, in As sete propriedades da alma

Garoto de ouro


O essencial está na música. A gente lê a biografia ou autobiografia pelo trivial. Miles Davis escrevendo sobre o seu caso com a Juliette Greco: “Eu saía com Sartre e com Juliette e nós sentávamos nos cafés de calçada e bebíamos vinho e comíamos e conversávamos. Juliette me pediu para ficar. Até o Sartre disse: Por que você e Juliette não se casam?”. Ajuda se Jean-Paul Sartre faz parte do seu trivial. Chet Baker não tem nada parecido com Jean-Paul Sartre, Juliette Greco e cafés de calçada em Paris nas suas Memórias Perdidas. Ao contrário de Miles (cuja autobiografia, imagino, não saiu em português porque o tradutor não saberia o que fazer com tanto motherfuckers, ou saiu?), Chet também não conta muito do trivial que mais interessa a quem gosta de jazz: detalhes de gravações, histórias de outros músicos, preferências, influências. Tem-se, isto sim, muito detalhe sobre a sua luta diária por drogas, remédios que substituem drogas, como conseguir drogas em diferentes cidades europeias. E nada sobre o que levou a usá-las. Nem um chavão psicológico: infância infeliz, fragilidade emocional, dificuldade de relacionamento, frustração profissional. Chet foi uma criança amada e sem problemas, fez sucesso popular e crítico desde cedo, tinha cara de artista de cinema e também fazia sucesso com as mulheres. Começou com drogas, supõe-se, só porque elas eram parte da cultura do jazz. Durante um tempo, antes de se popularizar, maconha e heroína eram coisas de músico nos Estados Unidos, uma musa do barato correspondente à “musa sedenta” que deu título a um livro sobre os escritores americanos e a bebida. Chet não explica nem se desculpa pela trivialização das drogas na sua vida, mas elas eram claramente sua preocupação principal. Ele não conta nem como elas afetavam sua música. Para o leitor, é uma trivialidade apenas deprimente.
Miles, na sua autobiografia, conta que quando encontrou Chet pela primeira vez este se mostrou embaraçado por ter sido escolhido pela revista Downbeat como o melhor trompetista de 1953, já que os dois sabiam que o melhor de todos era Dizzy Gillespie. Repetia-se, um pouco, com eles o que tinha acontecido anos antes, quando Louis Armstrong era o grande trompetista do jazz mas o mais festejado pelo público — pelo menos por um curto espaço de tempo até sua morte precoce — era Bix Beiderbecke, bonito como Chet, outro motherfucker branco tirando o lugar de um negro melhor do que ele. Segundo Miles, Chet o copiava. Não é exatamente verdade. Chet tocava sem vibrato, como Miles, mas não dava para confundir os dois. O fraseado era diferente. Chet era um grande improvisador, um dos melhores da história do jazz, mas lhe faltava o que Miles tinha. Pegada, está aí. Musicalmente, não quer dizer nada, mas é a palavra exata.
Chet venceu o concurso da Downbeat pela primeira vez no ano da sua primeira gravação, com o famoso quarteto sem piano de Gerry Mulligan. Pequena trivialidade pessoal: foi o primeiro disco de “jazz moderno” que comprei, nos Estados Unidos. Pacific Jazz, 10 polegadas. Ainda me lembro do deslumbramento. Não era só a novidade da ausência de piano ou qualquer outro instrumento harmônico, com os dois sopros (Gerry no sax barítono, também uma novidade como instrumento solista) equilibrando-se em cima da linha do baixo. Era todo aquele clima ao mesmo tempo cool e lírico, a pretensão intelectual de solos em contraponto mais para música erudita do que para dixieland, uma revelação de possibilidades sonoras insuspeitadas para alguém que, como eu, ouvia Armstrong, Benny Goodman, Coleman Hawkins e nem sabia que existia o Charlie Parker. A origem do que veio a se chamar West Coast Jazz, jazz da costa ocidental, da Califórnia — do qual o quarteto de Gerry Mulligan foi uma das primeiras manifestações — era uma gravação feita por Miles e um noneto, arranjos de Gil Evans e Mulligan entre outros, no fim dos anos 40. Um refinamento do be-bop, com arranjos mais pensados e uma maior preocupação com matizes e combinações de som, baseados no trabalho de Gil Evans para a orquestra de Claude Thornhill. Mas o próprio Miles não foi para a Califórnia com o estilo que lançou, ficou no leste e ajudou a lançar o hard bop, a contrapartida negra e com pegada ao West Coast Jazz predominantemente branco e cerebral. Em 1953, quando Miles e Chet se encontraram, Miles estava no pior do seu período obscuro, com problemas de saúde pela dependência da heroína, e do qual saiu espetacularmente com uma apresentação triunfal no Festival de Jazz de Newport do ano seguinte. Daí em diante seria a maior e mais influente estrela do jazz, lançando estilos novos até o fim. Chet estava no auge, era o recém-descoberto garoto de ouro do jazz californiano, mas já era um dependente irreversível e em pouco tempo começaria a sua rotina de prisões, internamentos, exílios temporários, voltas catastróficas e novos exílios, até morrer em 1988, com a cara de quem já tinha morrido algumas vezes.
Chet fala um pouco de Charlie Parker, que lhe deu o primeiro trabalho, escolhendo-o para trompetista da sua banda quando se apresentou na Califórnia, e tentou protegê-lo da droga, apesar de ser um viciado lendário. E fala mais de Gerry Mulligan, da sua vinda de carro de Nova York, da formação do quarteto inesquecível (Carson Smith era o baixista, Chico Hamilton, o baterista), dos seus galhos com mulheres e drogas. Mas fala bem mais de uma certa lady Isabella MacDougal Frankau, uma mulher de 75 anos, cabelos brancos e porte de executiva, que apesar do nome e da aparência de grande personagem, só entra na história porque é quem fornece receitas de cocaína e heroína para Chet, dentro do programa de tratamento gradual de viciados na Inglaterra. O essencial está na música.
Luís Fernando Veríssimo, in Banquete com os deuses