sábado, 21 de julho de 2018

Linus, em desapego


Quer saber como estou?

Estou ótima, me sinto ótima depois da separação. Quando a gente se separa é que percebe quanto deixamos de viver, oito anos aturando meu marido e a mãe dele, os almoços de domingo eram encontros sagrados na casa da minha ex-sogra, há homens que deviam viver com a mãe, eu não aguentava mais ouvir as mesmas conversas, os mesmos elogios para ele, o quinto filho, o caçula. Não há esposa que consiga ouvir essa frase mil vezes:
Preparei o nhoque só para o meu filho, sei que ele adora meu nhoque e minha torta de maçã.”
Como se os outros filhos não existissem e, o que é pior, como se eu não existisse. Então ficava calada, olhando as hortênsias murcharem no vaso, querendo esganar o papagaio chatíssimo e falastrão, tinha vontade de torcer o pescoço dele, depená-lo vivo, um bicho ridículo que usava um colete com o escudo do Palmeiras; às vezes olhava de relance para o rosto de cada filho desprezado pela mãe, só um deles não era resignado, era tenso, talvez angustiado, e podia ser irônico quando ouvia as mesmas histórias de sucesso que minha ex-sogra contava, olhando para o filho querido:
Como ele sabe aplicar na bolsa, como ele é esperto e ousado.”
Muito esperto e ousado: perdeu um dinheirão no ano passado, não recuperou nem a metade, mas isso ele não revelou à mãe dele, inventava desculpas esfarrapadas para justificar o desfalque, todo mundo falava da crise, mas o esperto, o ousado dava de ombros e ria. Quando a bolsa despencou, ele mal comia no almoço aos domingos, a mãe lhe oferecia seus quitutes e ele:
Estou sem fome, mamãe…”
Ou:
Tomei café tarde, mamãe.”
E ela, a mamãe, me olhava como se eu fosse uma doidivana, o irmão tenso e irônico me olhava com desejo, nem respeitava a presença do meu ex-marido, na despedida aos domingos esse cunhado beijava o canto dos meus lábios, apertava meu braço, me encarava como um lobo. Quanta insinuação, quanta torpeza… Mas o martírio dominical não parava por aí, porque antes das cinco da tarde, quando chegávamos à nossa casa, ele ligava a televisão para ver o Palmeiras jogar. Quando esse time perdia, eu vibrava calada, me deliciava com a derrota do Verdão. Eu murmurava: “Tomara que o São Paulo ganhe”; dizia baixinho: “Vamos lá, Coringão”. Ou pensava: “Dá aquele show, Neymar, mostra que o Santos é o time do Rei”. Mas quando esses times ganhavam do Palmeiras, eu tinha que aturar um mau humor dos diabos, uma solidão de astronauta, suportar uma indiferença cruel, nada de beijos nem carícias, ele nem sabia que isso horroriza qualquer mulher, minha ex-sogra devia ter dito ao filho:
Nunca seja indiferente à sua mulher, Diogo.”
Ou:
Você não deve deixar sua mulher jogada às traças, Dioguinho.”
Minha ex-sogra jamais diria isso ao filho, ela criou um herói só para ela, o herói dela, dava palpite até na roupa e no penteado do filho. Certa vez ela disse:
Corta o cabelo no meu cabeleireiro, Diogo.”
Claro que ele foi ao cabeleireiro da mamãe. Quase chorei quando o vi de corte novo, parecia um travesti, parecia uma louca mais louca do que eu mesma, meus cunhados sorriram, envergonhados, mas a mãe achou o filho lindo:
Como você está charmoso, Diogo. Vem aqui, me dá um cheiro, filho.”
Meu ex-sogro não dizia nada, parecia um urso triste, um urso balofo e melancólico, com olhar desolado. Que homem bom, bondoso e molenga até demais, não gosto de homem assim, sem nenhuma presença, nenhum gesto de autoridade, o papagaio era mais vivo que o meu ex-sogro. Ainda bem que me livrei de todos eles, agora moro sozinha, aos domingos saio com minhas amigas, vamos ao teatro ou ao cinema, e quando elas convidam uns amigos, a gente se diverte.
A separação me fez bem, não tenho medo de ficar só, agora faço minhas coisas e penso na minha vida, ouço a música que eu quero, posso ler no horário do jogo, pouco importa se o Palmeiras perde, empata ou ganha. Quer dizer, quando perde, penso que o idiota está sofrendo.
Às vezes observo um casal e pergunto a mim mesma: será que esses dois são felizes? Será que uma mulher fazia a mesma pergunta quando me observava ao lado do meu ex-marido?
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

A ideia da virtude

O terceiro impulso psicológico contido na religião é aquele que levou à concepção da virtude. Estou ciente de que existem muitos livres-pensadores que tratam essa concepção com muito respeito e defendem que deve ser preservada, apesar da decadência da religião dogmática. Não posso concordar com eles nesse ponto. A análise psicológica da ideia de virtude me parece mostrar que ela está enraizada em paixões indesejáveis e não deve ser reforçada pelo imprimátur da razão. A virtude e a desvirtude devem ser tratadas em conjunto; é impossível dar ênfase a uma sem dar ênfase também à outra. Então, o que é a “desvirtude” na prática? É, na prática, um comportamento que o rebanho não gosta. Ao chamar isso de desvirtude, e ao providenciar um sistema elaborado de ética que gira em torno dessa concepção, o rebanho se justifica ao infligir castigos aos objetos de sua própria aversão, ao mesmo tempo em que, visto o rebanho ser virtuoso por definição, isso serve para reforçar sua própria autoestima, no exato momento em que libera seu impulso para a crueldade. Essa é a psicologia do linchamento e dos outros meios pelos quais os criminosos são castigados. A essência da concepção da virtude, portanto, é fornecer uma válvula de escape para o sadismo ao disfarçar a crueldade de justiça.
Mas, alguém dirá, o relato que o senhor faz da virtude é completamente inaplicável aos profetas hebreus, que, afinal de contas, de acordo com sua própria exposição, inventaram essa ideia. Existe verdade nisso: a virtude na boca dos profetas hebreus significava aquilo que era aprovado por eles e por Jeová. Encontra-se a mesma atitude expressa nos Atos dos Apóstolos, em que os apóstolos começavam um pronunciamento com as seguintes palavras: “Porque pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (Atos 15:28). Esse tipo de certeza individual em relação aos gostos e opiniões de Deus não pode, no entanto, ser transformado na base de qualquer instituição. Essa sempre foi a dificuldade com que o protestantismo teve de lidar: um novo profeta poderia defender que sua revelação era mais autêntica do que aquela de seus predecessores, e nada havia, na perspectiva geral do protestantismo, para mostrar que essa alegação era inválida. Em consequência, o protestantismo se dividiu em seitas inumeráveis, que enfraqueceram umas às outras – e não há razão para supor que daqui a cem anos o catolicismo será a única representação efetiva da fé cristã. Na Igreja Católica, inspiração como a de que os profetas gozavam tem o seu lugar; mas é fato reconhecido que fenômenos que parecem advir de genuína inspiração divina podem ter sido inspirados pelo demônio, e é dever da Igreja fazer essa diferenciação, assim como é dever do connoisseur de arte diferenciar um Leonardo legítimo de uma falsificação. Dessa maneira, a revelação se torna, ao mesmo tempo, institucionalizada. A virtude é aquilo que a Igreja aprova, e a desvirtude é o que ela desaprova. Assim, a parte efetiva da concepção da virtude é uma justificativa para a antipatia do rebanho.
Pareceria, portanto, que os três impulsos humanos que a religião contém são o medo, a vaidade e o ódio. O propósito da religião, pode-se dizer, é dar um ar de respeitabilidade a essas paixões, desde que elas se deem em canais específicos. Como essas paixões compreendem, de maneira geral, toda a desgraça humana, a religião é então uma força do mal, já que permite aos homens que se refestelem sem amarras nessas paixões, quando, se não fosse elas sancionadas pela Igreja, poderiam, pelo menos até certo grau, controlá-las.
Imagino que nesse ponto haja uma objeção, provavelmente não da parte dos crentes mais ortodoxos, mas que ainda assim vale a pena ser examinada. O ódio e o medo, pode-se dizer, são características essencialmente humanas; a humanidade sempre os sentiu e sempre os sentirá. O melhor que se pode fazer com esses sentimentos, pode-se afirmar, é direcioná-los a canais específicos em que sejam menos danosos do que seriam em outros canais. Um teólogo cristão pode afirmar que a maneira como a Igreja os trata é análoga ao tratamento que dispensa ao impulso sexual, que ela despreza. Ela tenta transformar a concupiscência em algo inócuo ao confiná-la às amarras do matrimônio. Então, pode-se dizer, se a humanidade precisa inevitavelmente sentir ódio, então é melhor direcionar esse ódio contra aqueles que realmente são prejudiciais, e é isso precisamente o que a Igreja faz por meio de sua concepção de virtude.
Há duas respostas a essa afirmação: uma relativamente superficial e outra que vai ao cerne da questão. A resposta superficial é que a concepção de virtude da Igreja não é a melhor possível; a resposta fundamental é que o ódio e o medo podem, com nosso atual conhecimento psicológico e nossa atual técnica industrial, ser eliminados completamente da vida humana.
Avaliemos inicialmente o primeiro ponto. A concepção de virtude da Igreja não é desejável socialmente sob vários aspectos: primeiro e sobretudo, por sua depreciação da inteligência e da ciência. Esse defeito foi herdado dos Evangelhos. Cristo nos diz para ser como crianças pequenas, mas crianças pequenas não entendem cálculo diferencial nem os princípios do câmbio, nem os métodos modernos de combate às doenças. Adquirir tal conhecimento não é parte da nossa função, de acordo com a Igreja. A Igreja já não defende que o conhecimento em si seja pecaminoso, apesar de o ter feito em épocas mais prósperas; mas a aquisição de conhecimento, apesar de não ser pecaminosa, é perigosa, já que pode levar ao orgulho do intelecto e, por conseguinte, ao questionamento do dogma cristão. Tomemos, por exemplo, dois homens, um dos quais erradicou a febre amarela de alguma região extensa dos trópicos, mas que, no decorrer de seu trabalho, manteve relações ocasionais com mulheres com as quais não era casado, ao passo que o outro foi sempre preguiçoso e folgado, produzindo um filho por ano até sua mulher morrer de exaustão e cuidando tão pouco dos filhos que metade deles morreu de causas que poderiam ter sido prevenidas, mas que nunca teve qualquer relação sexual ilícita. Todo bom cristão é obrigado a dizer que o segundo desses dois homens é mais virtuoso do que o primeiro. Tal atitude é, obviamente, supersticiosa e totalmente contrária à razão. E, no entanto, algo assim tão absurdo será inevitável desde que o ato de evitar o pecado seja considerado mais importante do que o mérito positivo e que a importância do conhecimento como forma de tornar a vida mais útil não seja reconhecida.
A segunda objeção, mais fundamental, ao uso do medo e do ódio, tal como é praticado pela Igreja, é que essas emoções agora podem ser quase totalmente eliminadas da natureza humana por meio de reformas educacionais, econômicas e políticas. As reformas educacionais devem ser a base, já que os homens que sentem ódio e medo também irão admirar essas emoções e desejarão perpetuá-las, apesar de essa admiração e esse desejo provavelmente serem inconscientes, como ocorre no caso do cristão comum. A educação planejada para eliminar o medo não é, de maneira alguma, difícil de criar. Basta tratar uma criança com gentileza, colocá-la em um ambiente em que a iniciativa seja possível sem resultados desastrosos, evitar que entre em contato com adultos que sintam terrores irracionais, sejam estes do escuro, de ratos ou da revolução social. A criança não deve ser sujeitada a castigos severos, ameaças ou críticas graves e excessivas. Livrar uma criança do ódio é algo um tanto mais complicado. Situações que possam suscitar inveja devem ser evitadas com muito cuidado, por meio da justiça escrupulosa e exata entre as crianças. A criança deve sentir-se objeto de afeto caloroso de ao menos parte dos adultos com quem tem relação, e não deve ser afastada de suas atividades e curiosidades naturais, a menos que nisso haja risco de vida ou saúde. Não deve existir, principalmente, qualquer tabu a respeito do conhecimento sexual, ou a respeito de assuntos que as pessoas convencionais avaliam como impróprios. Se esses preceitos simples forem observados desde o início, a criança será destemida e afável.
No entanto, ao entrar na vida adulta, um jovem assim educado ver-se-á mergulhado em um mundo cheio de injustiça, crueldade e tristeza evitáveis. A injustiça, a crueldade e a tristeza que existem no mundo moderno são herança do passado, e sua fonte primordial é econômica, já que a competição de vida ou morte pelos meios de sobrevivência no passado era inevitável. Na nossa época, não. Com a técnica industrial que temos hoje, poderemos, se assim desejarmos, fornecer subsistência tolerável para todos. Poderíamos também garantir que a população mundial ficasse estacionária, se não fôssemos impedidos pela influência política das igrejas, que preferem a guerra, a pestilência e a fome, aos métodos anticoncepcionais. O conhecimento por meio do qual a felicidade universal pode ser garantida existe; o principal obstáculo à sua utilização para tal fim são os ensinamentos religiosos. A religião impede que nossos filhos tenham uma educação racional; a religião nos impede de exterminar as causas fundamentais da guerra; a religião nos impede de ensinar a ética da cooperação científica, em lugar das antigas doutrinas aterradoras a respeito do pecado e do castigo. É possível que a humanidade esteja no limiar de uma idade de ouro, mas, se estiver, primeiro será necessário matar o dragão que vigia a porta – e esse dragão é a religião.
Bertrand Russell, in Por que não sou cristão

Um Café Lá em Casa com Romero Lubambo e Nelson Faria

Pecado original

Por que nós nos queixamos do pecado original? Não foi por sua causa que fomos expulsos do paraíso, mas por causa da árvore da vida.
Franz Kafka, in Aforismos reunidos

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Grandes negócios

Nós os poetas sempre pensamos ter grandes ideias para ficarmos ricos, que somos gênios para projetar negócios, ainda que gênios incompreendidos. Lembro que, impelido por uma dessas combinações florescentes, vendi a meu editor no Chile, em 1924, a propriedade de meu livro Crepusculario, não para uma edição mas para a eternidade. Acreditei que ia enriquecer com essa venda e assinei o contrato no tabelião. O sujeito me pagou quinhentos pesos, que eram pouco menos que cinco dólares naquela época. Rojas Giménez, Alvaro Hinojosa, Homero Arce me esperavam à porta do cartório para dar-nos um grande banquete em honra deste êxito comercial. Com efeito comemos no melhor restaurante da época, La Bahía, com vinhos suntuosos, charutos e licores. Previamente tínhamos mandado lustrar os sapatos que luziam como espelho. Os que tiveram proveito com o negócio: o restaurante, quatro engraxates e um editor. A prosperidade não chegou até o poeta.
Quem dizia ter olho de águia para todos os negócios era Alvaro Hinojosa. Impressionava-nos com seus planos grandiosos que, ao serem postos em prática, fariam chover dinheiro sobre nossas cabeças. Para nós, boêmios desastrados, seu domínio do inglês, seu cigarro de tabaco refinado, seus anos universitários em Nova Iorque, garantiam o pragmatismo de seu grande cérebro comercial.
Certo dia me convidou para conversar muito secretamente, para me fazer partícipe e sócio de uma tentativa formidável de conquistar nosso enriquecimento imediato. Eu seria seu sócio em cinquenta por cento, bastando trazer uns poucos pesos que recebesse de algum lugar. Ele colocaria o restante. Naquele dia nos sentimos capitalistas sem Deus nem lei, decididos a tudo.
- De que mercadoria se trata? - perguntei com timidez ao incompreendido rei das finanças.
Alvaro fechou os olhos, soltou uma baforada de fumaça que subiu em pequenos círculos e finalmente respondeu com voz sigilosa:
- Couros!
- Couros? - repeti assombrado.
- De leão-marinho. Para ser mais preciso, de leão-marinho peludo.
Não me atrevi a averiguar mais detalhes. Ignorava que as focas ou leões-marinhos pudessem ser peludos. Quando os contemplei sobre uma rocha, nas praias do sul, vi neles uma pele reluzente que brilhava ao sol, sem perceber indício algum de pêlo em suas barrigas preguiçosas.
Tratei de receber o que me deviam com a velocidade do raio, sem pagar o aluguel nem a conta do alfaiate nem o recibo do sapateiro e coloquei minha participação monetária nas mãos de meu sócio financista.
Fomos ver os couros. Alvaro os havia comprado de uma tia sua, sulista, que era dona de inúmeras ilhas improdutivas. Sobre as ilhotas de penhascos desolados os leões-marinhos costumavam praticar suas cerimônias eróticas. Agora estavam diante de meus olhos, em grandes fardos de couros amarelos, perfurados pelas carabinas dos empregados da tia maligna. Subiam até o teto os pacotes de couro no porão alugado por Alvaro para deslumbrar os presumíveis compradores.
- E que faremos com essa enormidade, com essa montanha de couros? - perguntei-lhe timidamente.
- Todo o mundo precisa de couros desse tipo. Verás.
E saímos do porão, Alvaro despedindo chispas de energia, eu cabisbaixo e calado.
Alvaro ia de um lado para o outro com uma pasta, feita de uma de nossas peles autênticas de “leão-marinho peludo”, pasta que recheou de papéis em branco para dar-lhe aparência comercial. Nossos últimos centavos foram embora em anúncios nos jornais. Bastava que um magnata interessado e compreensivo os lesse e seríamos ricos. Alvaro, muito atilado, queria mandar fazer meia dúzia de ternos de casimira inglesa. Eu, bem mais modesto, me contentaria em adquirir um bom pincel de barbear, já que o atual estava a caminho de uma calvície inaceitável.
Por fim apareceu o comprador: um seleiro de corpo robusto, de estatura baixa, com olhos impávidos, muito sóbrio de palavras e com certo alarde de franqueza que a meu ver se aproximava da grosseria. Alvaro recebeu-o com displicência protetora e lhe marcou, três dias depois, uma hora apropriada para mostrar nossa mercadoria fabulosa.
No correr desses três dias, Alvaro adquiriu esplêndidos cigarros ingleses e alguns charutos cubanos “Romeu e Julieta” que colocou de maneira ostensiva no bolso externo de sua jaqueta quando chegou a hora de esperar o interessado. No chão havíamos espalhado as peles que estavam em melhor estado.
O homem chegou pontualmente à entrevista. Não tirou o chapéu e nos saudou apenas com um grunhido. Olhou desdenhosamente e com rapidez as peles estendidas no chão. Depois passou os olhos astutos e inflexíveis pelas estantes atulhadas. Levantou uma mão gorducha e uma unha duvidosa para indicar um embrulho de peles, um daqueles que estavam mais acima e mais afastados,c justo onde eu tinha metido as peles piores.
Alvaro aproveitou o momento culminante para oferecer-lhe um de seus autênticos havanas. O comerciantezinho pegou-o rapidamente, deu uma dentada na ponta e o encaixou entre as mandíbulas. Mas continuou imperturbável, indicando o pacote que desejava inspecionar.
Não havia remédio senão mostrar-lhe. Meu sócio subiu na escada e, sorrindo como um condenado à morte, baixou o grande envoltório. O comprador, interrompendo-se para tirar mais e mais fumaça do havana de Alvaro, revistou uma por uma as peles do pacote.
O homem levantava uma pele, esfregava, dobrava e a rejeitava e em seguida passava a outra, que por sua vez era arranhada, raspada, cheirada e posta de lado. Quando finalmente terminou sua inspeção, passou de novo o olhar de abutre pelas estantes cheias com nossas peles de leão-marinho peludo e finalmente deteve os olhos sobre meu sócio e expert em finanças. O momento era emocionante.
Disse então com voz firme e seca uma frase imortal - pelo menos para nós:
- Meus senhores, não quero nada com esses couros - e foi-se para sempre, com o chapéu colocado como tinha entrado, fumando o soberbo charuto de Alvaro, sem despedir-se, matador implacável de todos os nossos sonhos milionários.
Pablo Neruda, in Confesso que vivi

hieróglifo

Todas as coisas estão aí
para nos iluminar.
Discípulo pronto,
o mestre aparece,
imediatamente,
sob a forma de bicho,
sob a sombra de hino,
sob o vulgo de gente
como num livro, devagar.
Mestre presente,
a gente costuma hesitar,
nem se sabe se o bicho sente
o que sente a gente
quando para de pensar.
Paulo Leminski

A propósito da neve úmida

A versatilidade é verdadeiramente espantosa, e sabe Deus em que ela pode se transformar, como se desenvolverá nas circunstâncias futuras e o que promete a seguir. E o material até que não é ruim! Não falo isso por alguma patriotice ridícula. Aliás, tenho certeza de que passou novamente pela cabeça dos senhores que estou gracejando. Mas quem sabe? Talvez seja o contrário, talvez os senhores acreditem que eu realmente penso assim. De qualquer maneira, vou considerar uma honra para mim e um particular prazer ambas as opiniões dos senhores. Quanto ao meu parêntese, peço que me perdoem.
Com meus colegas, naturalmente eu não tinha amizade e em pouco tempo mandava-os às favas e, em consequência de minha inexperiência e pouca idade, até parava de cumprimentá-los, rompendo com eles. Isso, aliás, aconteceu comigo apenas uma vez; em geral, eu estava sempre só.
O que eu mais fazia em casa era ler. Queria que as impressões exteriores sufocassem tudo o que constantemente se acumulava dentro de mim. E a leitura era para mim a única fonte possível de impressões exteriores. A leitura, é claro, me ajudava muito: emocionava, deliciava e torturava. Mas de vez em quando ela me entediava terrivelmente. Apesar de tudo, sentia desejo de me movimentar e, de repente, mergulhava numa libertinagem, ou melhor, numa libertinagenzinha, escura, subterrânea, nojenta. Minhas paixõezinhas eram agudas, ardentes, devido à minha permanente e doentia irritabilidade. Aconteciam-me acessos histéricos, com lágrimas e convulsões. Tirando a leitura, não havia aonde ir, ou seja, não havia naquela época nada que eu pudesse respeitar e que me atraísse no meio em que vivia. Além disso, a angústia crescia dentro de mim. Surgia uma sede histérica de contradições, de contrastes, e entregava-me então à devassidão. Não foi absolutamente para me justificar que eu me pus agora a falar tanto sobre isso... Aliás, não! Menti! Justificar-me era precisamente o que eu queria. O que estou fazendo, senhores, é um pequeno lembrete para mim mesmo. Não quero mentir. Dei minha palavra.
Eu saía para a libertinagem à noite, secretamente, com medo e com sensação de sujeira, sentindo uma vergonha que não me abandonava nem nos instantes mais repugnantes, como uma maldição. Já então eu trazia na alma o meu subsolo. Sentia um medo terrível de ser visto e reconhecido, pois andava por vários lugares bastante sórdidos.
Uma noite, ao passar diante de uma pequena taverna, vi pela janela iluminada uns senhores brigando perto do bilhar, batendo-se com os tacos, e depois vi um deles ser atirado pela janela. Se fosse em outra hora, teria sentido asco, mas estava num momento tal, que comecei a invejar o senhor que foi atirado pela janela, a tal ponto que entrei na taverna, na sala de bilhar. “Quem sabe não me envolvo numa briga e também me atiram pela janela?”.
Não estava bêbado, mas os senhores querem o quê? A angústia pode levar a esse grau de histeria! Mas não deu em nada. Resultou que eu não era capaz nem de pular pela janela, e fui embora sem ter brigado.
Mal eu havia entrado, um oficial mexeu com meus brios.
Eu estava parado junto ao bilhar e, sem notar, obstruí o caminho por onde ele precisava passar; ele me pegou pelos ombros e, sem dizer nada, sem me prevenir ou dar uma explicação, moveu-me para outro lugar e passou, como se nem me notasse. Eu o perdoaria até mesmo se ele tivesse me esmurrado, mas não pude perdoá-lo por me haver movido do lugar sem nem ao menos se dar conta disso.
Só Deus sabe o que eu não daria naquele momento por uma briga de verdade, mais correta, mais decente, mais, por assim dizer, literária! Trataram-me como se eu fosse uma mosca. Aquele oficial era alto; quanto a mim, sou baixinho e franzino. A briga, aliás, estava a meu favor: bastava protestar e seria atirado pela janela. Mas mudei de ideia e preferi... sumir dali, morrendo de raiva.
Saí da taverna abalado e perturbado, indo direto para casa. E no dia seguinte, continuei a minha devassidãozinha de maneira ainda mais tímida, oprimida e triste do que antes, as lágrimas quase brotando nos meus olhos, mas mesmo assim continuei. Não pensem, aliás, que foi por covardia que eu recuei diante do oficial: no fundo, nunca fui covarde, embora na prática tenha constantemente me portado como tal, mas – não riam ainda, para isso há uma explicação; tenho explicação para tudo, estejam certos disso.
Ah, se esse oficial fosse daqueles que concordavam em se bater em duelo! Mas não, este era precisamente daquele tipo de senhores (que pena! desaparecidos faz tempo) que preferiam se valer de tacos de bilhar ou que, como o tenente Pirogov, de Gógol, recorriam às autoridades. Não se batiam em duelo e considerariam uma coisa indecorosa duelar com nossos irmãos civis – e, de maneira geral, achavam que o duelo era coisa impensável, coisa dos livres-pensadores e dos franceses. Mas eles próprios humilhavam bastante o próximo, especialmente se eles mesmos eram de estatura elevada.
Naquele dia eu procedi como um covarde, mas não por covardia, e sim por uma vaidade descomunal. Tive medo não da altura do meu ofensor, nem da dor da possível surra ou de ser atirado pela janela; estou certo de que eu teria suficiente coragem física; mas faltou-me coragem moral. Tive medo de que os presentes – desde o rapaz insolente que marcava os pontos até o mais insignificante barnabezinho espinhento e malcheiroso que por ali rondava com seu colarinho ensebado – não compreendessem e zombassem quando eu começasse a protestar, expressando-me em linguagem literária. Porque sobre o ponto de honra, isto é, não sobre a honra, mas sobre o ponto de honra (point d’honneur), até hoje aqui não se pode falar de outra forma que não seja a literária. Ninguém se refere a esse “ponto de honra” com a linguagem comum. Eu tinha plena convicção (vejam o senso da realidade, apesar de todo o romantismo!) de que todos eles simplesmente morreriam de rir e de que o oficial não se contentaria em me bater, ou seja, não bateria de maneira inofensiva, e fatalmente me daria joelhadas, obrigando-me a correr ao redor da mesa de bilhar, e só depois faria o favor de me jogar pela janela. É evidente que essa história miserável não poderia terminar simplesmente assim em se tratando de mim. Encontrei depois muitas vezes o tal oficial na rua e o estudei bem. Só não fiquei sabendo se ele me reconhecia. Creio que não; alguns indícios me levam a essa conclusão. Quanto a mim, olhava para ele com raiva e ódio, e isso durou... vários anos, senhores! Minha raiva até mesmo se fortalecia e aumentava com o passar dos anos. Comecei por investigar às escondidas esse oficial. Isso era difícil para mim, pois não conhecia ninguém. Mas, uma vez, alguém na rua o chamou pelo sobrenome, no momento em que eu o seguia a uma certa distância, como se estivesse atado a ele, e fiquei sabendo então seu sobrenome. Em outro dia, eu o segui até seu prédio e por dez copeques consegui que o zelador me dissesse qual o seu andar, se morava sozinho ou com alguém, etc. – em suma, tudo que se pode extrair de um zelador. Certa manhã, embora eu nunca me dedicasse à literatura, veio-me de repente a ideia de descrever esse oficial na forma de uma denúncia, de maneira caricatural, e de fazer disso uma novela. Foi com deleite que escrevi essa novela. Fiz acusações e até calúnias; a princípio, modifiquei levemente o sobrenome, de uma maneira que ainda pudesse ser reconhecido; porém, depois de uma reflexão mais madura, troquei-o por outro e mandei a novela para os Anais da Pátria. Mas não estavam na moda ainda as denúncias, e eles não publicaram minha novela. Fiquei muito chateado com isso. Às vezes a raiva me sufocava. Finalmente, resolvi desafiar meu adversário para um duelo. Compus uma carta belíssima e atraente, suplicando-lhe que se desculpasse comigo; caso ele se recusasse, eu insinuava com bastante firmeza a ideia de um duelo. A carta foi escrita de tal maneira que, se o oficial entendesse ao menos um pouquinho do “belo e sublime”, viria correndo lançar-se ao meu pescoço e oferecer-me sua amizade. E como isso seria bom! Nós nos daríamos tão bem! Tão bem! Ele me defenderia com a importância da sua posição; eu o enobreceria com minha cultura e... bem... e com ideias também, e muitas outras coisas poderiam acontecer! Imaginem os senhores que já se haviam passado dois anos desde que ele me ofendera, e meu desafio era o mais horrível anacronismo, apesar de toda a astúcia da minha carta em explicar e disfarçar o anacronismo. Mas, graças a Deus (até hoje agradeço ao Altíssimo com lágrimas nos olhos), não enviei a minha carta. Um frio me percorre o corpo quando penso no que poderia ter acontecido se a tivesse enviado. E, de repente... de repente eu me vinguei da maneira mais simples e mais genial! Subitamente veio-me à cabeça uma ideia luminosa! Às vezes, nos feriados, eu costumava ir para a Avenida Névski depois das três horas e ficava passeando no lado ensolarado. Melhor dizendo, eu não fazia propriamente um passeio, e sim sofria inúmeras torturas, humilhações e derrames de bile, mas talvez fosse disso que eu precisasse. Da maneira mais abominável, eu serpenteava como uma enguia entre os transeuntes, cedendo constantemente a passagem ora a generais, ora a oficiais da cavalaria ou dos hussardos, ora às senhoras; nesses instantes, eu sentia dores agudas no coração e um calor nas costas quando me lembrava da miséria de minha vestimenta e da insignificância e vulgaridade de minha serpenteante figurinha. Aquilo era um verdadeiro suplício, uma humilhação constante e insuportável, proveniente da ideia, que se tornava uma sensação insistente e concreta, de que eu era uma mosca no meio de toda aquela gente, uma reles mosca desnecessária – mais inteligente, mais culta e mais nobre do que todos eles, evidentemente –, porém, uma mosca que cede sempre diante de todos, que todos humilham e ofendem. Para que eu buscava tal sofrimento, por que ia à Avenida Névski? Não sei dizer, mas alguma coisa simplesmente me arrastava para lá a cada oportunidade.
Dostoievski, in Notas do subsolo

Calvin


Gide no armário

Minha empregada entra no escritório para espanar as estantes. É uma mulher silenciosa e digna, que parece invisível. De repente, dou com ela a me observar pelas costas. “O senhor olha para o computador como se estivesse em uma janela”, me diz. “Parece que vê alguma coisa muito distante. O que é?”
Em uma pergunta, ela capturou a grande agonia dos que escrevem. Que ideias atormentam os escritores enquanto eles trabalham? Antes de sair do armário com a obra pronta, no longo período que precede a exposição do texto à luz do dia, que visões os atormentam?
Que aconteceria se, nos intervalos da batalha, os escritores anotassem em um caderno as experiência da luta? Em Os moedeiros falsos, um dos mais importantes romances de André Gide, o personagem-escritor, Édouard, registra em um caderno a crítica precoce do romance que está a escrever – chamado, justamente, Os moedeiros falsos.
Escreve Édouard: “Imaginem o interesse que teria para nós semelhante caderno mantido por Dickens, ou Balzac. (...) A história da obra, de sua gestação!”. Ele mesmo se arrisca a responder: “Seria arrebatador... mais interessante que a própria obra”.
Pois, enquanto escrevia Os moedeiros falsos, o próprio André Gide seguiu o procedimento sugerido por seu personagem. O resultado, Diário dos Moedeiros falsos (Estação Liberdade, tradução de Mário Laranjeira), confirma a impressão de Édouard. Ou será o contrário?
O lançamento da edição brasileira do Diário faz parte de um pacote quádruplo, que inclui, além de Os moedeiros falsos, outros dois importantes livros de Gide: os romances Os porões do Vaticano, de 1948, e o inédito O pombo-torcaz, então inédito.
Na parte final de seu diário, Gide relata um sonho que teve com Marcel Proust. Está na biblioteca de Proust, que o convidou para um chá. Proust só lhe aparece de costas, escondido pelas grandes orelhas da bergère. Surpreso, Gide nota que um barbante lhe prende as mãos. O longo fio atravessa a sala e se liga a dois livros nas prateleiras da biblioteca.
Não se controla: puxa o barbante com delicadeza mas determinação, até que dois livros despencam no chão. O barulho da queda interrompe uma história que Proust lhe contava. Não chegamos a saber de que história se trata, sabemos apenas que foi interrompida.
Proust se retira. Um mordomo entra na sala para recolocar os livros no lugar. Gide confessa: “Sabia que puxando o cordão eu os derrubaria, e o puxei assim mesmo. Foi mais forte do que eu”.
Não é por acaso que André Gide registra o sonho em seu Diário de trabalho. Na aparência, ele está deslocado, fora do lugar. Na verdade, carrega em seu coração aquilo de que, desde a primeira linha (o primeiro barbante de palavras), Gide tenta falar. Enquanto escreve, o escritor está sempre a manejar fios que não controla e a seguir instruções cuja origem lhe escapam.
Os fatos só interessam a um escritor se ele puder manipulá-los – como um fantoche com seus fios. Outra história ilustra bem isso. Em uma manhã do ano de 1921, Gide observa a vitrine de uma livraria de Paris. Vê um garoto que, atrapalhado, furta um livro. O menino aproveita um momento em que o vigia lhe dá as costas (do mesmo modo que Proust dá as costas a Gide) e enfia o livro no bolso. Ato contínuo, percebe que um estranho, à distância, o observa.
Com medo de ser denunciado, o garoto recoloca o livro em seu lugar. Comovido, Gide se aproxima e lhe pergunta que livro tentava roubar. “Um guia da Argélia. Mas custa caro demais.” O escritor lhe dá alguns francos para que o compre.
O garoto exibe seu livro, feliz. Para espanto de Gide, é uma edição de 1871. De cinquenta anos antes! “É velho à beça. Não lhe servirá”, o escritor comenta. O rapaz se surpreende: “Oh! Sim; tem os mapas. A mim o que mais me diverte é a geografia”. Não tentou roubar um guia de viagem. No interior do velho guia, guarda-se uma chave para o sonho, isto é, uma obra de ficção! Livros são máquinas de sonhar.
O episódio me remete a uma observação que André Gide anota durante uma temporada de descanso em Dudelange: “Às voltas com nuvens por horas a fio. Este esforço de projetar para fora uma criação interior, de objetivar o sujeito (antes de sujeitar o objeto) é extenuante”. A anotação resume, de modo cru, as ideias que movem o Diário. O mais difícil não é a escrita, mas o trabalho interior que a precede e do qual ela não passa de um resto. Uma sobra (fezes?), que mal e porcamente registra aquilo que se perseguiu.
O escritor, diz Gide, navega dias a fio sem nada à vista. Escrever é atravessar essa “vertigem do espaço vazio”. Espaço disforme e sem sentido em que ele se engolfa. Durante a travessia, um escritor (qualquer escritor, eu mesmo) se parece com o Gide que, na biblioteca de Proust, em vez de ouvir as palavras do mestre ou de se deliciar com suas lições, prefere – imitando uma criança travessa – derrubar dois livros no chão.
Foi o que minha empregada percebeu quando me viu olhando “através” da tela do computador. Eu não olhava as palavras. Não revia o texto ou assinalava correções. Não pensava no estilo ou na sintaxe – nenhuma dessas questões técnicas que, em geral, supomos que atormentam os escritores. Eu experimentava minha pequena vertigem.
Buscava fios (barbantes) que segurassem o sujeito disperso e inquieto que sou. Até que, finalmente, comecei a escrever. O resultado é esse pequeno texto que agora vocês leem. Não é grande coisa, mas é isso.
Escritores são navegadores de cabotagem que acreditam estar perdidos”, diz Gide. São homens, diz ainda, que decidem “tomar deliberadamente o partido de sua estranheza”. Minha empregada soube ver isso em mim. Não julgou que eu estivesse blefando ou fazendo pose, tampouco que estivesse louco. Carinhosamente, soube ver minha pequena solidão.
Por isso escritores estão quase sempre sozinhos. Não é fácil forçar as portas de seu armário interior. Estão sempre afastados, inclusive, da parca sabedoria que, a duras penas, acumularam. Distante, inclusive, de si mesmos. Anota Gide: “Nunca aproveitar o impulso já adquirido – tal é a regra do meu jogo”.
José Castello, in Sábados inquietos

quinta-feira, 19 de julho de 2018

O homem, o mais feroz e vil dos animais

Quando se extinguirá esta sociedade corrompida por todas as devassidões, devassidões de espírito, de corpo e de alma? Quando morrer esse vampiro mentiroso e hipócrita a que se chama civilização, haverá sem dúvida alegria sobre a terra; abandonar-se-á o manto real, o cetro, os diamantes, o palácio em ruínas, a cidade a desmoronar-se, para se ir ao encontro da égua e da loba.
Depois de ter passado a vida nos palácios e gasto os pés nas lajes das grandes cidades, o homem irá morrer nos bosques. A terra estará ressequida pelos incêndios que a devastaram e coberta pela poeira dos combates; o sopro da desolação que passou sobre os homens terá passado sobre ela e só dará frutos amargos e rosas com espinhos, e as raças extinguir-se-ão no berço, como as plantas fustigadas pelos ventos, que morrem antes de ter florido.
Porque tudo tem de acabar e a terra, de tanto ser pisada, tem de gastar-se; porque a imensidão deve acabar por cansar-se desse grão de poeira que faz tanto alarido e perturba a majestade do nada. De tanto passar de mãos e de corromper, o outro esgotar-se-á; este vapor de sangue abrandará, o palácio desmoronar-se-á sob o peso das riquezas que oculta, a orgia cessará e nós despertaremos.
Então, quando os homens virem esse vazio, quando se tiver de deixar a vida pela morte, pela morte que come, que tem sempre fome, haverá um riso imenso de desespero. E tudo explodirá para se desmoronar do nada, e o homem virtuoso amaldiçoará a sua virtude e o vício aplaudirá.
Alguns homens ainda errantes numa terra árida chamar-se-ão, encontrar-se-ão e recuarão horrorizados, aterrorizados consigo próprios, e morrerão. O que será então o homem, ele que já é mais feroz do que os animais ferozes, e mais vil do que os répteis? Adeus para sempre, carros deslumbrantes, fanfarras e famas; adeus, mundo, palácios, mausoléus, volúpias do crime e delícias da corrupção! A pedra cairá de repente, esmagada por si mesma, e a erva crescerá sobre ela. E os palácios, os templos, as pirâmides, as colunas, mausoléu do rei, caixão do pobre, carcaça do cão, tudo isso ficará à mesma altura, sob a relva da terra.
Então, o mar sem diques baterá tranquilamente nas praias e irá banhar as suas ondas na cinza ainda fumegante das cidades; as árvores crescerão, reverdecerão, e não haverá mão que as quebre e as destrua; os rios correrão nos prados floridos, a natureza será livre, sem homem que a oprima, e esta raça será extinta, porque era maldita desde a infância.
Gustave Flaubert, in Memória de um louco

Dianne Reeves - Live @ Jazz à la Villette 2017

O Homem amesquinhado

Apesar do quadro negro de uma cúpula política e intelectual desvairada e grossa e de um povo abandonado a seu próprio destino, ainda havia ali, no país, naquele espantoso verão de 1955, uma considerável energia vital, uma exaltada alegria de viver, acentuada, em alguns lugares e num ou noutro indivíduo, ainda mais possuído do gozo pleno de um extraordinário senso lúdico tropical. Estávamos, poderíamos nos considerar como estando, num dos últimos redutos do ser humano. Depois disso viria o fim, não, como todos pensavam, com um estrondo, mas com um soluço. A densa nuvem desceria, não, como todos pensavam, feita de moléculas radioativas, mas da grosseria de todos os dias, acumulada, aumentada, transmitida, potenciada. O homem se amesquinharia, vítima da mesquinharia do seu semelhante, cada dia menos atento a um gesto de gentileza, a um ato de beleza, a um olhar de amor desinteressado, a uma palavra dita com uma precisa propriedade. E tudo começou a ficar densamente escuro, porque tudo era terrivelmente patrocinado por enlatadores de banha, fabricantes de chouriço e vendedores de desodorante, de modo que toda a pretensa graça da vida se dirigia apenas à barriga dos gordos, à tripa dos porcos, ou, no máximo de finura e elegância, às axilas das damas.
Millôr Fernandes, in O livro vermelho dos pensamentos de Millôr

Danado passando pelo tempo


No que o tempo se danou a passar desatinado por ele, só por ele, logo por ele que demorava a entender as coisas direito, Antônio tentou rezar a Ave-Maria, mas não conseguia chegar no agora e na hora de nossa morte, amém, em parte porque estava doidinho das ideias, em parte porque não sabia mais se agora era agora mesmo, se era a hora da sua morte, amém, ou se não era.
Foi então que percebeu que não era o tempo que estava passando danado por ele, ele é que estava danado passando pelo tempo, como quem olha pela janela de um ônibus que está correndo pra frente, e por um minuto apenas, um cochilo, um nó no entendimento, ou algo parecido, tem a impressão de que o ônibus está parado e é a estrada que está correndo pra trás.
A isso devia se dar um nome difícil, mas o nome não importava, importava a comparação.
Ele, Antônio, era o ônibus, enquanto o tempo era a estrada, um correndo, outro parado, só o que se movia era ele, Antônio, logo ele de quem diziam, que sujeito parado, esse povo já gosta de difamar os outros.
De repente, o tempo parou de passar, num solavanco.
Em melhor dizendo, foi ele que, num solavanco, parou de passar de repente pelo tempo.
Do jeito que vinha embalado, parou de vez, assim, sem nenhum aviso, estremecendo todas as ideias do juízo.
Que aquilo não era agora, disso Antônio tinha certeza.
Morte também não era.
Coisa igual ele nunca tinha visto pela única razão de que coisa igual ainda estava por existir lá no tempo dele.
E se agora não era mais agora, pelo menos não era o agora que ele conhecia, nem era a hora da sua morte, amém, se agora era outro tempo, bem ali, na sua frente, que tempo era esse, ora essa?

Foi chegando logo e perguntando que danado de tempo era aquele.
Era ali por dois mil e pouco.
Mais precisamente 25 anos, seis meses e 17 dias depois do dia em que ele tinha partido, por volta do meio-dia.
A praça, a cidade, o povo, o mundo todo estava em festa.
Havia mesmo de chegar em data importante.
Pelo jeito, havia chegado em cima da hora.
E houve quem lhe entregasse presente, houve quem risse, quem chorasse, houve até quem se descabelasse por ver Antônio de perto.
Enquanto os de lá comemoravam sua partida, os daqui comemoravam sua chegada.
Houve quem gritasse, três vivas pro cabra que mudou o mundo, houve quem os três vivas gritasse, soltaram fogos e tudo, e só então Antônio teve certeza de que aquela festa toda era mesmo pra ele.

Ele nunca podia imaginar que ia encontrar o mundo assim sem nenhum defeito.
Estava tudo perfeito, quem diria, bem que Antônio tinha dito que havia de caprichar no presente.
Por mais que jurasse, por Deus Nosso Senhor, quando voltasse pra trás e contasse o que viu, é claro que iam dizer que era mentira.
Quem já viu disso, menino?
Agora ficou doido de vez.
Deixe de conversa.
Mas esse Antônio já inventa.
Se não dissessem, iam pensar, e, se pensassem, até que não era sem motivo.
Quem havia de julgar que seria possível um negócio daqueles?
Adriana Falcão, in A máquina

Um oceano de energia

Em seu cerne, a Revolução Industrial foi uma revolução na conversão de energia. Foi demonstrado inúmeras vezes que não há limite para a quantidade de energia à nossa disposição. Ou, mais precisamente, que o único limite é determinado por nossa ignorância. A cada poucas décadas descobrimos uma nova fonte de energia, de modo que a soma total de energia à nossa disposição só continua crescendo.
Por que tantas pessoas têm medo de que nossa energia esteja acabando? Por que elas alertam sobre um desastre se exaurirmos todos os combustíveis fósseis disponíveis? Claro está que não falta energia no mundo. A única coisa que nos falta é o conhecimento necessário para usá-la e convertê-la para nossas necessidades. A quantidade de energia armazenada em todo o combustível fóssil na Terra é insignificante se comparada com a quantidade que o Sol fornece a cada dia, livre de encargos. Somente uma minúscula proporção da energia solar chega à Terra, e no entanto equivale a 3.766.800 exajoules de energia por ano (um joule é uma unidade de energia no sistema métrico, mais ou menos a quantidade que gastamos para erguer uma maçã pequena a um metro; um exajoule é 1 quintilhão de joules – isso é um montão de maçãs). 2 Todas as plantas do mundo capturam apenas por volta de 3 mil desses exajoules solares através da fotossíntese. Todas as atividades e indústrias humanas reunidas consomem cerca de 500 exajoules anualmente, o equivalente à quantidade de energia que a Terra recebe do Sol em apenas 90 minutos. E isso é só a energia solar. Além dela, somos cercados por outras fontes imensas de energia, como a energia nuclear e a energia gravitacional, esta última mais evidente na potência das ondas oceânicas causadas pela influência da Lua sobre a Terra.
Antes da Revolução Industrial, o mercado de energia humano dependia quase exclusivamente das plantas. As pessoas viviam diante de um reservatório de energia verde carregando 3 mil exajoules por ano e tentavam extrair o máximo possível dessa energia. Mas havia um claro limite à quantidade que podia ser extraída. Durante a Revolução Industrial, passamos a perceber que na verdade estamos vivendo ao lado de um oceano enorme de energia, que contém bilhões e mais bilhões de exajoules de energia em potencial. Tudo que precisamos fazer é inventar geradores melhores. Aprender a utilizar e converter energia de maneira eficaz resolveu o outro problema que desacelera o crescimento econômico: a escassez de matérias-primas. Quando os humanos entenderam como utilizar grandes quantidades de energia barata, puderam começar a explorar depósitos de matéria-prima até então inacessíveis (por exemplo, minerando ferro nos desertos siberianos), ou transportar matérias-primas de lugares cada vez mais distantes (por exemplo, abastecendo as fábricas têxteis da Grã-Bretanha com lã australiana). Ao mesmo tempo, os avanços científicos permitiram que a humanidade inventasse matérias-primas completamente novas, como plástico, e descobrisse materiais naturais até então desconhecidos, como silicone e alumínio.
Os químicos só descobriram o alumínio nos anos 1820, mas separar o metal de seu minério era extremamente difícil e custoso. Durante décadas, o alumínio era muito mais caro do que o ouro. Nos anos 1860, o imperador Napoleão III da França encomendou talheres de alumínio para seus convidados mais ilustres. Os visitantes menos importantes tinham de se virar com facas e garfos de ouro. Mas, no fim do século XIX, os químicos descobriram uma maneira de extrair enormes quantidades de alumínio barato, e hoje a produção global fica em torno de 30 milhões de toneladas por ano. Napoleão III ficaria surpreso de saber que os descendentes de seus súditos usam papel-alumínio descartável para embrulhar seus sanduíches e jogam as sobras no lixo.
Há 2 mil anos, quando as pessoas na bacia do Mediterrâneo sofriam de pele seca, passavam azeite nas mãos. Hoje, abrem um tubo de creme. A seguir há uma lista de ingredientes de um creme para mãos simples que comprei por 3 dólares em uma loja qualquer:

Água deionizada, ácido esteárico, glicerina, triglicérides do ácido cáprico/caprílico, propilenoglicol, miristato de isopropila, extrato de raiz de Panax ginseng, fragrância, álcool cetílico, trietanolamina, dimeticona, extrato de folha de Arctostaphylos uva-ursi, fosfato de ascorbil magnésio, imidazolidinil ureia, metilparabeno, cânfora, propilparabeno, hidroxiisohexil 3-ciclohexeno carboxialdeído, hidroxicitronelal, linalol, butilfenil metilpropional, citronelol, limoneno, geraniol.

Quase todos esses ingredientes foram inventados ou descobertos nos últimos dois séculos.
Durante a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha foi submetida a um bloqueio e sofreu escassez severa de matérias-primas, em particular o salitre, um ingrediente essencial para a fabricação de pólvora e outros explosivos. Os depósitos mais importantes de salitre ficavam no Chile e na Índia; não havia nenhum na Alemanha. É verdade, o salitre podia ser substituído pela amônia, mas esta também era cara de se produzir. Felizmente para os alemães, um de seus concidadãos, um químico judeu chamado Fritz Haber, havia descoberto em 1908 um processo para produzir amônia literalmente do ar. Quando a guerra eclodiu, os alemães usaram a descoberta de Haber para começar a produção industrial de explosivos usando o ar como matéria-prima. Alguns acadêmicos acreditam que, se não fosse pela descoberta de Haber, a Alemanha teria sido forçada a se render muito antes de novembro de 1918. A descoberta rendeu a Haber (que, durante a guerra, também foi pioneiro no uso de gás venenoso em batalha) um prêmio Nobel em 1918. De química, e não da paz.
Yuval Noah Harari, in Sapiens: uma breve historia da humanidade

Da árvore na montanha

Zaratustra havia percebido que um jovem o evitava. E uma noite, quando ia pelos montes que rodeiam a cidade conhecida como A Vaca Malhada, eis que encontrou esse jovem, sentado no chão e encostado numa árvore, observando o vale com um olhar cansado. Zaratustra agarrou a árvore junto à qual o jovem estava sentado e assim falou:
Se eu quisesse balançar essa árvore com as duas mãos, não conseguiria.
Mas o vento, que nós não vemos, pode atormentá-la e dobrá-la como quiser. É por mãos invisíveis que somos atormentados e dobrados da pior maneira.”
Levantou-se então o jovem, assustado, e disse: “Ouço Zaratustra, e nesse momento pensava nele”.
Respondeu Zaratustra: “E te espantas por causa disso? — Com o homem sucede o mesmo que com a árvore.
Quanto mais quer alcançar as alturas e a claridade, tanto mais suas raízes se inclinam para a terra, para baixo, penetram na escuridão, na profundeza — no mal.”
Sim, no mal!”, exclamou o jovem. “Como foi possível que descobriste a minha alma?”
Zaratustra sorriu e falou: “Algumas almas jamais descobrimos, a não ser que antes as inventemos”.
Sim, no mal!”, tornou a exclamar o jovem.
Disseste a verdade, Zaratustra. Já não confio em mim mesmo, desde que quero alcançar as alturas, e ninguém mais confia em mim — como pode acontecer isso?
Eu me transformo depressa demais: meu hoje contraria meu ontem. Com frequência pulo degraus ao subir — isso nenhum degrau me perdoa.
Estando lá em cima, sempre me vejo só. Ninguém fala comigo, o gelo da solidão me faz tremer. Que quero eu nas alturas, afinal?
Meu desprezo e meu anseio crescem um com o outro; quanto mais subo, tanto mais desprezo aquele que sobe. Que quero eu nas alturas, afinal?
Como me envergonho do meu subir e tropeçar! Como escarneço do meu forte arquejar! Como odeio aquele que voa! Como estou cansado nas alturas!”
Nisso o jovem se calou. Zaratustra olhou a árvore junto à qual estavam e assim falou:
Essa árvore está sozinha aqui na montanha; cresceu muito acima dos homens e dos animais.
E, se quisesse falar, não teria ninguém que a compreendesse: tão alto cresceu.
Agora ela espera e espera — mas pelo que espera? Ela habita perto demais das nuvens: será que espera pelo primeiro raio?”
Depois que Zaratustra falou isso, o jovem exclamou com gestos veementes: “Sim, Zaratustra, tu falas a verdade. Eu ansiava pelo meu declínio quando desejava subir às alturas, e tu és o raio pelo qual esperava! Olha: que sou eu ainda, depois que nos apareceste? Foi a inveja de ti que me destruiu!” — Assim falou o jovem, e chorou amargamente. Mas Zaratustra pôs o braço ao seu redor e o levou consigo.
E, quando haviam caminhado juntos por um momento, Zaratustra se pôs a falar assim:
Isso me parte o coração. Mais do que tuas palavras, teus olhos me falam do teu perigo.
Ainda não és livre, ainda procuras a liberdade. Tua procura te deixou tresnoitado e insone.
Queres chegar às livres alturas, tua alma anseia por estrelas. Mas também teus maus impulsos anseiam por liberdade.
Teus cães selvagens querem a liberdade; ladram de alegria em seu porão, quando teu espírito busca abrir todas as prisões.
Ainda és, para mim, um prisioneiro que contempla a liberdade: ah, em tais prisioneiros a alma se torna prudente, mas também ardilosa e ruim.
Também precisa ainda purificar-se o libertado do espírito. Nele ainda há muito de prisão e de mofo: seu olhar ainda precisa se tornar puro.
Sim, conheço o teu perigo. Por meu amor e por minha esperança, porém, eu te suplico: não jogues fora teu amor e tua esperança!
Ainda te sentes nobre, e nobre ainda te sentem os outros também, os que te guardam antipatia e te lançam olhares maus. Aprende que um nobre é um obstáculo no caminho de todos.
Também para os bons há um nobre em seu caminho: e, mesmo se o chamam de bom, querem com isso afastá-lo dali.
Coisas novas quer criar o nobre, e uma nova virtude. Coisas velhas quer o bom, e que o velho seja preservado.
Mas o perigo do homem nobre não é tornar-se um bom, e sim um impudente, um zombador, um destruidor.
Ah, eu conheci homens nobres que perderam sua mais alta esperança. E então caluniaram todas as altas esperanças.
Então passaram a viver de forma impudente, em breves prazeres, sem cultivar uma meta para além do dia.
Espírito é também volúpia!” — diziam eles. Nisso quebraram-se as asas do seu espírito: agora ele rasteja por aí, sujando aquilo que rói.
Outrora pensavam em se tornar heróis: agora são libertinos. O herói é, para eles, um desgosto e um horror.
Mas por meu amor e minha esperança eu te suplico: não lances fora o herói que há em tua alma! Mantém sagrada a tua mais alta esperança! —
Assim falou Zaratustra.
Friedrich Nietzsche, in Assim falou Zaratustra