terça-feira, 17 de setembro de 2019

Selvagens à Procura de Lei - Intuição

Cochilar

lampejo dos que comigo não chegaram, dos que somente em mim caminho
adentro galgaram.
trafegam em bicicletas de algodão,
correndo macio,
são lenços em galáxias de nomes,
ganham forma,
são quase.

mas os olhos reabrem
e a tarde se refaz,
porcelana bege.
André Bonani

Encontros e encantos - Guimarães Rosa

[...] A construção de um lugar fantástico
A palavra “sertão” é curiosa. A sonoridade sugere o verbo “ser” numa dimensão empolada. Ser tão, existir tanto. Os portugueses levaram a palavra para África e tentaram nomear assim a paisagem da savana. Não resultou. A palavra não ganhou raiz. Apenas nos escritos coloniais antigos se pode encontrar o termo “sertão”. Quase ninguém hoje, em Moçambique e Angola, reconhece o seu significado.
João Guimarães Rosa criou este lugar fantástico, e fez dele uma espécie de lugar de todos os lugares. O sertão e as veredas de que ele fala não são da ordem da geografia. O sertão é um mundo construído na linguagem. “O sertão”, diz ele, “está dentro de nós.” Rosa não escreve sobre o sertão. Ele escreve como se ele fosse o sertão.
Em Moçambique nós vivíamos e vivemos ainda o momento épico de criar um espaço que seja nosso, não por tomada de posse, mas porque nele podemos encenar a ficção de nós mesmos, enquanto criaturas portadoras de História e fazedoras de futuro. Era isso a independência nacional, era isso a utopia de um mundo sonhado.

A instauração de um outro tempo
Já vimos que o sertão é o não-território. Veremos que o seu tempo não é o vivido mas o sonhado. O narrador do Grande sertão: veredas diz: “Estas coisas de que me lembro se passaram tempos depois”. E ele poderia dizer de outro modo: as coisas importantes passam sempre para além do tempo.
O que Rosa perseguiu na escrita foi (estou citando) “essa coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, a que chamamos de ‘realidade’, e que é a gente mesmo, o mundo, a vida”. A transgressão poética é o único modo de escaparmos à ditadura da realidade. Sabendo que a realidade é uma espécie de recinto prisional fechado com a chave da razão e a porta do bom-senso [...].
Mia Couto, in E se Obama fosse africano?

O traço sarcástico do iraniano Mana Neyestani


Por que o mercado de ações não tem consciência

Outra história utilizada para justificar a superioridade humana é a de que, de todos os animais sobre a Terra, somente o Homo sapiens tem uma mente consciente. Mente é algo muito diferente de alma. A mente não é uma entidade eterna mística. Nem é um órgão, como o olho ou o cérebro. É, sim, um fluxo de experiências subjetivas, como a dor, o prazer, a raiva e o amor. Essas experiências mentais são feitas de sensações, emoções e pensamentos interconectados, que lampejam por um breve momento e imediatamente desaparecem. Depois, outras experiências cintilam e se desfazem, surgem por um instante e logo morrem. (Quando refletimos sobre isso, não raro tentamos distribuir as experiências em categorias distintas, como sensações, emoções e pensamentos, mas na realidade elas estão todas mescladas.) Essa coleção frenética de experiências constitui o fluxo da consciência. Diferentemente da alma eterna, a mente tem muitas partes, muda constantemente, e não há motivo para pensar que seja eterna.
A alma é uma história que algumas pessoas aceitam e que outras rejeitam. O fluxo da consciência, em oposição, é a realidade concreta que testemunhamos diretamente a cada momento. É o que há de mais certo no mundo. Não se pode duvidar de sua existência. Mesmo quando, consumidos pela dúvida, perguntamos a nós mesmos: “Experiências subjetivas existem?”, podemos estar certos de que estamos experimentando uma, em forma de dúvida. O que são exatamente as experiências conscientes que constituem o fluxo da mente? Toda experiência subjetiva apresenta duas características fundamentais: sensação e desejo. Robôs e computadores não têm consciência porque, a despeito de suas muitas aptidões, não sentem nada e não anseiam por nada. Um robô pode ter um sensor de energia que sinaliza a seu processador central quando a bateria está para se esgotar. O robô pode então ir em direção a uma tomada elétrica, conectar-se e recarregar sua bateria. Contudo, no decorrer desse processo ele não experimenta coisa alguma. Em contraste, um ser humano cuja energia foi exaurida sentirá fome e ansiará por interromper essa sensação desagradável. Por isso dizemos que humanos são seres conscientes e os robôs não são; por isso é crime fazer pessoas trabalharem até desabarem de fome e de exaustão, enquanto fazer robôs trabalharem até que suas baterias se descarreguem não encerra um opróbrio moral.
E quanto aos animais? São conscientes? Têm experiências subjetivas? É aceitável que se obrigue um cavalo a trabalhar até cair de exaustão? Como já foi observado, as ciências biológicas afirmam atualmente que todos os mamíferos e todas as aves, e pelo menos alguns répteis e peixes, apresentam sensações e emoções. Contudo, as teorias mais recentes sustentam também que sensações e emoções são algoritmos de processamento de dados bioquímicos. Já sabemos que robôs e computadores processam dados sem ter nenhuma experiência subjetiva; será que isso funciona da mesma maneira com os animais? Realmente, mesmo nos humanos muitos circuitos cerebrais sensoriais e emocionais podem processar dados e desencadear ações de modo completamente inconsciente. Assim, quem sabe por trás de todas as sensações e emoções que atribuímos aos animais — fome, medo, amor e lealdade — se ocultem apenas algoritmos inconscientes e não experiências subjetivas?
Essa teoria foi defendida pelo pai da filosofia moderna, René Descartes. No século XVII, Descartes afirmou que somente humanos sentiam e tinham anseios; todos os outros animais seriam autômatos irracionais, semelhantes a robôs ou máquinas de venda automática. Quando um homem chuta um cão, o cão não experimenta nenhuma sensação. Ele se encolhe e gane automaticamente, do mesmo modo que uma zumbidora máquina de venda, que prepara um café sem sentir ou querer coisa alguma.
Tal teoria foi amplamente aceita na época de Descartes. Médicos e estudiosos do século XVII dissecavam cães vivos sem nenhuma anestesia ou escrúpulo e observavam o funcionamento de seus órgãos internos. Não viam nada de errado nisso, assim como não vemos nada de errado em abrir a tampa de uma máquina de venda automática para observar suas engrenagens e mecanismos de transporte. No início do século XXI ainda há muita gente para quem animais não têm consciência, ou, no melhor dos casos, têm uma consciência muito diferente e inferior.
Para poder decidir se animais possuem mentes conscientes semelhantes à nossa, temos primeiro de compreender melhor como funciona a mente e que papel ela desempenha. São questões extremamente difíceis, mas vale a pena dedicar algum tempo a elas porque a mente será protagonista de capítulos subsequentes. Não seremos capazes de atinar com todas as implicações de tecnologias inovadoras, como a da inteligência artificial, se não soubermos o que é a mente. Então, deixemos de lado por um momento a questão específica das mentes animais e examinemos o que a ciência sabe sobre mentes e consciências em geral. Vamos nos concentrar em exemplos extraídos do estudo da consciência humana — que nos é mais acessível — e retornar depois aos animais e perguntar se o que era verdade em relação a humanos também o é em relação a nossos primos peludos e plumados.
Para ser franco, a ciência sabe surpreendentemente pouco sobre mentes e consciência. A ortodoxia atual sustenta que a consciência é criada por reações eletroquímicas no cérebro e que as experiências mentais realizam alguma função essencial de processamento de dados. No entanto, ninguém tem a menor ideia de como um amontoado de reações bioquímicas e correntes elétricas no cérebro criam a experiência subjetiva da dor, da raiva ou do amor. Talvez tenhamos uma explicação sólida dentro de dez ou cinquenta anos. Mas em 2016 não dispomos delas, e é melhor sermos claros quanto a isso.
Com o uso de imagens por ressonância magnética funcional e a implantação de eletrodos e outros dispositivos sofisticados, os cientistas identificaram correlações e até mesmo ligações causais entre correntes elétricas no cérebro e várias experiências subjetivas. Só de olhar para a atividade cerebral, os cientistas podem dizer se você está acordado, sonhando ou em sono profundo. Podem disparar brevemente uma imagem diante de seus olhos, exatamente no limiar da percepção consciente, e determinar (sem lhe perguntar) se você captou ou não o conteúdo da imagem. Já é possível conectar neurônios cerebrais individuais com conteúdo mental específico e descobrir, por exemplo, um neurônio “Bill Clinton” e um neurônio “Homer Simpson”. Quando o neurônio “Bill Clinton” está ativo, a pessoa está pensando no quadragésimo segundo presidente dos Estados Unidos; mostre à pessoa uma imagem de Homer Simpson, e o neurônio homônimo entrará em ação.
Num sentido mais amplo, os cientistas sabem que, se surgir uma tempestade elétrica em determinada região do cérebro, provavelmente você sentirá raiva. Se essa tempestade se acalmar e uma região diferente se acender — você estará experimentando o amor. De fato, cientistas podem mesmo induzir sentimentos de raiva ou de amor estimulando eletricamente os neurônios certos. Mas como é que uma movimentação de elétrons de um lugar a outro se traduz em uma imagem subjetiva de Bill Clinton ou em um sentimento subjetivo de raiva ou amor?
A explicação mais comum aponta para o fato de que o cérebro é um sistema altamente complexo, com mais de 80 bilhões de neurônios conectados em numerosas e intricadas redes. Quando bilhões de neurônios enviam bilhões de sinais elétricos para cá e para lá, surgem experiências subjetivas. Mesmo que o envio e o recebimento de cada sinal elétrico constituam um simples fenômeno bioquímico, a interação entre todos esses sinais cria algo muito mais complexo — o fluir da consciência. Observamos essa mesma dinâmica em muitos outros campos. O movimento de um único automóvel é uma ação simples, mas, quando milhões de carros se movem e interagem simultaneamente, surge um engarrafamento no trânsito. A compra e a venda de uma única ação são bastante simples, no entanto, quando milhões de negociantes compram e vendem milhões de ações, isso pode levar a uma crise econômica capaz de surpreender até mesmo os especialistas.
Essa explicação, porém, não explica nada. Apenas indica que o problema é muito complicado. Não oferece nenhum discernimento de como um tipo de fenômeno (bilhões de sinais elétricos se movimentando para cá e para lá) cria um tipo muito diferente de fenômeno (experiências subjetivas de raiva e amor). A analogia com outros processos complexos, tais como engarrafamentos no trânsito e crises econômicas, é falha. O que provoca um engarrafamento no trânsito? Se você acompanhar um único carro, nunca vai compreender. O engarrafamento resulta das interações entre muitos carros. O carro A influi na movimentação do carro B, este bloqueia o caminho do carro C, e assim por diante. Mas, se você mapear o percurso de todos os carros relevantes, e como o de cada um impacta o dos outros, terá um quadro completo do engarrafamento. Seria inútil perguntar “Como é que todas essas movimentações provocam o engarrafamento?”. “Engarrafamento de trânsito” é tão somente um termo abstrato que nós humanos decidimos usar para designar esse conjunto específico de eventos.
Em contraste, “raiva” não é um termo abstrato que decidimos usar como uma notação estenográfica para bilhões de sinais elétricos no cérebro. A raiva é uma experiência extremamente concreta com a qual as pessoas estavam familiarizadas muito antes de terem qualquer conhecimento sobre eletricidade. Quando digo “Estou com raiva!”, estou apontando para um sentimento muito tangível. Se você descreve como uma reação química em um neurônio resulta em um sinal elétrico, e como bilhões de reações semelhantes resultam em bilhões de sinais adicionais, ainda vale perguntar: “Como esses bilhões de eventos se juntam para criar um sentimento concreto de raiva?”.
Quando milhares de carros percorrem lentamente seus caminhos através de Londres, damos a isso o nome de engarrafamento, sem que se crie uma consciência londrina que paira bem alto sobre Piccadilly e diz para si mesma: “Caramba, sinto-me engarrafada!”. Quando milhões de pessoas vendem bilhões de ações, chamamos isso de crise econômica, mas nenhum grande espírito de Wall Street resmunga: “Merda, estou em crise”. Quando trilhões de moléculas de água se aglutinam no céu, nós chamamos isso de nuvem, mas nenhuma nuvem surge conscientemente para anunciar: “Sinto-me chuvosa”. Como é, então, que, quando bilhões de sinais elétricos se movimentam pelo meu cérebro, surge uma mente com a sensação “Estou furioso!”? A essa altura, em 2016, não temos a menor ideia a respeito.
Então, se esta discussão o deixou confuso e perplexo, você está em ótima companhia. Os melhores cientistas também estão muito longe de decifrar o enigma da mente e da consciência. Uma das coisas maravilhosas em relação à ciência é que, quando cientistas não sabem alguma coisa, eles podem tentar todos os tipos de teorias e hipóteses, mas ao final têm de admitir sua ignorância.
Yuval Noah Harari, in Homo Deus: uma breve história do amanhã

Conto azul

Da última vez em que estive por lá, vi passarem de um lado para outro algumas almas com as suas alvas túnicas regimentais. Até aí nada de novo. Mas, dentre elas, havia algumas que traziam gravados a negro, nas costas, uns algarismos romanos. E foi assim que vi o IV, o XI, o XV, o IX...
Não me contive:
Vai haver alguma corrida? — indaguei ao Anjo que se achava de guarda.
Pssst! — fez ele, levando imperiosamente o dedo ao lábio. E baixinho, para que o XVI que então passava não nos ouvisse: — Mais respeito, seu moço! São os Luíses de França…
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

domingo, 15 de setembro de 2019

Assuma sua responsabilidade para com o mundo


Os símbolos de hoje possibilitam a realidade do amanhã. Observe as suásticas e os outros sinais do ódio. Não desvie o olhar, nem se acostume com eles. Remova-os você mesmo e dê o exemplo para que outros também o façam.”
Timothy Snyder, in Sobre a tirania: vinte lições do século XX para o presente
Na política do cotidiano, nossos atos, palavras e gestos, ou até a nossa omissão fazem muita diferença. O autor traz exemplos do século passado para mostrar como isso acontece.
Na URSS de Stálin, fazendeiros prósperos eram representados em cartazes de propaganda como porcos, o que é claramente uma espécie de desumanização. Isso fez com que os camponeses mais pobres se voltassem contra os mais ricos, representados como porcos vis. Só que depois, o poder soviético abocanhou a todos, tomando suas terras e fazendas. Depois da coletivização das posses, imensa parte do campesinato veio a passar fome. No fim das contas, todos sofreram, ninguém foi poupado.
No embalo da vitória, nazistas tentaram criar um boicote às lojas dos judeus. Lojas passaram a ser sinalizadas com as palavras ‘Judia’ ou ‘Ariana’. Uma loja marcada como ‘Judia’ era vista como algo que não tinha futuro, e tornou-se alvo fácil de roubos. O desejo que os judeus desaparecessem foi crescendo.
Em 1933, na Alemanha nazista, as pessoas usavam broches pelo “Sim”, nas eleições e no referendo que afirmou o Estado de um só partido. Na Áustria, pessoas que antes não eram nazistas passaram a usar broches com suásticas.

Zeca Baleiro - Ela nunca diz

Capítulo 129 - Sem Remorsos

Não tinha remorsos. Se possuísse os aparelhos próprios, incluía neste livro uma página de química, porque havia de decompor o remorso até os mais simples elementos, com o fim de saber, de um modo positivo e concludente, por que razão Aquiles passeia roda de Tróia o cadáver do adversário, e lady Macbeth passeia à volta da sala a sua mancha de sangue. Mas eu não tenho aparelhos químicos, como não tinha remorsos; tinha vontade ser ministro de Estado. Contudo, se hei de acabar este capítulo, direi que não quisera ser Aquiles nem lady Macbeth; e que, a ser alguma coisa, antes Aquiles, antes passear ovante o cadáver do que a mancha; ouvem-se no fim as súplicas do Príamo, e ganha-se uma bonita reputação militar e literária. Eu não ouvia as súplicas de Príamo, mas o discurso do Lobo Neves, e não tinha remorsos.
Machado de Assis, in Memórias póstumas de Brás Cubas

Começos

Qual é o melhor começo de filme que você já viu? Lembro de três. Um ficou na história porque foi a primeira vez, salvo desmentido do Goida, que se fez prólogo no cinema. Ou seja, uma sequência inteira antes de aparecerem o título e os créditos. Comandos ingleses desembarcam na África do Norte. Atacam uma fortificação alemã, metralham tudo e todos até serem dizimados também. No final da sequência, um dos comandos, antes de morrer, pergunta a um soldado alemão: “Conseguimos pegá-lo?”. O alemão sorri e faz que “não” com a cabeça. Surge o título do filme: A raposa do deserto. Sobre o indestrutível marechal Rommel. Outro começo antológico é o de Janela indiscreta, de Hitchcock. A câmera passeia por um interior. Numa única tomada, mostrando só objetos e fotos, sem o auxílio de uma palavra na trilha sonora, ela nos diz quem é e o que faz o dono da casa e como foi o seu acidente. No fim da tomada a câmera sobe pela perna engessada de Stewart e, quando enquadra o seu rosto, olhando pela janela, já sabemos tudo que precisamos saber sobre ele e sobre a situação. Não fosse Hitchcock o rei da síntese visual. Mas o melhor começo de todos, para mim, é o de Yojimbo – o guarda-costas (ou é o outro, chamado, se não me falham os neurônios, Sanjuro?). O samurai do Kurosawa vem por uma estrada e chega a uma encruzilhada. Não sabe que caminho escolher. Nisto, por um dos caminhos, surge um cachorro com alguma coisa na boca. Quando chega perto vê-se o que ele tem na boca: é uma mão decepada. O samurai não hesita. Segue pelo caminho por onde veio o cachorro, sabendo que no fim daquela estrada encontrará emprego. Você certamente terá começos melhores. Por favor, não os mande. Morro com estes.
Luís Fernando Veríssimo, in Banquete com os deuses

Armandinho


Dois aposentados prematuramente conversam. Quem diria que tudo ia acabar assim, num clima de ridícula e subdesenvolvida ficção científica?

Quer dizer que também entrou na compulsória?
Há um bom tempo.
O que anda fazendo?
Nada, já te disse.
O que andava?
Conferia números num escritório. Números, o dia inteiro. Colunas e mais colunas.
Quem diria que a gente iria acabar assim? Tudo parecia tão promissor nos Abertos Oitenta.
Murcharam rapidamente. Teve gente que nem percebeu.
Temos discutido o assunto, Souza. Estamos chegando à conclusão que nos deixamos enganar. No fundo, era previsível o que viria. Quantos homens da antiga ditadura não continuaram nos postos?
Você disse: temos discutido?
Um pequeno grupo. Na casa de um, na casa de outro. É o jeito de mantermos as cabeças em forma, não perdermos o pé. É difícil, as pessoas andam espantadas. Ninguém quer saber de mais nada. O que vale é o dia a dia. Só se pensa na sobrevivência.
Acredita se eu te disser que não converso a sério há uns cinco anos?
Claro, aconteceu comigo. Meu silêncio um dia explodiu na minha cara.
De vez em quando falo com um sobrinho meu. Tem vinte e três anos e é capitão do Novo Exército. Mas não dá para a gente se entender. Ele me irrita. E me faz sentir safado. Pode ser? Me sinto corrupto porque aceito umas fichas extras para a água.
Imagine se umas fichas de água tornam alguém corrupto, Souza? Isso não dá nem para arranhar a honestidade. Você sempre foi escrupuloso demais. Tinha noções rígidas, antiquadas, de certo e errado. Andava devagar.
Era o meu jeito.
Se somos corruptos por causa de umas fichinhas, imagine aquela gente toda? O que dizer do Grupo dos Oito? E a Ala Asa de Galinha? E o Conjunto Pop?
Fico abismado com tudo que fizeram, sem que houvesse uma revolução.
Eu não. O que me impressiona é que essa gente nunca teve medo do julgamento da história...
Julgamento da história? Aqueles homens pretenderam eliminar a história, tentando apagar o futuro. Para que não sejam lembrados como novos Átilas, os devastadores. Se acreditaram tão poderosos que julgaram poder cancelar a memória do povo.
Ao menos, fizeram tudo. Quem penetra no prédio da Memória Nacional?
Até que dá para penetrar. Mas quem garante o que está lá? Não será um prédio vazio?
Nem os bárbaros causaram tanto estrago.
Os bárbaros não tocavam nos templos. E as bibliotecas, os manuscritos estavam nos templos. Eles tinham medo dos deuses e não violavam os santuários. As escolas dos sacerdotes continuaram funcionando. Mas agora. Tudo começou na grande ditadura com as reformas de ensino, as dificuldades para estudar, o analfabetismo grassando. Tentou-se consertar a situação nos Abertos Oitenta. Nem deu tempo para respirar. Quando vimos, tinham-se acabado. Estava instalada a Grande Locupletação.
Fecharam nossos olhos durante os anos abertos.
É trocadilho?
Coincidência. Estávamos iludidos, não prestamos atenção às coisas que aconteciam.
Não se esqueça de que aconteciam secretamente. O Esquema decidia a portas fechadas. De repente, vinha uma campanha de preparação. Algumas semanas de amortecimento e ficávamos anestesiados. Por oito anos abastecemos o mundo de madeira. Convencidos de que não havia problemas, aceitamos que vendessem pedaços da Amazônia. Pequenos trechos, diziam. Áreas escolhidas por cientistas, para que não se alterassem os ecossistemas. Até que, um dia, as fotos tiradas pelos satélites revelaram a devastação. Todo o miolo da floresta dizimado, irremediavelmente. O resto durou pouco, em alguns anos o deserto tomou conta.
O Esquema era inteligente. Negava, negava e agia ocultamente. Quando se viu, estavam no chão 250 milhões de hectares de florestas. Como nunca mais há de haver outra.
E continuamos endividados.
Mas ganhamos a Nona Maravilha.
Ganhamos também tempestades de areia dignas de países desenvolvidos. Não temos mais de invejar os furacões norte-americanos. As tempestades dizimaram o Maranhão e o Piauí. O deserto avançou para o mar.
Sergipe sofreu duas tempestades de lama, Aracaju foi soterrada. O mar, lá, tem ondas de trinta, quarenta metros.
Furioso. Tão furioso quanto o Esquema quando os grupos de defesa do meio fizeram uma denúncia internacional. O Esquema ficou desmascarado.
E se importou? Estava todo mundo ganhando. O escândalo que foi o Grupo dos Oito assinando concessões para as madeireiras estrangeiras! Oito pessoas ganharam mais dinheiro que toda a população em dez anos de trabalho.
Os jornais falaram.
Logo se calaram.
Claro...
E a Ala Asa de Galinha?
Estava sempre debaixo de asa do presidente. O povo chamava de pintinhos. De pintinhos não tinham nada. Eram galos ladrões.
Entregaram tudo. Aí estão as reservas que não deixam ninguém mentir.
Mas o Esquema negava. Nega ainda. Aliás, não precisa negar, não se fala mais nesses assuntos.
Todo mundo está preocupado com viver, arranjar um buraco para morar, um prato de comida.
Tinha ainda o Conjunto Pop. Tocava música estrangeira. Obrigou a indústria nacional a dançar ao som das multinacionais.
Será que eles estão vivos, Souza?
Ah, uma boa parte já se foi. Eram homens de sessenta e cinco, setenta anos. Aferrados ao poder, deslumbrados com o mando, alucinados pelo lucro.
E eram tão poucos.
Mas tão fortes.
E inteligentes.
Você tem alguma esperança, Tadeu?
Ando confuso. Perdido.
Acho a minha teoria provável. Sabe? Acabando com tudo, eles estariam salvos. Acreditavam que, eliminando o futuro, deles não se guardaria nenhuma imagem. Esquecem a tradição oral. Proibiram os livros, cassaram os cientistas, expulsaram os professores, prenderam os pensadores. Parece até complô de nível mundial. Uma divisão do mundo moderno acertada entre as grandes nações e os amaciados dos países subdesenvolvidos.
Pois para mim parece ficção científica. São Paulo fechado, dividido em Distritos, permissões para circular, fichas magnetizadas para água, uma superpolícia como os Civiltares, comidas produzidas em laboratórios, a vida metodizada, racionalizada.
Tem razão. Vivemos ficção científica porque vinte ou trinta pessoas, numa época que o povo, sempre gozador, chamou de Era da Grande Locupletação, resolveram ter lucro usando poder. Ficção científica ridícula.
Como ridícula?
Lembra-se de quando líamos os livros de Clark, Asimov, Bradbury, Vogt, Vonnegut, Wul, Miller, Wyndham, Heinlein? Eram supercivilizações, tecnocracia, sistemas computadorizados, relativo – ainda que monótono – bem-estar. E, aqui, o que há? Um país subdesenvolvido vivendo em clima de ficção científica. Sempre fomos um país incoerente, paradoxal. Mas não pensei que chegássemos a tanto. O que há em volta de São Paulo? Um amontoado de acampamentos. Favelados, migrantes, gente esfomeada, doentes, molambentos que vão terminar invadindo a cidade. Eles não se aguentam além das cercas limites. Não há o que comer!
Bom, Tadeu. Sua cabeça continua igual. Pensei que você estava derrotado. Vejo tua cabeça funcionando, funcionando. Speed. Era o teu apelido. Speed. Por causa da tua cabeça, a mil por hora. Foi o tempo em que palavras inglesas substituíam tudo.
Vamos tomar café? Você tem ficha?
Gasto a de amanhã...
Quando olho essas cartelinhas de fichas, tenho a impressão de cartelas de anticoncepcionais. O dia determinado para cada café. Aonde chegamos, hein? E gente como nós tem culpa, Souza!
Espera lá. Se aposentaram a gente, foi por alguma coisa.
Ficamos assustados com a aposentadoria. Recuamos. A mim custou um bom tempo para recuperar a normalidade. Eu não conseguia emprego em lugar nenhum. Os meninos estavam grandes, foram trabalhar. Vendi a casa, fui para um apartamentinho. Diminuí gradualmente o nível de vida.
Quem não diminuiu? O nível neste país ficou abaixo do nível.
Sempre ruim para piadas, hein, Souza? Você era um chato. Só contava piada sem graça.
Serviram as xícaras de café. Pó solúvel ralo, meia colher de açúcar para cada um. Ao menos, quase todo mundo deixou de comer açúcar, coisa desnecessária. Havia uma porção de garçonetes. Uma colocava o pires, outra a xícara, a terceira despejava a dose exata de açúcar, outra o café, outra a água.
Elas se acotovelavam, davam encontrões por dentro do balcão. É a superespecialização. A fórmula que o Esquema encontrou para combater o desemprego foi a subdivisão e ampliação de cargos. Agora, diz o Tadeu que isso deve acabar. “No mês que vem, só vai ser duas xícaras por semana para cada pessoa”, avisou uma loirinha sem dentes.
Sabe o que é? Havia gente preocupada. Associações por toda a parte. Grupos que defendiam os rios, organizações contra a proliferação de hidroelétricas desatinadas, os heroicos combatentes contra o Reator de Angra...
Soube que morreram todos.
E, no fim, o Reator também. Está lá, afundado. Fui ver. Atração turística. Parece um navio adernado, metade dentro da água, metade fora. Coisa esquisitíssima, Souza. Um amontoado gigantesco de concreto afundado na terra.
Monumento?
Ao imediatismo...
Não quero ver. Assim como a Casa dos Vidros de Água.
A Casa dos Vidros é a maior prova contra o Esquema. E eles deixam.
Às vezes duvido que exista gente por trás do Esquema. Esquema, Esquema, ouvimos falar. Há muito que o velho Caldeira está inválido e continua como presidente.
Temos de marcar um encontro. Quero te mostrar uma coisa. Aquele nosso caderninho. Guardo há vinte e cinco anos.
Meu Deus, tinha me esquecido. Os nossos caderninhos.
O caderninho vai te deixar emocionado, se te conheço.
Ah, que história...
Atravessamos a rua, vagarosamente. As pessoas à nossa volta também não se apressavam. Pareciam sem reação, sem reflexos. Não parecem, são. De repente, quis mostrar ao Tadeu. Talvez pudesse me ajudar a encontrar um significado. O meu furo na mão. Ele vai entender o meu orgulho.
Olhe para o chão, Tadeu. O que está vendo?
A sombra da tua mão.
Olha bem.
Tem um círculo de luz no meio.
O que acha?
É um furo na tua mão! Veja só!
É isso!
Faz tempo?
Uma semana.
Não é o primeiro que vejo.
Não?
Tem outros. Dói? Incomoda?
Nada.
Redondinho, perfeito. Mas tem uma diferença. As coisas que aparecem são desagradáveis. Os carecas, os que têm a pele caindo, os olhos inflamados, os surdos. Vi gente que veio do campo sem um pelo no corpo, o nariz corroído por inseticidas, ouvidos purgando, gente que perdeu o controle motor. E os que andam com o pulmão artificial às costas, como os carros que usavam gasogênio na primeira guerra mundial? O seu furo é diferente. Bonitinho.
Te mostrei por causa da sombra. Acha que esse círculo de luz pode significar alguma coisa?
Não exagera, Souza. Para não entender, basta o furo.
Tenho certeza que representa.
Em nosso tempo, você andou numa fase de misticismo. Vai ver renasceu. Bem, a conversa está boa, mas preciso voltar. O elevador está sozinho.
Nos encontramos de novo?
Ignácio de Loyola Brandão, in Não Verás país nenhum

sábado, 14 de setembro de 2019

Na noite terrível

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites, Relembro, velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.

O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,

Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver…

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida…
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.

O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?

Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos.

Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p’ra mim.
Álvaro de Campos

Siba - Coruja Muda (Full Album)

A Justiça nos tempos de Franco

Acima, no alto do estrado, envergando sua toga negra, o presidente do tribunal.
À direita, o advogado.
À esquerda, o promotor.
Degraus abaixo, o banco dos réus, ainda vazio,
Um novo julgamento vai começar.
Dirigindo-se ao meirinho, o juiz, Algonso Hernández Pardo, ordena:
Faça o condenado entrar.
Eduardo Galeano

Street Art de Zacharevic, em Penang, Malaysia



O negócio

Grande sorriso do canino de ouro, o velho Abílio propõe às donas que se abastecem de pão e banana:
- Como é o negócio?
De cada três dá certo com uma. Ela sorri, não responde ou é uma promessa a recusa:
- Deus me livre, não! Hoje não...
Abílio interpelou a velha:
- Como é o negócio?
Ela concordou e, o que foi melhor, a filha também aceitou o trato. Com a dona Julietinha foi assim. Ele se chegou:
- Como é o negócio?
Ela sorriu, olhinho baixo. Abílio espreitou o cometa partir. Manhã cedinho saltou a cerca. Sinal combinado, duas batidas na porta da cozinha. A dona saiu para o quintal, cuidadosa de não acordar os filhos. Ele trazia a capa de viagem, estendida na grama orvalhada.
O vizinho espionou os dois, aprendeu o sinal. Decidiu imitar a proeza. No crepúsculo, pum-pum, duas pancadas fortes na porta. O marido em viagem, mas não era dia do Abílio. Desconfiada, a moça surgiu à janela e o vizinho repetiu:
- Como é o negócio?
Diante da recusa, ele ameaçou:
- Então você quer o velho e não quer o moço? Olhe que eu conto!
- Espere um pouco - atalhou Julietinha. - Já volto.
Abriu a janela, despejou água quente na mão do negro, que fugiu aos pulos.
A moça foi ao boteco. Referiu tudo ao velho Abílio, mão na cabeça:
- Barbaridade, ô neguinho safado!
O vizinho não contou e o cometa nada descobriu. Mas o velho Abílio teve medo. Nunca mais se encontrou com Julietinha, cada dia mais bonita.
Dalton Trevisan, in Mistérios de Curitiba

Peixe preso e peixe solto

A referência a bandeiras marcadoras e mastros no penúltimo capítulo necessita de alguns esclarecimentos acerca das leis e dos regulamentos da pesca de baleias, da qual a bandeira pode ser considerada o símbolo e a insígnia.
Quando vários navios viajam juntos, sucede com frequência que uma baleia seja atingida por uma embarcação e então consiga fugir, para depois ser morta e capturada por uma outra embarcação; e neste exemplo estão inclusas outras contingências menores, todas participantes deste caso mais importante. Por exemplo, depois da caçada e da captura de uma baleia, o corpo pode se soltar por causa de uma violenta tempestade; e, derivando para bem longe a sotavento, ser recolhida por um outro baleeiro que, com calma e conforto, a leva a reboque sem arriscar a vida ou a corda. Assim, surgiriam as disputas mais vexaminosas e mais violentas entre os baleeiros, se não existisse uma lei incontestável, universal, escrita ou não, e aplicável a todos os casos.
Talvez o único código formal da pesca de baleias autorizado por decreto legislativo seja o da Holanda. Foi decretado pelos Estados-Gerais em 1695. Mas, embora nenhuma outra nação tenha escrito uma lei para a pesca de baleias, os pescadores norte-americanos são os seus próprios legisladores e advogados neste assunto. Providenciaram um sistema que, por sua concisão e amplitude, supera as Pandectas de Justiniano e os Regulamentos da Sociedade Chinesa para Suprimir a Intromissão nos Assuntos de Outras Pessoas. Pois é; essas leis poderiam ser gravadas naqueles míseros cêntimos da rainha Ana, ou na ponta de um arpão, e usadas no pescoço, de tão pequenas.

I. Um peixe preso pertence ao grupo que o prendeu.
II. Um peixe solto é caça regular para aquele que apanhá-lo mais depressa.

Mas o que prejudica esse código magistral é a sua brevidade admirável, o que requer um vasto volume de comentários para explicá-lo. Primeiro: o que é um peixe preso? Vivo ou morto, um peixe está tecnicamente preso quando está ligado a um navio ou a um bote tripulado por um meio controlável pelo ocupante, ou pelos ocupantes, um mastro, um remo, uma corda de nove polegadas, um cabo de telégrafo, ou um fio de aranha, dá tudo na mesma. Do mesmo modo, um peixe está tecnicamente preso quando tem uma bandeira marcadora, ou qualquer outro símbolo de posse reconhecível; desde que o grupo que colocou a bandeira demonstre sua capacidade de levá-lo para o costado a qualquer hora, assim como a sua intenção de fazê-lo.
Estes são comentários científicos; mas os comentários dos próprios baleeiros consistem, por vezes, em palavras desagradáveis e socos ainda mais desagradáveis – são os Coke-upon-Littleton dos punhos. É verdade que entre os baleeiros mais honrados e honestos são sempre feitas concessões para cada caso particular, quando seria uma injustiça moral ultrajante um grupo reivindicar a posse de uma baleia caçada e morta primeiro por um outro grupo. Mas nem todos são tão escrupulosos.
Há cerca de cinquenta anos, deu-se um caso curioso de litígio para a restituição de uma baleia na Inglaterra, no qual os queixosos relataram que, após perseguir com dificuldade uma baleia nos mares setentrionais, eles (os queixosos) conseguiram fincar o arpão no peixe, mas foram obrigados, por fim, dado o perigo que corriam, a abandonar não apenas as cordas como o próprio bote. Mais tarde, os réus (a tripulação do outro navio) avançaram sobre a baleia, golpearam-na, mataram-na, pegaram-na e por fim apropriaram-se dela diante dos queixosos. E, quando foram reclamar aos réus, o comandante mostrou total indiferença diante dos queixosos e garantiu-lhes que, baseado na doxologia da proeza que tinha executado, se apropriaria da corda, arpões e bote, que tinham ficado presos à baleia quando foi capturada. Em consequência, os queixosos abriram um processo para recuperar o montante de sua baleia, corda, arpões e bote.
O senhor Erskine era o advogado dos réus, e o lorde Ellenborough era o juiz. No decurso da defesa, o arguto Erskine, para ilustrar sua posição, citou um caso recente de adultério, no qual um senhor, depois de tentar em vão refrear a depravação da esposa, abandonou-a, por fim, nos mares da vida; mas, com o passar dos anos, arrependeu-se e moveu uma ação para recuperar sua posse. Erskine defendia o outro lado e disse que, embora o cavalheiro tivesse arpoado originalmente a senhora e a tivesse prendido uma vez, e apenas devido à tensão da sua depravação extrema a tivesse abandonado; fato era que, ao abandoná-la, ela havia se tornado um peixe solto; e, por consequência, quando um outro cavalheiro a arpoou, aquela senhora se tornou propriedade do outro cavalheiro, junto com qualquer arpão que estivesse fincado nela.
No caso presente, Erskine sustentava que os exemplos da baleia e da senhora ilustravam um ao outro.
Ouvindo as devidas alegações e as réplicas, o douto juiz, com termos precisos, sentenciou o seguinte: quanto ao bote, ele o adjudicava aos queixosos, pois o tinham abandonado apenas para salvar as suas vidas; mas quanto à controvertida baleia, arpões e corda, estas pertenciam aos réus; a baleia, pois, era um peixe solto na hora da captura; e os arpões e a corda, pois quando ele (o peixe) fugiu, apropriou-se desses objetos; por consequência, quem apanhasse o peixe depois teria direito a eles. Ora, os réus apanharam o peixe depois; ergo, os objetos referidos lhes pertenciam.
Um homem comum que examinasse essa decisão do douto juiz poderia lhe fazer objeções. Mas, aprofundando-se no assunto, ver-se-á que os dois grandes princípios estabelecidos pelas duas leis da pesca de baleias antes referidas e aplicadas e elucidadas pelo referido caso de lorde Ellenborough; essas duas leis de “peixe preso” e “peixe solto”, repito, se pensarmos bem, encontram-se embasadas em toda a jurisprudência humana; pois, a despeito das suas esculturas complicadas, o Templo da Lei, como o Templo dos Filisteus, tem apenas dois pilares para se apoiar.
Não existe um ditado em todas as bocas, segundo o qual a posse é a metade da lei: ou seja, sem se levar em conta como se obteve a coisa? Mas amiúde a posse é a lei por inteiro. O que são os tendões e as almas dos servos Russos e dos escravos Republicanos senão peixe preso, cuja posse equivale à totalidade da lei? Para o senhorio ganancioso, o que são as economias da viúva, senão peixe preso? O que a mansão de mármore do vilão não desmascara com uma placa na porta a servir de bandeira, senão peixe preso? O que é o ágio devastador que Mordecai, o agiota, recebe do coitado do Woebegone, o falido, de um empréstimo para que a família de Woebegone não morra de fome; o que é esse ágio devastador, senão peixe preso? O que é a renda de cem mil libras do Arcebispo de Savesoul, tirada do escasso pão e queijo de milhares de trabalhadores de costas curvadas (todos certos de irem ao céu sem a ajuda de Savesoul), o que é esse número redondo de cem mil, senão peixe preso? O que são as cidades e as aldeias herdadas do duque de Dunder, senão peixe preso? O que é a coitada da Irlanda para John Bull, aquele temível arpoador, senão peixe preso? O que é o Texas para o irmão Jonathan, aquele soldado apostólico armado de lança, senão peixe preso? E, em relação a todos eles, a posse não é a lei por inteiro?
Mas se a doutrina do peixe preso é bastante aplicável, em geral, a doutrina análoga do peixe solto o é ainda mais. É aplicável internacional e universalmente.
O que era a América em 1492, senão um peixe solto, no qual Colombo fincou o estandarte espanhol, como bandeira dos reis, seu senhor e senhora? O que era a Polônia para o czar? A Grécia para os turcos? A Índia para a Inglaterra? O que o México será para os Estados Unidos no final? Todos peixes soltos.
O que são os Direitos do Homem e as Liberdades do Mundo, senão peixe solto? As opiniões e os juízos dos homens, senão peixe solto? O que é o princípio religioso, dentro deles, senão peixe solto? O que são as ideias dos pensadores para os verborrágicos pomposos, senão peixe solto? O que é o próprio imenso globo, senão peixe solto? E o que é você, leitor, senão peixe solto e também peixe preso?
Herman Melville, in Moby Dick