quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Presságio

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…
Fernando Pessoa

A morte viva

O pensamento da morte não tem nada de fúnebre, como pensam os supersticiosos.
Nada tem ele a ver com a morte e sim com a vida; é ele que empresta a cada instante nosso este preço único, todo esse encantamento agradecido que os tímidos desconhecem...
A morte é o aperitivo da vida.
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

Armandinho


Afastamento da natureza

Tua alma e tudo que há de ígneo incorporado em ti, ainda que por natureza tendam a elevar-se, submetem-se aqui ao conjunto de que fazem parte, obedientes à disposição do universo. E também tudo que é de natureza térrea e aquosa, embora sua tendência seja cair mantém-se elevado e ocupa a posição que não é a de sua natureza. Assim, então, os elementos obedecem ao todo, pois desde que foram fixados em certo lugar permanecem ali por força, até o momento em que for dado novamente o sinal de dissolução. Não é iníquo, então que só a tua parte racional seja desobediente e proteste contra o lugar que lhe coube? E todavia nada lhe é imposto por força, mas somente o que é conforme à sua natureza; ela, porém, não se submete, mas é levada na direção oposta. Esse movimento no sentido da injustiça e intemperança e cólera e aflição e medo nada é senão um afastamento da natureza. E ainda quando a razão está descontente com algo que acontece, afasta-se também de seu próprio lugar, pois foi constituída para a piedade e religiosidade, não menos que para a justiça. Essas qualidades apresentam-se sob o aspecto de sociabilidade e são ainda mais respeitáveis que as ações justas.”
Marco Aurélio, in Meditações

As cercas de Miúdo

A paixão de Miúdo eram as cercas. Vovô Jake estava convencido de que as incríveis espichadas no crescimento de Miúdo entre as idades de cinco e nove anos ocorreram pelo fato de ele desejar tanto construir cercas que se forçou a crescer o bastante para poder manipular as ferramentas. Com 12 anos de idade, Miúdo construía cercas que qualquer mestre admiraria e, com 20 anos, suas cercas eram tão fortes e graciosas que os mesmos mestres forçados à inveja. Trabalhava com pedra, estaca de ponta, estaca cruzada e arame; mais do que todas, porém, gostava da tradicional cerca de ovelhas da Califórnia: uma tela de arame de 90 cm de altura estendida entre estacas de sequoia de 10 cm x 12,5 cm, tendo por cima um único fio de arame farpado. Gostava de trabalhar com arame porque este vibrava, e não havia nada que lhe desse satisfação mais profunda do que tanger o fio de arame farpado da parte de cima e ouvi-lo ressoar ao longo de todo o circuito da cerca. Lub Knowland chamava as cercas de “violões do Miúdo”, e alegava ter ouvido seus sons bem claros num dia especialmente límpido, enquanto pescava no lago Beeler, na parte leste das serras, a uns 300 quilômetros de distância. Muita gente, no entanto, deixava isso por conta das típicas cascatas de Lub Knowland.
Ninguém se surpreendia com o fato de Miúdo construir cercas muito bem-feitas, já que, por temperamento, ele era paciente e preciso. Mas ninguém entendia por que as construía. Miúdo e vovô não criavam nenhum animal, e desde que os coiotes tinham comido o negócio de ovelhas dos irmãos Bollen, dois anos antes, ninguém na vizinhança criava coisa alguma.
Uma noite, antes do jantar, vovô Jake lhe pegou no pé:
Se você não está cercando nada pra ficar do lado de cá, deve estar cercando alguma coisa pra ficar do lado de lá.
Mas Miúdo só sacudiu a cabeça e resmungou:
Hã, são só cercas, é o que gosto de fazer.
Vovô prosseguiu, mas deixou o assunto de lado, repetindo com um escárnio amistoso:
Só cercas, porra! É que nem dizer que o meu uísque só serve para se beber.
Jim Dodge, in Fup

Street Art: Mural do brasileiro Eduardo Kobra mostra a amizade de Mark Twain com o afrodescendente John T. Lewis, em Buffalo, EUA



quarta-feira, 13 de novembro de 2019

A repartição dos pães

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado – que fora da janela se balançava em acácias e sombras – eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-la na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado, ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.
Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem – menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos.
Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a bênção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós…
Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.
A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos – tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse.
Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera – mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar – um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. ‘Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.
Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.
Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tornava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos.
Pão é amor entre estranhos.
Clarice Lispector, in Felicidade clandestina

Hino à liberdade

Fora da liberdade, não sonhe ninguém a verdadeira prosperidade, material ou intelectual. Vós os que buscais na terra, amanhada com devoção, os tesouros, que vos oculta o seu seio inexaurível, não acrediteis que o trabalho possa medrar onde uns homens são servos de outros, onde a raça perde a sua virilidade no cativeiro, onde o torrão que se ara com amor se encrava nos desertos estéreis da escravidão. Vós os que vos tendes entregado às artes, às letras, às ciências, não esqueçais que de todas elas a mãe é a liberdade, e que sem esta o desenvolvimento daquelas é uma quimera fatal.
Do mundo antigo só não pereceram, para o cabedal estável do gênero humano, o cristianismo e a civilização grega, de que a romana é um longo reflexo. Mas o primeiro nos trouxe a liberdade no verbo divino da redenção pela justiça, pela tolerância, pela igualdade, e a segunda floresceu com a liberdade na eloquência, na filosofia, nas obras-primas da grande inspiração, nas supremas expressões humanas do belo.
Dezenas de séculos não lograram destruir a ânfora sagrada, que o gênio livre da Grécia inclinou à beira do mar Jônio; e é ainda ali que o pensamento busca hoje as suas origens, que os grandes renovadores da nossa cultura vão achar as fontes eternas, os modelos inimitáveis da transparência luminosa, da sinceridade e da natureza.
Rui Barbosa, in Antologia

O Teatro Mágico - Um Filme

Erro poético

Sou o açúcar
procurando a formiga.

Meu carreiro
não tem linha.
É um ponto, um planetário grão.

A minha natureza
é uma inacabada caligrafia:
apenas os erros me defendem.

O amor apenas
me rasura a alma.

Com a formiga
partilho alucinogênios:
migas de paixão, migalhas de doçura.
Mia Couto

Manhã


Mergulhei numa comprida manhã de inverno. O açude apojado, a roça verde, amarela e vermelha, os caminhos estreitos mudados em riachos, ficaram-me na alma. Depois veio a seca. Árvores pelaram-se, bichos morreram, o sol cresceu, bebeu as águas, e ventos mornos espalharam na terra queimada uma poeira cinzenta. Olhando-me por dentro, percebo com desgosto a segunda paisagem. Devastação, calcinação. Nesta vida lenta sinto-me coagido entre duas situações contraditórias — uma longa noite, um dia imenso e enervante, favorável à modorra. Frio e calor, trevas densas e claridades ofuscantes.
Naquele tempo a escuridão se ia dissipando, vagarosa. Acordei, reuni pedaços de pessoas e de coisas, pedaços de mim mesmo que boiavam no passado confuso, articulei tudo, criei o meu pequeno mundo incongruente. Às vezes as peças se descolocavam — e surgiam estranhas mudanças. Os objetos se tornavam irreconhecíveis, e a humanidade, feita de indivíduos que me atormentavam e indivíduos que não me atormentavam, perdia os característicos.
Bem e mal ainda não existiam, faltava razão para que nos afligissem com pancadas e gritos. Contudo as pancadas e os gritos figuravam na ordem dos acontecimentos, partiam sempre de seres determinados, como a chuva e o sol vinham do céu. E o céu era terrível, e os donos da casa eram fortes. Ora, sucedia que minha mãe abrandava de repente e meu pai, silencioso, explosivo, resolvia contar-me histórias. Admirava-me, aceitava a lei nova, ingênuo, admitia que a natureza se houvesse modificado. Fechava-se o doce parêntese — e isto me desorientava.
Na manhã de inverno as cercas e as plantas quase se dissolviam, a neblina vestia o campo, dos montes de lixo do quintal subia fumaça, pingos espaçados caíam das goteiras, a cruviana mordia a gente. Sapatões de vaqueiros depositavam grossas camadas de barro no tijolo. Roupas molhadas deixavam manchas largas nos bancos do copiar. As paredes úmidas enegreciam. Deitava-me na rede, encolhia-me, enrolava-me nas varandas. Um candeeiro de querosene lambia a névoa com labaredas trêmulas.
Alguns viventes idosos chegavam, sumiam-se, tornavam a manifestar-se depois de longas ausências. De um deles, meu avô paterno, ficaram notícias vagas e um retrato desbotado no álbum que se guardava no baú. Legou-me talvez a vocação absurda para as coisas inúteis. Era um velho tímido, que não gozava, suponho, muito prestígio na família. Possuíra engenhos na mata; enganado por amigos e parentes sagazes, arruinara e dependia dos filhos. Às vezes endireitava o espinhaço, o antigo proprietário ressurgia, mas isto, rabugice da enfermidade, findava logo e o pobre homem resvalava na insignificância e na rede. Bom músico, especializara-se no canto. Em recordação imprecisa, revejo mulheres ajoelhadas em redor de um oratório. Meu avô, em pé, cantava — e havia-se tornado enorme. Como podia uma pessoa gritar de semelhante maneira? A grandeza e a harmonia singular hoje desdobram a figura gemente e mesquinha, de ordinário ocupada, apesar da moléstia, em fabricar miudezas. Tinha habilidade notável e muita paciência. Paciência? Acho agora que não é paciência. É uma obstinação concentrada, um longo sossego que os fatos exteriores não perturbam. Os sentidos esmorecem, o corpo se imobiliza e curva, toda a vida se fixa em alguns pontos — no olho que brilha e se apaga, na mão que solta o cigarro e continua a tarefa, nos beiços que murmuram palavras imperceptíveis e descontentes. Sentimos desânimo ou irritação, mas isto apenas se revela pela tremura dos dedos, pelas rugas que se cavam. Na aparência estamos tranquilos. Se nos falarem, nada ouviremos ou ignoraremos o sentido do que nos dizem. E como há frequentes suspensões no trabalho, com certeza imaginarão que temos preguiça. Desejamos realmente abandoná-lo. Contudo gastamos uma eternidade no arranjo de ninharias, que se combinam, resultam na obra tormentosa e falha. Meu avô nunca aprendera nenhum ofício. Conhecia, porém, diversos, e a carência de mestre não lhe trouxe desvantagem. Suou na composição das urupemas. Se resolvesse desmanchar uma, estudaria facilmente a fibra, o aro, o tecido.
Julgava isto um plágio. Trabalhador caprichoso e honesto, procurou os seus caminhos e executou urupemas fortes, seguras. Provavelmente não gostavam delas: prefeririam vê-las tradicionais e corriqueiras, enfeitadas e frágeis. O autor, insensível à crítica, perseverou nas urupemas rijas e sóbrias, não porque as estimasse, mas porque eram o meio de expressão que lhe parecia mais razoável. Meu avô materno, alto, magro, de cabelos e barba como pasta de algodão, muito se diferençava dessa criatura achacada: não desperdiçava tempo em cantiga nem se fatigava em miuçalhas. De perneiras, gibão e peitoral, as abas do chapéu de couro, repuxado para a nuca, a emoldurar-lhe o rosto vermelho, impunha-se. A voz lenta, nasal, pigarreada pelo excesso de tabaco, rolava com um ronrom descontente que nos arranhava os ouvidos, depois se insinuava, se adocicava, tomava a consistência de goma. Tínhamos a impressão de que a fala ranzinza nos acariciava e repreendia. Os gestos eram vagarosos. Homem de imenso vigor, resistente à seca, ora na prosperidade, ora no desmantelo, reconstruindo corajoso a fortuna, em geral não se expandia. Escutava sereno as conversas, o lenço encarnado no ombro ou nos joelhos, o olho azul perdido na capoeira familiar, percebendo sinais invisíveis ao observador comum. Possuía conhecimentos infusos a respeito de tudo quanto se refere a bichos: indicava com segurança as crias das vacas paridas no mato, adivinhava o peso exato dos bois de era. Para vender o seu gado nunca precisou de balança. Esse avô bárbaro dispensava ao civilizado, artífice e cantor, exageros de atenção, em que havia talvez surpresa, desdém, o receio de magoá-lo, estragá-lo com as mãos duras.
Minha avó, grave, ossuda, tinha protuberâncias na testa e bugalhos severos. Anos depois contou-me desgostos íntimos: o marido, ciumento, afligira-a demais. Só aí me inteirei de que ela havia sofrido e era boa, mas na época do ciúme e da tortura não lhe notei a bondade.
Existia também um casal de bisavós: uma santa morena e encarquilhada, um velhinho autoritário que embirrava com meu pai.
Além dessas pessoas e dos moradores da fazenda, surgiam no pátio ciganos em magotes, vaqueiros encourados, aboiando, algum raro viajante. Dois passageiros conservaram-se nos relatos da família. O primeiro, um cabra macambúzio e suspeito, foi mal recebido. Minha mãe espiou a vizinhança, buscando Amaro ou José Baía, e sentou-se num canto da sala, perto das armas de fogo. O tipo acocorou-se à porta. E assim permaneceram, ele ferindo a pederneira com o fuzil, chupando o cigarro, ela observando-lhe os movimentos, defendida pelos bacamartes, confiante na firmeza da mão e na pontaria. À tarde o cabra macambúzio declarou a meu pai que a dona era reimosa.
O outro visitante apareceu duas ou três vezes, cochichou demorado no copiar e sumiu-se levando algumas dezenas de mil-réis. Esse dinheiro significava o imposto dos proprietários rurais aos numerosos grupos de cangaceiros que percorriam o sertão, pouco exigentes comparados aos posteriores. Mediante algumas cédulas, uma novilha ou marra, obtinham-se dedicações, amizades proveitosas. Quando nos mudamos para a vila, cinco ou seis bandoleiros que transitavam pelos arredores saíram do caminho, embrenharam-se na catinga, para não assustar a mulher e as crianças.
Ausentes os hóspedes e os passageiros, caíamos no ramerrão fastidioso.
Os mesmos trabalhos de pega, ferra, ordenha; ferrolhos rangendo pela madrugada e ao escurecer; vozes ásperas, exigências curtas, ordens incompreensíveis. Por toda a parte despojos de animais: ossos branquejando nas veredas, caveiras de bois espetadas em estacas, couros espichados, malas de couro, surrões de couro, roupas de couro suspensas em tornos, chocalhos com badalos de chifre, montes de látegos, relhos, arreios, cabrestos de cabelo.
Agora o mundo se retirava além do monturo do quintal, mas não nos aventurávamos a penetrar nessa região desconhecida. O pé-de-turco era o meu refúgio. As meninas arrastavam-se no alpendre e na cozinha. O moleque José começava a revelar-se. Minha irmã natural se desenvolvia, recebendo com frequência arranhões nos melindres. A aversão que inspirava traduzia-se em remoques e muxoxos; quando tomava feição agressiva, fazia ricochete e vinha atingir-nos. Se não existisse aquele pecado, estou certo de que minha mãe teria sido mais humana. De fato meu pai mostrava comportar-se bem. Mas havia aquela evidência de faltas antigas, uma evidência forte, de cabeleira negra, beiços vermelhos, olhos provocadores. Minha mãe não dispunha dessas vantagens. E com certeza se amofinava, coitada, revendo-se em nós, percebendo cá fora, soltos dela, maltratando-nos. Julgo que aguentamos cascudos por não termos a beleza de Mocinha.
Graciliano Ramos, in Infância

Um ditador

Decidi visitar a Guatemala e fui para lá de automóvel. Passamos pelo istmo de Tehuantepec, região dourada do México, com mulheres vestidas como pássaros e um cheiro de mel e açúcar no ar. Em seguida entramos na grande selva de Chiapas. De noite detínhamos o veículo, assustados pelos ruídos, pela telegrafia da selva. Milhares de cigarras emitiam um ruído violento, planetário, som inacreditável. O misterioso México estendia sua sombra verde sobre antigas construções, sobre pinturas remotas, jóias e monumentos, cabeças colossais, animais de pedra. Tudo isto jazia na selva, na milionária existência do inaudito mexicano. Passada a fronteira, no alto da América Central, o estreito caminho da Guatemala vislumbrou-me com suas lianas e folhagens gigantescas; e em seguida com seus lagos plácidos no alto como olhos esquecidos por deuses extravagantes e por último com pinheirais e amplos rios primordiais em que assomavam como seres humanos, fora d'água, rebanhos de sirênios e manatis.
Passei uma semana convivendo com Miguel Ángel Asturias, que ainda não havia se revelado com suas novelas de sucesso. Compreendemos que tínhamos nascido irmãos e raro era o dia em que não nos víamos. De noite planejávamos visitas inesperadas a paragens distantes de serras envoltas pela névoa ou a portos tropicais da United Fruit.
Os guatemaltecos não tinham direito a falar e nenhum deles falava de política diante do outro. As paredes tinham ouvidos e delatavam. Em certas ocasiões detínhamos o carro no alto de uma meseta e ali, bem seguros de que não tinha ninguém atrás de uma árvore, tratávamos avidamente da situação.
O caudilho chamava-se Ubico e governava há muitíssimos anos. Era um homem corpulento, de olhar frio, consequentemente cruel. Ele ditava a lei e nada se fazia na Guatemala sem ordem sua. Conheci um de seus secretários, agora amigo meu, revolucionário. Por ter discutido algo com ele, um pequeno detalhe, fez com que o amarrassem ali mesmo a uma coluna da sala de despacho presidencial e o açoitou sem piedade.
Os poetas jovens pediram um recital de minha poesia. Enviaram um telegrama a Ubico solicitando a autorização. Todos os meus amigos e os jovens estudantes enchiam o local. Li com gosto meus poemas porque parecia-me que entreabriam a janela daquela prisão tão vasta. O chefe de polícia sentou-se conspicuamente na primeira fila. Logo soube que quatro metralhadoras estavam apontadas para mim e para o público e que funcionariam caso o chefe de polícia abandonasse ostensivamente sua poltrona e interrompesse o recital.
Mas nada aconteceu pois o sujeito ficou até o fim ouvindo meus versos.
Depois quiseram apresentar-me ao ditador, homem inflamado por loucura napoleônica. Deixava uma mecha sobre a fronte, retratando-se com frequência na pose de Bonaparte. Disseram-me que era perigoso recusar tal sugestão mas eu preferi não lhe dar a mão e regressei rapidamente ao México.
Pablo Neruda, in Confesso que vivi

terça-feira, 12 de novembro de 2019

A ironia no traço do polonês Pawel Kuczynski


Mãe sem dia

As mães que já o eram antes de ser instituído o Dia das Mães não se importam muito com ele, e até dispensam homenagens sob esse pretexto. Mas as que cumpriram a maternidade após a sua criação pensam de outro modo, e amam a data.
Edwiges, mãe recente, com filho de ano e meio de idade, não tinha quem celebrasse o seu Dia, pois a criança estava longe de poder fazê-lo.
Comprar para si mesma um presente não tinha graça, e além do mais não havia dinheiro para isso. Aderir à festa das outras mães, que tinham filhos grandes e recebiam homenagens, era como furtar alguma coisa, o que repugnava a Edwiges.
Adormeceu e teve um sonho. O filho crescia velozmente diante de seus olhos e, chegando aos dezoito anos, levava para ela o mais lindo ramo de crisandálias e pequeno estojo de veludo.
Abriu-o com sofreguidão e deparou com uma aliança em que estava gravado um nome diferente do seu. Notando-lhe a surpresa, o filho pediu desculpas. O anel era para a namorada, só as flores lhe pertenciam. E saiu correndo com o estojo e o anel para entregá-los à moça.
Mãe solteira, Edwiges ficou com as crisandálias o tempo daquele sonho. Seu Dia das Mães consistiu em lembrar o sonho.
Carlos Drummond de Andrade, in Contos plausíveis

A morte e a morte de Quincas Berro D’Água - V

O conselho de família não durou muito tempo. Discutiam na mesa de um restaurante na Baixa dos Sapateiros. Pela rua movimentada passava a multidão, álacre e apressada. Bem em frente, um cinema. O cadáver ficara entregue aos cuidados de uma empresa funerária, propriedade de um amigo do tio Eduardo. Vinte por cento de abatimento. Tio Eduardo explicava:
Caro mesmo é o caixão. E os automóveis, se for acompanhamento grande. Uma fortuna. Hoje não se pode nem morrer.
Ali por perto haviam comprado uma roupa nova, preta (a fazenda não era grande coisa, mas, como dizia Eduardo, para ser comida pelos vermes estava até boa demais), um par de sapatos também pretos, camisa branca, gravata, par de meias. Cuecas não eram necessárias. Eduardo anotava num caderninho cada despesa feita. Mestre na economia, seu armazém prosperava.
Nas mãos hábeis dos especialistas da agência funerária, Quincas Berro Dágua ia voltando a ser Joaquim Soares da Cunha, enquanto os parentes comiam peixada no restaurante e discutiam sobre o enterro. Discussão mesmo só houve em torno de um detalhe: de onde sair o caixão.
Vanda pensara levar o cadáver para casa, realizar o velório na sala, oferecendo café, licor e bolinhos aos presentes, durante a noite. Chamar padre Roque para a encomendação do corpo. Realizar o enterro pela manhã cedo, de tal maneira que pudesse vir muita gente, colegas de Repartição, velhos conhecidos, amigos da família. Leonardo opusera-se. Para que levar o defunto para casa? Para que convidar vizinhos e amigos, incomodar um bocado de gente? Só para que todos eles ficassem recordando as loucuras do finado, sua vida inconfessável dos últimos anos, para expor a vergonha da família ante todo mundo? Como sucedera naquela manhã na Repartição. Não se havia falado noutra coisa. Cada um sabia uma história de Quincas e a contava entre gargalhadas. Ele próprio, Leonardo, nunca imaginara que o sogro houvesse feito tantas e tais. Cada uma de arrepiar... Sem levar em conta que muitas daquelas pessoas acreditavam Quincas morto e enterrado ou bem vivendo no interior do Estado. E as crianças? Veneravam a memória de um avô exemplar, descansando na santa paz de Deus, e, de repente, chegariam os pais com o cadáver de um vagabundo debaixo do braço, atiravam com ele no nariz dos inocentes. Sem falar na trabalheira que iam ter, na despesa a aumentar, como se já não bastasse a do enterro, da roupa nova, do par de sapatos. Ele, Leonardo, estava necessitando de um par de sapatos, no entanto mandara botar meia-sola nuns velhíssimos para economizar. Agora, com aquele desparrame de dinheiro, quando poderia pensar em sapatos novos?
Tia Marocas, gordíssima, adorando a peixada do restaurante, era da mesma opinião:
O melhor é espalhar que ele morreu no interior, que chegou um telegrama. Depois a gente convida para a missa de sétimo dia. Vai quem quiser, a gente não é obrigada a dar condução.
Vanda suspendeu o garfo:
Apesar dos pesares, é meu pai. Não quero que seja enterrado como um vagabundo. Se fosse seu pai, Leonardo, você gostava?
Tio Eduardo era pouco sentimental:
E o que ele era senão um vagabundo? E dos piores da Bahia. Nem por ser meu irmão posso negar...
Tia Marocas arrotou, o bucho farto, o coração também:
Coitado do Joaquim... Tinha bom gênio. Não fazia nada por mal. Gostava dessa vida, é o destino de cada um. Desde menino era assim. Uma vez, tu lembra, Eduardo?... quis fugir com um circo. Levou uma surra de arrancar o pêlo – bateu na coxa de Vanda a seu lado, como a desculpar-se. – E tua mãe, minha querida, era um bocado mandona. Um dia ele arribou. Me disse que queria ser livre como um passarinho. A verdade é que ele tinha graça. Ninguém achou graça. Vanda fechara o rosto, obstinava-se:
Não estou defendendo ele. Muito nos fez sofrer, a mim e a minha mãe, que era mulher de bem. E a Leonardo. Mas nem por isso quero que seja enterrado como um cão sem dono. O que é que iriam dizer quando soubessem? Antes de dar pra doido, era pessoa considerada. Deve ser enterrado direito.
Leonardo olhou-a suplicante. Sabia não adiantar discutir com Vanda, ela acabava sempre por impor suas opiniões e seus desejos. Também fora assim no tempo de Joaquim e Otacília, apenas um dia Joaquim largou tudo e ganhou o mundo. Que jeito, senão arrastar com o cadáver para casa, sair avisando conhecidos e amigos, convocar gente por telefone, passar a noite acordado, ouvindo contar coisas de Quincas, os risos em surdina, as piscadelas de olho, tudo isso durando até a saída do enterro? Aquele sogro amargurara-lhe a vida, dera-lhe os maiores desgostos. Leonardo vivia no receio de mais uma das dele, de abrir o jornal e deparar com a notícia de sua prisão por vagabundagem, como sucedera uma vez. Nem queria se recordar daquele dia quando, a instâncias de Vanda, andou pela polícia, mandado de um lado para outro, até encontrar Quincas no porão da Central, de cuecas e descalço, a jogar tranquilamente com ladrões e vigaristas. E depois de tudo isso, quando pensava finalmente respirar, ainda tinha de suportar aquele cadáver todo um dia e uma noite, e em sua casa... Mas Eduardo tampouco estava de acordo e era uma opinião de peso, já que o comerciante concordara em dividir as despesas do enterro:
Tudo isso está muito bem, Vanda. Que ele seja enterrado como um cristão. Com padre, de roupa nova, coroa de flores. Não merecia nada disso, mas, afinal, é teu pai e meu irmão. Tudo isso está bem. Mas por que meter o defunto em casa...
Por quê? – repetiu Leonardo num eco.
...incomodar meio mundo, ter de alugar seis ou oito automóveis para o acompanhamento? Sabe quanto custa cada um? E o transporte do cadáver do Tabuão para Itapagipe? Uma fortuna. Por que o enterro não sai daqui mesmo? Vamos nós de acompanhamento. Basta um carro. Depois, se vocês fizerem questão, a gente convida para a missa de sétimo dia.
Comunica que ele morreu no interior – tia Marocas não abandonava sua proposta.
Pode ser. Por que não?
E quem vela o corpo?
A gente mesmo. Pra que mais?
Vanda terminou cedendo. Em verdade – pensou –, a ideia de levar o cadáver para casa era um exagero. Só ia dar trabalho, despesa e aborrecimento. O melhor era enterrar Quincas o mais discretamente possível, comunicar depois o fato aos amigos, convidá-los para a missa de sétimo dia. Assim ficou acertado. Pediram a sobremesa. Um alto-falante berrava próximo as excelências do plano de vendas de uma companhia imobiliária.
Jorge Amado, in A morte e a morte de Quincas Berro D’Água

Afiando o cálamo


Afiar o cálamo ou a ponta da haste da pena de ganso com que escreveria deve ter ajudado muito escritor a pensar na primeira frase. Não fazemos outra coisa senão repetir este ritual de preparação, ou protelação, da primeira frase, dando uma atenção neurótica aos nossos instrumentos. Há os que apontam todos os seus lápis antes de começar a escrever, mesmo que depois escrevam a tinta. Os que transformam o correto enchimento de uma caneta-tinteiro (lembra caneta-tinteiro?) numa provação litúrgica, para merecerem a inspiração. Outros arrumam e rearrumam sua mesa de trabalho, numa espécie de oferenda aos deuses da simetria, para que eles retribuam organizando seus pensamentos. Por uma boa primeira frase faz-se tudo, e sei de gente que só escreve depois de um banho purificador, ou depois de passar meia hora atirando uma bola contra uma parede, ou de encher folhas e folhas com arabescos. (Dizem que aproveitaram tudo do Profeta: seus textos no Corão e seus rabiscos na decoração dos templos.) Mas nada se compara ao lento desbastamento de um cálamo, para pensar na primeira frase. Deve ser por isso que antigamente escreviam tanto, e tão melhor: quando acabavam de afiar as penas com capricho, todo o livro já estava pensado e pronto, s ó bastava botá-lo no papel. E como está provado que antigamente o tempo passava mais devagar, tudo se explica, ou tudo nos explica.
Não existe equivalente a afiar o cálamo para quem escreve num computador — salvo desmontar e remontar o aparelho, o que nenhum escritor sabe fazer. Ficamos reduzidos a manobras diversionistas: qualquer coisa para não enfrentar a primeira frase. Gostei de saber que o Chico Buarque também fica jogando paciência em vez de trabalhar. Nossa desculpa é que não estamos jogando, estamos distraindo a nossa atenção enquanto pensamos. Para evitar a primeira frase tenho me concentrado nos ícones do computador e agora mesmo — toda esta crônica, como já se percebeu, é um pretexto para não escrevê-la — me dei conta de que o símbolo para tempo no computador é uma ampulheta. Não a face de um relógio ou um quartzo pulsante, uma ampulheta! Quantas dessas crianças que já nascem com um notebook embaixo do braço sabem o que é uma ampulheta? E no entanto ali está ela, a única maneira que o computador encontrou de nos dizer para esperar um pouquinho. Um anacronismo desconcertante. Eram ampulhetas que os escritores de antigamente tinham ao seu lado, para lembrá-los dos prazos de entrega enquanto afiavam o cálamo. No fundo, mudou tudo no nosso ofício menos a angústia.
Pronto. Agora só me falta uma boa última frase.
Luís Fernando Veríssimo, in Banquete com os deuses

Morte de um pássaro

(Réquiem para Federico Garcia Lorca)

Ele estava pálido e suas mãos tremiam. Sim, ele estava com medo porque era tudo tão inesperado. Quis falar, e seus lábios frios mal puderam articular as palavras de pasmo que lhe causava a vista de todos aqueles homens preparados para matá-lo. Havia estrelas infantis a balbuciar preces matinais no céu deliquescente. Seu olhar elevou-se até elas e ele, menos que nunca, compreendeu a razão de ser de tudo aquilo. Ele era um pássaro, nascera para cantar. Aquela madrugada que raiava para presenciar sua morte, não tinha sido ela sempre a sua grande amiga? Não ficara ela tantas vezes a escutar suas canções de silêncio? Por que o haviam arrancado a seu sono povoado de aves brancas e feito marchar em meio a outros homens de barba rude e olhar escuro?
Pensou em fugir, em correr doidamente para a aurora, em bater asas inexistentes até voar. Escaparia assim à fria sanha daqueles caçadores maus que o confundiam com o milhafre, ele cuja única missão era cantar a beleza das coisas naturais e o amor dos homens; ele, um pássaro inocente, em cuja voz havia ritmos de dança.
Mas permaneceu em sua atonia, sem acreditar bem que aquilo tudo estivesse acontecendo. Era, por certo, um mal-entendido. Dentro em pouco chegaria a ordem para soltá-lo, e aqueles mesmos homens que o miravam com ruim catadura chegariam até ele rindo risos francos e, de braços dados, iriam todos beber manzanilla numa tasca qualquer, e cantariam canções de cante-hondo até que a noite viesse recolher seus corpos bêbados em sua negra, maternal mantilha.
As ordens, no entanto, foram rápidas. O grupo foi levado, a coronhadas e empurrões, até a vala comum aberta, e os nodosos pescoços penderam no desalento final. Lábios partiram-se em adeuses, murmurando marias e consuelos. Só sua cabeça movia-se para todos os lados, num movimento de busca e negação, como a do pássaro frágil na mão do armadilheiro impiedoso. O sangue cantava-lhe aos ouvidos, o sangue que fora a seiva mais viva de sua poesia, o sangue que tinha visto e que não quisera ver, o sangue de sua Espanha louca e lúcida, o sangue das paixões desencadeadas, o sangue de Ignácio Sánchez Mejías, o sangue das bodas de sangre, o sangue dos homens que morrem para que nasça um mundo sem violência. Por um segundo passou-lhe a visão de seus amigos distantes. Alberti, Neruda, Manolo Ortiz, Bergamín, Delia, María Rosa - e a minha própria visão, a do poeta brasileiro que teria sido como um irmão seu e que dele viria a receber o legado de todos esses amigos exemplares, e que com ele teria passado noites a tocar guitarra, a se trocarem canções pungentes.
Sim, teve medo. E quem, em seu lugar, não o teria? Ele não nascera para morrer assim, para morrer antes de sua própria morte. Nascera para a vida e suas dádivas mais ardentes, num mundo de poesia e música, configurado na face da mulher, na face do amigo e na face do povo. Se tivesse tido tempo de correr pela campina, seu corpo de poeta-pássaro ter-se-ia certamente libertado das contingências físicas e alçado voo para os espaços além; pois tal era sua ânsia de viver para poder cantar, cada vez mais longe e cada vez melhor, o amor, o grande amor que era nele sentimento de permanência e sensação de eternidade.
Mas foram apenas outros pássaros, seus irmãos, que voaram assustados dentro da luz da antemanhã, quando os tiros do pelotão de morte soaram no silêncio da madrugada.
Vinicius de Moraes, in Prosa

Almerio - Veja (Margarida)

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Jesus e a poligamia

Castigo terrível enviou Deus sobre os soldados do exército dos filisteus como punição por haverem roubado aquilo que de mais sagrado havia para o povo escolhido, a Arca onde estavam guardadas as tábuas com os dez mandamentos. O castigo terrível foi que todos os soldados filisteus foram atacados de hemorroidas. E diz o texto que o seu sofrimento era tão grande que os seus gemidos eram ouvidos de muito longe (1Sm 5,12). Pois, se eu fosse Deus, enviaria praga parecida contra todos os que espalham o boato de que ele tem uma câmara de torturas particular, para seu deleite eterno, chamada Inferno. Não posso imaginar nada mais horrendo que se possa falar contra Deus, pois é inimaginável que um Deus de amor castigue, com sofrimentos eternos, pecados que foram cometidos no tempo. E esses maledicentes ainda justificam seus boatos dizendo que Deus faz isso por ser justo, sem se dar conta de que a justiça divina é aquilo que Deus faz para curar a sua Criação de qualquer tipo de sofrimento. É Jesus que diz: “Se vós, sendo maus, sabeis dar presentes bons aos vossos filhos, quanto mais Deus!”.
Os meus argumentos não foram suficientes, e houve aqueles que me acusaram de heresia, por não acreditar no que está dito nos textos sagrados. Argumentam: “Não foi o próprio Jesus que contou a parábola do Rico e do Lázaro, o Lázaro indo para o Céu depois da morte e o Rico indo para o Inferno? Se Jesus falou, há de se acreditar”.
Pois eu acredito. Acredito nas parábolas como acredito nos poemas. Poemas e parábolas são metáforas que falam sobre os cenários da alma humana. Um psicanalista diria: são sonhos que lançam luz nos porões escuros do inconsciente. Lembro-me de uma mulher que me relatou que, num sonho, tinha um furúnculo dentro da cabeça, bem ao lado do ouvido, o furúnculo latejava e doía muito. Até que, repentinamente, o furúnculo começou a vazar pelo ouvido. E o que saía pelo ouvido — pasmem — não era pus. Saíam sementes de maracujá! Doido seria eu se interpretasse o sonho literalmente e enviasse a mulher a um neurocirurgião para extrair o dito furúnculo. Esse sonho foi uma estória por meio da qual o inconsciente dela lhe revelava, de maneira gentil e bem-humorada, um sofrimento e um prazer que ela se recusava conscientemente a compreender. É claro que não havia furúnculo algum dentro da sua cabeça. O furúnculo estava dentro da sua alma, que tratava de expelir as sementes de maracujá. O que eram elas, as sementes de maracujá? Noutro dia eu conto... Todo mundo sabe a estória de Davi, rei-poeta, que seduziu Betsebá, mulher de um dos seus generais, engravidando-a. Para esconder o seu pecado, mandou matar Urias, marido de Betsebá. Natan, profeta, dirigiu-se ao rei e lhe contou esta parábola: “Um homem tinha mil ovelhas. O seu vizinho tinha uma única ovelha, que ele muito amava. Pois o que tinha mil ovelhas, querendo comer um churrasco, roubou e matou a única ovelha do seu vizinho pobre”. Contada a parábola, o profeta perguntou ao rei: “Que castigo merece esse homem?”. Davi respondeu: “Que esse homem seja punido com a morte”. Ao que o profeta lhe disse: “Esse homem és tu”. O rico, dono de mil ovelhas, nunca existiu. Nem existiu o pobre, dono de uma ovelha. O profeta falou por meio de metáforas. Parábolas não têm o propósito de dar informações verdadeiras do mundo de fora. O seu objetivo é revelar o mundo de dentro.
O mesmo é para ser dito das parábolas de Jesus. O filho pródigo, o filho-modelo e o pai bondoso nunca existiram. E nunca existiu também a mulher que perdeu a moeda. Nem o bom samaritano e o pobre espancado pelos ladrões. Essas são estórias, nunca aconteceram. Nunca aconteceram porque acontecem sempre, na alma da gente. Quem acredita que elas aconteceram de fato, em algum lugar do passado, não está percebendo que elas falam sobre o que está acontecendo aqui, no presente.
Se vão acreditar nas parábolas literalmente, então há de se acreditar numa outra parábola que Jesus contou, sobre um homem que se casou com dez virgens, núpcias na mesma noite (Mt 25,1-12). Se essa parábola for interpretada literalmente, ela está dizendo que Jesus aprovava a poligamia... E se isso é verdadeiro para o Reino dos Céus, tem de ser verdadeiro também para a terra…
Rubem Alves, in Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo