sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Chapeuzinho Vermelho

A estória de Chapeuzinho Vermelho nos ensina preciosas lições políticas. Caminhando pela floresta, Chapeuzinho, tão bobinha, acredita na fala do lobo, escondido no meio das árvores. Assim é o povão: acredita em qualquer coisa. Se duvidam, sugiro que gastem um pouco do seu tempo olhando os programas religiosos na televisão. Esses programas poderiam ser usados para avaliar o grau de inteligência e educação da população. É assombroso aquilo em que se pode acreditar! Acredita-se em tudo, desde que um milagre seja prometido. Muito mais espertos que o lobo de antigamente, os lobos de agora valem-se da mais moderna tecnologia. Contratam “produtores de imagem”. O que é um “produtor de imagem”? É um profissional de estética que faz operações plásticas na imagem do candidato de forma que ele deixe de ser o que era, naturalmente, e fique parecido com a imagem que o povo deseja. Pois o lobo, já com a vovozinha dentro da barriga – (Voz gutural: “Que grande goela a minha! Engoli a velha inteirinha!”) –, “fantasiou-se” de vovozinha. “Toc, toc, toc...”, Chapeuzinho bateu à porta. “Quem bate sem ordem minha?”, pergunta o lobo com voz grossa. “Sou eu, Chapeuzinho...” O produtor de imagem que se escondia atrás da cabeceira da cama lhe disse logo: “Mude a voz, mude a voz...”. E sua voz gutural se transforma na trêmula voz de uma velhinha indefesa: “Pode entrar, minha netinha”. Chapeuzinho conhecia a vovó muito bem. Aproxima-se da cama e, pasmem!, não percebe a diferença. As orelhas, os olhos, o focinho, os dentes, os pelos na pata, o cheiro de corrupção, tudo dizia: “Fuja! Não é a vovozinha! É o lobo!”. Mas Chapeuzinho era muito burra, muito burrinha mesmo. Como o povão que vê televisão, ela acreditava na “imagem”. Na estória, os caçadores salvam a tonta. Mas acho que não merecia ser salva. O lobo era mais inteligente que ela. A burrice não merece ser salva. Essa estória dá duas lições negativas às crianças. A primeira é que nem sempre é sábio fazer o que a mãe manda. Uma mãe que manda uma filha por uma floresta onde havia um lobo só pode ser louca. Maternidade não é garantia de sanidade. A segunda é uma lição mentirosa: que não importa ser burro porque os caçadores aparecem no fim para consertar o estrago. Na vida real o fim é outro. O lobo, juntamente com os caçadores e os produtores de imagem, comem Chapeuzinho Vermelho, como atestam esses anos de “democracia” no Brasil.
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

Verdade histórica?

Que diabo é a verdade histórica? Só algo que foi desenhado, e depois esse desenho estabelecido foi cercado de escuro para que a única imagem que pudesse ser vista, destacada, fosse esta que se quer mostrar como verdade. A tarefa é tirar todo o preto, saber o que é que ficou sem ser contado, sem ser mostrado.
José Saramago, in As palavras de Saramago

Um Café Lá em Casa com Heraldo do Monte e Nelson Faria

A aventura de um bandido

O importante era não ser preso logo. Gim se espremeu contra um vão de porta, os policiais pareciam correr em frente, mas de repente ouviu os passos retornarem, darem a volta pelo beco. Pulou fora rápido, em saltos leves.
Para ou a gente atira, Gim!
Está bom, vamos ver, atirem!”, pensava ele, e já estava fora do alcance dos tiros, a grandes passadas na beirinha dos degraus de pedra, despencando pelas vielas tortas da cidade velha. Acima da fonte saltou a balaustrada da rampa, e então ficou embaixo da arcada que amplificava o rumor dos passos.
Todo o circuito que lhe vinha à mente era para ser descartado: Lola não, Nilde não, Renée não. Dentro de pouco tempo eles estariam em toda a parte, batendo nas portas. Era uma noite suave, com nuvens tão claras que poderiam estar ali de dia, por cima das arcadas altas sobre as vielas.
Ao desembocar nas ruas largas da cidade nova, Mario Albanesi, dito Gim Bolero, freou um pouco seu impulso, enfiou por trás das orelhas os fiapos de cabelos que lhe tinham caído nas têmporas. Não se ouvia um passo. Andando decidido e discreto, chegou ao portão da casa da Armanda, subiu. A essa hora ela com certeza não tinha mais ninguém e estava dormindo. Gim bateu com força.
Quem está aí? — falou pouco depois uma irritada voz de homem. — A esta hora a gente está dormindo… — Era Lilin.
Abre um instante, Armanda, sou eu, o Gim — respondeu ele, não forte, mas decidido.
Armanda se vira na cama:
Hum, Gim, querido, já vou abrir para você, hum, o Gim está aí. — Segura o cordão na cabeceira da cama que faz a porta abrir, e puxa.
A porta cede, dócil. Gim vai pelo corredor, com as mãos nos bolsos, entra no quarto. Na grande cama de Armanda o corpo dela, pelos altos relevos do lençol, parece estar ocupando tudo. No travesseiro, o rosto sem pintura, embaixo da franjinha negra, se entrega em bolsas e rugas. Mais para lá, como que numa prega do cobertor num lado da cama, está deitado seu marido Lilin, que parece querer afundar no travesseiro a cara miúda e azulada para agarrar de novo o sono interrompido.
Lilin tem de esperar que o último cliente vá embora para poder se meter na cama e digerir o sono com que se abastece em seus preguiçosos dias. Não há nada no mundo que Lilin saiba ou queira fazer; é só ter o que fumar e fica sossegado. Armanda não pode dizer que Lilin lhe saia caro, a não ser pelos pacotes de fumo que queima em um dia. Sai com seu pacote de manhã, senta no sapateiro, no ferro-velho, no consertador de chaminé, enrola um papelzinho depois do outro e fuma, sentado naqueles banquinhos de oficina, as mãos de ladrão, lisas e longas, nos joelhos, o olhar mortiço, ouvindo tudo como um espião, quase nunca abrindo a boca durante as conversas, senão por frases breves e inesperados sorrisos tortos e amarelos. À noite, depois que a última oficina fecha, vai até a cantina e esvazia um litro, e queima os cigarros que restam, até que arriem as portas de aço. Sai, a mulher ainda está rondando pela avenida com a roupa caprichada, os pés inchados nos sapatos apertados. Lilin desponta numa esquina, manda-lhe um assobio baixinho, algumas frases ininteligíveis, para lhe dizer que já é tarde, venha para a cama. Ela, sem olhar para ele, no meio-fio da calçada como numa ribalta, o seio apertado na armadura de elástico e arame, o corpo de velha naquela roupa de garota, com um nervoso mexer da bolsa entre as mãos, um desenhar de círculos com os saltos dos sapatos no calçamento, um cantarolar improvisado, responde-lhe que não, que ainda tem gente passando, que ele vá embora e espere. É a corte que eles se fazem, todas as noites.
E então, Gim? — fala Armanda arregalando os olhos.
Ele já achou cigarros em cima da cômoda e acende.
Preciso passar a noite aqui, hoje.
E já vai tirando o paletó, afrouxando a gravata.
Está bom, Gim, vem para a cama. Você vai para o sofá, Lilin, vamos, Lilin meu bem, sai fora, deixa o Gim deitar.
Lilin fica um pouco ali como uma pedra, depois se levanta, soltando um lamento sem palavras articuladas, sai da cama, pega seu travesseiro, um cobertor, o fumo da mesinha de cabeceira, os papéis de enrolar, os fósforos, o cinzeiro.
Vai, Lilin meu bem, vai.
Ele se encaminha pequeno e curvado debaixo daquela carga para o sofá do corredor.
Gim tira a roupa fumando, pendura as calças bem dobradas, arruma o casaco numa cadeira junto da cabeceira, leva os cigarros da cômoda para a mesa de cabeceira, os fósforos, um cinzeiro, entra na cama. Armanda apaga a luz do abajur e suspira. Gim fuma. Lilin dorme no corredor. Armanda se vira. Gim apaga o cigarro no cinzeiro. Batem na porta.
Com uma das mãos Gim já está tocando o revólver no bolso do paletó, com a outra segura Armanda por um cotovelo, para que ela preste atenção. O braço de Armanda é gordo e macio; ficam parados assim um pouco.
Pergunta quem é, Lilin — fala Armanda, baixo.
Lilin bufa no corredor.
Quem está aí? — pergunta com maus modos.
Ei, Armanda, sou eu, Angelo.
Que Angelo? — ela fala.
Angelo, o sargento, Armanda, eu estava passando por aqui, pensei em subir… Pode abrir um minuto?
Gim já saiu da cama e faz sinal para ficarem quietos. Abre uma porta, olha o toalete, pega a cadeira com suas roupas e carrega com ele.
Ninguém me viu. Trata dele rápido — diz baixinho e se tranca no toalete.
Vem, Lilin, meu bem, volta para a cama, vamos, Lilin. — Armanda, deitada, dirige os deslocamentos.
Então, Armanda, quer me fazer esperar? — diz o outro da porta.
Com calma Lilin recolhe cobertor, travesseiro, fumo, fósforos, papéis de enrolar, cinzeiro, volta para a cama, enfia-se nela e puxa o lençol para cima dos olhos. Armanda agarra o cordão e abre a porta.
Entra Soddu, com seu aspecto amarfanhado de velho agente à paisana, os bigodinhos grisalhos no rosto gordo.
Você passeia até tarde, sargento — disse Armanda.
Oh, estava dando uma voltinha — disse Soddu —, e tive a ideia de vir visitar você.
O que é que você queria?
Soddu estava à cabeceira da cama, enxugava o rosto suado no lenço.
Nada, só uma visitinha. Novidades?
Novidades de quê?
Por acaso você não viu o Albanesi?
Gim? O que é que ele aprontou?
Nada. Esses rapazes… A gente queria perguntar uma coisa a ele. Você o viu?
Faz três dias.
Não. Agora.
Faz duas horas que estou dormindo, sargento. Mas por que você vem na minha casa? Vai no pessoal dele: a Rosy, a Nilde, a Lola…
Não adianta, quando faz uma besteira vai para longe.
Aqui não esteve. Fica para outra vez, sargento.
Pois é, Armanda, estava só perguntando, quero dizer que gostei de ter visitado você.
Boa noite, sargento.
Boa noite.
Soddu se voltou, mas nada de ir embora.
Eu estava pensando, já é madrugada e não vou mais andar por aí. Voltar para aquela cama de campanha não tenho vontade. Já que estou aqui, até que podia ir ficando, hein, Armanda?
Sargento, você continua sendo gente fina, mas a essa hora, para dizer a verdade, não estou mais recebendo, esta é que é a verdade, sargento, cada um tem seu horário.
Armanda, um amigo como eu. — Soddu já estava tirando o paletó, a camisa.
Você é gente fina, sargento; e se ficasse para amanhã de noite?
Soddu continuava a se despir:
É para fazer a manhã chegar, entende, Armanda? Então: dá um lugar para mim.
Quer dizer que Lilin vai para o sofá; levanta, Lilin, vamos, Lilin meu bem, vai indo.
Lilin mexeu as longas mãos no ar, procurou o fumo na mesinha, ergueu-se gemendo, saiu da cama quase sem abrir os olhos, pegou o travesseiro, o cobertor, os papéis de enrolar, os fósforos. “Vai, Lilin meu bem”, foi-se, arrastando o cobertor pelo corredor. E Soddu já se metia entre os lençóis.
A essa altura Gim olhava pela vidraça o céu ficando verde. Havia esquecido os cigarros em cima da mesinha de cabeceira, isso é que era chato. E agora aquele outro se metia na cama e ele tinha que ficar trancado até de manhã entre aquele bidê e aquelas caixas de talco sem poder fumar. Vestira-se em silêncio, penteara-se com capricho olhando-se no espelho da pia, do outro lado da muralha de perfumes e colírios e peras de borracha e remédios e inseticidas que guarneciam a prateleira. Leu algumas etiquetas à luz da janela, roubou uma caixa de pastilhas, depois continuou a inspeção do toalete. Não havia muitas descobertas a fazer: roupas numa bacia, outras estendidas. Começou a experimentar as torneiras do bidê; a água jorrou ruidosamente. E se Soddu ouvisse? Ao diabo Soddu e o xadrez. Gim estava entediado, perfumou o paletó com água-de-colônia, passou brilhantina. Bem, se não o prendiam hoje, prendiam amanhã, mas não havia flagrante, se tudo desse certo era logo solto. Esperar ali ainda duas, três horas sem cigarros, naquela toca… por que precisava fazer isso? Bem, seria liberado logo. Abriu um armário, rangeu. Ao diabo o armário e todo o resto. Dentro estavam pendurados vestidos de Armanda. Gim pôs seu revólver no bolso de um casaco de pele. “Depois venho buscar”, pensou, “isso daqui ela não vai usar até o inverno.” Tirou para fora a mão branca de naftalina. “Melhor: a traça não rói”, riu. Foi novamente lavar as mãos, e como as toalhas de Armanda lhe davam nojo, se enxugou num casaco do armário.

Soddu, deitado, tinha ouvido barulho daquele lado. Pousou uma das mãos em Armanda.
Quem está aí?
Ela se voltou para ele, pôs-lhe um braço grande e mole em torno da cabeça:
Nada… Quem havia de ser…
Soddu não queria se soltar, embora ouvisse movimento e perguntasse, como que brincando:
— …Quem está aí, hein?… hein, quem está aí?
Gim abriu a porta.
Vamos, sargento, não se faça de bobo, prenda-me.
Soddu esticou a mão para o revólver no paletó pendurado, mas sem se desencostar de Armanda.
Quem está aí?
Gim Bolero.
Mãos ao alto.
Estou desarmado, sargento, não banque o durão. Estou me entregando.
Estava de pé à cabeceira da cama, com o paletó nos ombros e as mãos meio erguidas.
Oh, Gim — murmurou Armanda.
Daqui a uns dias volto para ver você, Anda — falou Gim.
Soddu se levantava reclamando, enfiava as calças.
Maldito serviço… Nunca se pode ficar sossegado…
Gim pegou os cigarros da mesinha de cabeceira, acendeu, pôs o maço no bolso.
Quero fumar, Gim — disse Armanda, e se esticou levantando o peito mole.
Gim lhe pôs um cigarro na boca, acendeu-o, ajudou Soddu a vestir o paletó.
Vamos embora, sargento.
Quer dizer que fica para outra vez, Armanda — falou Soddu.
Até logo, Angelo — disse ela.
Até logo, hein, Armanda — disse de novo Soddu.
Tchau, Gim.
Foram-se. No corredor Lilin dormia, agarrado na borda do sofá acabado; nem se mexeu.
Armanda fumava sentada na cama grande; apagou o abajur porque uma luz cinzenta já estava entrando pelo quarto.
Lilin — chamou. — Vem, Lilin, vem para a cama, anda, Lilin meu bem, vem.
Lilin já apanhava o travesseiro, o cinzeiro.
Italo Calvino, in Os amores difíceis

Coitada da Norma, tão culta!

E a Norma, hein?
O que é que tem?
Você não soube? Anda mal falada.
A Norma? Depois de velha? Mas ela é tão culta!
Pois é. E com aquela pose toda, a mania de ditar regrinhas de bom comportamento, de corrigir todo mundo…
Mas o que foi que aconteceu?
Ora, o que aconteceu é que caiu a máscara da madame, né? Descobriram finalmente como ela é autoritária, elitista e preconceituosa. E pior, arbitrária, totalmente desconectada da realidade.
Puxa, eu sempre achei a Norma tão correta…
Correta demais, aí é que está. Era para desconfiar, acho que demorou. Parece que até aqueles amigos que ela se orgulhava de ter no ministério andam virando a cara para ela.
Ah, coitada. Eu sinto pena.
Pois eu acho ótimo. Nunca fiquei à vontade na presença da dona, sabia? Muitas vezes aconteceu de eu ter alguma coisa importante para falar e ficar com medo. Preferia nem abrir a boca.
Isso é verdade, a Norma sempre foi difícil.
Tá vendo? Nem você, que é meio puxa-saco, está disposto a defender a megera!
Estou, sim; defendo, sim. E você? Fica aí esculachando, mas até que está se expressando direitinho, do jeito que ela gosta.
Eu?
Você.
Ah, você não viu nada, meu amigo. A gente vamos barbarizar!
Sérgio Rodrigues, in Viva a língua brasileira

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A brasilidade no traço de Portinari

Árvore da Vida (1957), de Cândido Portinari

Luto pela bondade

Quero viver num mundo sem excomungados. Não excomungarei ninguém. Não diria, amanhã, a esse sacerdote: “Você não pode batizar ninguém porque é anticomunista.” Não diria ao outro: “Não publicarei o seu poema, o seu trabalho, porque você é anticomunista.” Quero viver num mundo em que os seres sejam simplesmente humanos, sem mais títulos além desse, sem trazerem na cabeça uma regra-, uma palavra rígida, um rótulo. Quero que se possa entrar em todas as igrejas, em todas as tipografias. Quero que não esperem ninguém, nunca mais, à porta do município para o deter e expulsar. Quero que todos entrem e saiam sorridentes da Câmara Municipal. Não quero que ninguém fuja em gôndola, que ninguém seja perseguido de motocicleta. Quero que a grande maioria, a única maioria, todos, possam falar, ler, ouvir, florescer. Nunca compreendi a luta senão como um meio de acabar com ela. Nunca aceitei o rigor senão como meio para deixar de existir o rigor. Tomei um caminho porque creio que esse caminho nos leva, a todos, a essa amabilidade duradoura. Luto pela bondade ubíqua, extensa, inexaurível. De tantos encontros entre a minha poesia e a polícia, de todos esses episódios e de outros que não contarei porque repetidos, e de outros que não aconteceram comigo, mas com muitos que já não poderão contá-los, resta-me no entanto uma fé absoluta no destino humano, uma convicção cada vez mais consciente de que nos aproximamos de uma grande ternura. Escrevo sabendo que sobre as nossas cabeças, sobre todas as cabeças, existe o perigo da bomba, da catástrofe nuclear, que não deixaria ninguém nem nada sobre a Terra. Pois bem: nem isso altera a minha esperança. Neste momento crítico, neste sobressalto de agonia, sabemos que entrará a luz definitiva pelos olhos entreabertos. Entender-nos-emos todos. Progrediremos juntos. E esta esperança é irrevogável.
Pablo Neruda, in Confesso que vivi

Com o amolador

Levei o envelope para casa e o entreguei à minha mãe e segui direto para o quarto. Meu quarto. A melhor coisa que havia ali era a cama. Gostava de ficar deitado por horas, mesmo durante o dia, com as cobertas puxadas até o queixo. Era bom ficar ali, nada acontecia por ali, nenhuma pessoa, nada. Minha mãe com frequência me encontrava enterrado na cama durante o dia.
Henry, se levante! Não é bom para um garoto da sua idade ficar deitado na cama o dia inteiro! Vamos, levante agora mesmo! Vá fazer alguma coisa!
Não havia, no entanto, nada para fazer.
Não fui para a cama naquele dia. Minha mãe estava lendo o bilhete. Logo a ouvi chorar. E depois começaram as lamentações.
Oh, meu Deus! Você desgraçou seu pai e a mim! É uma desgraça. Imagine se os vizinhos descobrirem? O que vão pensar?
Eles jamais falavam com seus vizinhos.
Então a porta se abriu, e mamãe entrou correndo no quarto:
Como você pôde fazer isso com sua pobre mãe?
Lágrimas corriam pela sua face. Senti-me culpado.
Espere até seu pai chegar em casa!
Bateu a porta do quarto e se sentou numa cadeira para esperar. De algum modo, eu me sentia culpado...
Escutei meu pai entrar. Ele sempre batia a porta, caminhava pesadamente e falava aos brados. Ele estava em casa. Depois de alguns instantes, a porta do quarto foi aberta. Tinha 1, 89 de altura, um homem grande. Tudo mais desapareceu: a cadeira em que eu estava sentado, o papel de parede, as próprias paredes, inclusive meus pensamentos. Ele era como a escuridão encobrindo o sol, a violência que ele exalava aniquilava por completo qualquer outra coisa. Ele era todo orelhas, nariz, boca, eu não podia olhar em seus olhos, havia apenas seu rosto vermelho e enfurecido.
Ok, Henry. Para o banheiro.
Entrei e ele fechou a porta atrás de nós. As paredes eram brancas. Havia um espelho e uma pequena janela cuja tela estava enegrecida e quebrada. Havia a banheira, a privada e os azulejos. Ele pegou o amolador da navalha que estava pendurado em um gancho. Seria a primeira de uma série de surras que viriam a ocorrer com mais e mais frequência. Sempre, eu sentia, sem qualquer razão evidente para esses espancamentos.
Certo, baixe as calças.
Baixei.
Baixe a cueca.
Também baixei.
Então ele me bateu com o amolador. O primeiro golpe me causou mais surpresa do que dor. O segundo doeu mais. Cada lambada que se seguia fazia com que a dor aumentasse. No início, ainda tinha consciência das paredes, da privada, da banheira. Por fim, já não enxergava mais nada. Enquanto me batia, aproveitava para me censurar, mas eu não conseguia entender uma palavra sequer. Pensei nas rosas que ele criava, em como ele as cultivava no pátio. Pensei no automóvel que ele tinha na garagem. Tentei não gritar. Eu sabia que se gritasse talvez o fizesse parar, mas por ter consciência disso, por ter consciência de que era justamente esse o seu desejo, eu me segurava. As lágrimas escorriam dos meus olhos enquanto eu permanecia em silêncio. Depois de um tempo, tudo se tornou um turbilhão, uma confusão, e o que restou foi apenas a terrível possibilidade de que aquilo durasse para sempre. Finalmente, como se um mecanismo tivesse sido acionado, comecei a soluçar, engolindo e me sufocando com a gosma salgada que descia pela garganta. Ele parou.
Ele não estava mais lá. Tomei novamente consciência da pequena janela e do espelho. Lá estava o amolador de navalha, pendurado no seu lugar, comprido e marrom e todo torcido. Não conseguia me dobrar para juntar minhas calças e minha cueca e segui caminhando até a porta, desajeitadamente, as roupas arriadas ao redor de meus pés. Abri a porta do banheiro e minha mãe estava em pé no corredor.
Isso não está certo – falei para ela. – Por que você não me ajudou?
O pai – ela disse – está sempre certo.
Então minha mãe se afastou. Fui para o meu quarto, arrastando as roupas nos pés, e me sentei na beirada da cama. O contato com o colchão me doía. Lá fora, através da janela dos fundos, eu podia ver as rosas do meu pai crescendo. Elas eram vermelhas e brancas e amarelas, grandes e viçosas. O sol já ia baixo, mas ainda não havia se posto, e seus últimos raios penetravam ainda pela janela. Tive a impressão de que até mesmo o sol pertencia a meu pai, que eu não tinha nenhum direito sobre ele porque iluminava a casa do meu pai. Eu era como suas rosas, algo que pertencia a ele e não a mim...

Na hora em que me chamaram para o jantar eu consegui puxar minhas roupas e caminhar até a pequena mesa em que fazíamos todas as nossas refeições exceto aos domingos. Havia dois travesseiros sobre o assento da minha cadeira. Sentei em cima deles, mas minhas pernas e minha bunda ainda ardiam. Meu pai falava sobre o seu trabalho, como sempre.
Disse para o Sulivan combinar três rotas em duas e deixar um homem fazer cada deslocamento. Ninguém está dando tudo de si por lá...
Eles deviam ouvi-lo, paizinho – disse minha mãe.
Por favor – eu disse –, por favor, me deem licença, mas não sinto vontade de comer…
Você vai comer sua COMIDA! – disse meu pai. – Sua mãe preparou essa comida!
Sim – disse minha mãe –, cenouras, ervilhas e rosbife.
E o purê de batatas com molho de carne – disse meu pai.
Não sinto fome.
Você vai comer cada cenoura e cada ervilha em seu prato! – disse meu pai.
Ele tentava ser engraçado. Esta era uma de suas observações favoritas.
PAIZINHO! – disse minha mãe, chocada e espantada.
Comecei a comer. Era terrível. Sentia como se os estivesse comendo, comendo as coisas em que acreditavam, aquilo que eles eram. Não mastiguei os alimentos, engoli-os apenas, como que para me livrar da obrigação. Nesse meio tempo, meu pai falava de como aquela comida estava saborosa, de como tínhamos sorte de ter o que comer enquanto a maior parte das pessoas do mundo, e mesmo muitos americanos, viviam na miséria e passavam fome.
O que temos para a sobremesa, mamãe? – perguntou meu pai.
Seu rosto estava horrível, os lábios num biquinho, gordurosos e molhados de prazer. Ele agia como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse me espancado. Quando voltei ao meu quarto, pensei: essas pessoas não são meus pais, devem ter me adotado e agora não estão satisfeitos com o que me tornei.
Charles Bukowski, in Misto-quente

Serenidade

Buster Keaton

As caretas do Charlton Heston — pelo menos a mim — não dizem nada, mas até hoje, passados tantos anos, impressiona-me a cara de pau de Buster Keaton. Quem havia de dizer que o primeiro lembra mais o seu antepassado simiesco e o segundo uma estátua grega? Essa misteriosa serenidade que há por detrás de toda verdadeira arte é que nos faz curtir os clímax mais trágicos. E, quando conseguimos transportá-la a nós, é ela que nos faz aceitar este mundo tal como ele é.
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

Antiperipléia

- E o senhor quer me levar, distante, às cidades? Delongo. Tudo, para mim, é viagem de volta. Em qualquer ofício, não; o que eu até hoje tive, de que meio entendo e gosto, é ser guia de cego: esforço destino que me praz.
E vão me deixar ir? Em dês que o meu cego seô Tomé se passou, me vexam, por mim puxam, desconfiam discorrendo. Terra de injustiças.
Aqui paramos, os meses, por causa da mulher, por conta do falecido. Então, prendam a mulher, apertem com ela, o marido rufião, aí esses expliquem decerto o que nem se deu. A mulher, terrível. Delegado segure a alma do meu seô Tomé cego, se for capaz! Ele amasiava oculto com a mulher, Sa Justa, disso alguém teve ar? Eu provia e governava.
Mas não cismo como foi que ele no barranco se derrubou, que rendeu a alma. Decido? Divulgo: que as coisas começam deveras é por detrás, do que há, recurso; quando no remate acontecem, estão já desaparecidas. Suspiros. Declaro, agora, defino. O senhor não me perguntou nada. Só dou resposta é ao que ninguém me perguntou.
Mulheres dôidas por ele, feito Jesus, por ter barba. Mas ele me perguntava, antes. — “É bonita?” Eu informava que sendo. Para mim, cada mulher vive formosa: as roxas, pardas e brancas, nas estradas. Dele gostavam — de um cego completo — por delas nem não poder devassar as formas nem feições? Seô Tomé se soberbava, lavava com sabão o corpo, pedia roupas de esmola. Eu, bebia.
Deandávamos, lugar a lugar, sem prevenir que já se estava no vir para aqui. Tenho culpas retapadas. A gente na rua, puxando cego, concerne que nem se avançar navegando — ao contrário de todos.
Patrão meu, não. Eu regia — ele acompanhava: pegando cada um em ponta do bordão, ocado com recheios de chumbo. Bebo, para impor em mim amores dos outros? Ralhavam, que, passado já de idade de guiar cego, à mão cuspida, mesmo eu assim, calungado, corcundado, cabeçudão. Povo sabe as ignorâncias. Então, eu, para também não ver, hei-de recordar o alheio? Bebo. Tomo, até me apagar, vejo outras coisas. Ele carecia de esperar, quando eu me perfazia bêbedo deitado. Me dava conselhos. Cego suplica de ver mais do que quem vê. Tinha inveja de mim: não via que eu era defeituoso feioso. Tinha ódio, porque só eu podia ver essas inteiras mulheres, que dele gostavam! Puxar cego é feito tirar um condenado, o de nenhum poder, mas que adivinha mais do que a gente? Amigos. O roto só pode mesmo rir é do esfarrapado. Me dava vontade de leve nele montar, sem freio, sem espora...
A gente cá chegou, pois é. A mulher viu o cego, com modos de não-digas, com toda a força guardada. Essa era a diversa, muito fulana: feia, feia apesar dos poderes de Deus. Mas queria, fatal. Ajoelhou para me pedir, para eu ao meu Seô Cego mentir. Procedi. — “Esta é bonita, a mais!” — a ele afirmei, meus créditos. O cego amaciou a barba. Ele passeou mão nos braços dela, arrojo de usos. Soprou, quente como o olho da brasa. Tive nenhum remorso. Mas os dois respiravam, choraram, méis, airosos.
Se encontravam, cada noite, eu arrumando para eles antes o redor, o amodo e o acômodo, e estava de longe, tomando conta. O marido desgostava dela, druxo homem, de estrambolias, nem vinha em casa. Alguém maldou? Cego esconde mais que qualquer um, qualquer logro. E quem vigia como eu? Ela me dava cachaças, comida. Ele me fiava a féria. Me tratavam. O que podia durar, assim, às estimas fartas?
A vida não fica quieta. Até ele se despenhar no escuro, do barranco, mortal. Vinha de em-delícias. A mulher aqui persiste — para miar aos cães e latir aos gatos. Que é que eu tenho com o caso... Todos fazem questão de me chamar de ladrão. Cego não é quem morre?
Todos tendo precisão de mim, nos intervalos. A mulher, maluca, instando que eu a ele reproduzisse suas porvindas belezas. Seô Tomé dessas sozinhas nossas não contrárias conversas tirando ciúme, com porfias e más zangas. Mas eu reportava falseado leal: que os olhos dela permitiam brilhos, um quilate dos dentes, aquelas chispas, a suma cor das faces. Seô Tomé, às barbas de truz, sorvia também o deleite de me descrever o que o amor, ele não desapaixonava. Só sendo cego quem não deve ver? Mas o marido, imoral, esse comigo bebia, queria mediante meus conluios pegar o dinheiro da sacola... Eu, bêbedo e franzino, ananho, tenho de emendar a doideira e cegueira de todos?
Deixassem — e eu deduzia e concertava. Mas ninguém espera a esperança. Vão ao estopim no fim, às tantas e loucas. Por mais, urjo; me entenda. Aqui, que ele se desastrou, os outros agravam de especular e me afrontar, que me deparo, de fecho para princípio, sem rio nem ponte.
Dia que deu má noite. Ele se errou, beira o precipício, caindo e breu que falecendo. Não pode ter sido só azares, cafifa? De ir solitário bravear, ciumado, boi em bufo, resvalou... e, daí, quebrado ensanguentado, terrível, da terra.
Ou o marido, ardido por matar e roubar — empuxou o outro abaixo no buracão — seu propósito? Cego corre perigo maior é em noites de luares...
E seô Tomé, no derradeiro, variava: falando que começava a tornar a enxergar! Delírios, de paixão, cobiçação, por querer, demais, avistar a mulher — os traços — aquela formosura que, nós três, no desafeio, a gente tinha tanto inventado. Entrevendo que ela era real de má-figura, ele não pode, desiludido em dor, ter mesmo suicidado, em despenho? O pior cego é o que quer ver... Deu a ossada.
Ou, ela, visse que ele ia ver, havia de mais primeiro querer destruir o assombroso, empurrar o qual, de pirambeira — o visionável! Caráter de mulher é caroços e cascas. Ela, no ultimamente, já se estremecia, de pavôres de amor, às vezes em que ele, apalpador, com fortes ânsias, manuseava a cara dela, oitivo, dedudo. Ar que acontece...
Se na hora eu estava embriagado, bêbedo, quando ele se despencou, que é que sei? Não me entendam! Deus vê. Deus atonta e mata. A gente espera é o resto da vida.
A mulher diz que me acusa do crime, sem avermelhação, se com ela eu não for ousado... O marido, terrível, supliquento, diz que eu é que fui o barregão... Terríveis, os outros, me ameaçam, às injúrias... O senhor não diz nada. Tenho e não tenho cão, sabe? Me prendam! Me larguem! A mulher esteja quase grávida. Me chamo Prudencinhano. Agora o cego não enxerga mais... A culpa cai sempre é no guiador?
Só se inda hei outras coisas, por ter, continuadas de recomeçar; então Deus não é mundial? Temo que eu é que seja terrível.
E o senhor ainda quer me levar, às suas cidades, amistoso?
Decido. Pergunto por onde ando. Aceito, bem-procedidamente, no devagar de ir longe. Voltar, para fim de ida. Repenso, não penso. Dou de xingar o meu falecido, quando as saudades me dão. Cidade grande, o povo lá é infinito.
Vou, para guia de cegos, servo de dono cego, vagavaz, habitual no diferente, com o senhor, Seô Desconhecido.
Guimarães Rosa, in Tutameia

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Silva - Ainda Lembro

Buraco da fechadura

Sobraram em cena
diversas fotos calcinadas
do muito tempo que ficaram desamadas.
O verbo tombado de um verso recitado
que agora já não rima com mais nada;
um escapulário puído de tanto refrão arrependido,
o cabide desnudo no armário,
recém-despido de seu sobretudo,
uma garrafa aberta em data memoranda;
o relógio que perdeu a hora certa.
Como moldura, até onde enxerga a fechadura,
uma varanda trepada de alamanda,
onde o sol murchou de susto,
rasgado que foi pela sombra de um arbusto.
O regador vencido por ervas danadas,
que daninhas duplicam-se banais,
avisa seco que encerrou a festa,
pois lírios brancos lá não gestam nunca mais.
Flora Figueiredo