domingo, 21 de julho de 2019

Alice Caymmi - Diplomacia

O que importa!

Tudo é possível e nada o é; tanto tudo é permitido quanto nada. Qualquer que seja a direção escolhida, ela não será melhor do que as outras. Percebam algo ou absolutamente nada, creiam ou não, tudo isto é igual, bem como dá no mesmo gritar ou se calar. Pode-se encontrar uma justificativa para tudo, bem como nenhuma. Tudo é ao mesmo tempo real e irreal, lógico e absurdo, glorioso e insípido. Nada vale mais do que nada, da mesma forma que nenhuma ideia é melhor do que outra. Por que entristecer-se com a tristeza ou alegrar-se com a alegria? Que importa que nossas lágrimas sejam de prazer ou de dor? Amem a infelicidade e detestem a alegria, misturem tudo, confundam tudo! Sejam como um floco de neve levado pelo vento ou como uma flor embalada nas ondas. Resistam quando não se deve e sejam covardes quando se deve resistir. Quem sabe - vocês ganharão talvez. E, de toda forma, o que importa se perderem? Existe alguma coisa a ganhar ou a perder no mundo? Todo ganho é uma perda, assim como toda perda é um ganho. Por que esperar sempre uma atitude clara, ideias precisas e palavras sensatas? Eu sinto que deveria cuspir fogo a título de resposta para todas as questões que me foram - ou não foram - feitas.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

Winston sonhava – Capítulo 3


Winston sonhava com sua mãe.
Devia ter uns dez ou onze anos quando sua mãe desaparecera. E era alta, estatuesca, meio calada, de movimentos vagarosos e magnífico cabelo claro.
Do pai lembrava-se mais vagamente. Era moreno e magro, vestia sempre roupas escuras, bem postas (Winston lembrava-se vivamente das solas finas dos sapatos do pai), e usava óculos. Os dois deviam, evidentemente, ter sido tragados num dos grandes expurgos de 1950-60.
Naquele momento porém sua mãe estava sentada à frente dele, num lugar fundo, com a filhinha nos braços. Ele não se lembrava da irmã senão como um nenezinho fraco, sempre calado, de olhos grandes e vigilantes. Ambas o fitavam. Encontravam-se nalgum subterrâneo - no fundo de um poço, ou numa tumba muito profunda - mas era um lugar que, apesar de já ser muito mais baixo, submergia ainda e cada vez mais. Estavam no salão de um navio que naufragava, e olhavam para ele através da água que escurecia. Ainda havia ar no salão; elas podiam vê-lo e ele a elas, mas todo tempo as duas continuavam afundando, baixando nas águas verdes que dentro de alguns momentos as ocultariam para sempre. Ele se encontrava no claro, e com ar, enquanto elas eram absorvidas pela morte, e estavam no fundo por causa dele estar ali. Ele sabia disso, elas sabiam, e era visível que sabiam. Mas não havia censura nem na fisionomia nem no coração das duas, apenas a certeza de que deviam morrer para que ele continuasse vivo, e que aquilo era parte da ordem inevitável das coisas.
Não podia lembrar-se do quê sucedera, mas sabia no sonho que, dum modo ou de outro, a vida de sua mãe e de sua irmã tinham sido sacrificadas pela dele. Era um desses sonhos que, embora retenham o cenário onírico característico, são a continuação da vida intelectual do indivíduo, e no qual toma conhecimento de fatos e ideias que mesmo depois de acordar ainda parecem novos e valiosos. A coisa que agora impressionava Winston de repente era que a morte de sua mãe, quase trinta anos atrás, fora trágica e tristonha, de um modo que não seria mais possível. Ele percebia que a tragédia pertencia ao tempo antigo, a uma época em que havia ainda vida privada, amor e amizade, e em que os membros duma família amparavam uns aos outros sem indagar razões. A lembrança de sua mãe machucava-lhe o coração porque ela morrera amando-o, numa época em que ele era criança e egoísta demais para corresponder-lhe e porque, de certo modo, que ele não recordava, ela se sacrificara a uma concepção de lealdade particular e inalterável. Ele via que tais coisas não mais podiam acontecer. Hoje o que havia era medo, ódio, dor, porém nenhuma dignidade de emoção, nenhuma mágoa profunda ou complexa. Tudo isto ele pareceu ver nos grandes olhos de sua mãe e sua irmã, olhando-o através da água verde em que afundavam, centenas de metros abaixo de onde ele estava.
De repente encontrou-se num relvado fofo e curto, numa noite quente, em que os raios oblíquos do sol ainda douravam o chão. A paisagem que contemplava aparecia tanto em seus sonhos que nunca podia ter certeza de a ter visto ou não no mundo real. Desperto, chamava-a de Terra Dourada. Era um velho pasto estragado pelos coelhos, com uma picada que serpeava de um lado a outro, e pontilhado de cupins. Na sebe maltratada, do outro lado do campo, os ramos dos olmeiros balançavam de leve na brisa, e suas folhas palpitavam em densas massas, como cabelo de mulher. Por ali perto, embora invisível, havia um regato límpido e lento, em que nadavam as tainhas, nos espraiados à sombra dos chorões.
A moça do cabelo escuro vinha ao encontro dele, atravessando o campo. Com o que pareceu a Winston um único movimento, ela arrancou as roupas e atirou-as desdenhosamente para o lado. Tinha o corpo alvo e macio, mas não lhe despertou desejo; na verdade, mal o olhou. O que o possuía naquele instante era admiração pelo gesto com que atirara as roupas de lado. Com sua graça e displicência parecia aniquilar uma cultura inteira, todo um sistema de pensamento, como se o Grande Irmão, o Partido e a Polícia do Pensamento pudessem ser lançados ao nada por um gesto simples e esplêndido. Aquele também era um gesto que pertencia aos tempos antigos. E Winston despertou com a palavra “Shakespeare” nos lábios. A teletela estava soltando Um apito ensurdecedor, que continuou no mesmo tom durante uns trinta segundos.
Eram sete e quinze, hora de se levantarem os empregados de escritórios.
Winston arrancou o corpo da cama - nu, porque um membro do Partido Externo só recebia três mil cupons do racionamento de roupas por ano, e as duas peças de um pijama exigiam seiscentos - e apanhou uma camiseta suja e um par de cuecas que colocara numa cadeira próxima. A Educação Física começaria dentro de três minutos. No momento seguinte foi presa de violento acesso de tosse, que quase sempre o atacava pouco depois de levantar.
Esvaziava-lhe os pulmões de tal forma que só podia recomeçar a respirar deitando-se de costas e aspirando fundo uma porção de vezes. As veias tinham inchado com o esforço da tosse, e a variz ulcerada começou a coçar.
- Grupo de trinta a quarenta! - bradou uma aguda voz feminina. - Grupo de trinta a quarenta! Tomai vossos lugares, por favor. De trinta a quarenta!
Winston ficou em posição de sentido diante do aparelho, onde já aparecera a imagem de uma moça magricela porém musculosa, metida em uniforme e sapatos de ginástica.
- Dobrar e esticar os braços! - ordenou. - Acompanhai o meu ritmo. Um, dois, três, quatro! Um, dois, três, quatro! Vamos, camaradas, um pouco de vida nisso! Um, dois, três, quatro! Um, dois, três, quatro!...
A dor do acesso de tosse não afugentara inteiramente do espírito de Winston a impressão produzida pelo sonho, e de certo modo os movimentos rítmicos do exercício a reavivaram. Enquanto atirava mecanicamente os braços para frente e para trás, afivelando no rosto o ar de carrancudo prazer que se considerava recomendável durante a Educação Física, lutava para recordar-se do período obscuro da infância. Era extraordinariamente difícil.
Do acontecido antes de 1960, tudo desbotara. Não havia anais a que fazer referência, e portanto até o fio da vida pessoal perdia nitidez. Lembrava-se de momentâneos acontecimentos que com toda probabilidade não tinham acontecido, recordava-se dos pormenores de incidentes sem conseguir recapturar-lhes a atmosfera, e havia longos períodos em branco, aos quais nada podia atribuir.
Tudo então fora diferente. Tinham sido diferentes até os nomes de países, e suas formas no mapa. A Pista N.º 1 não tinha esse nome naquela época: chamava-se Inglaterra, ou Grã-Bretanha, embora Londres - disso tinha certeza quase absoluta - sempre tivesse sido Londres.
Winston não podia lembrar definitivamente uma época em que o país não estivesse em guerra, mas era evidente um intervalo de paz bastante longo durante a sua infância, porque uma das suas mais longínquas recordações era de um bombardeio aéreo que parecera a todos surpreender. Fora talvez quando a bomba atômica caíra em Colchester. Não se lembrava do bombardeio em si, mas lembrava-se do pai a segurar-lhe a mão com força, enquanto corriam para um lugar nas profundezas da terra, dando voltas e voltas numa escada espiral que fazia ruído sob seus pés e que por fim lhe cansou tanto as pernas que ele começou a choramingar e pararam para descansar. Sua mãe, com modos lentos e sonhadores, seguia-os a grande distância. Levava nos braços a menina - ou talvez fossem apenas cobertores: Winston não tinha certeza da garota já ser nascida. Por fim tinham ido dar num lugar atulhado e barulhento, que verificou ser uma estação do trem subterrâneo.
Havia gente sentada no chão de lajedo, e outros, muito apertadinhos, sentavam-se em catres metálicos, arrumados como beliches. Winston, mãe e pai, encontraram um lugar, perto dum velho e duma velha sentados num catre. O velho vestia um terno escuro, de boa qualidade e boné de pano preto na cabeça toda branca. Tinha o rosto escarlate, e os olhos azuis cheios de lágrimas. Fedia a gim. Parecia porejá-lo pela pele, em vez de suor, e podia-se imaginar fossem puro álcool as lágrimas que lhe cresciam nos olhos.
Entretanto, apesar de ligeiramente bêbedo, sofria uma dor genuína e insuportável. Com sua percepção infantil, Winston viu que algo terrível, que não tinha perdão nem remédio, acabara de suceder. Pareceu-lhe também saber do que se tratava. Morrera no bombardeio alguém que o velho amava; uma netinha talvez. A curtos intervalos, o velho repetia:
- Não deviamo tê confiança neles. Eu te disse, Mãe, não disse? Foi nisso que deu tê confiança neles. Foi o que eu sempre disse. Não deviamo tê confiança nos sacana.
Mas quais sacanas não mereciam confiança, Winston já não se lembrava.
Desde mais ou menos aquela época, a guerra fora literalmente contínua, embora, a rigor, não fosse sempre a mesma guerra.
Durante vários meses, durante sua meninice, houvera confusas lutas de rua na própria Londres, e de algumas ele se recordava vivamente. Mas seguir a história de todo o período, dizer quem lutava, contra quem, em determinado momento, seria absolutamente impossível, já que nenhum registro escrito, nem palavra oral, jamais faziam menção de outro alinhamento de forças, diferente do atual. Naquele momento, por exemplo, em 1984 (se é que era 1984), a Oceania estava em guerra com a Eurásia e era aliada da Lestásia. Em nenhuma manifestação pública ou particular se admitia jamais que as três potências se tivessem agrupado diferentemente. Na verdade, como Winston se recordava muito bem, fazia apenas quatro anos a Oceania estivera em guerra com a Lestásia e em aliança com a Eurásia.
Isso, porém, não passava de um naco de conhecimento furtivo, que ele possuía porque a sua memória não era satisfatoriamente controlada.
Oficialmente, a mudança de aliados jamais tivera lugar. A Oceania estava em guerra com a Eurásia: portanto, a Oceania sempre estivera em guerra com a Eurásia. O inimigo do momento representava sempre o mal absoluto, daí decorrendo a impossibilidade de qualquer acordo passado ou futuro com ele.
O espantoso, refletiu pela décima milésima vez, ao forçar os ombros dolorosamente para trás (mãos nas cadeiras, fazia girar o corpo pela cintura, exercício que se acreditava fazer bem aos músculos dorsais) - o espantoso é que pode mesmo ser verdade. Se o Partido tem o poder de agarrar o passado e dizer que este ou aquele acontecimento nunca se verificou - não é mais aterrorizante do que a simples tortura e a morte? O Partido dizia que a Oceania jamais fora aliada da Eurásia. Ele, Winston Smith, sabia que a Oceania fora aliada da Eurásia não havia senão quatro anos. Onde, porém, existia esse conhecimento? Apenas em sua consciência, o que em todo caso devia ser logo aniquilada. E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido - se todos os anais dissessem a mesma coisa - então a mentira se transformava em história, em verdade. “Quem controla o passado,” dizia o lema do Partido, “controla o futuro: quem controla o presente controla o passado.” E no entanto o passado, conquanto de natureza alterável, nunca fora alterado. O que agora era verdade era verdade do sempre ao sempre. Era bem simples. Bastava apenas uma série infinda de vitórias sobre a memória. “Controle da realidade,” chamava-se. Ou, em Novilíngua, “duplipensar.”
- Descansar! - latiu a instrutora, um pouco mais benévola.
Winston deixou cair os braços e lentamente tornou a encher os pulmões de ar. Seu espírito mergulhou no mundo labiríntico do duplipensar. Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da democracia e que o Partido era o guardião da democracia; esquecer tudo quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra “duplipensar” era necessário usar o duplipensar.
Nesse momento a instrutora chamou-os de nova à ginástica.
- Vamos ver quem de nós é capaz de tocar a ponta dos pés! - disse, com entusiasmo - Sem dobrar os joelhos, camaradas, só a cintura. Um-dois! Um-dois!
Winston odiava esse exercício, que lhe produzia dores nas pernas, desde os tornozelos até as nádegas e não raro lhe provocava acessos de tosse. O ar semi-agradável sumiu de suas meditações. O passado, refletiu, não apenas fora alterado, fora efetivamente destruído. Por que, como estabelecer até mesmo o fato mais patente, se não havia dele registro, além do da memória? Tentou recordar-se do ano em que ouvira pela primeira vez falar do Grande Irmão. Achou que deveria ter sido na década de 1960 a 70, mas era impossível ter certeza.
Nas histórias do Partido, o Grande Irmão naturalmente figurava como chefe e guardião da Revolução, desde o princípio. Suas elucubrações tinham aos poucos recuado no tempo até atingir o mundo fabuloso de 1930 a 50, época em que os capitalistas, com estranhos chapéus cilíndricos, ainda rodavam pelas ruas de Londres em grandes e brilhantes automóveis ou carruagens com janelas de vidro. Não era possível saber até onde essa lenda era verdade e até onde era invenção.
Winston não podia lembrar-se nem da data em que o Partido viera à luz. Não acreditava ter ouvido a palavra Ingsoc antes de 1960, mas era provável que na sua forma antiga, em Antilíngua - “Socialismo inglês” - fosse corrente antes daquele ano. Tudo se fundia na névoa. As vezes, porém, podia colocar o dedo numa mentira definida. Não era verdade, por exemplo, como afirmavam os livros de história do Partido, que o Partido tivesse inventado o aeroplano.
Lembrava-se de aviões desde a mais tenra idade. Mas não podia provar nada.
Nunca havia prova. Apenas uma vez, em toda sua vida, tinha tido em mãos prova documental inconfundível da falsificação de um fato histórico. E naquela ocasião...
- Smith! - gritou da teletela a voz da megera. - Smith W! Tu, tu mesmo! Inclina-te mais, por favor. Podes fazer mais que isso. Não, não estás te esforçando. Mais baixo! Assim está melhor, camarada. Agora, todo mundo, descansar! Olhai para mim.
Um calor quente e súbito dominou todo o corpo de Winston. O rosto continuou inescrutável. Jamais revelar desânimo! Jamais revelar ressentimento! Um simples olhar podia denunciá-lo. Ficou olhando a instrutora levantar os braços acima da cabeça e - não se podia dizer com graça mas com notável decisão e eficiência - inclinar-se e meter a falangeta sob os artelhos.
- Pronto, camaradas! É isto que vos quero ver fazer. Olhai de novo. Estou com trinta e nove anos e tive quatro filhos. Olhai. - Inclinou-se de novo - Vêem, que não dobro os joelhos! Todos podeis fazer, se quiserdes, - acrescentou, enquanto se levantava. - Com menos de quarenta e cinco, qualquer um pode tocar a ponta dos pés. Não temos todos o privilégio de lutar nas linhas da frente, mas pelo menos podemos conservar a linha e a saúde. Lembrai-vos dos rapazes da frente de Malabar! E dos marinheiros das Fortalezas Flutuantes! Pensai no que eles têm de suportar. Vamos tentar de novo. Agora está melhor, camarada, muito melhor! - ajuntou, animando-o, quando Winston, num tranco violento, conseguiu tocar os pés sem dobrar os joelhos, pela primeira vez em vários anos.
George Orwell, in 1984

A Arte de Millôr: "Taça"


Diálogo das notas

A nota de cinco mil cruzeiros estava preocupada. Anunciaram para breve a sua entrada em circulação, e já passavam muitos sóis sem que a retirassem do almoxarifado. No almoxarifado, chega-lhe o zum-zum de que continuamente as coisas sobem de preço e as notas baixam de valor. Embora os algarismos continuem os mesmos, cada dia significam uma realidade menor. Quando chegar minha vez de andar por aí — receia a nota de cinco mil — quanto valerão meus cinco mil?
Ao ser desenhada, sentira-se toda garbosa, cheia de minhocas na cabeça. Iria suplantar as coleguinhas, dando a vera ideia de grandeza. Mas até agora nada, e a nota inquieta-se:
Quando vejo o cruzeiro metálico passar do tamanho de medalha de chocolate ao de botão de manga de camisa (e amanhã ele chegará talvez a semente de tangerina), sinto que meu futuro não será nada fagueiro. Vão-me reduzir às proporções de ficha de ônibus, feita de papel, e servirei para pagar a passagem de um coletivo circular. No máximo.
Estava nessa tristeza quando lhe apareceu, ainda em forma de neblina futura, o projeto da nota de cinco milhões, com efígie de cabeça para baixo, e sussurrou-lhe:
Maninha, depois de mim virá a cédula de cinco trilhões, e assim sucessivamente, pois infinito é o número dos números. Até que um dia o homem se cansará de escrever no papel grandezas que são insignificâncias, e passará a escrever insignificâncias que valham grandezas. Já pressinto no horizonte maravilhosa nota zero, que nos resumirá a todas e alcançará o máximo valor metafísico.
Carlos Drummond de Andrade, in Contos plausíveis

A carta de Nhorinhá

Mas a água só é limpa é nas cabeceiras. O mal ou o bem, estão é em quem faz; não é no efeito que dão. O senhor ouvindo seguinte, me entende. O Paredão existe lá. Senhor vá, senhor veja. E um arraial. Hoje ninguém mora mais. As casas vazias. Tem até sobrado. Deu capim no telhado da igreja, a gente escuta a qualquer entrar o borbôlo rasgado dos morcegos. Bicho que guarda muitos frios no corpo. Boi vem do campo, se esfrega naquelas paredes. Deitam. Malham. De noitinha, os morcegos pegam a recobrir os bois com lencinhos pretos. Rendas pretas defunteiras. Quando se dá um tiro, os cachorros latem, forte tempo. Em toda a parte é desse jeito. Mas aqueles cachorros hoje são do mato, têm de caçar seu de-comer. Cachorros que já lamberam muito sangue. Mesmo, o espaço é tão calado, que ali passa o sussurro de meia-noite às nove horas. Escutei um barulho. Tocha de carnaúba estava alumiando. Não tinha ninguém restado. Só vi um papagaio manso falante, que esbagaçava com o bico algum trem. Esse, vez em quando, para dormir ali voltava? E eu não revi Diadorim. Aquele arraial tem um arruado só! é a rua da guerra... O demónio na rua, no meio do redemunho... O senhor não me pergunte nada. Coisas dessas não se perguntam bem.
Sei que estou contando errado, pelos altos. Desemendo. Mas não é por disfarçar, não pense. De grave, na lei do comum, disse ao senhor quase tudo. Não crio receio. O senhor é homem de pensar o dos outros como sendo o seu, não é criatura de pôr denúncia. E meus feitos já revogaram, prescrição dita.Tenho meu respeito firmado. Agora, sou anta empoçada, ninguém me caça. Da vida pouco me resta ― só o deo-gratias, e o troco. Bobeia. Na feira de São João Branco, um homem andava falando! ― A pátria não pode nada com a velhice... Discordo. A pátria é dos velhos, mais. Era um homem maluco, os dedos cheios de anéis velhos sem valor, as pedras retiradas ― ele dizia! aqueles todos anéis davam até choque elétrico... Não. Eu estou contando assim, porque é o meu jeito de contar. Guerras e batalhas? Isso é como jogo de baralho, verte, reverte. Os revoltosos depois passaram por aqui, soldados de Prestes, vinham de Goiás, reclamavam posse de todos animais de sela. Sei que deram fogo, na barra do Urucúia, em São Romão, aonde aportou um vapor do Governo, cheio de tropas da Bahia. Muitos anos adiante, um roceiro vai lavrar um pau, encontra balas cravadas. O que vale, são outras coisas. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. O senhor é bondoso de me ouvir. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe.
Mire veja: aquela moça, meretriz, por lindo nome Nhorinhá, filha de Ana Duzuza: um dia eu recebi dela uma carta: carta simples, pedindo notícias e dando lembranças, escrita, acho que, por outra alheia mão. Essa Nhorinhá tinha lenço curto na cabeça, feito crista de anú-branco. Escreveu, mandou a carta. Mas a carta gastou uns oito anos para me chegar; quando eu recebi, eu já estava casado. Carta que se zanzou, para um lado longe e para o outro, nesses sertões, nesses gerais, por tantos bons préstimos, em tantas algibeiras e capangas. Ela tinha botado por fora só: Riobaldo que está com Medeiro Vaz. E veio trazida por tropeiros e viajores, recruzou tudo. Quase não podia mais se ler, de tão suja dobrada, se rasgando. Mesmo tinham enrolado noutro papel, em canudo, com linha preta de carretel. Uns não sabiam mais de quem tinham recebido aquilo. Ultimo, que me veio com ela, quase por engano de acaso, era um homem que, por medo da doença do toque, ia levando seu gado de volta dos gerais para a caatinga, logo que chuva chovida. Eu já estava casado. Gosto de minha mulher, sempre gostei, e hoje mais. Quando conheci de olhos e mãos essa Nhorinhá, gostei dela só o trivial do momento. Quando ela escreveu a carta, ela estava gostando de mim, de certo; e aí já estivesse morando mais longe, magoal, no São Josezinho da Serra ― no indo para o Riacho-das-Almas e vindo do Morro dos Ofícios. Quando recebi a carta, vi que estava gostando dela, de grande amor em lavaredas; mas gostando de todo tempo, até daquele tempo pequeno em que com ela estive, na Aroeirinha, e conheci, concernente amor. Nhorinhá, gosto bom ficado em meus olhos e minha boca. De lá para lá, os oitos anos se baldavam. Nem estavam. Senhor subentende o que isso é? A verdade que, em minha memória, mesmo, ela tinha aumentado de ser mais linda. De certo, agora não gostasse mais de mim, quem sabe até tivesse morrido... Eu sei que isto que estou dizendo é dificultoso, muito entrançado. Mas o senhor vai avante. Invejo é a instrução que o senhor tem. Eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria vertente. Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!
Sendo isto. Ao dôido, doideiras digo. Mas o senhor é homem sobrevindo, sensato, fiel como papel, o senhor me ouve, pensa e repensa, e rediz, então me ajuda. Assim, é como conto. Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença.Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas ― e só essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção.
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

sábado, 20 de julho de 2019

Flávio Stambowsky - Luzeiros

Miserável

Se o que tens te parece insuficiente, então, mesmo que possuas o mundo, ainda assim serás miserável.”
Sêneca

Estão apenas ensaiando

Estão apenas ensaiando. Ao mesmo tempo em que os dois atores avançam pelo palco, saindo das coxias à esquerda para o centro da cena, um homem entra na sala escura, e com ele uma nesga da luz das cinco pela fresta da porta que entreabriu ao fundo e que separa a plateia do hall e da rua, onde o dia segue o seu curso com um burburinho de buzinas, motores e sirenes. O diretor, na quinta fila, procura com a mão, tateando, a coxa de sua assistente, para lhe dizer alguma coisa ao ouvido, e o iluminador interrompe a piada que ia sussurrando ao técnico a seu lado, no mezanino, já que retomam a cena. Quando os dois atores colocam os pés de novo no palco, avançando das coxias à esquerda para o centro, e interrompendo também o que sussurravam um ao outro nos bastidores, para passar em alto e bom som ao diálogo que decoraram, o homem que acabou de entrar ao fundo é ainda menos que um vulto sem rosto, porque já não tem nem mesmo a nesga de luz das cinco para destacá-lo da penumbra, agora que a porta que separa a sala escura do hall e da rua se fechou. O diretor com a mão na coxa da assistente, depois de lhe sussurrar qualquer coisa ao ouvido, que a faz rir baixinho, controlada, espera ansioso, e pela enésima vez, que a fala seja dita pelo ator com a entonação desejada, e o iluminador, no mezanino, aguarda por seu turno uma nova interrupção — no fundo, mesmo que inconscientemente, torce por mais um fracasso da interpretação, para poder terminar de uma vez por todas a piada que contava ao técnico.
Um ator diz ao outro, no centro do palco: “Você é o malfeitor; e por isso preciso saber quem é você, onde está, de onde vem, do que é capaz para ter tamanho poder e me provocar sem prevenir, devastando o meu pasto verdejante, e minando, para derrubá-lo, o meu muro de arrimo.” E é quando o outro, que embora sem a foice ou o manto (estão apenas ensaiando) responde pela morte, vai abrindo a boca, que o diretor mais uma vez, tirando a mão da coxa da assistente, interrompe a cena com um gesto, para perguntar num tom propositalmente inaudível, de tão irritado que está, quantas vezes mais vai ter de explicar.
Ele repete, como se falasse para dentro, que se trata de um texto do século XV, que o humilde lavrador invoca a morte (aqui representada por um homem) com as palavras que lhe restam como último recurso, quer que ela se compadeça dele e lhe devolva a mulher adorada, vítima das atrocidades da guerra. O diretor repete irritado que falta vigor à interpretação do ator, e desespero, não parece que o humilde lavrador esteja realmente sofrendo ou indignado pela injustiça da morte da mulher na flor da idade. Diz isso aos dois atores e depois, enquanto eles voltam para as coxias, sussurra a mesma coisa ao ouvido da assistente, arrematando com uma gracinha que a faz sacudir num risinho sincopado.
De volta às coxias, o ator que interpreta o humilde lavrador aproveita para retomar com o outro que interpreta a morte o sussurro que havia interrompido. Desanca o diretor, diz que não dá para mostrar desespero com um texto daqueles, inverossímil, ninguém vai falar com a morte daquele jeito depois de perder a mulher de uma maneira violenta. Resmunga baixinho qualquer coisa sobre o tipo de representação que aquela cena exige, na sua opinião, e que tem a ver com um certo distanciamento. De repente, no meio da frase sussurrada, olhando o relógio (não precisa tirá-lo, estão apenas ensaiando), exclama a hora num murmúrio, fala qualquer coisa sobre o atraso da própria mulher, que ela já devia ter chegado, e ao mesmo tempo em que diz isso, o iluminador no mezanino tenta inutilmente sussurrar o final da sua piada, porque mal esboça o desenlace cômico e os dois atores já estão de volta ao palco, seguindo os sinais mudos da assistente do diretor, e o homem ao fundo da sala, após uns instantes parado indistinto dentro da sombra, já avança alguns passos pelo corredor lateral da plateia.
O ator que interpreta o humilde lavrador vira-se para o outro, que interpreta a morte, embora sem foice ou manto (estão apenas ensaiando), e vai abrir a boca quando percebe que, em vez de olhá-lo, o diretor, sempre com a mão na coxa da assistente, cochicha algo ao seu ouvido que a faz levar a mão aos lábios para impedir que o riso transborde. Percebe o diretor, que está no centro da sala, na quinta fila, mas não o vulto que avança pelo lado, na penumbra. Irritado, o ator repete a cena idêntica à que tinha feito antes, declamando sua fala com o mesmo distanciamento que lhe parece tão apropriado, ao que o diretor enfurecido se levanta e, balançando os braços e sacudindo a cabeça, mudo, dá a entender que está péssimo.
Com a nova interrupção, o iluminador trata de retomar do início a piada que contava ao técnico, porque, a cada vez que a retoma, volta sempre ao começo com medo de que a quebra interfira no efeito cômico. Seu sussurro agora é mais corrido, tentando fazer caber a piada inteira no espaço de tempo entre a interrupção do diretor e o retorno dos atores ao palco. Nas coxias, enquanto olha o relógio (estão apenas ensaiando), o ator que faz o humilde lavrador repete baixinho ao outro, que faz a morte, que a mulher a esta altura já devia ter chegado, como tinham combinado, porque ele próprio lhe dissera que tudo terminaria às cinco, não podia imaginar que o diretor se revelasse um tamanho idiota justamente com esse texto inverossímil, e que o ensaio se arrastasse tanto.
A assistente dá o sinal mudo para que recomecem e o iluminador interrompe inconformado, mais uma vez, já quase no fim, a piada que sussurrava ao técnico no mezanino, e que corre o risco de perder a graça pela repetição. O homem que vinha avançando lentamente pelo corredor lateral agora pára à altura da quinta fila ao ver os dois atores de novo no palco. O humilde lavrador vira-se para a morte e diz: “Você é o malfeitor.” O diretor pede que parem. O tom compreensivo de sua voz é apenas um disfarce que o ator está cansado de conhecer e em geral precede uma crise de nervos. O diretor está tentando se controlar, sussurra: “Será que você não compreende? Ele perdeu a mulher, na flor da idade, está desesperado, indignado contra a injustiça da morte e dos homens e por isso a invoca, ainda acredita que pode convencê-la a lhe devolver a mulher adorada. Ninguém diz isso com distanciamento.
Os dois saem do palco. Olhando o relógio, o humilde lavrador sussurra de novo à morte sem foice ou manto algo sobre o atraso da mulher, que a esta altura já devia estar sentada na plateia. Não entende por que ela ainda não chegou, como se já não bastasse o atraso do ensaio, graças à imbecilidade do diretor. E enquanto o humilde lavrador sussurra a sua indignação, o homem que antes era apenas um vulto já avança pela quinta fila, agora de lado, na direção do diretor e de sua assistente, que só o veem quando já está a apenas algumas poltronas deles. Senta-se para se fazer menos notado quando a assistente já está com o braço levantado, indicando aos atores que podem recomeçar, e enquanto ele lhes revela num murmúrio o que veio anunciar sobre o mundo do lado de fora, e que os petrifica, o iluminador no mezanino se aproxima num sussurro da conclusão da piada.
O humilde lavrador de relógio e a morte sem foice ou manto (estão apenas ensaiando) entram no palco. O lavrador vira-se para a morte e reinicia a sua ladainha com a mesma entonação e o distanciamento que lhe parecem mais apropriados. Mas desta vez, para sua surpresa, o diretor não o interrompe, porque tem os olhos arregalados e está lívido enquanto o homem, antes apenas um vulto, lhe sussurra algo ao ouvido. E ao ver o homem que sussurra ao ouvido do diretor, e o olhar deste e de sua assistente, que pela primeira vez não o interrompem, mas permanecem a encará-lo com os olhos aterrados e arregalados (a assistente com os olhos cheios de lágrimas diante da súplica que o lavrador faz à morte) enquanto escutam o que o outro lhes diz ao ouvido, curvado na poltrona ao lado, embora a entonação no palco tenha sido a mesma e devesse portanto, pela lógica, ser mais uma vez interrompida, o próprio ator interrompe a ação e por fim compreende aterrorizado e a um só tempo a sinistra coincidência da cena e do momento, o que aquele vulto veio anunciar sobre o mundo do lado de fora, com buzinas, motores e sirenes; compreende por que a mulher não apareceu e afinal o que sente o humilde lavrador; compreende por que o diretor não o interrompeu desta vez, porque por fim esteve perfeito na pele do lavrador em sua súplica diante da morte; compreende que por um instante encarnou de fato o lavrador, que involuntária e inconscientemente, por uma trapaça do destino, tornou-se o próprio lavrador pelo que aquele vulto veio anunciar; compreende tudo num segundo, antes mesmo de saber dos detalhes do acidente que a matou atravessando a rua a duas quadras do teatro, diante dos olhos arregalados do diretor e da assistente, sob as gargalhadas incontidas do iluminador e do técnico no mezanino, chegando ao fim da piada.
Bernardo Carvalho, in Os cem melhores contos brasileiros do século

O traço sarcástico do polonês Pawel Kuczynski


Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias

Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias
chegaríamos a iguais resultados
pelo que de nada adianta imaginar um almagesto
ou tabelas de paralaxe para isto
a que convencionalmente chamamos amor,
nem calcular o ângulo
entre nós e o centro da terra,
de nada nos aproveitara, tu e eu
centros escorraçados de irregular gravitação.

Porém, isso não me impediu de ver plêiades
cada vez que surgias (só
não te dizia nada) plêiades iluminando
meu Hades
com suas cabrinhas coruscantes
pascendo
o vale da sombra da morte.

E a questão hoje é: who’s gonna drive you home tonight?
quando o melancólico transístor
destila também outras perguntas, mas nenhuma
tão dura quanto essa,

por exemplo: porque é que a água tem mais tendência
a subir em tubos estreitos
ao contrário do mercúrio?
Isto é
view-master e são coisas que faço
na tua ausência.
Daniel Jonas

A coragem de Tezza

Abram com cuidado, muito cuidado, mas também com muitas esperanças, Beatriz, o novo livro de Cristovão Tezza (Record). Poucas ficções nos levam, com tanta lucidez, aos interiores do mundo contemporâneo. Muito poucas desnudam, com arte e ferocidade, a própria literatura – pelo menos tal qual nós hoje a praticamos.
Território da liberdade interior, a literatura se vê envolvida por uma incômoda camada de protocolos sociais, estratégias de marketing, interesses. Não só os livros são atingidos, mas os próprios escritores. Estes vestem, a contragosto, uma espécie de casca que os protege, mas que também expõe aos efeitos da fama e da detração. Aos efeitos de nosso inacreditável presente.
Detenho-me nas explosivas primeiras 28 páginas de Beatriz. Elas agrupam dois escritos fortes. Um prólogo em que Tezza, contrariando as superstições que cercam a figura dos escritores, se desnuda diante de seu leitor. E um primeiro relato, “Beatriz e o escritor”, verdadeira devassa na alma enfraquecida, mas fértil, dos escritores contemporâneos.
Salvo exceções nobres, escritores não conseguem viver de seus direitos autorais. Para sobreviver, cultivam uma segunda identidade, a do performer, ou do homem que vende a si mesmo. A sociedade do espetáculo os convoca para bienais, feiras, mesas-redondas. Ali vende não só sua fala, mas sua imagem.
Não é fácil sustentar o duplo papel. Ele expõe conflitos e feridas, que Tezza encarna em seu escritor-protagonista, Paulo Donetti, o homem que se envolve com a inquieta Beatriz. Há, sim, uma encenação – ainda que, muitas vezes, se trate da encenação da verdade. Quando fala de si, em uma contorção interior, o escritor fala também de um outro – alguém que é mais efeito de sua obra do que expressão de sua sinceridade. Em resumo: mete os pés na cisão de que somos feitos. Expõe-se, mas também se esconde, ainda que sob a máscara do “verdadeiro”. Atua: a literatura se transforma em uma cena e o autor, em ator.
Já em seu prólogo, Tezza desmascara o mito de que “a ficção fala por si”, sob o qual tantos escritores medrosos se escondem. Verdade insuficiente, “porque depois, nas entrevistas, (eles) tentam dizer tudo o que disseram no livro, com aquele ar gaguejante, meio fraudulento, de quem afinal não sabe bem o que escreveu”.
Ocorre que, nesse gaguejar, não há propriamente uma fraude: o que se abre é uma ferida. O Autor (figura tão festejada) não é o sujeito de carne e osso que escreve seu relato. Ao contrário: no simples ato de “sentar para escrever”, a ficção dele já se apossa. O Autor é alguém que o escritor inventa para escrever em seu nome. Entre ele e seu texto, fenda atroz, surge uma terceira figura: o narrador.
A literatura resulta de uma experiência em abismo. Uma aventura de que pelo menos quatro personagens participam: o Eu, o Autor, o Narrador e o Protagonista. Terreno instável, tão propício às fraudes quanto aos mal-entendidos. Nosso tempo – em que, diz Tezza, “ninguém sabe mais exatamente o que é literatura” – não é, porém, um tempo de derrota, mas de potência. É aqui, na ferida enfim rasgada, que a literatura rascunha seu futuro.
Confessa Tezza – o que seus relatos desmentem – que se considera “um escritor de pouca imaginação fabular”. Sofreria da dificuldade de chegar a personagens que “falem por si”. Mas será que tal autonomia é possível no mundo em que vivemos? “Beatriz e o escritor”, o relato em que o prólogo se desdobra, é a história de um escritor, Paulo Donetti. Em uma mesa-redonda, ele despe sua fantasia de Grande Autor e passa a falar tudo o que pensa. A experiência de purgação, contudo, é também uma experiência de ficção.
Esquece-se Donetti que o Autor que ele apresenta é, ele também, uma invenção. Ficção assinada não por um (ele), mas por vários autores, já que os leitores também são autores dos livros que leem. Em seu corajoso prólogo, Tezza chama Paulo Donetti de “paranoico”. Mas será? Ao rasgar as entranhas, não estaria ele, ao contrário, acercando-se da lucidez? É verdade: em um mundo fascinado pelas imagens, o desnudamento sincero se parece sempre com a loucura. Não deixa de ser – pelos riscos que inclui. O que não lhe rouba, porém, um segundo caráter ficcional.
Em seu surto – vamos aceitar provisoriamente isso –, Paulo Donetti despe uma performance para vestir outra. Deixa de ser “o escritor que faz pose” e se torna o “escritor sincero”. O caráter moralizante da transformação é indisfarçável. Em seu monólogo, ele busca uma regra universal. Ele quer Tudo – em um terreno, a literatura, regido pelo Um. Sua avidez pelo Todo esmaga as singularidades, inclusive sua própria.
Destila desprezo pelo leitor, a quem chama de “crédulo”. Reduz seu parceiro de mesa a simples “romancista municipal”. Transforma seu “discurso verdadeiro” não em uma aproximação amorosa da verdade, mas em um ataque feroz a ela. Apesar disso, diz coisas importantes: quando afirma, por exemplo, que “escrever é sempre a expressão de um fracasso”. Em vez de tomar, porém, a aceitação do fracasso como uma condição da ficção, Donetti, o grande moralista, sofre porque os escritores (ele inclusive) não são perfeitos.
Chega a dizer: “Se escritores fossem boas pessoas, exerceriam alguma atividade decente”. Seu esforço de aproximação da verdade se torna uma destruição da verdade. Chicoteia-se: “Eu errei o tom porque estava, de fato, acreditando em cada palavra que dizia”. Buscou a grande Verdade, mas continua a ser falso. Em nome da perfeição inexistente, duvida de si e ataca os outros. Julga-se, enfim, uma vítima do “pecado mortal de acreditar em si mesmo”; não entende que esse esforço, apesar de comovente, não é garantia da verdade.
Quando arranca sua máscara de escritor, sob ela surge o semblante de um moralista. Ao inventar Donetti, Tezza rasga a cortina que encobre a solenidade da literatura. Ocorre-me o título de uma peça de teatro em cartaz: “Te quero como queres, me queres como podes”. Ele resume as condições em que não só escritores mas todos nós vivemos: a insuficiência do possível. A coragem de Tezza não está em desmascará-la, mas em aceitá-la.
José Castello, in Sábados inquietos

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Leo Fressato - Menino Água-Viva

História triste

Outro dia, meu amigo, o escritor Otto Lara Resende, estava mineirando ali na esquina de México com Pedro Lessa, quando lhe veio a vontade de tomar um “sustincau”. Não sei bem o que seja um “sustincau”, mas pela descrição que me fez Otto, creio tratar-se de um híbrido de “toddy” com picolé. Disse-me ele ser coisa de sustância e eu acreditei piamente. Ao que parece, existe uma carrocinha do produto no local indicado, e tanto ele como Paulo Mendes Campos são fregueses da estranha beberagem; ou chuparagem - não sei ao certo.
Sei de uma coisa: que Otto estava por ali manipulando um “sustincau”, quando viu chegar uma família - pai pobre e doentio, mãe ainda moça, desgastada e sem brilho, e filhinha anêmica, de rostinho chupado. Uma família brasileira típica, poderíamos dizer. A menininha, ao ver o Otto sorvendo o “sustincau”, precipitou-se para a carrocinha gritando que também queria um: “um igual ao daquele moço”.
Os pais chegaram-se contrafeitos.
O Otto, que nada perdia da cena, nem do “sustincau”, viu o pai perguntar quanto era, depois convocar a mulher e os dois confabularem, com o resultado de ela dizer-lhe que só havia para a passagem de volta. Tinham vindo ao IPASE para exame médico e trazido o justo necessário. Chamaram a menininha e tentaram explicar-lhe, sem dizer a razão exata porque, naturalmente, eram gente de brio e Otto estava por perto, urubusservando. Mas a menininha tinha água na boca:
- Ah, me dá um, papai! Um igual ao do moço!
- É muito gelado, filhinha! Faz mal...
- Ah, me dá um, papai! O homem da carrocinha, que não estava seguindo a história, mas ouvira as últimas frases, interveio:
- Tem sem ser gelado, s'or!
O casal se entreolhou. Diz Otto que o encabulamento do homem era total. Ele foi para um canto com a mulher e os dois puseram-se a esgravatar na bolsa. Mas só havia cascalho.
- Não pode ser, não, filhinha!
A mulher, nervosa, chegou-se para a menininha:
- Pare de pedir coisas, ouviu? Que menina! Tem os olhos maiores que o estômago. Vam'embora! E não quero ouvir nem mais uma palavra!
Os olhos tristes da garota lambiam o “sustincau” do Otto. Ela suspirou, fazendo beicinho - e foi aí que o próprio Otto, meio contrafeito, dirigiu-se ao pai.
- Pode deixar ela tomar um.
A menininha precipitou-se para a carrocinha. O homem, de olhos baixos, agradeceu, no auge da vergonha. Diz Otto que engrolou umas palavras e meteu o pé.
Bom Otto. Se houvesse céu, ele já estava com o seu lugar garantido.
Não é bem o que o ministro da Justiça chama, com uma tal vernaculidade, de “menoridade desvalida”; mas que é uma menoridade um bocado pinimbada, sem nem um tostãozinho para tomar um “sustincau”, ah, isso é!
Vinicius de Moraes, in Prosa

Da cor

Há uma cor que não vem nos dicionários. É essa indefinível cor que têm todos os retratos, os figurinos da última estação, a voz das velhas damas, os primeiros sapatos, certas tabuletas, certas ruazinhas laterais: a cor do tempo…
Mário Quintana, in Sapato florido

Intolerância, de Laerte


O sobrinho sensibilizado visita os extremados tios, levando fichas extras para água. Abre-se o diálogo das grandezas do Brasil

O tio anda com uma cara. O que é que há?
Preocupações de velho.
Está velho, tio? Não parece.
A cabeça dele está ficando branqueada, é isso.
Continua com as velhas ideias, tio?
Você viu o que ele arranjou? Um furo na mão!
Furo na mão? Como?
E ele conta?
Não será contagioso? Foi ao Posto?
Ele diz que foi. Não acredito. O Posto teria dado uma receita. Ou isolado.
Ah, ele tem medo do Isolamento?
Não diz, mas tem. Uma vez me contou que o Isolamento é o fim. Quem vai para lá não volta mais.
Como não volta?
Ele garante que os isolados somem do mundo.
Quem sabe, tio, lá tem um forno crematório? Gás, forno, e um montinho de cinzas do outro lado, espalhadas pelo vento. Pode ser, tio, que essa poeira escura que enche nossas casas, todos os dias, seja cinza, hein?
Não brinca, menino! Seu tio já anda preocupado. Não sei o que vai ser. Cada dia mais quieto. Agora deu de não querer trabalhar. Disse que é inútil, o emprego dele é improdutivo.
É improdutivo? Quem é que está preocupado com isso, tio? Sabe quantos têm à espera do teu lugar? Sabe?
Ele deve saber. Está vendo as ruas cheias. Cada dia mais cheias. Será que o Novo Exército não vai fazer nada? Está ficando impossível. Só hoje passaram por aqui dez pessoas pedindo comida e água.
Não podem fazer isso. Eles têm ficha para circular por aqui? – E eu sei? – São mal-encarados, pobres coitados! Tenho nojo dos despelancados. Coisa mais horrível. Por que não isolam esses?
Não dá para fazer tudo, tia. Estamos tentando. Agora que me promoveram, vão me nomear para o controle das regiões ao redor da Gigantesca São Paulo. Vai ser trabalho pra burro.
Mas ganha mais?
Um pouco. Vou ter de montar um esquema a fim de manter os retirantes fora dos limites da cidade.
Devolve pro lugar de onde vieram.
Vieram dos territórios estrangeiros.
Faz um acordo.
Acordo. Quem quer saber? Um dia destes, vou levar o tio comigo para visitar os Acampamentos.
Você podia arranjar uma autorização pro tio visitar o pai dele.
Visitar o pai? Vovô não está morto?
Não, foi recolhido ao Patrocínio Silencioso. E seu tio não conseguiu visitá-lo uma só vez.
O Patrocínio é longe. Tem de passar quatro Distritos. É uma burocracia infernal conseguir fichas de circulação através desses Distritos. Cada administrador quer dinheiro, ou privilégio.
Você é capitão do Novo Exército.
Pois é, mas quem tem força é de general para cima.
Já foi bom este país. Está muito complicado. Qualquer dia, nem posso ir a minha igreja.
Continua a mesma, tia. Acreditando que Deus vai resolver? Eu me lembro, era garotinho, vinha brincar no seu quintal. Todos os dias, na hora de lavar a mão, você vinha: vai ser padre, filho. Ou entra para o Novo Exército. Depois parou de falar nos padres, meteu na minha cabeça que era o Novo Exército mesmo. Minha mãe queria que eu fosse para o Banco do Brasil. Ou para a Carteira de Habilitação.
Era teu pai que falava na Carteira de Habilitação.
Me lembro mal dele.
Dizia que na Carteira de Habilitação você faria carreira, teria futuro, poderia garantir casa para a família. Além disso, se subisse, o que era o sonho dele, poderia dirigir uma seção qualquer. Como a de compras. Era obsessão dele. Não entendo por quê. “Quem faz as compras dá as cartas, está com tudo nas mãos.” Por que ele dizia isso?
Não conheci direito, mas o pai devia ser esperto.
Chefe da seção de compras? Que bobagem.
Pois é, tia. E quase virei chefe da seção de compras. Minha sorte foi não ter passado no exame médico. Descobriram o meu intestino destruído, fui reprovado.
Ainda bem que o Novo Exército foi complacente, te aceitou.
Num batalhão especial...
Nem todo mundo é de marchar, fazer ordem unida, sair atirando.
A maioria dos Militecnos tem um problema. Estômago, pulmão, coluna, intestino. A gente foi a geração que nasceu depois da explosão do reator, tiveram de compensar a gente de algum modo. Acabei capitão.
Eram tão bonitos os moços em seus uniformes, quando desfilavam pela cidade, quando patrulhavam. Teu tio foi bobo. Eu dizia para ele: acaba com essa faculdade, vai para o Novo Exército. Ele odiava os soldados que patrulhavam.
Era, tio?
Olha a cara dele! Tem ódio quando falo nisso.
Vai ver o tio não gosta de mim.
Como pode não gostar? Você é como um filho.
Tem pais que odeiam os filhos.
Não é o caso do seu tio. Ele tem suas esquisitices, mas é boa pessoa.
Boa? Será, tio? Por que não responde?
Ele te quer bem.
Não sei, não. Tenho visto pessoas como ele, perigosas. O tio não se conforma com a situação.
Faz tempo que ele não discute política.
Gosta ou não do Esquema, tio?
Não é hora de discutir essas coisas, filho. Você veio almoçar com a gente. Hoje é domingo, vamos descansar, ver televisão, passear.
Passear? Ora, tia, quem é que passeia com um calor desses? Ninguém mais. O que há?
É, faz tempo que não saio. Vou abrir a garrafa que você trouxe.
Como é, tio?
Deixa o tio sossegado, ele ficou chocado com o furo na mão.
Olha a cara dele. Tem qualquer coisa estranha aí.
Não tem, não. Sempre foi assim, um ar irônico. A cara fechada.
Gosta ou não do Esquema, tio?
Não.
Viu, tia? Viu como eu estava com a razão?
Está brincando comigo. Não está, Souza? Diz que está.
Não gosto do Esquema. E não estou brincando.
Souza, você está louco?
Não gosto do Esquema, não posso gostar. Tudo que está aí foi por causa dele.
Tudo o que está aí?
Tudo. O país despedaçado, os brasileiros expulsos de suas terras, as árvores esgotadas, o desertão lá em cima.
Belíssimo deserto. Nona maravilha.
Maravilha. E os rios?
Agora vai pôr a culpa no Esquema dos rios terem secado? Do calor? Seja razoável, tio. O mundo mudou. O senhor sabe, é professor de História. A culpa foi dos governos que fizeram experiências nucleares, transformaram a atmosfera.
Repete a propaganda oficial, repete.
Foram coisas que aprendi no Curso Infinito da Guerra, tio. Pena que seja um curso limitado a oficiais. Seria bom para todo o povo saber.
Me responde? Onde está o país?
Aqui, ali, tudo em volta.
Deste tamanhinho? Pensa um pouco, raciocina. Quando eu era jovem, o país tinha oito milhões e meio de quilômetros quadrados. Sabe quanto tem agora?
De cabeça, não.
Consulta. E, quando souber a resposta, vem me contar. Está pouco maior que a palma da minha mão.
Tio, os conceitos de nação mudaram. O que vale agora é o internacionalismo. A multiplicidade. Aqui é um pedacinho. Você soma com os pedacinhos que temos por aí afora. Reservas no Uruguai, na Bolívia, pedação do Chile, na Venezuela. Cada savana na África, quero ser transferido para a África, triplica o soldo e a gente tem casa, comida, economiza.
Pois é, entregamos o nosso e fomos colonizar outros territórios.
Não é colonização, tio, é diferente. São reservas multi-internacionais. O mundo se globaliza.
Talvez eu seja velho, com ideias antigas. Mas queria meu país inteiro, não um mundo de países dentro do meu. Eu te contei daquela viagem. Quis chegar a Manaus e nunca cheguei. Não podia ir lá, fui rodeando, tive de voltar. Foi mais difícil atravessar Rondônia do que conseguir permissão para cruzar a Bolívia.
Sua visão é limitada, tio. O senhor pensa em termos individuais, restringe-se a um regionalismo superado. Raciocine em termos mais amplos. Nossa economia, por exemplo, nunca esteve tão forte.
Forte? Ninguém tem dinheiro. O país endividado. Não há terras para plantio. Tudo custa os olhos da cara, estamos importando tudo.
Importamos pouca coisa.
Pouquíssima. Sal, açúcar, minério de ferro, xisto, feijão, eletricidade, papel, plásticos. Quer a lista inteira?
Não são importações, são acordos feitos quando das negociações com as terras.
Como é que você não enxerga? Importamos de nós mesmos. Mandamos buscar ali em cima, onde antes era o norte do Mato Grosso, o Maranhão, o Pará.
Lembre-se de que as concessões não são eternas. Têm um prazo.
Eu vi. O ano passado esgotou-se o prazo da concessão para a Bélgica. E eles devolveram os trechos que mantinham em Goiás? Não, o Esquema comprou. Comprou uma coisa que seria dele, de graça, este ano.
Foi diferente. Tinha melhorias, projetos industriais, edifícios, plantações, laboratórios.
Ruínas, tudo ruínas.
Como sabe?
Vazou. A informação vazou, meu filho. A gente acaba sabendo. Quem é que lucrou com o retorno da concessão belga? Falam, olhe lá, falam que foi o Círculo dos Ministros Embriagados. Se você repetir, desminto. Mas é o que corre.
O Círculo? Como podem dar tanta importância ao Círculo? Estão todos sob controle. Vivem em prisão domiciliar, supervigiados. Eles não têm mais poderes.
Quem garante que eles estão lá? Nunca mais ninguém viu um só ministro. Não circulam. Dizem que eles estão infiltrados no Esquema.
Cuidado, tio, é perigoso isso que o senhor está dizendo! O atual Esquema liquidou completamente com a Era da Grande Locupletação. Foram todos presos, cassados, banidos, eliminados, mortos.
O Círculo está lá, vivo.
O Círculo é um mito.
O Esquema permite a existência do Círculo. Qualquer hora, ele se organiza e retoma o poder. O Esquema não está dominando a situação.
Domina, e domina fácil. Tudo está planejado.
Planejado? Ele não contém as migrações. A saúde pública faliu. Vejo, toda hora, na rua, os homens caindo aos pedaços. Não há mais água. Se você não trouxesse as fichas, eu e sua tia íamos morrer de sede.
Não acredito que o senhor tenha sido professor universitário, com a mente tão limitada. Vocês sempre se bateram pela estatização geral. Pois chegamos à estatização. O governo domina tudo, em todos os setores.
Você se esquece que não é o governo que detém a economia, mas uns poucos que estão nas boas graças do governo. E o povão continua igual, ou pior do que sempre foi.
Não vem com essa conversa de povo. Que o senhor nunca ligou para ele. Nem sabe como é. O senhor e essa gente toda que vive gritando que defende o povo.
Acho que, hoje em dia, sobrou a tentativa de defesa do que resta como país. Reconstruir o país, se ainda for possível, e então pensar no povo dentro dele.
Na hora de arranjar fichas por fora, o Esquema é bom, hein, tio?
Por que vocês discutem? Cada vez que ele vem nos visitar, sai uma discussão nesta casa, Souza. Por quê? Não podemos fazer como todas as famílias? Ficar alegres, conversar coisas boas? Há tanto assunto bonito.
Vamos conversar bonito, tio. Também acho melhor.
Você é inteligente, meu filho. Não entendo como pode permanecer nesse cargo, como pode estar cego diante da realidade.
Vivo a realidade, tio. Esta sempre foi a minha realidade, nunca convivi com outra. Quando nasci, os Abertos Oitenta tinham terminado. Não figuram nem nos livros de História. É ou não é? A eles, só pequenas referências, sem muitas explicações. Então como posso estar cego?
Viver dentro de uma realidade é um fato. Aceitar, achar que tal realidade é boa, é outra história. Nunca pensou que a vida pode ser diferente? Você não imagina que as coisas possam ser de outra maneira?
Se não vivermos organizados, morremos. Estamos na linha justa, sob rígido controle. Não tem outro jeito.
Mas havia, não tivessem feito o que fizeram.
Fizeram, é irremediável.
Será? Talvez ainda não!
Ignácio de Loyola Brandão, in Não verás país nenhum