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14/02/2024

Drive-in

Você já percebeu como as coisas explodem?
Você já percebeu que o coração humano lembra o tambor
de um revólver?
É tudo uma questão de apertar o gatilho
De beber ou não beber
De cumprir promessas
Fazer escolhas certas ou erradas
Juntar dinheiro para comprar apartamento ou fazer
puxadinho nos fundos da casa da sogra
Viver honestamente feito cristão
Ou botar vidro fumê no carro zero
Para ocultar carreiras de pó e o sorriso da amante na saída
do drive-in
Você já percebeu que às vezes abuso de clichês?
Você já percebeu como a vida é simples e lembra o Jogo da
Vida da Estrela?
É tudo uma questão de sorte
De fazer figas
De esquentar as mãos e jogar os dados com fé.

Diego Moraes, in Antologia Poética

18/12/2016

Bobs

Quando acaba o amor, as ofensas viram banalidade. Gagueira. Acabo de encontrar uma ex-namorada na lanchonete bobs do shopping: “oi, Diego” “oi”. E ficamos um tempo em silêncio. Ela sugando um copão de Milk-shake e eu mordendo meu sanduíche. Até que ela se incomodou com o fato de não termos assunto e disse assim: “então tá. Manda um beijo pra sua mãe.” “vou mandar.” “ela ainda bota uva passa na farofa?” “todas as mães colocam. Faz parte do papel de toda mãe” “tchau” ‘feliz natal, querida". E acabou assim. Todas as trepadas e juras de amor eterno… Com uva passa na farofa.
Diego Moraes, in ursocongelado.tumblr.com

19/11/2016

Eu sou um milagre

Ontem um poeta teen, um poeta de Shopping Center, um ser empolgado mais sorriso que raiva, um pichador “mais amor, por favor,” disse que a literatura não salva ninguém e que o mundo não precisa de mais um bukowski. Lógico que não dei um soco nele. Sou um rapaz educado. Estudei em escola adventista. Tinha damas na mesa. Esperei ele ir ao banheiro e mijei na perna dele. “E agora? Quem vai te salvar da minha urina lírica?” ele olhou pra mim como se tivesse visto o tranca rua e gritou “seu louco! Socorro!” aí o garçom e uma galera entrou no mijódromo “que foi, urso?!” “Nada. Ele disse que tava doente. Mijo de poeta cura todo. Eu sou um milagre”.
Diego Moraes, in ursocongelado.tumblr.com

01/10/2016

Pragas do Egito

Tava de bobeira comendo um x-salada e um maluco cola na minha mesa: “paga um lanche aí, irmão.” Rosto todo fodido. Cabelo caindo. Zoadão. Aí puxei 3 contos do bolso e pedi um salgado e um suco pra ele. Ele disse que era missionário. Que rodou a África pregando a palavra de Deus e tal. E que traiu a mulher com uma feiticeira no Congo. E que essa feiticeira fez um trabalho intitulado “sete pragas do amante ingrato”. E que ainda estava pagando a segunda praga. A primeira fez com que ele andasse feito cachorro por seis meses. “Eu latia e mijava como vira-lata em postes. Meus joelhos ficavam todo tempo em carne viva”. Aí ele apontou pra boca e disse assim: “A terceira praga é a dos gafanhotos. Vai sair gafanhotos da minha boca quando eu usar o nome de deus em vão”. Dei minha última dentada no sanduba e disse “melhoras, bicho. Que o senhor tenha misericórdia da tua alma. Que sare tuas feridas”. Atravessei a rua. Entrei no ônibus e vi uma nuvem de gafanhotos em cima do telhado da lanchonete.
Diego Moraes, in ursocongelado.tumblr.com

24/09/2016

Rebelião

Liguei a tevê agora
Uma gorda com tatuagem
De caveira no peito esquerdo
Segura um cartaz de cartolina
No telhado da cadeia:
“fiz uma rebelião pra você”.
Quando se trata de amor
O crime compensa.
Diego Moraes

16/09/2016

Mendigo

Acho que já escrevi sobre isso por aqui. Sobre deixar as pessoas irem embora sem dó. Sem olhar pra trás. É necessário. caramba. A vida é assim mesmo. Os filmes já reproduziram cenas do tipo milhões de vezes. Uma hora alguém vai bater a porta e sair de nossas vidas pra sempre. Ela não terá dó. Vai jogar os momentos que julgamos intimamente lindos no ralo da pia e você ficará se remexendo no sofá como um gordo com cólica renal. E não adianta escrever para tentar apaziguar. Foi uma escolha. Temos que nos contentar com as lembranças fora de hora e a vontade de ligar ou mandar uma mensagem boba como “oi, tá tudo bem por aí? Almoçou o quê? tem ido ao cinema? Tá feliz?” assim mesmo. Ficamos chatos. Incapazes de sermos engraçados ou contar uma piada. Ficamos fodidos por dentro feito uma cidadezinha devastada por um tornado, mas faz parte da lei. Passei a madrugada pensando no sorriso dela, mas da última vez que nos encontramos ela disse “não se iluda comigo. Não tenho nada a oferecer”. Entendi a crueldade dela. Temos que ser cruéis com pessoas que não nos servem mais. Faço isso com escritores e livros. Deixo de lê-los. Já fiz isso com garotas que choraram e diziam gostar de mim pra valer. Alguns abraços não se encaixam no nosso e temos que abrir as gaiolas para os pássaros beijar o céu e construir seus ninhos. Acontece que estamos sempre juntando os destroços e tentando seguir em frente. Acho que quem ama tem um pouco de mendigo. Tem um pouco de catador de papel e alumínio que bota tudo na carroça e vende por doses de pinga. Vai arder por um tempo. Depois sara. Assopra essa ferida com literatura, Urso.
Diego Moraes, in ursocongelado.tumblr.com

06/09/2016

Mártir

Somos os camelôs do apocalipse. Somos os últimos datilógrafos dos sonhos alheios. O escritor brasileiro é um mártir. Escrevemos competindo com a jornada de trabalho de oito horas por dia do leitor. Escrevemos competindo com os livros de colorir, o jogo do pokemon, programas de entrevistas ancoradas por humoristas fracassados de stand up e papos furados desperdiçados no uatiszap. Se eu morrer amanhã digam à minha mãe que fui um herói e mandem uma carta para o papa. Sou um santo.
Diego Moraes, in ursocongelado.tumblr.com

31/08/2016

Deus dos escritores

Será que Deus tem o poder de julgar uma narrativa em construção? Tem a capacidade de analisar os diálogos que se formam num romance? Tem a moral de invadir a mente de alguém e tirar Xerox dos nossos rascunhos? De enfiar o pendrive em nossas loucuras e ler página por página os nossos sonhos? Deus seria uma espécie de vírus que lê pensamentos? Fico pensando aqui como deve ser legal ser o primeiro a ler as coisas. Imagina a felicidade de Deus lendo “O processo” e “Crime e Castigo”. A pergunta é: será que deus interfere na vida de um escritor para que sua obra se torne prima? Será que deus é mesmo o sujeito onipotente que segura os astros ou é um sujeito simples e cínico como a gente que está sempre com uma aba pornô aberta na firma ou trancado num quarto escrevendo enquanto a chuva chia no asfalto lá fora? Apenas uma pergunta aos colegas de escrita: Deus é uma bactéria que consome literatura? Seria um Deus interessante. Diferente de outros piegas que estão abestalhando seguidores e causando guerras no mundo. Espero que exista um Deus que proteja os escritores. Um Deus que se divirta com as merdas que escrevemos.
Diego Moraes, in ursocongelado.tumblr.com

09/08/2016

Piranha

Quando completei 29 anos e publiquei meu terceiro livro, saquei uma mudança no olhar das pessoas. De conhecidos que bebiam comigo, trabalhavam ou parentes de namoradas. Eles me olhavam com raiva. Um ódio sangue de piranha exposta em banca de feira. Putos da vida. Notava uma inveja gritante, mas com o tempo percebi que a inveja não era literária. Brasileiro lê pouco e Manauara só lê jornal policial pela manhã. A inveja da minha liberdade. Do meu jeito de brincar com a vida. Minha irresponsabilidade. Ainda vejo esses olhares cruzando comigo na cidade. São olhares fracassados de pessoas que desistiram de sonhos da juventude e vegetam na escravidão de seus empregos de merda. Sou um cara livre. Não só pq faço literatura. Sou livre pq faço o que amo.
Diego Moraes

21/07/2016

Outras paragens

Analisar a literatura brasileira apenas sob a tutela da classe média é um crime - e sobretudo um desrespeito com a arte literária. Conheci com a Flipobre centenas (isso mesmo! centenas!) de novos autores maravilhosos. Sim, vivemos num país racista pra caralho e o pior de tudo: um povo que odeia pobre. O maior preconceito que reina neste país é contra o pobre. E o mais absurdo nesta história é saber que o pobre também não suporta outro pobre. Aos poucos vamos consertando o defeito de acharmos que a boa literatura só é editada por grandes editoras. Essa literatura classe média feita por gente da classe média não fede e não cheira. Acho uma chatice. Observem as bordas, as margens e saquem a literatura transbordando em outras paragens.
Diego Moraes, in ursocongelado.tumblr.com

14/07/2016

Mitomania

Acho que depois dos 30 anos o homem precisa saber lidar com as ilusões do mundo. É inadmissível ver um cara dominando a técnica literária, sacar um cara que sabe alicerçar estruturas narrativas que confundem o leitor entre a realidade e a ficção e vê-lo perdido no “mundo real” não suportando mentiras de pai, mãe, namorada e amigos. Depois dos 30 temos que botar na cabeça que tudo é uma grande mentira. Até nossa existência no universo poder ser apenas o trecho de um romance escrito por um Deus mitômano.
Diego Moraes, in ursocongelado.tumblr.com

10/07/2016

Nada

Saber que o que escrevemos não tem o poder de mudar nada. O lirismo não é uma chave de fenda que pode consertar o mundo. As pessoas não voltam para nossos braços apenas com palavras. Não se pode nada com literatura. O único efeito benéfico da literatura é o conforto da ilusão. A enganação. O escritor é um pintor colorindo a tragédia. É uma criança espalhando flores entre as catástrofes da guerra.
Diego Moraes, in ursocongelado.tumblr.com

05/07/2016

Bin Laden

Você deveria estar em casa enchendo o romance de lindezas, mas não. Tá com uma garrafa de uísque no meio-fio vendo os carros passar junto com famílias felizes que vivem somente para gozar e pagar as contas no fim do mês. O peito com duas torres pegando fogo a ponto de desabar feito o ataque de Bin Laden em 11 de setembro. Você deveria emagrecer. Cursar direito e ganhar dinheiro para casar com a ex-mulher do desembargador. Correr. “acaba logo esse livro e casa comigo. Assim não dá. Não vai dar certo sem dinheiro, di” e sua cabeça latejando poemas carregados de despedida em abraços desesperados em saguões de aeroportos. Você deveria estar em casa aplicando insulina na sua mãe diabética e com problemas com alcoolismo. Ela está tão perdida quanto você que se humilha por uma mulher que talvez não o queira mais. Tem se envolvido com taxistas viciados em bingos e drogados que a embriagam para roubar trocados da bolsa escondida atrás da penteadeira. E todos pensam que minha vida é uma maravilha. Que sou um sujeito digno para ser invejado, mas nenhum universitário ou escritor que trata a literatura como hobby aguentaria um dia na minha pele de recaídas punks de cocaína e choros intermináveis em fundo de barzinhos escuros do centro da cidade. Ela quer me assumir. Quer dizer pra todo mundo que vive com um escritor fodão, mas o saldo da minha conta no Itaú está negativo e talvez eu abandone tudo e mude para São Paulo quando ela sacar que é melhor deitar com um advogado com iate e apartamento na estrada da ponta negra que comigo. Onde já se viu um sujeito achar que pode mudar o mundo só com amor e lirismo? Você deveria frequentar os narcóticos anônimos e repetir a oração da serenidade constantemente. Deveria se tornar um sujeito boçal e altivo que se acha mais importante que os outros só por ter um carro do ano e um aparelho reluzente nos dentes. E o sol deita no rio negro e índias atravessam a rua exalando cheiro de bocetinhas virgens. Manaus é uma puta mal amada. Você deveria fazer um último assalto. Estourar só mais um caixa eletrônico e convidá-la para conhecer o nordeste. “cê precisa conhecer João Pessoa, amor. Dizem que é linda a praia de Manaíra”. Você deveria estar em casa pensando em como se tornar um escritor sério e chato que todos respeitam e levam a sério. Um cara que cruza as pernas em eventos e decora palavras difíceis para confundir homens e mulheres que não entendem bulhufas de literatura. Assim como quem as pronuncia também não entende. Deveria fingir. Vestir um personagem intelectual como aquele escritor esquerdista que camufla a péssima escrita com militância política. Você deveria se tornar um advogado, Diego. Um advogado e jornalista chato pra caralho com coluna na veja, estadão ou folha de São Paulo. Comprar uma casa no Leblon e comer comida ruim e cara em restaurantes 5 estrelas. Fazer Cooper em Ipanema e tirar fotografias bebendo água de coco. Vai pra casa. Vai que um carro perde o controle e suba o canteiro. Vai que você morre sem deixar sua obra-prima e fazer um filho na negra que o traiu uma porrada de vezes, mas que ainda te esquenta por dentro. Vai assobiando aquela canção do Caetano e finja pelo menos uma vez que você é feliz.
Diego Moraes, in ursocongelado.tumblr.com

28/06/2016

Castelo de ego

Entro no bradesco, retiro a senha, sento numa cadeira e espero chegar a minha vez. Abro um livro de contos do Rubem Fonseca e saco que duas garotas estão me olhando. “não é possível. será que fiquei bonito depois de velho? que droga essa garotada tá usando?” penso na minha, viro a página do conto “O cobrador” e converso baixinho comigo mesmo “esse velho tem uma usina de ódio dentro de si. Rubem Fonseca é um dos velhos que mais soube trabalhar a raiva na narrativa ficcional brasileira” aí o cochicho das duas aumenta. “vai lá com ele. a professora não vai acreditar!” olho para os lados achando que tem algum astro teen perto de mim, mas só vislumbro velhos tristes e aposentados implorando por empréstimos. “vou lá, peraí. me dá uma caneta e um papel” diz a mais afoita com os olhos castanhos e cabelo parecido com a da falecida cantora de jazz Amy Winehouse. “oi, você poderia me dar um autógrafo? minha professora adora seus livros. Minha mãe também gosta.” “que bom! sou mais lido por mulheres mais jovens. Elas tem mais sensibilidade que homens. vou fazer o seguinte: vou dedicar um poema pra sua professora, tudo bem?” escrevo um poeminha bonitinho e assino embaixo “com carinho… diego moraes” entrego o papel, a minha senha apita no guichê e escuto a outra dando um puxão de orelha na sósia da Amy: “Falei que não era ele! falei que o Milton Hatoum é branco e muito mais velho”. O gerente me dá bom dia e sinto um castelo de ego desmoronando dentro de mim.
Diego Moraes, in ursocongelado.tumblr.com

22/06/2016

Deleuze me pagaria uma cerveja

A necessidade de se encaixar numa tribo, num nicho cultural, numa militância ideológica faz com que o jovem contemporâneo crie experiências fictícias nas redes sociais. Parece que na internet todos precisam ter um discurso de moralidade ilibada e contestadora diante da guerra política. E nessa troca de socos, a esquerda e a direita fantasiam como se estivessem num baile de carnaval. O jovem contemporâneo é um autoficcionista engajado. Ora se orgulhando pelo caráter incorruptível ou pela dissimulação vitimista fraudada.
Diego Moraes, in ursocongelado.tumblr.com

16/06/2016

Resiste

Acordei às seis da manhã. A cabeça latejando de problemas, mas calcei o tênis e fui caminhar. Aí do outro lado da rua dois mendigos se empurram por uma garrafa de cachaça. Os dois caem abraçados. Fiz menção que atravessaria a rua para desapartar a briga e um beijo estala no sol se abrindo. Certas cenas do cotidiano me desconcertam. Mesmo com a tragédia em Orlando… o amor persiste de todas as formas e devemos continuar. A vida é uma faísca de fósforo do último derby aceso na saída de um bar tocando Belchior.
Diego Moraes, in ursocongelado.tumblr.com

10/06/2016

Brilhando

Hoje fiz uma porrada de exames para iniciar um curso. Aí uma hora a loirinha estagiando o diploma de psicologia perguntou: “você já usou drogas?” sou um cara sincero. nunca escondi nada da minha vida. Sempre fui um livro aberto. poderia ter dito que já tive problema com álcool, cocaína e crack, mas acabei enrolando a jovencita: “Nunca. Meu único vicio é a poesia” fiquei com pena da ingenuidade dela. Os olhos brilharam. O sorriso abriu quase empurrando as paredes do consultório. Continuei: “Você tem muito amor guardado aí no peito. Não perca isso. Não deixe que ninguém arranque esse amor transbordando no teu coração” ela fechou o sorriso tentando entrar numa de durona e perguntou: “Pq diz isso?” estalei os lábios e arrematei antes de abrir a porta e dar o fora: “para amar e fazer poesia é preciso ter os olhos brilhando”. não quis conquistá-la. seduzi-la. amo uma mulher incrível e ainda não pensei na possibilidade de flertar ou deitar com outra. Apenas quis dizer que é necessário manter a vidraça da alma límpida para ter os olhos brilhando e transbordando amor.
Diego Moraes, in ursocongelado.tumblr.com

05/06/2016