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22/05/2023

A primavera da pontuação | Um

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Depois de chamar Caminhão de pai, o ponto fechou os olhos e voltou a dormir. Caminhão quase apagou junto. Aquilo era demais para ele. Palavra-ônibus o segurou pelo braço e o tirou dali. Na sala ele chorou convulsivamente. Já não entendia seus sentimentos, não sabia o que pensar. Enquanto consolava o marido, Palavra-ônibus inteirou-se dos últimos acontecimentos pela televisão, que não cessava de transmitir as manifestações e enfrentamentos nas ruas, e pôde então entender o drama que o marido estava vivendo. “Olha só o que eu provoquei”, lamentava-se Caminhão, entre soluços. “Não sejas ingênuo”, ela ponderou, “isso transcende o atropelamento do ponto. E o mais importante: ele está vivo.” “Vivo, mas sabe-se lá em que condições. Pensa que somos seus pais…” “Deve estar em estado de choque. Isso passa. Vamos cuidar dele, esperar que se recupere. Depois vemos.” “Depois vemos… Isto tudo pode até passar para ele. Mas passará para nós? O que nos garante que ele será capaz de reconhecer o afeto que lhe tenhamos dedicado? E a pontuação, e a lei, o que pensarão? Que agi como um bom pai? Nada disso. Farão de tudo para que eu seja condenado, preso ou impedido de trabalhar. Podes imaginar as consequências disso para a nossa vida?” “Não vamos nos desesperar. As coisas estão evoluindo a nosso favor: o ponto se recupera, os protestos da pontuação assumem um caráter e uma proporção que, aos poucos, te retiram do centro dos acontecimentos. E quanto a uma possível condenação, já te ocorreu que o ponto pode ter sua parcela de culpa? Vamos esperar para ver o que ele tem a nos contar.” “Esperar… Preciso sair, retomar meu trabalho.” “Não por enquanto. Vamos ficar em casa e deixar os ânimos lá fora se acalmarem. Estamos seguros aqui. Se tivessem te identificado, já teriam vindo à tua procura – tuas placas embarradas parecem ter sido de grande serventia. Prometo nunca mais reclamar da tua falta de banho… E se ninguém deu falta do ponto, é porque ninguém sabe quem ele é. Talvez seja um desses infelizes que andam rolando pela rua, para quem a sociedade só liga quando precisa exercitar sua demagogia. E quanto à repercussão na mídia, ela não é de todo ruim, gera polêmica, e a polêmica já está tão grande que falta pouco para começarem a questionar a existência do ponto ou o seu atropelamento.” “Eu sei que ele existe”, disse Caminhão, “ele me chamou de pai.”
“Amigos telespectadores, falo agora de nossos estúdios, onde começa mais um Palavras Cruzadas, o programa de debates líder de audiência. O tema não poderia ser outro: as manifestações que tomam conta de Ponto Alegre. Nossas equipes de reportagem continuarão a transmitir das ruas, mantendo-nos informados sobre os últimos acontecimentos”, introduziu Vocativo. “Os convidados de hoje são o poeta Ponto de Orvalho e o psicólogo Ptolomeu, organizador do 1 Encontro Consonantal de Ponto Alegre. Começando pelo senhor Ponto de Orvalho: na sua opinião, o que teria levado os protestos pelo atropelamento de um ponto até o momento anônimo a tomar essa proporção de levante popular?” “Pois é, meu caro Vocativo, de repente nossa sociedade tão hierarquizada descobre que nós, a pontuação, esse mero acessório empregado para simular na escrita a riqueza expressiva da oralidade, temos voz e pensamento próprios. Coloco-me no lugar dos todo-poderosos nomes e verbos e imagino sua preocupação: como lidar com uma exclamação que questiona, uma interrogação que se exclama, um ponto que quer dar livre curso às ideias ou uma vírgula que pretende pôr um ponto-final no atual estado de coisas? A verdade é que a pontuação, sabidamente acomodada, resolveu reagir ao rebaixamento de serva a pária a que tem sido submetida ao longo da história. O atropelamento de um ponto – e principalmente por tratar-se de um ponto anônimo, talvez menor abandonado, um desses pobrezinhos que se criam seguindo palavras de baixo calão – foi o estopim da revolta por ser emblemático da condição em que se encontra a pontuação como um todo. Uma pesquisa recente indica que mais de setenta por cento das famílias de pontos já tiveram um parente atropelado. Estamos diante de um sério problema social. Ao se indignar e sair às ruas, a pontuação apenas reivindica para si aquilo a que tem direito. E ela quer mais que segurança: quer ser respeitada para poder desempenhar seu papel com dignidade. O que temos visto por aí vai em sentido oposto. Os ponto e vírgulas estão sendo conduzidos a uma aposentadoria forçada. As exclamações, ao contrário, vêm sendo empregadas em excesso, o que anula seu efeito e as desvaloriza. Banalizadas pelo uso inadequado, deixam de ocupar posições importantes e significativas. Passa algo parecido com as reticências. É doloroso topar com tantos três pontinhos vagando à toa entre palavras ou frases, muitos deles carregando nas costas entrelinhas inúteis. Mas não podemos aceitar que sua erradicação pura e simples, como aconteceu por ocasião da limpeza das quadras de poesia, seja adotada como solução única em qualquer circunstância. Sobram exemplos de descaso para com a pontuação e falta reconhecimento de sua importância em nosso dia a dia. Quando tudo flui, quem leva os louros é a escolha de palavras, a sintaxe, as rimas ou as ideias, nunca a pontuação, que passa despercebida justamente porque fez um bom trabalho. Já quando as coisas não andam bem, a culpa sempre recai sobre ela. Ora, de quem é a culpa quando dois-pontos ou uma vírgula são mal-empregados? A pontuação precisa trabalhar, não pode se dar ao luxo de escolher o emprego. Se ela se manifesta, acho que, para o bem de todos, deveria ser ouvida.”
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Vitor Ramil, in A primavera da pontuação

15/05/2023

A primavera da pontuação | Um


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Grego e Latino chegaram à rua onde os Compostos Eruditos costumavam se encontrar. A casa em que se reuniam ficava numa quadra de poesia que antigamente fora uma quadrinha popular. Com o passar dos anos o lugar se sofisticara, até tornar-se conhecido como uma zona de versos tradicionais, sem, no entanto, chegar a se transformar em área exclusiva de moradores abastados. A vizinhança era principalmente de rimas ricas, mas muitas rimas pobres ainda viviam por ali, emparelhadas, alternadas ou interpoladas. A atmosfera da rua era austera, pelo aspecto tanto das construções como dos moradores e até dos passantes. Mas, ao mesmo tempo, algo parecia contagiar tudo e todos com um ar de desapego e loucura, uma espécie de abstração transbordante que conferia ao lugar um quê de charmosa extravagância. Era uma área residencial. O único empreendimento comercial era o Centro de Cavalgamento, conforme inscrição em um pórtico de mármor de Carrara – da calçada ouviam-se os cavalos trotear: apócope, apócope, apócope –, dirigido por um francês, o professor Enjam Bement. “Vamos atravessar, que aquele eneassílabo é um anapéstico”, disse Latino. “Ao ladino saúdo de longe”, cumprimentou o eneassílabo, de maneira pausada e irônica, ao ver que Grego e Latino mudavam de calçada para não cruzar com ele. “O chato me chamou de ladino…”, sussurrou Latino ao Grego, indignado, acenando de volta com má vontade. “Esqueceste que esta rua nunca está deserta”, observou Grego, chamando a atenção de Latino para as irmãs Redondilha, que se aproximavam. “Como é bom te ver!”, exclamou a menor para Latino, abrindo os braços. As rechonchudas irmãs eram muito queridas por todos. A maior conseguia ser, ao mesmo tempo, popular e admirada pelos poetas cultos, mas a verdade é que as duas falavam demais. Grego passou reto, sem sequer saudá-las. Foi sua vez de ouvir uma ironia: “Grego a passo em branco passa”, disse a maior, dando o troco da descortesia. Latino não teve saída: parou para uma breve conversa. Grego não fez menção de esperá-lo, apenas foi em frente. Pensava que as manifestações não deveriam repercutir por ali, onde a pontuação era pouco vista. Se a cidade entrasse em ponto de ebulição, aquele se confirmaria como um lugar perfeito para conspirar sem levantar suspeitas. Andou até a esquina e parou diante do muro derruído da quinta do Heroico Quebrado, um ex-militar e ex-ricaço. Absorto em seus pensamentos, nem reparou no Galego, que, em troca de moedas lançadas na boina puída, costumava tocar e cantar ali seus versos de gaita galega. O lugar das reuniões ficava em frente, na quinta em estilo clássico de Carlos Alexandrino, poeta e político conservador que defendia a volta da cesura. A propriedade, de extensos jardins, era ladeada pelas quintas de dois nobres, um Soneto Italiano e um Soneto Inglês, com os quais Carlos Alexandrino mantinha boas relações. Desvencilhado das irmãs, Latino alcançou Grego a tempo de voltar a atravessar a rua com ele. “Ai, que saudade, galega querida”, cantava o Galego.

A manifestação no local do atropelamento foi sufocada pela ação implacável dos guarda-livros. Os manifestantes mais exaltados estavam presos; os feridos eram atendidos pelos pronomes de tratamento ali mesmo, na rua. Mas a revolta da pontuação estava longe de ser contida. Os recém-dispersos recusavam-se a voltar para o sossego de suas casas. Pelo contrário, aqueles que estavam no sossego de suas casas é que saíam às ruas para juntar-se aos que agora vagavam sem rumo certo, interrompendo frases e gritando palavras de ordem. Rádios e televisões começaram a cobrir protestos em muitos pontos da cidade. Na internet, além de imagens, multiplicavam-se discussões sobre o tema. Já era grande o número de comunidades de internautas que, ostentando nomes como “Os pontos são o fim” ou “Os pontos são fofos”, se diziam contra ou a favor do movimento. Inspirado na pontuação, ainda que defendendo algo próximo de seu descarte, o Coletivo Virtual Revolucionário ia mais longe: pregava a substituição total do sistema ortográfico vigente pelo internetês. “Ninguém vai nos botar um ponto final;)”, postou a militante Penélope Bloom, pseudônimo utilizado pela Rainha para se manifestar de forma anônima na página do CVR no Facebook. Depois ela passou a mão no telefone e ligou para o Regente. “Escuta aqui, seu inominável”, disse quando ele atendeu, “todos esses pontos que aí estão atravancando o meu caminho: eles passarão, eu ficarinho? Devo trocar minha carruagem por um helicóptero? Passarei a me expressar como uma tartamuda? Terei de contratar um pintor pontilhista para pintar o meu retrato?” “Sim, quer dizer, não”, tentou responder o Regente, atordoado, “não o sim, sim o não.” “O que estás esperando para esmagar esses irresponsáveis? O que eles estão querendo afinal de contas?”, ela vociferou. “A pontuação exige por mudanças. Todos pontos sentem atropelados. Alegam. Ou são mal empregados ou perdem dos empregos cada vez mais, devido”, esforçava-se para explicar o Regente. A Rainha não o deixava falar: “Pois acaba também com os maus empregadores! Sem um pulso firme, essa revolta vai se espalhar, e aí é que não vais mais controlar coisa nenhuma. Prende os teus vizinhos, o dono do armazém, o barbeiro… Há um movimento revolucionário na internet que não emprega um só ponto final, substitui interrogações por barras, usa dois-pontos e parênteses para fazer carinhas, coloca vírgulas nos lugares mais degradantes e obriga exclamações a enfrentar filas. O que estás esperando para descobrir quem está por trás disso? Encontra esses bandidos e dá uma porretada fatal na cabeça de cada um deles”. “Mas isso vai transformar caos definitivo! Infelizmente preciso conversas contra negociadores antes”, quis argumentar o Regente. E isso foi tudo o que a Rainha ouviu, ou fez que ouviu, pois desligou o telefone enquanto ele falava. Passos familiares soavam no corredor. Ela correu e entreabriu a porta do quarto a tempo de ver o Rei, ainda sujo de vômito, vacilando diante da porta em feitio de guilhotina que ela havia encomendado ao marceneiro real e mandado instalar na entrada dos aposentos do marido. Silenciosamente, voltou a fechar a porta. Então jogou-se na cama e afundou o rosto nos travesseiros para abafar o riso que já não podia conter. [...]

Vitor Ramil, in A primavera da pontuação

01/05/2023

A primavera da pontuação | Um

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O período da regência estava com os dias contados. Não porque a pontuação quisesse pôr-lhe um ponto final, mas porque o prazo máximo de duração determinado por lei se aproximava do fim e o Rei começava a falar em reassumir o comando do país – apesar do empenho da Rainha em mantê-lo afastado, já que isso dava a ela mais liberdade de movimentos tanto para exercer o poder nos bastidores como para levar adiante planos ambiciosos para o futuro, planos que não incluíam o marido. O Regente parecia estar com os dias mais contados ainda: autoritário e elitista, insensível tanto à diversidade quanto à igualdade, nunca fora tão impopular. Como acontece nesses casos, começava a faltar-lhe apoio político. Nos círculos próximos, cada vez mais incompletos e descoordenados, sobrava insubordinação. Por isso ele estava nervoso quando o Agente da Passiva foi vê-lo. “Evite comentários sem nexo”, disse o secretário do Regente, Dante, para o Agente da Passiva, ao abrir-lhe a porta. Dante conseguira o emprego por indicação da Rainha, que, em privado, tinha grande ascendência sobre o Regente. Aliás, o próprio Regente, que nunca fora um nome substantivo, chegara a essa posição por influência dela, de quem agora era quase um fantoche. Evidentemente, não era talhado para o cargo. Mas era justo na incompetência dele que a Rainha apostava, pois a instabilidade social também fazia parte dos planos dela. Bastava o Regente começar a falar para que seus problemas com a regência ficassem patentes: “Acabo ver ao subversivo e apelativo Vocativo: quanta exageração até os fatos! De que ponto chegamos! Espero que trazes alguma novidade”, disse ao Agente da Passiva, assim que este foi introduzido no gabinete. “Subversivo pior foi visto e gravado por mim”, respondeu o Agente da Passiva, correspondendo às expectativas do chefe por uma novidade no caso. Demonstrando vivo interesse, o Regente convidou-o para sentar. “Grego, membro dos Compostos Eruditos, foi entrevistado por Vocativo em meio à manifestação”, continuou o Agente da Passiva. “Esses terroristas pedantes estão em trás das badernas?”, indagou o Regente. “Grego não teria sido visto e filmado lá se estivesse envolvido. Mas ponto não é dado sem nó por esse perigoso radical. A emoção do público foi provocada pelo depoimento mentiroso dele. Lenha foi posta na fogueira. De um modo ou de outro, o acontecimento será aproveitado pelos Compostos Eruditos”, especulou o perspicaz Agente da Passiva. “Corto-lhes da língua!”, gritou o Regente.
“Tum, tum, pra ti punctum, tum, tum, tum, tum”, cantarolou Latino ao ouvido de Grego, indicando a ação dos cassetetes dos guardas sobre os pontos desarmados. “‘Telegrafia governista’ é o nome desse samba”, disse Grego ao ouvido de Latino. A pancadaria estava disseminada. “Passa o monóculo, antes que o quebrem”, pediu Latino. “Toma. E vamos embora. Já vimos o suficiente”, disse Grego, esquivando-se de aspas simples que caíam fincadas no chão, aos seus pés. “Mas o automóvel está preso no engarrafamento”, lembrou Latino. “Que fique como símbolo secreto de nossa adesão à revolta. Depois o resgatamos”, respondeu Grego. O olhar onipotente de um encontrou o megalômano do outro, e eles se regozijaram. Então foram abrindo caminho com dificuldade, sem deixar nunca de somar suas vozes às dos manifestantes. Tiveram dessa vez o cuidado de desviar das câmeras de televisão, para não levantar suspeitas sobre si. Vocativo retomara a transmissão. “Há um ponto pacífico ali, tentando entregar flores aos guardas. Entrevista ele, entrevista ele”, falava o ponto eletrônico. “Senhor, o que pretende com essas flores?”, perguntou Vocativo. “Sou integrante do movimento religioso Ponto de Cruz. Somos pela não violência”, respondeu o ponto pacífico. “Vocês querem é entregar os pontos!”, intrometeu-se uma exclamação, arrancando as flores da mão do ponto pacífico. Numa reação inesperada e desproporcional, o guarda-roupa a quem as flores haviam sido oferecidas jogou-se brutalmente sobre os pontos divergentes, por pouco não derrubando também Vocativo e seu câmera, Indicativo, que, no esforço de se equilibrar, ainda teve habilidade suficiente para registrar o voo do ramalhete que se abriu, perdendo talos e pétalas pelo caminho. “Lindo”, exultou o ponto eletrônico. A imagem seria reprisada à exaustão, em câmera lenta. “Viste aquilo? Vai deixar claro que esse governo não é flor que se cheire”, entusiasmou-se Latino. “Ou que esta é a revolução em flor”, acrescentou Grego.
Oscilando entre o alívio e o desespero, Caminhão avançou pela penumbra do quarto e abraçou Palavra-ônibus, que tremia de emoção. O ponto desperto perscrutava o teto do quarto não como se tentasse identificá-lo, mas como se estivesse surpreso por reencontrá-lo. Era visivelmente um ponto fraco. Seu rosto redondo e liso, porém, denotava tranquilidade, quase uma paz profunda. Quem diria que fora atropelado havia pouco? Caminhão se perguntava quem seria o pobrezinho. Até o momento, nenhum parente ou amigo aparecera na mídia em busca dele. Tudo o que se dizia a seu respeito eram suposições. Ainda assim, as notícias mostravam que aquele ponto simples e desconhecido fora rapidamente convertido em ponto de referência por seus pares. Atento ao desdobramento das manifestações, Caminhão começava a entender que ir direto ao ponto tinha sido mais que um mero acidente cotidiano: fora a gota d ’água para uma pontuação insatisfeita com as condições de vida e de trabalho. Por isso a franca recuperação da vítima não podia aliviá-lo completamente. Ele temia se transformar num símbolo negativo, expressão criminosa e covarde de um sistema contra o qual a pontuação se rebelava. Se o cenário adverso se confirmasse ele seria punido, de um modo ou de outro. Ainda que o ponto o perdoasse ou até mesmo saísse em sua defesa, ninguém mais quereria estar do lado dele. A pontuação não aceitaria que ficasse impune, sob pena de enfraquecer o movimento; o governo não teria pudor em puni-lo exemplarmente para acalmar os revoltosos. Caminhão e a mulher só tinham agora um ao outro. Viviam modestamente. Palavra-ônibus perdera o trabalho numa editora, onde ideias de que tudo podia ser legal ou bacana eram as mais empregadas. O espírito da época mudara, e com ele os filões de mercado, obrigando a editora, que ademais era mal administrada, a fechar as portas. O desemprego, somado ao diagnóstico médico de que não poderia engravidar, tinham levado Palavra-ônibus a um profundo abatimento. Caminhão faria de tudo para que ela não passasse mais privações, e se fosse preso era o que a esperava. Ele beijou a testa da mulher e decidiu poupá-la, naquele momento, do que acabara de ver na televisão. Nisso o ponto se virou para ele e sussurrou: “Pai”.
A velha carruagem real sacolejava pelo caminho de pedras irregulares que levava ao Palácio de Versal, a morada do Rei – que o povo apelidara de Versalete por causa do aspecto atarracado da construção. Em meio ao rangido dos eixos, escutava-se a voz da Rainha: “Apruma-te, moleirão, estamos chegando”. A Rainha tinha o rei na barriga. Não desperdiçava uma oportunidade de menosprezar o marido, de fazê-lo sentir-se inseguro. “Impossível manter-se ereto nesta caixa incômoda e desengonçada”, queixou-se o Rei. “Impossível para ti, que és um frouxo. Arruma essa peruca”, ela seguia espezinhando. “Carruagem, perucas… Bobagens que tu inventas. Ninguém mais usa essas coisas hoje em dia”, continuou o Rei, acomodando a peruca que lhe caía sobre os olhos. “Por um lado tu tens razão: poderias não usar nada disso, afinal de contas és um ninguém. Mas, queiras ou não, és também um rei. Então, tenta pelo menos manter as aparências.” “Estou enjoado. Acho que vou…”, disse o Rei, e vomitou no próprio colo antes de poder concluir a frase. “Usa a janela, relaxado!”, gritou a Rainha. O Rei botou a cabeça para fora e golfou outra vez, com força, no instante em que a carruagem adentrava o pátio do Versalete. A peruca voou, misturando-se ao vômito ainda no ar. A carruagem parou e a Rainha desceu, falando aos empregados: “Pão regurgitado e circo para vocês, com os cumprimentos de vossa nulidade real”. O Rei desembarcou com o devotado Aposto em seu encalço. “Se meu Rei, líder dos líderes, permite…”, disse o serviçal com cerimônia, assim que pisaram o chão, e saiu a perseguir o cachorro do Rei, um dálmata, que abocanhara a peruca vomitada e fugira com ela. “Entra pela cozinha. Tu estás imundo”, ordenou a Rainha ao Rei. O Rei obedeceu. As cozinheiras não o viram entrar. Estavam todas reunidas em torno de uma pequena televisão, acompanhando a reportagem de Vocativo. O Rei parou atrás delas e viu quando o guarda-roupas se jogou sobre o ponto pacífico e a exclamação; viu o ramalhete de flores desfazendo-se em câmera lenta em meio à pancadaria generalizada. Os olhos do Rei encheram-se de lágrimas. Foi quando as empregadas sentiram seu mau cheiro. “Há algo de podre no reino de Ponto Alegre”, disse uma delas. “Sou eu”, disse o Rei, afastando-se cabisbaixo, “sou eu.” [...]

Vitor Ramil, in A primavera da pontuação

18/04/2023

A primavera da pontuação | Um


Certa manhã pintou-se um quadro negro: uma palavra-caminhão, dessas que trafegam ameaçadoramente inclinadas, carregadas de letras garrafais, atropelou um ponto em uma esquina de frases e fugiu. Revoltada, a pontuação, que a tudo assistira, aglomerou-se no local do acidente. Exclamações nervosas e interrogações confusas logo instalaram o caos, provocando um avanço descontrolado de palavras seguido de grave engavetamento, ao fim do qual uma palavra-pneu rodou na direção de uma padaria, bateu no meio-fio e, saltando sobre o padeiro, chocou-se contra o balcão, quebrando o vidro do mostrador e espalhando palavras-pãezinhos para todos os lados. Um polvilho finíssimo subiu com força entre estilhaços para depois descer suavemente sobre os ombros de um guarda-pó, que chegava com o objetivo de controlar a situação.
Tratando de não ser seguido, Caminhão costurou e descosturou frases obscuras e sem fundamento que discorriam do centro em direção à periferia. Palavra-ônibus, sua mulher, estranhou ao vê-lo chegar em casa. Ele, que costumava voltar do trabalho apenas para o almoço ou no fim do dia, seguido sempre de uma exclamação, aparecia desta vez no meio da manhã e com um desanimado ponto final no para-choque dianteiro. “Caminhão”, ela perguntou, “aconteceu alguma coisa?” “Algo horrível: atropelei um ponto”, ele contou, nervoso. “Será este aqui?”, perguntou ela, mostrando o para-choque. Ele correu para ver. “Pensei que o havia esmagado ou atirado longe. Parece estar vivo.” Caminhão carregou o ponto com todo o cuidado e deitou-o na cama do quarto de hóspedes. Superlativo, o cachorro, pressentindo alteração na rotina da casa, começou a latir no pátio. Caminhão pediu à mulher que o fizesse parar: “Ele está chamando atenção. Ninguém pode saber o que aconteceu”. Superlativo era inteligentíssimo e, por isso, muito inquieto. Mas era também o mais obediente dos cachorros. Palavra-ônibus foi até a janela basculante da cozinha, que dava para o pátio, mandou-o ficar quieto e ele obedeceu.
No local do acidente, o guarda-pó percebeu que a confusão era grande demais e pediu reforço imediato. Enviaram-lhe um guarda-roupa e um guarda-volumes. Mesmo assim a situação foi ficando fora de controle, pois a pontuação, que se movimentava com muita rapidez, estava exaltada além da conta. Exclamações denunciavam aos gritos a falta de segurança no trabalho. Interrogações questionavam a competência dos guardas e do governo. Vírgulas intrometiam-se em todos os grupos, tornando os debates intermináveis. Chegavam pontos de todas as direções. Tomados de indignação, cada vez mais alterados, amontoavam-se na esquina, onde, a certa altura, começaram a protestar com palavras de ordem. A aglomeração atingiu tal proporção que se formou uma pilha negra e imensa cujo ponto culminante era o mais inflamado. Colchetes e parênteses começaram a circundar aquela montanha convulsa numa procissão lenta e contínua. Dois-pontos e aspas acusavam: “Atropelado”. Reticências se posicionavam, falando fundo à imaginação: “Desaparecido…”.
Palavra-ônibus voltou da cozinha trazendo um copo d’água para Caminhão. “A ironia é que eu estava em ponto morto quando o atropelei”, ele disse. “Ele não está morto, querido, te acalma.” O ponto não tinha um só arranhão, mas continuava desacordado. “Quem sabe chamamos um médico?”, ela propôs. “Não, nem penses nisso. Serei denunciado e preso. Tu sabes o quanto preciso trabalhar. Se Deus quiser, o pobre ponto vai despertar e me perdoar. Não tive intenção de machucá-lo. Os pontos são tão pequenos. E, pra complicar, às vezes tem-se a impressão de que não vão surgir. Na parte moderna da cidade parecem ter sido abolidos por lei, de tanto que não são vistos. Isso confunde quem anda muito de um lado para o outro. Mas nem foi esse o meu caso. Eu simplesmente tinha pressa. Não tenho desculpa. Só não sei onde estava com a cabeça quando decidi fugir. Que grave erro. Agora não posso voltar atrás.” “Vamos esperar um pouco, então. Afinal, ele parece tão bem, respira tranquilamente. Vai lá pra sala, descansa; liga a televisão, tenta pensar em outra coisa. Esse simpático ponto vai despertar sem demora. É tão jovem. Vou cuidar dele como se fosse um filho. Meu filho…”, disse a mulher. O quarto de hóspedes estava imerso numa penumbra acolhedora. Fora preparado originalmente para o primeiro filho do casal, até eles descobrirem que Palavra-ônibus não podia engravidar. Caminhão percebeu que a mulher se deixava conduzir por esse pensamento triste, mas não tentou detê-la. Saiu do quarto, foi para a sala e ligou a televisão, como ela havia sugerido.
rego e Latino desceram do automóvel que mantinham em sociedade. Não podiam acreditar no que estavam vendo. “Passa o monóculo”, pediu Grego. “Multiforme multidão, aurifulgente caos!”, dizia Latino para si mesmo, em êxtase, o monóculo vibrando no olho esquerdo. Grego e Latino eram dois radicais perigosos. Pertenciam aos Compostos Eruditos, grupo terrorista que atuava na clandestinidade sem nunca assumir seus atentados nem deixar pistas, e que tinha por objetivo inocular na sociedade, por meio da educação e da disciplina, uma cepa dos ideais clássicos desenvolvida por eles com o propósito de livrar os cidadãos, ou a “prole tarada”, como preferiam dizer, de barbarismos e outros ismos que a infectavam. A “prole tarada”, a rigor, era a nação inteira, vista pelos Compostos Eruditos como vítima de um coloquialismo vulgar e degradante. Se dependesse desses sediciosos, um dia o latim clássico não só estaria de volta às igrejas como seria língua franca de quitandas e bordéis; o grego seria moeda corrente em conversas nas altas esferas intelectuais e também nos xingamentos dos campos de futebol. Para chegar lá, defendiam a implantação de um Estado transitório em que o respeito a uma norma-padrão seria absoluto. Os líderes absolutistas seriam eles, obviamente, que se preparavam para ser “disciplinadores iluminados”. Grego e Latino planejavam havia anos desencadear uma desordem de grandes proporções, que degenerasse em profunda instabilidade social e criasse as condições necessárias para a ascensão ao poder de seu líder máximo, Homúnculo, o Grande. Pois agora a desordem que esperavam estava à sua frente, genuinamente popular, como jamais fora em seus melhores sonhos. Abandonaram o automóvel ali, entre tantos outros, e se misturaram aos manifestantes. “Amigos telespectadores, estamos ao vivo, transmitindo diretamente do local onde tiveram início as manifestações que, neste momento, paralisam grande parte do centro de Ponto Alegre, capital do nosso querido e, até há pouco, pacato reino de Ponto Alegre”, falava Vocativo, conhecido repórter, ao microfone da mais importante rede de televisão do país. Ele tentava, sem sucesso, aproximar-se do local exato do acidente. “Entrevista o sujeito de monóculo que parou ao teu lado”, disse o ponto eletrônico no ouvido dele. Vocativo continuou: “Tudo começou com o atropelamento de um ponto por uma palavra-caminhão não identificada. A vítima, no entanto, está desaparecida. Vamos ouvir um cidadão. Senhor, é testemunha do que aconteceu?”. “Não, mas dizem que a vítima é um ponto cego que costuma pedir esmolas nesta esquina”, mentiu Grego, sem titubear, explorando sua voz de barítono, o olho direito brilhando atrás do monóculo que compartilhava com Latino.
O telefone do Agente da Passiva tocou. A Passiva era a polícia secreta do Rei. O povo a apelidara assim e o apelido pegara, pois era sabido por todos que o Rei não tinha voz ativa nem mesmo em seus nobres aposentos. O Agente da Passiva fora um sujeito na ativa até pouco tempo antes. Após passar uma temporada de molho, entrara para a Passiva, onde começara como agente comum para, depois de uma ascensão vertiginosa, assumir a diretoria da discreta organização, que muitos julgavam uma lenda. “Alô”, disse ao aparelho. O caráter sigiloso de seu trabalho o obrigava, muitas vezes, a se comunicar de maneira cifrada. “Vem irrompendo a luz”, disse um de seus verbos auxiliares do outro lado da linha, recomendando ao chefe que ligasse a televisão. “A luz é muito apreciada por mim. O vidro da minha janela foi atravessado por seus raios”, respondeu o Agente da Passiva, dando a entender que já estava a par dos acontecimentos. Depois de assistir às manifestações por mais um tempo, colocou seus óculos escuros e ganhou a rua com ares de aposentado que sai para uma caminhada. Dirigiu-se ao gabinete do Regente, a quem se reportava agora, devido ao afastamento do Rei, que se declarara temporariamente impossibilitado de governar – o motivo alegado por Sua Majestade, e aceito pelo Parlamento, era de ordem emocional. Chegando lá, o Agente da Passiva evitou a entrada principal do prédio e encaminhou-se para uma pequena porta lateral, oculta por uma cerca viva. Anunciou-se com duas pancadas fortes e uma leve. “A ante…”, alguém disse por uma espécie de respiradouro no centro da porta. “Até após com contra de desde em entre para per perante por sem sob sobre trás”, completou o Agente da Passiva em voz baixa, aproximando o rosto da abertura. Senha confirmada, a porta foi aberta e ele entrou.
Em poucas horas as manifestações haviam se espalhado por muitas ruas e tomado nova conformação. Vocativo continuava a transmitir diretamente do local: “Amigos telespectadores, recebemos a notícia de que esse já é o assunto mais comentado nas redes sociais, o que talvez explique a velocidade espantosa com que o número de manifestantes vem aumentando. Eles exigem justiça para o caso do atropelamento do ponto, mas vão além: fazem reivindicações, principalmente de cunho trabalhista, que apenas de forma indireta podem ser associadas ao episódio que originou os protestos. Observem os cartazes improvisados: PELO EMPREGO DE PARÊNTESES; PELO AUMENTO DO VALOR MELÓDICO; MAIS EMPREGO DA PAUSA, MENOS PAUSA DO EMPREGO; PELA APROVAÇÃO DO DIVÓRCIO ENTRE SUJEITO E PREDICADO; RESTRIÇÃO ÀS RESTRITIVAS; A INFLEXÃO É DÉBIL, O SALÁRIO TAMBÉM. Há escritos não tão sérios, como os bem-humorados ABUSA DA PONTUAÇÃO QUE A GENTE GOSTA, ENTREI À FORÇA NA MENOSPAUSA ou o que está estampado na minúscula camiseta daquela desinibida exclamação: OH! MAIS DESEJO! AH! MAIS ALEGRIA! Não faltam críticas aos políticos e ao Regente, como na ameaça explícita desta pichação: PODEMOS ABREVIAR V.EX.as e o SR. REG. Até a mídia, na pessoa deste apresentador, é alvo de ataque. Reparem no cartaz que uma vírgula sustenta a meu lado: ISOLEM O VOCATIVO. Aproveito para dizer que tenho noticiado os fatos com a mais absoluta isenção e…”. “Os guarda-livros!”, gritou o ponto eletrônico para Vocativo, interrompendo-o. O apresentador reagiu rapidamente: “A tensão agora aumenta com a chegada de um enorme contingente de guarda-livros, que se divide em vários grupos e… olhem isso: eles passam a investir sobre os manifestantes! Devem ter ordem de dispersá-los à força. Começa uma grande correria. A pontuação faz o que pode para escapar da truculência policial, que…”. O tumulto tornou quase impossível entender o que dizia Vocativo. Ele parou de falar por alguns instantes. A imagem de um ponto e vírgula mancando após ser agredido por um guarda-livros foi mostrada repetidas vezes. A ação paramilitar, espontânea e igualmente violenta de guardanapos surgidos de restaurantes das redondezas, pôde ser vista de mais de um ângulo. Alguns manifestantes começaram a reagir aos guardas usando travessões. Dois deles – guarda-livros – estavam cercados por travessões duplos. Um brutamontes cabeludo aproximou-se da câmera e vociferou contra a pontuação, fazendo gestos obscenos. Ouviu-se a voz do ponto eletrônico: “É um palavrão, é um palavrão! Corta, corta!”. Caminhão estava parado no meio da sala diante daquelas imagens. Queria chamar a mulher, mas a voz lhe faltava. “Nossos patrocinadores!”, anunciou Vocativo, em situação difícil no meio do confronto. Com o intervalo forçado, Caminhão conseguiu se mover. Foi até o quarto onde o ponto estava deitado. Abriu a porta e disse para a mulher, ajoelhada ao lado da cama: “Acho que atropelei o Sumo Pontífice”. “Ele abriu os olhos e me chamou de mãe”, disse Palavra-ônibus, emocionada.
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Vitor Ramil, in A primavera da pontuação