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24/06/2016

Águuuuua!


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Caía sobre eles a sombra da tarde como luto fechado. Nos bares, nos botequins, no balcão das vendas e armazéns, onde quer que se bebesse cachaça, imperou a tristeza e a consumação era por conta da perda irremediável. Quem sabia melhor beber do que ele, jamais completamente alterado, tanto mais lúcido e brilhante quanto mais aguardente emborcava? Capaz como ninguém de adivinhar a marca, a procedência das pingas mais diversas, conhecendo-lhes todas as nuanças de cor, de gosto e de perfume. Há quantos anos não tocava em água? Desde aquele dia em que passou a ser chamado Berro Dágua.
Não que seja fato memorável ou excitante história. Mas vale a pena contar o caso pois foi a partir desse distante dia que a alcunha de berro dágua incorporou-se definitivamente ao nome de Quincas. Entrara ele na venda de Lopez, simpático espanhol, na parte externa do Mercado. Freguês habitual, conquistara o direito de servir-se sem auxílio do empregado. Sobre o balcão viu uma garrafa, transbordando de límpida cachaça, transparente, perfeita. Encheu um copo, cuspiu para limpar a boca, virou-o de uma vez. E um berro inumano cortou a placidez da manhã no Mercado, abalando o próprio Elevador Lacerda em seus profundos alicerces. O grito de um animal ferido de morte, de um homem traído e desgraçado:
Águuuuua!
Imundo, asqueroso espanhol de má fama! Corria gente de todos os lados, alguém estava sendo com certeza assassinado, os fregueses da venda riam às gargalhadas. O berro dágua de Quincas logo se espalhou como anedota, do Mercado ao Pelourinho, do largo das Sete Portas ao Dique, da Calçada a Itapoã. Quincas Berro Dágua ficou ele sendo desde então, e Quitéria do Olho Arregalado, nos momentos de maior ternura, dizia-lhe Berrito por entre os dentes mordedores.
Também naquelas casas pobres das mulheres mais baratas, onde vagabundos e malandros, pequenos contrabandistas e marinheiros desembarcados encontravam um lar, família e o amor nas horas perdidas da noite, após o mercado triste do sexo, quando as fatigadas mulheres ansiavam por um pouco de ternura, a notícia da morte de Quincas Berro Dágua foi a desolação e fez correr as lágrimas mais tristes. As mulheres choravam como se houvessem perdido parente próximo e sentiam-se de súbito desamparadas em sua miséria. Algumas somaram suas economias e resolveram comprar as mais belas flores da Bahia para o morto. Quanto a Quitéria do Olho Arregalado, cercada pela lacrimosa dedicação das companheiras de casa, seus gritos cruzavam a ladeira de São Miguel, morriam no largo do Pelourinho, eram de cortar o coração. Só encontrou consolo na bebida, exaltando, entre goles e soluços, a memória daquele inesquecível amante, o mais terno e louco, o mais alegre e sábio. Relembraram fatos, detalhes e frases capazes de dar a justa medida de Quincas. Fora ele quem cuidara, durante mais de vinte dias, do filho de três meses de Benedita, quando esta teve de internar-se no hospital. Só faltara dar à criança o seio a amamentar. O mais fizera: trocava fraldas, limpava cocô, banhava o infante, dava-lhe mamadeira. Não se atirara ele, ainda há poucos dias, velho e bêbedo, como um campeão sem medo, em defesa de Clara Boa, quando dois jovens transviados, filhos da puta das melhores famílias, quiseram surrá-la numa farra no castelo de Viviana? E que hóspede mais agradável na grande mesa na sala de jantar na hora do meio-dia... Quem sabia histórias mais engraçadas, quem melhor consolava das penas de amor, quem era como um pai ou como um irmão mais velho? Pelo meio da tarde, Quitéria do Olho Arregalado rolou da cadeira, foi conduzida ao leito, adormeceu com suas recordações. Várias mulheres decidiram não buscar nem receber nenhum homem naquela noite, estavam de luto. Como se fosse quinta ou sexta-feira santa.
Jorge Amado, in A morte e a morte de Quincas Berro Dágua

13/09/2011

O primeiro Dia Mundial da Cachaça

Foto de Elilson Batista

Só no Brasil para a primeira edição do Dia Mundial da Cachaça, comemorada hoje, cair em plena segunda-feira.
A data foi criada no ano passado. Mais precisamente no dia 28 de outubro foi aprovada pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados.
No projeto, o autor, o deputado Valdir Colatto (PMDB-SC), afirma que a cachaça é um "símbolo nacional" e que, hoje, há uma "luta pelo reconhecimento da cachaça no mercado internacional como bebida exclusiva e genuinamente brasileira".
A data foi escolhida porque foi em 13 de setembro de 1661 que a cachaça foi legalizada, após uma revolta popular contra o governo português, que proibia a sua comercialização na então colônia.
O relator do projeto foi o deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), de São João del Rei, que se relatasse contra nunca mais poderia voltar à sua cidade e não seria mais eleito nem para síndico.
Ah, e a cachaça acima que ilustra a postagem é do estoque de Caio César Muniz que, sábado passado, me ofereceu uma dose. O tiragosto, caju, tinha muito. Mas o danado era o outro "ingrediente" que acompanhava o mosto da cana-de-açúcar. Recusei a generosa oferta.

15/07/2011

A "Mardita" da cachaça

Durante mais de quatro séculos de história, a cachaça assumiu diversos sinônimos e apelidos carinhosos cunhados pelo criativo povo brasileiro. Algumas dessas palavras foram criadas com o objetivo de enganar a fiscalização da Metrópole portuguesa nos tempos em que a bebida era proibida nessas terras coloniais por fazer concorrência com o destilado europeu, a grápia.
Estão registrados em dicionários, sites e livros ao todo mais de setecentas palavras para se referir ao destilado nacional. Para lembrar algumas, seguem os versos do poeta baiano Luís campos:

Falo da mais famosa,
das bebidas brasileiras,
que agora é exportada,
para terras estrangeiras,
nossa gostosa Cachaça,
lembrando nossa bandeira.

Mais de cem nomes achei,
para a nossa Cachaça,
alguns sempre a culparam,
por todas suas desgraças,
se beber com moderação,
não fará feio na praça.

Então vamos ao trabalho,
que hoje não é feriado,
tem muitos nomes estranhos,
outros até engraçados,
todos que encontrei, estão,
aqui relacionados:

Mé, assovio-de-cobra,
gole, goró e branquinha.
Arromba-cueca, samba,
rocho-forte e lindinha.
Essa-que-matou-o-guarda,
trago, jacaré e boínha.

Tafiá, abre, marafo,
cambraia e imaculada.
Aca, aço, cumulaia,
rama, cândida e danada.
Caxaramba, moça-branca,
desmancha-samba e malvada.

Borbulhante, canha, guampa,
branca e água-de-cana.
Morrão, xinapre, canguara,
orontanje e caiana.
Gramática, brasa, prego
e aguardente de cana.

Dona-branca, supupara,
mundureba e abrideira.
Januária, catréia,
mandureba e bagaceira.
Água-que-passarinho-não-bebe,
já-começa e brasileira.

Gás, pitu, engasga-gato,
arrebenta-peito e cana.
Quebra-munheca, cobreira,
água-benta e maçangana.
Remédio, quebra-guela
e mamãe-de-aruana.

Filha-de-senhor-de-engenho,
três-martelos e água-bruta.
Baronesa, mata-bicho,
maria-branca e catuta.
Esquenta-por-dentro, bicha,
águas-de-setembro e fruta.

Caninha, cumbe, canica,
pevide, lisa e caxiri.
Homeopatia, bico,
cinquenta-e-um e parati.
Patrícia, espírito,
água-de-briga e elixir.

Azougue, sipia, uca,
tome-juízo e dengosa.
Capote-de-pobre, retrós,
jinjibirra e perigosa.
Suor-de-alambique, boa,
tiquira, junça e teimosa.

Gororoba, girgolina,
sete-virtudes, purinha.
Limpa, pilóia, legume,
jeribita e sinhaninha.
Óleo, Porongo, pura,
meu-consolo e sinhazinha.

Sumo-da-cana, minduba,
Azulzinha e calibrina.
Zuninga, corta-baínha,
jurubita e canjebrina.
Malunga, morretiana,
tiúba e terebintina.

Pinga, jura e dindinha,
azuladinha e birita.
Miscorete, diabrete,
boresca e jurubita.
Restilo, amansa-corno,
panete e piribita.

Marvada, catura, jora,
piritiba e cabreira.
Delas-frias, quebra-gelo,
birinaite e saideira.
Mamãe-sacode, siuba,
montuava e gorobeira.

Findo assim meu relato,
pedindo a você um favor:
Mande nomes da cachaça,
de que seja conhecedor,
para aumentar a lista,
deste ceguinho trovador.



Para os amantes da Marvada, e pródigos, indico a cachaça Havana, na Cachaçaria Sokana, na Praça da Convivência, na Av. Rio Branco. Mas, cuidado! Antes, veja o preço* no cardápio para não ter surpresa na conta depois.

Fotos: Elilson Batista

*Atentem para o Cód. 1051 - Havana 600ML - Dose: 77,00 - Cód. 2051 - Garrafa: 770,00!!!