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20/09/2023

Coração de estudante | Wagner Tiso e Milton Nascimento, 1983


Mesmo que tenha feito sozinho letra e música de muitas canções, em suas parcerias Milton Nascimento quase sempre assina a melodia. “Coração de estudante” é das raras em que ele escreveu a letra, a partir de um tema instrumental que Wagner Tiso criou em 1983, para a trilha sonora do documentário Jango, de Sílvio Tendler.
Milton assistiu ao filme numa sessão para convidados, antes de sua estreia nos cinemas e, ao chegar em casa, com a triste melodia de Wagner rodando na cabeça e emocionado com a história do presidente deposto pelo Golpe de 1964, escreveu a letra. Coloquial e lírico, sem usar mensagens de protesto explícitas, Milton criou um hino político que tem servido para muitas causas. Foi adotado tanto na campanha pela volta das eleições diretas para presidente, em 1984, quanto, no ano seguinte, como o tema da agonia e morte de Tancredo Neves, cantada pelas multidões ao longo de todo o cortejo.
Além de estar associada a tristes lembranças, a canção continua como uma ode à generosidade da juventude e prova de fé no ser humano.
Nascido em Três Pontas, Minas Gerais, Wagner Tiso Veiga (1945) é amigo e companheiro musical de Milton desde a adolescência, quando fizeram parte do grupo The W’s Boys. Continuaram juntos em Belo Horizonte, pelos bailes da vida, indo onde o povo estava, até a consagração de Milton com “Travessia” no festival de 1967 e Wagner se tornar um dos grandes pianistas e arranjadores brasileiros.
No início dos anos 1970, Tiso liderou o grupo Som Imaginário, que jogava eletricidade, timbres e sonoridades de rock na MPB de Milton. O parceiro também esteve junto no lançamento de “Coração de estudante”, como pianista e regente da orquestra do show em São Paulo, em novembro de 1983, registrado no disco Ao vivo.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

14/02/2023

Nada será como antes | Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1971


Gravada em 1971 por Joyce, num compacto com o grupo A Tribo, formado por Nelson Ângelo, Naná Vasconcellos, Toninho Horta e Novelli, e logo depois por Elis Regina, “Nada será como antes” entrou no mundo das canções eternas no álbum duplo Clube da Esquina, em 1972. Ela é uma das muitas preciosidades lapidadas por Milton Nascimento com Ronaldo Bastos (1948), um carioca nascido em Niterói que integrou, ao lado de Fernando Brant e Márcio Borges, a fundamental troika de parceiros que o carioca mais mineiro do mundo alternou na sua carreira luminosa. Durante a década de 1970, no período mais intenso da dupla, Milton e Ronaldo também assinaram “Cais”, “Fé cega, faca amolada”, “Cravo e canela” e “Circo Marimbondo”.
Com sua pegada pop, a música revelava o amor de Milton e seus parceiros pelos Beatles e companhia, que eram execrados pela MPB ortodoxa da época. A letra de Ronaldo refletia o turbulento período político que o Brasil atravessava, com a repressão aterrorizando a juventude e o perigo escondido em cada esquina, quando a vida na estrada passou a ser uma opção para tantos jovens insatisfeitos com o estado de coisas. A outra era cair na clandestinidade e na luta armada.
Além das possíveis esperanças da estrada, premonitoriamente, a canção também parecia anunciar que nada mais seria igual na música brasileira após o álbum duplo feito por Milton Nascimento & Lô Borges e quase duas dezenas de compositores, arranjadores e intérpretes, que entrou para a história como Clube da Esquina. Uma reunião informal de amigos e talentos que, sem planos, receitas ou restrições culturais, misturou samba, jazz, rock, bolero, abrindo uma riquíssima terceira via para a música brasileira, que seria uma das mais influentes nas décadas seguintes.
O sucesso de “Nada será como antes” mostrou sua perfeita sintonia com o momento, e logo a canção também começou a ser reconhecida fora do Brasil. Inicialmente entre os músicos de jazz, que adotaram a versão para o inglês de Rene Vincent, “Nothing Will Be As It Was”, lançada no álbum Milton (1976), gravado em Los Angeles, ao lado de Wayne Shorter, Herbie Hancock, Hugo Fattoruso e Airto Moreira. E seguiu com o pé na estrada, nas vozes jazzísticas de Sarah Vaughan, Flora Purim e Tânia Maria.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

08/12/2022

Milton Nascimento | Morro Velho

Travessia | Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967


Em 1967, depois de cinco anos ralando como músico da noite paulista e nos bailes da vida, Milton Nascimento (1942) viu a roda da fortuna girar a seu favor, quando a já popularíssima Elis Regina gravou a sua “Canção do sal” e o encorajou a participar, como intérprete, do II Festival Nacional de Música Popular Brasileira, na TV Excelsior. Milton se classificou em quarto lugar com “Cidade vazia”, de Baden Powell e Lula Freire, mas detestou a experiência de ver colegas se digladiando na disputa e jurou nunca mais participar dos festivais competitivos que empolgavam o país.
Promessa feita e cumprida, certa noite o carioca mais mineiro do Brasil foi surpreendido pelos telefonemas de parabéns de amigos. Para sua surpresa, ele estava entre os selecionados no II Festival Internacional da Canção, da TV Globo, com nada menos que três músicas, inscritas à sua revelia pelo amigo Agostinho dos Santos. Sabendo da decisão do compositor, Agostinho – um dos principais intérpretes brasileiros –, pediu-lhe uma fita com “Morro Velho”, “Travessia” e “Maria, minha fé” para mostrar a seu produtor e inscreveu-as no festival.
O resto é história. “Maria, minha fé”, interpretada por Agostinho dos Santos, caiu na primeira eliminatória, mas as outras duas, ambas na voz privilegiada de Milton, chegaram à finalíssima: “Travessia” ficou com o segundo lugar (atrás de “Margarida”, de Guttemberg Guarabyra) e “Morro Velho”, com o sétimo. De quebra, Milton saiu do Maracanãzinho com o prêmio de melhor intérprete. Aos 24 anos, também chamou a atenção dos convidados internacionais que participavam do festival, como o produtor americano Creed Taylor, com quem assinou um contrato para gravar nos Estados Unidos. Como na canção que o consagrou, soltou a voz nas estradas para não mais parar. Foi a sua travessia do anonimato ao sucesso e ao prestígio.
“Travessia” foi a primeira parceria de Milton com o mineiro Fernando Brant (1946-2015), que até então nunca tinha escrito letras. Milton vinha trabalhando numa canção que batizara de “O vendedor de sonhos”, mas, empacado na letra, foi até Belo Horizonte em busca da ajuda do amigo. Só depois de muita insistência, Brant concordou em tentar e acabou também fazendo a sua travessia pessoal para se tornar um dos mais importantes letristas brasileiros.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil