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31/05/2026

Soneto 18

Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.

William Shakespeare, em Sonetos

03/11/2025

O rei Lear


Lear, rei da Bretanha, tinha três filhas: Goneril, esposa do duque de Albânia; Regan, esposa do duque de Cornualha; e Cordélia, ainda solteira, de quem eram pretendentes o rei da França e o duque de Borgonha, os quais se achavam, com esse propósito, na corte do rei Lear.
Com mais de oitenta anos, exausto pela idade e pelos trabalhos do governo, o velho rei resolvera abrir mão dos assuntos de Estado, deixando-os a forças mais jovens, enquanto se preparava para a morte, que não devia tardar. Nesse intuito, chamou as três filhas. Queria saber dos seus próprios lábios qual delas o amava mais, a fim de repartir o reino entre elas, na mesma proporção do afeto de cada uma.
Goneril, a mais velha, declarou que amava o pai mais do que podia expressar em palavras — que este lhe era mais caro do que a luz dos seus olhos, do que sua liberdade e do que sua própria vida. Disse uma série de coisas do gênero, fáceis de simular quando não existe o amor verdadeiro, pois bastam algumas belas palavras ditas com ênfase. Num rasgo de ternura paterna e deleitado com essa confissão de amor, que julgava vir do coração da filha, o rei concedeu a ela e ao marido um terço de seu vasto reino.
Chamou então a segunda filha e perguntou-lhe o que tinha a dizer. Feita do mesmo metal oco que a irmã, Regan não ficou atrás nas declarações. Afirmou que tudo o que a irmã dissera nada era em comparação com o amor que ela dedicava à Sua Majestade, que todas as suas alegrias feneciam diante do prazer que sentia em amar a seu querido rei e pai.
Depois dessas desvanecedoras palavras de Regan, Lear julgou-se um abençoado por ter filhas tão extremosas e não pôde deixar de conceder a ela e ao marido um outro terço de seu reino, como já fizera com Goneril.
Voltou-se em seguida para a filha mais nova, Cordélia, a quem chamava de sua alegria, e perguntou-lhe o que tinha a dizer. Pensava, sem dúvida, que Cordélia lhe encantaria os ouvidos com as mesmas palavras de amor que haviam proferido suas irmãs e até que suas expressões seriam ainda mais fortes, pois ela era sua predileta e sempre fora mais mimada do que as duas mais velhas. Mas, desgostosa com a lisonja das irmãs, cujos corações sabia estarem longe dos lábios, e compreendendo que aquelas calorosas manifestações visavam apenas despojar o velho rei dos seus domínios, Cordélia limitou-se a dizer que amava ao pai como era de seu dever, nem mais nem menos.
Chocado com essa aparente ingratidão da filha predileta, o rei pediu-lhe que reconsiderasse o que dissera e modificasse suas palavras, para que aquilo não a prejudicasse no futuro.
Cordélia respondeu-lhe então que ele era o autor dos seus dias, que a educara e amara, e que a isso ela retribuía com obediência, amor e veneração. Não podia, porém, afeiçoar sua boca a discursos tão longos quanto os das irmãs, nem prometer nada mais amar neste mundo. Por que as irmãs tinham maridos, se (como diziam) não amavam senão ao pai? Ela, se algum dia casasse, estava certa de que aquele a quem desse a mão não havia de querer metade de seu amor, carinho e dedicação. Nunca poderia casar, como as irmãs, para amar tão somente ao pai.
Cordélia, que na verdade amava ao pai quase tanto quanto pretendiam suas irmãs, poderia ter feito tal declaração em outra ocasião, em termos mais filiais e carinhosos.
No entanto, diante das hipócritas e aduladoras falas das irmãs, que vira tão exageradamente recompensadas, ela preferia agora guardar silêncio sobre seus sentimentos. Queria resguardar seu afeto acima das suspeitas de mercenarismo. Mostraria que amava o pai, mas não por interesse, e que suas declarações, embora menos espalhafatosas, eram muito mais verdadeiras e sinceras.
A simplicidade das suas palavras, porém, enfureceu o velho monarca, que as julgou ditadas pelo orgulho. Mesmo nos seus melhores dias, ele sempre fora acrimonioso e irritado. Agora, a velhice lhe nublava de tal modo a razão que ele já não discernia a verdade da lisonja, as palavras artificiosas daquelas que brotam do coração. Assim, num acesso de ressentimento, deserdou Cordélia do terço do reino que ele reservara, dividindo-o igualmente entre as duas irmãs e seus maridos, os duques de Albânia e de Cornualha. Chamou de novo as filhas e os genros e, na presença da corte, investiu-os de todo o poder, rendimentos e soberania, reservando para si somente o título de rei. Impunha apenas uma condição: a de residir alternadamente cada mês no palácio de uma das filhas, acompanhado de um séquito de cem cavaleiros.
A absurda partilha do reino, tão pouco guiada pela razão e tanto pela paixão, encheu a corte de espanto e mágoa. Mas ninguém teve coragem de se expor à exasperação e à fúria reais, exceto o conde de Kent. Começou este a dizer algumas palavras a favor de Cordélia, quando o rei intimou-o a se calar, sob pena de morte, mas o bom Kent não era homem que se sujeitasse a isso. Sempre fora fiel a Lear, a quem honrava como rei, amava como pai, seguia como amo. Nunca considerara sua vida senão como um penhor hipotecado aos inimigos do rei, nem temia perdê-la quando se tratava da salvação de Lear. Mesmo agora, que o rei era seu inimigo, o fiel vassalo não esquecia seus velhos princípios.
Opôs-se corajosamente a Lear, tentando fazê-lo voltar à razão, e até se mostrou rude diante dos desvarios do rei.
Em outros tempos Kent fora seu conselheiro de confiança e agora pedia que, como já fizera em muitos assuntos graves, mais uma vez o rei visse pelos seus olhos e se guiasse por seus conselhos. Pediu-lhe que dominasse aquele odioso arrebatamento, pois jurava pela própria vida que a filha mais nova de Lear não era a que menos o amava. Quando o poder se inclinava ante a lisonja, a honra era obrigada a se mostrar modesta. Quanto às ameaças de Lear, que poderia este fazer àquele cuja vida já estava a seu dispor? Nada o impediria de exercer seu dever de falar. Como um doente furioso, que mata o médico e se apraz no seu desvario, Lear desterrou aquele fiel servidor, dando-lhe cinco dias para os preparativos da partida; se, no sexto dia, a odiada pessoa de Kent fosse encontrada dentro dos limites do reino, ele seria condenado à morte.
Kent despediu-se de Lear, dizendo que, já que o rei se mostrava daquela maneira, seria o mesmo estar no exílio ou permanecer na corte. Antes de partir, recomendou Cordélia à proteção dos deuses, que tão retamente pensavam e tão discretamente falavam; fez votos para que os fatos correspondessem às palavras das suas irmãs. E partiu, como dizia, para adaptar seus velhos hábitos a novas terras.
O rei da França e o duque de Borgonha foram chamados para ouvir o que Lear decidira a respeito da filha mais nova e declarar se continuariam a fazer a corte a Cordélia, agora que ela incorrera no desfavor paterno e nenhuma riqueza possuía além da própria pessoa. O duque de Borgonha logo desistiu: não a queria como esposa em tais condições. O rei da França, no entanto, compreendeu a natureza da falta que a fizera perder o amor do pai. Percebeu que seu único defeito era ser retraída nas palavras e incapaz de amoldar a língua às adulações, como faziam as irmãs. Disse que as virtudes dela constituíam um dote mais precioso do que um reino e pediu-lhe que se despedisse das irmãs e do pai, embora este houvesse se mostrado tão desumano. Iria com ele, seria sua rainha e da linda França, reinando sobre domínios mais belos do que os das irmãs.
Com os olhos cheios de lágrimas, Cordélia disse adeus às irmãs e pediu-lhes que amassem o pai e cumprissem as promessas que lhe haviam feito. Rispidamente, elas retrucaram que não precisavam das suas recomendações, pois conheciam o próprio dever, e que Cordélia devia se esforçar para agradar ao marido, que a recebia apenas por uma miserável esmola da Sorte. Conhecendo bem as irmãs, Cordélia partiu com o coração angustiado, desejando que o pai estivesse em melhores mãos do que aquelas em que o deixava.
Mal Cordélia se retirou, as diabólicas disposições das duas irmãs começaram a se mostrar sob seu verdadeiro aspecto. Mesmo antes de expirado o primeiro mês que, segundo o acordo, Lear passaria com a filha mais velha, Goneril, revelou-se a diferença entre as promessas e a realidade. Essa pérfida, que recebera do pai tudo o que ele podia dar, começou a invejar até mesmo os restos de realeza que o velho reservara para si, a fim de embalar sua fantasia com a ideia de que ainda era rei. Não podia vê-lo, nem aos seus cem cavaleiros. E, cada vez que o encontrava, mostrava uma fisionomia carrancuda. Sempre que o velho queria lhe falar, simulava uma doença ou qualquer outro impedimento. Era visível que considerava sua velhice um fardo inútil e aquela comitiva, uma despesa desnecessária. Não só descurava no cumprimento dos seus deveres para com o rei, como, por exemplo ou até recomendação, permitia que os criados do palácio o tratassem com negligência, recusando-se a obedecer-lhe ou, ainda mais acintosamente, fingindo não ouvi-lo. Mesmo notando a mudança no procedimento da filha, Lear fechou os olhos enquanto foi possível, pois em geral ninguém quer reconhecer as consequências que seus próprios erros acarretam.
Embora desterrado por Lear e condenado à morte se fosse encontrado na Bretanha, o conde de Kent decidiu ficar e enfrentar as consequências de seu ato, enquanto houvesse um ensejo de ser útil ao velho rei, seu soberano. Vede a que tristes expedientes a pobre lealdade é às vezes forçada a se submeter! Contudo, ela nada considera baixo ou indigno; apenas busca servir onde o dever a chama. Renunciando a toda grandeza e pompa e disfarçado de criado, o bom conde ofereceu seus serviços ao rei. Sem reconhecê-lo, mas simpatizando com suas maneiras simples e um tanto rudes (tão diferentes da untuosa adulação das filhas), o rei logo o contratou, sob o suposto nome de Caio, sem nunca suspeitar de que aquele era seu antigo favorito, o nobre e poderoso conde de Kent.
Caio logo teve chance de demonstrar sua fidelidade e dedicação. Naquele dia, o mordomo de Goneril tratara desrespeitosamente ao rei, dirigindo-lhe olhares e palavras insolentes, ao que era, sem dúvida, incitado pela própria ama.
Não tolerando a afronta à Sua Majestade, Caio arremessou-se contra o atrevido lacaio, jogando-o no chão. Por esse bom serviço, ficou-lhe Lear muito afeiçoado.
Mas Kent não era o único amigo de Lear. Na sua humilde posição e até onde tão insignificante personagem podia demonstrar amizade, o pobre bobo que pertencera ao palácio de Lear afeiçoou-se ao rei depois de sua desgraça. E, com seus ditos alegres, contribuía para lhe animar o espírito, embora algumas vezes não resistisse ao impulso de criticar a imprudência de seu senhor em renunciar à coroa e ceder tudo às filhas. Então cantava, referindo-se a elas:

Elas choram de alegria
e canto eu de pesar,
por ver um rei como aquele
com os bobos se juntar.

Com esses ditos e canções, em que era inesgotável, o divertido e honrado bobo desafogava o coração, dizendo coisas amargas, mesmo em presença de Goneril. Certa vez, comparou o rei ao pardal, que alimenta os filhotes do cuco e depois é por eles comido. Doutra feita, dissera que até um burro compreenderia quando o carro puxa o cavalo (significando que as filhas de Lear, que deviam ir atrás, agora seguiam adiante do pai). Também falava que Lear não era mais Lear, mas apenas a sombra de Lear. Por essas e outras, algumas vezes foi ele ameaçado com o chicote.
A frieza e a falta de respeito que Lear começava a notar não foram tudo que o ludibriado pai teve de suportar de sua indigna filha. Disse-lhe ela abertamente que não convinha a permanência dele no palácio, enquanto insistisse em manter o séquito de cem cavaleiros, pois tal séquito era inútil e dispendioso, só servindo para encher a corte de tumulto e orgias. Pedia-lhe, pois, que diminuísse o número de sua comitiva e só conservasse velhos a seu serviço, de idade adequada à sua.
A princípio, Lear não quis acreditar nos próprios olhos e ouvidos, nem que era sua filha que falava daquele jeito. Não podia conceber que aquela que dele recebera uma coroa quisesse reduzir-lhe o séquito e lhe faltasse com o respeito devido à idade avançada. Mas, como Goneril insistisse nessa desrespeitosa exigência, o rei enfureceu-se, chamando-a de abutre detestável e dizendo que ela mentia. E assim era, pois, na verdade, os cem cavaleiros tinham conduta irrepreensível e hábitos sóbrios, mostrando-se rigorosos nos seus deveres e nada amantes de tumultos e orgias.
Lear mandou aprontar os cavalos, para ir, com seus cem cavaleiros, ao palácio da segunda filha, Regan. Falou da ingratidão — esse demônio de coração de pedra, que se tornara ainda mais hediondo quando se abrigava no peito de uma filha. Num acesso de ódio, terrível de escutar, amaldiçoou Goneril, pedindo a Deus que ela nunca tivesse filhos, ou que, se os tivesse, estes lhe votassem o mesmo desprezo que ela lhe mostrava, para que sentisse que, muito mais doloroso do que a mordedura de uma cobra, é conhecer a ingratidão de um filho.
Como o marido de Goneril, o duque de Albânia, começasse a se eximir de qualquer participação que o rei pudesse lhe atribuir naquilo tudo, Lear deixou-o falando sozinho e ordenou, fora de si, que encilhassem os cavalos, a fim de partir, com seus cavaleiros, para a casa da segunda filha.
No íntimo, Lear já começava a ponderar consigo mesmo quão pequena fora a falta de Cordélia (se falta era), comparada com a da irmã. Pôs-se a chorar, mas logo se envergonhou de que uma criatura como Goneril pudesse ter tanta ascendência sobre ele, a ponto de fazê-lo cair em pranto.
Regan e o marido mantinham a corte no seu palácio em grande pompa e magnificência. E Lear despachou seu criado Caio com cartas para a filha, a fim de que esta se aprestasse a recebê-lo; seus cavaleiros seguiriam depois. Entretanto, Goneril se havia antecipado, escrevendo também para Regan, para acusar o pai de caprichoso e rabugento e aconselhá-la a não receber a imensa comitiva que o acompanhava.
Seu mensageiro chegou ao mesmo tempo que Caio. E ambos se encontraram frente a frente. E quem havia de ser, senão o inimigo de Caio, aquele a quem um dia castigara pelo desrespeito ao rei Lear?
Não se agradando de seu aspecto e desconfiado do motivo que ali o trazia, Caio começou a provocá-lo e desafiou-o para um duelo, ao que o outro se recusou. Caio, então, num assomo de cólera, bateu-lhe impiedosamente, como merecia o portador de perversos recados.
Cientes do que ocorrera, Regan e o marido ordenaram que Caio fosse torturado nos cepos, apesar de ser um emissário do rei seu pai e de merecer, em tal qualidade, a mais elevada consideração. Assim, a primeira coisa que o rei viu, ao penetrar no castelo, foi seu fiel servidor naquela lastimável situação.
Esse já era um péssimo augúrio da recepção que teria. Pior, porém, foi o que se seguiu. Tendo perguntado pela filha e o marido, foi-lhe respondido que estavam cansados de viajar a noite inteira e não podiam vê-lo. Só diante de sua insistência, eles foram finalmente cumprimentá-lo. E eis que, na companhia de ambos, vinha nada menos que a detestada Goneril, que fora contar pessoalmente sua história e indispor a irmã contra o rei seu pai.
O velho rei ficou impressionado com o que viu, e mais ainda ao notar que Regan dava a mão à irmã. Lear perguntou a Goneril se ela não se envergonhava de lhe fitar as barbas brancas. Regan aconselhou-o a voltar para o palácio da primogênita e com ela viver em paz, despedindo metade de sua comitiva. Também aconselhou-o a pedir perdão a Goneril, pois era muito velho e precisava ser governado e guiado por pessoas de discernimento mais perfeito.
Cheio de indignação, Lear mostrou o absurdo que seria ajoelhar-se ele aos pés da filha e suplicar-lhe o que comer e o que vestir. Rebelou-se contra essa dependência antinatural, dizendo que nunca voltaria para junto de Goneril, mas ficaria ali onde estava, com Regan — ele e seus cem cavaleiros.
Afiançava que esta não havia esquecido a metade do reino que lhe dera e que seus olhos não eram duros como os de Goneril, mas meigos e bondosos.
Dizia que, em vez de voltar para a casa de Goneril, com seu séquito reduzido à metade, preferia ir para a França, pedir uma mesquinha pensão ao rei que casara com sua filha mais nova, sem dote.
Mas se enganava ao esperar de Regan melhor tratamento do que aquele que lhe dera Goneril. Como se quisesse vencer a irmã em desumanidade, ela declarou que achava cinquenta cavaleiros demasiado para ele e que vinte e cinco bastavam.
Então Lear, com o coração partido, virou-se para Goneril, dizendo que voltaria para a casa dela, pois os seus cinquenta eram o dobro de vinte e cinco — assim, seu amor era duas vezes maior do que o de Regan.
Mas Goneril esquivou-se, perguntando que necessidade tinha ele de vinte e cinco homens? Ou mesmo de dez? Ou de cinco? Podia muito bem ser atendido pelos criados dela, ou os de sua irmã.
Desse modo, as duas perversas filhas travavam um duelo de crueldade para com o velho pai, que tão bondoso fora com elas. Pouco a pouco, reduziram-lhe a comitiva, privando-o de qualquer símbolo do respeito que cabia a quem fora rei. Não que uma comitiva esplêndida seja essencial à felicidade. Mas de um rei a um mendigo a diferença é grande: governar sobre milhões de homens e não ter um só criado. Mais do que a falta de uma comitiva, o que na verdade dilacerava o coração do rei era a ingratidão das filhas. E tal foi sua angústia ante a ingratidão das filhas a quem levianamente cedera um reino que seu espírito começou a vacilar. Pôs-se a dizer coisas sem nexo, jurando impor àquelas desnaturadas megeras tamanha vingança que ficaria para exemplo e terror do mundo.
Enquanto Lear fazia essas vãs ameaças que seu débil braço jamais poderia executar, a noite caiu e fez desabar uma terrível tempestade, com chuva, trovões e relâmpagos. E como as filhas insistissem em não reconhecer os cavaleiros de seu séquito, Lear preferiu afrontar a fúria dos elementos a ficar sob o mesmo teto com aquelas ingratas. Elas, alegando que os males que os teimosos acarretam sobre si são um merecido castigo, bateram-lhe a porta nas costas.
Uivavam os ventos furiosos e a borrasca era de aterrar, quando o pobre velho saiu para enfrentar os elementos, menos ferozes do que a maldade das filhas. Nessa noite tenebrosa, o rei Lear andou por charnecas e matagais, vagueando ao acaso, exposto ao ímpeto da tormenta, desafiando ventos e trovões. Pedia aos ventos que arremessassem a terra para as profundezas do mar, ou conjurava as ondas a tragarem a terra, para que nenhum vestígio restasse desse ingrato animal que é o homem.
Tinha por único companheiro o pobre bobo, que dele não quisera se separar e procurava, com suas graças, afrontar os reveses da sorte. Em dado momento, quando aumentou a violência da tempestade, disse-lhe o bobo que o melhor a fazer numa noite daquelas era o rei voltar e pedir a bênção às filhas:

Quem quer que tenha algum juízo
deixa que chova ou que vente,
que antes de tudo é preciso
com a sorte estar contente.

Assim, pobremente acompanhado, esse monarca outrora grande foi encontrado por seu fiel vassalo, o bom conde de Kent, transformado agora em Caio e que sempre o seguia de perto. Ao deparar com o rei, disse-lhe:
Ai, senhor, estais aqui? As criaturas que amam a noite não amam noites como esta. Esta tremenda tempestade amedronta os animais e os obriga a buscar seus esconderijos. A natureza humana também não pode suportar a aflição e o medo.
Lear recebeu-o com rispidez e disse que esses males menores não são perceptíveis quando um mal maior nos domina. Se a alma é livre, o corpo pode ser delicado; mas a tempestade que lhe ia na alma impedia-o de sentir o que quer que fosse. Nele, somente o coração palpitava e sofria. Falou depois da ingratidão filial e disse que era o mesmo que morder a mão que nos dá de comer na boca, pois os pais são as mãos, o alimento e tudo para os filhos.
O bom Caio insistiu em que o rei não continuasse ao relento, convencendo-o afinal a entrar numa miserável choupana que descobrira na charneca. O bobo entrou primeiro e retrocedeu aterrorizado, dizendo que vira um fantasma. Após um exame mais detido, verificou-se que se tratava de um pobre mendigo de Bedlam, que se arrastara, em busca de refúgio, até aquela choupana abandonada e que, com suas falas de bruxedos, amedrontara o bobo. Era um desses pobres lunáticos que ou são doidos de verdade, ou fingem sê-lo, para melhor inspirar compaixão à gente simples das aldeias. Percorrem os povoados a dizer: “Quem dá uma esmolinha ao pobre louco?”. E espetam alfinetes e pregos nos braços, para os fazer sangrar. E com essas artes horríveis, às vezes por súplicas, às vezes à custa de maldições, comovem ou aterram os aldeões ignorantes, obtendo uma boa colheita de esmolas. Aquele pobre-diabo era um desses. E o rei, vendo-o naquele mísero estado, tendo apenas um lençol em volta dos rins para lhe cobrir a nudez, convenceu-se de que o infeliz era um pai que também dera tudo para as filhas e assim caíra naquele estado, pois nada, julgava ele, podia arrastar um homem a tal miséria senão o fato de ter filhas desnaturadas.
Por essas e outras frases que o rei proferiu, Caio compreendeu que ele não estava em seu juízo perfeito e que os maus-tratos das filhas lhe haviam desequilibrado o espírito.
E a lealdade do conde de Kent traduziu-se, nessa hora, nos serviços mais valiosos que já tivera o ensejo de prestar. Com o auxílio de alguns súditos que haviam permanecido fiéis, fez transportar seu amo, ao raiar do dia, para o castelo de Dover, onde, na condição de conde de Kent, possuía seus principais amigos e sua maior influência. Embarcou para a França e, correndo à corte de Cordélia, pintou-lhe a terrível condição do pai e a desumanidade das suas irmãs. Banhada em pranto, aquela boa e terna filha rogou ao rei seu marido licença de embarcar para a Inglaterra com forças suficientes para obrigar suas cruéis irmãs e cunhados a restaurarem, no trono, o velho rei seu pai. O marido consentiu, e ela imediatamente partiu com um exército para Dover.
Tendo casualmente se extraviado dos guardas que o conde de Kent designara para acompanhá-lo, devido à demência, Lear foi encontrado por alguém do séquito de Cordélia, a vaguear pelas cercanias de Dover, cantando alto e ostentando na cabeça uma coroa feita por ele próprio, de capim seco, urtigas e outras plantas silvestres que apanhara pelo caminho.
A conselho dos médicos, Cordélia, apesar de ansiosa para ver o pai, resignou-se a adiar o encontro até que, pelo sono e mercê de umas ervas que lhe ministraram, ele recuperasse um pouco de lucidez e calma. Pela solicitude daqueles hábeis médicos, a quem Cordélia prometera todo seu ouro e joias se restituíssem a razão a Lear, não tardou este a se achar em condições de ver a filha.
Foi comovedor o encontro de ambos. O pobre velho debatia-se entre a inesperada alegria de rever a filha que fora outrora sua predileta e a vergonha de receber a quem expulsara de casa por tão insignificante motivo. Esses dois sentimentos opostos lutavam com os resquícios de sua enfermidade. E o transtorno de seu espírito fazia com que, às vezes, quase não se lembrasse de onde estava, ou de quem tão carinhosamente o beijava e lhe falava. Pedia então aos presentes que não rissem se ele cometesse um engano, julgando que aquela dama era sua filha Cordélia. Era de cortar o coração vê-lo depois tombar de joelhos e pedir perdão à filha. E a pobre, de joelhos, pedia-lhe a bênção, dizendo-lhe que não era ele quem devia se ajoelhar, mas sim ela, pois era sua filha Cordélia! E beijou-o para (como ela dizia) limpar com seu beijo toda a maldade das irmãs. Explicou depois ao pai que viera da França com a intenção de o socorrer. Lear lhe respondeu que ela devia esquecer e perdoar, pois ele era velho e tonto e não sabia o que fazia; mas que, na verdade, tinha ela grande motivo para não amá-lo, ao passo que suas irmãs não tinham nenhum. Cordélia replicou que não tinha mais motivos para isso do que as outras duas.
Deixemos por ora o velho rei entregue às solicitudes de sua dedicada filha. Com o repouso e os remédios aplicados, conseguiram ela e os médicos esclarecer a mente desordenada do pobre velho, a quem a crueldade das filhas tão violentamente abalara.
Esses monstros de ingratidão, que tão falsas haviam sido para com o velho pai, seria de espantar que também não o fossem para com seus maridos. Logo lhes pesou guardar ao menos as aparências do dever e da afeição e abertamente mostraram que haviam dedicado a outrem seus afetos. Ora, sucedeu que o objeto dos seus criminosos amores era o mesmo. Tratava-se de Edmundo, filho natural do extinto conde de Gloucester, que, por suas artes e manhas, conseguira espoliar do condado o irmão Edgar, o legítimo herdeiro. Era um homem cruel e perverso, o mais adequado que podia haver para objeto dos amores de criaturas como Goneril e Regan. Tendo ocorrido a morte do duque de Cornualha, marido de Regan, esta declarou imediatamente sua intenção de desposar o usurpador do condado de Gloucester. A notícia exasperou o ciúme de Goneril, a quem, tal como a Regan, o pérfido conde diversas vezes declarara seu amor. Incapaz de dominar seu rancor, Goneril achou meios de envenenar a irmã. Mas, descoberto seu crime, foi mandada prender pelo marido, o duque de Albânia, que aliás já era sabedor dos seus infiéis amores. E Goneril, no seu desespero, pôs termo à vida. Assim, finalmente, a justiça dos Céus feriu aquelas filhas desnaturadas.
Enquanto os olhos de todos estavam fixos nesse caso, admirando a justiça revelada nessas mortes merecidas, foram os mesmos olhos desviados para os misteriosos desígnios do mesmo poder no melancólico destino da jovem e virtuosa Cordélia, cujas boas ações pareciam merecer final mais feliz.
Mas é uma triste verdade que nem sempre a inocência e a bondade recebem o que merecem neste mundo. As forças que Goneril e Regan haviam enviado sob o comando do conde de Gloucester saíram vitoriosas. E Cordélia, pelas maquinações do perverso conde, que não queria que ninguém se interpusesse entre ele e o trono, terminou seus dias na prisão. Desse modo, o Céu chamou a si essa inocente dama, no verdor dos seus anos, depois de a haver mostrado ao mundo como um exemplo de dedicação filial. Lear não sobreviveu muito à sua extremosa filha.
Antes da morte deste último, o bom conde de Kent, que sempre seguira os passos do velho soberano, desde o primeiro dia em que suas filhas o maltrataram até o período final de abandono e miséria, tentou fazê-lo compreender que era ele quem o seguia, sob o nome de Caio. Mas o cérebro transtornado de Lear não conseguia atinar com o fato de Caio e Kent serem uma mesma e única pessoa. Por isso Kent julgou inútil importuná-lo com explicações. Lear morreu dentro em pouco, e aquele fiel servidor, que tão dedicadamente compartilhara de todos os seus infortúnios, não tardou a segui-lo à sepultura.
A maneira como o Céu castigou o falso conde de Gloucester (cujas maquinações foram desmascaradas, deixando-o ser abatido num duelo com o irmão, o conde legítimo) e a maneira como o marido de Goneril, o duque de Albânia (inocente da morte de Cordélia e que nunca aprovara a atitude da esposa para com o pai), subiu ao trono da Bretanha, após a morte de Lear, não há necessidade de narrar aqui. Afinal, estão mortos Lear e suas três filhas, cujas aventuras são o único objeto de nossa história.

Charles e Mary Lamb, em Contos de Shakespeare (tradução Mário Quintana)

14/11/2024

A violência de um coração

Uma escritora inglesa, Virginia Woolf, querendo provar que mulher nenhuma, na época de Shakespeare, poderia ter escrito as peças de Shakespeare, inventou para este último uma irmã que se chamaria Judith.
Judith teria o mesmo temperamento que seu irmãozinho William, e a mesma vocação.
Na verdade, seria outro Shakespeare, só que, por delicada fatalidade da natureza, seria mulher.
Antes, em poucas palavras, Virginia Woolf descreveu a vida do próprio William:
Frequentara escolas, estudara em latim Ovídio, Virgílio, Horácio, além de absorver os outros princípios de cultura de sua época.
Em menino, caçara coelhos, perambulara pelas vizinhanças, espiara bem o que queria espiar, armazenando infância (isso digo eu).
Como rapazinho, foi obrigado a casar-se, por questão de honra, um pouco apressadamente demais.
O casamento forçado e prematuro fez nascer nele uma grande vontade de escapar.
E ei-lo a caminho de Londres, em busca da sorte.
Como depois foi posteriormente bem provado, William tinha gosto por teatro. Começou então por empregar-se como “olheiro” de cavalos, à porta de um teatro. Passou a imiscuir-se entre os atores. Conseguiu ser um deles. Frequentou o mundo, aguçou a experiência e as palavras ao ter contato com as ruas e o povo, ganhou acesso ao palácio da rainha e terminou sendo aquele que pelos séculos se chamará sempre William Shakespeare.
E Judith?
Para começo de conversa, Judith não seria mandada para a escola, pois era menina.
E ninguém lê latim sem ao menos ter aprendido as declinações. É verdade que, tendo tanta avidez por aprender, às vezes pegava nos livros do irmão. Os pais intervinham: mandavam-na cerzir meias ou vigiar o assado.
Não era por mal, mas adoravam-na e queriam que ela se tornasse no futuro uma verdadeira mulher. Eis que chega a época de casar. Judith ainda não queria. E, igual ao irmão, sonhava com o amplo mundo. Negou-se a casar-se. Então apanhou do pai, que era bom pai e queria a sua felicidade, e viu correrem as lágrimas da mãe, que era suave e sofria pelo destino da filha.
Em luta contra tudo – pois é preciso não esquecer que Judith tinha o mesmo ímpeto de seu irmão William – em luta contra tudo, ela arrumou uma trouxa de roupa e fugiu para Londres.
Também Judith gostava de teatro. Parou à porta de um, disse que queria trabalhar com os artistas, ser um deles. Foi uma risada geral, todos logicamente imaginaram outra coisa diante daquela mocinha inexperiente e ingênua.
Sem dinheiro, sem comida, sem emprego, restava-lhe andar pelas ruas.
Finalmente alguém – e era um homem – teve pena dela. Através da qual, quero dizer, da pena, em breve Judith esperava um filho.
Até que, numa noite de inverno, ela se matou.
E assim acaba a história que não existiu.
Quem”, diz Virginia Woolf, “poderá calcular o calor e a violência de um coração de poeta quando preso no corpo de uma mulher?”

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

13/03/2024

Leitura

Essa mania de ler sobre autores fez com que, no último centenário de Shakespeare, se travasse entre uma professorinha do interior e este escriba o seguinte diálogo:

Que devo ler para conhecer Shakespeare?

— Shakespeare.

Mário Quintana, in Caderno H

13/11/2023

Cimbelino


Na época de Augusto César, imperador de Roma, reinava na Inglaterra (então denominada Bretanha) um rei chamado Cimbelino.
A primeira mulher de Cimbelino morreu quando seus três filhos (dois meninos e uma menina) eram ainda de tenra idade. Imogênia, a mais velha, foi educada na corte do pai. Mas os dois filhos de Cimbelino foram raptados do próprio quarto, quando o primeiro tinha apenas três anos e o segundo era ainda criança de peito. O rei nunca descobriu o paradeiro deles, nem quem os roubou.
Cimbelino casou duas vezes: sua segunda esposa era uma mulher má e intrigante, uma cruel madrasta para Imogênia.
A rainha, embora odiasse Imogênia, queria casá-la com um filho seu, fruto de outro matrimônio anterior. Esperava, com isso, após a morte de Cimbelino, colocar a coroa da Bretanha na cabeça de seu filho Cloten, pois sabia que, se os filhos do rei não fossem encontrados, a princesa Imogênia seria a única herdeira do trono. Mas esse desígnio foi frustrado pela própria Imogênia, que se casou sem licença nem conhecimento do pai ou da rainha.
Póstumo (assim se chamava o marido de Imogênia) era o mais instruído e perfeito cavalheiro da época. Seu pai morrera na guerra, a serviço de Cimbelino, e sua mãe morrera de pesar com a perda do esposo.
Comovido com a sorte do órfão, Cimbelino adotara Póstumo (dera-lhe este nome, por ele haver nascido após a morte do pai) e educara-o em sua própria corte.
Imogênia e Póstumo estudaram com os mesmos mestres e brincaram juntos na infância. Amavam-se ternamente quando crianças e, aumentando com os anos o afeto, casaram secretamente ao chegarem na idade apropriada.
Desapontada, a rainha logo lhes descobriu o segredo, pois mantinha espiões vigiando continuamente a enteada. Imediatamente, ela comunicou ao rei o casamento de Imogênia com Póstumo.
Nada podia exceder a cólera de Cimbelino ao descobrir que a filha esquecera a sua alta dignidade, a ponto de se casar com um vassalo. Ordenou a Póstumo que deixasse a Bretanha, banindo-o de sua pátria para sempre.
A rainha, que fingia lastimar Imogênia pela dor de perder o marido, ofereceu-se para lhes proporcionar uma entrevista secreta antes da partida de Póstumo para Roma, onde ele residiria. Essa falsa bondade tinha como objetivo facilitar a realização dos seus projetos em relação a Cloten, pois pretendia persuadir Imogênia, após a partida de Póstumo, que seu casamento não era legal, por ter sido realizado sem o consentimento do rei.
Imogênia e Póstumo despediram-se ternamente. Imogênia deu ao esposo um anel de diamantes que pertencera à rainha sua mãe, e Póstumo prometeu nunca separar-se dele. Fechou depois uma pulseira no braço da esposa, pedindo-lhe que a conservasse com o maior cuidado, como penhor de seu afeto. Trocaram então os últimos adeuses, com juras de amor e fidelidade.
Imogênia permaneceu solitária e melancólica no palácio real, e Póstumo chegou a Roma, local que escolhera para seu exílio.
Logo, ele travou amizade em Roma com alguns alegres jovens de diferentes países. Estavam um dia a falar de mulheres e cada qual louvava as de sua própria terra, particularmente suas amadas. Póstumo, que sempre tinha a esposa em mente, afirmou que a linda Imogênia era a mais virtuosa, sensata e constante mulher do mundo.
Um deles, Iáquimo, ofendido, por uma dama da Bretanha ser colocada acima das suas patrícias romanas, provocou Póstumo, pondo em dúvida a constância da tão louvada esposa. Depois de muito altercarem, Póstumo aceitou a seguinte proposta de Iáquimo: iria ele à Bretanha e tentaria conquistar o amor de Imogênia. Apostaram que, se Iáquimo não conseguisse seu intento, teria de pagar uma grande quantia. Mas, se obtivesse os favores de Imogênia e a induzisse a lhe entregar a pulseira (que Póstumo lhe dera como penhor de mútuo afeto), então Póstumo teria de dar a Iáquimo o anel que recebera da esposa. Tamanha era sua confiança na fidelidade de Imogênia que ele não ponderou que a honra desta pudesse correr perigo com semelhante aposta.
Ao chegar à Bretanha, Iáquimo foi cortesmente acolhido por Imogênia, na qualidade de amigo de seu esposo. Quando começou a lhe fazer declarações de amor, entretanto, ela o repeliu com desdém e ele logo compreendeu que não obteria sucesso nos seus desonestos propósitos.
Seu desejo de ganhar a aposta, porém, fê-lo recorrer a um estratagema para enganar Póstumo. Com esse fim, subornou alguns criados de Imogênia, para que estes o introduzissem no quarto dela, encerrado num grande baú. Ali permaneceu, até que Imogênia se recolheu ao quarto e adormeceu. Então, saindo do baú, Iáquimo examinou o quarto com grande atenção e tomou nota de tudo quanto viu, observando principalmente um sinal que Imogênia tinha no pescoço. Depois retirou cuidadosamente do braço dela a pulseira que Póstumo lhe dera e meteu-se de novo no baú. Imediatamente partiu para Roma. E gabou-se a Póstumo de que Imogênia lhe dera a pulseira, permitindo-lhe até que passasse a noite no quarto dela. Para reforçar sua assertiva, acrescentou:
O quarto dela é todo forrado de seda e prata. Os desenhos representam a história da orgulhosa Cleópatra ao se encontrar com Antônio e constituem na verdade um admirável trabalho.
É verdade — concordou Póstumo —, mas podias ouvir falar disso sem ver.
A lareira — continuou Iáquimo — fica ao sul do quarto e tem uma pintura que representa Diana no banho. Nunca vi figuras tão vivas.
Podias ter ouvido contar — objetou Póstumo —, pois falam muito nessa pintura.
Minuciosamente, Iáquimo descreveu então o teto do quarto e acrescentou:
Quase ia me esquecendo: os suportes da lareira são dois cupidos de prata. — Afinal mostrou a pulseira e disse: — Conheces esta joia? Pois foi ela quem me deu. Ela própria tirou-a do braço. Parece-me que ainda estou a vê-la... Seu lindo gesto valorizou ainda mais o presente. Deu-ma e disse que já a tivera em grande estima.
Por fim, descreveu o sinal que notara no pescoço dela.
Póstumo, que ouvia essa perversa história entre as torturas da dúvida, explodiu então nas mais arrebatadas imprecações contra Imogênia. E entregou a Iáquimo o anel de diamantes, que se havia comprometido a lhe dar, se ele trouxesse a pulseira.
Depois, num impulso de ciumenta cólera, escreveu a seu fiel amigo Pisânio, cavalheiro da Bretanha e um dos oficiais da corte de Imogênia. Contou-lhe a prova que tivera da infidelidade da esposa e ordenou-lhe que levasse Imogênia para Milford-Haven, um porto marítimo de Gales, e ali a matasse. Ao mesmo tempo, escreveu uma ardilosa carta a Imogênia, pedindo-lhe que acompanhasse Pisânio, pois sentia que não podia mais viver sem ela e que, embora estivesse proibido, sob pena de morte, de voltar à Bretanha, iria a Milford--Haven, para vê-la. Sem nada suspeitar, pois amava o marido acima de tudo e desejava, mais do que a própria vida, tornar a vê-lo, Imogênia apressou a partida com Pisânio, seguindo viagem na mesma noite em que recebeu a carta.
Quando estavam próximos do fim da viagem, Pisânio, que, embora fiel a Póstumo, não estava disposto a ajudá-lo numa ação daquelas, revelou a Imogênia a cruel ordem que recebera.
Imogênia, que, em vez de encontrar um amoroso e amado esposo, se viu assim condenada à morte, caiu na maior aflição.
Pisânio convenceu-a a se tranquilizar e aguardar com paciência o dia em que Póstumo reconhecesse sua injustiça e dela se arrependesse. E como Imogênia, naquela situação, se recusasse a voltar com Pisânio para a corte paterna, ele a aconselhou a se vestir de rapaz, para maior segurança quando ficasse a sós. Ela concordou, planejando, com tal disfarce, chegar a Roma para ver o marido, a quem continuava a amar, embora tão barbaramente ele a houvesse tratado.
Depois de lhe fornecer trajes masculinos, Pisânio deixou-a entregue à sua incerta sorte, pois era obrigado a regressar à corte. Antes de partir, no entanto, deu-lhe um frasquinho de tônico, com o qual a rainha o presenteara, como um remédio infalível para todos os males.
A rainha odiava Pisânio, por sua amizade com Imogênia e Póstumo, e dera-lhe aquele frasco com o que supunha ser veneno — um veneno que pedira a seu médico, sob a alegação de querer experimentá-lo sobre alguns animais. Desconfiado dos seus intuitos malignos, o médico não a munira de veneno verdadeiro, mas lhe dera uma droga cujo único mal era causar, por algumas horas, um sono com todas as aparências da morte. Tal era a poção que Pisânio, julgando ser tônico, oferecia a Imogênia, recomendando-lhe que a usasse, caso se sentisse mal. E assim, com muitos votos de felicidade, despediu-se dela.
Quis a Providência que os passos de Imogênia a conduzissem até a moradia dos seus dois irmãos, roubados quando pequeninos. Belário, que os raptara, era um nobre falsamente acusado de traição e banido da corte de Cimbelino. Como vingança, roubara os dois filhos do rei, levando-os para uma floresta, onde passaram a viver numa caverna. Tendo-os raptado por vingança, sucedeu, porém, que começou a amá-los tão carinhosamente como se fossem seus próprios filhos e os educou cuidadosamente. Assim, ambos cresceram e se tornaram excelentes rapazes, cujo sangue principesco incitava às façanhas e ao perigo. Vivendo da caça, tornaram-se fortes e ousados e sempre insistiam com o suposto pai para que os deixasse tentar a sorte na guerra.
Foi à caverna onde moravam esses jovens que Imogênia teve a sorte de chegar. Perdera-se na grande floresta, na qual se embrenhara em busca de um caminho para Milford-Haven, de onde pretendia embarcar para Roma. Sem conseguir alimento, estava a ponto de morrer de fraqueza e fome — não basta um traje masculino para capacitar uma jovem dama, carinhosamente criada, a suportar a fadiga de percorrer uma floresta solitária, como se fosse um homem. Avistando aquela caverna, nela entrou, na esperança de encontrar alguém que lhe desse algum alimento. Achou a caverna deserta, mas, olhando ao redor, descobriu alguma carne fria. Sua fome era tão premente que, não podendo esperar convites, ela se assentou e pôs-se a comer.
Ah! — lamentou-se consigo mesma. — Que aborrecida é a vida de homem!
Como estou cansada! Por duas noites seguidas dormi na relva. Se minha resolução não me sustentasse, eu cairia doente. Quando Pisânio me mostrou Milford--Haven do alto da montanha, parecia tão perto!
Veio-lhe então à mente a lembrança do marido e de sua cruel sentença:
Meu querido Póstumo, tu és um pérfido!
Os dois irmãos de Imogênia, que tinham ido à caça com seu pretenso pai, Belário, estavam nesse momento de volta à caverna. Belário lhes dera os nomes de Polidoro e Cadwal, e eles se supunham seus filhos. Mas seus verdadeiros nomes eram Guidério e Arvirago.
Belário entrou primeiro na caverna e, vendo Imogênia, fez os filhos parar:
Não entrem ainda. Estão a comer nossos alimentos. Será coisa de espíritos?
Que há, senhor? — perguntaram os jovens.
Por Júpiter! — exclamou Belário. — Há um anjo na caverna, ou pelo menos parece um anjo...
E assim parecia Imogênia, tão linda nas suas vestes de rapaz.
Ouvindo as vozes, ela foi até o limiar da caverna e lhes dirigiu estas palavras:
Bons senhores, não me façam mal. Antes de entrar na caverna, eu tencionava pedir ou comprar o que comi. Na verdade, nada roubei, nem o faria, embora encontrasse ouro espalhado pelo chão. Aqui está o dinheiro de minha comida e que tencionava deixar sobre a mesa ao partir, com bênçãos para os que assim me alimentaram.
Eles se recusaram terminantemente a aceitar o dinheiro.
Vejo que estão incomodados comigo — disse a tímida Imogênia. — Mas, senhores, se quiserem matar-me por minha falta, saibam que eu teria morrido se não a cometesse.
Qual é teu destino? — inquiriu Belário. — E como te chamas?
Fidele é meu nome — respondeu Imogênia. — Tenho um parente que parte para a Itália. Embarcou em Milford--Haven e foi, ao dirigir-me ao seu encontro, que eu, cheio de fome, me vi obrigado a incorrer nessa falta.
Por favor, belo jovem — interrompeu o velho Belário —, não nos julgues grosseiros, nem avalies nosso espírito pelo rústico lugar em que vivemos. Foi bom teres vindo. É quase noite. Terás melhor trato antes de partires, e os nossos agradecimentos por haveres ficado e comido conosco. Rapazes, deem-lhe as boas-vindas.
Os gentis rapazes, irmãos dela, acolheram então Imogênia na caverna com muitas frases amáveis, garantindo que haviam de amá-la (ou “amá-lo”, como diziam) tal qual a um irmão. Penetrando na caverna, Imogênia encantou-os com suas habilidades de dona de casa, ao preparar-lhes, para ceia, a caça que eles haviam trazido. Embora atualmente não seja costume que as mulheres de alto nascimento entendam de cozinha, assim não era naquele tempo, e Imogênia mostrava-se perita nessa arte vital. E, como seus irmãos amavelmente diziam, era como se Juno estivesse doente e Fidele fosse seu cozinheiro.
E além disso — considerou Polidoro — ele canta como um anjo!
Observaram também um para o outro que, embora Fidele sorrisse tão docemente, uma triste melancolia parecia nublar-lhe o amável rosto, como se tivessem tomado conta dele, ao mesmo tempo, o pesar e a resignação.
Devido às suas gentis qualidades (ou talvez por causa do parentesco que ainda desconheciam), Imogênia (ou Fidele, como lhe chamavam os rapazes) tornou-se o ídolo dos irmãos. Ela não os amava menos, pensando que, se não fosse a lembrança de seu querido Póstumo, seria capaz de viver e morrer na caverna, em companhia daqueles jovens. Assim, aceitou de bom grado permanecer com eles, até se refazer das fadigas da viagem.
Depois de comerem a carne que haviam trazido, eles saíram em busca de mais caça, mas Fidele não pôde acompanhá-los por não se sentir bem. O pesar pelo procedimento do marido e o cansaço de vaguear pela floresta eram sem dúvida a causa de sua doença.
Eles então se despediram dela e partiram para a caça, louvando pelo caminho as nobres qualidades e graciosas maneiras do jovem Fidele.
Ao ficar a sós, Imogênia lembrou-se do tônico que Pisânio lhe dera e tomou-o, caindo então num sono profundo, em tudo semelhante à morte.
Quando Belário e os irmãos dela voltaram da caçada, Polidoro foi o primeiro a entrar. Julgando-a adormecida, descalçou os pesados sapatos para que nenhum rumor a despertasse, tamanha era a delicadeza que aflorara no espírito selvagem dos príncipes. Mas logo percebeu que ela não poderia ser despertada por barulho algum e concluiu que estava morta. Polidoro pôs-se a chorá-la com um terno e fraternal sentimento, como se nunca tivessem vivido separados.
Belário propôs então carregarem-na para o interior da floresta e ali lhe celebrarem os funerais com solenes cânticos, como então era costume.
Os dois irmãos de Imogênia levaram-na para um recesso abrigado e sombrio, depuseram-na delicadamente sobre a relva, entoaram os cânticos pelo repouso de sua alma e cobriram-na de folhas e flores.
Enquanto o verão durar e eu aqui viver, Fidele, virei diariamente visitar tua sepultura. A pálida primavera, a flor que mais se parece com a tua face, a glicínia, da cor das tuas veias, e a folha da eglantina, que não é mais suave do que o teu hálito, todas estas flores eu desfolharei sobre ti. E no inverno, quando não houver flores, hei de cobrir-te de musgos o querido corpo — declarou Polidoro.
Findas as cerimônias fúnebres, eles se retiraram cheios de tristeza.
Não fazia muito tempo que fora deixada sozinha, quando, passado o efeito da droga, Imogênia despertou e facilmente sacudiu a leve coberta de folhas e flores que tinha sobre o corpo. Ergueu-se e, imaginando ter sonhado, disse consigo:
Parece-me ter estado numa caverna e cozinhado para umas boas criaturas... Mas como acordei toda coberta de flores?
Não podendo achar o caminho para a caverna e não encontrando sinal dos seus novos companheiros, chegou à conclusão de que aquilo tudo não passava de um sonho. E mais uma vez reencetou a viagem, esperando chegar afinal a Milford-Haven, de onde embarcaria em algum navio para a Itália. Todos os seus pensamentos ainda estavam em Póstumo, com quem pretendia encontrar-se, disfarçada de pajem.
Mas nesse tempo estavam sucedendo grandes acontecimentos de que Imogênia nada sabia. Recomeçara subitamente uma guerra entre o imperador romano Augusto César e Cimbelino, rei da Bretanha. E um exército romano desembarcara para invadir a Bretanha, tendo avançado até a floresta pela qual viajava Imogênia. Com tal exército viera Póstumo.
Embora chegasse à Bretanha com os romanos, ele não tencionava lutar contra os seus próprios patrícios, mas pretendia juntar-se ao exército da Bretanha e bater-se pela causa do rei que o banira.
Continuava convencido de que Imogênia lhe fora infiel. Contudo, a morte daquela a quem tanto amava e que morrera por sua ordem (pois Pisânio lhe escrevera dizendo que cumprira à risca suas instruções) lhe pesava no coração. Por isso, voltava ele à Bretanha, desejando, ou morrer em combate, ou ser condenado à morte por Cimbelino, por haver regressado do exílio.
Imogênia, antes de alcançar Milford-Haven, caiu em poder do exército romano. Por seu aspecto e boas maneiras, foi levada para servir de pajem a Lúcio, o general romano.
As forças de Cimbelino também avançavam ao encontro do inimigo. Ao entrarem na floresta, Polidoro e Cadwal juntaram-se a elas. Os jovens estavam ansiosos por praticar atos de bravura, embora nem por sombras desconfiassem de que iam combater pelo próprio pai. Também o velho Belário uniu-se a eles na batalha. Há muito se arrependera do mal que fizera a Cimbelino, raptando-lhe os filhos, e, tendo sido guerreiro na juventude, juntou-se alegremente ao exército para combater pelo rei a quem tantos desgostos causara.
Uma grande batalha se travou entre os dois exércitos.
E os britânicos teriam sido derrotados e morto o próprio Cimbelino, se não fosse o extraordinário valor de Póstumo, de Belário e dos dois filhos do rei. Eles acudiram ao rei, salvaram-lhe a vida e de tal modo influíram na sorte das armas que os britânicos obtiveram a vitória.
Terminada a batalha, Póstumo, que não achara a sonhada morte, entregou-se a um dos oficiais de Cimbelino, na esperança de ser morto por ter voltado do exílio.
Imogênia e o general a quem ela servia foram feitos prisioneiros e levados à presença de Cimbelino, bem como Iáquimo, que era oficial do exército romano. Quando tais prisioneiros se achavam perante o rei, foi introduzido Póstumo, para receber sua sentença de morte. Por singular coincidência, também Belário, com Polidoro e Cadwal, foram levados à presença de Cimbelino, a fim de receberem a recompensa devida aos grandes serviços que haviam prestado ao rei. Como fazia parte da comitiva real, também Pisânio se achava presente.
Estavam agora, pois, em presença do rei (cada qual com diferentes esperanças e temores) Póstumo e Imogênia, esta com seu novo senhor, o general romano; o fiel vassalo Pisânio e o falso amigo Iáquimo; e também os dois perdidos filhos de Cimbelino, com Belário, que os raptara.
O general romano foi o primeiro a falar. Os restantes permaneceram em silêncio, por mais que lhes palpitasse de angústia o coração.
Imogênia viu Póstumo e reconheceu-o, embora estivesse ele disfarçado de camponês, mas ele não a reconheceu sob seus trajes masculinos. Imogênia reconheceu Iáquimo, bem como o anel que este trazia no dedo e que a ela pertencia, mas não sabia ter sido ele o autor de todas as suas desgraças. E permanecia, diante de seu próprio pai, como um prisioneiro de guerra.
Pisânio reconheceu Imogênia, pois fora ele quem a fizera vestir-se de rapaz. “É minha senhora”, pensou ele. “Já que está viva, deixemos ao tempo a solução de tudo.”
Eu juraria que é aquele jovem, ressuscitado — sussurrou Polidoro.
Um grão de areia — replicou Cadwal — não se parece tanto com outro grão de areia quanto este belo moço com o falecido Fidele.
É o próprio morto-vivo — garantiu Polidoro.
Qual! — duvidou Belário. — Se fosse ele, certamente teria falado conosco.
Mas nós o vimos morto — segredou de novo Polidoro.
Cala-te — replicou Belário.
Póstumo esperava em silêncio a bem-vinda sentença de morte. Resolvera não revelar ao rei que lhe salvara a vida na batalha, com medo de que isso induzisse o soberano a lhe conceder o perdão.
Lúcio, o general romano que tomara Imogênia sob sua proteção como pajem, foi, como já dissemos, o primeiro a falar. Era um homem de grande coragem e nobre dignidade e assim se dirigiu ao rei:
Ouvi dizer que não aceitais resgate por vossos prisioneiros e os condenais todos à morte. Sou romano e, como romano, aceitarei a morte. Mas há uma coisa que eu desejaria pedir. — Então, apresentando Imogênia ao rei, falou: — Este rapaz é britânico de nascimento. Deixai que seja resgatado. Nunca um amo teve pajem tão bom, tão aplicado, tão serviçal em todas as ocasiões, tão atento. Nunca fez mal a nenhum britânico, embora servisse a um romano. Salvai ao menos esse, se a ninguém mais poupardes.
Cimbelino fitou atentamente a filha Imogênia. Não a reconheceu sob aqueles disfarces, mas decerto a sábia natureza lhe esclareceu o coração, pois ele anunciou:
Com certeza, já o vi antes; sua fisionomia me é familiar. Não sei por que motivo te digo: “Vive, jovem”, mas concedo-te a vida. Pede-me o que quiseres, que te atenderei, mesmo que seja a vida do mais nobre dos meus prisioneiros.
Agradeço humildemente à Vossa Majestade — disse Imogênia.
Todos estavam ansiosos para ouvir por quem o pajem intercederia. E Lúcio, seu amo, disse:
Não te peço minha vida, meu bom rapaz, mas sei que é isso que tu vais pedir.
Infelizmente não — disse Imogênia. — Minha missão é outra, meu bom senhor. Por vossa vida, não posso interceder.
Essa aparente falta de gratidão espantou o general romano.
Imogênia, então, fixando o olhar em Iáquimo, pediu apenas isto: que Iáquimo fosse obrigado a confessar como obtivera o anel que trazia no dedo.
Cimbelino acedeu e ameaçou Iáquimo com torturas se ele não confessasse a verdade.
Iáquimo fez então uma completa narrativa de sua vilania, contando a história da aposta com Póstumo e como conseguira iludir-lhe a credulidade.
O que Póstumo sentiu ao ouvir essa prova da inocência da esposa não pode ser expresso por palavras. Avançou imediatamente e confessou a Cimbelino a cruel sentença que ele fizera Pisânio executar contra a princesa. E exclamava desesperadamente:
Ó Imogênia, minha rainha, minha vida, minha esposa! Ó Imogênia, Imogênia, Imogênia!
Imogênia não pôde ver seu querido esposo naquele estado sem se dar a conhecer, para a indescritível alegria de Póstumo, que ficou assim aliviado do peso do remorso e restituído às boas graças daquela a quem tão cruelmente tratara.
Quase tão arrebatado de alegria quanto ele por encontrar a filha perdida, Cimbelino restituiu-lhe o antigo lugar na afeição paterna e concedeu seu perdão a Póstumo, reconhecendo-o como genro.
Belário escolheu esse momento de alegria e reconciliação para confessar sua culpa. Apresentou Polidoro e Cadwal ao rei, dizendo-lhe que eram seus dois filhos perdidos, Guidério e Arvirago.
Cimbelino perdoou o velho Belário. Pois quem podia pensar em castigos num instante de tamanha felicidade? Encontrar a filha viva e os filhos desaparecidos nas pessoas daqueles jovens que tão corajosamente lhe haviam salvado a vida — que maior ventura podia esperar?
Imogênia desejou então prestar um serviço a seu antigo amo, o general romano Lúcio, cuja vida o rei prontamente poupou, a seu pedido.
Resta ainda falar da rainha, a perversa esposa de Cimbelino. Desesperada com o malogro dos seus planos e cheia de remorsos, ela adoeceu e morreu, não sem ver primeiro seu tresloucado filho Cloten morto numa rixa que ele próprio provocara. Mas são acontecimentos demasiado trágicos, que devem apenas ser relatados de passagem, para não atrapalhar o feliz desenlace desta história. Basta que tenham sido felizes os que o mereceram. Até o pérfido Iáquimo, desmascaradas suas intrigas, foi despedido sem maior castigo.

William Shakespeare, in Contos de Shakespeare

13/10/2023

Os dois cavalheiros de Verona


Viviam na cidade de Verona dois jovens cavalheiros, Valentim e Proteu, entre os quais havia muito se estabelecera uma firme e ininterrupta amizade. Estudavam juntos e sempre passavam suas horas de folga em companhia um do outro, exceto quando Proteu ia avistar-se com uma dama a quem amava. Essas visitas de Proteu e sua paixão pela bela Júlia eram o único ponto em que os dois amigos discordavam. Como Valentim não amasse a ninguém, enfadava-se de ouvir o amigo sempre a falar de sua Júlia. Ria então de Proteu, ridicularizando seu amor e garantindo que aquelas ociosas fantasias nunca lhe afetariam o juízo, pois preferia a livre e venturosa vida que levava às ansiosas esperanças e temores do namorado Proteu.
Certa manhã, Valentim comunicou a Proteu que deviam separar-se por algum tempo, pois estava de viagem para Milão. Não querendo afastar-se do amigo, Proteu usou inúmeros argumentos para induzir Valentim a não deixá-lo.
Basta, meu caro Proteu. Não quero, como um ocioso, desperdiçar preguiçosamente a minha juventude em casa. Se não estivesses preso aos doces olhares de tua Júlia, eu te convidaria a me acompanhar para ver as maravilhas do mundo. Mas já que estás amando, continua, e que sejas muito feliz!
Despediram-se com mútuas expressões de fiel amizade.
Querido Valentim, adeus! Pensa em mim, quando vires alguma coisa digna de atenção em tuas viagens e faze-me comparsa de tua felicidade.
Valentim partiu nesse mesmo dia para Milão. Depois que o amigo o deixou, Proteu sentou-se para escrever uma carta a Júlia, entregando-a a Lucetta, criada desta, para que a levasse à sua ama.
Júlia amava a Proteu tanto quanto este lhe queria, mas era uma dama de nobre espírito e achava que não ficava bem à sua dignidade de donzela deixar-se seduzir muito facilmente. Afetava, assim, ser insensível à paixão dele, causando-lhe não poucos dissabores.
Quando Lucetta apresentou a carta a Júlia, esta não quis recebê-la e ralhou com a criada por aceitar cartas de Proteu, ordenando-lhe que se retirasse. Mas tanto desejava ver o que estava escrito na carta que logo chamou de volta a criada. Assim que Lucetta reapareceu, ela indagou que horas eram. Sabendo bem que sua senhora mais desejava ver a carta do que saber as horas, Lucetta não respondeu e lhe ofereceu de novo a carta rejeitada. Furiosa de ver que a criada tomava a liberdade de se mostrar ciente do que ela realmente queria, Júlia rasgou a carta em pedaços e atirou-os ao chão, expulsando novamente a criada do quarto.
Antes de se retirar, Lucetta parou para apanhar os fragmentos da carta rasgada. Mas Júlia, que não queria separar-se deles, disse, fingindo cólera:
Anda, vai-te embora e deixa os papéis onde estão; ias juntá-los para me aborreceres.
Júlia então começou a unir o melhor que podia os fragmentos de papel. Primeiro, conseguiu compor as palavras: “Proteu ferido de amor”. Lastimando estas e outras palavras de amor que ia compondo, apesar de estarem todas em pedacinhos — ou, como ela dizia, feridas (fora a expressão “Proteu ferido de amor” que lhe sugerira tal ideia) —, pôs-se a falar àquelas amorosas palavras, dizendo-lhes que as aconchegaria no seio como em um leito, até que seus ferimentos sarassem, e que beijaria cada pedacinho, em reparação ao que fizera primeiro.
Assim prosseguiu nessas femininas puerilidades, até que, vendo-se incapaz de reconstituir toda a carta e aborrecida com a própria ingratidão em destruir tão doces e apaixonadas palavras, ela escreveu a Proteu uma carta muito mais terna que todas as anteriores.
Proteu ficou radiante ao receber tão favorável resposta e, enquanto a lia, exclamava:
Doce amor, doces linhas, doce vida!
Em meio a esse enlevo, foi interrompido por seu velho pai, que lhe disse:
Então, que é isso? Que carta estás a ler?
Meu senhor — replicou Proteu —, é uma carta de meu amigo Valentim, que se acha em Milão.
Dá-me a carta. Quero saber as notícias.
Nada de novo, meu senhor — disfarçou Proteu, grandemente alarmado. — Ele conta apenas o quanto é estimado pelo duque de Milão, que diariamente o cumula de favores. Termina dizendo que desejaria ter-me em sua companhia, para compartilhar de sua sorte.
E como correspondes a esse desejo? — inquiriu o pai.
Como quem se confia à vontade paterna, sem depender de desejos de amigos.
Acontecia que o pai de Proteu acabava justamente de falar com um amigo sobre aquele assunto. Espantava-se o amigo de que ele deixasse o filho passar a juventude em casa, enquanto a maioria dos nobres mandava os filhos conhecerem o mundo.
Alguns — dizia o amigo — tentam a sorte nas guerras, outros vão descobrir ilhas remotas e outros partem para estudar nas universidades estrangeiras. Aí tens o exemplo de Valentim, que foi para a corte do duque de Milão. Teu filho é capaz de fazer qualquer dessas coisas e será mais tarde uma grande desvantagem para ele não haver viajado na mocidade.
O pai de Proteu achara excelente o conselho do amigo. Assim, quando o filho lhe disse que Valentim o convidara a partilhar de sua sorte, o velho logo resolveu mandá-lo para Milão. Sem dar a Proteu nenhum motivo para essa súbita resolução, pois costumava dar ordens ao filho e não discutir com este, declarou:
Meu desejo é o mesmo de Valentim. — Ante o olhar atônito do filho, acrescentou: — Não te espantes que eu tenha tão de repente resolvido mandar-te passar algum tempo na corte do duque de Milão. É o que eu quero mesmo e está acabado! Apronta-te para partir amanhã e nada de pretextos. Bem sabes que as minhas resoluções são irrevogáveis.
Agora que sabia que perderia Proteu por um longo tempo, Júlia já não fingia indiferença. Fizeram uma triste despedida, com juras de amor e fidelidade. Trocaram anéis, que ambos prometeram usar sempre, como mútua recordação. E assim, cheio de pesar, seguiu Proteu para Milão, residência do amigo Valentim.
Como dissera Proteu ao pai, Valentim captara realmente as graças do duque de Milão. E outra coisa lhe acontecera, com que Proteu nem sonhava: Valentim perdera a liberdade de que tanto jactava-se e tornara-se tão apaixonado quanto Proteu.
Fora Sílvia, filha do duque de Milão, quem operara tão maravilhosa mudança em Valentim, que era correspondido por ela. Mas ambos ocultavam seu amor, pois o duque, embora fosse amável com Valentim e o convidasse diariamente ao palácio, escolhera como marido para a filha um jovem cortesão chamado Thurio. Sílvia desprezava o rapaz, que nada tinha do fino espírito e das excelentes qualidades de Valentim.
Os dois rivais, Thurio e Valentim, achavam-se um dia em visita a Sílvia. Valentim divertia-a, transformando em ridículo tudo quanto Thurio dizia, quando o próprio duque entrou na sala e deu-lhe a boa-nova da chegada de seu amigo Proteu.
Se eu desejasse mais alguma coisa — exclamou Valentim —, seria vê-lo aqui. — E fez ao duque os maiores elogios de Proteu: — Meu senhor, embora eu tenha esbanjado meu tempo, soube o meu amigo tirar vantagem do dele e tem, no seu espírito e pessoa, todos os predicados próprios de um cavalheiro.
Acolhei-o, pois, de acordo com seu merecimento — disse o duque. — Sílvia, eu falo a ti, e a vós, Thurio. Quanto a Valentim, não é preciso fazer-lhe recomendação alguma.
Foram interrompidos pela entrada de Proteu, e Valentim apresentou-o a Sílvia:
Encantadora dama, aqui tendes mais um servidor a vossas ordens.
Quando Valentim e Proteu terminaram a visita e se viram a sós, disse Valentim:
Dize agora como vai tudo na nossa terra. Como vai tua dama? Tem progredido teu amor?
Antes te aborreciam as minhas histórias de amor — replicou Proteu. — Sei que não te interessam tais assuntos.
Ah, Proteu! — exclamou Valentim. — A vida agora está mudada. Fiz penitência por haver desprezado o amor. Em vingança ao meu desdém, o amor expulsou o sono dos meus olhos escravizados. Ó querido Proteu, o amor é um despótico senhor e tanto me tem subjugado que confesso que não há dor que se assemelhe à dos seus castigos, nem alegria neste mundo que se compare às alegrias que ele nos dispensa. Agora, não gosto de conversar sobre coisa alguma que não seja o amor.
A transformação que o amor operara em Valentim constituiu um grande triunfo para seu amigo Proteu. Mas de “amigo” é que Proteu não devia mais ser chamado, pois o mesmo poderoso deus do amor, de quem falavam (e no mesmo instante em que se referiam à mudança que ele operara em Valentim), agia também no coração de Proteu. Aquele que, até então, fora um modelo de verdadeiro amor e perfeita amizade tornava-se agora, a partir da curta visita a Sílvia, um falso amigo e um namorado infiel. Logo que viu Sílvia, todo seu amor por Júlia se desvaneceu como um sonho e nem a velha amizade a Valentim pôde impedir-lhe o desejo de suplantá-lo no coração dela. E, como sempre sucede quando uma pessoa naturalmente boa torna-se indigna, lutou Proteu com muitos escrúpulos antes de resolver abandonar Júlia e tornar-se rival de Valentim. Mas, por fim, ele abafou o senso do dever e entregou-se, quase sem remorsos, à sua nova e infeliz paixão.
Valentim confidenciou-lhe toda a história de seu amor, que tão cuidadosamente ocultava do duque. Contou-lhe que, sem esperanças de algum dia obter o consentimento deste último, convencera Sílvia a abandonar naquela noite o palácio paterno e fugir com ele para Mântua. Mostrou então a Proteu uma escada de corda, por meio da qual pretendia ajudar Sílvia a sair por uma das janelas do palácio, assim que escurecesse.
Depois de ouvir essa fiel narrativa dos mais caros segredos do amigo — é duro de acreditar, mas é verdade —, Proteu resolveu contar tudo ao duque.
O falso amigo começou sua história ao duque com muitos rodeios. Disse que, pelas leis da amizade, devia guardar segredo, mas que os favores que o duque lhe dispensava e o dever a que se sentia obrigado para com este levavam-no a contar aquilo que, de outro modo, por preço algum revelaria. Contou então tudo o que ouvira do amigo, sem omitir a escada de corda e a maneira como Valentim pretendia ocultá-la sob uma comprida capa.
O duque considerou Proteu como um milagre de integridade, visto que preferia denunciar os intentos do amigo a ocultar uma ação indigna, e encheu-o de elogios. Prometeu não revelar a Valentim quem o desmascarara, pois o obrigaria, por algum artifício, a trair ele próprio seu segredo. Nesse intuito, o duque esperou à noite a chegada de Valentim, a quem viu dirigir-se apressadamente às proximidades do palácio. Percebendo alguma coisa oculta sob sua capa, concluiu que devia ser a escada de corda. Então, fê-lo parar, dizendo:
Aonde vai com tanta pressa, Valentim?
Perdoai-me — retrucou Valentim —, é que tenho um mensageiro à espera, para levar cartas minhas aos amigos.
Mas tal mentira não teve melhor sucesso que a de Proteu a seu pai.
Mas são de tanta importância assim? — inquiriu o duque.
Não, meu senhor, apenas para dizer a meu pai que estou bem e me sinto feliz na vossa corte.
Então, não importa. Demora-te um pouco mais. Desejo aconselhar-me contigo sobre uns assuntos íntimos.
Engendrou então uma história, com o intuito de lhe arrancar o segredo. Disse que, como Valentim bem sabia, desejava casar sua filha com Thurio, mas esta era por demais teimosa e desobediente às suas ordens:
Nem considera que é minha filha, nem me teme como a um pai. Mas afianço-te que esse seu orgulho só serviu para afastar dela o meu amor. Eu pensava que minha velhice teria os seus cuidados de filha. Mas agora estou resolvido a casar-me e entregá-la a quem quer que pretenda casar com ela. E sua beleza há de ser seu único dote.
Sem saber onde o duque queria chegar, Valentim indagou:
E que deseja vossa graça de mim, nesse caso?
Sucede que a dama que pretendo desposar é bela e recatada e não preza minha eloquência de velho. Por outro lado, a maneira de cortejar mudou muito desde os meus tempos de rapaz, e eu desejava que me instruísses sobre o que devo fazer.
Valentim deu-lhe uma ideia geral da maneira como procediam os jovens quando desejavam conquistar o amor de uma linda dama, tais como presentes, visitas constantes e coisas parecidas.
Replicou o duque que a dama em questão havia recusado um presente que ele lhe mandara e que era de tal modo vigiada pelo pai que nenhum homem podia falar com ela durante o dia.
Então — disse Valentim —, deveis visitá-la à noite.
Mas, à noite — replicou o duque, que estava chegando onde queria —, suas portas estão solidamente fechadas.
Valentim teve então a infeliz ideia de aconselhar o duque a subir à noite ao quarto de sua dama, por meio de uma escada de corda. Prontificou-se ainda a lhe arranjar uma e recomendou-lhe que escondesse a referida escada sob uma capa longa, igual à sua.
Empresta-me tua capa — pediu o duque, que arquitetara aquela longa história para ter um pretexto de se apossar da capa de Valentim.
E dizendo tais palavras, abriu a capa do jovem, descobrindo, não só a escada de corda, mas também uma carta de Sílvia, que ele no mesmo instante abriu e leu. Tal carta continha um plano completo da projetada fuga.
O duque, depois de exprobrar Valentim por sua ingratidão em retribuir daquele modo a acolhida que ele lhe dispensara, expulsou-o para sempre da corte e da cidade de Milão. Valentim foi forçado a partir naquela mesma noite, sem ao menos rever Sílvia.
Enquanto Proteu em Milão assim traía a Valentim, Júlia em Verona chorava a ausência de Proteu. E seu amor, por fim, suplantou de tal modo o senso das conveniências que ela resolveu deixar Verona para ir em busca do seu amado. Ela e sua criada Lucetta vestiram-se de homem para se prevenirem contra os perigos do caminho e, assim disfarçadas, chegaram a Milão pouco depois de Valentim ter sido banido da cidade.
Júlia chegou a Milão por volta do meio-dia, hospedando-se numa estalagem. E com todos os pensamentos dirigidos para seu querido Proteu, ela travou conversa com o estalajadeiro, ansiosa por descobrir alguma novidade de seu amor.
O hospedeiro ficou lisonjeado por aquele distinto jovem (que lhe parecia de elevada posição) lhe falar com tanta familiaridade e, sendo homem de boa índole, penalizou-se por vê-lo tão melancólico. A fim de distrair o jovem hóspede, convidou-o para uma serenata que naquela noite um cavalheiro ia oferecer à sua dama.
O motivo da melancolia de Júlia era não saber o que diria Proteu do imprudente passo que ela acabava de dar. Sabia bem que Proteu a amava por seu nobre orgulho virginal e dignidade de caráter e temia, com aquele passo, baixar no conceito dele.
Com a secreta esperança de encontrar Proteu, ela de bom grado aceitou o convite do estalajadeiro.
Mas quando chegaram diante do palácio a que o hospedeiro a conduzira, o efeito foi muito diferente daquele que o bom homem esperava. Ali, para sua mágoa, Júlia encontrou seu amado, o inconstante Proteu, oferecendo uma serenata a Sílvia e dirigindo-lhe palavras de amor e admiração. Júlia ouviu ainda Sílvia falar, de uma janela, a Proteu, censurando-o por haver esquecido seu verdadeiro amor e por sua ingratidão para com Valentim. Dito isto, Sílvia deixou a janela, sem querer ouvir sua música nem suas bonitas palavras, pois era fiel a Valentim e abominava o traiçoeiro procedimento de Proteu.
Apesar de desesperada com o que acabava de presenciar, Júlia continuava a amar o volúvel Proteu. E, sabendo que ele ultimamente despedira um criado, planejou, com o auxílio do hospedeiro, oferecer-se para seu pajem.
Sem desconfiar que se tratava de Júlia, Proteu enviou-a com cartas e presentes à sua rival Sílvia, mandando até, por seu intermédio, o anel que ela própria lhe dera em Verona, como prenda de despedida.
Chegando com o anel ao palácio, Júlia ficou radiante ao ver Sílvia rejeitar redondamente a corte de Proteu. E Júlia, ou o pajem Sebastião, como agora se chamava, pôs-se a conversar com Sílvia acerca do primeiro amor de Proteu, a abandonada Júlia. Disse conhecê-la muito bem — e era verdade. Narrou-lhe o quanto Júlia queria a Proteu e como o desprezo deste a fazia sofrer. Continuando sua graciosa farsa, informou:
Júlia tem minha altura e o meu corpo. Seus olhos e cabelos são da mesma cor dos meus.
Na verdade, Júlia parecia um bonito rapaz.
Sílvia se compadeceu da pobre moça a quem se referiam, tão cruelmente abandonada pelo homem que tanto amava. E, quando Júlia lhe ofereceu o anel mandado por Proteu, recusou-o:
É uma vergonha ele me mandar este anel. Não o quero, pois muitas vezes ouvi dizer que foi Júlia quem o deu. Gosto de ti, meu bom rapazinho, por te compadeceres daquela pobre menina. Aqui tens uma bolsa. Aceita-a, por amor de Júlia.
Essas confortadoras palavras da boca de sua rival reanimaram o coração de Júlia.
Mas voltemos a Valentim, que não sabia qual caminho tomar, já que não queria voltar à casa paterna como um eLivros. Estando a vaguear por uma floresta solitária, próxima ainda da cidade onde deixara o tesouro de seu coração, a querida Sílvia, foi atacado por ladrões, que lhe exigiram dinheiro.
Valentim lhes disse que era um homem perseguido pela adversidade, a caminho do exílio, e que não possuía dinheiro, sendo a roupa que vestia a sua única riqueza.
Ouvindo que ele era um homem caído em desgraça e impressionados com seu ar nobre e sua varonil atitude, os bandidos disseram que, se quisesse viver com eles e ser seu chefe, ou capitão, colocar-se-iam sob seu comando; em compensação, caso ele recusasse a oferta, o matariam.
Valentim, que pouco se importava com o que lhe acontecesse, consentiu em viver com eles e ser seu capitão, sob a condição de se comprometerem a não atacar mulheres nem viajantes pobres.
Assim, o nobre Valentim tornou-se, como o Robin Hood de que nos falam as baladas, capitão de ladrões e bandidos. Foi nessa situação que Sílvia veio a encontrá-lo, como veremos adiante.
Para evitar o casamento com Thurio, em que o pai continuava insistindo, Sílvia resolveu ir ter com Valentim em Mântua, onde soubera haver-se refugiado seu amor. Tal informação, porém, era falsa, pois Valentim ainda vivia na floresta, como capitão de bandidos, mas sem tomar parte nas suas depredações. Só usava a autoridade que lhe haviam imposto para compeli-los a se mostrarem compassivos em relação aos viajantes a quem saqueavam.
Sílvia fugira do palácio paterno em companhia de um digno ancião chamado Eglamour, que levara consigo para lhe servir de proteção no caminho. Teve de atravessar a floresta onde vivia Valentim com os bandidos. Um deles se apoderou de Sílvia, ao passo que Eglamour conseguiu fugir.
Vendo o terror em que Sílvia se achava, o bandido que a aprisionou disse-lhe que não se alarmasse, pois ia apenas levá-la à caverna onde morava seu capitão e que ela não devia ter medo, pois o capitão possuía espírito nobre e sempre se compadecia das mulheres. Pouco consolou Sílvia saber que seria levada, como prisioneira, perante o chefe dos bandidos.
Oh, Valentim! — exclamou ela. — Tudo isso eu suporto por tua causa!
Quando o ladrão a conduzia para a caverna, no entanto, foi detido por Proteu, que tendo sabido da fuga de Sílvia lhe seguira os passos até aquela floresta, ainda acompanhado por Júlia disfarçada de pajem.
Proteu arrebatou-a das mãos do bandido. Porém, mal ela teve tempo de lhe agradecer e já ele começava a importuná-la com seus protestos de amor. Seu pajem (a desprezada Júlia) permanecia por perto, na maior ansiedade, temeroso de que o grande serviço que ele prestara a Sílvia a induzisse a retribuir-lhe os sentimentos.
Nisso, para grande surpresa de todos, apareceu de súbito Valentim, que, tendo sabido que seus homens haviam aprisionado uma dama, acorrera para confortá-la e tranquilizá-la.
Proteu, que estava a cortejar Sílvia, sentiu-se tão envergonhado por ser flagrado pelo amigo que logo foi acometido de profundo arrependimento e remorso. De tal modo expressou seu pesar pelo mal que fizera a Valentim que este, nobre e generoso por natureza, de uma maneira até romântica, não somente lhe perdoou restituindo-lhe o antigo lugar que ocupava na sua amizade, como também, num súbito arroubo de heroísmo, declarou:
Perdoo-te plenamente e cedo-te todo o interesse que tenho por Sílvia.
Ao ouvir tão estranho oferecimento e temendo que a recente virtude de Proteu não lhe bastasse para recusar Sílvia, o falso pajem perdeu os sentidos e todos se empenharam em fazê-lo voltar a si. A própria Sílvia sentiu-se ofendida, embora não acreditasse que Valentim perseverasse naquela exagerada demonstração de amizade.
Quando recuperou os sentidos, Júlia disse:
Ia-me esquecendo: meu amo encarregou-me de entregar este anel a Sílvia.
Olhando o anel, Proteu constatou que era o mesmo que dera a Júlia, em troca do que recebera dela e que ele mandara a Sílvia pelo suposto pajem.
Como? — indagou ele. — Este é o anel de Júlia. Como veio parar em tuas mãos, menino?
Foi a própria Júlia quem o deu a mim e a própria Júlia quem aqui o trouxe.
Olhando atentamente para ela, Proteu percebeu que não podia ser outra pessoa senão a própria Júlia. E tão comovido ficou com a prova que ela lhe dera de sua constância e devotamento que todo seu antigo amor lhe refluiu ao coração. Ficou de novo com sua própria amada, cedendo todas as suas pretensões sobre Sílvia a Valentim, que tanto a merecia.
Regozijavam-se Valentim e Proteu com sua reconciliação e a fidelidade de suas amadas, quando foram surpreendidos pela chegada do duque de Milão e de Thurio, vindos em perseguição de Sílvia.
Foi Thurio quem primeiro se aproximou, tentando apoderar-se de Sílvia e dizendo:
Sílvia é minha!
Cala-te! — retrucou Valentim, exaltado. — Se tornas a dizer que Sílvia é tua, a morte é o que tu terás. Aqui está ela: toca-a, se puderes. Não tocarás meu amor nem com tua respiração.
Diante da ameaça, Thurio, que era um grande poltrão, retirou-se, dizendo que não se interessava por ela e que tolo é quem se bate por uma mulher que não o ama.
O duque, que era um bravo, ficou encolerizado:
Que vil e degenerado és tu, que tanto querias obtê-la e tão facilmente a abandonas agora! — Voltando-se então para Valentim, disse: — Aplaudo a tua coragem, Valentim, e julgo-te digno do amor de uma imperatriz. Terás Sílvia, pois bem a mereceste.
Beijando humildemente a mão do duque, Valentim aceitou cheio de reconhecimento o nobre oferecimento que ele lhe fazia de sua filha. Aproveitou esse feliz ensejo, pedindo o perdão do duque para os bandidos que com ele viviam na floresta, assegurando-lhe que, quando reintegrados na sociedade, saberiam mostrar-se úteis e honrados. A maioria deles tinha sido banida, como Valentim, por crimes meramente políticos. O duque aquiesceu prontamente. Quanto a Proteu, o falso amigo, foi-lhe imposta a penitência de assistir, perante o duque, à narrativa completa dos seus amores e embustes. A vergonha que então experimentou foi julgada castigo suficiente.
Feito isso, regressaram os quatro namorados a Milão, onde suas núpcias foram celebradas em presença do duque, com magníficos festejos.

William Shakespeare, in Contos de Shakespeare