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25/04/2023

Sonha o fidalgo da torre

I

Mas Gonçalo, que abominava aquela lenda, a silenciosa figura degolada, errando por noites de inverno entre as ameias da Torre com a cabeça nas mãos — despegou da varanda, deteve a Crônica imensa: — Toca a deitar, ó Videirinha, hein? Passa das três horas, é um horror. Olhe! O Titó e o Gouveia jantam cá na Torre, no Domingo.
Apareça também, com o violão e cantiga nova; mas menos sinistra...
Atirou o charuto, fechou a vidraça da sala — a “sala velha”, toda revestida desses denegridos e tristonhos retratos de Ramires que ele desde pequeno chamava as carantonhas dos avós. E, atravessando o corredor, ainda sentia rolarem ao longe, no silêncio dos campos cobertos de luar, façanhas rimadas dos seus:

Ai! lá na grande batalha...
El-Rei Dom Sebastião...
O mais moço dos Ramires
Que era pagem do guião...

Despido, soprada a vela, depois de um rápido sinal da cruz, o Fidalgo da Torre adormeceu. Mas no quarto, que se povoou de sombras, começou para ele uma noite revolta e pavorosa. André Cavaleiro c João Gouveia romperam pela parede, revestidos de cotas de malha, montados em horrendas tainhas assadas! E lentamente, piscando o olho mau, arremessavam contra o seu pobre estômago pontoadas de lança, que o faziam gemer e estorcer sobre o leito de pau preto. Depois era, na Calçadinha de Vila-Clara, o medonho Ramires morto, com a ossada a ranger dentro da armadura, e El-Rei Dom Afonso II, arreganhando afiados dentes de lobo, que o arrastavam furiosamente para a batalha das Navas. Ele resistia, fincando nas lajes, gritando pela Rosa, por Gracinha, pelo Titó! Mas D. Afonso tão rijo murro lhe despedia nos rins, com o guante de ferro, que o arremessava desde a Hospedaria do Gago até a Serra Morena, ao campo da lide, luzente e fremente de pendões e de armas. E imediatamente seu primo d'Espanha, Gomes Ramires, Mestre, de Calatrava, debruçado do negro ginete, lhe arrancava os derradeiros cabelos, entre a retumbante galhofa de toda a hoste sarracena e os prantos da tia Louredo trazida como um andor aos ombros de quatro Reis!... — Por fim, moído, sem sossego, já com a madrugada clareando nas fendas das janelas e as andorinhas piando no beirai dos telhados, o Fidalgo da Torre atirou um verdadeiro repelão aos lençóis, saltou ao assoalho, abriu a vidraça — e respirou deliciosamente o silêncio, a frescura, a verdura, o repouso da quinta.
Mas que sede! uma sede desesperada que lhe encortiçava os lábios!
Recordou então o famoso fruit salt que lhe recomendara o Dr. Mattos, arrebatou o frasco, correu à sala de jantar em camisa. E, a arquejar, deitou duas colheradas num copo d'água da Bica-Velha, que esvaziou dum trago, na fervura picante.
Ah, que consolo, que rico consolo!. . .
Voltou derreadamente à cama: e readormeceu logo, muito longe, sobre as relvas profundas d'um prado de África, debaixo de coqueiros sussurrantes, entre o apimentado aroma de radiosas flores que brotavam através de pedregulhos de ouro. Dessa perfeita beatitude o arrancou o Bento, ao meio-dia, inquieto com “aquele tardar do Sr. Doutor”.
É que passei uma noite horrenda, Bento: Pesadelos, pavores, bulhas, esqueletos... Foram os malditos ovos com chouriço; e o pepino...
Sobretudo o pepino! Uma ideia daquele animal do Titó. . . Depois, de madrugada, tomei o tal fruit salt, e estou ótimo, homem!... Estou otimíssimo! Até me sinto capaz de trabalhar. Leva para a livraria uma chávena de chá verde, muito forte. . . Leva também torradas.

II

Os pensamentos de Gonçalo esvoaçaram logo, com irresistida tentação, para D. Ana — para os seus decotes, para os languidos banhos em que se esquecia lendo o jornal. Por fim, que diabo!. . . Essa D. Ana assim tão honesta, tão perfumada, tão esplendidamente bela, só apresentava, mesmo como esposa, um feio senão — o papá carniceiro.
E a voz também — a voz que tanto o arrepiara na Bica-Santa... Mas o Mendonça assegurava que aquele timbre rolante e gordo, na intimidade, se abatia, liso e quase doce. .. Depois, meses de convivência habituam as vozes mais desagradáveis — e ele mesmo, agora, nem percebia quanto o Manuel Duarte era fanhoso! Não! mancha teimosa, realmente, só o pai carniceiro. Mas nesta Humanidade nascida toda d'um homem só, quem, entre os seus milhares de avós até Adão, não tem algum avô carniceiro? Ele, bom fidalgo, de uma casa de Reis de onde Dinastias irradiavam, certamente, escarafunchando o passado, toparia com o Ramires carniceiro. E que o carniceiro avultasse logo na primeira geração, cm um talho ainda afreguesado, ou que apenas se esfumasse, através de espessos séculos, entre os trigésimos avós — lá estava, com a faca, e o cepo, e as postas de carne, e as nódoas de sangue no braço suado!
E este pensamento não o abandonou até a Torre — nem ainda depois, à janela do quarto, acabando o charuto, escutando o cantar dos gaios. Já mesmo se deitara, e as pestanas lhe adormeciam, e ainda sentia que os seus passos impacientes se embrenhavam para trás, para o escuro passado da sua Casa, por entre a emaranhada História, procurando o carniceiro... Era já para além dos confins do Império Visigodo, onde reinava com um globo de ouro na mão o seu barbudo avô Recesvinto. Esfalfado, arquejando, transpusera as cidades cultas, povoadas de homens cultos — penetrara nas florestas que o mastodonte ainda sulcava. Entre a úmida espessura já cruzara vagos Ramires, que carregavam, grunhindo, reses mortas, molhos de lenha. Outros surdiam de tocas fumarentas, arreganhando agudos dentes esverdeados para sorrir ao neto que passava. Depois, por tristes ermos, sob tristes silêncios, chegara a uma lagoa enevoada. E à beira da água limosa, entre os canaviais, um homem monstruoso, peludo como uma fera, agachado no lodo, partia a rijos golpes, com um machado de pedra, postas de carne humana. Era um Ramires. No céu cinzento voava o Açor negro. E logo, dentre a neblina da lagoa, ele acenanava para Santa Maria de Craquede, para a formosa e perfumada D. Ana, bradando por cima dos Impérios e dos Tempos: — “Achei o meu avô carniceiro!”

III

Gonçalo remoeu a amarga certeza de que sempre, através de toda a sua vida (quase desde o colégio de S. Filipe!) não cessara de padecer humilhações. E todas lhe resultavam de intentos muito simples, tão seguros para qualquer homem como o voo para qualquer ave —só para ele constantemente rematados por dor, vergonha ou perda! À entrada da vida escolhe com entusiasmo um confidente, um irmão, que trás para a quieta intimidade da Torre — e logo esse homem se apodera ligeiramente do coração de Gracinha e ultrajosamente a abandona! Depois concebe o desejo tão corrente de penetrar na Vida Política — e logo o Acaso o força a que se renda e se acolha à influência desse mesmo homem, agora Autoridade poderosa, por ele durante todos esses anos de despeito tão detestada e chasqueada! Depois abre ao amigo, agora restabelecido na sua convivência, a porta dos Cunhaes, confiado na seriedade, no rígido orgulho da irmã — e logo a irmã se abandona ao antigo enganador, sem luta, na primeira tarde em que se encontra com ele na sombra favorável de um caramanchão! Agora pensa em casar com uma mulher que lhe oferecia com uma grande beleza uma grande fortuna — e imediatamente um companheiro de Vila-Clara passa e segreda: — “A mulher que escolheste, Gonçalinho, é uma marafona cheia de amantes!” De certo essa mulher não o amava com um amor nobre e forte! Mas decidira acomodar nos formosos braços dela, muito confortavelmente, a sua sorte insegura — e eis que logo desaba, com esmagadora pontualidade, a humilhação costumada.
Realmente o Destino malhava sobre ele com um rancor desmedido!
E por quê? murmurava Gonçalo, despindo melancolicamente o casaco. Em vida tão curta, tanta decepção ... Por quê? Pobre de mim!
Caiu no vasto leito como em uma sepultura — enterrou a face no travesseiro com um suspiro, um enternecido suspiro de piedade por aquela sua sorte tão contrariada, tão sem socorro. E recordava o presunçoso verso do Videirinha, ainda nessa noite proclamado ao violão:
Velha casa de Ramires Honra e flor de Portugal!
Como a flor murchara! Que mesquinha honra! E que contraste o do derradeiro Gonçalo, encolhido no seu buraco de Santa Ireneia, com esses grandes avós Ramires cantados pelo Videirinha — todos eles, se História e Lenda não mentiam, de vidas triunfais e sonoras! Não! nem sequer deles herdara a qualidade por todos herdada através dos tempos, a valentia fácil. Seu pai ainda fora o bom Ramires destemido — que na falada desordem da romaria da Riosa avançava com um guarda-sol contra três clavinas engatilhadas. Mas ele... Ali, no segredo do quarto apagado, bem o podia livremente gemer — ele nascera com a falha, a falha de pior desdouro, essa irremediável fraqueza da carne que, irremediavelmente, diante de um perigo, uma ameaça, uma sombra, o forçava a recuar, a fugir. .. A fugir de um Casco. A fugir de uma malandro de suíças louras que numa estrada e depois numa venda o insulta sem motivo, para meramente ostentar pimponice e arreganho.
E a Alma... Nessa calada treva do quarto bem o podia reconhecer também, gemendo. A mesma fraqueza lhe tolhia a Alma! Era essa fraqueza que o abandonava a qualquer influência, logo por ela levado como folha seca por qualquer sopro. Por que a prima Maria uma tarde adoça os espertos olhos e lhe aconselha por trás do leque que se interesse pela D. Ana — logo ele, fumegando de esperança, ergue sobre o dinheiro e a beleza de D. Ana uma presunçosa torre de ventura e luxo.
E a Eleição? Essa desgraçada Eleição? Quem o empurrara para a Eleição, e para a reconciliação indecente com o Cavaleiro, e para os desgostos daí emanados? Gouveia! Com leves argúcias, murmuradas pela rua. Mas quê! Se mesmo dentro da sua Torre era governado pelo Bento, que superiormente lhe impunha gostos, dietas, passeios, e opiniões e gravatas! A um homem assim, por mais bem dotado na Inteligência, é massa inerte a que o mundo constantemente imprime formas várias e contrárias.
Enterrou-se sob a roupa. Batiam as quatro horas. Através das pálpebras cerradas, percebeu faces antigas, com desusadas barbas ancestrais e ferozes cicatrizes, que sorriam no fragor de uma batalha ou na pompa de uma gala, dilatadas pelo uso soberbo de mandar e vencer.
E Gonçalo, espreitando por sobre a borda do lençol, reconhecia os velhos Ramires.
Os robustíssimos corpos emergiam cobertos de saios de malha ferrugenta, por arneses de aço, clavas godas eriçadas de pontas e espadins de baile.
Das suas tumbas dispersas seus avós acudiam à casa nove vezes secular — para reunir Assembleia majestosa da sua raça ressurgida... E até mesmo reconhecia alguns dos mais esforçados, que agora, com o repassar constante do Poemeto do tio Duarte e o Videirinha gemendo fielmente o seu “fado”, lhe andavam sempre na imaginação...
O de brial branco e cruz vermelha era Gutierres Ramires o d'Ultramar, que correu ao assalto de Jerusalém; o velho Egas Ramires, negava acolhida no seu puro solar a El-Rei D. Fernando e à adúltera Leonor! Esse, de crespa barba ruiva, que cantava sacudindo o pendão real de Castela, quem, senão Diogo Ramires, o Trovador, na alegria da radiosa manhã d'Aljubarrota? Diante da incerta claridade do espelho tremiam as fofas plumas escarlates do morrião de Paio Ramires que se armava para salvar S. Luís, Rei de França. Ruy Ramires sorria às naus inglesas que fugiam da sua Capitania pelo mar português. Paulo Ramires, pajem do Guião d'El Rey nos campos fatais de Alcácer, sem elmo, rota a couraça, inclinava para ele a sua face de donzel, com a doçura grave de um avô enternecido...
Gonçalo sentiu que a sua ascendência toda o amava e que acudia a socorrê-lo na sua debilidade, e que o alcançava a espada que combatera em Ourique, a acha que derrubara as portas de Arcilla. “Ó avós, de que me servem as vossas armas — se me falta a vossa alma?...”
Acordou muito cedo, confuso, e abriu as vidraças à manhã.
Bento desejou saber se o Sr. Doutor passara mal a noite...
Pessimamente!…

Eça de Queiroz, in A ilustre casa de Ramires

28/01/2019

Regresso ao Paraíso

Na Terra tudo vive - e só o homem sente a dor e a desilusão da vida. E tanto mais as sente, quanto mais alarga e acumula a obra dessa inteligência que o torna homem, e que o separa da restante Natureza, impensante e inerte. É no máximo de civilização que ele experimenta o máximo de tédio. A sapiência, portanto, está em recuar até esse honesto mínimo de civilização, que consiste em ter um teto de colmo, uma leira de terra e o grão para nela semear. Em resumo, para reaver a felicidade, é necessário regressar ao Paraíso - e ficar lá, quieto, na sua folha de vinha, inteiramente desguarnecido de civilização, contemplando o anho aos saltos entre o tomilho, e sem procurar, nem com o desejo, a árvore funesta da Ciência!”
Eça de Queirós, in Civilização

30/12/2017

Acerca da curiosidade

A curiosidade, instinto de complexidade infinita, leva por um lado a escutar às portas e por outro a descobrir a América: — mas estes dois impulsos, tão diferentes em dignidade e resultados, brotam ambos de um fundo intrinsecamente precioso, a atividade do espírito. Um espírito indolente não se arremessa com magnificência para os mares desconhecidos: também não se arrasta mesquinhamente para as fendas das portas: imóvel, como uma árvore sobre as raízes, ondula e rumoreja, dá a sua folha ou o seu fruto, derrama a sua curta sombra sobre o seu curto chão, e na mesma imobilidade, direito sobre as raízes, murcha, caduca e perece. O espírito porém que incita o homem a deixar a quietação do banco do seu jardim, a trepar a um muro escorregadio, a espreitar o jardim vizinho, possui já uma estimável força de vivacidade indagadora: — e a tendência que o moveu é essencialmente idêntica à tendência que, noutro tempo, levara outro homem a subir às rochas de Sagres, para contemplar, com sublime ansiedade, as neblinas atlânticas. Ambos são dois espíritos muito ativos, almejando por conhecer o mundo e a vida que se estendem para além do seu horizonte e do seu muro. O valor tão violentamente discordante das obras dependerá apenas do quilate dos dois espíritos, e das condições em que se exerçam, largas aqui com toda a largueza da onipotência, mais estreitas além do que a choça de um servo. Um, nascido com aladas aspirações de conquista e de fé, trabalhando sobre as energias novas de um povo forte, revelará aos homens o segredo da Terra: — o outro, de índole peca, enlevado na importância da comadre e da couve, não cessará de esfolar os joelhos, no esforço de trepar aos muros para espiolhar as vidas e as couves alheias. Depois um, ao acompanhamento das liras épicas, penetra na imortalidade: o outro não passa do canto do muro, onde certamente o apedrejarão. Mas ambos eles, o criador de civilização e o criador de escândalo, obedeceram à mesma energia íntima de iniciativa descobridora. São dois espíritos governados pela curiosidade, a vil curiosidade, como lhe chama Byron, com romântica ignorância,... E de resto, sem essa qualidade vil, nunca o primitivo Adão teria emergido da caverna primitiva, e todos nós, mesmo o curiosíssimo Byron, permaneceríamos, através dos tempos, solitários e horrendos trogloditas.
Eça de Queirós, in Notas contemporâneas

17/12/2017

Da curiosidade

A curiosidade, instinto de complexidade infinita, leva por um lado a escutar às portas e por outro a descobrir a América: — mas estes dois impulsos, tão diferentes em dignidade e resultados, brotam ambos de um fundo intrinsecamente precioso, a atividade do espírito. Um espírito indolente não se arremessa com magnificência para os mares desconhecidos: também não se arrasta mesquinhamente para as fendas das portas: imóvel, como uma árvore sobre as raízes, ondula e rumoreja, dá a sua folha ou o seu fruto, derrama a sua curta sombra sobre o seu curto chão, e na mesma imobilidade, direito sobre as raízes, murcha, caduca e perece. O espírito porém que incita o homem a deixar a quietação do banco do seu jardim, a trepar a um muro escorregadio, a espreitar o jardim vizinho, possui já uma estimável força de vivacidade indagadora: — e a tendência que o moveu é essencialmente idêntica à tendência que, noutro tempo, levara outro homem a subir às rochas de Sagres, para contemplar, com sublime ansiedade, as neblinas atlânticas. Ambos são dois espíritos muito ativos, almejando por conhecer o mundo e a vida que se estendem para além do seu horizonte e do seu muro. O valor tão violentamente discordante das obras dependerá apenas do quilate dos dois espíritos, e das condições em que se exerçam, largas aqui com toda a largueza da onipotência, mais estreitas além do que a choça de um servo. Um, nascido com aladas aspirações de conquista e de fé, trabalhando sobre as energias novas de um povo forte, revelará aos homens o segredo da Terra: — o outro, de índole peca, enlevado na importância da comadre e da couve, não cessará de esfolar os joelhos, no esforço de trepar aos muros para espiolhar as vidas e as couves alheias. Depois um, ao acompanhamento das liras épicas, penetra na imortalidade: o outro não passa do canto do muro, onde certamente o apedrejarão. Mas ambos eles, o criador de civilização e o criador de escândalo, obedeceram à mesma energia íntima de iniciativa descobridora. São dois espíritos governados pela curiosidade, a vil curiosidade, como lhe chama Byron, com romântica ignorância,... E de resto, sem essa qualidade vil, nunca o primitivo Adão teria emergido da caverna primitiva, e todos nós, mesmo o curiosíssimo Byron, permaneceríamos, através dos tempos, solitários e horrendos trogloditas.
Eça de Queirós, in Notas contemporâneas

16/06/2015

A dor diante de nós

A mais pequenina dor que diante de nós se produz e diante de nós geme, põe na nossa alma uma comiseração e na nossa carne um arrepio, que lhe não dariam as mais pavorosas catástrofes passadas longe, noutro tempo ou sob outros céus. Um homem caído a um poço na minha rua mais ansiadamente me sobressalta que cem mineiros sepultados numa mina da Sibéria.”
Eça de Queirós

04/06/2015

Dor

A mais pequenina dor que diante de nós se produz e diante de nós geme, põe na nossa alma uma comiseração e na nossa carne um arrepio, que lhe não dariam as mais pavorosas catástrofes passadas longe, noutro tempo ou sob outros céus. Um homem caído a um poço na minha rua mais ansiadamente me sobressalta que cem mineiros sepultados numa mina da Sibéria.”
Eça de Queirós

05/02/2015

Santa Ironia

“Não se descuide de ser alegre - só a alegria dá alma e luz à Ironia, à Santa Ironia - que sem ela não é mais que uma amargura vazia.”
Eça de Queirós

06/05/2014

O governo, o país, o povo

“Sempre o governo! O governo devia ser o agricultor, o industrial, o comerciante, o filósofo, o sacerdote, o pintor, o arquiteto – tudo. Quando um país abdica assim nas mãos dum governo toda a sua iniciativa, e cruza os braços, esperando que a civilização lhe caia feita das secretarias, como a luz lhe vem do sol, esse país está mal: as almas perdem o vigor, os braços perdem o hábito do trabalho, a consciência perde a regra, o cérebro perde a ação. E como o governo lá está para fazer tudo - o país estira-se ao sol e acomoda-se para dormir. Mas, quando acorda - é como nos acordamos com uma sentinela estrangeira à porta do arsenal.”
Eça de Queirós, in A catástrofe

01/10/2012

Amor e Arte

"Não, positivamente não há nada neste mundo ‘worth to live for’ senão um cantinho de fogão doméstico, muito Amor junto dele, e muita Arte em torno, para tornar a vida interessante, poética e distinta. Possa Deus, na sua infinita bondade, permitir que seja esse o nosso Destino. Arte e Amor - com A grande! Eles merecem-no; são as duas expressões supremas da vida, completam-se um pelo outro, e fora deles tudo é nada!"
Eça de Queiroz

23/02/2012

O jornal é o fole incansável que assopra a vaidade humana

“Pelo jornal, e pela reportagem que será a sua função e a sua força, tu desenvolverás, no teu tempo e na tua terra, todos os males da Vaidade! (...) Como a reportagem hoje se exerce, menos sobre os que influem nos negócios do Mundo, ou nas direções do pensamento, do que, como diz a Bíblia, sobre toda a sorte e condições de gente vã, desde os jóqueis até aos assassinos, a sua indiscriminada publicidade concorre pouco para a documentação da história, e muito, prodigiosamente, escandalosamente, para a propagação das vaidades! O jornal é com efeito o fole incansável que assopra a vaidade humana, lhe irrita e lhe espalha a chama. De todos os tempos é ela, a vaidade do homem! Já sobre ela gemeu o gemebundo Salomão, e por ela se perdeu Alcibíades, talvez o maior dos Gregos. Incontestavelmente, porém, meu Bento, nunca a vaidade foi, como no nosso danado século XIX, o motor ofegante do pensamento e da conduta. Nestes estados de civilização, ruidosos e ocos, tudo deriva da vaidade, tudo tende à vaidade. E a forma nova da vaidade para o civilizado consiste em ter o seu rico nome impresso no jornal, a sua rica pessoa comentada no jornal! Vir no jornal! Eis hoje a impaciente aspiração e a recompensa suprema! Nos regimes aristocráticos o esforço era obter, senão já o favor, ao menos o sorriso do Príncipe. Nas nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas, os homens praticam todas as ações—mesmo as boas”.
Eça de Queirós, in A Correspondência de Fradique Mendes

29/04/2011

“Governo! Sempre governo! O governo devia ser o agricultor, o industrial, o comerciante, o filósofo, o sacerdote, o pintor, o arquiteto. Tudo! Quando um país abdica assim nas mãos dum governo toda a sua iniciativa, e cruza os braços, esperando que a civilização lhe caia feita das secretarias, como a luz lhe vem do sol, esse país está mal: as almas perdem o vigor, os braços perdem o hábito do trabalho, a consciência perde a regra, o cérebro perde a ação. E como o governo lá está para fazer tudo, o país estira-se ao sol e acomoda-se para dormir. Mas, quando acorda, é como nos acordamos com uma sentinela estrangeira à porta do arsenal.
                                        Eça de Queirós