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21/12/2024

Maridos e Mulheres, de Woody Allen


Maridos e Mulheres de Woody Allen. A mesma história, os mesmos diálogos, os mesmos perdidos e achados, a mesma infalível previsibilidade. Uma câmara trémula, instável, como um vídeo de família, constantemente atrasada em relação ao princípio do plano, logo correndo para agarrar o tempo, dividida entre a ansiedade de registar integralmente o momento, antes de o deixar ir-se, e o impossível desejo de tornar atrás, à procura do gesto, do olhar, da palavra que ficaram por captar e sem os quais, agora, parece falto de coerência e de sentido o que se está contando. Estes homens e estas mulheres de Woody Allen, sempre idênticos nos encontros e desencontros das suas vidas, fizeram-me pensar nos átomos de Epicuro. Imersos no mesmo vazio, caindo, caindo sempre, mas subitamente derivando na direcção de outros átomos, de outros homens e mulheres, tocando-os ao de leve ou a eles se reunindo, e depois outra vez livres, soltos, solitários — ou caindo juntos, simplesmente…

José Saramago, em Cadernos de Lanzarote

26/05/2019

Woody Allen e as lamúrias da existência

No filme A última noite de Boris Grushenko, de Woody Allen, a morte vem buscar Boris, que, a caminho do além, passa na casa da namorada, Sonia, para se despedir. Sonia pergunta como é a morte.
Boris (depois de pensar um pouco) — Sabe a sopa no restaurante do Lipsky?
Sonia — Sei.
Boris — A morte é pior.
No humor de Woody Allen é constante esta justaposição de extremos do impensável — a morte, Deus, o universo, o nada e “por que diabo estamos aqui, irmão?” —, com uma referência ao banal. No mesmo filme, Boris e Sonia discutem a ideia de que o homem foi feito à imagem de Deus.
Boris — Você quer dizer que Deus se parece comigo? Deus usa óculos?
Sonia (hesitando) — Bom, talvez não com esses aros.
A banalização das últimas indagações da existência serve, primeiro, para amenizar os seus terrores. (“O que você tem a ver com o universo?”, pergunta a mãe do jovem Allen em Noivo neurótico, noiva nervosa, impaciente com a sua angústia precoce.) Segundo, para incorporá-las ao repertório de um cômico profissional que, no fim das contas, precisa ser engraçado antes de ser profundo. Woody Allen não é um filósofo. É um judeu da baixa classe média urbana do Leste dos Estados Unidos, como dez entre dez estrelas da comédia americana. Ele mesmo se situa na tradição dos stand-up comedians, como Henry Youngman, mestres da piada de uma linha e do monólogo, da troca de insultos com bêbados em clubes noturnos de costa a costa da América, embora reconheça que seu precursor direto seja Mort Sahl, o primeiro stand-up comedian cerebral. (Década de 1950. Sahl também foi o primeiro a fazer humor político de esquerda.)
A diferença entre Allen e os outros é que ele tem um pouco mais leitura e mais influência do contexto cultural de Nova York, podendo incluir mais significados num estilo de humor verbal que permanece, em essência, o mesmo desde o vaudeville e o burlesque. Mas, mesmo quando eleva o seu humor à metafísica, nunca falta a referência paroquial, americana, o contraste com o que existe. “Deus deveria nos dar uma prova de sua existência. Como repartir as águas do Mar Vermelho. Ou fazer o tio Sasha pagar a conta num restaurante.” Outra versão da mesma piada é: “Se Deus apenas me desse uma prova de sua existência... como depositar uma grande quantia em meu nome num banco suíço.”
O melhor humor americano é uma infindável lamúria pelos absurdos da existência urbana. Allen inclui a finitude humana, a transitoriedade do universo e as incertezas com a eternidade entre as contrariedades do cotidiano. “A minha preocupação constante é: haverá uma vida depois da morte? E, se houver, será que eles trocam uma nota de 500?” A maior piada de todas é que no fim a gente morre, mas ninguém ri disto. Se você disser, como Allen, que “o universo não passa de uma ideia passageira na mente de Deus — o que é um pensamento duplamente desagradável, se você tiver acabado de pagar a entrada da sua casa própria”, fica engraçado. Você pode ser profundo na superfície porque no fundo tudo é superficial, da sopa do Lipsky ao infinito.
Allen pertence ao pequeno mundo liberal-intelectual de Nova York. Escreve para o New Yorker, apóia todas as causas corretas, freqüenta os cinemas de arte, almoça no Russian Tea Room e abomina a Califórnia. Mas, com a lúcida irreverência de um emigrado do Brooklyn, sabe que há mais pose do que conteúdo no estilo da ilha. Sabe que Nova York, como ele, consome cultura de segunda mão: o cinema — que não é feito lá — e o alto pensamento europeu. Por isto a sua técnica preferida é a paródia, a arte de segunda mão, uma maneira de reverenciar um estilo e destruí-lo ao mesmo tempo. Todos os filmes de Woody Allen até agora foram paródias, salvo o semiconfessional Noivo neurótico, noiva nervosa.
Em Cuca fundida, o primeiro livro de Woody Allen traduzido para o português (obrigado, L&PM), todos os textos são paródias. O cara, sabiamente escolhido como texto de abertura da edição em português — no original, se não me engano, era o último texto —, apresenta, combinadas, as técnicas favoritas de Allen, a paródia e a banalização do grande tema. No estilo de uma novela policial da década de 40, Allen conta a história do detetive particular contratado por uma loura estonteante para descobrir o paradeiro de Deus. No fim descobre que Deus está morto. A loura, uma catedrática de física disfarçada, o matou. Textos como Os róis de Metterling, A história de uma grande invenção, Como alfabetizar um adulto, Os anos 20 eram uma festa e Conversações com Helmholz são paródias de erudição.
Em A morte bate à porta, Allen transporta a velha imagem medieval do homem jogando a sua alma no xadrez com a morte, que Bergman usou no filme O sétimo selo, para um subúrbio da classe média de Nova York. Nat Ackerman joga biriba com a morte — e ganha. Contos hassídicos, Correspondência entre Gossage e Vardebian, Reflexões de um bem-alimentado, Conde Drácula e Viva Vargas são paródias de formas literárias. Allen faz um humor intelectualmente pretensioso, cujo alvo principal é a pretensão intelectual. Não pode errar.
A ideia de que Woody Allen não pode ser entendido como deve fora do contexto intelectual judeu nova-iorquino me parece tão falsa quanto a ideia, que felizmente até hoje ninguém defendeu, de que Kafka não significa nada fora do contexto intelectual judeu de Praga na sua época. Não que Allen seja comparável a Kafka. A tradição do stand-up comedian é mais forte nele do que qualquer sombria herança literária da Europa Central. Mas certamente ele pode ser lido com prazer onde quer que coisas como a pretensão intelectual e o absurdo — sem falar na morte, em Deus, no universo, no nada e “será que na eternidade se consegue mulher?” — ocupem a mente das pessoas.
A tradução de Ruy Castro não surpreende. Está perfeita.
Luís Fernando Veríssimo, in Banquete com os deuses

10/03/2019

Os últimos dias da morte

No século XXI, é provável que os humanos façam um lance sério para a aquisição da imortalidade. A luta contra a velhice e a morte será tão somente a continuação da luta, consagrada pelo tempo, contra a fome e a doença, e uma manifestação do valor supremo da cultura contemporânea: a valorização da vida humana. Somos constantemente lembrados de que ela é o que há de mais sagrado no universo. Todos dizem isso: professores nas escolas, políticos nos parlamentos, advogados nos tribunais e atores nos palcos de teatros. A Declaração Universal dos Direitos do Homem, adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU) após a Segunda Guerra Mundial — e que talvez seja o que há de mais próximo que temos de uma Constituição global —, declara categoricamente que o “direito à vida” é o valor fundamental da humanidade. Por se constituir em uma clara violação desse direito, a morte é um crime contra a humanidade, e temos de travar uma guerra total contra ela.
Durante a História, religiões e ideologias não santificaram a vida em si mesma. Santificaram sempre algo que está acima ou além da existência terrena, e consequentemente foram bem tolerantes com a morte. De fato, algumas delas mostraram-se bastante afeiçoadas ao Anjo da Morte. Uma vez que o cristianismo, o islamismo e o hinduísmo insistiam que o significado de nossa existência dependia da sina no pós-vida, elas consideravam a morte como parte vital e positiva do mundo. Humanos morriam porque Deus assim decretava, e o momento de sua morte era uma experiência metafísica sagrada e repleta de significado. Quando um humano estava próximo de seu derradeiro suspiro, era hora de convocar sacerdotes, rabinos e xamãs, fazer o balanço de sua vida e assumir seu verdadeiro papel no universo. Tente imaginar o cristianismo, o islamismo ou o hinduísmo em um mundo sem mortes — o que seria também um mundo sem céu, inferno ou reencarnação.
A ciência e a cultura modernas têm uma visão totalmente diferente da vida e da morte. Não pensam nesta última como um mistério metafísico, e certamente não a veem como a fonte do sentido da vida. Na verdade, para pessoas modernas a morte é um problema técnico que pode e deve ser resolvido.
Como, exatamente, morrem os humanos? Histórias fantásticas medievais descrevem a Morte como uma figura envolvida por um manto negro com capuz, empunhando uma grande foice. Um homem vive sua vida, preocupando-se com isto e aquilo, correndo para lá e para cá, quando subitamente o Anjo da Morte surge à sua frente, bate em seu ombro com um dedo esquelético, e diz: “Venha!”. E o homem implora: “Não, por favor! Espere só um ano, um mês, um dia!”. Mas a figura encapuzada sibila: “Não! Você tem de vir AGORA !”. E é assim que morremos.
Na realidade, contudo, humanos não morrem porque uma figura envolta em um manto negro bate em seu ombro, ou porque Deus assim decretou, ou porque a mortalidade é parte essencial de algum grande plano cósmico. Humanos morrem devido a alguma falha técnica. O coração para de bombear sangue. A artéria principal entope com depósitos de gordura. Células cancerosas espalham-se no fígado. Germes multiplicam-se nos pulmões. E de quem é a responsabilidade por todas essas falhas técnicas? Outros problemas técnicos. O coração para de bombear o sangue porque não chega bastante oxigênio ao músculo cardíaco. Células cancerosas se espalham porque uma mutação genética acidental reescreve suas instruções. Germes se instalaram nos meus pulmões porque alguém espirrou no metrô. Nada metafísico. Somente problemas técnicos.
E todo problema técnico tem uma solução técnica. Não é preciso esperar pela volta de Cristo à Terra para superar a morte. Alguns nerds num laboratório podem fazer isso. Se a morte era tradicionalmente a especialidade de sacerdotes e teólogos, hoje são os engenheiros que estão assumindo o caso. As células cancerosas podem ser mortas por meio de quimioterapia ou por nanorrobôs. Os germes nos pulmões podem ser extintos com o uso de antibióticos. Se o coração parar de bater, é possível fortificá-lo com medicamentos e choques elétricos — e, se isso não funcionar, pode-se realizar o implante de um coração novo. É verdade que no momento não dispomos de solução para todos os problemas técnicos. Mas é exatamente por causa disso que investimos tanto tempo e dinheiro em pesquisas sobre o câncer, germes, a genética e a nanotecnologia.
Mesmo os leigos, que não estão envolvidos em pesquisas científicas, acostumaram-se a pensar na morte como um problema técnico. Quando uma mulher vai ao médico e pergunta “Doutor, o que há de errado comigo?”, ele poderá responder “Bem, você está com uma gripe” ou “Você tem tuberculose”, ou “Você tem câncer”. Mas nunca dirá “Você tem morte”. E é generalizada a percepção de que uma gripe, a tuberculose e o câncer são problemas técnicos, para os quais algum dia poderemos encontrar a solução técnica.
Mesmo quando pessoas morrem num furacão, num acidente de carro ou numa guerra, tendemos a tratar esse evento como uma falha técnica que poderia e deveria ter sido evitada. Se o governo tivesse adotado uma política melhor; se a municipalidade tivesse feito adequadamente seu trabalho; se o comandante militar tivesse tomado uma decisão mais sensata, a morte poderia ter sido evitada. A morte tornou-se um motivo quase automático para processos legais e investigações. “Como é possível que tenham morrido? Alguém, em algum lugar, meteu os pés pelas mãos.”
A grande maioria dos cientistas, médicos e estudiosos ainda se distancia de sonhos explícitos com a imortalidade com a alegação de que estão tentando superar este ou aquele problema específico. No entanto, como a velhice e a morte são o resultado de problemas específicos, e nada além disso, não existe um ponto no qual médicos e cientistas irão se deter e declarar: “Até aqui, e nenhum passo a mais. Já superamos a tuberculose e o câncer, mas não vamos erguer um só dedo para combater o Alzheimer. As pessoas poderão continuar a morrer desse mal”. Não se afirma na Declaração Universal dos Direitos do Homem que os humanos têm “direito à vida até os noventa anos”. O que se diz é que todo ser humano tem direito à vida. Ponto. Esse direito não é limitado por uma data de vencimento.
Consequentemente, uma minoria crescente de cientistas e pensadores está falando mais abertamente sobre o assunto hoje em dia e declara que a principal empreitada da ciência moderna é derrotar a morte e garantir aos humanos a juventude eterna. Exemplos notáveis são o gerontologista Aubrey de Grey e o polímata e inventor Ray Kurzweil (ganhador da Medalha Nacional dos Estados Unidos para Tecnologia e Inovação em 1999). Em 2012, Kurzweil foi nomeado diretor de engenharia no Google, e um ano depois o Google lançou uma subcompanhia chamada Calico, cuja missão declarada é “resolver a morte”. Recentemente o Google nomeou outro verdadeiro crente na imortalidade, Bill Maris, para presidir o fundo de investimentos Google Ventures. Em uma entrevista concedida em janeiro de 2015, Maris disse: “Se vocês me perguntarem hoje se é possível viver até os quinhentos anos, a resposta é sim”. Maris dá suporte a suas corajosas palavras com investimentos pesados. O Google Ventures está investindo 36% de sua carteira de 2 bilhões de dólares em start-ups na área da biociência, inclusive projetos ambiciosos relacionados com a prorrogação da vida. Empregando uma analogia com o futebol americano, Maris explicou que na luta contra a morte “não estamos tentando avançar algumas jardas. Estamos tentando ganhar o jogo”. Por quê? Porque, segundo ele, “viver é melhor do que morrer”.
Esses sonhos são compartilhados com outros luminares do Vale do Silício. O cofundador do PayPal, Peter Thiel, confessou recentemente que tem o desejo de viver para sempre. “Acredito que existem três modos de encarar [a morte]”, ele explicou. “Você pode aceitá-la, negá-la ou combatê-la. Nossa sociedade é dominada por pessoas que estão entre a negação e a aceitação; eu prefiro combatê-la.” Muitos irão rejeitar tais declarações por considerá-las fantasias de adolescentes. No entanto, Thiel deve ser levado muito a sério. Um dos mais bem-sucedidos e influentes empreendedores no Vale do Silício, possui uma fortuna pessoal estimada em 2,2 bilhões de dólares. É bem óbvio: igualdade é out — imortalidade é in.
O desenvolvimento vertiginoso de campos como a engenharia genética, a medicina regenerativa e a nanotecnologia estimulam profecias ainda mais otimistas. Alguns especialistas acreditam que os homens vão vencer a morte por volta de 2200; outros anunciam que isso acontecerá em 2100. Kurzweil e De Grey são ainda mais confiantes: eles sustentam que qualquer pessoa que tenha um corpo saudável e uma igualmente saudável conta bancária terá em 2050 uma chance séria de imortalidade, enganando a morte uma década por vez. Segundo esses dois estudiosos, a cada dez anos aproximadamente poderemos ir até uma clínica e receber um tratamento renovador que não só irá curar doenças, como também regenerar tecidos deteriorados e aumentar a eficácia de mãos, olhos e cérebro. Antes de se realizar o próximo tratamento, os médicos terão inventado uma série de novos medicamentos, atualizações e uma variedade de dispositivos. Se Kurzweil e De Grey estão certos, talvez já haja alguns imortais caminhando a seu lado na rua — ao menos se você estiver andando por Wall Street ou pela Quinta Avenida.
Na verdade, eles serão amortais, e não imortais. Ao contrário de Deus, os futuros super-homens poderão morrer em alguma guerra ou em um acidente de trânsito, e nada os trará de volta. Contudo, diferentemente de nós, mortais, suas vidas não teriam “data de vencimento”. Enquanto uma bomba não os fizer em pedaços ou um caminhão não lhes passar por cima, poderão continuar a viver indefinidamente. No entanto, é bem provável que isso fará dessas pessoas as mais ansiosas na História. Nós mortais arriscamos diariamente nossa vida porque sabemos que ela, de um jeito ou de outro, vai acabar. Assim, saímos em jornadas no Himalaia, nadamos no mar e participamos de outras ações perigosas, como atravessar a rua ou comer fora. Mas, se acreditarmos que podemos viver para sempre, seremos loucos se apostarmos com o infinito.
Será que teríamos um começo melhor se adotássemos metas mais modestas, como duplicar a expectativa de vida? No século XX , quase a duplicamos — a expectativa de vida passou de quarenta para setenta anos —; assim, no século XXI , poderíamos ao menos tornar possível uma nova duplicação e chegar aos 150. Embora esteja muito aquém da imortalidade, essa conquista iria revolucionar a sociedade humana. De saída, estrutura familiar, matrimônio e relações entre pais e filhos seriam transformados. Hoje em dia, as pessoas ainda esperam estar casadas “até que a morte as separe”, e boa parte da vida gira em torno de ter e criar filhos. Agora, tentemos imaginar uma pessoa com 150 anos de idade. Se se casasse aos quarenta, ela ainda teria 110 anos pela frente. Seria realista esperar que um casamento dure 110 anos? Até mesmo os fundamentalistas católicos veriam isso como um obstáculo. Em decorrência, a tendência atual de casamentos em série provavelmente se intensificaria. Uma pessoa que tem dois filhos aos quarenta anos terá, quando completar 120, apenas uma lembrança remota dos anos que dedicou à sua criação — um episódio menor em sua longa vida. Difícil dizer que tipo de relação pais-filhos poderia se desenvolver em tais circunstâncias.
E quanto às carreiras profissionais? Atualmente, de modo geral, estuda-se para se ter uma profissão da adolescência até pouco mais de vinte anos; depois, passa-se o resto da vida atuando nessa atividade. Obviamente existe um aprendizado mesmo quando se está com quarenta ou cinquenta anos, mas a vida costuma dividir-se em um período de aprendizagem seguido de um período de trabalho. Isso não vai funcionar se as pessoas começarem a viver até os 150 anos, sobretudo em um mundo constantemente sacudido por novas tecnologias. As carreiras serão muito mais longas e será preciso se reinventar de novo e de novo, mesmo aos noventa anos.
Ao mesmo tempo, as pessoas não vão se aposentar aos 65 anos nem vão abrir caminho para a nova geração com suas ideias inovadoras e suas aspirações. Em uma citação famosa, o físico Max Planck afirmou que a ciência avança de funeral em funeral. Ele quis dizer que somente quando uma geração desaparece é que surgem novas teorias com uma chance de erradicar as antigas. Isso se aplica não apenas às ciências. Pense por um momento em seu lugar de trabalho. Não importa se você é um acadêmico, um jornalista, um cozinheiro ou um jogador de futebol. Como você se sentiria se seu chefe tivesse 120 anos, suas ideias tivessem sido formuladas quando a rainha Vitória ainda governava, e sabendo que ele provavelmente permaneceria como seu chefe por mais algumas décadas?
Na esfera política, os resultados poderiam ser ainda mais sinistros. Você gostaria de ver Vladimir Putin circulando por aí por mais noventa anos? Pensando melhor, se as pessoas vivessem até os 150 anos, Stálin ainda estaria em Moscou, em 2016, governando firme e forte aos 138 anos, o presidente Mao estaria na meia-idade, com 123, e a princesa Elizabeth estaria esperando sentada para herdar o trono de um Jorge VI com 121 anos. Seu filho, o príncipe Charles, não chegaria a reinar antes de 2076.
De volta ao domínio da realidade: estamos muito longe de qualquer certeza de que as profecias de Kurzweil e De Grey se realizarão em 2050 ou em 2100. Minha opinião pessoal é de que as esperanças de juventude eterna no século XXI são prematuras, e quem quer que as leve demasiadamente a sério está sujeito a sofrer um amargo desapontamento. Não é fácil viver com a consciência de que vamos morrer, mas é muito pior acreditar na imortalidade e constatar que tudo se tratava de um equívoco.
Embora a duração média de vida tenha duplicado nos últimos cem anos, não é razoável extrapolar e concluir que podemos duplicá-la novamente para alcançar 150 anos no século seguinte. Em 1900, a expectativa de vida global não excedia os quarenta anos porque jovens morriam de subnutrição, doenças infecciosas e violência. Porém, quem escapava à fome, à peste e à guerra podia viver até os setenta ou oitenta anos, que é a duração de vida natural do Homo sapiens. Ao contrário do que em geral se supunha, em séculos anteriores os septuagenários não eram considerados aberrações da natureza. Galileu Galilei morreu com 77 anos, Isaac Newton com 84, e Michelangelo viveu 88 anos, sem a ajuda de antibióticos, vacinas ou transplante de órgãos. De fato, mesmo os chimpanzés na selva podem ter seis décadas de vida.
Na verdade, até o presente a medicina não prolongou o tempo de vida natural do ser humano em um ano sequer. Sua grande conquista foi nos salvar da morte prematura e permitir que usufruamos da plenitude da existência. Mesmo que o câncer, a diabetes e outros grandes assassinos possam ser vencidos, poderíamos nos estender até os noventa anos — mas isso não seria suficiente para nos levar aos 150, muito menos aos quinhentos anos. Para isso, a medicina terá não só de realizar a reengenharia das estruturas e dos processos fundamentais do corpo humano como também descobrir como regenerar órgãos e tecidos. Não está claro se seremos capazes de fazer isso até 2100.
Não obstante, toda tentativa frustrada de vencer a morte nos aproxima um passo do alvo, e isso vai nos dar esperança e encorajar esforços ainda maiores. Embora provavelmente a Calico, do Google, não vá “resolver a morte” a tempo de tornar imortais Sergey Brin e Larry Page (cofundadores do Google), decerto descobertas significativas em biologia celular, medicina genética e saúde humana serão realizadas. A próxima geração de googlers poderá iniciar seu ataque à morte a partir de posições mais recentes e mais efetivas. Os cientistas que gritam “imortalidade” são como o garoto que gritou “lobo”: mais cedo ou mais tarde, o lobo realmente aparece.
Mesmo que não conquistemos a imortalidade durante nossa existência, a guerra contra a morte ainda será o projeto emblemático do próximo século. Acrescente à nossa crença na santidade da vida humana a dinâmica do estamento científico e a esta as necessidades da economia capitalista, e a guerra implacável contra a morte parece inevitável. Nosso compromisso ideológico com a vida humana nunca permitirá que simplesmente aceitemos a morte. Enquanto a morte for motivada por alguma coisa, estaremos empenhados em superar suas causas.
O estado científico e a economia capitalista ficarão mais do que felizes em endossar esse empenho. A maior parte de cientistas e banqueiros não se importa com o que estão trabalhando, contanto que isso lhes ofereça a oportunidade de fazer novas descobertas e obter maiores lucros. Pode alguém imaginar um desafio científico maior do que driblar a morte — um mercado mais promissor do que o da juventude eterna? Se você tem mais de quarenta anos, feche os olhos por um minuto e tente se lembrar do corpo que tinha aos 25. Não se concentre em sua aparência, mas acima de tudo em como era senti-lo. Você estaria disposto a pagar quanto pela oportunidade de ter aquele corpo de volta? Sem dúvida, algumas pessoas não se importariam muito com isso, mas haveria muitas outras dispostas a pagar grandes quantias, constituindo um mercado quase infinito.
Se tudo isso ainda não é o bastante, o medo da morte entranhado na maioria dos humanos confere à guerra contra a morte um ímpeto irresistível. Desde que se conscientizaram de que a morte é inevitável, as pessoas se condicionaram a suprimir o desejo de viver para sempre, ou o refrearam em favor de novas metas. Elas querem viver para sempre e assim compõem uma sinfonia “imortal”, empenham-se pela “glória eterna” em alguma guerra, ou mesmo sacrificam a própria vida para que sua alma “desfrute da felicidade perpétua no paraíso”. Grande parte de nossa criatividade artística, de nosso comprometimento político e de nossa fé religiosa é alimentada pelo medo da morte.
Uma vez perguntaram a Woody Allen, que fez uma carreira fabulosa falando do medo da morte, se ele esperava viver para sempre nas telas. Allen respondeu: “Eu preferiria viver em meu apartamento”. E acrescentou: “Não quero atingir a imortalidade por meio do meu trabalho. Quero atingi-la não morrendo”. Glória eterna, cerimônias comemorativas nacionalistas e sonhos com o paraíso são substitutos muito insatisfatórios para o que humanos como Woody Allen realmente desejam — não morrer. Se as pessoas pensarem (com ou sem bons motivos) que têm uma boa probabilidade de escapar da morte, a vontade de viver se recusará a continuar empurrando a carroça da arte, da ideologia e da religião e se lançará à frente como uma avalanche.
Se você acha que fanáticos religiosos com olhos flamejantes e barbas esvoaçantes são cruéis, espere só para ver o que farão magnatas idosos do varejo e estrelinhas de Hollywood envelhecendo quando pensarem que o elixir da vida está ao alcance deles. Se e quando a ciência fizer um progresso significativo na guerra contra a morte, a batalha real sairá dos laboratórios para os parlamentos, os tribunais e as ruas. Os esforços científicos, uma vez coroados de sucesso, desencadearão conflitos políticos amargos. Todas as guerras e todos os conflitos da história tornar-se-ão um pálido prelúdio da verdadeira batalha a nossa frente: a busca da juventude eterna.
Yuval Noah Harari, in Homo Deus: uma breve história do amanhã

05/06/2016

Ainda não nos gostamos

Os dilemas morais de hoje são os mesmos do início dos tempos. As pessoas são predadoras e competitivas. Os problemas atuais podem ser o aquecimento global e a guerra em Darfur, mas é tudo a mesma coisa. Ainda não nos gostamos. Sempre achei que, se as pessoas intolerantes conseguissem por em prática suas ideias e eliminassem todos os negros e todos os judeus, depois atacariam outro grupo de gente, depois mais outro. Por fim, quando só houvesse duas pessoas na face da Terra, o destro se voltaria contra o canhoto.”
Woody Allen

06/04/2014

Amar é sofrer

"Amar é sofrer. Para evitares sofrer, não deves amar. Mas, dessa forma vais sofrer por não amar. Então, amar é sofrer, não amar é sofrer, sofrer é sofrer. Ser feliz é amar, ser feliz, então, é sofrer, mas sofrer torna-nos infelizes, então, para ser infeliz temos que amar, ou amar para sofrer, ou sofrer de demasiada felicidade - espero que estejas a perceber."
Woody Allen

11/11/2012

Os direitos de Faulkner


A Sony Pictures está sofrendo um processo por parte dos herdeiros de William Faulkner por causa de uma frase do autor que aparece no filme “Meia Noite em Paris” de Woody Allen.  A frase é a famosa “The past is not dead. It’s not even past” (“O passado não morreu. Na verdade, ele nem sequer passou”.) Quando vi essa notícia, gelei, porque eu mesmo já devo ter citado essa frase mais vezes do que Woody Allen. Toda vez que o porteiro me entrega a correspondência, o primeiro envelope que procuro é o da intimação judicial.
O texto enviado à Sony reclama que a produtora não pediu autorização para citar esta frase, e diz: “O uso desta citação irregular e do nome de William Faulkner nesse filme tende a causar confusões, a causar equívocos, e/ou enganar os espectadores do filme infrator levando-os a supor uma afiliação, conexão ou associação entre William Faulkner e sua obra, de um lado, e a Sony, do outro”. Isto equivale, grosso modo, àquelas cenas em que um pirralho pega o trenzinho do outro para brincar, e o outro imediatamente arrebata de volta o trenzinho e o desce com força na testa do provocador.
Fiquei mais tranquilo quando vi que o filme arrecadou 94 milhões de dólares. O que recebo no Jornal da Paraíba não chega nem à metade disso, de modo que eles provavelmente irão concentrar seus esforços em cima do pobre Woody.  Isto me lembra o episódio de um álbum de fotografias que foi embargado aqui no Brasil pelos herdeiros de Manuel Bandeira, que se queixavam de não ter recebido nem um tostão pelo fato do poeta aparecer em uma das centenas de fotos que havia no álbum.
Se isso é “direito autoral”, amigos, a minha vontade, a cada ano que passa, é arranjar um emprego burocrático (sou bom datilógrafo!) e liberar tudo que escrevi até hoje, desde que seja para uso não-comercial. Qualquer um pode gravar minhas músicas ou imprimir meus textos, desde que ninguém ganhe dinheiro com isso. Direitos autorais são uma coisa muito justa quando exprimem a remuneração de um autor pelo seu trabalho intelectual e físico (sim, escrever envolve esforço físico), e ajudam a pagar suas despesas. Faulkner ganhou o bastante, em vida, para beber tudo a que tinha direito. As frases que escreveu se impregnaram na nossa linguagem diária (até na minha, imagine só, eu que nunca li um só livro dele). A presença da frase de Faulkner não influiu na bilheteria do filme de Allen, que com frase ou sem frase seria exatamente a mesma. Agora... 94 milhões são 94 milhões, né? Acho que vou ver o filme de novo, e vou entrar com um processo se Owen Wilson disser “eu vi o céu à meia noite se avermelhando num clarão”.
Braulio Tavares, in mundofantasmo.blogspot.com.br

01/03/2012


"Amar é sofrer. Para evitares sofrer, não deves amar. Mas, dessa forma vais sofrer por não amar. Então, amar é sofrer, não amar é sofrer, sofrer é sofrer. Ser feliz é amar, ser feliz, então, é sofrer, mas sofrer torna-nos infelizes, então, para ser infeliz temos que amar, ou amar para sofrer, ou sofrer de demasiada felicidade - espero que estejas a perceber."
Woody Allen

16/02/2012


"A vocação de um político de carreira é fazer de cada solução um problema."
Woody Allen

06/08/2011

“Não quero atingir a imortalidade por causa do meu trabalho; quero atingir a imortalidade sem precisar morrer!”
Woody Allen

06/05/2011

Livro de Machado de Assis está entre os preferidos de Woody Allen

O cineasta Woody Allen citou o clássico "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, entre os cinco livros que mais o influenciaram em reportagem no site do jornal "The Guardian".
Allen contou que o livro foi mandado por um brasileiro desconhecido e que só o leu porque ele não era muito grande.
"Chegou pelo correio um dia. Algum desconhecido no Brasil me mandou e escreveu: 'Você vai gostar disso'. Como o livro era pequeno, eu li. Se ele fosse grosso, eu o teria descartado", disse Allen.
O diretor ainda o comparou com "O Apanhador no Campo de Centeio", escrito por J.D. Salinger.
"Eu fiquei chocado com o quão charmoso e interessante [o livro] era. Eu não conseguia acreditar que ele [Machado de Assis] viveu há tanto tempo. Você pensaria que ele escreveu o livro ontem. É tão moderno e interessante. Me chamou atenção da mesma forma que 'O Apanhador no Campo de Centeio'. Era um assunto que eu gostava e era tratado de forma bem-humorada, cheio de originalidade e sem sentimentalismo."
Postado no Ilustrada, da Folha.com

Eis a clássica Dedicatória desse livro:

"Ao verme que
primeiro roeu as frias carnes
do meu cadáver
dedico
como saudosa lembrança
estas
Memórias Póstumas".

E o intringante prefácio:

"Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.
Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Consequentemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus".

03/04/2011

“Os dilemas morais de hoje são os mesmos do início dos tempos. As pessoas são predadoras e competitivas. Os problemas atuais podem ser o aquecimento global e a guerra em Darfur, mas é tudo a mesma coisa. Ainda não nos gostamos. Sempre achei que, se as pessoas intolerantes conseguissem pôr em prática suas ideias e eliminassem todos os negros e todos os judeus, depois atacariam outro grupo de gente, depois mais outro. Por fim, quando só houvesse duas pessoas na face da Terra, o destro se voltaria contra o canhoto”.
                             Woody Allen