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25/12/2021

Noção de tempo

O desfolhamento no outono e o nascimento dos brotos na primavera são processos naturais das florestas, mas ao mesmo tempo verdadeiros milagres, pois para realizá-los as árvores precisam de algo imprescindível: noção de tempo. Como elas sabem que o inverno chegou ou que um aumento de temperatura não é uma curta estiagem numa estação fria, mas o prenúncio da primavera?
Parece lógico que o aumento da temperatura serve de gatilho para o nascimento das folhas, pois a água congelada dentro do tronco derrete e pode voltar a fluir. No entanto, o surpreendente é que quanto mais frio o inverno, mais cedo os brotos começam a nascer. Pesquisadores da Universidade Técnica de Munique investigaram esse processo em um laboratório com temperatura controlada.43 Descobriram, por exemplo, que quanto mais quente o inverno, mais tarde os galhos da faia ficam verdes – o que, à primeira vista, parece ilógico, pois muitas outras plantas (por exemplo, as rasteiras) começam a crescer e até a florescer ainda no auge do inverno. Talvez elas precisem do frio para ter uma hibernação revigorante e por isso não despertam no momento correto na primavera. Em tempos de mudança climática, isso é uma desvantagem, pois outras espécies menos cansadas formam sua folhagem antes e largam na dianteira.
É normal que mesmo nos invernos mais quentes carvalhos e faias não produzam folhagem verde. Mas como essas árvores sabem que ainda não é hora de formar brotos? As árvores frutíferas nos dão uma pista para desvendar esse mistério: acontece que as árvores sabem contar. Elas só consideram que a primavera de fato chegou quando o número de dias quentes ultrapassa determinado limite.44 Portanto, por si sós os dias quentes não anunciam a primavera.
Além disso, a queda e a formação das folhas não dependem apenas da temperatura, mas também da duração do dia. A faia, por exemplo, só começa a brotar quando há pelo menos 13 horas de claridade. Essa informação é surpreendente, pois para fazer essa conta as árvores precisariam ser capazes de enxergar. E o primeiro lugar no qual devemos procurar esses “olhos” são as folhas – que contam com uma espécie de célula solar que as equipa para captar ondas luminosas. E elas de fato captam a luz solar no verão. No entanto, durante parte da primavera os galhos ainda não têm folhas. Portanto, ainda não há uma explicação para esse fenômeno, mas em tese os brotos ainda não nascidos contam com essa capacidade. Dentro deles há folhas dobradas, e eles são recobertos com escamas marrons para impedir que ressequem. Quando o broto sair, segure-o contra a luz e observe as escamas com atenção: elas são translúcidas. Provavelmente basta elas captarem uma quantidade mínima de luz para registrar a duração do dia, como se sabe pela análise das sementes de muitas plantas daninhas, que só precisam do brilho tênue do luar para germinar. O tronco da árvore também pode registrar a luz. Na casca da maioria das espécies há brotos minúsculos, que permanecem adormecidos. Assim que o tronco vizinho é derrubado, o aumento da incidência de luz desencadeia a abertura desses brotos, para que a árvore possa captar a luz adicional.
Como as árvores percebem que os dias quentes são do fim da primavera, e não do verão? Nesse caso, é a combinação de duração do dia e temperatura que desencadeia a reação correta. As árvores são capazes de interpretar o aumento da temperatura como a primavera e a queda como o outono. É por isso que espécies como o carvalho e a faia, típicas do hemisfério Norte, se adaptam ao hemisfério Sul. E isso comprova outra coisa: as árvores devem ter memória. Do contrário, como poderiam estabelecer uma comparação? Como conseguiriam contar os dias quentes?
Em anos especialmente quentes, com temperaturas altas no outono, algumas árvores perdem a noção do tempo. Seus brotos surgem no outono, e alguns espécimes até produzem folhas. Esse lapso pode prejudicar o broto quando chegam geadas tardias. O tecido dos galhos novos ainda não se lignificou (não se transformou em madeira dura para suportar o inverno), e a folhagem verde está indefesa, por isso congela. E o pior: os botões da primavera seguinte morrem, por isso a árvore precisa criar substitutos, um processo no qual gasta bastante energia. Ou seja, a árvore desatenta gasta todas as suas energias e começa a estação seguinte em desvantagem.
No entanto, as árvores precisam ter noção de tempo não apenas para a folhagem. Esse conhecimento é igualmente importante para a procriação. Se a semente cair no solo durante o outono, não conseguirá germinar de imediato, pois enfrentará dois problemas: por um lado, as mudas sensíveis não conseguem lignificar e acabam congelando. Por outro, no inverno cervos e corças quase não encontram o que comer, por isso atacam os brotos verdes e frescos. O ideal é que nasçam na primavera, com todas as outras espécies. Logo, pode-se concluir que as sementes registram mudanças de temperatura, e seus brotos só se atrevem a sair da casca quando há períodos de calor prolongados após o frio.
Muitas sementes não precisam de um mecanismo de contagem tão sofisticado para fazer as folhas brotarem. É o caso dos frutos da faia e do carvalho, que são enterrados por gaios e esquilos a alguns centímetros de profundidade no solo. Debaixo da terra o aumento de temperatura só se intensifica quando a primavera chega de vez. As sementes mais leves, como as de bétula, precisam tomar mais cuidado, pois com suas asinhas elas podem ser carregadas pelo vento. Se caírem debaixo da árvore-mãe, não haverá problema, pois ficarão protegidas. No entanto, se um vento as carregar, elas poderão ficar expostas à luz solar direta, e, como as árvores adultas, precisarão registrar a duração dos dias e aguardar o momento certo de se desenvolver.

Peter Wohlleben, in A vida secreta das árvores: O que elas sentem e como se comunicam

13/11/2021

Lar, doce lar

Além de todos os outros usos, os animais podem fazer as árvores de lar, mesmo que elas não gostem nem um pouco dessa ideia.
Pássaros, martas (espécie de mamífero carnívoro comum nas florestas do hemisfério Norte) e morcegos adoram o tronco grosso dos espécimes mais velhos. E ele precisa ser grosso, pois suas paredes espessas isolam muito bem do calor e do frio. Em geral, quem começa os trabalhos é o pica-pau-malhado-grande ou o pica-pau-preto, abrindo um buraco de centímetros de profundidade no tronco. Ao contrário do que se pensa (que o pássaro só constrói sua casa em árvores em decomposição), muitas vezes eles procuram espécimes saudáveis. Afinal, quem se mudaria para uma casa caindo aos pedaços se pudesse construir uma nova ao lado?
Os pica-paus, assim como nós, também querem que seu ninho seja duradouro e estável. Como precisam bater muitas vezes e com força na madeira saudável, ficariam exaustos se terminassem o trabalho num dia só. Por isso, após concluírem a primeira fase da construção, tiram férias de meses e para a segunda fase da obra esperam pela ajuda dos fungos, que aceitam o convite de bom grado, pois normalmente não conseguem penetrar a casca. Eles rapidamente ocupam a abertura e começam a corroer a madeira. Para a árvore, isso é um ataque duplo; para o pica-pau, ao contrário, é uma divisão de tarefas, porque depois de um tempo as fibras da árvore ficam tão frágeis que o trabalho flui com muito mais facilidade.
Como o pica-pau-preto é do tamanho de um corvo, apenas uma toca não basta para tudo o que precisa fazer. Em uma ele choca os ovos, em outra dorme e as restantes usa para mudar de ares. A cada ano as tocas são renovadas, o que se percebe pelas aparas de madeira caídas ao pé das árvores. O pica-pau precisa realizar essa renovação porque, depois que entram, os fungos não param mais de avançar. Penetram o tronco cada vez mais, transformando a madeira em uma massa decomposta na qual fica difícil chocar os ovos. Quando o pica-pau joga essa massa fora, a entrada cresce, mas em algum momento se torna grande e funda, e o chão fica distante da entrada. Com isso, para realizar seu primeiro voo, os filhotes precisam escalar o interior do tronco até a passagem.
É nesse momento que chegam os novos moradores, espécies que não conseguem construir suas tocas na árvore, como a trepadeira-azul, pássaro semelhante a um pica-pau de menor porte que também bica a madeira morta para se alimentar das larvas de besouro e constrói o ninho em tocas antigas de pica-pau-malhado-grande. Mas essa espécie enfrenta um problema: a entrada da toca é grande demais e permite que inimigos roubem seus ovos. Para evitar isso, a trepadeira-azul usa argila para diminuir a entrada.
Falando de predadores, graças às características da madeira as árvores oferecem a seus moradores um serviço especial, mesmo que involuntário. Suas fibras conduzem o som muito bem, motivo pelo qual instrumentos musicais como violinos ou violões são feitos desse material. Um experimento simples mostra como sua acústica é boa: ponha o ouvido na extremidade mais estreita de um tronco caído há muito tempo e peça que outra pessoa bata ou raspe uma pedra na superfície da madeira. Se o local estiver silencioso (como uma floresta), será possível ouvir o som com uma nitidez surpreendente.
Os pássaros que habitam as tocas usam esse princípio como uma espécie de dispositivo de alarme. A diferença é que, em vez de batidinhas inocentes, os ruídos são causados pelas garras de martas ou esquilos. Do alto da árvore é possível ouvi-los, e os pássaros conseguem fugir. Se o ninho estiver ocupado por aves mais jovens, que ainda não voem, o adulto pode ao menos tentar desviar a atenção dos predadores, o que nem sempre funciona. Se o predador alcança o ninho, pelo menos os pais conseguem fugir e podem voltar a pôr ovos para compensar a perda.
Para o morcego a acústica não tem importância, pois suas preocupações são outras. O mamífero também precisa de muitas tocas para criar seus filhotes. No caso do Myotis bechsteinii (também conhecido como morcego-de-bechstein), as fêmeas formam pequenos grupos para cuidar da prole juntas, mas passam poucos dias em cada toca, depois se mudam. O motivo são os parasitas. Se passassem a estação inteira na mesma toca, os parasitas poderiam se multiplicar e atormentar os morcegos.
As corujas não cabem nos buracos de pica-pau, por isso precisam esperar alguns anos para ocupá-los. Nesse período a árvore se decompõe e a abertura cresce. É comum algumas árvores terem um rastro de furos próximos uns dos outros, que acabam se juntando e acelerando o processo. São originalmente construídos por pica-paus, que fazem da árvore uma espécie de “prédio de apartamentos”.
A árvore tenta se defender como pode, porém a essa altura já é tarde demais para agir contra os fungos, pois as portas estão abertas para eles há anos. Mesmo assim ela pode estender consideravelmente sua expectativa de vida se ao menos controlar os ferimentos externos. Com isso, continua se decompondo por dentro, mas permanece estável, como um cano oco, e ainda pode viver mais 100 anos. Essas tentativas de restauração surgem em forma de saliências ao redor das tocas de pica-pau. Há casos raros em que, pouco a pouco, a árvore consegue fechar os buracos, mas em vão: a ave logo volta a bicar a madeira nova sem piedade.
O tronco em putrefação se transforma no lar de comunidades complexas. Formigas formam colônias que devoram a madeira mofada e constroem ninhos que parecem de papelão, depois embebem as paredes com o líquido açucarado excretado pelo pulgão, onde crescem os fungos que, com sua rede de filamentos, dão estabilidade ao formigueiro.
Inúmeras espécies de besouros são atraídas por esse material em putrefação no interior da toca. Como suas larvas demoram anos para se desenvolver, precisam de condições estáveis a longo prazo, ou seja, de árvores que demorarão décadas para morrer e permanecerão em pé por muito tempo. A presença da larva do besouro é garantia de que a toca continua atraente para fungos e outros insetos, que provocam uma chuva contínua de excrementos e serragem sobre o material putrefato.
O fundo da toca também recebe os excrementos de morcegos, corujas e arganazes. Com isso, a matéria em putrefação continua recebendo nutrientes, que servem de alimento, por exemplo, para o besouro Ischnodes sanguinicollis. Ou para as larvas do Osmoderma eremita, escaravelho preto que tem entre 1 e 4 centímetros de comprimento, não gosta de se locomover e prefere passar a vida na escuridão da toca na base de um tronco em decomposição. Como ele mal voa ou anda, muitas gerações de uma mesma família podem viver numa só árvore. Isso explica por que é tão importante manter essas árvores antigas. Se forem derrubadas, esses besouros não conseguirão caminhar até a árvore vizinha.
Mesmo que um dia a árvore desista de lutar e tombe em uma tempestade, ela terá sido valiosa para a comunidade. Ainda não há pesquisas extensas sobre o assunto, mas sabe-se também que quanto maior a biodiversidade na floresta, mais estável é seu ecossistema. Quanto mais espécies, menor a chance de uma delas prosperar à custa de outra, porque sempre haverá adversários a postos. E a mera presença dos cadáveres das árvores pode ajudar no equilíbrio hídrico das outras árvores a seu redor, como vimos no Capítulo 17.

Peter Wohlleben, in A vida secreta das árvores: O que elas sentem e como se comunicam

18/10/2021

Bomba-d’água

Como a água chega à floresta? Ou, fazendo uma pergunta ainda mais básica, como a água chega ao solo?
Por mais que a pergunta pareça simples, a princípio a resposta é complicada, pois uma das características básicas da terra é estar em uma altitude mais elevada que o mar. Pelo efeito da gravidade, a água sempre flui para o ponto mais baixo. Se essa fosse a única força atuando, os continentes ficariam completamente secos. No entanto, esse efeito é evitado pelas nuvens, que se formam sobre o mar, são empurradas para o continente pelo vento e fornecem um suprimento de água contínuo para regiões mais distantes da costa – mecanismo que só funciona até algumas centenas de quilômetros do mar. Quanto mais nos embrenhamos pela terra firme, mais seco é o clima, porque a precipitação ocorre antes de chegar ao interior.
A cerca de 600 quilômetros da costa o clima fica tão seco que surgem os primeiros desertos. Se dependêssemos apenas desse mecanismo, a vida só seria possível em uma faixa estreita na borda dos continentes, e o interior seria árido e seco. Isso em tese. Na prática, por sorte, existem as florestas, uma forma de vegetação com a maior superfície coberta por folhas: para cada quilômetro quadrado de floresta há 27 quilômetros quadrados de folhas e agulhas nas copas, onde parte da precipitação é retida e evapora. Além disso, no verão as árvores precisam de até 2.500 metros cúbicos de água por quilômetro quadrado de folhas, volume que elas liberam no ar por meio da respiração. Essa evaporação forma novas nuvens, que se deslocam para o interior do continente e voltam à terra na forma de chuva. Esse ciclo continua de modo que as áreas mais distantes da costa também sejam abastecidas.
Essa “bomba d’água” funciona tão bem que, mesmo a milhares de quilômetros da costa, o volume de precipitação em muitas regiões grandes da Terra, como a Bacia Amazônica, não é tão diferente do da área costeira. Mas para isso há uma condição: que o caminho a partir da costa até o ponto mais distante seja coberto de florestas. Caso contrário o sistema não funciona.
Os cientistas atribuem essa descoberta fundamental a Anastassia Makarieva, do Instituto de Física Nuclear de São Petersburgo, na Rússia. Ela e seu grupo realizaram pesquisas em diferentes florestas espalhadas pelo mundo e chegaram sempre às mesmas conclusões: na floresta tropical ou na taiga siberiana, eram as árvores que transportavam a umidade necessária à vida para o interior do continente.
Também descobriram que o processo inteiro é interrompido quando as florestas costeiras são desmatadas. É como se alguém removesse os tubos de sucção de água de uma bomba elétrica. No Brasil, as consequências já começaram a surgir: o nível de umidade da Floresta Amazônica está cada vez mais baixo. A Europa Central, a cerca de 600 quilômetros da costa, ainda faz parte da área de alcance da bomba de sucção, e felizmente ainda existem florestas na região, apesar de sua área já ter diminuído bastante.
As florestas de coníferas do hemisfério Norte têm outra forma de influenciar o clima e o equilíbrio hídrico: exalando terpenos, substâncias que funcionam originalmente como proteção contra doenças e parasitas. Quando essas moléculas entram na atmosfera, concentram a umidade. Com isso, formam-se nuvens duas vezes mais densas do que em superfícies sem florestas. A probabilidade de chuva aumenta, e com isso 5% a mais de luz é refletida, em vez de ser absorvida. O clima local esfria – e o clima frio e úmido é ideal para as coníferas. Devido a esse efeito, os ecossistemas desempenham um papel possivelmente importante na redução das mudanças climáticas.
As precipitações regulares são fundamentais para o ecossistema da Europa Central, pois água e floresta formam um par quase inseparável. Seja riachos, lagos ou a própria floresta, todos os ecossistemas devem oferecer a seus habitantes a condição mais constante possível. Um caso típico de animal que não gosta de grandes alterações é o caramujo de água doce. Dependendo da espécie, um indivíduo mede menos de 2 milímetros e adora água fria, que não deve ultrapassar 8ºC.
O motivo de muitos desses caramujos não suportarem água mais quente está no passado da espécie: seus ancestrais se adaptaram às águas formadas pelo degelo dos glaciares, tão comuns na Europa durante a última Era do Gelo. Os mananciais limpos que nascem nas florestas oferecem tais condições. A água emerge a uma temperatura fria e constante, pois sai dos lençóis freáticos subterrâneos, nas camadas mais profundas do solo, onde fica isolada das temperaturas externas. Como atualmente não há mais geleiras na Europa, esse é o hábitat substituto ideal para os caramujos.
No entanto, ainda assim a água precisa brotar o ano todo, e é nesse ponto que a floresta entra em cena, pois o solo age como um grande reservatório para a chuva. As árvores evitam que as gotas caiam com muita força no solo; em vez disso, elas pingam suavemente dos galhos. O solo arenoso absorve toda a água, impedindo a criação de charcos. Quando a terra fica saturada e a reserva para as árvores já está cheia, a água excedente passa a escoar devagar, ao longo de anos, para as camadas mais profundas, e às vezes são necessárias décadas até que a umidade volte a brotar.
Hoje em dia já não existem mais oscilações entre períodos de seca e fortes precipitações, e restou apenas um manancial de onde a água brota, embora nem sempre se possa dizer que ela de fato “brota”. Muitas vezes parece apenas uma região pantanosa, enlameada, que se estende no solo da floresta como uma mancha escura até o riacho mais próximo. No entanto, olhando mais de perto (e para isso é necessário ficar de joelhos), é possível reconhecer filetes mínimos que caracterizam um manancial. Mas, para descobrir se a água acumulada é apenas consequência de uma chuva forte ou de fato um lençol freático, é preciso usar um termômetro. Se ela estiver abaixo de 9ºC, deve ter brotado de um manancial.
É pouco provável que alguém vá passear na floresta com um termômetro. Mas existe uma alternativa: passear quando o solo estiver congelado e quebradiço, pois as poças e a água da chuva congelam, mas os mananciais continuam vazando água. Os caramujos de água doce também gostam dessa temperatura constante e ideal o ano todo. E não é apenas o solo que torna isso possível. O teto de folhas das árvores fornece sombra e bloqueia o excesso de radiação solar. No verão, um micro-hábitat como esse poderia se aquecer rapidamente e cozinhar os caracóis.
A floresta oferece um serviço semelhante e até mais importante para os riachos. Ao contrário do manancial (de onde a água brota a uma temperatura constantemente fria), a água dos riachos sofre oscilações de temperatura. Animais como a larva de salamandra e o girino, que vivem fora do riacho, se comportam como os caracóis: precisam do oxigênio na água, por isso ela deve permanecer fria, mas não a ponto de congelar, do contrário eles morrem.
As árvores frondosas solucionam esse problema. No inverno, quando o sol quase não esquenta, os galhos sem folhas deixam passar muita radiação solar, elevando a temperatura da água. O contato da água com o mato e as pedras também impede o congelamento rápido. Por outro lado, se no fim da primavera esquentar demais, as folhas das árvores nascem e “fecham a cortina”, evitando que o sol esquente demais a água corrente. Depois disso o céu só se abre sobre o riacho no outono, quando as temperaturas voltam a cair.
Já os riachos próximos a coníferas passam por mais dificuldades. Nessas regiões o inverno é rigoroso, a água congela, às vezes por completo, e, como a água demora para aquecer na primavera, o curso de água não pode servir de hábitat para muitos organismos. No entanto, é difícil que surjam coníferas naturalmente à beira de riachos, pois os abetos não gostam de ter as raízes saturadas de água e mantêm distância desse tipo de terreno. Em geral esse conflito entre a floresta de coníferas e os habitantes dos riachos é causado por plantações.
As árvores continuam sendo importantes para os riachos mesmo após a morte. Por exemplo, se uma faia morta cai na transversal sobre o leito de um riacho, ela permanecerá ali por décadas, agindo como um pequeno dique e criando áreas de água parada em que podem viver espécies que não gostam de correntes fortes, como as larvas de salamandra. Na água fria da floresta, elas espreitam pequenos caranguejos, dos quais se alimentam. Para tal a qualidade da água precisa ser perfeita, e até isso as árvores mortas propiciam, pois nos laguinhos represados depositam-se lama e partículas em suspensão, e por causa da lentidão da correnteza as bactérias têm mais tempo para decompor substâncias tóxicas antes de serem levadas. Por isso, não precisamos nos preocupar ao ver espuma na água após uma chuva forte. O que inicialmente parece um desastre ambiental, na verdade, pode ser o resultado da ação dos ácidos húmicos, que entram em contato com o ar em pequenas quedas-d’água e formam a espuma. Esses ácidos nascem da decomposição de folhas e madeira morta e são extremamente valiosos para o ecossistema.
Nos últimos anos, a floresta tem visto uma redução no número de troncos caídos para formar esses pequenos charcos, e cada vez mais ela recebe a ajuda de um animal que estava em extinção mas voltou à ativa: o castor. Talvez as árvores não fiquem felizes com essa “proteção”, pois na verdade esse roedor que pesa até 30 quilos é o lenhador dos animais. Em uma noite, pode derrubar árvores com tronco de diâmetro entre 8 e 10 centímetros (se for mais grosso, ele necessitará de mais turnos de trabalho).
O castor precisa derrubar os troncos por causa dos galhos – ele se alimenta deles e faz estoque na toca, que no decorrer do ano pode alcançar alguns metros de largura. Também usa os galhos para esconder a entrada da toca. A fim de aumentar a proteção, o castor cava os túneis de acesso embaixo d’água; isso impede o acesso de animais de rapina. Apenas a parte habitável fica acima do nível da água, em terra firme. Tendo em vista que o espelho d’água pode subir ou descer dependendo da época do ano, muitos castores constroem diques e represam riachos, formando grandes lagoas. A água escoa lentamente da floresta, e perto da região de represamento formam-se charcos. Os amieiros e salgueiros adoram o solo úmido, mas as faias odeiam, e morrem. No entanto, mesmo as espécies de árvores que se aproveitam do aumento da umidade não duram muito tempo na área de atuação do castor, pois são uma fonte viva de alimentos do roedor.
Embora o castor prejudique a floresta a seu redor, em geral ele exerce uma influência positiva no ecossistema, pois regula o equilíbrio hídrico da região. Além disso, cria hábitats para espécies que precisam de áreas extensas de água parada.
A chuva pode criar um clima maravilhoso durante uma caminhada, mas se torna um problema se não estivermos com roupas adequadas. Mas, caso você esteja numa floresta de árvores frondosas e não queira pegar chuva, é possível se precaver e ir embora antes. Para isso, é preciso que na floresta haja pássaros que mudem o canto quando a chuva se aproxima, como é o caso dos tentilhões (ave comum na Europa, na África e na Ásia), que cantam com ritmo quando o tempo está bom. Porém, quando a chuva se aproxima, o canto se transforma em um grasnado alto e nada musical.

Peter Wohlleben, in A vida secreta das árvores: O que elas sentem e como se comunicam

08/10/2021

Ar-condicionado de madeira

As árvores não gostam de oscilações extremas de temperatura e umidade, porém o clima não abre exceções nem para as plantas de maior porte. Mas será que é possível as árvores irem pelo caminho inverso e exercerem influência sobre a temperatura e a umidade locais?
Minha maior experiência nesse tema se deu em uma floresta próxima a Bamberg com solo arenoso, seco e pobre em nutrientes onde, segundo engenheiros florestais, só os pinheiros vingavam. No passado, para não criar uma monocultura, chegaram a plantar faias, que com sua folhagem supostamente reduziram a acidez das agulhas dos pinheiros para os animais do solo. Não se pensou no plantio de árvores frondosas para a produção de madeira – elas eram consideradas “árvores de serviço”.
Mas as faias não quiseram assumir funções secundárias e depois de algumas décadas mostraram de que eram capazes. Com sua queda anual de folhas, criaram uma camada de húmus capaz de armazenar bastante água. Além disso, a floresta ficou cada vez mais úmida, pois as folhas das árvores em crescimento freavam o vento entre os troncos de pinheiros. Com isso, menos água passou a evaporar, o que fez as faias prosperarem cada vez mais e ultrapassarem os pinheiros. O chão da floresta e o microclima haviam mudado tanto que as condições ficaram mais propícias para árvores frondosas do que para as modestas coníferas. Essa transformação é um belo exemplo do que as árvores são capazes de fazer para mudar o ambiente. Isso é fácil de entender no que diz respeito à redução do vento, mas como fica o fornecimento de água? Acontece que, com essas mudanças, no verão o vento quente não consegue secar o solo florestal, pois ele está sempre à sombra e protegido.
Estudantes da Universidade RWTH Aachen descobriram a diferença de temperatura entre uma mata ensolarada de coníferas e uma antiga mata natural de faias dentro da nossa floresta. Em um dia quente de agosto (verão no hemisfério Norte) no qual o termômetro marcava 37oC, o chão da floresta de frondosas estava cerca de 10 graus mais frio do que o da floresta de coníferas, a poucos quilômetros de distância. Esse resfriamento, que reduz a evaporação de água, é causado pelas sombras das frondosas, mas, sobretudo, pela biomassa da mata de faias.
Quanto mais madeira viva ou morta tem uma floresta, mais espessa é a camada de húmus do solo e mais água é armazenada. A evaporação leva ao resfriamento, que por sua vez reduz a evaporação. Podemos dizer que no verão uma floresta intacta pode suar e reproduzir o efeito do suor no homem. Para observar o suor das árvores, basta olhar para as que são plantadas perto de casas. Muitas vezes elas crescem demais e ficam maiores do que seus donos esperavam. Podem acabar se aproximando dos muros da casa, às vezes estendendo galhos sobre o telhado. Nesse ponto de aproximação surge algo parecido com manchas de suor na parede, que fica úmida a ponto de permitir que algas e musgo se instalem nas fachadas e telhas. Com isso a chuva não escorre tão bem, e os pedaços de musgo carregados pela água entopem as calhas. Com o passar dos anos, a massa da parede se esfarela com a umidade e precisa ser refeita antes do tempo normal.
Por outro lado, os motoristas que estacionam embaixo de árvores não precisam raspar a crosta de gelo no para-brisa quando o automóvel está a céu aberto. As árvores podem até causar prejuízo na parte exterior das construções, mas é fascinante a forma como abetos e outras espécies podem influenciar o microclima em seu entorno. Assim, vale perguntar: até que ponto uma floresta intacta poderia influenciar o clima local?
Quem sua muito precisa ingerir bastante líquido, e durante uma chuva forte é possível observar as árvores fazendo isso. Como a chuva pesada costuma vir acompanhada de uma ventania, não recomendo um passeio na floresta. Mas, se você estiver na rua durante um temporal, pode presenciar uma cena fascinante, na maioria das vezes proporcionada pelas faias. Em geral seus galhos são voltados para cima, algo comum entre as árvores frondosas. Mas durante a chuva elas se inclinam para baixo, pois sua copa serve para que as folhas captem não apenas a luz do sol, mas também água.
A chuva cai sobre centenas de milhares de folhas, e a umidade pinga sobre os galhos. A partir daí, a água corre para baixo ao longo dos galhos principais, onde pequenos filetes se juntam em uma corrente e escorrem pelo tronco, descendo tão rápido que produzem espuma ao chegar ao solo. Em uma tempestade, um espécime adulto de faia pode reter mais de mil litros de água, que graças à sua estrutura é conduzida até as raízes, onde fica armazenada no subsolo a seu redor e é usada nos períodos de seca.
As píceas e os abetos não têm essa capacidade. As píceas são mais astutas e conseguem se misturar às faias, e com isso têm acesso à água, mas os abetos geralmente vivem juntos, o que significa que passam sede. Sua copa funciona como um guarda-chuva, o que é bem prático para quem estiver passeando por perto durante uma precipitação. Se você for pego pela chuva e ficar debaixo de uma dessas espécies, quase não vai se molhar, o que também acaba valendo para as raízes da árvore. A água de uma precipitação de até 10 litros por metro quadrado (uma chuva forte) fica completamente retida nas agulhas e nos galhos e evapora assim que as nuvens somem. Com isso, a floresta perde essa valiosa umidade.
Os abetos simplesmente não aprenderam a se adaptar para enfrentar a falta d’água. Sua zona de conforto são as regiões frias, nas quais a água do solo quase não evapora por causa das baixas temperaturas. É o que se vê nos Alpes, pouco antes dos limites da floresta, onde as altas taxas de precipitação impedem a falta d’água. No entanto, lá ocorrem fortes nevascas, e por isso os galhos são perpendiculares ou levemente inclinados para baixo. Dessa forma, quando a neve se acumula, as árvores suportam mais peso se inclinando ainda mais para baixo e se apoiando umas nas outras. No entanto, essa estratégia impede que a água corra por elas, e, quando o abeto se localiza em zonas mais baixas e secas (onde não chove nem neva muito), essa vantagem usufruída no inverno não tem sentido.
Atualmente, grande parte das florestas de coníferas na Europa Central foi plantada, em locais que consideramos ideais. Nesses lugares, as árvores sofrem constantemente com a sede, pois sua estrutura de guarda-chuva retém apenas um terço da precipitação e a devolve à atmosfera. As florestas de frondosas retêm e devolvem menos chuva: 15% da precipitação – ou seja, elas obtêm 15% a mais de água que suas colegas coníferas (os cerca de 70% restantes das coníferas contra os 85% das frondosas).

Peter Wohlleben, in A vida secreta das árvores: O que elas sentem e como se comunicam

02/10/2021

Aspirador de CO2

Em uma imagem muito simples e disseminada dos ciclos da natureza, as árvores são sinônimo de equilíbrio. Realizam a fotossíntese e produzem hidrocarbonetos, que usam para o próprio crescimento, e ao longo da vida armazenam até 20 toneladas de CO2 no tronco, nos galhos e nas raízes. Quando morrem, é exatamente essa a quantidade de gases do efeito estufa liberada por fungos e bactérias que digerem e processam a madeira e em seguida exalam o gás. É nesse conceito que se baseia a afirmação de que a queima de madeira teria um efeito neutro na atmosfera, afinal, tanto faz se quem vai decompor a madeira são pequenos organismos – que vão transformá-la em gás – ou o fogo. Mas a floresta não funciona de forma tão simples. Na verdade, trata-se de um gigantesco aspirador de CO2, que filtra e armazena continuamente esse componente do ar.
De fato, parte do CO2 volta à atmosfera depois da morte da árvore, mas a maioria permanece no ecossistema. Aos poucos a madeira morta é devorada por diversas espécies, quebrada em pedaços cada vez menores e, com isso, centímetro a centímetro, processada a uma profundidade cada vez maior no solo. A chuva satura os restos orgânicos e cuida do restante. Quanto mais fundo no solo, mais baixa a temperatura, e quanto mais frio, mais lenta a vida se torna, até chegar ao ponto de quase estagnar por completo. Portanto o CO2 ganha a forma final de húmus e aos poucos continua se enriquecendo. Num futuro muito distante, talvez se transforme em linhito ou carvão mineral.
As reservas dessa matéria-prima fóssil têm hoje cerca de 300 milhões de anos e também se originaram das árvores. Eram um pouco diferentes das espécies atuais, mas de tamanho semelhante ao das que vemos hoje (lembravam samambaias ou cavalinhas de 30 metros de altura e 2 metros de diâmetro). A maioria das árvores crescia em pântanos e, quando morria, caía no charco, onde seu tronco quase não se decompunha. No decorrer dos milênios, os troncos formaram camadas grossas de turfa, que mais tarde foram cobertas de cascalho. Com a pressão que sofreram desse peso, aos poucos se transformaram em carvão. Por isso, nas grandes usinas elétricas tradicionais, queimamos florestas fósseis. Não seria ótimo e sensato se, em vez disso, déssemos às árvores a chance de seguir o caminho de suas ancestrais? Com isso, poderiam recapturar uma parte do CO2 e armazená-la no solo.
Atualmente quase não há formação de carvão, pois as florestas são constantemente desmatadas para a exploração madeireira. Com o caminho livre, os fortes raios do sol incidem sobre o solo e expulsam as espécies que ali vivem. Para fugir do calor, elas vão para o subsolo e consomem as últimas reservas de húmus também nessas camadas mais remotas. Como resultado, o gás eliminado sobe para a atmosfera.
Mesmo nessa situação adversa, basta um passeio pela floresta para vermos ao menos os estágios iniciais do processo de formação do carvão. Para isso, é preciso apenas cavar um pouco a terra até chegar a uma camada mais clara. Até aí, a parte mais superficial e escura é altamente enriquecida com carbono. Se deixássemos a floresta em paz, ela formaria carvão, gás ou petróleo. Esse processo continua acontecendo ininterruptamente nas grandes áreas de proteção, como as zonas centrais de parques nacionais. Aliás, a escassez de camadas de húmus não é resultado apenas da exploração florestal dos dias de hoje: já no passado os romanos e celtas desmatavam florestas e interrompiam os processos naturais.
Mas será que para as árvores tem algum sentido se livrar de seu alimento preferido continuamente? E não são só as árvores que fazem isso: todas as plantas, inclusive as algas, filtram e armazenam o CO2 da atmosfera. Quando a planta morre, o CO2 afunda com ela na lama e forma ligações de carbono. Graças a esses restos mortais (e aos restos dos animais, como o calcário excretado pelos corais, um dos maiores depósitos de CO2 do planeta), uma enorme quantidade de carbono foi retirado da atmosfera ao longo de centenas de milhões de anos. No período de surgimento dos maiores depósitos de carvão do planeta, a concentração de CO2 era nove vezes superior aos valores atuais. Depois, as florestas antigas (entre outros fatores) reduziram dois terços dessa concentração, que ainda assim era o triplo da atual.
Mas qual seria o limite das nossas florestas? Elas continuariam armazenando carbono indefinidamente até retirar todo o gás da atmosfera? Como vivemos numa sociedade consumista, essa pergunta já não tem mais importância, pois revertemos essa tendência enquanto esvaziamos todos os depósitos de carbono do planeta, queimando petróleo, gás e carvão na forma de carburantes e combustíveis e liberando-os no ar.
Deixando de lado a questão da mudança climática, seria vantajoso liberarmos para a atmosfera os gases de efeito estufa presos no subsolo? Eu não iria tão longe, mas o aumento da concentração de CO2 na atmosfera funcionou como um fertilizante. As árvores têm crescido mais rápido, como comprovam os últimos documentos de análise florestal. As planilhas de estimativa da produção de madeira precisaram ser ajustadas, pois a biomassa cresce hoje 33% mais depressa do que crescia há poucas décadas.
Como isso aconteceu? Para a árvore, crescer lentamente é fundamental para alcançar a velhice. Acontece que esse crescimento impulsionado pela liberação e pelo aproveitamento do nitrogênio vindo da agricultura não é nada saudável. Assim, continua valendo a antiga regra: menos (CO2) é mais (tempo de vida).
Na faculdade aprendi que as árvores jovens são mais saudáveis e crescem mais rápido que as velhas. Esse ensinamento ainda se aplica e deixa implícito que as florestas devem ser rejuvenescidas (ou seja, troncos antigos devem ser derrubados e substituídos por árvores jovens). Só dessa forma as florestas podem permanecer estáveis, produzir mais madeira e absorver mais CO2 do ar. Dependendo da espécie, a energia empregada no crescimento começa a diminuir entre os 60 e os 120 anos – momento de ligar as máquinas de colheita da madeira. Será que o ideal da juventude eterna, tão controverso e discutido na nossa sociedade, foi simplesmente transferido para a floresta? Ao menos é essa a impressão, pois, se comparada aos padrões humanos, uma árvore de 120 anos seria adolescente.
No entanto, um estudo de uma equipe internacional de pesquisadores sugere que as hipóteses científicas que citei parecem ser completamente enganosas. Para chegar a essa conclusão, os cientistas avaliaram cerca de 700 mil árvores de todos os continentes. O resultado foi surpreendente: quanto mais velha a árvore, mais rápido ela cresce. Assim, árvores com 1 metro de diâmetro de tronco produziam três vezes mais biomassa do que espécimes que tinham apenas metade dessa largura.31 Portanto, no caso das árvores, ser velha não significa ser fraca, curvada e frágil. Pelo contrário: as árvores idosas são eficientes e cheias de energia. São claramente mais produtivas que as jovens, além de importantes aliadas do homem na mudança climática. Assim, desde a publicação desse estudo, a técnica de rejuvenescimento das florestas para lhes dar vitalidade deve, no mínimo, ser considerada um erro. Quando muito, no que diz respeito à exploração da madeira, a partir de certa idade a árvore perde valor, pois os fungos começam a decompor o interior do tronco, mas isso não impede seu crescimento posterior. Se quisermos usar as florestas para combater a mudança climática, precisaremos deixá-las envelhecer, como exigem as grandes organizações de proteção à natureza.

Peter Wohlleben, in A vida secreta das árvores: O que elas sentem e como se comunicam

26/09/2021

No reino da escuridão

Para nós o subsolo é ainda mais desconhecido que o mar. Embora saibamos menos sobre o fundo do oceano do que sobre a superfície da Lua, nossas informações sobre a vida debaixo da terra são ainda mais escassas. Já descobrimos muitas espécies e fatos que originaram bastante material, mas não passa de uma fração mínima em relação à diversidade debaixo dos nossos pés.
Até metade da biomassa de uma floresta se encontra no subsolo, e a maioria dos seres vivos que habitam essa área não pode ser vista a olho nu. Provavelmente por isso não despertam nosso interesse na mesma medida em que, por exemplo, um lobo, um pica-pau ou uma salamandra. Ainda assim, possivelmente são muito mais importantes para as árvores. Uma floresta poderia simplesmente abrir mão dos habitantes de grande porte. Cervos, corças, javalis, animais de rapina e até grande parte dos pássaros não fariam tanta falta ao ecossistema. Mesmo se todos desaparecessem ao mesmo tempo, a floresta continuaria crescendo sem grandes percalços. No entanto, se os seres subterrâneos desaparecessem, a situação seria outra.
Em um punhado de terra de floresta existem mais seres vivos do que o total de seres humanos no planeta. Uma colher de chá contém mais de 1 quilômetro de filamentos de fungos. Todos esses seres trabalham e transformam o solo, tornando-o valioso para as árvores.
Antes de nos atermos a algumas dessas criaturas, vamos voltar ao início da formação do solo. Sem solo não há matas e florestas, pois as árvores precisam se enraizar em algum lugar. As rochas nuas não seriam suficientes, e o cascalho solto até poderia oferecer suporte para as raízes, mas não armazenaria água e nutrientes suficientes para ela. Os processos geológicos (como a Era do Gelo e suas temperaturas extremamente frias) quebraram as pedras, e as geleiras as moeram até virarem areia e pó, de forma que, ao fim, restou um substrato básico solto. Com o derretimento do gelo, a água levou esse material para depressões e vales, ou ele foi arrastado por tempestades e depositado em camadas de muitos metros de espessura.
Tempos depois, a vida surgiu na forma de bactérias, fungos e plantas, que se transformavam em húmus ao morrer. No decorrer dos milênios, as árvores colonizaram esse solo – que só agora pode ser chamado assim – e o tornaram cada vez mais rico. Suas raízes fixaram o solo e o protegeram de chuvas e tempestades, evitando a erosão, um dos maiores inimigos da floresta. Com isso, as camadas de húmus continuaram crescendo e formaram os precursores do linhito (carvão fóssil rico em detritos vegetais).
A erosão é um dos maiores inimigos naturais da floresta. O terreno perde solo sempre que há acontecimentos extremos, sobretudo tempestades. Se o solo florestal não consegue absorver toda a água de imediato, a que sobra escorre pela terra e arrasta partículas, o que é possível observar na época de chuvas: quando a água fica turva e marrom, está carregando um solo valioso.
Em um ano, esse processo pode carregar até 10 mil toneladas de terra por quilômetro quadrado de superfície. Por outro lado, os processos de decomposição formam apenas 100 toneladas a partir das pedras situadas no subterrâneo. Isso provoca uma enorme perda de volume do terreno, até chegar o dia em que sobra apenas cascalho. Atualmente é fácil encontrar áreas formadas por esses solos empobrecidos em muitos pontos das florestas, que, mesmo assim, há séculos vêm sendo usados para a agricultura. No entanto, se a floresta fosse mantida intacta, perderia apenas entre 0,4 e 5 quilômetros quadrados por ano. Com o passar do tempo, o subsolo ficaria cada vez mais rico, proporcionando condições cada vez melhores para o desenvolvimento das árvores.
É nesse ponto que entram os animais que habitam o subsolo, que são fundamentais, mas não são muito bonitos. Além disso, a maioria das espécies não é visível a olho nu, e quando vistos ao microscópio a situação só piora: ácaros, colêmbolos e poliquetas não são tão simpáticos quanto orangotangos ou jubartes. Na floresta, esses seres ínfimos e estranhos formam a base da cadeia alimentar e podem ser considerados o plâncton terrestre. Infelizmente, os pesquisadores não se interessam muito por milhares de espécies descobertas, que têm nomes científicos impronunciáveis em latim. Inúmeras outras esperam em vão que alguém as descubra. Mas talvez isto seja reconfortante: ainda há muitos segredos por descobrir nas florestas próximas da sua casa. Vamos examinar alguns dos poucos que já foram revelados.
Conhecemos mais de mil espécies de oribatídeos, família de ácaros que medem menos de 1 milímetro e parecem aranhas beges e marrons com pernas curtas, por isso se disfarçam bem no solo, seu hábitat natural. Basta ler a palavra ácaro para fazermos associações com os ácaros domésticos, que se alimentam de escamas de pele e outros dejetos e provocam alergias em algumas pessoas. E a verdade é que pelo menos parte desses ácaros produz um efeito semelhante nas árvores. As folhas e os pedaços de casca caídos formariam pilhas de alguns metros de altura se um exército de criaturas milimétricas e famintas que vivem na folhagem caída no solo não os devorasse com avidez.
Outras espécies de ácaros se especializaram em fungos. Movimentam-se por pequenos túneis no subsolo e se alimentam dos sumos produzidos pelos filamentos finos e brancos dos fungos. Em último caso, alimentam-se do açúcar das árvores, os quais também compartilham com os fungos parceiros. Seja madeira em decomposição ou caracóis mortos, não há nada que não sirva de alimento para pelo menos uma espécie de ácaro, criatura imprescindível para o ecossistema, pois vive na interseção entre o nascimento e a morte.
Há também o caso do gorgulho, um besouro que lembra um elefante minúsculo sem as orelhas. Os gorgulhos estão entre as famílias de insetos com mais espécies em todo o mundo – só na Europa, são cerca de 1.400. O gorgulho não usa as plantas para absorver nutrientes, mas para proteger a prole. Com a ajuda de seu longo chifre, abre pequenos buracos nas folhas e nos talos, nos quais bota seus ovos. Protegidas de predadores, as larvas podem abrir pequenos dutos nas plantas e crescer com segurança.
Algumas espécies de gorgulho, em sua maioria habitantes do solo, perderam a capacidade de voar, pois se acostumaram ao ritmo lento das árvores e à sua existência quase eterna. Ao longo de um ano inteiro se locomovem no máximo 10 metros, e não é necessário mais que isso. Quando a árvore morre e o ambiente se transforma a seu redor, o gorgulho só precisa se mudar para a árvore ao lado, onde continuará se alimentando da folhagem em deterioração. Quando encontramos esses insetos em uma floresta, já sabemos que ela é antiga e tem um histórico ininterrupto. Se a floresta foi desmatada na Idade Média e replantada depois, não encontramos essa espécie de besouro, pois o caminho até a floresta mais próxima seria longo demais para eles.
Todos os animais que mencionei têm algo em comum: são muito pequenos, por isso têm um raio de ação extremamente limitado. Em florestas grandes e ancestrais que no passado cobriam a Europa Central, isso não tinha importância, mas hoje grande parte das florestas foi alterada pelo homem. Abetos em vez de faias, douglásias no lugar de carvalhos, árvores jovens substituindo antigas: as novas florestas não agradam ao paladar dos animais, que morrem de fome.
No entanto, ainda existem florestas antigas de árvores frondosas, que servem de refúgio para eles e ainda contam com a diversidade de espécies do passado. Órgãos governamentais se esforçam para criar florestas de árvores frondosas, e não de coníferas. Mas, quando as poderosas faias voltarem a ocupar as terras hoje habitadas pelos abetos, como os ácaros e colêmbolos chegarão até elas? Certamente não a pé, pois ao longo da vida eles mal percorrem 1 metro de solo.
Existe a esperança de que um dia possamos nos maravilhar com verdadeiras florestas ancestrais, ao menos nos parques nacionais como a Floresta Bávara. Pesquisas realizadas por universitários na nossa reserva apontaram que animais microscópicos ligados a florestas de coníferas conseguem percorrer distâncias surpreendentemente grandes. A prova são as antigas matas de abetos onde foram encontradas espécies de colêmbolos que se especializaram nesta conífera.
No entanto, os engenheiros florestais que trabalharam anteriormente nessa reserva plantaram essas matas em Hümmel há cerca de 100 anos; antes disso, as faias antigas predominavam na Europa Central. Como esses colêmbolos especializados em coníferas chegaram a Hümmel? Desconfio que talvez tenham sido transportados por pássaros, que os carregaram em suas penas. Como os pássaros gostam de rolar nas folhagens para limpar a plumagem, certamente alguns colêmbolos se penduraram nas penas e foram depositados na outra floresta. Se isso funcionou com os animais especializados em abetos, possivelmente funcionará com espécies especializadas em árvores frondosas.
No futuro, quando houver mais florestas antigas de frondosas que se desenvolvam livremente, os pássaros poderão ser os encarregados do reaparecimento dos inquilinos correspondentes em seu hábitat original. No entanto, isso pode demorar muito, como comprovam os últimos estudos nas cidades de Kiel e Luneburgo.29 Há cerca de 100 anos foram plantadas matas de carvalhos na charneca de Luneburgo, onde antes havia uma plantação comercial. Segundo a hipótese dos cientistas, poucas décadas depois, a estrutura original de fungos e bactérias já deveria ter se restabelecido no solo. No entanto, ainda falta muito para isso acontecer – mesmo depois desse período relativamente longo, ainda existem grandes lacunas no inventário de espécies, e isso gera consequências graves para a floresta, pois os ciclos de crescimento e deterioração não funcionam da maneira correta.
Por outro lado, o solo ainda contém bastante nitrogênio dos antigos fertilizantes, por isso a floresta cresce mais rápido do que outras matas semelhantes em solo florestal antigo, mas é muito mais suscetível, por exemplo, à seca. Ninguém sabe quanto tempo demorará até que se forme um solo florestal autêntico, mas já se sabe que 100 anos não bastam.
Para que haja regeneração, são necessárias reservas com florestas originais, que não sofreram interferência humana. Nesse ambiente, a biodiversidade no solo pode perdurar e servir como célula germinal para a recuperação das regiões próximas, e não é preciso realizar nenhum grande sacrifício para que isso aconteça, como há anos vem provando a comunidade de Hümmel. Antigas matas de faia inteiras foram protegidas e demarcadas de forma diferente: parte é usada como floresta-cemitério, onde arrendamos as árvores como uma lápide viva para o enterro de urnas de cinzas. Tornar-se parte de uma floresta ancestral após a morte – não é uma ideia maravilhosa? Outra área da reserva é arrendada para empresas que contribuem para a preservação do meio ambiente. Dessa forma vale a pena abrir mão da exploração de madeira, e tanto o homem quanto a natureza saem ganhando.

Peter Wollhlleben, in A vida secreta das árvores: O que elas sentem e como se comunicam

11/09/2021

É árvore mesmo?

O que é exatamente uma árvore? Segundo o dicionário, é um vegetal lenhoso de caule principal ereto e indiviso (o tronco). Ou seja, o broto principal precisa ser dominante e crescer continuamente para cima, do contrário a planta é considerada um arbusto, com diversos troncos curtos ou finos (galhos) a partir de um talo de raiz. E quanto ao tamanho?
Sempre me incomodo quando leio relatórios sobre florestas mediterrâneas que parecem descrever uma região tomada por arbustos. Afinal, as árvores são seres majestosos que nos fazem parecer formigas. No entanto, em minhas viagens à Lapônia, encontrei espécimes bem diferentes dessa descrição que me fizeram parecer um gigante. São árvores-anãs da tundra, que muitos pisoteiam sem se dar conta. Às vezes, não medem mais de 20 centímetros após 100 anos. A ciência não as considera árvores, e o mesmo acontece com a Betula humilis, espécie de bétula que forma troncos de até 3 metros cuja média fica na altura dos olhos. No entanto, pelo mesmo parâmetro, espécimes pequenos de faias ou tramazeiras também não poderiam ser considerados árvores. Além disso, mamíferos grandes, como cervos e corças, as destroem com tanta frequência que, por décadas, elas crescem como arbustos, com muitos troncos e, no máximo, 50 centímetros de altura.
E o que acontece quando a árvore é serrada? Ela morre? Deixa de ser uma árvore? O que acontece com um toco de centenas de anos mantido vivo por suas camaradas, como o que encontrei na reserva? Ele é uma árvore? Se não é árvore, o que é? A situação complica ainda mais quando desse toco surge um novo tronco. Isso é comum em muitas florestas, pois séculos atrás as árvores frondosas foram cortadas por carvoeiros. Dos tocos cresceram novos troncos, que formam a base de muitas das florestas atuais.
É bastante comum que matas de carvalhos e de carpinos se originem desse tipo de desmatamento. Nesses casos, o ciclo de corte e regeneração foi repetido várias vezes ao longo de poucas décadas, de forma que as árvores não puderam crescer e envelhecer. Antigamente a população fazia isso porque era pobre e não podia se dar ao luxo de esperar muito por madeira nova. Basta passear por uma floresta europeia para ver os resquícios dessa prática: árvores com diversos troncos que mais parecem arbustos ou calosidades aos pés do tronco, em consequência do corte periódico da árvore.
Afinal, esses troncos são árvores jovens ou milenares? Cientistas pesquisaram abetos ancestrais no condado sueco de Dalarna. O mais velho tinha formado uma espécie de arbusto plano que cercava um único tronco curto. Toda a estrutura formava apenas uma árvore, que teve a madeira da raiz estudada com o método de datação por carbono-14 (C14), um carbono radioativo que se forma na atmosfera e se decompõe lentamente, mantendo sempre a mesma proporção para o carbono restante na atmosfera.
Quando o C14 se liga a biomassas inativas (matéria orgânica sobretudo de origem vegetal usada como combustível, como é o caso da madeira), a decomposição continua, mas nenhum novo carbono radioativo é absorvido. Assim, quanto menos carbono houver no tecido, mais velho ele será. O resultado da pesquisa dos abetos é simplesmente incrível: 9.550 anos. Os troncos em si eram mais jovens, mas os galhos novos dos últimos séculos não foram considerados árvores, mas, sim, parte do todo.24 Na minha opinião, isso é justo, pois certamente a raiz foi mais decisiva para esse resultado do que os brotos que crescem acima do solo. Afinal, ela é responsável pela sobrevivência do organismo, resistiu a fortes mudanças climáticas e fez brotarem mais e mais novos troncos. Nela se acumulam milênios de experiência que possibilitaram sua sobrevivência.
O abeto derrubou muitas teorias científicas. Primeiro porque ninguém sabia que ele vivia mais de 500 anos; segundo porque se acreditava que ele havia chegado ao norte da Suécia apenas 2 mil anos após o recuo dos glaciares. Considero essa árvore discreta um símbolo de como desconhecemos as florestas e as árvores e de quantas maravilhas elas ainda guardam.
Voltando à questão da raiz, ela é a parte mais importante da árvore, onde possivelmente se situa algo como o cérebro. Seria exagero pensar que árvores têm cérebro? Talvez, mas, sabendo que as árvores são capazes de aprender e, portanto, armazenar experiências, é preciso haver no organismo um local para guardar informações. Não se sabe que lugar é esse, mas as raízes seriam as mais adequadas, pois os antigos abetos na Suécia mostram que a parte subterrânea da árvore é a mais duradoura. Assim, onde mais ela poderia armazenar informações importantes a longo prazo?
Até pouco tempo atrás tínhamos certeza de que a raiz controlava toda a árvore por meio da atividade química. Essa informação não está totalmente equivocada, porém muitos processos também são regulados por substâncias semiquímicas (que resultam de duas etapas, a primeira com o uso de um agente químico e a segunda com ação mecânica). As raízes funcionam como uma via de mão dupla: absorvem substâncias e as enviam para a árvore, e ao mesmo tempo mandam os produtos da fotossíntese para os fungos parceiros e até sinais de alerta para as árvores vizinhas.
Para haver algo que reconheçamos como um cérebro, é necessário haver processos neurológicos, e, para isso, é preciso haver não só substâncias semiquímicas, mas também impulsos elétricos. Acontece que desde o século XIX detectamos a presença deles nas árvores. Em meio a esse cenário, uma briga ferrenha se arrasta há muitos anos e divide os cientistas. As plantas pensam?
František Baluška, do Instituto de Botânica Celular e Molecular da Universidade de Bonn, juntamente com seus colegas, acredita que as pontas das raízes têm estruturas semelhantes ao cérebro: além de conduzirem impulsos elétricos, contêm sistemas e moléculas muito parecidos com os encontrados em animais. Quando as raízes avançam no solo, podem absorver estímulos. Os pesquisadores mediram impulsos elétricos que causaram mudanças comportamentais após serem processados em uma “zona de transição”. Quando as raízes encontram substâncias tóxicas, rochas impenetráveis ou áreas úmidas demais, analisam a situação e repassam as mudanças necessárias à zona de crescimento da raiz, que muda de direção e se afasta dessas áreas críticas.
Atualmente a maioria dos botânicos se mostra cética sobre a existência de um local de processamento de inteligência, memória e emoções, mesmo levando em conta esse comportamento. Entre outras coisas, irritam-se com a simples transposição das descobertas de situações semelhantes em pesquisas com animais e temem que isso ameace os limites entre os reinos vegetal e animal. Mas o que haveria de tão ruim nisso? Afinal, a distinção entre planta e animal é arbitrária e se baseia na forma como o organismo se alimenta: enquanto uma realiza fotossíntese, o outro come seres vivos. No fim das contas, a única diferença além dessa diz respeito ao tempo de processamento de informações e sua conversão em ações. Mas isso basta para considerarmos os seres lentos menos valiosos do que os rápidos? Às vezes imagino que teríamos mais consideração pelas árvores e por outros vegetais se tivéssemos certeza de que em muitos aspectos eles são semelhantes aos animais.

Peter Wohllenben, in A vida secreta das árvores: O que elas sentem e como se comunicam

05/09/2021

Especialistas

As árvores podem crescer em ambientes extremos. Na verdade, podem não ter alternativa, pois, quando a semente cai, somente o vento e algum animal podem mudar sua localização. Quando germina na primavera, sua sorte está lançada. A partir de então, a muda está ligada para o resto da vida àquele pedaço de terra e precisará aceitá-lo.
Para a maioria das árvores jovens, a vida começa com uma série de desafios. Uma cerejeira, espécie ávida por luz, pode nascer num local escuro demais – por exemplo, embaixo de uma faia adulta. Ou a própria faia pode germinar num local desprotegido, claro demais, e ter sua folhagem sensível queimada pelo sol escaldante. O solo pantanoso causa a decomposição da raiz da maioria das espécies, enquanto a areia seca a mata de sede. Entre os piores lugares para brotar estão os terrenos sem solo nutritivo, como os rochedos ou mesmo as forquilhas de árvores grandes.
Às vezes elas têm sorte no começo da vida, mas isso não dura muito tempo. Acontece, por exemplo, quando a semente cai no toco de um tronco quebrado e germina, enterrando as raízes na madeira podre da árvore morta. No primeiro verão extraordinariamente seco, a pouca umidade que restava na madeira morta do toco evapora, e o broto seca.
Para muitas espécies europeias os critérios de localização ideal são iguais – um solo rico em nutrientes, arenoso e com muitos metros de profundidade. Também deve ser bem úmido, sobretudo no verão. Não pode esquentar demais no verão nem esfriar demais no inverno. A precipitação de neve deve ser apenas moderada, mas em quantidade que encharque o solo ao derreter. As tempestades de outono devem ser atenuadas por uma encosta de montanha, e a floresta não deve ter muitos fungos e insetos que ataquem a casca e a madeira.
Esse seria o paraíso das árvores. Mas, exceto por pequenas extensões de terra, essas condições ideais não existem. Por outro lado, isso é bom para a diversidade de espécies, pois atualmente na Europa Central a concorrência nesses paraísos seria vencida quase exclusivamente pela faia. Ela sabe aproveitar muito bem a grande quantidade de recursos e elimina qualquer rival crescendo por entre as copas e em seguida estendendo seus galhos superiores sobre os da perdedora. A espécie que quiser encontrar seu nicho ecológico junto da faia precisará se privar de algo. Uma alternativa é sair de perto dela, mas qualquer coisa diferente desse paraíso das árvores significa dificuldades, pois a maioria dos hábitats do planeta não oferece condições ideais.
As árvores têm dificuldade em prosperar em muitos terrenos, por isso quem se adapta a eles pode conquistar uma enorme zona de expansão. É o que faz o abeto, que consegue prosperar em qualquer lugar onde os verões sejam curtos, e os invernos, inclementes – por exemplo, em regiões bastante setentrionais, nas montanhas ou à margem de florestas. Como o período de desenvolvimento das plantas na Sibéria, no Canadá e na Escandinávia costuma durar poucas semanas, a faia não conseguiria aprontar seus brotos antes do fim da estação, e o inverno é tão rigoroso que eles congelariam.
Nas agulhas e na casca o abeto armazena óleos essenciais que evitam o congelamento. Com isso, não precisa abrir mão de sua decoração verde e a mantém durante o inverno. Assim que a temperatura aumenta na primavera, o abeto pode começar a realizar a fotossíntese. Ele aproveita todos os dias de sol e, mesmo com poucas semanas para produzir açúcar e madeira, consegue crescer alguns centímetros todo ano.
No entanto, a estratégia de manter as agulhas no inverno é extremamente arriscada, pois elas acumulam neve e ficam tão pesadas que a árvore pode quebrar. Para evitar isso, o abeto conta com duas estratégias. A primeira é formar um tronco absolutamente reto, que evita a perda de equilíbrio. A segunda é mudar a angulação dos galhos. No verão, eles ficam na horizontal. No inverno, quando a neve se deposita nos galhos, eles vão se inclinando para baixo, até ficarem uns sobre os outros, como telhas. Assim, apoiam-se mutuamente. Visto de cima, seu diâmetro diminui bastante, e a maior parte da neve cai em volta da árvore, não nela. Em áreas de maior altitude, onde neva muito, ou em regiões distantes do trópico, o abeto também forma uma copa estreita e alongada, com galhos pequenos, o que intensifica esse efeito.
Contudo, as agulhas do abeto trazem outra desvantagem: aumentam a superfície de contato da árvore com o vento. Nas tempestades de inverno os abetos podem cair com facilidade. E contra isso sua única proteção é o fato de crescerem extremamente devagar: a chance de estatística de queda cresce muito para espécimes com mais de 25 metros de altura, por isso é comum ver abetos centenários com menos de 10 metros.
Na Europa Central as florestas ancestrais eram dominadas quase exclusivamente pelas faias, que permitem pouca passagem de luz para o solo. O teixo – espécie paciente que sobrevive a privações – decidiu extrair o máximo dessas condições. Como sabe que as faias sugam toda a água que encontram, ele se especializou nos níveis inferiores da floresta, onde vive com os 3% de luz que as faias deixam passar por entre suas folhas.
Nessas condições, é comum que o teixo demore até um século inteiro para alcançar alguns metros de altura e, com isso, a maturidade sexual. Nesse período, muita coisa pode acontecer: suas folhas podem ser devoradas por herbívoros, o que pode levá-lo a retroceder décadas, ou, pior, uma faia pode morrer e, na queda do tronco, destruir o teixo.
Mas o teixo não só é resistente como precavido. Desde que nasce, investe mais energia na ampliação de suas raízes do que qualquer outra espécie. Ali armazena nutrientes e, se surge algum problema acima do solo, ele volta a crescer com vigor. Muitas vezes isso causa a formação de vários troncos, que podem se unir e dar à árvore uma aparência desmazelada. Além disso, o teixo vive mais do que a maioria das espécies concorrentes: pode passar dos mil anos. Por isso, é comum que ao longo dos séculos uma árvore próxima morra e ele fique ao sol. Mas mesmo assim o teixo não cresce mais de 20 metros.
O carpino, parente da bétula, tenta imitar o teixo, mas não consegue viver de maneira tão sóbria e precisa de um pouco mais de luz. Ele consegue viver sob as faias, mas nessa condição não se transforma em uma grande árvore. Raramente ultrapassa 20 metros, e isso só acontece quando se encontra sob árvores que permitem a passagem de luz, como o carvalho. Nesse caso, tem liberdade para se desenvolver, e, desde que não invada o terreno de carvalhos maiores, haverá lugar suficiente para ambas as espécies. No entanto, muitas vezes surge uma faia perto das duas espécies, e ela cresce e ultrapassa até o carvalho. Nesse caso o carpino leva vantagem porque, além de muita sombra, suporta seca e calor. Nas superfícies secas voltadas para o sul, o carpino tem chance de sair vitorioso dessa batalha.
A raiz da maioria das espécies não tolera um terreno pantanoso, de água parada e pobre em oxigênio, e é essa a situação de áreas de mananciais ou ao longo de riachos, que geralmente têm planícies de inundação submersas. Caso um fruto da faia se perca e germine numa área assim, é até possível que se transforme em uma árvore imponente. No entanto ela cairá na primeira tempestade de verão, pois suas raízes em decomposição não encontrarão nenhum ponto de apoio para o tronco. Abetos, pinheiros, carpinos e bétulas passam por dificuldades parecidas em locais de água parada, mesmo que suas raízes não estejam sempre submersas.
Já com o amieiro a situação é diferente. Crescem até 30 metros e não ficam tão grandes quanto as concorrentes, mas vivem bem no ingrato solo pantanoso. Seu segredo é um sistema de dutos de ventilação nas raízes. Eles transportam o oxigênio até as extremidades da raiz, como um mergulhador que respira por um tubo que se estende até a superfície. Além disso, na área inferior do tronco, o amieiro conta com uma cortiça, que possibilita a entrada de ar na árvore. Somente quando o nível de água tapa essas aberturas respiratórias por muito tempo é que o amieiro pode enfraquecer a ponto de suas raízes serem atacadas por fungos.

Peter Woohlleben, in A vida secreta das árvores: O que elas sentem e como se comunicam

02/09/2021

O carvalho: um bobo?

Chuva em uma floresta de carvalhos (1891), de Ivan Ivanovich Shishkin


Quando passeio pela nossa reserva, sempre vejo carvalhos doentes, às vezes sofrendo bastante. Um sinal claro são os “galhos ladrões” que nascem em volta do tronco e em geral ressecam rapidamente. Eles mostram que a árvore se encontra em uma longa batalha pela vida e entrou em pânico. Essa tentativa de crescer tão abaixo da copa não tem sentido, pois o carvalho é uma árvore que precisa de muita luz para realizar a fotossíntese. Nas partes mais baixas, os galhos não obtêm a energia de que precisam, então secam depressa.
Uma árvore saudável prefere estender a copa a investir na formação desses galhos – pelo menos é o que acontece em momentos tranquilos. Mas os carvalhos das florestas da Europa Central passam por dificuldades, pois essa é a terra natal da faia, espécie de árvore socialmente bem desenvolvida, porém apenas ao lidar com outras da mesma espécie. Árvores de espécies diferentes são fortemente reprimidas por ela até definharem.
O processo começa de forma lenta e inofensiva: um gaio enterra um fruto de faia aos pés de um poderoso carvalho. Como o fruto tem reservas de nutrientes, permanece inativo e germina na primavera seguinte. A partir daí cresce lenta e sorrateiramente durante muitas décadas. Embora sinta falta da árvore-mãe, pelo menos a jovem faia conta com a sombra do carvalho, que contribui para que a muda cresça devagar e com saúde.
Apesar de parecer harmônica acima da terra, no subterrâneo a relação entre as duas espécies diferentes é de batalha pela vida. As raízes da faia ocupam cada espaço não utilizado pelo carvalho, infiltra-se em seu tronco e puxa água e nutrientes. Aos poucos isso enfraquece a árvore adulta. Depois de 150 anos, a faia cresceu tanto que aos poucos entremeia a copa do carvalho. Em algumas décadas, ultrapassa-a, pois, ao contrário do carvalho, a faia é capaz de ampliar a copa e crescer praticamente a vida inteira.
A essa altura as folhas da faia já recebem luz direta do sol, e a árvore absorve uma quantidade grande de energia e pode se alargar. Forma uma copa exuberante, que capta 97% da luz do sol, algo comum para a espécie. O carvalho fica em segundo plano, abaixo da faia, onde suas folhas buscam em vão a luz. Sua produção de açúcar diminui de maneira drástica, as reservas são exauridas e, aos poucos, a árvore morre de fome. Ela percebe que nunca mais conseguirá formar brotos longos, que não é mais capaz de fazer frente à forte concorrência e não ultrapassará a faia.
Desesperado, talvez até em pânico, o carvalho toma uma atitude que vai contra todas as regras de etiqueta da floresta: forma galhos e folhas na parte inferior do tronco. Essas folhas são especialmente grandes e macias, sobrevivem com menos luz do que as da copa. Ainda assim, os 3% que chegam a elas são insuficientes. Os galhos secam, e a valiosa energia restante da árvore é gasta inutilmente. Nesse estágio de fome, o carvalho ainda resiste por algumas décadas, mas em dado momento desiste. Suas forças se esgotam, e às vezes besouros da família dos buprestídeos depositam seus ovos na casca da árvore e encurtam o processo. Quando as larvas nascem, devoram a pele da árvore indefesa e a matam.
Então, como uma árvore tão fraca se transformou num símbolo de força e longevidade? Na maioria das florestas o carvalho de fato é subjugado pela faia, mas quando não tem concorrência ele é muito bem-sucedido – por exemplo, em espaços abertos, mais especificamente em terras cultivadas. Nesse ambiente modificado pelo homem, longe da acolhedora atmosfera da floresta, a faia mal alcança os 200 anos, ao passo que o carvalho ultrapassa os 500 anos sem dificuldade, por exemplo, ao lado de casas de fazenda ou em campo aberto.
Uma ferida profunda no tronco ou uma fenda aberta por um raio não prejudicam um carvalho, pois sua madeira é permeada de substâncias inibidoras de fungos, os taninos, que inibem o processo de decomposição e repelem a maioria dos insetos. Além disso, esse meio de defesa tem um efeito colateral para o homem: melhora o gosto do vinho armazenado em barris. Mesmo carvalhos muito danificados, com galhos principais quebrados, conseguem reconstruir a copa e sobreviver por alguns séculos, algo impossível para a maioria das faias, sobretudo para os espécimes que vivem fora das florestas e longe de sua comunidade. Quando atingida por uma tempestade, a faia sobrevive no máximo mais algumas décadas.
Na nossa reserva o carvalho também prova como é extremamente resistente a condições inóspitas. Em uma encosta voltada para o sul, algumas árvores se agarraram às rochas nuas com suas raízes. Quando o calor do verão esquenta as rochas a ponto de ficar insuportável, a pouca água do local evapora. No inverno, a geada penetra fundo, pois ali não existe a proteção de uma camada grossa de terra forrada por uma cobertura alta de folhas em decomposição. As folhas são levadas ao menor vento, e só alguns poucos líquenes se acomodam nas rochas, mas não isolam a árvore de temperaturas extremas.
Como resultado, com um século de vida as pequenas árvores têm o diâmetro de um braço e no máximo 5 metros de altura. Enquanto os carvalhos que vivem na floresta já ultrapassaram 30 metros e formaram troncos robustos, as árvores da encosta sobrevivem modestamente e se satisfazem com o status de arbustos. Se vivessem privações tão extremas, outras espécies já teriam desistido há muito tempo.
Por outro lado, esses carvalhos não precisam se preocupar com a concorrência de outras espécies de árvores. Ou seja, viver nessa localização inóspita também traz suas vantagens. Além disso, o córtex grosso do carvalho é nitidamente bem mais robusto que a pele lisa e fina da faia e o defende de inimigos externos. Podemos dizer então que o carvalho é uma espécie poderosa.

Peter Wohlleben, in A vida secreta das árvores: O que elas sentem e como se comunicam

25/08/2021

Sinais da idade

Antes de começar a falar da idade, quero falar rapidamente da “pele”. Árvores e pele? Sim, vamos tratar do assunto da perspectiva humana. A pele é uma barreira que protege nosso interior do mundo exterior, retém líquidos, conserva os órgãos no corpo e expele e absorve gases e umidade. Além disso, bloqueia agentes patógenos que se disseminariam em nosso sistema circulatório. É sensível a toques, que podem ser agradáveis ou causar dor e, com isso, provocar uma reação defensiva. Ela não se mantém sempre firme, como na juventude, e com o passar do tempo essa complexa estrutura se torna cada vez mais flácida. Como resultado, surgem rugas e dobras, que “entregam” nossa idade aproximada.
Se olharmos com atenção, veremos que o necessário processo de renovação da pele não é nada prazeroso: por dia, cada pessoa perde cerca de 1,5 grama em escamas de pele. Em um ano, chega-se a mais de meio quilo. Mas a matemática pode ser ainda mais impressionante: por dia perdemos 10 bilhões de partículas de pele. Não parece um processo muito atraente, mas ele é necessário para manter nosso órgão superficial em boas condições. E na infância é essencial para o crescimento, do contrário nossa vestimenta natural acabaria rasgando.
No caso das árvores, o processo é semelhante; a diferença fundamental é apenas terminológica: a pele delas se chama casca, mas cumpre exatamente a mesma função que tem a pele humana: protege os órgãos internos do mundo exterior. Sem casca, a árvore ressecaria e poderia sofrer ataques de fungos, que na madeira úmida e saudável não têm chance alguma, mas podem destruir a madeira um pouco mais ressecada. Os insetos também precisam de níveis mais baixos de umidade, portanto não têm chance caso a casca esteja intacta. Percentualmente a árvore contém quase tanto líquido quanto o corpo humano, por isso não desperta o interesse de parasitas, que literalmente morreriam afogados. Ou seja: para a árvore, um buraco na casca é tão incômodo quanto um ferimento na nossa pele. Por isso ela se vale de mecanismos semelhantes aos nossos para curá-lo.
Por ano, um espécime repleto de seiva aumenta de 1,5 a 3 centímetros em diâmetro. Em tese isso bastaria para a casca se romper. Para evitar que isso aconteça, as árvores também renovam a pele perdendo uma enorme quantidade de escamas, que têm tamanho proporcional à estatura da árvore: medem até 20 centímetros. Se quiser vê-las, observe o chão ao pé de uma árvore depois de uma ventania e você encontrará esses restos (no caso dos pinheiros é fácil reconhecê-los por causa da casca avermelhada).
No entanto, nem toda árvore descasca da mesma forma. Algumas o fazem continuamente, enquanto outras perdem pouco material. Nesse caso, a casca dá sinais de como age cada espécime. Ela também serve para diferenciar as espécies. Em árvores jovens de qualquer espécie a cortiça é extremamente lisa. Quando elas envelhecem, as rugas começam a surgir de baixo para cima e se aprofundam com o passar do tempo. A velocidade do processo depende da espécie. Pinheiros, carvalhos, bétulas ou douglásias começam cedo, enquanto faias e abetos-brancos permanecem lisos por muito tempo. Tudo depende da velocidade de queda das escamas. No caso da faia, cuja casca acinzentada permanece lisa até os 200 anos, a taxa de renovação é muito alta. Por isso sua pele permanece fina, encaixa-se exatamente à idade (ou seja, seu diâmetro) e não precisa rachar para se expandir. O mesmo vale para o abeto-branco.
Por outro lado, pinheiros e outras coníferas demoram para renovar a pele, talvez porque essa couraça mais grossa aumente sua proteção. Demoram tanto a perder a casca que formam uma cortiça espessa, cujas camadas mais externas (as que foram criadas quando ela era jovem) permanecem por séculos. Com o tempo, o diâmetro do tronco aumenta e as camadas externas caem de fora para dentro, e só ao fim a árvore exibe seu verdadeiro diâmetro. Ou seja, quanto mais profundas as rugas, mais lenta é a espécie para realizar esse processo. Isso também vale para as faias, que, ao chegar à metade da vida, começam a mostrar fissuras na casca de baixo para cima. Como se quisesse exibir a ferida, a árvore começa a permitir a proliferação de musgo nas fendas, onde a água da chuva fica retida por mais tempo e proporciona a umidade necessária ao desenvolvimento do musgo. Dessa forma, para estimar a idade das matas de faias basta olhar para a cobertura verde nos troncos: quanto mais houver, mais antigas serão.
Árvores são indivíduos, e suas rugas variam. Muitos espécimes de uma mesma espécie apresentam essas marcas ainda jovens, enquanto outros demoram mais. Algumas faias da nossa reserva chegaram aos 100 anos com a cortiça já totalmente enrugada, o que só costuma acontecer aos 150. Nenhuma pesquisa determinou se isso só depende da genética ou se uma mudança drástica nas condições de vida exerce alguma influência. Mais uma vez as árvores exibem características humanas.
Os pinheiros da nossa floresta têm sulcos bastante profundos. Isso não pode ser resultante apenas da idade; eles têm idade estimada em 100 anos, ainda são jovens. Desde 1934, ano em que foi construída nossa cabana florestal, eles têm se desenvolvido bem. Parte das árvores do terreno foi derrubada para a construção da cabana, e desde então os pinheiros que restaram recebem mais luz. Mais luz, mais sol, mais raios ultravioleta (que envelhecem a pele humana e, ao que parece, a das árvores). Nesse sentido, é importante ressaltar que a cortiça do lado voltado para o sol é mais dura – portanto, menos flexível e mais propensa a descolamento.
No entanto, essas alterações também podem ser apenas “doenças de pele”. Assim como na puberdade a acne podem causar cicatrizes permanentes, um ataque de piolhos de casca de árvore pode marcar o tronco de forma definitiva. Em sua superfície surgem milhares de furinhos e pústulas que não desaparecem mais. Os espécimes mais adoentados também desenvolvem ferimentos purulentos, úmidos, dos quais escorre uma secreção preta e infestada de bactérias. Não é apenas no ser humanos que a pele é um espelho da alma (ou do bem-estar).
Árvores antigas podem realizar outra função especial para o ecossistema da floresta. No entanto, na Europa Central não existem mais florestas ancestrais – a idade da mata mais antiga está entre 200 e 300 anos. Até essas reservas se tornarem florestas ancestrais, precisaremos olhar para a costa ocidental do Canadá a fim de compreender o verdadeiro papel de árvores antigas. Lá, a Dra. Zoë Lindo, da Universidade McGill, em Montreal, pesquisou a Picea sitchensis, espécie de abeto, com idade mínima de 500 anos. Como resultado, encontrou grandes quantidades de musgo nos galhos e nas forquilhas dos espécimes idosos. O musgo havia sido colonizado por cianobactérias, que captavam nitrogênio do ar e o convertiam para que as árvores pudessem absorvê-lo. A chuva leva fertilizante natural pelo tronco até o solo e o põe à disposição das raízes. Dessa forma as árvores antigas fertilizam a floresta e, com isso, ajudam a prole a ter um começo de vida mais auspicioso. E, apesar do contato, a prole não acumula musgo, que cresce muito devagar e só se instala na árvore depois de décadas.
Além das rugas e do crescimento de musgo, outras alterações físicas mostram a idade das árvores. Por exemplo, na copa: dependendo da espécie, entre os 100 e os 300 anos os brotos começam a nascer mais curtos e em quantidade cada vez menor, e a copa acaba “careca”. Em árvores frondosas, a sobreposição desses brotos provoca o crescimento de galhos curvados como garras, que lembram mãos reumáticas.
No caso das coníferas, o tronco reto termina em brotos altos que desaparecem aos poucos. Enquanto o topo do abeto para de crescer, o do abeto-branco cresce em largura, como se um pássaro tivesse construído seu ninho ali. O pinheiro também cresce para o lado na parte superior do tronco, mas começa o processo mais cedo. Assim, quando idosas, a copa das coníferas é larga e sua ponta não é identificável.
De qualquer forma, em algum momento toda árvore para de crescer em altura. Suas raízes e seu sistema vascular não conseguem bombear água e nutrientes para cima, pois o esforço seria grande demais. Em vez disso, ela passa a engrossar cada vez mais (outro paralelo com seres humanos em idade avançada). No entanto, ela não é capaz de manter a altura por muito tempo, porque ao longo dos anos vai perdendo a força e, com isso, não consegue mais alimentar os galhos mais altos, que começam a morrer. Então, como os idosos humanos, as árvores vão perdendo altura. As tempestades levam os galhos mortos da copa e, depois dessa limpeza, por um período curto, a árvore volta a parecer nova. Esse processo se repete todo ano, diminuindo a copa de forma quase imperceptível. Quando todos os galhos superiores caem, restam os mais grossos. Eles também morrem, mas não caem com tanta facilidade. Nesse estágio, a árvore já não é mais capaz de esconder sua idade avançada nem sua decadência.
Nesse período, talvez até antes, sua casca volta a chamar atenção, pois seus ferimentos pequenos e úmidos se transformam em porta de entrada para fungos, que “comemoram” sua vitória produzindo frutos exuberantes em formato de semicírculo que se aderem ao tronco e crescem ano após ano. No interior da árvore, os fungos atravessam todas as barreiras e alcançam o núcleo da madeira. Ali, dependendo da espécie, devoram os compostos de açúcar depositados ou, pior, a celulose e a lignina. Com isso, decompõem o esqueleto da árvore, que, apesar disso, se defende bravamente durante muitas décadas. Nas laterais dos ferimentos cada vez maiores, ela forma madeira nova e cria protuberâncias, numa tentativa de proporcionar equilíbrio a esse ponto do tronco.
Por um tempo, isso ajuda a árvore em deterioração a aguentar as fortes tempestades de inverno. No entanto, chega o dia em que o tronco quebra e a árvore morre. “Finalmente”, parecem dizer as árvores jovens e esperançosas, que nos anos seguintes começarão a crescer ao lado do toco da árvore caída, que mesmo morta tem uma função na floresta, pois seu cadáver em putrefação ainda desempenhará um papel importante no ecossistema durante séculos.

Peter Wohlleben, in A vida secreta das árvores: O que elas sentem e como se comunicam