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14/09/2026

O tempo nos espelhos

O tempo nos espelhos
Imagem que se repete
Infinitamente
Sou eu mil vezes, ecos de luz
Não mil, incontáveis vezes
Como beijar
beijamos, beijamos, beijamos
Como os humanos se beijam
Nos filmes, nos cemitérios, nos becos
Encostados no muro, deitados em redes
Esteiras, beijamos de olho nas estrelas
Ou nos seios (tão lindos) adolescentes
Não falo mais para ti, moralista
A lírica é assim besta lua sobre as ondas
Urbano luar, urbana filmografia
As imagens que já vimos no cinema.

José Carlos Capinan, em Cancioneiro geral

15/01/2025

O tempo da delicadeza

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu”, diz o texto sagrado. O amor também tem os seus tempos, e ele muda como mudam as estações.
Nos países frios, a primavera é o tempo da pressa. Os bulbos, que por meses haviam hibernado sob o gelo, repentinamente despertam do seu sono, rompem da noite para o dia a camada de neve que os cobria e exibem, sem o menor pudor, os seus órgãos sexuais coloridos e perfumados, suas flores.
“Que lindas...”, dizemos. Ignoramos que aquela é uma beleza apressada. A primavera é curta. Outro inverno virá. É preciso espalhar o sêmen com urgência, para garantir a continuidade da vida. Por isso se exibem assim, em sua nudez colorida e perfumada, para atrair os parceiros do amor.
Se as plantas pensassem, teriam os mesmos pensamentos que têm os jovens quando neles desperta o sexo, em todo o seu furor de realizar-se. É só isto que importa: o coito. Passado o êxtase, vai-se o interesse, fuma-se um cigarro, vira-se para o outro lado...
O verão é o tempo em que a fúria reprodutiva já se esgotou. Tempo maduro, tempo do trabalho, dos filhos, das rotinas domésticas. Os mesmos olhos que se excitavam ao contemplar o corpo nu da pessoa amada já não se excitam. Já não sorriem nem têm palavras poéticas a dizer sobre ele. Há uma rotina sexual a ser cumprida. Vai-se o encantamento, os olhos e as mãos se cansam da mesmice e começam a procurar outros corpos, e vem a saudade da juventude que já passou. Cumprido o ato, vem o silêncio.
O outono é a estação de uma nova descoberta. Não há urgência. Nenhuma obrigação. A natureza está tranquila. Na adolescência qualquer mulher servia, porque o sexo era comandado pelas pressões vulcânicas dos hormônios e pelos genitais. Agora o que excita é o rosto da pessoa amada. O sexo deixa de ser movido pela bioquímica que circula no sangue e passa a ser movido pela beleza. O amor se torna uma experiência estética. E o que os amantes outonais mais desejam não são os fogos de artifício do orgasmo, mas aquela voz que diz: “como é bom que você exista...”.
O outono é o tempo da tranquilidade. É bom estar juntos, de mãos dadas, sem fazer nada. É bom acariciar o cabelo da amada... Esta é a grande queixa das mulheres – que para os homens a intimidade é sempre preparatória de uma transa. Talvez porque se sintam obrigados a provar que ainda são homens. O que as mulheres desejam não é prazer, é felicidade. O outono é o tempo do amor feliz.
O Chico escreveu sobre esse tempo e lhe deu o nome de “tempo da delicadeza”, na canção “Todo o sentimento”. “Preciso não dormir até se consumar o tempo da gente...” Sim, preciso não dormir, preciso não morrer, porque há muito amor ainda não realizado. Vem-lhe então a memória do amor que, por descuido, não se realizou, e vai em busca da sua recuperação: “Pretendo descobrir no último momento um tempo que refaz o que desfez...”.
Esse verso me comove de maneira especial. Pensando no meu desajeito, na minha desatenção, vou me lembrando das coisas que derrubei, das palavras que não ouvi, das flores que pisei. E dá uma vontade de fazer o tempo voltar para poder refazer o que foi desfeito, para recolher todo o sentimento e colocá-lo no corpo outra vez...
Aí ele vai mansamente dizendo as palavras que o amor deve saber dizer, palavras que só existem no “tempo da delicadeza”. “Prometo te querer até o amor cair doente, doente...” Por isso, por causa desse tempo misterioso, é preciso amar cuidadosamente com o olhar, com os ouvidos, com a mão que tateia para não ferir... Enquanto há tempo.

***

Lembrei-me do amor de Florentino Ariza por Fermina Daza, de O amor nos tempos do cólera. Tiveram de esperar 53 anos e passaram o resto da vida navegando no rio da delicadeza...

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

05/10/2024

O Tempo que Foge

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos. Não quero que me convidem para eventos de um fim-de-semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos. Não gosto de assembleias ordinárias em que as organizações procuram se proteger e perpetuar através de infindáveis detalhes organizacionais.

Ricardo Gondim, em Creio, mas tenho Dúvidas

16/08/2024

Uma espécie de corrida

Atravessar de um ano para o outro parece-nos uma espécie de corrida. Chega-se daquele jeito que bem sabemos, mas com uma careta de triunfo na face…

Mário Quintana, em Porta giratória

13/06/2024

De um diário de viagem

Às vezes, nas grandes cidades, descobrem-se esquinas de aldeias, com um botequim honesto e sem pressa, com fregueses fixos que não necessitam fazer o costumeiro pedido.
Entrei. Tudo conferia, tanto que fui à porta espiar o céu para ver se a lua não seria também uma lua de aldeia: não havia céu, não havia lua — como acontece em todas estas babilônias.
Essa espécie de choques cronológicos — que eu, num poema desconhecido, denominei esconderijos do tempo — são como se a roupa nova da cidade estivesse aqui e ali remendada com trapos velhos.
Reentrei. Pedi algo bem forte — uma dessas metralhas que mergulham a gente em plena intemporalidade. A coisa se chamava “O Bafo da Onça”... Deu certo.

Mário Quintana, em Caderno H

17/05/2024

O muro

E eis que, depois de longos, longos anos, encontrei o Amigo. E vi que ele, com esse mesmo material dos anos, havia construído a sua vida... No entanto, através daquele muro caiado e sólido, como descobrir agora a voz antiga, o sorriso bom do Emparedado?
Dele, só restava o nome como numa lápide.

Mário Quintana, in Caderno H

21/04/2024

Lavoisier explicou melhor

A perecibilidade das coisas e dos entes. Mas a perecibilidade das coisas existentes, sendo substituída por outras perecíveis que são substituídas pela perecibilidade de outras – a essa constância se pode, querendo, chamar de perecibilidade eterna: que é a eternidade ao alcance de nós. Mas Lavoisier explicou melhor.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

26/01/2024

Tempo – XV

Eu não amava que botassem data na minha existência.
A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data
maior era o quando. O quando mandava em nós. A
gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio.
Assim, por exemplo: tem hora que eu sou quando uma
árvore e podia apreciar melhor os passarinhos. Ou:
tem hora que eu sou quando uma pedra. E sendo uma pedra
eu posso conviver com os lagartos e os musgos. Assim:
tem hora eu sou quando um rio. E as garças me beijam
e me abençoam. Essa era uma teoria que a gente inventava
nas tardes. Hoje eu estou quando infante. Eu resolvi
voltar quando infante por um gosto de voltar. Como
quem aprecia de ir às origens de uma coisa ou de
um ser. Então agora eu estou quando infante. Agora
nossos irmãos, nosso pai, nossa mãe e todos moramos
no rancho de palha perto de uma aguada. O rancho não
tinha frente nem fundo. O mato chegava perto, quase
roçava nas palhas. A mãe cozinhava, lavava e costurava
para nós. O pai passava o seu dia passando arame
nos postes de cerca. A gente brincava no terreiro de
cangar sapo, capar gafanhoto e fazer morrinhos de
areia. Às vezes aparecia na beira do mato com a sua
língua fininha um lagarto. E ali ficava nos cubando.
Por barulho de nossa fala o lagarto sumia no mato,
folhava. A mãe jogava lenha nos quatis e nos bugios
que queriam roubar nossa comida. Nesse tempo a gente
era quando crianças. Quem é quando criança a natureza
nos mistura com as suas árvores, com as suas águas,
com o olho azul do céu. Por tudo isso que eu não
gostasse de botar data na existência. Por que o
tempo não anda pra trás. Ele só andasse pra trás
botando a palavra quando de suporte.

Manoel de Barros, in Memórias Inventadas – A segunda infância

31/12/2023

O Tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
Mário Quintana, in Esconderijos do Tempo

17/10/2023

Acerca do futuro

Não se distraia com questões futuras. Chegará lá — caso chegue — possuindo a mesma razão com a qual lida com o presente.

Marco Aurélio, in Meditações

13/12/2022

Pense

Pense sobre:
I. A substância universal, da qual você detém uma porção minúscula.
II. O tempo universal, a partir do qual um breve e indivisível intervalo lhe foi designado.
III. O cumprimento do destino, e o quão pequeno é o seu papel.

Marco Aurélio, in Meditações

04/12/2022

11/11/2022

Confusão

Essas duas tresloucadas, a Saudade e a Esperança, vivem ambas na casa do Presente, quando deviam estar, é lógico, uma na casa do Passado e a outra na do Futuro. Quanto ao Presente — ah! — esse nunca está em casa.

Mário Quintana, in Caderno H

05/10/2022

O futuro já começou

Bem, em última análise trata-se do seguinte: nós já estamos no ano 2000. De tanto medo que temos desse ano-marco (o Tempo mais uma vez revelado), nós precipitamos o acontecimento. Assim como não se aguenta alguma coisa prometida e se faz com que a coisa, mesmo dolorosa, venha antes, para passar logo o desespero. Não que o ano 2000 em que já estamos seja um ano de desespero. Ou é? O desespero da existência eterna do Tempo, assim como o Universo, sempre existiu. Estou agora sem medo pensando no ano 8000. Que virá assim como o ano 2000. O tempo não é a duração de uma vida. O tempo antes de nós é tão eterno quanto o tempo à nossa frente. No ano 8000, se houver gente, haverá uma religião nova – uma que admita que o imaterial se materialize, uma que não tenha medo da morte, pois este é um problema apenas pessoal.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

04/10/2022

Tempo perdido

Havia um tempo de cadeiras na calçada. Era um tempo em que havia mais estrelas. Tempo em que as crianças brincavam sob a claraboia da lua. E o cachorro da casa era um grande personagem. E também o relógio de parede! Ele não media o tempo simplesmente: ele meditava o tempo.

Mário Quintana, in Caderno H