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12/10/2019

Brasil é comunista e Moscou é Recife

D. Anselmo voltou ao assunto Ibiratinga com Nando.
— Já esteve comigo mais duas vezes, depois daquela — disse d. Anselmo. — Se você não andasse tão abatido e preocupado eu teria feito sua convocação ontem. Na visita intermediária o major estava desesperado com o comunismo mas não fez reivindicações de nós. Ontem tornou-se quase arrogante.
— O major foi camisa-verde, d. Anselmo, e nunca perdeu os pendores integralistas.
— Ah, é assim? — disse d. Anselmo.
— Tomei umas informações a respeito dele. Tem mesmo a mania do anticomunismo. Só fala nisso e nas promoções que diz ter perdido por causa disso. Acha que o próprio Exército tem uma parte minada. Eu se fosse o senhor tratava o major com cortesia mas sem dar muita confiança a ele.
D. Anselmo abriu os braços, num gesto de desalento.
— Mas o homem é muito bom católico! Vem à missa todos os dias e aos domingos vem de uniforme completo e condecorações.
D. Anselmo cofiou a barba, sem saber se devia ou não dizer o que afinal disse.
— Sabe que até o olho do major Ibiratinga é verde-oliva, padre Nando?
Nando sabia que devia perguntar o que é que desejava afinal o major Ibiratinga. E hoje d. Anselmo parecia disposto a contar.
— E então o major voltou a fazer a proposta ou o pedido que tanto indignou o senhor da primeira vez? — disse Nando.
— Sim! E eu de novo disse a ele: “O que pede, major, é impossível.”
Antes que Nando pudesse falar e como se alguém — o invisível major, sem dúvida — tivesse feito alguma objeção, d. Anselmo bradou, indicador espetando os ares.
— Eu teria de consultar Roma! — disse d. Anselmo. — E Roma jamais concordaria.
Nando esperou.
— Impossível! Já disse e torno a dizer.
— O quê? — disse Nando.
D. Anselmo falou baixo e rouco.
— O major quer invadir nossos confessionários, padre Nando. Imagine só. Quer tratar os confessores como recrutas seus.
— Não estou entendendo bem, d. Anselmo.
— Segundo o major, o Brasil está à beira da revolução comunista e Moscou é o Recife. Principalmente a nossa juventude é que está sendo conquistada pelo comunismo e com isto muito sofrem os pais, principalmente as mães, e as noivas desses moços.
— E o major pede que nos confessionários procuremos influenciar e...
— Ah, se fosse só isto! Isto a Igreja pode, talvez mesmo deva fazer, pois o comunismo é de fato contra Deus. O major quer conseguir endereços, planos de subversão, nomes para encaminhar a ele!
— O pulha — disse Nando. — Isto sim, d. Anselmo, é entrar de machadinha na base da Cruz. O senhor o repeliu, não?
— Energicamente. Mas sinto que ele vai insistir. Eu gostaria de ter você presente em nosso próximo encontro. Para me ajudar. Mas não, não. Deixe. Primeiro resolva os seus problemas.
— Se quiser... Estou às ordens, d. Anselmo.
Antonio Callado, in Quarup

06/10/2019

Outro caminho para Maria do Egito

Nando acordou de uma noite de pesadelos ansioso por fazer alguma coisa que o lavasse e purificasse das imagens terríveis de Francisca em seus braços, de Leslie banhado de sangue, de Maria do Egito varada pela peixeira de Nequinho, e de uma estranha Virgem Maria presidindo este mundo violento e impuro. Leslie tinha sido grosseiro com ele ao voltar e encontrá-lo conversando com Winifred e Francisca. Ninguém tinha tido ideia de ir buscá-lo no Engenho para lhe dar a boa notícia de que acabara a crise de Maria do Egito; ele, Leslie, que tanto se esforçara e se angustiara, tinha ficado sem a notícia e sem transporte. Quanto ao padrezinho, que não movera uma palha na história toda, refestelava-se entre as moças e esquecia o amigo. Nando não acordou pensando com raiva nas palavras de Leslie. Ao contrário. Pensou em si mesmo. Precisava fazer imediatamente alguma coisa certa e útil. E principalmente limpa, limpa. Abriu de par em par a janela ao nascente e viu de chofre a obra boa e humilde a fazer: reconduziria Maria do Egito a sua casa e pediria em seguida a d. Anselmo que o deixasse ficar, como padre, no Senhora do O até que se restabelecesse lá a justiça de Deus. Devia uma obra assim aos seus amigos, que faziam o bem com tanta naturalidade. E ia já, depressa, antes que de novo se emaranhasse em dúvidas. Apanharia Levindo para vir com ele ao Engenho, Levindo tão puro e solar, guardião de Francisca.

Levindo se espantou com a visita matutina de Nando e sorriu seu bom sorriso de sempre. Mas depois de ouvir o plano de Nando balançou negativamente a cabeça:
— Bichados, Nando, todos bichados esses engenhos. Nem com um milhão de boas ações a gente dá jeito neles. Jesus Cristo teve que acabar com a Roma dos césares, não teve, para implantar a Roma dele?
Nando sorriu, sentindo-se cheio de um novo furor evangélico.
— Hoje — disse Nando — quem se recusa a falar em Roma sou eu. Vamos conversar com Nequinho.
Quando chegaram ao Senhora do O só encontraram na choupana a mãe de Maria do Egito. Enquanto Levindo ia buscar Nequinho no eito, Nando conversou com a mulher magra e de feições baças, sem expressão. Nando lhe disse que Maria do Egito estava “boa”, que o filho não nasceria mais, que ela agora podia voltar para casa. A mulher dizia que sim com a cabeça enquanto fazia uns embrulhos de jornal.
— Não é bom que Maria do Egito vai voltar para casa? — disse Nando.
— Nequinho é que vai dizer.
— Mas Nequinho agora não tem mais razão de abandonar a filha. Você quer que ela volte, não quer?
— Este embrulho é o enxovalzinho de Maria — disse a velha.
— Ela ia se casar?
— Bem. Nada ainda marcado na folhinha. Mas moça na idade precisa não estar desprevenida.
— Sim, sim. Ela casa. Mas você não me respondeu. Você quer que Maria volte, não quer?
— Deus Nosso Senhor sabe como eu quero, seu padre. Mas querer de mulher é diferente de querer de homem.
— Nequinho também vai querer a filha em casa.
— Nequinho vai arranjar a casa.
Nando só entendeu depois o que é que a mulher queria dizer porque vinha entrando Nequinho, ao lado de um Levindo cabisbaixo. A mulher falou:
— Seu padre estava dizendo, Nequinho, que a do Egito pode voltar para casa.
— É — disse Nequinho —, o moço seu Levindo me falava também. Maria do Egito não tem mais semente ruim no ventre. Só ficou sem seu sangue de virgem.
— Você agora recebe ela, não recebe? — disse Nando.
— Recebe — disse Levindo. — Maria do Egito está “perdoada”. Só que não pode voltar para a casa dela aqui.
— Por quê? — disse Nando.
— Porque o patrão mandou a gente embora, não é mesmo? — disse Nequinho. — A gente tem que sair que ele tem precisão da casa.
Nando sentiu uma obscura vergonha, não sabia bem de que, ou de quem.
— Eu vou falar com seu patrão — disse. — É o capataz que ele tem que mandar embora.
— Diz que ele já voltou — disse Nequinho. — Ainda não apareceu na lavoura mas já voltou.
— O patrão indenizou Nequinho — disse Levindo. — Deu uns cobres a ele. Isso quer dizer que se Nequinho não for embora por bem, some aí numa tocaia. Como bom cristão, Nequinho já se resignou. Ele vai embora e o capataz volta.
Nando ia falando num impulso:
— Nequinho...
Nando ia dizer a Nequinho que gritasse, que fizesse frente ao capataz, que iriam os dois ao patrão. Mas viu com amargura Nequinho que o olhava como quem teme perder um aliado. Nequinho disse:
— Seu padre falou que a gente tem que perdoar quem faz mal à gente, não falou? Assim falou mesmo quando a semente do capataz grelava no ventrezinho de Maria do Egito, não foi assim?
Nando assentiu com a cabeça.
— Pode trazer a menina — disse Nequinho sem olhar ninguém.
— Vamos à casa de Leslie — disse Nando —, vamos ver Maria do Egito.
Winifred recebeu os dois, olhando-os com o mesmo espanto que sentira Levindo ao ver Nando chegando de manhã para buscá-lo.
— Senhor, que visita honrosa — sorriu Winifred.
— A visita é mais para Maria do Egito — disse Levindo. — Nando está vendo se a leva de volta para o pai e a mãe. O diabo é que Nequinho já foi despedido, indenizado, cancelado do Senhora do O.
— Eu acho — disse Winifred — que Maria do Egito não volta para o pai não.
— Volta — disse Nando —, claro que volta.
Maria do Egito estava ainda no quarto, mas sentada numa cadeira de braços. Sentada com leveza, as mãos sem sangue apenas tocando o forro, quase pedindo desculpas. Quando Nando e Levindo se aproximaram, dando bom dia, Maria do Egito se limitou a um rápido aceno de cabeça, mais de bicho ensinado que de gente. E assim também, com frases rápidas, que não pareciam precedidas de qualquer reflexão, respondeu às perguntas.
— Teu pai Nequinho agora recebe você de volta, minha filha — disse Nando. — Já falamos com ele.
— Não paga a pena não, seu padre — disse Maria do Egito.
— O que é que não paga a pena? — disse Nando. — Voltar para a casa de seu pai?
— Ele não está mais com raiva de você não — disse Winifred.
— E vocês vão morar num outro engenho — disse Levindo. — Você fica com Nequinho e sua mãe. O resto é gente nova.
— Paga a pena não — disse Maria do Egito.
— Mas você... A gente sabe — disse Nando — que seu pai foi injusto. Teve tanto ódio do homem que desonrou você que era quase como se você tivesse culpa também. Mas agora, Maria do Egito, você não vai se vingar do seu pai, não é assim?
Maria do Egito fitou Nando com uma cara meio espantada.
— Você não teve culpa nenhuma, minha filha, nós sabemos disto. E agora seu pai sabe também. Ele só queria o seu bem.
Maria do Egito levantou mais ainda as mãos dos braços da cadeira num gesto indefinível.
— Bem capaz, seu padre.
— E então? Você volta para sua casa, não é?
— Se seu padre quiser muito. Se vosmicês quiserem. Mas não vai ser para moradia efetiva.
— Não entendo, minha filha — disse Nando. — Sua casa não é a de seu pai e sua mãe?
— Depois eu visito eles, se eles quiserem me ver.
Levindo segurou o braço de Nando com força.
— Não amole mais a menina, Nando. Você é que precisa entender. Moça que mora com o pai é moça-moça, moça-donzela. Só deixa de ser donzela quando casa e Maria do Egito é solteira. E não vai casar, vai?
Nando não respondeu e Levindo continuou:
— Não vai, não é? Pois então vai fazer carreira nos prostíbulos. Entendeu? Isto é uma convenção pacífica, matéria aceita.
As mãos de Maria do Egito pousavam de novo, tranquilas e leves, nos braços da cadeira. Não havia mais nada a dizer. Winifred, Nando e Levindo saíram do quarto.
— Maria do Egito tem me pedido para ir à casa dela, buscar uns lençóis e umas pecinhas de enxoval que estava colecionando aos poucos — disse Winifred. — Ela conhece uma moça lá do Engenho que entrou para uma pensão de mulheres onde a madama cobra menos pelo quarto quando a mulher leva sua roupa de cama. Maria do Egito parece que tem três lençóis e resolveu tomar o mesmo caminho da outra.
Antonio Callado, in Quarup

20/09/2019

Uma espécie de imagem da Doçura anunciando a Tragédia

No mosteiro, aguardando visitantes, Nando repetia “a terra já deu flor quando chegar aqui” enquanto via em croquis de Francisca as mãos de Francisca alastradas de flores. E como num mistério medieval em que um pensamento perigoso se materializa de pronto em carne e osso, Francisca surgiu na sua frente, e uma Francisca de cabelo soprado de vento, alegórica, uma espécie de imagem da Doçura anunciando a Tragédia.
— Estou aí com a camioneta de Leslie — disse Francisca. — Ele se postou no Engenho de Nossa Senhora do O, vigiando o pai. Não arranjei outro médico.
— Mas o que é? De que se trata? — disse Nando.
Francisca sorriu seu sorriso de sempre, apesar dos lábios dos pálidos.
— Desculpe — disse Francisca. — Estou falando tudo num atropelo. Aquela menina, Maria do Egito. A Winifred arranjou médico para fazer o aborto, sabe? Mas Maria do Egito começou a passar mal e o tal médico desapareceu. Será que podíamos ir lá?
— Aonde? — disse Nando.
— À casa dos ingleses — disse Francisca. — O aborto foi feito lá. Era o jeito.
No século quatorze o grande poeta não corria tal risco. Perto. As mãos feitas sabe Deus para que gestos de ternura conduzindo o veículo e orientando o padre temeroso da crueza da vida e mais temeroso ainda das suavidades da vida. Estagnado. Adiara, adiara e por fim nada dissera a d. Anselmo sobre a situação no Engenho Nossa Senhora do O onde não havia um único padre e onde os pais queriam matar as filhas sob o comando de estranhos deuses que imitavam a voz do Deus cristão.
— Reze, padre Nando — disse Francisca. — Se a hemorragia não tiver cessado o recurso é chamar uma ambulância do Pronto-Socorro.
— Mas um caso de aborto...
— Exatamente. É crime. Winifred sabia disto perfeitamente mas não se conformou em abandonar a menina a uma violência do pai.
Senhor, por que dais tanta coragem a uma mulher e me tendes aqui trêmulo? Será o cúmulo, se além do escândalo do túnel me pegarem a mim, padre-guia do mosteiro, envolvido de alguma forma numa história dessas.
— Quem foi o médico? — disse Nando.
— Um tal dr. Marinho, que faz esses serviços mas desaparece, como estamos vendo, se surgem complicações.
— Um aborto — disse Nando fazendo o sinal da cruz. — Winifred devia ter pensado duas vezes. Um crime contra a vida.
Apesar de estar dirigindo, Francisca voltou bruscamente o rosto para Nando.
— Ela devia deixar Maria do Egito ser assassinada pelo pai por um crime que não cometeu? De mais a mais, Leslie e Winifred assumiram plena responsabilidade.
Insensivelmente Nando falou a Francisca como padre, o que há muito tinha deixado de fazer.
— Não falo na responsabilidade criminal, civil, minha filha. Falo na responsabilidade perante Deus. Não se escolhe entre vida e vida. Toda vida é sagrada.
Francisca o olhou de novo, agora estranhando o tom.
— Desculpe, padre Nando, eu compreendo como a questão é muito mais complicada do seu ponto de vista de padre católico.
Nando via a ambulância chegando, Maria do Egito agonizante, ele a dar-lhe a extrema-unção, Nequinho na polícia, o caso nos jornais. Tudo isso depois do Suplemento do Túnel. Pela primeira vez se aproximava da casa de Leslie e Winifred com horror. D. Anselmo tinha sua parte de culpa. Por que empurrá-lo para relações leigas como Leslie e Winifred? Ainda mais esses nórdicos para quem tudo era ação, fazer, fazer, fazer? Por si mesmo ele jamais teria se afastado tanto do refúgio do mosteiro. Só na hora de se afastar definitivamente. O incidente tinha pelo menos o valor purgativo de diminuí-lo aos olhos de Francisca. Mais ai de Nando, isto na realidade era mais uma dor, a dor maior, acrescentada às outras. Numa curva, quando seu joelho por acaso tocara a perna dela, Francisca a retirara vivamente. Como se ele tivesse buscado o contato, de propósito. Como se o homem pusilânime que ela via não pudesse deixar de ser também tortuosamente frascário.
Foi no entanto com extrema doçura que Francisca disse, ao parar o carro diante da casa dos ingleses:
— Pense, padre Nando, em como agiria nossa Teresa diante de um caso assim.
Quando entraram, viram logo na sala, cabeça ruiva iluminada pelo abajur, Winifred que lia um livro! Sorriu para os dois. Pela porta aberta do quarto ao fundo, Maria do Egito. Morta? pensou Nando. E Winifred transtornada? Bêbada talvez?
— Como vai ela? — disse Francisca.
— Muito melhor! — disse Winifred. — Pouco depois de você sair a hemorragia cessou. Uf, que alívio! Acho que agora está tudo resolvido. Desculpe, meu bem — disse a Francisca —, o susto que lhe dei. Você foi providencial com a ideia de ir correndo buscar o Nando. Achei que tudo ia se resolver, com você aqui, Nando.
Winifred e Francisca foram até a cama. Da porta Nando olhou o rostinho calmo de Maria do Egito, viu a mão esguia de Francisca que sentia sua temperatura na testa.
— Ah, que bom, está fresquinha — disse Francisca.
— E dormindo profundamente — disse Winifred.
Nando deixou-se cair numa cadeira.
— Você também deve ter tomado um grande susto, não, Nando? — Não — disse Francisca —, uma questãozinha de consciência, mas veio sem hesitação, disposto a tudo.
Francisca não estava irônica, apenas sorridente, natural. Mas Nando tinha certeza de que microscópicos pontinhos de luz estariam dançando nos seus olhos.
— Ah, coitado — disse Winifred. — Logo um aborto. Vamos beber alguma coisa.
Quando Winifred saiu, Francisca sorriu franca, largamente. De alívio, sem dúvida, pensou Nando. Não de verdadeira reconciliação com o homem que vira adornando sua pusilanimidade com motivos teológicos.
— Você falou em Teresa na hora justa — disse Nando. — Doeu mas você fez bem. Ela estaria com Winifred. E com... com Francisca.
Francisca continuou sorrindo.
— Sabe que eu adoro meu nome dito por você? Fica... bento!
Agora era troça, pensou Nando, zombaria.
Antonio Callado, in Quarup

12/09/2019

Apanhar a terra com as mãos

D. Anselmo falava aos padres no mosteiro.
— Pelos cálculos feitos, de direção e possível extensão da galeria subterrânea, temos aí labor de uns poucos anos, se formos diligentes e suarmos dez horas por dia naquela pedra, ou de muitos e muitíssimos anos, se for descansada e ronceira nossa atividade. Quero propor aqui à congregação que o chefe dos trabalhos, o homem que há de estar de picareta na mão durante os próximos anos, seja nosso irmão padre Hosana.
A indicação do nome de Hosana foi longamente aplaudida pela congregação, que ria à socapa, enquanto d. Anselmo, olhos cintilantes, cofiava copiosamente a barba. Nando também riu, quando viu Hosana, que se acercava dele, depois da reunião. Hosana estava ainda trêmulo de raiva.
— Eu hei de dizer a todos os visitantes do mosteiro que d. Anselmo descobriu uma tênia no edifício, um pênis subterrâneo, um oleoduto de esperma de frade.
— Você não dirá nada disto, Hosana. O melhor é reconhecer que o padre superior descobriu, ou desconfiou, que o informante da imprensa era você, e inventou um castigo exemplar.
— Bem quando eu sentia as doçuras da vingança — disse Hosana. — Por que será que eu sempre perco, Nandinho?
Nando sentiu uma súbita onda de piedade.
— Hosana, pensa um pouco em Deus, a quem você devia servir.
— Pode deixar que eu penso — disse Hosana. — Caim também pensava. Inclusive tinha Deus na frente dele, como eu tenho o barbaças. Só não tinha um Smith & Wesson, calibre 32.

— Você acha que eu sou muito tirano? Quer dizer, em relação a você — disse Levindo.
— Você, meu bem? — disse Francisca. — O que é isso? Quem é que te acusou disto?
Levindo deu um discreto puxão na ponta dos cabelos de Winifred, como a chamar a atenção dela para o que dizia Francisca e ao mesmo tempo pedir-lhe que não se metesse. Estavam na camioneta, a caminho do Engenho do Meio. Leslie ao volante, Nando na ponta, Winifred entre os dois. No banco de trás Francisca aninhada nos braços de Levindo.
— Eu também não acho que sou tirano não — disse Levindo —, muito ao contrário. Eu me considero o próprio arauto de todas as liberdades possíveis e imagináveis.
Houve um silêncio e Nando olhou com íntimo fervor e — não, inveja não, graças a Deus, e nem sequer desejo de estar no lugar de Levindo pois tinha a vida dedicada a amores mais altos — com uma espécie de obscura saudade as caras quase confundidas de Francisca e Levindo. Dos cajueiros que se espalhavam aos dois lados da estrada vinha um cheiro bom. O carro ia em marcha tranquila. Não obtendo resposta Francisca insistiu:
— Quem foi que disse?
— Não, ninguém. Mas me lembrei disto porque quero te pedir uma coisa. Caso eu não possa ir, é claro.
Levindo tomou as mãos de Francisca nas suas, estudou os dedos longos, depois revirou as palmas.
— Vai ler minha sorte? — disse Francisca.
Levindo pôs o rosto entre as palmas e Francisca sorrindo puxou o rosto dele para que se beijassem.
— Se você não puder ir aonde, seu doidinho?
— Ao Centro Geográfico. Você vai em meu lugar?
— O quê? Sozinha pelos matos?
— Não, Francisca, tinha graça. Algum dia alguém há de ir, alguma expedição. Você pode dar um jeito, não pode?
— Essa é boa. Eu vou para o Xingu e você fica aqui fazendo o quê?
— Eu digo se acontecer alguma coisa que me impeça de ir.
— Que coisa, Levindo? Deixa de bobagem.
— Digamos que eu esteja preso, por exemplo. Ou foragido da polícia, escondido em algum canto. Você vai?
— Vou, meu amor, vou aonde você quiser. Mas francamente, espero que você venha comigo.
— Se eu não puder, quero que você apanhe a terra com suas mãos. É importante. É bom a gente poder dizer às pessoas: “Fui eu que apanhei esta terra.” Ou: “Foi minha noiva que apanhou esta terra. Eu não pude ir.”
— Prefiro que você diga: “Fui eu que apanhei esta terra quando estive no Centro Geográfico com minha noiva.”
— Eu também prefiro, lógico.
— E você vindo comigo apanha a terra. Eu não sujo as mãos.
— Puxa — disse Levindo —, o Xingu inteiro está lá para te lavar as mãos.
— Vamos juntos — disse Francisca.
— Vamos — disse Levindo — mas fica o trato.
Francisca armou em cruz seus indicadores e deu um beijo no encontro dos dois, selando a promessa.
— Fica o trato — disse.
Levindo aproveitou enquanto os dedos estavam ainda armados em cruz, beijou-os também.
— A vantagem é que se você apanhar a terra com estas mãos, ela já deu flor quando chegar aqui.
— Vamos parar com este namoro aí atrás — disse Leslie. — Isto é carro sério.
Antonio Callado, in Quarup

02/09/2019

Em louvor da Senhora do O

Quando Nando chegou à casa, Winifred, fresca do banho do mar, dava por sua vez banho em dois vira-latas que tinha adotado. Ele a viu sem ser visto, olhando da grade de fora o fundo de quintal onde se achava o tanque. Um cachorro ao pé do tanque, à espera, com aquele ar melancólico dos cães que sabem que vão tomar banho, e o outro numa nuvem de sabão, esfregado pelas mãos capazes de Winifred. Mulher ruiva vestida de azul. Cão branco de espuma. Cão amarelo. Coqueiro marrom e verde-escuro. Mar verde-gaio. Pintores deviam ver o mundo assim. Cortavam, emolduravam. Cores principalmente. Winifred dava um quadro de aquecer paredes.
Winifred levantou a cabeça de repente, sacudindo o cabelo para trás. Gritou rindo:
— Nando! Isso não vale. O que é que você está fazendo aí, feito um urubu na cerca?
— Juro que você pensou num anum, Winifred.
— Claro, claro! Que horror chamar você de urubu. Mas mesmo anum é bicho muito preto. Por que é que vocês não largam essa batina medonha, Nando? Você devia ficar muito bem de branco, sapato de tênis. Que bom que você veio até cá. Há dias e dias que não nos vemos.
— Vocês também não apareceram mais no mosteiro — disse Nando.
— Pois é. Leslie tem andado tão ocupado. E eu confesso que fiquei sem coragem de ir sozinha buscar você no mosteiro. Acho que estou me abrasileirando.
— Leslie está lá dentro? — disse Nando.
— Não, mas não tarda.
— Então eu volto mais tarde.
— Não seja tolo, Nando. Você vai esperar Leslie aqui em casa, conversando comigo. Eu adoro conversar com você e você e Leslie estão sempre discutindo, valha-me Deus.
— Ele está pesquisando no Instituto Joaquim Nabuco?
— Qual o quê. Não sai do Nossa Senhora do O. Vive possuído da maior fúria revolucionária e para unir o útil ao agradável pesquisa o próprio Engenho. Um dia desses se mete numa briga e vamos ter de apelar para o cônsul de Sua Majestade. E você? Não consigo deixar você em paz, Nando. Quando é a viagem para o Xingu?
Nando sorriu, fez um vago gesto com a mão.
— Eu estive pensando no assunto. E sabe o que é que eu acho?
— Sim.
— Você não zanga?
— Claro que não.
— Acho que você se habituou de tal maneira a justificar sua vida em nome desse sonho de transformar os índios não sei em quê, que não vai para o Xingu de medo de falhar e ficar depois sem assunto. Você nem sabe o que há de fazer com eles.
— Não, não sei, é verdade.
— Nem acredita possível reeditar a República dos jesuítas.
— N... não. Provavelmente é impossível. Não tenho nenhum plano, se é isso que você quer dizer. Mas tenho a certeza de que o Senhor me dirá o que fazer, uma vez chegando eu lá.
Winifred olhou Nando com doçura e falou, branda.
— Transporte Deus não dá, Nando. Você precisa pelo menos chegar ao Xingu.
Leslie parou a camioneta à porta da casa.
— Nando! — disse Leslie. — Que boa surpresa.
— Estava com saudades de vocês, seu fujão — disse Nando. — Winifred me ofereceu uma água de coco e eu não resisti.
— Ao refresco ou a Winifred? — disse Leslie.
— Depois você me acusa de escandalizar Nando — disse Winifred. — Isto não é pergunta que se faça a um jovem padre bem-comportado.
Sentaram-se depois. Leslie se espreguiçou, estirando os músculos depois da longa viagem de ida e volta ao Engenho.
— As coisas de um modo geral se acalmaram lá — disse Leslie. — Mas há um ponto que fica mais negro cada dia. O da menina Maria do Egito.
— Que houve com ela? — disse Winifred.
— É o que não houve — disse Leslie. — As regras não vieram.
— É preciso separar a moça do pai — disse Nando.
— Maria do Egito foi para um engenho vizinho — disse Leslie — onde tem tios. O pai há de suspeitar qual seja o paradeiro de Maria. E continua sombrio, agarrado à peixeira, falando sempre nas ordens que recebe de Deus.
— Jesus, o que é que se há de fazer? — disse Winifred.
— A melhor coisa — disse Leslie — seria trancafiar Nequinho num hospício. Mas para isto é preciso intervenção da polícia, pois o homem não está louco. Reage dentro da sua cultura. Mas a polícia, já de má vontade com o Engenho, não dá atenção ao caso.
— Então temos de tirar a moça de lá — disse Winifred.
— Para um lugar que a família inteira desconheça — disse Leslie. — É o jeito. Senão Nequinho descobre, com ameaças, onde ela está. Uma trapalhada. Bem. Vamos tratar de assunto mais curioso. Tenho aqui uns apontamentos para você, Nando. Isto é para que não se diga que estamos envelhecendo e não disputamos mais o nosso boxe de Reforma e Contrarreforma.
Leslie tirou um caderno de notas do bolso.
— Que apontamentos são esses? — disse Nando.
— Trechos de Vieira, dos Sermões. Estou convencido, Nando, de que aquilo que Vieira chamava de Quinto Império era o Império bíblico português mas... mas... Adivinha!
— Estou muito em paz hoje para adivinhações — disse Nando.
— Mas submetido ao Signo da Virgem! É a insurreição de brasileiros e portugueses de que eu falei a você. O golpe de Estado mariano.
Nando balançou a cabeça.
— O último refúgio dos povos que perderam o poder real é a extravagância, é a famosa excentricidade britânica.
— Escute, Nando, escute isso. Olhe como Vieira fala a Deus: “Se sois sol e sol de justiça, antes que se ponha o deste dia, deponde os rigores da vossa! Deixai lá o Signo rigoroso de Leão, e dai um passo ao Signo da Virgem, signo propício e benéfico! Recebei influências humanas, de quem recebestes a humanidade! Perdoai-nos, Senhor, pelos merecimentos da Virgem Santíssima! Perdoai-nos por seus rogos, ou perdoai-nos por seus impérios; que, se como criatura vos pede por nós o perdão, como mãe vos pode mandar e vos manda que nos perdoeis.” Trata-se de um ultimato!
Nando riu, balançando a cabeça, afetando o ar piedoso com que tratamos os débeis de espírito.
— Isto é a linguagem de tantos outros pregadores naquela época rebuscada! — disse Nando.
— Ah, sim? E as famosas acusações que faz no mesmo sermão aos holandeses e a Deus, aliado deles? Ouve lá: “Não me admiro tanto, Senhor, de que hajais de consentir semelhantes agravos e afrontas nas vossas imagens, pois já as permitistes em vosso sacratíssimo corpo; mas na da Virgem Maria, nas de vossa Santíssima Mãe, não sei como isto pode estar com a piedade e o amor de filho.” Espere, espere, você vai dizer que é ainda um sermão de guerra, para inflamar a consciência católica contra o inimigo. Mas e isto aqui, esta idolatria? “Quando um imenso cerca outro imenso, ambos são imensos: mas o que cerca, maior imenso que o cercado; e, por isso, se Deus, que foi o cercado, é imenso, o ventre que o cercou não só há de ser imenso senão imensíssimo. E tal foi o claustro virginal do útero de Maria. Deus, que foi o concebido, imenso, e o útero, que o concebeu, porque o cercou, imensíssimo.”
— Vieira estava citando — disse Nando — um teólogo... Tenho ideia de que era...
Leslie se impacientou.
— Ora, Nando, ele sempre citava teólogos. Qualquer pregador faz. Mas Vieira agrava tudo, marca o Signo da Virgem em tudo, amplia tudo num amor idólatra. Você não acha que os termos que ele usa são... Nando!
Nando voltou de uma distração.
— Desculpe, eu estava...
— Não sei o que você estava pensando — disse Leslie — mas não estava prestando atenção, isso não estava.
— Espere... Ah, claro, que bobagem.
— O quê? — disse Leslie.
— Então vem daí o seu interesse pelo Engenho?
— Como assim?
— Teu famoso Nossa Senhora do O — disse Nando. — O Sermão que você está citando é em louvor da Senhora do O.
Leslie manteve a fleuma e a compostura.
— Inicialmente foi por isso talvez que procurei o Engenho. Imaginei que lá houvesse ruínas de uma das tais capelas dedicadas à Virgem como senhora absoluta do céu e da terra.
— Quer dizer que o seu interesse pela questão social — disse Nando — era um tanto... histórico e místico?
— Enquanto que o seu interesse pela questão social é tão nulo quanto o seu interesse por uma questão que pode ainda hoje abalar a ortodoxia católica. Eu realmente fui pela primeira vez ao Senhora do O pensando numa descoberta erudita. Mas juro que a descobrir o que buscava prefiro minorar a miséria daqueles desgraçados.
Antonio Callado, in Quarup

23/08/2019

O dinheiro nas mãos de alguns

Nando aquela manhã foi chamado cedo ao gabinete de d. Anselmo. Não era, felizmente, o Xingu.
— Você acha, meu filho — disse d. Anselmo —, que o comunismo está realmente tomando conta de nossa terra?
— Por que é que o senhor pergunta? Houve alguma coisa que trouxesse o problema à sua atenção?
— Não é coisa, Nando, é aquele major do Exército que comunga todos os dias, que já tem me falado no assunto e que hoje ultrapassou todos os limites do razoável no seu zelo anticomunista. Francamente!
— O tal do major Ibiratinga, não é? — disse Nando. — O que é que ele queria do senhor?
— Responda você antes — disse d. Anselmo —: o comunismo vai ou não tomar conta da nossa terra?
— Parece que o Partido está crescendo — disse Nando. — Pelo menos vegetativamente. O senhor sabe, d. Anselmo, é coisa animadora dizer à gente pobre que vai ser distribuído entre todos o dinheiro que hoje está nas mãos de alguns. Esta é a imagem popular do comunismo.
— Mas não dava — disse d. Anselmo.
— Como?
— O dinheiro não dava.
— Do ponto de vista de doutrinação isto é pormenor, d. Anselmo. A técnica deles é prometer aos humildes o Reino deste mundo. D. Anselmo começou a andar pela sala, nervoso.
— Nossa “técnica”, como diz você, mas pelo avesso. Nós somos mais realistas. Nós prometemos o dinheiro do espírito, o Reino dos Céus, que dá para todos. Aliás, o major fala da Igreja em tom respeitoso mas duro. “É preciso que a Igreja não perca o seu caráter sagrado. Ela não deve dar explicações, bater boca com o comunismo. São Jorge não discutia com o dragão. Comunismo se extermina, como o exterminaram os espanhóis.” E o major ainda disse com um suspiro: “Mas os espanhóis tiveram a Inquisição! Daí a identificarem o demônio nas suas roupas atuais.” Quando eu me recusei terminantemente ao que propunha o major, ele ainda me disse: “Cuidado, d. Anselmo, o Partido Comunista está tentando se apresentar ao povo como a Igreja sem o outro mundo.” Você acha que os comunistas são perigosos assim, Nando?
— Eu confesso, d. Anselmo, que não tenho dedicado maior atenção ao problema social no nosso estado e no Brasil em geral. Daí minha inapetência à discussão com os marxistas. Eles têm a mania, d. Anselmo, de explicar tudo pelo econômico, o que é parcial e muito tedioso. Refugam a luta verdadeira, compreendeu? A gente diz, com Newman, que a repetição dos pecados humanos é que retarda a construção, na Terra, de uma Jerusalém que reflita a outra, e eles viram para a gente e dizem: “Sabe qual foi a produção de açúcar este ano? Sabe quanto rendeu? E sabe que parte do total foi paga aos camponeses que produziram o açúcar?” É claro que se pode colher uma imagem de pecado — e pecado de usura, tão verberado pela Santa Madre Igreja — no fato de uma boa safra de açúcar não ter melhorado a situação do lavrador — eles só dizem camponês, d. Anselmo — que plantou e colheu açúcar. Mas fazem uma escamoteação com o pecado. Pecado é o sistema vigente. Compreendeu, d. Anselmo? O pecado é também comunizado . A alma do indivíduo acabou. Existem só dois pecados: o pecado ativo e glutão dos que se aproveitam do regime vigente e o pecado negativo e abjeto dos que não se rebelam contra tal coisa. Um crime passional na classe rica demonstra a decadência, a ociosidade da classe. Entre os pobres ele demonstra a exasperação a que leva a miséria. Culpa, culpa pessoal, intransferível não existe.
— Senhor!
Nando se animou com a própria explanação.
— Existiria mesmo aí, d. Anselmo, um fascinante debate a estabelecer com os comunistas, se eles debatessem alguma coisa fora do econômico. Com o ardor que sem dúvida os impele e com a cólera até certo ponto justa que nutrem contra nossos tempos, seria de se perguntar se não desejam, eventualmente, restituir ao pecado o seu esplendor.
— Esplendor do pecado, padre Nando?
— Na seguinte acepção: imaginemos como possível um mundo socialmente tão justo, tão perfeito que nada do fundamental falte a ninguém. O pecado não retombaria então com terrível fragor sobre o indivíduo? Não ganharia, na sua gratuidade, uma espécie de negra auréola?
— Sim, sim — disse d. Anselmo. — Interessante, interessante. Mas abra bem os olhos e os ouvidos quando andar por aí. Preciso de argumentos contra o major Ibiratinga. Eu sei que esse cacete volta a me procurar. Jesus! Quando ele fala parece que os russos já andam pelos telhados do mosteiro.
— Mas afinal, d. Anselmo, o que é que o major queria?
— Uma coisa impossível — disse d. Anselmo.
— Mas...
— Domine a sua curiosidade, padre Nando. O major pediu o impossível e eu lhe disse que era impossível. Retirou-se respeitoso mas trombudo. Se ele voltar à carga, debateremos o assunto em miúdos.
Antonio Callado, in Quarup

10/08/2019

É tudo vida, Winifred

Por causa de Francisca, Levindo se encontrava às vezes no pleno fogo cruzado dos protestantes.
— Mas eu não vejo porque é que vocês hão de me criticar por causa da lua de mel no Xingu! — disse Levindo.
— Francisca adora os índios. Quer conhecê-los. Pegou com esse tal de professor Macedo — antropólogo, sociólogo, sei lá direito — a mania dos desenhos corporais que contariam a história das tribos, ou do inconsciente das tribos, ou coisa parecida. Está doida para copiar e colecionar os desenhos. Quer ir ao Xingu. Por que é que eu hei de ser promovido a monstro por fazer a vontade dela?
— Não — disse Winifred —, não fuja assim do assunto não. Francisca irá ao Xingu com grande prazer. Mas antigamente você estava de acordo em ir passar a lua de mel na Europa. Muito bem. Um belo dia você lê não sei que história sobre o Centro Geográfico do Brasil e resolve ir ao Xingu. A partir daí, sem consultar Francisca, você resolve que o melhor tempo de folga para ir ao Xingu é a lua de mel. O que eu critico é esse pouco caso, Levindo, essa maneira de agir como se só você contasse.
— Pois escutem. Eu estou resolvido a ir dentro de pouco tempo ao interior do Nordeste inteiro, com o Januário. Deixo Francisca, durante esse tempo, ir à Europa com o pai. Estão satisfeitos?
— Deixo — disse Winifred —, deixo Francisca.
— Ué — disse Levindo. — O que é que tem dizer deixo?
— Em primeiro lugar me diga: você perguntou a Francisca se ela quer ir à Europa agora ou se preferiria acompanhar você e Januário?
— Ah — disse Levindo —, vocês também são de morte!
— Não, Levindo — disse Leslie. — A Winifred não está implicando com você. Ela critica uma atitude sua, uma atitude brasileira em relação à mulher. Não é isto, Nando? Você não acha que Winifred tem razão?
Nando se limitou a dar de ombros. Winifred voltou a Levindo.
— Em resumo, Levindo, sua revolução não inclui as mulheres. Você nunca menciona as mulheres no seu esquema. Ou digamos que inclui as mulheres. Mas não inclui a sua mulher, inclui?
Levindo se encolerizou.
— Ora, Winifred, pergunte a Francisca se ela quer marchar ao meu lado nos campos. Garanto que ela não quer.
— Você só fala assim — disse Leslie — porque Francisca não está aqui, seu brasileiro.
— Eu juro que era capaz de ficar em casa e deixar minha mulher fazer a revolução, se a vocação revolucionária fosse dela, e não minha.
Tanto Winifred como Leslie e até Nando sorriram.
— Palavra! — disse Levindo. — Puxa! Vocês não me acreditam? Palavra!
— Palavra de brasileiro, e brasileiro nortista — disse Leslie.
— Bem — disse Levindo —, se você quer sair para o insulto é diferente.
Levindo saiu furioso pela porta afora. Winifred tomou um gole grande de gim com angustura, balançou a cabeça, soprou um cacho ruivo que lhe voava sobre a testa.
— Pronto! — disse Winifred. — Casal de desastrados ingleses. Quando não é o marido é a mulher que entorna o caldo.
— E o nosso Nando, que não deu nenhum palpite? — disse Leslie.
— É desunida a classe dos brasileiros — disse Nando. — Vocês me deixaram em paz, eu deixei o Levindo sozinho. De mais a mais o que é que um pobre padre entende dessas histórias de mulher em casa e amante nas barricadas?
Mas ah! como estava a favor de Levindo. Havia uma flor, Francisca, e diante dela que votos faziam os anglicanos, hereges? Queriam que a flor se transformasse em soja, feijão de corda, fruta-pão. Melhor, muito melhor que fosse tudo como devia ser ao longo dos bem batidos e sapientes caminhos de Deus. Levindo seria um Simão de Bardi atarefado e distraído, que amaria Francisca sem mesmo saber o que lhe fora dado amar, que a deixaria em breve pura, mesa posta para aqueles banquetes de espécies santas que de milênio em milênio se ofertam a dois eleitos que em silêncio repartem o pão de estrelas:

e quindi uscimmo a riveder le stelle...
puro e disposto a salire alle stelle...
l’amor que move il sole e l’altre stelle…

— Tem bastante açúcar? — disse Winifred.
— Está ótimo — disse Francisca.
— Mas é mesmo verdade, sabe? — disse Winifred. — Você e Levindo são pessoas que eu gostaria de ter sempre perto de mim.
Era no dia seguinte ao da discussão com Levindo. Nando ia sair com Leslie, que queria estudar, em velhos livros de esmolas e donativos feitos ao mosteiro, alguma coisa da história do Senhora do O. Estavam os dois na sala diante da mesa em que Leslie espalhara mapas e documentos. Dali ouviam as vozes de Francisca e Winifred na varanda. Ajoelhada no chão de ladrilho Winifred recortava jornais com uma tesoura. Leslie e Nando escutavam em silêncio. Não trocavam segredos as duas mulheres mas talvez não falassem assim diante dos homens. Fosse como fosse, pensou Nando, era tácito o silêncio adotado por ambos. As vozes subiam nítidas no ar calmo. Ouvia-se até o ruído delicado de colherinhas de prata batendo nas xícaras de café.
— Está aí um cumprimento que eu vou guardar para os meus filhos — disse Francisca.
— Mas...
— Ah, tem um mas.
— Você gosta muito dele, não gosta?
— Gosto — disse Francisca. — Muito.
— Mas não se entregue totalmente a ele.
— Bem que eu tenho tentado — riu Francisca.
Winifred também riu, enquanto Nando se contraía segurando a borda da mesa. Beatriz entre as amigas, tentando parecer leviana como as amigas.
— Não falo nesse sentido — disse Winifred. — Ou apenas nesse sentido. Não se deixe ficar como um enfeite na vida dele.
— O que me assusta é que a vida de Levindo não tem enfeites. É tudo vida, Winifred.
— Você não está dizendo isto só porque o ama muito?
Houve um ruído de xícara virando em pires, de colher caindo no ladrilho.
— Desculpe, Winifred — disse Francisca. — Nada, ué. A xícara estava vazia. Eu apanho a colher.
— Sabe o que é que eu acho, Winifred? — disse Francisca. — Ninguém pode amar Levindo suficientemente. Ele é bom demais. Puro demais.
— Estica esse jornal aí para eu cortar direito — disse Winifred. — E não vai me dizer que você está apaixonada a este ponto.
— Não estou tanto quanto Levindo merece, isso eu garanto.
— Assim, para deixar a data em cima da folha — disse Winifred. — Mas quer dizer então que você está disposta a ficar em casa cuidando das crianças.
Francisca riu.
— Não vão ser crianças dessas que andam por aí. São os filhos de Levindo, que vai fazer um mundo novo para as crianças morarem.
— Ai, ai — suspirou Winifred —, é difícil emancipar as mulheres.
Antonio Callado, in Quarup