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06/01/2025

o remorso de baltazar serapião | Seis


refaladas todas as coisas, era comigo que a ermesinda se casaria, duvidado de ascendência mas bom de aspecto, muito largo e viril, como aos melhores homens se pede que sejam. será um ajuizado chefe de família, reiterado na valentia e astuto nos recursos, está protegido por um misericordioso senhor, garante a nossa filha como se precisa, terá a sua mão e a nossa familiaridade, marquemos a hora para que se festejem nossos intentos e corações decididos. e eu humedeci os olhos, criado de emoção, apartei-me feliz, iludido com o amor como devia ser.
em maio era quando se casavam os noivos de sorte, escolhido o dia de são pancrácio, a velar-nos as juras, com as chuvas meio levantadas, os calores ainda previstos, a claridade dos dias muito imposta como supremacia do que se via sobre o que se sentia, e era como se via no ar essa cor tão forte que deixava felicidade pelos lugares. a igreja de cristo redentor estava aberta ao povo que quisesse participar, e era repleta de velhas que se tinha, a cheirar a mijo e suores, quando entrei e me puseram à espera da ermesinda no altar. também cheirávamos os mortos sepultados chão debaixo das pedras, mal tapados de narizes bicudos e mal dispostos. a nossa igreja estava repleta. não havia muitos mais buracos a abrir onde enfiar mortos sempre a morrer. as velhas, mijadas e paradas nos bancos, até pareciam acorrer ali para nada mais. mais, era o que se devia, acertar-lhes com um pé na nuca para as abater de vez. se lhes perguntássemos alguma coisa, não tinham disposição de entender. olhavam mesmamente para a frente como se vissem para depois da vida. o teodolindo, meu amigo, sentado de orgulho e banho ao pé de mim, sorria e soltava-se de gases na cara de uma velha vertida para o chão. que porcaria de estropício se haveria de sentar à frente, queixava-se ela. era porque onde ele queria ficar se havia metido a mulher sem reacção nenhuma, só como uma pedra morta a marcar lugar.
a cerimónia não teve grande ciência, abençoados pela confissão como estávamos, pedidos pelos pais para nos casarmos, nada se apoquentava com nosso acto e só praticá-lo era preciso. por isso foram ditas as palavras sem grande tempo e já a arca da ermesinda tinha sido levada para nossa casa tão preparada, e era como o seu enxoval ficaria guardado para nosso uso, muito dele para mais tarde, quando me autonomizasse verdadeiramente da casa dos meus pais e não estivesse a disfarçar o espaço que cabia aos animais. e era como dizia o aldegundes, revoltado com a expulsão da sarga, haviam de ser vocês, os dois, a peidar e a cagar o suficiente para aquecer a casa à noite se isso compete por natureza ao gado que se tem.
lá estava a sarga debaixo das madeiras mal seguras. realmente mal seguras, como, à pressa, ainda tive de ser eu a alojá-la. poderia fugir, chorava o aldegundes, vai fugir como parece fazer tanta força sempre que chove, vai esconder-se em lugar que desconhecemos e deixaremos de a ver. era cruel da minha parte alhear-me do seu sofrimento, e mais cruel dizer-lhe em surdina que se calasse dos pretextos pela vaca, não fosse viver um amor estouvado de porcaria e alguém notasse. não fosse o meu pai, passivo e desimportado, notar algum sinal da sua ainda burra masculinidade. não sejas burro, aldegundes, deixa-a a dormir assim, às vacas tanto se lhes dá os confortos, e a sarga quando se assusta faz um grande temporal, nada do que temos esta noite. o meu pai não foi a vê-la, não se inteirou do coberto que lhe fizera eu, e ela estava metida debaixo das madeiras em espaço exíguo, e o meu pai nem perguntara que fora da vaca, já bom tempo decorrido no meu casamento. estava para a cama mais cedo que minha mãe, e ordens claras, todos a dormir que não queria nem fogo nem barulho acesos a impedirem-no de descansar. a sarga estava calada, o aldegundes calou-se, eu e a ermesinda gememos, sem custo, gememos.
uma virgem, de sangrar e tudo, mas que não é feita mulher pelas dores, que poderia significar, perguntava-me eu. nem por um só momento imaginei que se faria mulher sem dores, num silêncio só gemido como naturalmente um casal geme já tempo decorrido. como meus pais, sem novidade ou esforço, apenas o gasto esperado e remediado da rotina. não que fosse destituído de prazer ou forçado à euforia pela novidade, mas que a novidade lhe fosse tão simples e benfazeja da partida à chegada. sob mim a receber os meus jeitos em paz de proveito, muito delicada sem dizer palavra que me quisesse pedir maior cuidado ou carinho. nada. e o lençol sujou-se de sangue e assim o apresentámos aos meus pais para que surdamente se espalhasse o orgulho de toda a família. o teodolindo, jurando por nós nos votos religiosos, abriu os dentes em flor, bateu-me nas costas muito amigo e disse-me, chegaste bem à idade adulta, tens mulher e honra com que te servir. não percas nada. eu tive toda a ideia disso. enchi o peito de mim, feliz de ser quem era. só mirrei um bocado à lembrança de que ele, o teodolindo, o meu melhor amigo, estava ainda longe de se prender. tens recordações em demasia das partes da natureza, tens de esfriar por baixo e ver as raparigas por cima. esquivava-se nas árvores, desaparecia, metido para os seus segredos sem mais conversa.
disse à minha ermesinda que se estendesse nua na cama. que eu a queria ver à luz da vela, muito próxima de cada pedaço da sua pele. ela pareceu acalmar quando lhe pus a mão suave no contorno da anca. lembrei-me, toca-lhe com leveza, tal fosse coisa de partir da casa de dom afonso. porcelana da colecção de dona catarina, faz de conta que, se errares, não voltas a ter tamanha felicidade e deves ter por tal momento todo o cuidado possível. toca-lhe por amor. e assim fiz, segundo as palavras do senhor santiago. depois, ela perguntou se teria de ganhar barriga por cada vez que eu a conhecesse. e eu sorri com sua burrice, e até a amei mais ainda, por corresponder perfeita à estupidez que se espera numa mulher. puxei-lhe a cabeça para trás e busquei-a pelo meio de mim, e ela ali ficou paciente a encontrar-se pelo interior dos buracos sem grande surpresa.
mandada a lavar os lençóis em discrição, ermesinda portou-se como tal, a esbranquiçar o seu sangue com dedicação. e muito diferente se pendurou aquele linho à vista do sol e de todos, esperado por dom afonso à boca das suas janelas, acordado cedo como à espera ansioso de que lá subíssemos para a apresentação combinada. e a correr nos fomos, os dois, no primeiro desmedo que tive de arranjar, liberto de meu pai para as coisas assim, entrado na casa grande para me honrar de virar homem de mulher e tudo. e a desmedo entrei, aberta a porta pela brunilde, que nos contara os minutos de chegar. uma palavra mínima, cortada à socapa para que se escondesse do que a casa pudesse ouvir, que ali dentro da casa tudo era passível de ser inteligente, era da figura e preciosidade das coisas, pareciam guardar vida incrível que se accionasse por poderoso feitiço à voz do proprietário.
era como nos sentíamos na casa de dom afonso, enterrados por preciosas peças que ornavam a casa, como eu imaginaria um castelo de el-rei. dom dinis, ele próprio, viveria ali de agrado sem queixa de qualidade ou luxo, era em que acreditava. parados, silenciosos de tudo como objectos a tremer, esperámos atentos que viesse chamado pela brunilde. esperámos, sem mais olhar que a porta por onde viria, e foi com um salto por dentro que o recebemos. sorrindo, bigode puxado pela mão para fremir os lábios e, que se visse, era claro que a ermesinda lhe agradava de beleza e frescura. e eu abençoei-me por ele de joelhos e agradeci infinitamente a oferta dos dois torneis, como gabei os aposentos em que tornámos o lugar da sarga. sim, essa vaca, dizia ele, quantos anos terá. talvez uns trinta, dom afonso. trinta anos que o teu pai a tem, parece impossível que não a tivesse desfeito em postas quando era de comer. meu pai tem apreço pela bicha, dom afonso. um apreço que lhe deu fama, rapaz. dom afonso saberá. uma mulher é melhor do que uma vaca, disso estou certo, do que o povo diz pouco me interessa, e a tua é uma bela mulher, viçosa nos modos, clara nos olhos, aberta nos membros. é muito bela, sim, como se regozija o meu amor por ela e mais ainda por se ter sem empecilhos ou maleitas. sim, bem vejo, rapaz, que tudo nela está aberto e pronto para a vida. se dom afonso o diz. digo mais, estou seguro que seu corpo se estenderá ao trabalho em grande rendimento e todos aproveitaremos do que souber fazer. por isso, sou capaz de jurar que fará da sua vinda para a nossa casa uma grande surpresa, como surpreso ficarei só de vê-la a cada dia e confirmar que existe tal beleza. assim, quero que passe todas as manhãs aqui a ver-me, deverá fazê-lo bem cedo antes dos horários de dona catarina, para que eu possa gerir o seu dia nos animais com atenção e especial cuidado. ouviste, rapaz, farei tudo para que seja feliz nos trabalhos e destino que lhe competem. se dom afonso o pede. agora vão, dona catarina levanta-se e há que tornar a casa desimpedida para os seus confortos.
naquele tempo o meu martírio começou. empoleirado nas bermas da casa, agarrado às janelas a desesperar de incerteza, fosse a ermesinda meter-se debaixo de dom afonso e que faria eu corno, apaixonado, morto de loucura por ela. nem meu pai me convencia, transtornado a deitar-me juízo cabeça abaixo, incapaz de me impedir de exercer a direcção devida no matrimónio que acabara de realizar. assim falávamos, que se estivesse posto dentro dela lhe arrancaria a cabeça numa só desgraça para toda a família. ou, se me esfriasse o pensamento e pudesse hesitar, talvez o matasse de venenos colhidos secretamente, cozinhados à sua boca com o auxílio da brunilde. senão, muitas cobras poderiam ser minhas presas por um tempo, até que as soltasse infalíveis no quarto do filho do demónio. mas nada da boca da ermesinda me confirmava, nem os olhos que lhe deitava às partes da natureza, abertas em bom sol, me diziam o que ali poderia ter entrado. e mesmo ao toque dos dedos nada parecia diferenciar os seus dias das nossas noites. e era como me enlouquecia, nada saber e saber apenas o que me queria confirmar dos bons intentos de dom afonso. ela dizia que entrava para a sala de grande nobreza para uma conversa muito rápida, em que o senhor lhe perguntava pelos queijos, tão apropriada das tarefas logo de início, e depois lhe desejava bom trabalho em simples continuação de instruções já dadas. mais nada. era como perder tempo, parecia, não acontecia mais nada. dizia-me a minha bela e calada mulher, olhos não abertos dos pés, delicadeza à minha mesa e na minha cama, como coisa branca que me impressionava.
era diariamente, como diariamente ali a mandou, e tudo o que eu fazia para os alcançar em conversa não era suficiente. nem pedido à brunilde o serviço se fazia, mandada embora com veemência, as portas fechavam-se para que nada visse ou ouvisse. e dom afonso não saía de lá a arfar, causado de rosadas faces, abafado de qualquer modo, trôpego, aflito de calores, odores, feridas tocadas, cabeça pesada, nada. saía por seu pé igual como entrara e, sem análise maior, nada parecia acusá-lo de comer a rapariga. puta que o pariu. porque andaria a recebê-la perdia sentido, e tempo decorrido desde a primeira vez, cada vez se parecia mais com um improvável jogo de gato e rato onde o rato, eu, não conhecia as regras. que mais podia senão mugir dia inteiro a trabalhar, furioso sem respostas, adormecido cada vez menos e acordado cada vez mais.
até o teodolindo posto em cuidado nada me dizia. podia fazer coincidir com a visita da minha ermesinda a sua entrega dos trajes do dia. mas não ouvia nada para lá da porta fechada da grande sala. atentamente entrava de orelhas aguçadas, entregava os delicados trajes de dona catarina aprumados de véspera e saía por mesmo pé e silêncio. não lhe parecia ser real que alguém se tivesse de sexo para lá daquela porta, que mesmo em modos meigos um dia haveria em que se soltaria um gemido revelador, um soluço de garganta engasgada, um tropeço no chão ou arrastar de uma cadeira. mas nada. afirmava o teodolindo por cima das notícias da brunilde, nada se ouvia porque nada devia estar a acontecer. claro, além disso, vozes, a voz de um e outro, espaçadamente, percebia-se baixinho, vindas de muito ao fundo da grande sala, sem contorno suficiente para organizar palavras. eram só sons de timbre e nenhuma definição.
como disse à minha ermesinda, ainda volto a pôr-me na teresa diaba só para sentir que conheço o bicho que tenho nas mãos. e ela corava de medo, talvez meus pais atentos a escutarem o que lhe dizia, e a minha mãe como pediria que não fosse bruto com ela. era porque lhe entortara o pé meu pai, descabido com ela num tempo em que eu era muito novo, e assim a ensinou de modos para sempre, tomada de respeitos por ele para o resto da vida, não quisesse que ele lhe entortasse também o outro. e eu acho que ela se escudava como vítima de quando em vez para que nos apiedássemos da sua condição de fêmea, mas eu nunca lhe admitiria que me chamasse a atenção para os tratos tão cedo dados a ermesinda, era porque algo me escapava ao entendimento, e desgraçada da mulher que saísse do entendimento do marido. por isso tudo devia estar bem explícito no seu espírito coarctado, mesmo mulher, determinadas coisas haveriam de ser passíveis de se manterem no seu espírito, coisas inclusive nada complicadas, como não pretender ter segredos para mim e não me encornar nunca. e se lhe dei o primeiro correctivo de mão na cara não foi porque não a amasse, e disse-lho, existe amor entre nós, assim te aceitei por decisão de meu pai que quer o melhor para mim, mas deus quis que eu fosse este homem e tu a minha mulher, como tal está nas minhas mãos completar tudo o que no teu feitio está incompleto, e deverás respeitar-me para que sejas respeitada. nada do que te disser deve ser posto em causa, a menos que enlouqueças e me autorizes a pôr-te fim. deitei-me, a minha mãe estremeceu no lado de lá da parede. o meu pai desconfiou do meu pulso para decidir da vida sozinho. o aldegundes arrepiou-se por todos, ali sozinho de mim, a saber que os nossos pais se juntavam menos na cama à noite, talvez imperfeitos também perante a minha juventude e da ermesinda, e a saber que cada um de nós se afastava para uma nova realidade, apartados pelas opções e papéis que nos eram destinados desde sempre. já não se levantava para acalmar a sarga, e a pobre vaca, talvez percebida de estar velha e pronta a morrer, deixava-se mais quieta e deitada fora, talvez temendo que as tábuas lhe partissem os ossos, se caídas com um coice que lhes desse. e o aldegundes já nada dizia, mais trabalhador e menos brincado.
[...]

Valter Hugo Mãe, em o remorso de baltazar serapião

28/12/2024

o remorso de baltazar serapião | Cinco



naquela tarde desci à terra, fugido dos animais por um breve tempo. apontei-me ao trajecto de ermesinda entre casa e fonte. saía pela porta lateral e encostava-se às paredes como essa coisa branca que me impressionava, e dava as boas-tardes ao pai que a geria com os olhos rua abaixo. ele ali, agarrado ao percurso com distância, a cargo do ferreiro da terra a amolar e a limar pesados instrumentos, e ela seguia assim permitida, a fazer discretamente o que lhe era pedido. voltava lavada na fonte do rosto, mãos e braços e luzia no sol assim molhada, como folha verde muito clara, dada de orvalho pela manhã. e assim subia com um cântaro pequeno de água fresca, seguro com treino até ao centro da sua mesa. ao que entrava em casa, revista por seu pai, correcta na volta, no tempo e no recado, nada mais lhe seria autorizado, e a nada mais se candidatava. e naquela tarde eu esperaria qualquer coisa que me dissesse da entrega da notícia que deixara com o curandeiro, mas nada lhe alterou o sobrolho à vista da minha pessoa. nada que o senhor santiago lhe dissera sobre mim parecia existir. e eu suspirava, como tanto queria que ela soubesse ser eu o candidato, ter-lhe-iam dito os seus pais, perguntava. que teriam contado à pobre rapariga sobre mim, se teriam. nada que eu visse, estava como recatada de sempre sem querer que se notasse ir prometida, e entre a discrição do mando dos seus pais não acusava mais vida que lhe fosse própria. foi como fiquei desiludido com a esperança de lhe ter dado sinal suficiente para que se amigasse de mim com o olhar e, quem sabe, num dia não vigiada, pudesse até dirigir-me palavra. dirigir-me palavra e, enfim, iluminar-me como iluminava a escuridão e envergonhava todas as sombras.
nas coisas do coração não entravam substituições, mas compensavam-se bem com devaneios do corpo a subalternizar o pensamento às aptidões daquele. por isso, busquei a diaba para me vingar nela do compasso a que estava tomado meu tempo, desfeito de autoridade minha, só esperando que os pais dela decidissem se a largariam para casamento tão depressa. e a teresa apercebera-se da minha efusiva maneira, e estrebuchava de prazer mais acelerada nos proveitos, como lhe apetecia sempre quando era brutalizada pelo homem que atraía. a diferença entre ela e uma vaca ou uma cabra era pouca, até gemia de estranha forma, como lancinante e animalesca sinalização vocal do que sentia, destituída de humanidade, com trejeitos de bicho desconhecido ou improvável. e era como lhe vinha naquele fim de tarde, posta sob mim a bater com a cabeça no chão para se verter de submissão aos meus grilhões.
depois, voltei a casa e pior dia se tornou ao perceber o aldegundes em loucura apressada. não seria algo de mais vê-lo ali, empoleirado na sarga a consolar-se de quase nada que não lhe viesse só da cabeça. é uma insanidade, apenas uma coisa parva de pensar e querer fazer, só daria prazer pelo pensamento porque as suas formas eram desabitadas de beleza e natureza para os homens, não haveria sentido nenhum no que se estava a pôr. como um pesadelo que gostasse de concretizar, ao invés de um sonho, e assim era. o aldegundes parecia ali como se gostasse de pesadelos e eu avisei-o dos perigos. acusado a dom afonso ou, quem sabe, até a el-rei, estaria desgraçado de tudo. coitado do meu pobre e burro irmão, nem a diaba lhe teria ocorrido, tão novo de corpo e inteligência era assim ridículo a pôr-se na vaca. jurou-me que não o fizera nunca senão naquele dia, e só porque já não era tão criança e o trabalho lhe dava desesperos de que queria compensar-se. e eu contei-lhe da teresa diaba, melhor do que pudesse ocorrer-lhe um dia sem preparo, e de como estaria eu ali de mãos para lavar, a cheirar a ela de tanto me ter metido lá dentro, e assim deveria ele aguentar-se em euforias que lhe viessem. disse-lhe claramente, numa qualquer euforia, apanhá-la distraída por aí, sem deixares os outros verem demasiado, e pões-lhe as mãos no cu para que perceba ao que vais, não vá enxotar-te sem paciência, e alivias-te, que para isso a sustentam por aqui. ele, olhos abertos de parvo, sentiu dificuldades de fôlego e iniciou a contagem. partido eu para os animais, a ver meu pai que coisas me guardaria em espera, já o aldegundes saíra a ver onde parava a rapariga estropiada para a cobrir como pudesse, garrido de tão corado, partes da natureza em chamas.
pouco me importava a fama da família, já não era isso. só tínhamos de desviar as atenções do meu pai, não fosse ele saber das sevícias sobre a vaca, era bom que se agradasse de saber a masculinidade do filho posto na diaba, escola de tantos nós, mas da vaca eu não imaginaria que loucura lhe desse tal informação. jurámos um silêncio de morte entre os dois, como irmãos de sobrevivência, e remetemos o sucedido para o mutismo dos absurdos como se ilusão ou história contada pudesse ser. vimo-nos em casa de ar esperto e esclarecido, parecidos a comportados rapazes sem faltas a confessar, sem perdões a pedir, e a satisfação do aldegundes era real, como infinita a sua gratidão pelo testemunho. a cada dia atirado para fora da cama a agarrar o trabalho em garra, pela hora em que se escapulisse para se comer da teresa diaba, com o jeito prematuro com que parecia fazer tudo.
com duas moedas de prata iria eu compor o espaço da sarga para servir de reserva ao meu casamento. teria uma cama de novas palhas e uma arca seca feita de madeiras decentes para conservações essenciais. essencial seria corrigir as portadas da janela, completas nos lugares onde se puseram tecidos velhos sem cuidado para o vento. também a porta era só remendos e seria bom deixá-la mais forte, não fosse abater-se a qualquer momento para nosso susto e preocupação. no resto, estaríamos contados para os preparos da minha mãe, suposta no nosso trato como tanto precisaríamos de início, se dom afonso, autorizando o casamento, nem assim me aumentava o estatuto de responsabilidade ou assiduidade e, para grandes efeitos, eu continuaria o mesmo jovem possante a ajudar o pai nas coisas dos animais. era como ficaria, casado de autorização devida mas pouco nos dinheiros, uns dois ou três dinheiros seria o que haveria pelos bolsos para quase nada poder comprar, e se algo nos faltasse a correr, a correr deveríamos acudir-nos de pais e dom afonso a ver o que se faria. e assim estávamos instruídos, eu e meu pai, para não refilarmos do que viesse, tão claro se afigurava o contratado. e se aqueles dois torneis já mos oferecia dom afonso para a compostura da casa, de dinheiro estávamos agradecidos e nada mais pediríamos. ermesinda chegaria e dois dias de descanso, duas noites equivalentes, seriam o tempo dela para ambientar sua alma às propriedades do nosso senhor, após o que faria o trabalho de falta nos animais, seria perfeita para os queijos, havia venda e tanto nos apressávamos sem conseguir justificar a produção. com o tempo poderia tratar da venda na feira do caracol, era só uma vez por mês e não lhe daria problemas a solidão e a beleza se soubesse ter-se discreta a desencarar o freguês. estava tudo assim dito para que fosse, e entre as ansiedades do casamento muito do que estaria mal conversado já não acudiria meu espírito, tão mais encantado com generalidades do que com pormenores. que viesse a minha amada, era só o que queria.
pela incapacidade de esperar de braços cruzados, diariamente assaltava a cidade com as minhas escapulidas. zanzava em esconderijo pelas paredes e becos procurando não ser notado na observação acompanhada das saídas da ermesinda. era grande, e cada vez maior, o intuito de me exceder e lhe dirigir palavra, mas como seria perigoso fazê-lo, arriscar a desonra de desobedecer aos intentos dos meus futuros sogros e procurar a rapariga antes que me fosse devidamente concedida. por isso, esperei pela voz dela que veio no momento em que fui levado a sua casa a pedir-lhe a mão. sem condição nem honrarias que me levassem ali refinado ou melhorado, o que faria senão deixar que o meu amor se notasse, há tanto fulgurado para o interior de mim e intenso para sair à brancura do seu ser. e lho disse assim, depender de mim será só digna sua pessoa, posta sobre meus braços como anjo que o céu me empresta, e deus terá sobre nós um gosto de ver e ouvir que inventará beleza a partir de nós para retribuir aos outros. casai comigo formosa, tanto quanto meus olhos algum dia poderiam ver. e o meu pai sorriu sem saber que coisas tinham vindo à minha cabeça, moço, confessava, ai a juventude, esperam do futuro tudo o que sonham, mas que fazer, são coisas que se aprendem, e vale mais que partam eufóricos pela vida do que tristes sem mais querer. e ela encarou o pai que sorria, a mãe coberta de lágrimas, e sorriu, agradeço o que me dizes, meu pai decidirá pelo melhor, informado por deus e experiência como está. e o senhor pedro esfregou as mãos e achou que sim, compadre, estávamos certos, quero muito que seja um bom rapaz, e não foi por conhecê-lo há tantos anos que lhe vi falta alguma. o seu moço é um moço nosso, será marido da minha ermesinda e fará os meus netos, se infelizmente deus não me deu mais filhos compete aos seus a minha linhagem. e assim será, compadre pedro, encheremos a casa de netos, eu lho garanto pelo meu filho que é homem de grandes forças.
deus dava muitos filhos a todos, menos ao senhor pedro, a dom afonso e ao meu pai. o senhor pedro magoara-se nos ferros e era muito falado que se tinha despojado de partes da natureza sem querer. percebi que se contava que feita tão bela filha deus lhe tirou a proeza de repetir, não fosse estragar o mundo com algo que se reservava para o paraíso. dom afonso era muito velho desde que casado, dizia-se que secara de líquidos, mas podia ser dona catarina que estivesse estragada de útero, se corriam tantos boatos de engravidar e lhe saírem os filhos como carnes desfeitas em poucas luas. e meu pai era como eu sabia muito bem, o curandeiro farto de garantir que a minha mãe estava seca como uma pedra, impossível vir dali alguma criança, bicho ou coisa. não pode vir nada, gritava o senhor Santiago, nada, como arranjou estes filhos conte-nos o senhor sarga, porque da sua mulher nem adianta pensar nisso, deus até lhe corta a língua. e era como se dizia, que éramos filhos da sarga, sem grandes rodeios, éramos como filhos da sarga. o senhor pedro a encarar-nos e a dizer, não acredito nessas coisas, é só o que povo diz. e confio em si, compadre, não poria em cima da minha filha um rapaz que fosse possante por ter sangue de boi. e eu entreolhava-me com meu pai, descortinado da conversa às abertas na minha presença, e sabia eu que tinha de ser verdade que se pusera na sarga, se dava ao aldegundes burrice igual, e por costume tão perto ficava a língua do povo da verdade mais escondida. mas de resto era só impossível, ninguém pode nascer de uma vaca só por força do leite de um homem, que misturado no útero do animal serve tanto como outra água qualquer. não dá filhos ter prazer para dentro de um animal, seria como tentar acertar numa árvore com uma pena a metros de distância, é parecido com atirar uma pedra, mas não serve de paulada alguma.

Valter Hugo Mãe, em o remorso de baltazar serapião

25/12/2024

o remorso de baltazar serapião | quatro


passava o curandeiro cheio de sabedoria e conselhos de boticário. alinhámo-nos em minutos para que nos verificasse as alterações de postura, cor e odores. ele rodava muito lento cerca de cada um e desconfiava de tudo, parecia procurar falhas como se fosse do espírito de cada pessoa. escarafunchava buracos todos, descobria-nos coisas nunca vistas na pele mais escondida. mas era pelo feitio exterior, como qualquer nódoa nas mãos que não saísse com água, que ele nos estudava. depois tirava instrumentos de bater ou apertar, passava as mãos sobre nós a magoar nas zonas doridas, e zangava-se pela nossa falta de atenção, já nem sabíamos como nos aleijáramos. ficávamos à espera que nos desempenasse braços, peito e pernas, que nos tapasse feridas abertas, que nos descobrisse parasitas ou outras coisas esquecidas no corpo. e ele lá nos mandava ao boticário também, a tirar da cabeça coisas para beber e comer de necessidade para a saúde, porque nos dava frio aos pulmões e respirar podia ser difícil, ou porque o estômago rejeitasse os melhores frutos que comesse. o curandeiro vinha sempre para esticar o pé à minha mãe, puxava-lho, ela a gritar, a desentortá-lo um bocado, como dizia, e que pena não poder fazê-lo mais vezes se, na insistência, o pé tornaria ao seu lugar. mas ela duvidava de medo, também atazanada com ele a mexer-lhe nos olhos, deitando-lhe vapores e bufando para dentro. o meu pai perdia muitas vezes a paciência, dizia que merda para aquelas coisas e, furioso, saía-nos da beira. o curandeiro gritava-lhe de alto, que às ordens de visita de dom afonso não haveria de ser mal obediente o meu pai. por isso, o sarga voltava mansinho de obrigação e permitia que o curandeiro lhe enfiasse dedo nos ouvidos a doer-lhe, como se fizesse de propósito. se o senhor sarga não ficar quieto ainda lhe dói mais, dizia quase sorrindo de dentes incrivelmente brancos. o curandeiro, eu notei, sabia que ao meu pai aproveitava muito a tortice de minha mãe. com o pé em modos de pouco andar, ela haveria de estar sempre por ali, e mais que a fúria do meu pai pudesse acontecer um dia, à minha mãe não lhe valeria corrida alguma. haveria de estar parada por natureza, à mercê da sabedoria do marido. e mais nada se intrometeria entre administração tão correcta de um casamento.
o aldegundes pedia ao curandeiro pela sarga constantemente. que fosse a vê-la, tão bom se nos dissesse como engordá-la, ainda que as nossas rações fossem nenhumas de tanta pobreza, e que a erva lhe parecesse sempre um tão desinteressante prato. mas ele não estava pelos animais, e só a insistência do aldegundes e a anuência do meu pai o levavam a olhar para a vaca e dizer que estava muito velha, já era bênção suficiente que não morresse. mais do que isso ele não fazia, nunca tocaria no animal, se depois seguia directo para a casa de dom afonso, a vê-lo e à dona catarina, para lhe descobrir chatos nas partes da natureza, como eu saberia mais tarde pela brunilde, também contaminada pela praga, a coçar-se feia de gestos pelo caminho, à vista de todos. não se apanham chatos durante a virgindade, é o que se notava, e ela com catorze anos estava solteira de noivos e maridos mas nada de castidades. o curandeiro podia garanti-lo, informado das necessidades femininas dela, algumas dores que lhe deram tempos antes, segredadas para que não fossem uma gravidez indesejada. e não era.
o aldegundes apartou-se embicado de arrelio e não quis falar com ninguém. estava predisposto a deixar de ser amigo de todos, se a sarga ficaria ali para correr quaisquer perigos sem apoio. agora que a tiraríamos do seu poiso e a teríamos fora da casa, encostada a uma parede debaixo de uns tristes tapumes, e se não nos batíamos por que engordasse de forças e aspecto era porque a deixávamos a morrer do azar da nossa tão grande desumanidade. o senhor santiago, o curandeiro, fungou-lhe para cima e ordenou-lhe que crescesse de atitudes e responsabilidades, não fosse perpetuar indecentemente a fama do pai de dormir com vacas. e era o que se dizia, que dormia com as vacas e a uma até lhe pediu os filhos que tinha, por isso a tratava em casa como membro da família. assim terminou a visita. todos nós para cada lado tombados de tanto nos enfiar dedos e mãos, irritados, maltratados de termos uma vida cheia de maleitas de corpo e imprecações de cabeça.
foi o curandeiro que levou recado à minha amada. assim eu a tinha, posta no coração de tanta ansiedade e fascínio de beleza. e ele convinha, muito douto e sabedor, mesmo tocado de alguma nobreza pela amizade que lhe vinha dos senhores dom afonso e dona catarina a salvo nos seus cuidados, e lá me dizia, estás bom de corpo e cabeça, darás bom juízo a uma rapariga tão criada. eu encolhia os ombros de alegria e pedia-lhe informações. ele não me contava nada, e verdade bastava-me que me dissesse dela a saúde e a curiosidade em saber com quem se casaria. e assim era. perante a minha insistência, ele acedeu a dizer-lhe que eu a amava e que, turvado desses sentimentos por si, estaria disposto a elevá-la num matrimónio onde a respeitasse como poucos maridos o fariam. aconselhou-me dos chatos e dos preparos para a noite de conhecimento. como eu deveria estar sem ameaças dessas pragas, para não imprimir uma dor logo no tempo de ensino de como se dormia com um homem. que fosse delicado com ela e não quisesse que a rapariga soubesse demasiado à primeira. tantos homens estragam as mulheres por ganância de fazer tudo na primeira noite. dão-lhes prática em demasia que lhes puxa ossos para além do possível, até lhes tiram carne a caminho de entrarem, o que as desfigura de apetites maiores para muito tempo ou mesmo para sempre. tens de lhe dar tempo, deixar que aprenda e ganhe alguma confiança, de outro modo fugirá de ti o resto da vida, assustada com o tanto que a quiseste ter. e eu fazia contas à vontade e ao desejo, e tentava começar a acalmar quando ainda só me apetecia metê-la debaixo de mim e enervar-me ainda mais. mas era natural que estivesse louco por conhecê-la e que acalmar me doesse, pois que sem sacrifício nem mereceria tão perfeita moça.
era o que revia, à noite, nas palhas da cama achegadas de lado para lado na minha impaciência. o aldegundes a dormir de paz e eu no escuro a medir o arfar da sarga e a pensar como mudaria tudo. como aquele arfar sairia de dentro de casa e naquele mesmo lugar gemeríamos casados de fresco, e como ali onde ainda estava se escutaria tudo para deixar os meus pais envergonhados de velhice e o aldegundes acordado de juventude. era só o que eu queria, que o curandeiro lhe dissesse e ela se apaixonasse por mim, lavada de amores para se prender aos meus planos e melhor obedecer ao nosso casamento.

Valter Hugo Mãe, em o remorso de baltazar serapião

19/12/2024

o remorso de baltazar serapião | Três


essas coisas do sexo eram muito importantes, por isso parecia muito difícil conciliar uma fidelidade amorosa com a vontade tão desenfreada de entrar numa rapariga. e quantas técnicas poderiam ocorrer-me para que uma moça apreciasse o meu desejo, mijando nas ruas e tossindo alto para que não se desapercebessem da minha presença. e logo tão depressa se ruborizavam e deixavam apreender de suspiros, envergonhadas de vontade, muito atazanadas pelas carnes. e era tão mais simples quando pudessem escapar-se para fora dos caminhos que percorriam, corajosas e impensáveis a fugir dos trajectos, por um momento de volúpia em que se teriam conspurcadas na honra. mas nada para que eu contribuísse, calado de orgulhos, só aproveitando o que era dado sem vãs glórias, sem notícia que não a do segredo mais absoluto da memória. era como fazia, usando-as para belo prazer de ambos e emudecendo o orgulho que pudesse ter em contar o sucedido. depois do acto, honrados de novo os dois, éramos desconhecidos daquilo e ninguém que nos perguntasse, se pudesse desconfiar, teria resposta afirmativa, que convictamente lhe diríamos que não. que nunca o fizemos. e assim o dizia à brunilde, dizia que eu conhecera rapariga desta cor clara ou ruiva, ou morena, ou mamuda ou lisa, dentro ou fora das ruas, mas nunca que nome teria. soubesse eu muitas vezes os seus nomes, e nunca quem me pareciam ser, como se as olhasse e pudesse reconhecer-lhes as famílias, és dos sargas, cara chapada, como aliás algumas acabavam por dizê-lo de mim, e eu disfarçava, encolhia os ombros e saía ligeiro a pensar em mais nada.
a brunilde achava que dom afonso era pouco competente, e eu começara a desconfiar que alguém mais se punha nela, tão sabedora começava a soar. o meu pai arredava-me dela, talvez já consciente de que se deitava aos préstimos de puta para dom afonso. eu recolhia-me aos animais, a sonhar com a minha noiva. arranjado para a receber logo que pudesse, casado de igreja, autorizado para a ter só minha e a educar à maneira das minhas fantasias, como devia ser. como devia ser um pai de família, servido de esposa, a precaver tudo, a ter as vezes de responsável.
a minha mulher haveria de ser a ermesinda. eu sabia quem ela era, já a tivera perto por diversas vezes. era filha de um pobre homem que o meu pai conhecia da vida toda. mais nova do que eu dois anos, queriam casá-la para que se tivesse em honras antes que algum malandro lhe deitasse a mão. era muito bela, a mais bela das raparigas que existiam, diziam, e por isso os riscos de a levarem à força eram muitos, mais valia que um rapaz a tomasse em casamento e lhe ensinasse o de ser esposa, bem como aturasse ele as forças de a preservar em casa. era uma rapariga feliz, mostrava, muito rosada como as flores e, quando passava nas ruas a buscar coisas que os pais mandavam, era muito parecida com uma coisa branca que impressionasse a escuridão das casas e das outras pessoas. quantas vezes eu a ia ver de propósito a descer rua abaixo sem olhar para os lados, já os homens coçados dela, a ganirem alfabetos porcos para a encostarem de sexo às paredes e ao chão. mas ela descia e subia trajecto abaixo e acima sem abrir os olhos dos pés, calada sem nada, à espera de sobreviver virgem a uma beleza que se tornava famosa. e era como se metia em casa, ansiosa por sair, portadas das janelas abertas, a mãe espalmando-lhe a mão no rabo, não fosse ver à janela algum moço que a fizesse cair de perdição lá abaixo. caísse ela janela abaixo aos meus braços, esperava eu, e ela já me olhava por vezes, sem saber que era eu quem lhe rondava o destino, tido ali em sorte pelo facto de os nossos pais se identificarem em amizades antigas. era eu, por sorte ali distinguido, um moço como outro qualquer, mas dos sargas, sem estropios de corpo nem maleitas de cabeça, escorreito nos trabalhos e incumbências, ao serviço de um grande senhor, protegido assim por deferência divina, como garantido no tempo que me restasse de vida. e assim ela se teria, guardada em asa de grande senhor, para cumprir vezes de mulher pobre mas digna de carnes e direcção.
claro que me corria à cabeça a ideia de que abriria perigos novos por trazer a mim tão doce rapariga. como custaria manter o meu território em redor dela, fazer dela algo tanto meu que outros estafermos não se abeirassem para deitar mão do seu fruto apetecido. e como me seria impossível reconhecer o desgaste desse fruto se era virgem e tão cedo não se acusaria de marcas que o desfizessem aos meus sentidos. assim estava eu de ansiedades, a contar as épocas para que chegasse a promessa e logo o casamento, e entre os prazeres se conhecessem, enfim, as dificuldades. podia imaginar, assim eu o fazia às outras mulheres comprometidas, algumas profissionais de homens, juntas em casas deles após viuvez acumulada, como mulheres sem poiso, a viver de andar constantemente à procura de algo que não se encontrava. eu teria espírito para proteger a minha mulher e lhe pôr freios. ela haveria de sentir por mim amor, como às mulheres era competido, e viveria nessa ilusão, enganada na cabeça para me garantir a propriedade do corpo. invadirei a sua alma, pensava eu, como coisa de outro mundo a possuí-la de ideias para que nunca se desvie de mim por vontade ou instinto, amando-me de completo sem hesitações nem repugnâncias. e assim me servirá vida toda, feliz e convencida da verdade.
os pedidos estavam feitos. era tão simples quanto isso. que a filha deles precisava de homem para um nome que a assinasse, e eu, dos sargas, chamar-lhe-ia de pontes para a deixar a salvo de desonras por qualquer prenhez que lhe aparecesse na barriga. serapião, que era, sabíamos, para ser sarga como todos nós, a ermesinda dos sargas, mulher do baltazar sarga, o rapaz mais velho, um moço possante e trabalhador. era como se esperava, revia eu esse futuro no meu pensamento ávido. dom afonso estava de acordo, e temia eu que estivesse também curioso por se ter perto de nova rapariga e assim exercer o seu domínio sobre todos nós, ultrapassando os mandamentos. mas nada era explícito, só a sua autorização que fora dada para que nos casássemos e tivéssemos guarida a meias na casa de meu pai. tudo se prepararia como estava planeado. a sarga teria um coberto pequeno, feito por nós com umas madeiras velhas dispensadas das necessidades dos senhores, e ali ficaria, bem ao lado da nossa casa, encostada a uma das paredes. e era como eu temia que enlouquecesse mais ainda, como ficaria pior protegida de tudo para as noites de tempestade, agachada numas madeiras bichadas e velhas sem proveitos para lutar contra águas e ventos. mas nada mais podíamos, era preciso assim, para desgraça da vaca e do coração de todos nós. já o aldegundes andava apertado sem acreditar que expulsávamos a sarga de casa, metida para o campo como um objecto capaz de sofrer.
eu explicava-lhe com cuidado que era para o meu bem, limpo o quarto onde ela se metia à noite, desfeito de esterco e palhas, daria uma boa sala para uma cama e uma arca onde guardaríamos corpos e roupa, eu e a ermesinda. mais tarde veríamos o que fazer. assim que ermesinda emprenhasse e os filhos viessem ocupar espaço, logo buscaríamos auxílio, em troca das forças dos braços e horas, a dom afonso que nos poria em lugar maior. estava falado com ele, conversa de meu pai, a vir da casa com a cara brilhante de felicidade, dom afonso autorizou, vamos ter casamento e desfazer a solidão do rapaz. vai ser um homem, vamos ter um homem. ergui as mãos à cara e tentei acreditar que casaria com a ermesinda, a bela rapariga a esconder os olhos, e como dedicaria meus dias a enchê-los da minha imagem, para que viesse a sua condição de mulher apenas da minha condição de homem.
não me era permitido saber exactamente quando teria casamento. passava algum tempo desde que me fora comunicado o decidido, que eu estaria já com dezassete anos e seria impossível continuar à responsabilidade do meu pai, que permanecia ocupado com a criação do meu irmão e com a aflição de minha mãe, mulher pior do que as outras, incapaz de estabilizar por completo as suas falhas, tão naturais. dessa ninguém o livra, é de lei, mas dos filhos pede deus que se larguem os pais para que se multipliquem. assim como ter de ir embora porque o tempo estava decorrido e nada mais faltava fazer. o meu pai via a minha mãe de cangalhas e era como se explicava a maravilha de finalmente despachar um filho por completo para a idade maior. mas não ia eu embora de realidade. se ficava ali no lugar da sarga, ainda estaria tão ligado aos pais. mas era por começo. por começo a idade maior traria uma responsabilidade de imaginar que viveríamos autónomos uns dos outros, por tanto que parecesse ficar tudo no mesmo, mais uma mulher apenas.
o aldegundes era que ficaria com a nossa cama só para ele, muito apertada para dois, muito larga para um, como se contentaria ao menos por isso. e ali se teria acordado melhor do que nunca, a reparar nos gemidos dos nossos pais, cama ao lado, a entender como significariam no meio da escuridão. e era sempre o mesmo, desde há tanto, o meu pai deitando-se mais tarde, já a minha mãe adormecida de ressonar e tudo, e ele, com um empurrão que se escutava, entrava nela a acordá-la e, já hábito, a ela a surpresa não lhe trazia som à boca nem contorção maior. era só um súbito silêncio no ronco que dava lugar ao gemido, um pouco depois, para um alívio rápido do meu pai. quantas vezes nos suspeitávamos acordados mutuamente, eu e o aldegundes, quando no fim de tudo podíamos rebentar de desejo, correndo no pensamento todas as raparigas solteiras e casadas da terra, e forçando o sono a levar-nos a consciência como se quiséssemos esconder a cabeça do seu próprio corpo. e assim era, deitados de rabo para o ar, adormecíamos para longe dali.
o aldegundes falava sobre o que seria o futuro dele, se igual ao meu, preparado para casar-me, já um homem. por algum estranho motivo, os seus doze anos não eram muito iguais aos meus. pertenciam-lhe maiores fulgores de ideias, palavras mais vazias de realidade e muito imaginadas, como se alguém lhe desse instrução de sonhos secretamente. mas instrução nem uma seria a dele metido entre animais e plantas, conduzido entre nós mais impertinente que muito do que se lhe devia permitir. por isso, talvez não fosse estranho lhe custassem mais as partes da natureza, penduradas entre as pernas sempre a arder, ainda sem consequências líquidas, apenas comichões constantes. é que lhe pertenciam também grandes consciências do que seriam as mulheres, feitas de carne à nossa medida, como carne feita às nossas necessidades, para serem espertas num ofício nosso. nessa altura ele ansiava por se ter perto da nudez das raparigas, não menos do que eu, mas a idade e o desajeito não lhe permitiam estratégias plausíveis nem esperanças muito animadoras. sem alma, era cabisbaixo que aparecia, entretido a conversar com a sarga como se lhe perguntasse coisas de adultos que só ela escutasse sem se enfurecer. constantemente era acusado de ser um moço esperto a optar por ser burro. não te faças burro, rapaz, abre os olhos e cresce, dizia-lhe o meu pai, quantas vezes a evitar acertar-lhe uma tareia. passava-lhe a mão rente às orelhas e era de propósito que falhava.
dom afonso achava que a minha irmã brunilde podia aprender a criar trajes, agora já tão velha, catorze anos montados em cima dela, ele achava que sim. pois se era meio de ela o agraciar com peças de vestuário originais, era meio de se ter mais valiosa na sua delicadeza e se furtar aos serviços duros a que estaria destinada mal seu tronco e pernas endurecessem. assim, delicada se manteria, garantida por mais tempo uma atraente amante para os anseios do senhor. és uma servente cheia de sorte, dizia-lhe eu, aberta assim ao meio por um velho tonto de amor. não sejas parvo, aquilo não é amor, é do cheiro, a outra só lhe cheira a merda, a mim põe-me a banhos constantemente para parecer que venho das nuvens como os anjos. deve ser aborrecido. aborrecido é quando lhe dá para pôr por trás, à frente já não me parece nada. a nossa brunilde estava uma rapariga linda e donzelada de modos, cheia de vontade e com o corpo habituado, não haveria de ser nada de insólito que se pusesse de gabaritos, ensinada para o serviço dos homens com requintes que lhe vinham de altos convívios. assim lho previ na altura, ainda acabas viciada nessas sabedorias, que servir um senhor de grande inteligência e linhagem há-de ser como criar vício de comer as melhores coisas da mesa. ela abanava a cabeça e sorria, como se sentisse calma e estivesse certa de que toda a vida lhe fossem abundar os mais nobres senhores.
a teresa diaba era quem vinha muito por mim. parecia uma cadela no cio, farejando, aninhada pelos cantos das árvores e dos muros, à espera de ser surpreendida por macho que a tivesse. era toda carne viva, como ferida onde se tocasse e fizesse gemer. abria-se como lençóis estendidos e recebia um homem com valentia sem queixa nem esmorecimento. era como gostava, total de fúria e vontade, sem parar, a ganir de prazer. não queria nada mais senão esses ocasionais momentos, estropiada da cabeça, torta dos braços, feia, ela só servia de mamas, pernas e buracos, calada e convicta, era como um animal que fizesse lembrar uma mulher, servia assim como melhoria de uma vez que tivéssemos de fazer com a mão. eu sabia que mais do que dez se punham nela. só ali éramos cinco, que o meu pai devia tê-la muito durante o dia, e o cristóvão das carroças, que estava de viuvez há anos, diziam os atentos que se fazia dolorido para se disfarçar das putas que rodavam por casa sua. também o pedro das montadas, atacado de urticárias e tiques vários, estava perdido de famílias e sozinho, mais feio que a teresa diaba, se a comesse era refeição melhor do que merecia. e o teodolindo, meu amigo, com quem aprendi muito sobre essas coisas de capturar raparigas, sobretudo a diaba que, mais novos, partilhávamos para vermos um no outro o que haveríamos de fazer.
a teresa diaba era assim chamada porque fumegava das ventas quando enervada. não era mentira nem conversa das pessoas, era mesmo assim, inalava muito, bufava, encarnava-se de fúria com facilidade, assim a víamos a encher a cara de sangue como vinho dentro de uma tigela. e depois as narinas abriam-se para fumegarem como canais de vapor para alívio às caldeiras do seu coração. eu dizia-lhe que parasse de bater os cascos no chão, que fizesse pouco barulho ou viriam descobrir-nos ali nas pedras, enganchados um no outro. dizia-me que cascos tinha eu, o dos sargas, que afinal era o que diziam todos, que éramos gado como a vaca com quem familiarizávamos. e eu retorquia, ao menos os meus cascos são deste reino, os teus são do inferno, onde tombarás a alma para pagares a cabeça que tens. e a cabeça dela não dava para grandes pensamentos, queria só que lhe tomassem de enchimento e a deixassem à deriva para recuperar o fôlego. dispensava conversas, era mulher de maior burrice do que lhe competia, e por isso animava-se de poucas lógicas, aflita só com instintos e mais nada.
eu retirava-me dela, molhado de líquidos, e recuperava as vestes no lugar para regressar às vacas, ao leite, às leveduras e ao tempo do queijo. não podia deixar de pensar em como seríamos esse gado. os sargas, a vivermos com uma vaca, mas nada de ter uma vaca para que nos trouxesse o leite, se era velha de mais, e nada para que nos aquecesse a casa, se o aldegundes limpava o esterco constantemente e entre a porta e a janela os buracos ventavam o mais que se imaginasse, arrefecidos de interior. era uma vaca como animal doméstico, mais do que isso, era a sarga, nosso nome, velha e magra, como uma avó antiga que tivéssemos para deixar morrer com o tempo que deus lhe desse.

Valter Hugo Mãe, em o remorso de baltazar serapião

14/12/2024

o remorso de baltazar serapião | Dois



a minha mãe não discernia senão sobre lidas da casa. estropiada do pé, pouco capaz de ver, ficara inutilizada para as coisas dos senhores, e eles já lá tinham a brunilde a fazer-lhes serviços de interior, como nos contava ao descer aos legumes e ao leite.
a minha mãe deixava de falar comigo e com o aldegundes, porque lhe saíam coisas de mulher boca fora, e barafustar, como fazia, era encher os ouvidos dos homens com ignorâncias perigosas. uma mulher é ser de pouca fala, como se quer, parideira e calada, explicava o meu pai, ajeitada nos atributos, procriadora, cuidadosa com as crianças e calada para não estragar os filhos com os seus erros. também para não espalhar pela vizinhança a alma secreta da família, que há coisas do decoro da casa que se devem confinar aos nossos. assim se fazia a minha mãe, barafustando dia a dia, mas liberta das intenções de nos educar coisas inúteis ou falsas, que fizessem de nós rapazes menos homens ou simplesmente iludidos com um mundo que só as mulheres imaginavam. o mundo que as mulheres imaginavam era torpe e falacioso, viam coisas e convenciam-se de estupidez por opção, a suspirarem em segredos inconfessáveis, cheias de vícios de sonho como delírios de gente acordada, como se bebessem de mais ou tivessem sido envenenadas por cobra má. era vê-las passar perto umas das outras e perceber como ficavam alteradas, cacarejando palavrões e rindo, felizes por arredadas dos homens e por se poderem deliciar com semelhanças entre elas. as mulheres eram muito perigosas, alimentavam os homens e podiam fazê-los comer pó que os matasse. enviuvavam muito, apoderadas de si mesmas para se vingarem de não terem razão. a minha mãe poderia fazê-lo em qualquer altura, se enlouquecesse das ordens temíveis do meu pai e não quisesse acatar bom senso a que poderia aceder. ela saberia fazê-lo, um dia, e eu esperava-o a medo, vigiando-a, enquanto me apressava nas tarefas de dom afonso e olhava para a nossa casa e a minha mãe parando perto da sarga, a velha vaca. eu via-as como as duas estranhas e loucas mulheres do meu pai.
mas o meu pai ensinava-nos tudo a todos, e dava ares de quem se regozijava por ter criado a brunilde, até ao dia em que a serviu de idade para os senhores a usarem na casa, e para assim nos livrarmos do espaço da cama dela e do diálogo constante e perigoso que traria a sua cabeça de rapariga. também se regozijava por se achar seguro na rotina que dava à minha mãe, apertada na mão dele a cada deslize, reposta no respeito, e no juízo que, como mulher, podia compreender. com tantos cuidados e muito senso, o meu pai acabava gratificado pela força da sua vivacidade.
a brunilde tinha onze anos quando foi para a casa. diziam que lhe vinham as mamas tardava nada, preparava-se para ser leiteira. as mulheres quando se tornavam leiteiras podiam aceder a maior discernimento e os trabalhos a que se destinavam deviam ser aproveitados de imediato. aos homens, dizia-se, se pudesse ser dado maior ócio alguma coisa boa ainda podia vir, como artes várias, destrezas na pintura por exemplo, como os frescos da capela dos senhores nos provavam, feitos assim por jovem que se deu ao ócio para isso lhe vir. mas às raparigas nada lhes dava o ócio, mesmo para bordarem, tão parecidas com estarem a fazer nada, havia que lhes dar severas lições, umas às outras, de outro modo trocariam os pontos e o resultado dos seus trabalhos seriam estropícios sem beleza, ofensivos para a dignidade das mesas. a minha mãe passou muito tempo a ensinar à brunilde essas coisas que competiam às mulheres e explicou-lhe coisas que o meu pai obrigava que não ouvíssemos, nós os rapazes, coisas da vida delas, daquele corpo belo mas condenado que carregavam, para terem de voltar atrás, para se prenderem por uma perna à casa que habitavam, aflitas com ciclos de maleitas que lhes eram naturais. era verdade que às raparigas lhes davam maleitas por hábito, sem mais, para se castigarem de inferioridade. à brunilde rebentou-lhe o meio das pernas em sangue, um dia em que carregava palha para os animais. ficou assim encarnada no meio do campo, a chamar a minha mãe em surdina e a dizer nojices com as mãos nas suas partes da natureza. era assim como se rebentasse um fruto maduro, um tomate que se desfizesse, e ali ficasse a sair-lhe de dentro, a cheirar mal e a doer. a minha mãe roubou-a dos nossos olhos, furiosa com o destino, e todos soubemos que se cobririam uma à outra de segredos, semelhantes e porcas de corpo, condenadas à inferioridade, à fraqueza. um corpo que as obrigava, sem falta, a uma maleita reiterada, como um inimigo habitando dentro delas, era o pior que se podia esperar, um empecilho de toda a perfeição, e tão belas se deixavam quanto doloridas e acossadas. por isso eram instáveis, temperamentais, aflitas de coisas secretas e imaginárias, a prepararem vidas só delas sem sentido à lógica. tinham artefactos e maneiras de parecer gente sem quererem perder tudo o que deviam perder. eram, como sabíamos tão bem, perigosas.
quando os senhores a levaram, foi dom afonso quem disse que era moça de valentia, haveriam de lhe dar aconchego nos afazeres, e só quando fortalecesse o tronco, e as pernas segurassem melhor, teria afazeres de grande responsabilidade. era o que ela confirmava quando vinha aos legumes e ao leite. que era assim que fazia, deixada à deriva pela casa, ao pó e carregando pequenos objectos, e falso seria porque o tronco não se fortalecesse. eu percebera muito antes de que mo dissesse, era para que se conservasse boa de aparências, com a pele clara e as mãos ágeis, assim a queria o senhor para as sevícias que lhe davam a ele, a esfregar-se e a meter-se nela pelos cantos da casa, a tentar retribuir-se de tudo o que dona catarina, velha de carnes, descaída e dada às maleitas, já não lhe oferecia. mais tarde, ela passou a confirmar-mo e eu já nem lho perguntava. como lhe dizia das minhas aventuras e de como me punha quente imaginar ser tão poderoso e mandar a mim criadas de que pudesse desfrutar, ao invés de atravessar os campos até à vizinhança para assaltar as moças mais descaracterísticas no cuidado.

Valter Hugo Mãe, em o remorso de baltazar serapião

08/12/2024

o remorso de baltazar serapião


um

a voz das mulheres estava sob a terra, vinha de caldeiras fundas onde só diabo e gente a arder tinham destino. a voz das mulheres, perigosa e burra, estava abaixo de mugido e atitude da nossa vaca, a sarga, como lhe chamávamos.
mal tolerados por quantos disputavam habitação naqueles ermos, batíamos os cascos em grandes trabalhos e estávamos preparados, sem saber, para desgraças absolutas ao tamanho de bichos desumanos. tamanho de gado, aparentados de nossa vaca, reunidos em família como pecadores de uma mesma praga. maleita nossa, nós, reunidos em família, haveríamos de nos destituir lentamente de toda a pouca normalidade.
abríamos os olhos pirilampos à fraca luz da vela, porque a sarga mugia noite inteira quando havia tempestade. dava-lhe frio e aflição de barulhos. era pesado que nos preocupássemos com a sua tristeza, se havia algo na sua voz que nos referia, como se soubesse nosso nome, como se, por motivo perverso algum, nos fosse melódico o seu timbre e nos fizesse sentido a medida da sua dor. por isso, custava deixá-la sem retorno, sem aviso de que a má disposição das nuvens era fúria de passagem.
com vento a bater nos tapumes da janela mal coberta, água a inundar esterco no chão, velha, ela ficava à espera de que algo repusesse o dia e a libertasse para o campo, a fazer nada senão comer erva, vendo-nos labor ininterrupto. nós não dormíamos, ficávamos a fustigar o sono com dores de cabeça, martírios horas e horas. o aldegundes, que se levantava para a tentar acalmar, falava-lhe e prometia-lhe tudo. o meu pai dizia que, a ele, a sarga o confundia mais na ideia de família, se nascera com ela ali e, já eu um irmão muito mais velho, haveria de ser em perigo que o aldegundes se deixaria com ela em brincadeiras. que tempo de crescer o de uma criança, exclamávamos, com uma vaca pela mão em companhia, conversas a sério como se fosse entre gente, e a gostar dela como se gosta das pessoas, ou mais do que das pessoas todas, dizia ele, só algumas é que não, como a mãe, o pai, o irmão e a irmã. assim ela acalmava um pouco à voz infantil dele e nós adormecíamos instantes, mas voltávamos a acordar com a trovoada, embatendo nítida sobre a nossa casa tão pequena, e com o gemido abafado da bicha que recomeçava.
nós éramos os sargas, o aldegundes sarga, dos sargas, diziam. ele é sarga, é dos sargas cara chapada. nada éramos os serapião, nome da família, e já nos desimportávamos com isso. dizia o meu pai, o povo simplifica tudo e a nós vêem-nos com a vaca e lembram-se dela, que é mais fácil para se lembrarem de nós e nos identificarem. a vaca era a nossa grande história, pensava eu, como haveria de nos apelidar a todos e servir de tema de conversa quando perguntavam pela mãe, pelo pai, perguntavam pela vaca, magra, feia, tonta da cabeça, sempre pronta a morrer sem morrer. e riam-se assim com o nosso disparate de ter um animal tão tratado como família, e não entendiam muito bem. não fazia mal, achávamos que éramos muito lúcidos, e adorávamos a sarga, mesmo nas noites de tempestade quando se amedrontava e nos obrigava a acordar. o aldegundes vinha dizer-nos que ela tinha água nas patas e que em pressas se devia varrer dali inundação que lhe dava medo, e ele não reparava que também se sujara nos pés e fedia, enquanto cheirávamos e agoniávamos de tormento sem mais sono.
o meu pai pagava ainda a ousadia de se chamar afonso. afonso segundo um rei, mas sobretudo em semelhança ao senhor da casa a que servíamos. uma ousadia disparatada, um sarga chamado afonso, um verdadeiro familiar da vaca como se viesse de rei. quem não tinha do que se honrar, que diabo honraria aludindo a tal nome, perguntavam as pessoas ocupadas com nossa vida. dom afonso, o da casa, era-o por herança de nome e vinha mesmo das famílias de sua majestade, com um sangue bom que alastrava por toda a sua linhagem. nobres senhores do país, terras a perder de vista, vassalos poderosos, gente esperta das coisas do nosso mundo e de todos os mundos vedados. por isso, esqueciam-se quase sempre de que ele, o meu pai, se chamava afonso, e, só lhe chamavam sarga, o da sarga, como ele e ela, como um casal. à minha mãe chegavam a dizer que fora à vaca que ele fizera os filhos, e ela revoltava-se. era sempre ela quem barafustava furiosa até que o meu pai viesse e impusesse o juízo e a calma. o meu pai entrava em casa muito tarde, quando estávamos recolhidos à luz da fogueira, e era feito silêncio para que aliviasse o cansaço e pedisse o que lhe aprouvesse. normalmente, tínhamos refeição da noite, jantar quente com vantagens sobre o desamparo da nossa condição social, e escutávamos as impressões do dia, as instruções para o que viria, e os votos de boa noite. por vezes, eu podia perguntar coisas. em noites de maior paz, faria perguntas sobre as mulheres e as promessas do corpo delas feitas ao desalento do nosso corpo de homens. e deixaríamos coisas ditas no ar, para continuar interminavelmente. eram coisas que se suspendiam sobre nós, como roupa a secar, e com que nos deparávamos mais tarde, como se lhes batêssemos com a cabeça numa distracção qualquer, quando o trabalho era satisfeito e o tempo se permitia preciosamente ao convívio. o meu pai, o sarga, dizia-me que, se pudera pacificamente chamar-se afonso, sentiria maior felicidade. recordava os meus avós e jurava que chegaram a ter uma pequena terra só deles, escondida num muro à inveja dos trepadores e cultivada de legumes para servir uma fome só da família. era uma terra bonita de vistas, abençoada de fertilidade, calma de vento e cheia de furos de água. bebíamos e comíamos da nossa terra, lembro-me, contava o meu pai, era muito pequeno, como o aldegundes, e tudo ali nos bastava, como tínhamos galinhas e coelhos e o casal de porcos a fazer uma ninhada de leitões para cada ano, e era verdade que ninguém nos incomodava ou se acercava da nossa discrição. estávamos ali esquecidos para bem do nosso sossego. o meu pai sossegava e recolhia-se à cama, onde a minha mãe já se recolhera, a pedido de autorização, aliviada do peso do corpo em cima do pé torto, coçando longamente as pernas da comichão que lhe davam, atenta para acordar bem cedo na manhã seguinte.
quando chovia noite inteira era o pior. o aldegundes, fraco, um repolho de gente quase a querer ser homem, era descarnado e enfezado de altura e largura. que haveria de poder ele quando a sarga estava mais assustada e escutava menos as suas palavras. imaginava eu que ela assustada quisesse fugir para onde conhecesse mais seguro, soubéramos nós o que ela soubesse e talvez se acalmasse em algum lugar. mas, sem diálogo, ela ali ficava a debelar-se com o coração aos saltos e o aldegundes choramingando súplicas, o meu pai infinitamente paciente, abdicado de descanso pela vaca, e eu sempre fazendo conta à atenção que lhe era dada, uma permissão desmedida no prejuízo das nossas noites. o aldegundes apossava-se do corpo da sarga pela cabeça, mas era verdade que ela era tonta, como fosse destituída da pouca inteligência que as vacas podiam ter. não tinha nem uma, o mais que fazia era reconhecer-nos e gostar de nós, isso sentíamos, e mais do que isso, nada. entornava os recipientes, perdia os caminhos, batia com o focinho nas paredes, enganada das portas. mas o aldegundes lá lhe esfregava a cabeça, olhos nos olhos, na escuridão. punha vela a arder protegida e queria muito não demorar. mas água que entrava era desordenada e cruel. e era certo que seria o que mais assustava a sarga, por isso ele se dava ao trabalho de varrer cuidadosamente tudo, porta aberta ao campo a enxotar esterco lá para fora, a vaca detida pela corda ao pescoço.
o meu pai levantou-se sem que a irritação lhe turvasse os sentidos. levou vela a juntar à do aldegundes e não se ouviu mais nada. a sarga calou-se de sossego e sono, especada na noite como uma coisa que só parecesse ser ela sem ser. era como um objecto, sem voz nem movimento, disposto para o tempo da noite sem serventia nem mais nada. e nós adormecemos também, espantados com a obediência ao meu pai, discernido superiormente sobre todas as coisas da nossa vida.

Valter Hugo Mãe, em o remorso de baltazar serapião