quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Pegadas no rio, sombras no tempo (trecho)

Na berma da floresta, Zero Madzero perfilou-se militarmente, bateu três vezes com os pés no chão e, num gesto ríspido, projetou a mão de encontro à cabeça. Ficou assim imóvel, mais rígido que pau de cimbirre, como se esperasse uma voz de comando. Foi a mulher que o descomandou:
Que se passa, marido, mordeu-lhe algum bicho?
Não vê que estou a fazer kukwenga?
Fazer o quê?
Faço continência.
Estava saudando os sepultados, os que o antecederam. Ele era um Chikunda, descendente de soldados e caçadores. Os Achikunda cumprimentavam-se assim, de forma marcial, para se distinguirem dos outros povos, que eles tinham por efeminados por não caçarem nem guerrearem.
Cumpridas as saudações, Zero Madzero retirou do bolso uma porção de farinha que espalhou junto a um tronco de embondeiro. Pediu a Mwadia que se ajoelhasse junto com ele, fechou os olhos, bateu as mãos em concha e falou em si-nhungwé:
Peço-vos, meus antepassados, que me concedam autorização para entrar nesta floresta. Peço mais ainda que autorizem Mwadia, minha esposa, a me acompanhar. Sendo mulher ela está interdita de entrar no bosque. Mas o caso é demasiado imperativo. Agora, irei dormir na margem da floresta, deitado sobre o último caminho. Amanhã regressarei para confirmar se esta farinha foi deixada intacta como um sinal da vossa permissão.”
Terminada a prece, Zero Madzero se afastou para um recanto escuro e se alheou da esposa. Adormeceu, enrolado sobre si mesmo. Mwadia passou a noite em claro. De que valia dormir se ela não adormecia os sonhos?
Para se distrair da insônia ela, primeiro, pensou rezar. Todos rezam para pedir, ela rezaria para dar. Mas nenhuma palavra lhe ocorreu. Depois, ainda cantarolou num murmúrio de voz, como um riacho na primeira chuva. Mas de que servia cantar se a sua alma acabara ensurdecendo? Convicta de que a sua morada não podia ser outra senão o silêncio, Mwadia ergueu-se e pendurou a capulana num ramo. O ondear do pano a embalou e ela, vencida pelo cansaço, entregou-se ao sono. Mas foi escuro de pouca dura, pois logo o esposo a sacudiu:
A farinha está onde a deixei, vamos entrar na floresta!
O dia estreava e o orvalho brilhava sobre o pêlo do burro como se o bicho fosse coisa plantada, continuação de capins e seus perfumes. Seguiram em direção ao rio, passo cauteloso, olhar atento, até que começaram a chapinhar no chão saturado de água. O jumento Mbongolo se apressou a beber, enquanto o pastor se abrigava na sombra de uma frondosa mbawa. Contemplando a correnteza, Mwadia sentiu-se tomada por um irreconhecível impulso que a fez entrar na água. A coberto do rio, foi-se libertando das vestes. Lançou-as para a margem, peça por peça, perante o olhar aterrado do marido. O convite dela o fazia estremecer:
Vá, Madzero, se atire. Venha para a água!
A mulher enlouquecera? Ali, na floresta dos antepassados, onde as mulheres eram proibidas, ela se estava fazendo maior que o seu tamanho? Mwadia ainda esperou, mas depois acabou saindo da água. Não emergiu de corpo inteiro. Foi progredindo de gatas, como se o pudor a impedisse de se exibir toda despida. O que ela fez, de seguida, foi rolar-se na areia branca da margem.
Você está maluca, Mwadia?! Vista-se, mulher!
Estou vestida, marido. Estou vestida com a própria terra.
Mwadia Malunga fez uma concha das mãos e recolheu água do rio. Depois, foi derramando uns pingos sobre a pele. Assim, a sua nudez se revelava, gota a gota, fresta a fresta. A terra a vestia, a água a despia. Zero Madzero agitou os braços, em desespero, e desabafou:
Não posso ver isto. Você vai ser castigada sozinha!
O homem virou costas e desandou pelo mato. Mwadia sorriu, triste. Ela fora educada em cidade, na missão católica do Zimbabwe, perdera alguns dos temores que mandavam em Zero. Recordou-se do tempo em que ainda namorava, o marido respondia caloroso aos seus apelos. Ela se despia e se deitava de lado na cama. O marido demorava-se na contemplação do seu corpo:
Você está em fase de nua cheia, dizia ele, voz atabalhoada pelo fervilhar da paixão.
Ela fazia tenção de o tocar, mas ele ordenava que não se mexesse. Mulher despida haveria que estar quieta. Se assim não fosse, o desejo dele escapava, volátil como um perfume derramado. Mwadia perguntava-se pela razão daquela exigência de imobilidade. Agora, ela sabia. Zero Madzero sentia medo. Esse medo que os homens nutrem das mulheres, desses antigos demônios que apenas o gesto feminino pode soltar.
Mwadia fechou os olhos e a si mesma se acariciou. E sonhou que as mãos que percorriam o seu corpo eram as do burriqueiro, ante o olhar atento do asno Mbongolo. Então, cumpriu-se o destino daquela terra de miragens: o pastor a teve, toda ela um gemido na tempestade das suas mãos. No final, o homem beijou-a como se faz nas cidades, nos filmes, nos livros. Mwadia suspirou, em suave murmúrio:
Eu hoje estou muito eterna.
Mia Couto, in O outro pé da sereia

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Luiz Melodia - Poeta Do Morro

O livro desconhecido

Estou à procura de um livro para ler. É um livro todo especial. Eu o imagino como a um rosto sem traços. Não lhe sei o nome nem o autor. Quem sabe, às vezes penso que estou à procura de um livro que eu mesma escreveria. Não sei. Mas faço tantas fantasias a respeito desse livro desconhecido e já tão profundamente amado. Uma das fantasias é assim: eu o estaria lendo e de súbito, a uma frase lida, com lágrimas nos olhos diria em êxtase de dor e de enfim libertação: “Mas é que eu não sabia que se pode tudo, meu Deus!”
Clarice Lispector, in A descoberta do mundo

Perto das palmeiras selvagens

Quando uma amiga norte-americana me disse que eu ia penar no frio de Iowa, dei de ombros e respondi que os amazonenses têm pele de sucuri. Mas ela estava certa.
A terceira semana de outubro daquele ano já distante foi suportável; em novembro os escritores dos trópicos adquiriram um ar triste, de palmeiras transplantadas para um mundo gelado. Nossos refúgios em Iowa City eram o cineclube, a maravilhosa livraria Prairie Lights e os bares. A complicação começou na madrugada de 18 de novembro, quando o alarme contra incêndio disparou no nosso alojamento, onde moravam estudantes da Universidade de Iowa. Os 26 escritores de quatro continentes ocupavam o sétimo e último andar, e eu só tive tempo de pegar meu casaco e descer as escadas aos tropeços, empurrado por uma turba de poetas e narradores desesperados, ouvindo vozes em espanhol, alemão, russo, polonês, árabe, hebraico, suaíli e, suponho, em urdu e hindi. Essas vozes de Babel abandonavam as alturas para vencer a distância entre o céu da cama morna e o inferno do gelo exterior.
Em novembro eu já era amigo da espanhola Anatxu e do argentino Rodrigo. Um russo, cujo nome não recordo, nos acompanhava aos bares e ao cineclube. No outro lado da rua, nós quatro olhávamos para o edifício, esperando sinais de fumaça, enquanto os bombeiros verificavam se era alarme falso ou fogo de verdade. O russo tirou uma garrafinha de vodca do bolso e nos ofereceu um gole. Ele era o único que, além de não sentir frio, ria dos friorentos. Depois de esvaziarmos a garrafinha, o russo, como um mágico da estepe, sacou outra do bolso e abriu-a. Quando Rodrigo perguntou se essa garrafa era para nós, o russo disse: “Egg Zactl”, com a mesma pronúncia de Pnin, a personagem patética do romance de Nabokov. Rodrigo deu uma gargalhada, e logo depois os bombeiros deram a boa notícia de que se tratava de um alarme falso. Subimos de elevador até o sétimo andar e, no dia seguinte, voltamos à Prairie Lights, ao cineclube, ao mesmo bar onde nós quatro bebíamos e conversávamos sobre cinema e literatura. Lá pelas tantas, quando falávamos em espanhol, o russo boiava, e só lhe restava beber e ouvir, com ar perplexo.
Na madrugada do dia 29 o alarme disparou de novo, e dessa vez decidi que era preferível morrer asfixiado ou queimado a suportar o frio siberiano de Iowa. Permaneci quieto, encasulado no cobertor, ouvindo o tropel e as vozes em pânico. Depois ouvimos a mesma versão dos bombeiros: travessura de algum estudante que disparara o alarme.
Em dezembro era impossível sair do quarto aquecido. Da janela eu via uma paisagem branca com árvores desfolhadas. Uma tarde só tive ânimo de correr até a Prairie Lights e pegar um romance que eu encomendara. Anatxu, nossa amiga espanhola, quis ficar em Iowa; o russo e suas garrafinhas haviam sumido; eu e Rodrigo decidimos ir embora: ele foi para Nova York, eu fugi do frio e de alarmes falsos e viajei para o sul, onde vi o rio Mississippi e as extensas plantações de milho e algodão. Depois desci até New Orleans e naveguei no grande rio, um dos meus sonhos antigos.
Em New Orleans algumas coisas me fizeram lembrar Belém e o Norte do Brasil: a culinária picante, herança das culturas indígena, africana e europeia; o clima quente e úmido; uma indolência sem culpa; pequenas casas de madeira onde morava a pobreza. No Vieux Carré da cidade, entre a Jackson Square e a Royal Street, procurei e encontrei ruas estreitas com casas avarandadas. Não senti o cheiro de jasmim, nem de açúcar, bananas ou maconha. O ar parecia parado: o ar do porto, úmido e morno. Tampouco ouvi acordes de piano de alguma composição de Gershwin. Mas, diante de uma casa avarandada no Bairro Francês, uma palmeira estranhamente agitada projetava sombras também estranhas na calçada.
O romance que eu acabara de ler na viagem ainda estava vivo na minha memória. Atrás de um muro de tijolos imaginei a casa onde, numa festa de artistas, o jovem médico e nada sedutor Harry Wilbourne apaixona-se por Charlotte Rittenmeyer: uma mulher casada, mãe de duas filhas. Possuídos por um idealismo teimoso e louco, esses dois ingênuos vivem onze meses siderados por um amor romântico, cujo desfecho será trágico, dignamente trágico.
Eu estava longe de Iowa City e agora seguia de perto uma das histórias narradas no romance que eu havia lido. Depois fui ao Mississippi e visitei Pascagoula, que ainda mantinha resquícios do antigo vilarejo de pescadores da década de 1930. Lá, me deparei com o cenário da tragédia romanesca e conheci um escritor de Utah. Quando ele soube que eu era brasileiro, me perguntou o que eu estava fazendo naquele fim de mundo.
O mesmo que você”, eu disse, apontando o livro que ele segurava.
Era a primeira edição do romance Palmeiras selvagens, de William Faulkner.
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Sobre tradução de poesia

Zumbindo um besouro pousa
numa flor e encurva
o caule delgado
e anda por entre filas de pétalas folhas
de dicionários
e vai direito ao centro
do aroma e da doçura
e embora transtornado perca
o sentido do gosto
continua
até bater com a cabeça
no pistilo amarelo
e agora o difícil o mais extremo
penetrar floralmente através
dos cálicer até
à raiz e depois bêbado e glorioso
zumbir forte:
penetrei dentro dentro dentro
e mostrar aos céticos a cabeça
coberta de ouro
de pólen.
Zbigniew Herbert (tradução de Herberto Helder)

Preparados?

O Inferno é o Céu mesmo, para os que para o Céu não estão preparados?”
Guimarães Rosa, in Ave, palavra

A brasilidade no traço de Portinari

Samba (1956), de Cândido Portinari

Dois retratos meus

Agora tinha nas mãos dois retratos meus: um, o autorretrato em versos burlescos, triste e angustiado como eu mesmo; o outro, frio e traçado com aparência de alta objetividade por um estranho, visto de fora para dentro e de cima para baixo, escrito por alguém que sabia mais, e, no entanto, também menos do que eu. E esses dois retratos, meu poema triste e balbuciante, e o inteligente estudo de mão desconhecida, ambos me causaram dor, ambos tinham razão, retratavam ambos sem rebuços minha desconsolada existência, ambos mostravam claramente o insuportável e insustentável da minha condição. Este Lobo da Estepe devia morrer, sua odiosa existência devia encontrar fim por suas próprias mãos ou havia de consumir-se no fogo mortal de uma continuada exposição de si mesmo; deveria transformar-se, tirar a máscara e defrontar-se com uma nova encarnação do seu eu. Ah, este processo não me era novo nem estranho, já o conhecia, já o havia experimentado em muitas ocasiões, algumas vezes em momentos de profundo desespero. Às vezes, o meu ser ficava reduzido a frangalhos com essas experiências destrutivas; às vezes as potências do abismo o despertavam e o destruíam; outras vezes, atraiçoava-me um período definido e particularmente adorado de minha vida e o perdia para sempre. Em certa ocasião, perdi minha condição burguesa juntamente com meus bens, e tive de aprender a renunciar à consideração daqueles que até então tiravam o chapéu diante de mim. De outra feita, minha vida familiar desmoronou-se da noite para o dia: minha mulher, atacada de loucura, expulsou-me do lar e do conforto; o amor e a confiança se converteram logo em ódio e em luta de morte; os vizinhos me olhavam cheios de compaixão e de desprezo. Foi aí que começou a minha solidão. E outra vez depois de alguns anos amargos e difíceis, depois de haver construído uma nova vida ascética e espiritual, de haver criado um ideal, numa severa solidão e penosa autodisciplina, depois de haver atingido certa tranquilidade e altivez, entregue à prática do pensamento abstrato e a uma meditação rigorosamente metódica, essa transformação vital também acabou por desabar, essa forma de vida perdeu num instante seu nobre e elevado sentido; arrastou-me de novo a viajar fatigantemente pelo mundo, amontoaram-se novas dores e novas culpas. E cada vez que arrancava uma máscara, que via ruir um ideal, cada um desses acontecimentos era precedido por um silêncio e um vazio cruéis, por um mortal isolamento e ausência de relações, um triste e sombrio inferno que agora de novo tinha de enfrentar. Não posso negar que após cada uma dessas comoções de minha vida no final sempre me restava algum proveito, um pouco mais de liberdade de espiritualidade, de profundidade, mas também de isolamento, de incompreensão, de frigidez. Vista do ângulo burguês, minha vida fora, de uma a outra dessas comoções, uma permanente descida, um afastamento cada vez maior do normal, do permitido, do são. Ao longo de alguns anos fiquei sem trabalho, sem família, sem lar; estava à margem de qualquer grupo social, sozinho, sem o amor de ninguém; inspirava suspeita a muitos, estava em contínuo e amargo conflito com a opinião e a moral públicas, e embora continuasse vivendo na esfera burguesa, era, todavia, por minha maneira de pensar e de sentir, um estranho neste mundo. Religião e pátria, família e Estado careciam de significação para mim e já nada me importava; a presunção da ciência, das profissões, das artes me causava asco; meus pontos de vista, meu gosto, todo o meu pensamento, com o que em outras épocas brilhara como homem bem conceituado, tudo estava agora abandonado e embrutecido e causava suspeita a muita gente. Se em todas as minhas dolorosas transmutações adquirira algo de indizível e imponderável, caro tivera de pagá-lo, e em cada uma delas minha vida se tornara mais dura, mais difícil, mais solitária e perigosa. Na verdade não tinha nenhum motivo para desejar a continuação deste caminho que me conduzia a atmosferas cada vez mais rarefeitas, semelhantes àquela fumaça da Canção de Outono, de Nietzsche. Ah, sim, já conhecia estes acontecimentos, essas transformações que o Destino reserva aos seus filhos diletos, aos mais difíceis de contentar; conhecia-os demasiadamente bem. Conhecia-os como um caçador diligente mas sem sorte conhece as etapas de uma caçada, como um velho jogador de Bolsa pode conhecer as etapas da especulação, do lucro, da insegurança, da insolvência, da bancarrota. Teria de voltar a sofrer tudo aquilo? Todo este tormento, toda essa extraviada necessidade, todos esses olhares de vileza e pouco valor do próprio eu, toda essa terrível angústia diante do sucumbir, todo esse temor da morte? Não era mais prudente e simples impedir a repetição de tanta dor e sair de cena? Certamente, era mais simples e razoável.
Hermann Hesse, in O Lobo da Estepe

Ser humano

Cada um dos indivíduos da espécie Homo sapiens, única existente hoje em dia da família dos hominídeos, do gênero Homo, espécie esta que ocupa uma posição especial na natureza”, diz o dicionário.
Ser humano é complicado.
Obra de Deus, sobra do Big Bang, descendente do macaco, filho do acaso, talvez.
Descobriu o fogo, inventou a roda, foi primata, caçador, rei, servo, cavaleiro, filósofo, artista, guerreiro, explorador, pirata, poeta, aristocrata, carrasco, vítima, mocinho, fanático, machista, mascate, banqueiro, revolucionário, democrata, bandido, economista, prisioneiro, astronauta, funcionário público, feminista, hippie, rico, pobre, banido, favelado, empresário, desiludido, evangélico, capa de revista, e lá vai ele mudando com o tempo.
Suas principais características:
1. A postura vertical.
2. O polegar das mãos oposto aos outros dedos.
3. O volume do cérebro.
4. O uso da linguagem articulada.
5. O desenvolvimento da inteligência, especialmente das faculdades de generalização e de abstração.
6. Outras.
7. O hábito de sair pra beber, ou de jantar fora, ora em grupo, ora em casais, ora na mais absoluta solidão.
Ser humano é esquisito.
Tem de todo tipo.
O boteco, por exemplo, está cheio deles. Um vive uma desgraça, um comemora o sucesso, um abraça uma morena, um toma a oitava cerveja, um estuda as meninas que passam, um até arrisca um gracejo, um descobre que é hora de ir pra casa. A mulher está esperando, hoje é sexta, e toda sexta, bem, você sabe.
Ser humano é tão bonito.
Num restaurante francês, um casal levemente embriagado de champanhe repete a mesma cena clássica: as bocas se colam, os olhos se fecham, o escuro roda.
Peço outra?
Num cantinho, no forró, dois se entregam.
No Baixo Gávea, dois disputam a mesma moça. (De repente eles são três, daqui a pouco serão quatro.)
Ser humano é fogo, sabia?
O pessoal do escritório toma saquê no japonês enquanto discute a alta do dólar.
No baile funk, a namorada de um comenta com a de outro que eles não são de nada.
No balcão do bar de sempre, um qualquer, abandonado pela mulher, chora.
No bar da frente, lotado, uma mulher separada tenta se convencer de que é mais feliz agora.
Na Feira de São Cristóvão, um toma outra cachaça somente pra dar coragem. Ser humano é triste, um dia ou outro.
Mas lá no macrobiótico, toda contente, uma garota mostra pra outra sua nova tatuagem.
Na churrascaria, felizmente, uma família inteira comemora mais um aniversário.
A galera do cursinho, no mesmo mexicano, todo dia, bebe marguerita frozen, pula, gira, fica, troca, o mundo muda.
Ser humano é engraçado.
Na boate GLS, um casal meio deslocado tenta se divertir. Está na moda.
Porque leu que faz bem pra saúde, um toma diariamente um copo de vinho tinto.
Porque vinha tonto há meses, um deu um tempo na bebida e anda mais desanimado.
Ser humano é assim mesmo.
É bem bacana?
É um problema?
Hoje é uma coisa. Amanhã é outra. De repente não é mais aquilo.
Às vezes, ser humano é humanamente impossível.
Difícil. Incrível. Estranho. Doido. Doído. Ótimo. Péssimo. Mais ou menos. Animado.
Ser humano é tudo isso.
Fora o resto todo, é claro.
Adriana Falcão, in O doido da garrafa

domingo, 20 de agosto de 2017

Falas de Civilização

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!
Alberto Caiero, (heterônimo de Fernando Pessoa)

Michele Leal // Paisagem da Janela

O homem trocado

O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.
- Tudo perfeito - diz a enfermeira, sorrindo.
- Eu estava com medo desta operação...
- Por quê? Não havia risco nenhum.
- Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos...
E conta que os enganos começaram com seu nascimento. Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.
- E o meu nome? Outro engano.
- Seu nome não é Lírio?
- Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e...
Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.
- Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.
- O senhor não faz chamadas interurbanas?
- Eu não tenho telefone!
Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes.
- Por quê?
- Ela me enganava.
Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer:
- O senhor está desenganado.
Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite. -
Se você diz que a operação foi bem...
A enfermeira parou de sorrir.
- Apendicite? - perguntou, hesitante.
- É. A operação era para tirar o apêndice.
- Não era para trocar de sexo?
Luís Fernando Veríssimo, in Comédias para se ler na escola

De como Itaguaí ganhou uma casa de orates


As crônicas da Vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia.
A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.
Dito isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.
D. Evarista mentiu às esperanças do dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência é a longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regime alimentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência — explicável, mas inqualificável — devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes.
Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção — o recanto psíquico, o exame da patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de “louros imarcescíveis” — expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores.
A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico.
Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares, boticário da vila, e um dos seus amigos e comensais.
A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é arguida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do beneficio da vida; os mansos andavam à solta pela rua. Simão Bacamarte entendeu desde logo reformar tão ruim costume; pediu licença à Câmara para agasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades, mediante um estipêndio, que a Câmara lhe daria quando a família do enfermo o não pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resistência, tão certo é que dificilmente se desarraigam hábitos absurdos, ou ainda maus. A ideia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma um sintoma de demência, e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico.
Olhe, D. Evarista, disse-lhe o padre Lopes, vigário do lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo.
D. Evarista ficou aterrada, foi ter com o marido, disse-lhe “que estava com desejos”, um principalmente, o de vir ao Rio de Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquele grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a intenção da esposa e redarguiu-lhe sorrindo que não tivesse medo. Dali foi à Câmara, onde os vereadores debatiam a proposta, e defendeu-a com tanta eloquência, que a maioria resolveu autorizá-lo ao que pedira, votando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doidos pobres. A matéria do imposto não foi fácil achá-la; tudo estava tributado em Itaguaí. Depois de longos estudos, assentou-se em permitir o uso de dois penachos nos cavalos dos enterros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche mortuário pagaria dois tostões à Câmara, repetindo-se tantas vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do falecimento e a da última bênção na sepultura. O escrivão perdeu-se nos cálculos aritméticos do rendimento possível da nova taxa; e um dos vereadores, que não acreditava na empresa do médico, pediu que se relevasse o escrivão de um trabalho inútil.
Os cálculos não são precisos, disse ele, porque o dr. Bacamarte não arranja nada. Quem é que viu agora meter todos os doidos dentro da mesma casa?
Enganava-se o digno magistrado; o médico arranjou tudo. Uma vez empossado da licença começou logo a construir a casa. Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo, tinha cinquenta janelas por lado, um pátio no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Allah lhes tira o juízo para que não pequem. A ideia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude, aliás pia, que o padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente.
A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí. Inaugurou-se com imensa pompa; de todas as vilas e povoações próximas, e até remotas, e da própria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir às cerimônias, que duraram sete dias. Muitos dementes já estavam recolhidos; e os parentes tiveram ocasião de ver o carinho paternal e a caridade cristã com que eles iam ser tratados. D. Evarista, contentíssima com a glória do marido, vestira-se luxuosamente, cobriu-se de joias, flores e sedas. Ela foi uma verdadeira rainha naqueles dias memoráveis; ninguém deixou de ir visitá-la duas e três vezes, apesar dos costumes caseiros e recatados do século, e não só a cortejavam como a louvavam; porquanto — e este fato é um documento altamente honroso para a sociedade do tempo — porquanto viam nela a feliz esposa de um alto espírito, de um varão ilustre, e, se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores.
Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí tinha finalmente uma casa de orates.
Machado de Assis, in O alienista

sábado, 19 de agosto de 2017

Legenda

No princípio 
Houve treva bastante para o espírito
Mover-se livremente à flor do sol
Oculto em pleno dia
No princípio
Houve silêncio até para escutar-se
O germinar atroz de uma desgraça
Maquinada no horror do meio-dia.
E havia, no princípio,
Tão vegetal quietude, tão severa
Que se entendia a queda de uma lágrima
Das frondes dos heróis de cada dia.

Havia então mais sombra em nossa via.
Menos fragor na farsa da agonia,
Mais êxtase no mito da alegria.
Agora o bandoleiro brada e atira
Jorros de luz na fuga de meu dia —
E mudo sou para cantar-te, amigo,
O reino, a lenda, a glória desse dia.
Mário Faustino

Um narrador onisciente

Toda essa liberdade que se pode reconhecer nos meus livros resulta fundamentalmente da posição em que me coloco como um narrador realmente onisciente, onipresente e que, de certa maneira, está disposto a manipular tudo o que vem relacionado não só com a narrativa propriamente dita, mas também com as ilusões do próprio leitor. Imagino-me muito mais como alguém que está falando do que como alguém que está escrevendo. Isso explica as digressões, as interrupções, o deixar coisas em suspenso para retomá-las mais adiante enquanto se introduz um comentário irônico de tipo sociológico ou até político. Quando se chega ao final do livro, capta-se a imagem de uma coerência completa, que não decorre de nenhum esquema rígido prévio. Isso tem como resultado uma completa liberdade no ato de escrever, que me permite introduzir no livro situações que nunca teria sido capaz de imaginar antes de me pôr a escrevê-lo e que surgem do próprio processo de criação do livro. Quando eu digo que começo a ter dúvidas sobre se sou realmente um romancista, não digo de brincadeira, digo muito sinceramente, porque começo a compreender que o romancista é provavelmente algo diferente do que eu sou. Sou uma espécie de poeta que vai desenvolvendo uma ideia. Nos meus livros as coisas acontecem um pouco como uma fuga musical. Há um tema que depois é sujeito a tratamentos diferentes quanto a timbres e movimentos. Isso pode ocorrer em algum de meus livros. Chega-se ao final da leitura com a impressão de ter lido um longo poema.
José Saramago, in As palavras de Saramago

Vidraça

Algumas pessoas olham através da vidraça, discutem sobre uma casa que estão vendo, ao longe. Uma das pessoas diz que aquela casa é habitada por um nobre, de hábitos aristocráticos e conservadores. Outra diz o contrário, que lá mora um operário, membro do sindicato, revolucionário. Uma terceira diz que os dois primeiros estão errados: ele vê a casa, mas a casa está vazia. Ninguém mora nela. Ela está vazia. Pedem a minha opinião. Eu me aproximo, eles apontam através do vidro, na direção da casa. Olho, olho, e concluo que alguma coisa deve estar errada com os meus olhos. Eu não vejo casa alguma. O que vejo são os reflexos do meu próprio rosto, nos vidros da vidraça.
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

Ele encontrou a morte sozinho


Bateram na porta; mas ele não respondeu. Ouviu que continuaram batendo em todas as portas, acordando as pessoas. A correria de Fulgor — reconheceu os seus passos — até a porta grande se deteve um momento, como se tivesse intenção de tornar a bater na sua porta. Depois, a correria continuou.
Rumor de vozes. Arrastar de passos vagarosos como se carregassem algo pesado.
Ruídos vagos.
Veio à sua memória a morte de seu pai, também num amanhecer como aquele; embora naquela época a porta estivesse aberta e transluzia a cor acinzentada de um céu feito de cinzas, triste, do jeito que era. E uma mulher contendo o pranto, recostada contra a porta. Uma mãe de que ele já tinha se esquecido e esquecido muitas vezes, dizendo a ele: “Mataram o seu pai!” Com aquela voz quebrada, desfeita, unida apenas pelo fiapo do soluço.
Não quis nunca reviver essa lembrança porque trazia outras, como se rompesse um silo repleto e depois quisesse conter os grãos. A morte de seu pai que arrastou outras mortes e em cada uma delas estava sempre a imagem da cara despedaçada: um olho roto, olhando vingativo para o outro. E outro e outro mais, até que havia apagado essa imagem da memória quando já não houve mais ninguém que a recordasse.
Descansa ele aqui! Não, assim não. É preciso entrar com a cabeça para trás. Você! Está esperando o quê?
Tudo em voz baixa.
E ele?
Ele está dormindo. Não o acordem. Não façam barulho.
Lá estava ele, enorme, olhando a manobra de enfiar um vulto embrulhado em sacos velhos, amarrado com cordas de cânhamo como se estivesse sendo amortalhado.
Quem é? — perguntou.
Fulgor Sedano se aproximou e disse a ele:
É Miguel, dom Pedro.
O que foi que fizeram com ele? — gritou.
Esperava ouvir: “Mataram.” E já estava reunindo sua fúria, armando duras montanhas de rancor; mas ouviu as palavras suaves de Fulgor Sedano, que lhe diziam:
Ninguém fez nada com ele. Ele encontrou a morte sozinho.
Havia lamparinas de querosene azulando a noite.
... O cavalo matou-o — um deles se atreveu a dizer.
Foi estendido na cama, depois de terem jogado o colchão no chão, deixando as tábuas nuas onde acomodaram o corpo já desprendido das cordas com que vinha sendo puxado e arrastado. Colocaram suas mãos sobre o peito e taparam sua cara com um pano negro. “Parece maior do que era”, disse em segredo Fulgor Sedano.
Pedro Páramo tinha ficado sem expressão alguma, como se estivesse alheio ao redor. Seus pensamentos seguiam-se uns a outros sem se alcançar nem se juntar. No fim disse:
Estou começando a pagar. Mais vale começar cedo, para terminar logo.
Não sentiu dor.
Quando falou às pessoas reunidas no pátio para agradecer a companhia, abrindo passo para a voz através do pranto das mulheres, não cortou nem o suspirar de suas palavras. Depois se ouviu naquela noite apenas o campear dos cascos do potrinho alazão de Miguel Páramo na terra.
Amanhã você manda matar esse animal para que não continue sofrendo — ordenou a Fulgor Sedano.
Está bem, dom Pedro. Entendo. O coitado deve sentir-se desolado.
É o que eu também acho, Fulgor. E aproveita para dizer a essas mulheres que não armem tanto escândalo, é alvoroço demais para o meu morto. Se fosse delas, não chorariam com tanta vontade.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo