quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A brasilidade no traço de Portinari

Árvore da Vida (1957), de Cândido Portinari

Luto pela bondade

Quero viver num mundo sem excomungados. Não excomungarei ninguém. Não diria, amanhã, a esse sacerdote: “Você não pode batizar ninguém porque é anticomunista.” Não diria ao outro: “Não publicarei o seu poema, o seu trabalho, porque você é anticomunista.” Quero viver num mundo em que os seres sejam simplesmente humanos, sem mais títulos além desse, sem trazerem na cabeça uma regra-, uma palavra rígida, um rótulo. Quero que se possa entrar em todas as igrejas, em todas as tipografias. Quero que não esperem ninguém, nunca mais, à porta do município para o deter e expulsar. Quero que todos entrem e saiam sorridentes da Câmara Municipal. Não quero que ninguém fuja em gôndola, que ninguém seja perseguido de motocicleta. Quero que a grande maioria, a única maioria, todos, possam falar, ler, ouvir, florescer. Nunca compreendi a luta senão como um meio de acabar com ela. Nunca aceitei o rigor senão como meio para deixar de existir o rigor. Tomei um caminho porque creio que esse caminho nos leva, a todos, a essa amabilidade duradoura. Luto pela bondade ubíqua, extensa, inexaurível. De tantos encontros entre a minha poesia e a polícia, de todos esses episódios e de outros que não contarei porque repetidos, e de outros que não aconteceram comigo, mas com muitos que já não poderão contá-los, resta-me no entanto uma fé absoluta no destino humano, uma convicção cada vez mais consciente de que nos aproximamos de uma grande ternura. Escrevo sabendo que sobre as nossas cabeças, sobre todas as cabeças, existe o perigo da bomba, da catástrofe nuclear, que não deixaria ninguém nem nada sobre a Terra. Pois bem: nem isso altera a minha esperança. Neste momento crítico, neste sobressalto de agonia, sabemos que entrará a luz definitiva pelos olhos entreabertos. Entender-nos-emos todos. Progrediremos juntos. E esta esperança é irrevogável.
Pablo Neruda, in Confesso que vivi

Com o amolador

Levei o envelope para casa e o entreguei à minha mãe e segui direto para o quarto. Meu quarto. A melhor coisa que havia ali era a cama. Gostava de ficar deitado por horas, mesmo durante o dia, com as cobertas puxadas até o queixo. Era bom ficar ali, nada acontecia por ali, nenhuma pessoa, nada. Minha mãe com frequência me encontrava enterrado na cama durante o dia.
Henry, se levante! Não é bom para um garoto da sua idade ficar deitado na cama o dia inteiro! Vamos, levante agora mesmo! Vá fazer alguma coisa!
Não havia, no entanto, nada para fazer.
Não fui para a cama naquele dia. Minha mãe estava lendo o bilhete. Logo a ouvi chorar. E depois começaram as lamentações.
Oh, meu Deus! Você desgraçou seu pai e a mim! É uma desgraça. Imagine se os vizinhos descobrirem? O que vão pensar?
Eles jamais falavam com seus vizinhos.
Então a porta se abriu, e mamãe entrou correndo no quarto:
Como você pôde fazer isso com sua pobre mãe?
Lágrimas corriam pela sua face. Senti-me culpado.
Espere até seu pai chegar em casa!
Bateu a porta do quarto e se sentou numa cadeira para esperar. De algum modo, eu me sentia culpado...
Escutei meu pai entrar. Ele sempre batia a porta, caminhava pesadamente e falava aos brados. Ele estava em casa. Depois de alguns instantes, a porta do quarto foi aberta. Tinha 1, 89 de altura, um homem grande. Tudo mais desapareceu: a cadeira em que eu estava sentado, o papel de parede, as próprias paredes, inclusive meus pensamentos. Ele era como a escuridão encobrindo o sol, a violência que ele exalava aniquilava por completo qualquer outra coisa. Ele era todo orelhas, nariz, boca, eu não podia olhar em seus olhos, havia apenas seu rosto vermelho e enfurecido.
Ok, Henry. Para o banheiro.
Entrei e ele fechou a porta atrás de nós. As paredes eram brancas. Havia um espelho e uma pequena janela cuja tela estava enegrecida e quebrada. Havia a banheira, a privada e os azulejos. Ele pegou o amolador da navalha que estava pendurado em um gancho. Seria a primeira de uma série de surras que viriam a ocorrer com mais e mais frequência. Sempre, eu sentia, sem qualquer razão evidente para esses espancamentos.
Certo, baixe as calças.
Baixei.
Baixe a cueca.
Também baixei.
Então ele me bateu com o amolador. O primeiro golpe me causou mais surpresa do que dor. O segundo doeu mais. Cada lambada que se seguia fazia com que a dor aumentasse. No início, ainda tinha consciência das paredes, da privada, da banheira. Por fim, já não enxergava mais nada. Enquanto me batia, aproveitava para me censurar, mas eu não conseguia entender uma palavra sequer. Pensei nas rosas que ele criava, em como ele as cultivava no pátio. Pensei no automóvel que ele tinha na garagem. Tentei não gritar. Eu sabia que se gritasse talvez o fizesse parar, mas por ter consciência disso, por ter consciência de que era justamente esse o seu desejo, eu me segurava. As lágrimas escorriam dos meus olhos enquanto eu permanecia em silêncio. Depois de um tempo, tudo se tornou um turbilhão, uma confusão, e o que restou foi apenas a terrível possibilidade de que aquilo durasse para sempre. Finalmente, como se um mecanismo tivesse sido acionado, comecei a soluçar, engolindo e me sufocando com a gosma salgada que descia pela garganta. Ele parou.
Ele não estava mais lá. Tomei novamente consciência da pequena janela e do espelho. Lá estava o amolador de navalha, pendurado no seu lugar, comprido e marrom e todo torcido. Não conseguia me dobrar para juntar minhas calças e minha cueca e segui caminhando até a porta, desajeitadamente, as roupas arriadas ao redor de meus pés. Abri a porta do banheiro e minha mãe estava em pé no corredor.
Isso não está certo – falei para ela. – Por que você não me ajudou?
O pai – ela disse – está sempre certo.
Então minha mãe se afastou. Fui para o meu quarto, arrastando as roupas nos pés, e me sentei na beirada da cama. O contato com o colchão me doía. Lá fora, através da janela dos fundos, eu podia ver as rosas do meu pai crescendo. Elas eram vermelhas e brancas e amarelas, grandes e viçosas. O sol já ia baixo, mas ainda não havia se posto, e seus últimos raios penetravam ainda pela janela. Tive a impressão de que até mesmo o sol pertencia a meu pai, que eu não tinha nenhum direito sobre ele porque iluminava a casa do meu pai. Eu era como suas rosas, algo que pertencia a ele e não a mim...

Na hora em que me chamaram para o jantar eu consegui puxar minhas roupas e caminhar até a pequena mesa em que fazíamos todas as nossas refeições exceto aos domingos. Havia dois travesseiros sobre o assento da minha cadeira. Sentei em cima deles, mas minhas pernas e minha bunda ainda ardiam. Meu pai falava sobre o seu trabalho, como sempre.
Disse para o Sulivan combinar três rotas em duas e deixar um homem fazer cada deslocamento. Ninguém está dando tudo de si por lá...
Eles deviam ouvi-lo, paizinho – disse minha mãe.
Por favor – eu disse –, por favor, me deem licença, mas não sinto vontade de comer…
Você vai comer sua COMIDA! – disse meu pai. – Sua mãe preparou essa comida!
Sim – disse minha mãe –, cenouras, ervilhas e rosbife.
E o purê de batatas com molho de carne – disse meu pai.
Não sinto fome.
Você vai comer cada cenoura e cada ervilha em seu prato! – disse meu pai.
Ele tentava ser engraçado. Esta era uma de suas observações favoritas.
PAIZINHO! – disse minha mãe, chocada e espantada.
Comecei a comer. Era terrível. Sentia como se os estivesse comendo, comendo as coisas em que acreditavam, aquilo que eles eram. Não mastiguei os alimentos, engoli-os apenas, como que para me livrar da obrigação. Nesse meio tempo, meu pai falava de como aquela comida estava saborosa, de como tínhamos sorte de ter o que comer enquanto a maior parte das pessoas do mundo, e mesmo muitos americanos, viviam na miséria e passavam fome.
O que temos para a sobremesa, mamãe? – perguntou meu pai.
Seu rosto estava horrível, os lábios num biquinho, gordurosos e molhados de prazer. Ele agia como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse me espancado. Quando voltei ao meu quarto, pensei: essas pessoas não são meus pais, devem ter me adotado e agora não estão satisfeitos com o que me tornei.
Charles Bukowski, in Misto-quente

Serenidade

Buster Keaton

As caretas do Charlton Heston — pelo menos a mim — não dizem nada, mas até hoje, passados tantos anos, impressiona-me a cara de pau de Buster Keaton. Quem havia de dizer que o primeiro lembra mais o seu antepassado simiesco e o segundo uma estátua grega? Essa misteriosa serenidade que há por detrás de toda verdadeira arte é que nos faz curtir os clímax mais trágicos. E, quando conseguimos transportá-la a nós, é ela que nos faz aceitar este mundo tal como ele é.
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

Antiperipléia

- E o senhor quer me levar, distante, às cidades? Delongo. Tudo, para mim, é viagem de volta. Em qualquer ofício, não; o que eu até hoje tive, de que meio entendo e gosto, é ser guia de cego: esforço destino que me praz.
E vão me deixar ir? Em dês que o meu cego seô Tomé se passou, me vexam, por mim puxam, desconfiam discorrendo. Terra de injustiças.
Aqui paramos, os meses, por causa da mulher, por conta do falecido. Então, prendam a mulher, apertem com ela, o marido rufião, aí esses expliquem decerto o que nem se deu. A mulher, terrível. Delegado segure a alma do meu seô Tomé cego, se for capaz! Ele amasiava oculto com a mulher, Sa Justa, disso alguém teve ar? Eu provia e governava.
Mas não cismo como foi que ele no barranco se derrubou, que rendeu a alma. Decido? Divulgo: que as coisas começam deveras é por detrás, do que há, recurso; quando no remate acontecem, estão já desaparecidas. Suspiros. Declaro, agora, defino. O senhor não me perguntou nada. Só dou resposta é ao que ninguém me perguntou.
Mulheres dôidas por ele, feito Jesus, por ter barba. Mas ele me perguntava, antes. — “É bonita?” Eu informava que sendo. Para mim, cada mulher vive formosa: as roxas, pardas e brancas, nas estradas. Dele gostavam — de um cego completo — por delas nem não poder devassar as formas nem feições? Seô Tomé se soberbava, lavava com sabão o corpo, pedia roupas de esmola. Eu, bebia.
Deandávamos, lugar a lugar, sem prevenir que já se estava no vir para aqui. Tenho culpas retapadas. A gente na rua, puxando cego, concerne que nem se avançar navegando — ao contrário de todos.
Patrão meu, não. Eu regia — ele acompanhava: pegando cada um em ponta do bordão, ocado com recheios de chumbo. Bebo, para impor em mim amores dos outros? Ralhavam, que, passado já de idade de guiar cego, à mão cuspida, mesmo eu assim, calungado, corcundado, cabeçudão. Povo sabe as ignorâncias. Então, eu, para também não ver, hei-de recordar o alheio? Bebo. Tomo, até me apagar, vejo outras coisas. Ele carecia de esperar, quando eu me perfazia bêbedo deitado. Me dava conselhos. Cego suplica de ver mais do que quem vê. Tinha inveja de mim: não via que eu era defeituoso feioso. Tinha ódio, porque só eu podia ver essas inteiras mulheres, que dele gostavam! Puxar cego é feito tirar um condenado, o de nenhum poder, mas que adivinha mais do que a gente? Amigos. O roto só pode mesmo rir é do esfarrapado. Me dava vontade de leve nele montar, sem freio, sem espora...
A gente cá chegou, pois é. A mulher viu o cego, com modos de não-digas, com toda a força guardada. Essa era a diversa, muito fulana: feia, feia apesar dos poderes de Deus. Mas queria, fatal. Ajoelhou para me pedir, para eu ao meu Seô Cego mentir. Procedi. — “Esta é bonita, a mais!” — a ele afirmei, meus créditos. O cego amaciou a barba. Ele passeou mão nos braços dela, arrojo de usos. Soprou, quente como o olho da brasa. Tive nenhum remorso. Mas os dois respiravam, choraram, méis, airosos.
Se encontravam, cada noite, eu arrumando para eles antes o redor, o amodo e o acômodo, e estava de longe, tomando conta. O marido desgostava dela, druxo homem, de estrambolias, nem vinha em casa. Alguém maldou? Cego esconde mais que qualquer um, qualquer logro. E quem vigia como eu? Ela me dava cachaças, comida. Ele me fiava a féria. Me tratavam. O que podia durar, assim, às estimas fartas?
A vida não fica quieta. Até ele se despenhar no escuro, do barranco, mortal. Vinha de em-delícias. A mulher aqui persiste — para miar aos cães e latir aos gatos. Que é que eu tenho com o caso... Todos fazem questão de me chamar de ladrão. Cego não é quem morre?
Todos tendo precisão de mim, nos intervalos. A mulher, maluca, instando que eu a ele reproduzisse suas porvindas belezas. Seô Tomé dessas sozinhas nossas não contrárias conversas tirando ciúme, com porfias e más zangas. Mas eu reportava falseado leal: que os olhos dela permitiam brilhos, um quilate dos dentes, aquelas chispas, a suma cor das faces. Seô Tomé, às barbas de truz, sorvia também o deleite de me descrever o que o amor, ele não desapaixonava. Só sendo cego quem não deve ver? Mas o marido, imoral, esse comigo bebia, queria mediante meus conluios pegar o dinheiro da sacola... Eu, bêbedo e franzino, ananho, tenho de emendar a doideira e cegueira de todos?
Deixassem — e eu deduzia e concertava. Mas ninguém espera a esperança. Vão ao estopim no fim, às tantas e loucas. Por mais, urjo; me entenda. Aqui, que ele se desastrou, os outros agravam de especular e me afrontar, que me deparo, de fecho para princípio, sem rio nem ponte.
Dia que deu má noite. Ele se errou, beira o precipício, caindo e breu que falecendo. Não pode ter sido só azares, cafifa? De ir solitário bravear, ciumado, boi em bufo, resvalou... e, daí, quebrado ensanguentado, terrível, da terra.
Ou o marido, ardido por matar e roubar — empuxou o outro abaixo no buracão — seu propósito? Cego corre perigo maior é em noites de luares...
E seô Tomé, no derradeiro, variava: falando que começava a tornar a enxergar! Delírios, de paixão, cobiçação, por querer, demais, avistar a mulher — os traços — aquela formosura que, nós três, no desafeio, a gente tinha tanto inventado. Entrevendo que ela era real de má-figura, ele não pode, desiludido em dor, ter mesmo suicidado, em despenho? O pior cego é o que quer ver... Deu a ossada.
Ou, ela, visse que ele ia ver, havia de mais primeiro querer destruir o assombroso, empurrar o qual, de pirambeira — o visionável! Caráter de mulher é caroços e cascas. Ela, no ultimamente, já se estremecia, de pavôres de amor, às vezes em que ele, apalpador, com fortes ânsias, manuseava a cara dela, oitivo, dedudo. Ar que acontece...
Se na hora eu estava embriagado, bêbedo, quando ele se despencou, que é que sei? Não me entendam! Deus vê. Deus atonta e mata. A gente espera é o resto da vida.
A mulher diz que me acusa do crime, sem avermelhação, se com ela eu não for ousado... O marido, terrível, supliquento, diz que eu é que fui o barregão... Terríveis, os outros, me ameaçam, às injúrias... O senhor não diz nada. Tenho e não tenho cão, sabe? Me prendam! Me larguem! A mulher esteja quase grávida. Me chamo Prudencinhano. Agora o cego não enxerga mais... A culpa cai sempre é no guiador?
Só se inda hei outras coisas, por ter, continuadas de recomeçar; então Deus não é mundial? Temo que eu é que seja terrível.
E o senhor ainda quer me levar, às suas cidades, amistoso?
Decido. Pergunto por onde ando. Aceito, bem-procedidamente, no devagar de ir longe. Voltar, para fim de ida. Repenso, não penso. Dou de xingar o meu falecido, quando as saudades me dão. Cidade grande, o povo lá é infinito.
Vou, para guia de cegos, servo de dono cego, vagavaz, habitual no diferente, com o senhor, Seô Desconhecido.
Guimarães Rosa, in Tutameia

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Silva - Ainda Lembro

Buraco da fechadura

Sobraram em cena
diversas fotos calcinadas
do muito tempo que ficaram desamadas.
O verbo tombado de um verso recitado
que agora já não rima com mais nada;
um escapulário puído de tanto refrão arrependido,
o cabide desnudo no armário,
recém-despido de seu sobretudo,
uma garrafa aberta em data memoranda;
o relógio que perdeu a hora certa.
Como moldura, até onde enxerga a fechadura,
uma varanda trepada de alamanda,
onde o sol murchou de susto,
rasgado que foi pela sombra de um arbusto.
O regador vencido por ervas danadas,
que daninhas duplicam-se banais,
avisa seco que encerrou a festa,
pois lírios brancos lá não gestam nunca mais.
Flora Figueiredo

Outro fragmento apócrifo

Um dos discípulos do mestre queria falar a sós com ele, mas não se atrevia. O mestre disse:
Diga-me que pesadelo te oprime.
O discípulo replicou:
Me falta valor.
O mestre disse:
Eu te dou o valor.
A história é muito antiga, mas urna tradição, que bem pode não ser apócrifa, conservou as palavras que esses homens disseram, nos limites do deserto e do amanhecer.
Disse o discípulo:
Cometi há três anos um grande pecado. Não o sabem os outros mas eu o sei, e não posso olhar sem horror minha mão direita.
Disse o mestre:
Todos os homens pecaram. Não é dos homens não pecar. O que olhar um homem com ódio já lhe terá dado a morte em seu coração.
Disse o discípulo:
Há três anos, na Samaria, eu matei um homem.
O mestre ficou em silêncio, mas seu rosto se alterou e o discípulo pôde temer sua ira. Disse finalmente:
Há dezenove anos, na Samaria, eu engendrei um homem. Já te arrependeste do que fizeste.
Disse o discípulo:
É isso. Minhas noites são de prece e de pranto. Quero que tu me dês teu perdão.
Disse o mestre:
Ninguém pode perdoar, nem sequer o Senhor. Se a um homem o julgaram por seus atos, não há quem fosse merecedor do inferno e do céu. Estás certo de ser ainda aquele homem que deu morte a seu irmão?
Disse o discípulo:
Já não entendo a ira que me fez desnudar o aço.
Disse o mestre:
Costumo falar em parábolas para que a verdade grave-se nas almas, mas falarei contigo como um pai fala com seu filho. Eu não sou aquele homem que pecou; tu não és aquele assassino e não há razão alguma para que continues sendo seu escravo. Te incumbem os deveres de todo homem: ser justo e ser feliz. Tu mesmo tens que te salvar. Se algo sobrou de tua culpa, eu a carregarei.
O restante daquele diálogo se perdeu.
Jorge Luis Borges, in Os conjurados

Das coisas desejadas

Nenhuma das coisas que se admiram e se buscam com zelo é útil aos que as obtiveram; mas quando ainda não se as têm, imagina-se que, se acontecerem, todos os bens estarão presentes com elas; e, quando estão diante de nós, sentimos a mesma febre, a mesma agitação e aborrecimento, o mesmo desejo pelas coisas que não temos. Pois não é saciando-se com as coisas desejadas que se prepara a liberdade, é pela supressão dos desejos.”
Epicteto, in Conversa

Então era ele


Era meia-noite e lá fora o ruído da água apagava todos os sons.
Susana San Juan levantou-se devagar. Endireitou o corpo lentamente e se afastou da cama. Lá estava outra vez o peso, em seus pés, caminhando pelas beiradas de seu corpo; tratando de encontrar sua cara:
É você, Bartolomé? — perguntou.
Achou que ouviu a porta gemer, como quando alguém entrava ou saía. E depois só a chuva, intermitente, fria, rodando sobre as folhas das bananeiras, fervendo em sua própria fervura.
Dormiu e não despertou até que a luz iluminou os tijolos vermelhos, borrifados pelo orvalho entre a manhã cinza de um novo dia. Gritou:
Justina!
E ela apareceu em seguida, como se já tivesse estado ali, envolvendo seu corpo num cobertor.
O que você quer, Susana?
O gato. Veio outra vez.
Coitadinha de você, Susana.
Recostou-se sobre seu peito, abraçando-a, até que ela conseguiu levantar aquela cabeça e perguntou:
Por que você chora? Vou dizer a Pedro Páramo que você é boa para mim. Não contarei nada dos sustos que seu gato me dá. Não fica assim, Justina.
Seu pai morreu, Susana. Anteontem à noite morreu, e hoje vieram dizer que não há nada a ser feito; que já foi enterrado; que não puderam trazê-lo até aqui porque o caminho era muito longo. Você ficou sozinha, Susana.
Então era ele — e sorriu. — Veio se despedir de mim — disse, e sorriu.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

Ruído de passos

Tinha oitenta e um anos de idade. Chamava-se dona Cândida Raposo.
Essa senhora tinha a vertigem de viver. A vertigem se acentuava quando ia passar dias numa fazenda: a altitude, o verde das árvores, a chuva, tudo isso a piorava. Quando ouvia Liszt se arrepiava toda. Fora linda na juventude. E tinha vertigem quando cheirava profundamente uma rosa.
Pois foi com dona Cândida Raposo que o desejo de prazer não passava.
Teve enfim a grande coragem de ir a um ginecologista. E perguntou-lhe envergonhada, de cabeça baixa:
Quando é que passa?
Passa o quê, minha senhora?
A coisa.
Que coisa?
A coisa, repetiu. O desejo de prazer, disse enfim.
Minha senhora, lamento lhe dizer que não passa nunca.
Olhou-o espantada.
Mas eu tenho oitenta e um anos de idade!
Não importa, minha senhora. É até morrer.
Mas isso é o inferno!
É a vida, senhora Raposo.
A vida era isso, então? essa falta de vergonha?
E o que é que eu faço? ninguém me quer mais...
O médico olhou-a com piedade.
Não há remédio, minha senhora.
E se eu pagasse?
Não ia adiantar de nada. A senhora tem que se lembrar que tem oitenta e um anos de idade.
E... e se eu me arranjasse sozinha? o senhor entende o que eu quero dizer?
É, disse o médico. Pode ser um remédio.
Então saiu do consultório. A filha esperava-a embaixo, de carro. Um filho Cândida Raposo perdera na guerra, era um pracinha. Tinha essa intolerável dor no coração: a de sobreviver a um ser adorado.
Nessa mesma noite deu um jeito e solitária satisfez-se. Mudos fogos de artifícios. Depois chorou. Tinha vergonha. Daí em diante usaria o mesmo processo. Sempre triste. É a vida, senhora Raposo, é a vida. Até a bênção da morte.
A morte.
Pareceu-lhe ouvir ruído de passos. Os passos de seu marido Antenor Raposo.
Clarice Lispector, in A via crucis do corpo

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A poesia, a salvação e a vida - II

Eu vivo sob um poder

que às vezes está no sonho,

no som de certas palavras agrupadas,

em coisas que dentro de mim

refulgem como ouro:

a baciinha de lata onde meu pai

fazia espuma com o pincel de barba.

De tudo uma veste teço e me cubro.

Mas, se esqueço a paciência,

me escapam o céu

e a margarida-do-campo.

Adélia Prado

O passado

E se procurarem saber porque é que todas as imaginações humanas, frescas ou murchas, tristes ou alegres, se voltam para o passado, curiosas de nele penetrarem, acharão sem dúvida que o passado é o nosso único passeio e o único lugar onde possamos escapar dos nossos aborrecimentos quotidianos, das nossas misérias, de nós mesmos. O presente é turvo e árido, o futuro está oculto.”
Anatole France, in A vida em flor

A tia que caiu no Sena

A conversa era sobre parentes, os parentes estranhos, interessantes ou, por qualquer razão, notáveis de cada um. Alguém já tinha contado que um parente comia favo de mel com abelha dentro. Outro contara que um tio longínquo se perdera no mato e fora encontrado quase à morte depois de uma semana. Outro que um avô tinha conhecido a Marlene Dietrich em Berlim. Outro que uma tia-avó fora miss, ou um primo jogava futebol profissional e até não era ruim. Foi quando Alda, timidamente, sem saber se o que tinha para contar merecia ser contado, disse:
Eu tenho uma tia que caiu no Sena.
Ficaram todos esperando que ela continuasse, mas não havia mais nada para contar.
Como foi que sua tia caiu no Sena?
Não sei.
Mas como, não sabia?
Não sei. Sempre ouvi contarem em casa que a tia Belinha tinha caído no Sena, mas nunca perguntei como.
E a tia Belinha nunca contou?
Não. Ela foi morar em outra cidade. Nos vimos pouco. E eu nunca me lembrei de perguntar.
Ela ainda vive?
Vive.
Aquilo não podia ficar assim. Uma pessoa não podia cair no Sena e fim de história. Era preciso investigar. Caíra no Sena como? Por quê? Fora um acidente? Caíra de um barco? Caíra de uma ponte?
Alda foi intimada a descobrir tudo o que pudesse sobre a queda da tia Belinha no Sena e contar para o grupo. A mãe não ajudou.
Foi quando ela esteve em Paris...
É óbvio, mamãe. Mas quando foi isso? Ela estava sozinha? Foi com alguém?
Não me lembro.
Ela não contou como caiu no rio?
Contou. Deve ter contado. Senão como é que a gente ia saber que ela tinha caído? Contou. Mas eu não me lembro. Faz tanto tempo.
Vou falar com ela.
A tia Belinha nunca se casara. Estava internada numa clínica. Sempre fora pequena e magra e com a velhice ficara ainda menor e mais magra. Mas os olhos continuavam vivos. Fez uma festa quando viu a sobrinha.
Aldinha!
Como vai, titia?
Eu não vou mais, minha filha. Eu agora só fico.
Mas a senhora já andou bastante, hein, titia? Lembra quando foi a Paris?
Ah, Paris, Paris. Nunca mais voltei. Fiquei só com as lembranças daquela vez. As lembranças me fazem companhia e me consolam.
Como foi que a senhora conseguiu cair no rio, titia?
Que rio?
O Sena.
Eu caí no Sena?!
A senhora mesmo contou.
Meu Deus, é mesmo. Eu caí no rio. Eu caí no Sena! Como foi aquilo, meu Deus? Eu não consigo...
E seus olhos de repente perderam o brilho. Quando falou outra vez, foi para se queixar da sua memória. Nem aquele consolo lhe restava. Nem as lembranças tinha mais. Como fora que ela caíra no Sena?
Alda contou para o grupo que a tia Belinha tinha ido sozinha a Paris e lá conhecera um conde francês, ligeiramente arruinado e ligeiramente maluco, com quem tivera um tórrido caso de verão. Numa noite quente, dançando numa margem do Sena, depois de muitos copos de champanhe, os dois tinham tropeçado e…
Luís Fernando Veríssimo, in Diálogos impossíveis