sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Trecho de carta

Se nunca nasceste de ti mesmo, dolorosamente, na concepção de um poema... estás enganado: para os poetas não existe parto sem dor.
Mário Quintana

Cinco relatos e um tema

Esta história poderia chamar-se As estátuas. Outro nome possível é O assassinato. E também Como matar baratas. Farei então, pelo menos, três histórias, verdadeiras porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.
A primeira, Como matar baratas, começa assim: Queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse, em partes iguais, açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas. Assim fiz.
Morreram.
A outra história é a primeira mesmo e chama-se O assassinato. Começa assim: Queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranquila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite.
Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe.
Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. Como era para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal.
Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia.
No morro um galo cantou.
A terceira história que ora se inicia é a das Estátuas. Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e, ainda sonolenta, atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompeia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras – subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! – essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te... Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam.
Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: “É que olhei demais para dentro de mim! é que olhei demais para dentro de...” – de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo.
A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: Queixei-me de baratas.
Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva, em fila indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? Como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula até o pavilhão? No vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno.
Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: “Esta casa foi dedetizada”.
A quinta história chama-se Leibnitz e a transcendência do amor na Polinésia. Começa assim: Queixei-me de baratas.
Clarice Lispector, in A descoberta do mundo

O Filme da Minha Vida (2017) Trailer

Entrevista

Um homem do mundo me perguntou:
o que você pensa de sexo?
Uma das maravilhas da criação, eu respondi.
Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas
e esperava que eu dissesse maldição,
só porque antes lhe confiara: o destino do homem é a santidade.
A mulher que me perguntou cheia de ódio:
você raspa lá? perguntou sorrindo,
achando que assim melhor me assassinava.
Magníficos são o cálice e a vara que ele contém,
peludo ou não.
Santo, santo, santo é o amor, porque vem de Deus,
não porque uso luva ou navalha.
Que pode contra ele o excremento?
Mesmo a rosa, que pode a seu favor?
Se “cobre a multidão dos pecados e é benigno,
como a morte duro, como o inferno tenaz”,
descansa em teu amor, que bem estás.
Adélia Prado

O dia de São Nunca (trecho)

Com a palavra, o povo:
Isso só pode ser arte de Satanás.
Agora, essa. Arte de Satanás. Arte de vagabundo. Arte de moleque descarado.
Eu vi. Juro que eu vi. Uma bola grandona, que chegava a me entontecer. Eu estava chegando da roça e fiquei parado, sem conseguir ir para a frente nem para trás. Pensei que foi o sol que tinha caído. Depois a bola sumiu de repente. Quase desmaiei. Pensei até que tinha perdido a fala. Que susto. Acreditem se quiser, eu vi. E sou capaz de jurar que era o tal de disco voador.
Por que você não entrou nesse tal de disco voador e não voou com eles para São Paulo? Você não vive dizendo que quer ir para São Paulo?
Vocês não acreditam. Não tem jeito.
Chegou um sujeito aí dizendo que viu um negócio muito esquisito na estrada. Um carro que vinha a toda velocidade, com os faróis acesos, e quando chegava perto dele sumia.
Olhaí, seu delegado. Eles ainda estão por perto. As balas do seu fuzil pegam em carro encantado?
Se continuarem com essa mangação, boto todo mundo na cadeia — o delegado se enfezava. Estava a ponto de explodir.
Vai botar as pessoas erradas, delegado.
Em vez dessa fuxicaria toda, por que é que a gente não toma uma providência?
Tome você, já que está tão interessado — disse o delegado. — Tem o meu consentimento.
Ora, delegado, quem é a autoridade? — Como é que o delegado pode pegar um disco voador?
Mandando buscar outro disco voador. Na capital deve ter dúzias deles.
Quem foi que veio com essa conversa besta de disco voador?
Eu. Por quê?
Ah, foi você? Ainda bem. Assim eu acredito.
Pode acreditar mesmo.
Acredito, já disse.
Vocês não acreditam porque são uns ignorantes. Nunca ouviram A Voz do Brasil. Mas eu ouço. Todas as noites. E fico sabendo de tudo o que existe. E disco voador existe.

Sabe o que eu acho — cortou um que queria paz —, eu acho que se Humberto de Tote Vieira tivesse aqui nada disso estava acontecendo. A gente já tinha dado um jeito nesses bandidos.
E quem é esse tal de Humberto que eu não me lembro?
É um filho daqui, que mora lá pelo Sul. Trabalha na televisão. É ele quem entrevista Mao Tsé-tung, toda vez que Mao Tsé-tung vem passear em Copacabana.
E quem é esse diabo desse Mau-não-sei-quê? Oxe!
Tá vendo? Aquele ali é quem tem razão. Vocês não sabem nada porque não ouvem A Voz do Brasil.
E o que é que esse Humberto ia fazer?
Ia dar a notícia nas rádios e na televisão e aí as polícias, mais para adiante, iam barrar os paulistas. Vocês não sabem que as estradas têm barreiras? É nas barreiras que se pega os fugidos da polícia.
É verdade isso, delegado?
Ele não respondeu. Queria dar um fim ao caso, mas não sabia de que jeito. O povo daqui é assim: quando agarra num assunto, vai com ele até o resto da vida. Neste lugar nunca aconteceu nada que desse trabalho à polícia. Aconteceu a vinda destes três forasteiros. Para a desgraça do delegado. O povo reclama, pede justiça. O povo põe a culpa nele. O delegado está a ponto de ficar louco. Ameaça se retirar. Queria sumir das vistas desta gente. Não permitem a sua saída. Sempre senhor de seus atos, o delegado agora é um escravo de todos. Pensa: “Que droga. Por causa de três paulistas desocupados e de um menino aleijado. Uma tempestade num copo d’água.”
Não vá já, não, doutor. Queremos lhe ajudar.
Ajudar em quê? Agradeço muito a boa intenção, mas não estou precisando de ajuda.
O caso, delegado, é que a mãe do menino tá com a bola frouxa. Ela diz que vai amanhã na capital. Vai dar queixa do senhor ao Governador. E ela vai mesmo. Já conseguiu até o dinheiro emprestado para fazer a viagem.
Deixa ela ir. O que é que eu posso fazer?
Pode prender essa velha, não pode? Pode prender até por desacato à autoridade. Ela não lhe xingou na cara de todo mundo? Amarre ela na cadeia que ela não vai.
O conselho era malicioso e o delegado sabia disso. Agora preparavam-lhe uma armadilha.
Isso é um absurdo — interveio um dos homens, disposto a tudo. — Os moleques à solta e a mãe do menino na cadeia? O povo vai se revoltar.
Já estou revoltado — disse o do disco voador. — Essa conversa toda já está me deixando revoltado. Quanto mais a gente fala, mais eles fogem. E ninguém faz nada.
Quem foi que falou em Humberto de Tote Vieira?
Eu.
Então por que você não passa um telegrama pra ele? Talvez já resolvesse. O negócio da notícia na televisão.
Telegrama? Tá sonhando. Só se passa telegrama daqui a 15 léguas. Neste buraco até carta só sai de oito em oito dias. Não me diga que você não sabe disso.
Eu estava apenas dando uma ideia.
Com ideias assim, sabe o que você deve fazer?
Calma lá, calma lá — disse o delegado. — O primeiro que abrir a boca sobre este assunto vai pra cadeia. Estou falando sério. Meto todo mundo na cadeia. E quem me desrespeitar...
Diga, delegado: leva bala. Quem me desrespeitar, leva bala. Diga isso da sua própria boca.
Isso mesmo. Quem me desrespeitar, leva bala. Passo fogo em todo mundo. — O delegado repetiu a ameaça umas três vezes, talvez para ter certeza absoluta de que era o que lhe restava fazer. E todos viram a praça em guerra, a velha praça esfarrapada, pobre e quieta que dormitava há mais de um século, porque nasceu sossegada e parecia que viveria sossegada até o fim do mundo. Ia ser um flagelo. Há poucas horas ninguém haveria de pensar numa batalha por aqui, e esta batalha estava por arrebentar, para nossa própria surpresa. A cena era confusa, como num sonho. De um lado o delegado e seus dois soldados, atirando a esmo. De outro lado homens, mulheres e crianças, com seus cachorros, pedras, paus, estilingues e espingardas de caçar codornas. O delegado e os dois soldados eram pouco, mas iam dar muito trabalho. Suas armas eram mais perigosas, todos sabiam. Mas não houve guerra, não foi desta vez que o lugar arrebentou. E não houve por uma razão muito simples: o delegado se retirou, sem dar maiores satisfações. Provavelmente ia para a cama. Ia contar carneirinhos até o sol raiar.
Antônio Torres, in Meninos, eu conto

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Vander Lee - Versões Inéditas

Terrae vis

Amigo meu, homem viajado e sensível, assegura-me que — se o levassem, de tapados ouvidos e olhos, a uma das muitas cidades deste mundo dele conhecidas — ainda assim a identificaria, e imediatamente. Acho bem possível. Digo mesmo que também me sinto capaz de às vezes não errar, em o caso. Não que prometa reconhecer todos os lugares onde já tenha estado; mas, pelo menos quanto a uns oito ou sete, posso quase garantir. Aliás, já devem ter escrito sobre o assunto. Tudo está nos livros. Cícero, por exemplo, no De Divinatione, refere que era “uma força emanada da terra” o que animava a Pitonisa, e acresce: “Não vemos que são várias as espécies de terras? Delas há que são mortíferas, como Ampsanctus, no país dos Hirpinos, e Plutônia, na Ásia, as quais eu mesmo vi. Há terrenos pestilentos, e há os salubres; alguns engendram homens de espírito agudo, outros produzem seres estúpidos. Esse é o efeito dos diferentes climas, mas também da disparidade dos eflúvios terrestres.”
É isto: irradiações telúricas — aspirationes terrarum. Sei que eu e o supradito amigo, para a enunciada façanha, dispensaremos outras sensações: as dadas do ar, do tempo, do magnetismo planetário, do espectro solar, ou — ódicas, fisioelétricas e prânicas — das propagações dos objetos e dos humanos entes: enfim, do mais que, mana à parte, ajuda a compor esse buquê difuso, aura, “atmosfera”. Bastam-nos as invisíveis forças que sobem do chão, que estão sempre vindo de baixo.
E essas talvez expliquem muita coisa. Em duas ocasiões, voando sobre os Andes, a uma altura entre 4 e 5 mil metros, não deixei de interceptar a torva soturna emissão daquelas lombadas cinéreas, desertas e imponentes. Juro que não se tratava de sugestão visual, mas de uma energia invariável, penetrante e direta, paralisadora de qualquer alegria. Por isso, não me espantou ouvir, tempos depois, este slogan repetidíssimo: “En la cárcel de los Andes...” E, do que sabia, mais me certifiquei, quando vim a ler nas Meditações Sul-Americanas de Keyserling: “Nas alturas das cordilheiras, cujas jazidas minerais exalam ainda hoje emanações como as que antigamente metamorfosearam faunas e floras, tive consciência da minha própria mineralidade.”
Demais, foi Keyserling mesmo quem escreveu, da Cidade Maravilhosa: “O ambiente do Rio de Janeiro é um puro afrodisíaco...” Creio verdade. Menos afrodisíaco, contudo, que, digamos, que o da terráquea Poços de Caldas — seguramente um dos lugares brasileiros mais abençoados pela risonha filha de Júpiter. E note-se que, contra quaisquer aparências, todo o chão da América, de Norte a Sul, funciona, a rigor, como anafrodisíaco, segundo os entendidos e as observações menos superficiais, atuais e históricas.
Mas, por falar em matéria de solo base própria para o amor, consta que nenhum melhor, e mais notório, que o de Paris, o de toda a Ile-de-France. — “Ici chez nous, vous le savez, l’amour c’est endémique...” — declarava-me uma estudante de medicina, funcionária do Musée de l’Homme. Todo o mundo sabe disso. Ali o amor dá, mesmo não se plantando. E, que é do chão, é. Se algum dia, o que Deus não deixa, destruíssem a cidade, até à qualquer pedra, depressa os amorgostosos de toda a parte viriam reconstruí-la, por mundial erótica necessidade.
Outras cidades há com menos grato fundamento. Diz-se, e diz-se muito, que três delas, na Europa, são essencialmente, terrestremente, deprimentes, tristes, tristifadonhas: Lião, Liverpool e Magdeburgo. Liverpool não conheço, mas toda a gente confirma que ela é aquilo mesmo: chega dá spleen até em seus filhos. Lião — se bem seja terra de mulheres bonitas e comidas gostosas — é, e os próprios lioneses não o negam, tristonha realmente, sem cura. Em Magdeburgo passei uma noite, e noite pesadíssima, mas era Sexta-Feira da Paixão, e aquela em que a Albânia foi invadida por Mussolini; seu tom lembrou-me o de Belo Horizonte — a qual, não obstante o clima ótimo, há de ser sempre propensa à melancolia e ao tédio, como em geral os lugares férreos, assim como são simpáticos e alegres os calcários: Corumbá, Paris mesma, Cordisburgo.
Niterói, alguém já me observou que sua superfície incita aos crimes. Discordo. Niterói é boa. De Chicago, ouvi outro tanto, e afirmam que sua gente se mostra a mais rude e egoísta dos Estados Unidos. Pode ser, ignoro mas, no caso, não se saberá se a celerada influência é bem terrânea, ou se se origina dos mil miasmas astrais, elementais ou larvas, que se evolam do sangue de tantos matadouros.
Em favor da tese, citem-se também Siena e Florença, ambas toscanas, ex-etruscas, e tão vizinhas, mas discrepadas, dissimilíssimas — uma realista, positiva, e a outra mística — conforme em tudo se ostentam, a principiar pelas artes respectivas.
Caso indubitável é o de Weimar: de seu subsolo, sente-se logo, vêm ondas de harmonia e de inspiração espiritual. Goethe o sabia, sabia-o Schiller. E também os que a escolheram para sítio de elaboração da Constituição do IIº Reich. Weimar é a Barbacena alemã, se não europeia. Intelectualizante e amena. Apenas — isto sim — que Barbacena, a Weimar nossa, talvez outrora excitasse um pouquinho mais, no que toque à política.
Outros e vivos exemplos haveria a citar, muitíssimos a estudar, pois a ciência é nova, anda ainda empírica. Mas séria. Sua importância é fundamental, obviamente. Não é à toa que os hindus de alta casta, quando de sua Índia se ausentavam, deviam mandar preparar calçados especiais, com um pouco da poeira do país entre duas solas.
Até, na minha Minas, quando o capiau faz para si a casinha, terra-a-terra, elege como sítio o batido limpo dos malhadores, ali onde — ele diz — “nada de ruim nem maldito governa de se aparecer”. De gente do Rio Grande do Sul, pastoril também, já ouvi assim isto. E que é que de ruim ou maldito gaúcho e mineiro receiam irrompa, que não nos pontos que o gado sábia-instintivamente escolhe para sua ruminada e dormida?
Afinal, hoje em dia está mais ou menos provado que tudo irradia. Como não irradiará então o chão, com sua imensa massa, misturada de elementos? Irradia, pois, conforme o que conforme. Tenhamo-lo.
Guimarães Rosa, in Ave, palavra

Tempo perdido

O tempo que você gosta de perder não é tempo perdido.”
Bertrand Russell

A última tontura do moço tonto

A vida é um beijo doce em boca amarga.
Depoimento do feiticeiro

Nessa manhã, ao chegarmos à pensão, fomos surpreendidos por um choro. Provinha do quarto de Temporina. Encontramo-la debruçada sobre o lavatório. Parecia ter vomitado. Mas não: ela simplesmente cuidava que cada lágrima não tombasse no chão. Diz-se que lágrima de enfeitiçada faz nascer no solo as mais estranhas coisas. Ficamos em respeito, esperando que as lágrimas escoassem do rosto para a louça branca. Depois, ela passou as mãos pelo rosto e falou:
Mataram meu irmão.
Seu único irmão, o moço tonto que herdara os bens de Hortênsia. A notícia era triste e colocava um novo elemento em toda aquela estória. O moço explodira. Desta vez, porém, era uma explosão real, dessas a que a guerra já antes nos havia habituado. Tão simples quanto cruel: o moço pisara uma mina e as suas pernas se separaram do corpo como um esfarrapado boneco de trapos. Antes de chegar qualquer socorro ele se esvaíra em sangue. O italiano, nervoso, me sacudiu:
Foi essa a explosão que ouvimos ontem em casa de seu pai.
Em súbita decisão, Temporina enrolou uma capulana sobre a saia e proclamou:
Vou sair!
Você não pode, Temporina.
Ainda lhe segurei o braço. Mas não fui capaz de a prender. Ela desapareceu no corredor. Intentei seguir no seu encalço. Em vão: ela já se havia solvido entre as ruas. Voltei ao quarto de Massimo Risi e, de novo, senti aquele presságio que me assaltara aquando do primeiro rebentamento. Na cama do italiano, papéis revolvidos se acumulavam. Massimo, em desespero, revirava as papeladas.
Veja!
Apontava os papéis e as fotos espalhados. Veja, veja, repetia. Apanhei umas folhas ao acaso. Eram papéis em branco.
Não está nada escrito aqui.
Exatamente. E veja as fotos!
Eram papéis de fotografia, mas em branco. Era esse o mistério — aqueles papéis e aquelas imagens não eram virgens. Até ali estavam maculados por letras, por imagens gravadas. Aqueles eram as provas, os materiais que o italiano acumulava para mostrar aos seus chefes.
Isto tudo se apagou?!
Tem a certeza que não são outras folhas?
Massimo se agarrou à cabeça:
Estou ficando maluco, não aguento mais.
Se queixou de uma violenta dor de cabeça. Sugeri que saíssemos a apanhar ares. Mas o italiano não tinha tempo para vagueações. Saíamos, sim, rumo à administração para saber novidades.
No caminho tivemos o extraordinário encontro: padre Muhando, liberto, vagueando pelas ruas aos berros. Ainda o tentamos interpelar, mas ele sacudiu-nos. Vociferava, possesso, contra Deus. Ele ter levado o miúdo tonto, inominado, isso era imperdoável. Que Ele lhe havia de pagar, aqui na terra pois o céu é demasiado tarde. O italiano se admirou: afinal, o padre desistira de estar preso, se demitira do sonho de sair?
Aqui não há verdadeira prisão — expliquei ao italiano.
À entrada do edifício cruzamo-nos com Zeca Andorinho, o mais poderoso feiticeiro da região. O homem saía furtivamente do gabinete do administrador, conforme as ordens que lhe haviam sido dadas. De cada vez que o mundo estremecesse, ele devia passar pela casa dos chefes a tratar o lugar, afastando os maus-olhados.
Zeca Andorinho nos fez sinal para que o seguíssemos e foi andando, rosto escondido. Nós caminhávamos à sua trás até que ele parou no abrigo de uma sombra. Dando de caras conosco, fixou o estrangeiro como se o reconhecesse. Primeiro, falou na sua língua. Propositava, pois ele falava português. Só depois de umas tantas frases se dirigiu em português ao italiano.
Eu já lhe vi.
Deve ter sido por aí — respondeu Massimo Risi.
Não, vi-lhe lá na minha casa.
Impossível, nunca fui lá — e me pedindo confirmação: — Fomos lá alguma vez?
Entre, que essa luz lhe faz ainda piorar a dor da cabeça.
Massimo se perturbou. Como sabia ele de sua enxaqueca?
Entre, aqui no escuro você se sente melhorzito.
Estávamos à entrada de uma das duas casas de Andorinho. Massimo entrou, ficando à espera que o outro dissesse o que havia a fazer. O feiticeiro ordenou que estendesse as pernas e se descalçasse. Desta vez, tive mesmo que traduzir. O feiticeiro deixara de falar português. Passou a usar a língua local, se exprimindo com olhos cerrados:
Há uma mulher que veio ter comigo.
Que mulher?
Ela me pediu que eu fizesse um serviço.
Fiz sinal ao italiano para que não falasse. O feiticeiro já não lhe daria ouvidos. O velho, sempre de pálpebra descida, parecia variar sobre assunto não chamado. Disse que havia feitiços chamados de likaho. Uma diversidade desses feitiços, cada qual feito de diferente animal. Havia likaho de lagarto: os homens inchavam no ventre. Sucedia o mesmo com os ambiciosos — os fulanos eram comidos pela barriga. Havia o likaho de formiga e os enfeitiçados emagreciam até ficarem do tamanho do inseto. O italiano me olhou de soslaio e eu adivinhei o seu receio. Seria aquele o feitiço que o visitara no seu pesadelo? Zeca Andorinho ensaiou uma pausa, como se ponderasse a confissão. Depois, falou:
Agora esse likaho dos soldados é de sapo.
De sapo?
Os tipos engordam até ficarem como o imbondeiro. E depois eles já não cabem no tamanho e se arrebentam.
Fazia esse feitiço por encomenda dos homens de Tizangara. Ciúme dos locais contra os visitantes. Inveja de suas riquezas, ostentadas só para fazer suas esposas tontearem. Carecia-se de castigo contra os olhares compridos dos machos estrangeiros. Sobretudo, se fardados de soldados das Nações Unidas.
Foi este feitiço que usei contra esses gafanhotos.
Massimo já sabia: os gafanhotos eram os capacetes azuis. Afinal, aquele feitiço começava onde todo o homem começa — no namoro. À medida que ia avançando ficava quente e o seu corpo se desconformava. O enfeitiçado inchava, sem dar conta. Crescia como o sapo face a seu próprio medo. Até que, no preciso momento do orgasmo, explodia.
O feiticeiro, por fim, abriu os olhos e revisitou a sala como se acabasse de entrar. Fixou o estrangeiro e lhe sorriu:
Agora, lhe pergunto uma indelicadeza.
Esteja à vontade.
Você namorou com aquela moça-velha do hotel...
Não. Eu só sonhei.
Diga-me, de homem: só sonhou mesmo? Na sua roupa não aconteceu nada?
O italiano ficou calado. No seu rosto se lia a pergunta: então, por que não explodira? Mas ele estava tão medroso que não articulou palavra. O feiticeiro respondeu à pergunta que ele não fizera.
Você recebeu um tratamento.
Tratamento?
O senhor está imunizado. Fui eu que lhe fiz o likaho do cágado. Para lhe proteger.
O senhor me enfeitiçou? E por que razão o fez? — Foi uma mulher que encomendou o serviço de lhe vacinar.
Massimo misturava medos com receios, pavores com temores. Medo do desconhecido, receio de acreditar, pavor das doenças, temores dos feitiços. Ele só repetia:
Uma mulher?
Deixe isso, meu irmão.
Mas que mulher?
Escusa: você nunca irá saber.
Pergunto mais uma vez: que mulher?
Você não quer saber desses gajos, os explodidos? Então, ligue a sua máquina que eu vou falar sobre o caso do zambiano. E dos outros, também. Ligue lá o gravador. Mas, a propósito, não trouxe uma garrafinha para soltar a palavra?
Mia Couto, in O último voo do flamingo

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Quase balada (Romance) - (Do morto que amou a morte)

Para as Festas da Agonia
 
Vi-te chegar, como havia
Sonhado já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
sem saudade, pena, ou ira;
teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória.
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena —
Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.

ENVOI
Ide, Palavras, cantar,
No mar, nas praias, no porto,
O amor da Morte e do Morto
Que a Vida não quis amar.
Mário Faustino

Chico Brown - Por dentro de "Massarandupió" (Chico Buarque - Caravanas)

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Não existe no mundo tanta gente como o número de ordem que me deram no cartão de identidade, que não vou te mostrar porque não poderias lê-lo antes de o ter dividido da direita para a esquerda em grupos de três, para depois o pronunciares cuidadosamente da esquerda para a direita. Sei que o mesmo acontece contigo, mas que te importa, que nos importa isso — antes que um dia nos identifiquem a ferro em brasa, como fazem os estancieiros com o seu gado amado?
Esse número, de quintilhões ou quatrilhões, não me lembro mais, me faz recordar que venho desde o princípio do mundo, lá do fundo das cavernas, depois de pintar nas suas paredes, com uma habilidade hoje perdida, aqueles animais que vejo nos álbuns, milagre de movimento e síntese. Agora sou analítico, expresso-me em símbolos abstratos e preciso da colaboração do leitor para que ele “veja” as minhas imagens escritas.
Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas. Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha, nem desconfia que se acha conosco desde o início das eras. Pensa que está somente afogando os problemas dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar inquietação do mundo!
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

Falar

Há um princípio para o falar que tento obedecer, mas não consigo. No entanto, acho-o absolutamente correto: “Só fale se sua fala for melhorar o silêncio”. Se a sua fala não melhorar o silêncio, é preferível ficar calado, para que o silêncio seja ouvido. Estou me exercitando nesse princípio e acho que estou falando cada vez menos. Até se queixam de mim como sendo má companhia em festinhas alegres.
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

A bela ninfa do bosque sagrado


Hollywood, novembro de 1946: A noite é alta, Ciro’s terminou e estamos todos - um destacado grupo de “estrelas” e “astro”", entre os quais sou um modesto meteorito - na casa de Beverly Hills de Herman Hover, o notório dono da famosa boate de Sunset Boulevard. Vou nas águas de minha amiga Carmen Miranda, com quem saí e a quem, como um cavalheiro que sou, depositarei em sua vivenda de Bedford Street. Lá estão também as figuras ciclópicas de José do Patrocínio de Oliveira, o não menos conhecido Zé Carioca, e seu sonoplástico parceiro Nestor Amaral, ambos homens dos sete instrumentos, sendo que este é capaz de tocar o Hino Nacional batendo com um lápis nos dentes e o “Tico-tico no fubá” mediante pequenos cascudos acústicos aplicados no cocuruto - tudo diante de um microfone, bem entendido.
Carmen está quieta, sentada no braço de minha poltrona. Tornamo-nos rapidamente grandes amigos. Celebramo-nnos com o devido foguetório quando nos encontramos e uma vez juntos temos assunto para conversas intermináveis, sempre salpicadas de história sobre seus inícios como cantora, que me encantam. Sua verve é inesgotável e ninguém imita como ela antigas situações marotas em que se viram envolvidos, nos primeiros contatos com o público, seus velhos companheiros Mário Reis, Francisco Alves e Ari Barroso, na fase renascentista do samba carioca. Aprendi a querer-lhe muito bem e admirar a coragem com que enfrenta, ela uma mulher toda sensibilidade, a tortura de se ter tornado um grande cartaz comercial para Hollywood e de ter de sorrir à boçalidade, com raríssimas exceções, dos produtores, diretores, cenaristas, cinegrafistas, iluminadores e demais mão-de-obra dos estúdios. : Mas hoje Carmen está quieta. Seus imensos olhos verdes se horizontalizam numa linha de cansaço, quem sabe tédio, daquilo tudo já “tão tido, tão visto, tão conhecido”, como diria Rimbaud. Cerca de nós, o ator Sonny Tuffs toca um piano mais bêbedo que o do genial Jimmy Yancey nas faixas em que foi gravado sem saber. Depois seu corpanzil oscila, ele se levanta só Deus sabe como e sai por ali cercando frango, não sem antes abraçar à passagem a atriz Ella Raines, que compareceu de noivo em punho e deixa-se estar com este a um canto, com um ar de Alicinha que só enganaria os drs. Sobral Pinto e Albert Schweitzer.
Numa poltrona a meu lado estira-se, com um viso suficientemente decomposto, o magnata Howart Hughes. Troco duas palavras com ele, mas o tedioso multimilionário e playboy, descobridor e bicho-papão de “estrelas”, me parece muito mais interessado em Ella Raines - espécie de Grace Kelly de 1940, só que menos pasteurizada. Deixo-o, pois, à sua nova conquista, enquanto no meio da sala, Zé Carioca e Nestor Amaral "se viram" para chamar a atenção sobre os seus dotes de instrumentistas. Mas a pressão geral é grande e cada um procura cavar o pão da noite como pode, enquanto Herman Hover passeia com um ar de Napoleão em Marengo. Há propostas para um banho de piscina, para um concurso de rumba e outras trivialidades, mas ninguém topa mesmo porque o Sol (ou melhor “Ele”, como dizem com o maior nojo meus amigos Américo e Zequinha Marques da Costa) já deve, contumaz ginasta matutino, estar pendurado à barra do horizonte para a sua atlética flexão de cada dia. O ambiente se está nitidamente desgastando em álcool e semostração.
Vou propor a Carmen irmos embora quando uma cortina se entreabre e surge uma mulher espetacular. Não creio que ninguém houvesse reparado, mas a mim ela me pareceu tão linda, tão linda que foi como se tudo tivesse de repente desaparecido diante dela.
Fiquei, confesso, totalmente obnubilado ante tanta beleza, muito embora essa beleza se movimentasse, por assim dizer, um pouco à base da dança a que chamam quadrilha: dois passinhos para diante e três para trás com direito a derrapagem. Mas o que o corpo fazia, o rosto desconhecia; pois esse rosto tinha mais majestade que Carlos Machado entrando no Sacha's. Ela olhou em torno com um soberano ar de desprezo e logo, dando com Carmen, tirou um ziguezague até ela, vindo postar-se no esplendor de todo o seu pé-direito justo diante de mim, coitadinho que nunca fiz mal a ninguém.
- Hey, Carmen - disse ela.
- Hey, honey - respondeu Carmen com o seu sorriso no 3.
- Gee, Carmen, I think you're wonderful, you know. I think you're tops, you know. Tops. You're terrific.
Para quem não sabe inglês, esse diálogo inteligente exprimia a admiração da moça por Carmen, a quem ela chamava de “do diabo”, de “a máxima” e toda essa coisa. Passado o quê, dá ela de repente comigo lá embaixo, pobre de mim que tive bronquite em criança, e olhando-me por cima de suas pirâmides, fez-me a seguinte pergunta num tom de rainha para vassalo:
- Who are you? (- Quem é você?)
Declinei minha condição de modesto servidor da pátria no estrangeiro, o que não pareceu interessá-la um níquel. Em seguida, sem aviso prévio, ela debruçou-se a ponto de eu poder ver o algodãozinho que havia juntado no seu umbigo, pôs as mãos sobre os meus braços, trouxe o rosto até um centímetro do meu e cuspindo-me todo como devia fez-me a seguinte indagação:
- Do you think I'm beautiful? (- Você me acha bonita?)
Fiz-lhe os elogios de praxe. Ela esticou-se novamente e concordou comigo:
- You're right. I’m very beautiful. But morally, I stink! (- Você está certo. Eu sou muito bonita. Mas moralmente eu... como traduzir sem ofender tanta beleza, tirante os ouvidos do leitor? - não cheiro muito bem.)
Dito o quê, partiu como chegara, através da mesma cortina, para onde suponho houvesse um bar privado. Só sei que aquilo deu-me uma grande animação, a festa continuou até “Ele” raiar e eu acabei dançando com a linda moça, ela bastante mais alta do que eu, o que permitia ouvir-lhe bater o coração, de resto levemente taquícárdico. Antes de sair vi vários casais no Jardim que não se sabia mais quem era quem, vi Sonny Tuffs atravessado num sofá, vi coisas como só se vê em baile de carnaval. Festinha familiar, como diria a finada dona Sinhazinha.
Fora perguntei a Carmen se ela sabia quem era a deusa.
- É uma atriz nova que está entrando agora. Bonita, não é? Chama-se Ava Gardner.
Vinicius de Moraes, in Para viver um grande amor