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08/11/2017

Um sujeito monstruosamente esperto (trecho)

A canção terminou e sentei ereto na cadeira. Havia uma garota à minha direita que eu não tinha notado até agora. Suas pernas estavam embrulhadas numa meia colante cor de pólvora, tinham curvas sedutoras, mas os joelhos eram ossudos e cadavéricos. Seu vestido era de um tecido de feltro escuro e ela vestia um corpete branco com uma jaqueta esporte escura. Seus dentes eram grandes, cintilavam com vigor, mas não eram pequenos o suficiente para serem escondidos naturalmente pelos lábios. Seus cabelos tinham a cor de fios de cobre despidos de sua cobertura isolante. Contas de imitação de topázio pendiam do seu pescoço, combinando belamente com seus cabelos e olhos castanhos.
Levantando, inclinei-me levemente na direção dela. Tentei parecer amigável.
— Poderia dançar esta comigo?
— Por que não? — ela disse. — É uma música bacana.
A canção era um foxtrote lento.
— Só um minuto — falei.
Ela estava de pé quando voltei da bilheteria.
Seus olhos estavam no nível da minha testa. Passamos pelo portão, entreguei ao fiscal um tíquete e deslizamos pela pista. Suas pernas eram rijas e vigorosas e acompanhavam meticulosamente meus passos vacilantes. Meus dedos, na parte baixa de suas costas, moviam-se como teclas de piano automáticas enquanto seus músculos subiam e desciam. Seu pó de arroz e seu rouge exalavam um odor adocicado. Eu o cheirei ansiosamente.
— Já não o vi antes? Em Stanford?
Era uma universitária. Eu não ia contar a ela que era estivador. Esperava que não sentisse os calos em minhas mãos e relaxei os dedos da mão esquerda.
— Sem dúvida — menti —, sou inundado por erudição naquele glorioso instituto.
Ela riu.
— Você dança exatamente como um homem de Stanford.
— Isso é um cumprimento?
— Com certeza!
Sua maldita mentirosa, pensei.
— É, sim — disse. — Nós, filhos de Leland, somos ruins das duas pernas.
— Você fala exatamente como um professor.
— Sim, e essa é minha posição em Stanford — falei, num tom obviamente jocoso.
— Poxa, mas você é muito jovem.
Meu Deus, ela acredita em mim. De fato, sou um sujeito monstruosamente esperto, ou melhor, ela é uma garota monstruosamente burra.
— Eu me formei no ano passado. É meu primeiro ano como professor.
— O que ensina?
— Comunismo.
Estava seguro de que sabia mais sobre comunismo do que ela.
— Ora, seu bandido. Comunismo é contra a lei.
— Que lei? — perguntei, surpreso. — Não ouviu falar na Declaração de Direitos?
— Bem, você sabe — disse ela timidamente. — Sempre pensei que fosse contra a lei.
— Que absurdo! Incrível!
— Deve achar que sou terrivelmente burra.
Ela estava na defensiva. Eu podia ver Jurgen sorrindo.
— Oh, não. Não é um erro muito sério — e então falei com suavidade. — Mas você sabe, querida, Jeová não cometeu erros quando Ele criou você, não é verdade?
Dançamos cinco números sucessivos e, quando deixamos a pista, ela me chamava de professor. Meu nome, eu disse, era professor Cabell.
Tomamos leites maltados e sentamos no canto escuro do salão, quase atrás do estrado da orquestra. Seu nome era Nina Gregg e cursava uma pré-faculdade local. Mas logo me cansei de sua burrice, porque não havia ninguém para quem eu a pudesse demonstrar.
Beijei-a muitas, muitas vezes. Era um belo esporte beijá-la. Tinha lábios que eram massas vermelhas macias e eram doces e grudentos, agarrando-se aos meus como devia acontecer nos beijos. Ela jogou seu corpo com descuido e vontade e gostei muito daquilo, porque nunca tinha beijado uma universitária antes, e, tendo zombado do lendário ardor das estudantes em livros, achei essa realidade extremamente deleitável e surpreendente. Quando nossos lábios se fundiram, ela botou os braços em volta do meu pescoço e seus dedos afundaram na pele frouxa de minhas costas.
Depois de meia hora disso, pedi a ela que caminhasse comigo ao longo da praia, mas ela positivamente se recusou com um sucinto “Nunca!”.
Fiquei zangado e quase esqueci que era um professor.
A seguir, implorei a ela.
— Não. Não vou sair deste salão.
— Por que não?
Discutir com ela não daria certo. Havia me excitado de tal maneira que minhas têmporas latejavam. Encostei-me para trás, fechei os olhos e tentei pensar em melhores persuasões. Ela também relaxou, jogando a cabeça por sobre o encosto do banco.
Olhei para suas coxas. Uma liga vermelha despontou debaixo da barra do seu vestido.
Sem que ela notasse, estendi a mão, puxei o elástico com os dedos, estiquei-o e o soltei.
A liga estalou de volta, pinicando-a. Atônita, agarrou minha mão exclamando: — Ora, professor!
— Dez milhões de desculpas.
— Devia se envergonhar — disse ela.
— Você não devia exibir suas coxas. Eu só a estava acautelando.
Continuou segurando minha mão e sua palma estava dentro da minha. As pontas de seus dedos moviam-se suavemente sobre os calos e sua mão enrijeceu, como que se afastando de algo repulsivo. Aquela manhã, antes do trabalho, eu tinha furado as bolhas e aplicado tintura de iodo para impedir que a pele interna empolasse. Não podia trabalhar com luvas. O rompimento das bolhas deixara arestas e crostas, como a pata de um animal, de modo que esfregar minha palma no antebraço deixava marcas de arranhão.
A garota abriu minha mão e a pousou sobre o seu joelho.
— Céus — disse. — Que mãos horrorosas. O que foi que você fez com elas?
As manchas de iodo pareciam sangue coagulado. Não pude pensar numa evasão.
— Ora, não é nada — disse.
— Claro que é alguma coisa.
Ela se pôs de pé e bateu com as mãos dos lados do corpo.
— Vamos, você está mentindo para mim.
Ficou muito furiosa. Os tendões no seu pescoço incharam.
— Mentindo? — Eu continuava sentado.
— Você não é professor nenhum. Você não passa de um cavador de valas, motorista de caminhão ou coisa parecida.
— E daí?
— E daí? Olhe para suas mãos. Olhe para sua velha jaqueta de lenhador. Você não é professor. Você é um mentiroso. É o que você é. Um mentiroso safado.
Ela estava quase berrando. Seus olhos começaram a lacrimejar. Fiquei calado, mas se estivéssemos sozinhos eu a teria surrado. Olhei como um tolo para as palmas de minhas mãos maceradas e tentei sorrir. Muitas pessoas nos observavam. Vi uma velha de óculos que sorriu. Do que está rindo, pensei, seu arcaico saco de ossos. Então tentei encontrar palavras para modelar minha situação em literatura, mas tudo o que pensei foi profanação, e meu punho contra a boca da garota. Pensei numa ideia para uma história, em que o homem mata a mulher, e me perguntei se meu caderno de anotações estaria por perto para que pudesse botar no papel a ideia. Pensei que se eu quisesse um dia me lembrar do incidente com complacência eu deveria ficar de pé e dar um tapa na cara da garota, pelo menos. Em vez disso, eu falei: — Me desculpe. Sinceramente, me desculpe.
— Oh, pede desculpas, não é? Seu mentiroso safado.
Deus, pensei, é a única acusação que ela conhece?
Sua mão direita afastou-se do quadril e as costas da mão espancaram meu rosto. O golpe causou coceira e dor.
Pulei de pé. Queria derrubá-la. Mas, anotei mentalmente: “A mão dela disparou e ele sentiu uma dor aguda debaixo dos olhos e pulou de pé.”
Resmungando xingamentos, sentei-me de novo, lançando olhares de soslaio hostis à audiência estupefata. A garota tinha desaparecido na multidão.
Subitamente pensei em Nietzsche e Cabell e Nathan e Lewis e Anderson e muitos mais. Que se dane Nietzsche. Que se dane o grande Mencken. Dane-se Cabell. Dane-se o danado bando. Eu devia ter feito a megera em pedaços. Qual é o problema de minhas mãos? Dane-se meu pai. Dane-se minha mãe. Que eu mesmo me dane. Por que não bati nela? Por que não lhe dei um trambolhão? Seja duro — Ah, Nietzsche, vá embora, sim? Pelo amor de Deus, me deixe em paz por um minuto. Conceitos do bem e do mal são apenas meios para atingir um fim. Tudo o que é bom emana da força, do poder, da saúde, da felicidade e da venerabilidade. O que quer dizer com venerabilidade? Não temor. Não, ele quer dizer cheio de respeito. Eu devia tê-la matado. Jurgen é de fato um sujeito monstruosamente esperto. Pelo menos ela pensou que eu era um professor. Eu devia tê-la chamado de pusilânime ou ignorante, pelo menos. A definição de um homem educado por Everett Dean Martin é bem correta. A igualdade sexual deveria continuar — mas que diabo eu poderia fazer? Nietzsche diz que no fundo os sexos são antagônicos. Gostaria de botar minhas mãos sobre ela durante dois minutos. Devia estar em casa. Preciso escrever setecentas palavras e ler cinquenta páginas.
John Fante, in A grande fome: Contos (1932-1959)

29/10/2017

"Eu não sei por que, mas quero saber por que"

Pensei: a Irmã Mary Ethelbert adorava esta canção. Ela a tocava no órgão quando eu estava no quarto ano. E está em um convento no Wyoming. Reza por mim toda noite. Esta canção sempre me lembra dela. Neste exato momento provavelmente está rezando por mim. E, Deus, que paradoxo, toda vez que penso nela, penso em ir para a cama com ela. O que Jurgen dizia? Agora a história se desenrola — não. Não é isso. Sim. “Não há lembrança menos satisfatória do que a lembrança de alguma tentação à qual resistimos.” Mas isso é um pouco maldoso para com a Irmã Ethelbert. E ela reza por mim. E minha mãe está em casa agora rezando por mim. E também padre Benson em St. Louis e Paul Reinert e Dan Campbell. Por que deviam ser padres? Se vissem os livros de E. Boyd Barrett, eles os queimariam, mas não os leriam. Eu devia estar em casa lendo e escrevendo. Vou ter de ficar acordado até tarde esta noite se desejo escrever setecentas palavras. Tenho de escrever, escrever, escrever. Eu deveria ir para a cama cedo. Os barcos de aço amanhã. Odeio o maldito do aço. Corta minhas mãos em tiras. Que diabo. Eu devia me sentir com sorte por ter um emprego. Sorte? Que diacho! Conceitos de bem e mal são apenas meios para se atingir um fim. São expedientes para se adquirir poder. É preciso ter coragem para fazer o que Nietzsche diz, mas, por Deus, ele está certo, e eu vou fazê-lo. A Irmã Mary Ethelbert era bonitinha. Achava que eu ia ser padre. Minha mãe também. Somente nuas eu gostaria de vê-las, pois apenas a beleza ensinaria a penitência. Mas o que ele quer dizer com isso? Não sei. Como aquele garoto em Sherwood Anderson que dizia: “Eu não sei por que, mas quero saber por que.” Anderson escreve como um velho fazendeiro de músculos enrijecidos. Cabell escreve as belas frases, Oh, Cabell, Oh, Jurgen, Jurgen. Um sujeito monstruosamente esperto. Certo. Pois é o que a história conta. Hah, Jurgen. Só sou jovem uma vez. Agora, por que diabos Nietzsche perseguiu aquela Salomé por toda a Europa? Por que não? Ele só foi jovem uma vez. Eu ainda podia ser padre. Me pergunto se vou clamar por um padre no meu leito de morte? Eu. Um covarde? Não. Sou um sujeito monstruosamente esperto que devia estar em casa agora, em vez de sentado aqui ouvindo esta canção. Preciso escrever, escrever, escrever. A canção é bonita. Irmã Ethelbert gostava dela.
John Fante, in Um sujeito monstruosamente esperto

10/08/2017

Prólogo para Pergunte ao Pó

Aqueles sim que eram bons dias. Pergunte ao pó na estrada, pergunte às teias de aranha em meu quarto no St. Paul, vá até os camundongos que saem da quina do quarto, ah, camundonguinhos tão amigos, eu os tinha como meus bichinhos de estimação, até conversava com eles. “Olá, camundongo, como vai você esta noite, onde estão seus amiguinhos?” Claro, amigo de homem e besta também, alimentando os camundongos para torná-los meus amigos, um grande homem, uma alma generosa, leitor de Thoreau e Emerson, grande escritor em ascensão que precisava ser tolerante, espalhando migalhas para os camundongos comerem à noite, com as luzes do St. Paul piscando, e eu os observava correndo para lá e para cá, até que tinha de terminar com aquilo, eles ficavam afetuosos demais, subiam na minha cama e sentavam-se ao pé dela, éramos grandes amigos, mas, que diabo, eles se multiplicavam como chineses e o quarto era pequeno demais.
Falo como um lunático? Então me deem a insânia, me deem aqueles dias de volta. Deem-me o caprichoso romance de alguém que se compadecia da humanidade, aquela grande pessoa Bandini, autor de saídas magníficas, a piedade de tudo aquilo, a cidade absurda ao meu redor, bem-afortunada mãe adotiva de meu gênio. E subindo Angel’s Flight, duzentos degraus até Bunker Hill no meio da cidade, degraus consagrados, Senhor, Bandini pisava neles a caminho da imortalidade! Um dia, meu povo, vocês que só dizem sim, estes degraus ressoarão a minha memória e ali adiante naquele muro alto haverá uma placa de ouro, e sobre ela um baixo-relevo — a imagem do meu rosto. Estou sozinho agora? Bah! Minha solidão dá frutos e haverá uma Los Angeles do amanhã para lembrar que uma Voz subiu estas escadas e que Benny, o Agiota lá da esquina de Third e Hill vai chorar de alegria ao contar a seus netos que certa vez ele falou com um homem da eternidade. E daí até o meu quarto, para ter uma conversa comigo mesmo ao espelho. Ou talvez praticar um pouco para os dias da minha fama, colocar o espelho segundo um ângulo, ver como eu fico sentado à máquina de escrever, o grande homem trabalhando, respondendo às perguntas da imprensa, piscando pacientemente enquanto os flashes explodem. “Senhores, senhores! Por favor! Meus olhos, senhores — afinal de contas, eu também tenho o meu trabalho, os senhores sabem.” Risadas dos cavalheiros da imprensa. “Jesus, aquele sujeito, Bandini, um sujeito muito bacana, a fama não o estragou. Como um de nós, jornalistas comuns — um sujeito realmente bacana.”
Perguntem às recepções empoeiradas, perguntem ao saguão empoeirado, perguntem às pessoas empoeiradas no empoeirado saguão do St. Paul, às pessoas cansadas e empoeiradas, velhas, em vias de virar pó, vão morrer aqui, aos velhos e velhas, a poeira de Indiana e Ohio, de Illinois e Iowa, no seu sangue, destinados à poeira e à morte numa terra poeirenta sem raízes. Seis anos atrás e tantos já viraram pó, mas ainda existem alguns que se lembram do grande escritor, nenhuma poeira em sua boca, grande escritor mentiroso falando sobre grandes contos em The Saturday Evening Post e provando aquilo com uma história numa revista verde. Grande escritor, frequentador de livrarias poeirentas, pegando revistas empoeiradas e soprando o pó da sua querida história, comprando-as, com sua história, para que não se transformassem em pó. Sim, pergunte ao pó na estrada.
Vejam só, o grande escritor escrevendo cartas para casa, para a mamãe, grande escritor achando a vida dura, mas, veja, mamãe, tenho uma história saindo em The Atlantic, no Pacífico, por isso me mande cinco dólares, mamãe, me mande cinco dólares. E assim com cinco dólares, com dez dólares, o grande escritor com a revista verde numa boate cara falando com uma loura empoada e contando à grande loura sobre um dia mais glorioso. Tinha ela lido “Carissima Mia”, escrito por Arturo Bandini? Não, então que pena. E lera “Mea Culpa”, de Arturo Bandini? Sim, havia lido. Estranho, porque nunca fora escrita. Mas cinco dólares e dez dólares, saídos da poeira do Colorado, para ajudar o filhinho da mamãe, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.
Um livro repleto de pessoas, pessoas selvagens e poeirentas. A Los Angeles real, Bunker Hill, aquela parte da cidade abaixo de Figueroa, e Arturo Bandini sonhando com grandes dias. As pessoas que cruzaram seu caminho: Marcus, o vendedor de vinho, que me deu um emprego de ajudante de garçom porque achava que eu escrevia seriados para o SatEvePost. A sra. Adolphe Lang, com seus seios gordos e rosados, que oferecia a mim porque ela era a mãe de Deus e eu deveria compartilhar do leite da vida. David Myers, o comunista na esquina de Third e Hill, com sua perna aleijada, na qual guardava os cigarros de maconha que vendia. As velhas senhoras que eram as Eleitas de Deus e tinham de fazer sacrifícios com o Sangue do Cordeiro, mas não tinham nenhum cordeiro, por isso mataram um belo gato siamês. O negro gordo que levou Camilla e eu por um beco longo e sinistro até a Central Avenue e, subindo umas escadas caindo aos pedaços até um quarto num hotel deserto onde homens e mulheres jaziam como mortos, e o negro gordo os jogou para fora da cama, cortando o colchão e nos vendendo maconha tirada da fenda. Depois, em meu quarto, nós fumamos a maconha. Um cigarro, nenhum efeito. Dois. O quarto escurece. O corpo de Arturo levita. Ele se alça do chão, dois centímetros, cinco. Subindo, subindo e, oh, mundo absurdo, absurda Camilla, e Arturo ria e ria, mas não Camilla, sua boca amaciando, saliva branca como fios de seda agarrada a sua boca atrevida, abrindo-se ternamente para dizer seu nome, Arturo, Arturo. Sim e amém. Grandiosidade. Jesus, que romance! As duas lésbicas tocando piano no Embassy, tocando valsas de Strauss para Camilla enquanto Arturo fica furioso e cospe cerveja sobre o piano e nos cabelos da violinista. Os pintores bêbados no estúdio do andar acima, os tristes pintores, os pintores sem esperança, escola de S. McDonald Wright, último vestígio de um movimento de pintura a unir Leste e Oeste. As centenas de clubes noturnos sórdidos de Lower Fifth Street, apinhados de belas mulheres, garotas escrevendo para suas casas em Iowa e Indiana que estavam brilhando na grande cidade, céus, elas não estavam brilhando, elas estavam fodendo qualquer um e qualquer coisa, filipinos, japoneses e negros num lugar saturado de beldades. Ah, aqueles clubes noturnos, onde aprendi a divagar e a vagabundear, às vezes com dinheiro de outro conto vendido, às vezes quebrado, frequentemente pedindo dinheiro emprestado a garotas.
A caixa de esmolas na igreja do velho Plaza, da qual roubei sessenta centavos, porque estava pobre, não estava? O salão de danças filipino onde a polícia deu uma batida em busca de drogas, os tiras entrando, as luzes apagando, e os tiras gritando e lutando loucamente na escuridão e os calmos filipinos esgrimindo navalhas afiadas com a velocidade de metralhadoras e cortando em iscas os rostos dos policiais.
John Fante, in A grande fome: Contos (1932-1959)

22/07/2017

Prólogo para Pergunte ao pó (trecho)

Pergunte ao pó na estrada! Pergunte às arvores de Josué, solitárias, onde o Mojave começa. Pergunte a elas sobre Camilla Lopez e lhe sussurrarão o nome dela. Sim, o último a ver minha namorada Camilla Lopez foi um tuberculoso que morava na beira do Mojave, e ela caminhava para o leste com um cachorro que eu lhe dera, um cachorro chamado Pancho, e ninguém mais viu Pancho de novo também. Vocês não vão acreditar nisso. Vocês não vão acreditar que uma garota começaria a atravessar o deserto do Mojave em outubro sem nenhuma outra companhia além de um jovem cachorro policial chamado Pancho, mas aconteceu. Vi as pegadas do cão na areia e vi as pegadas de Camilla ao lado das do cão, e ela nunca voltou para Los Angeles, sua mãe nunca voltou a vê-la, e, a não ser que um milagre tenha acontecido, ela está morta lá no Mojave esta noite e Pancho também. Não tenho de tecer um enredo para este meu segundo livro. Aconteceu comigo. A garota se foi; eu estava apaixonado por ela, e ela me odiava, e esta é a minha história.
Pergunte ao pó na estrada. Pergunte ao velho Junipero Serra no Plaza, sua estátua está lá, e lá estão também os riscos nela onde acendi meus fósforos, fumei cigarros e observei a humanidade passar, eu, John Fante e Arturo Bandini, dois em um, amigo do homem e da besta também. Aqueles eram os bons dias! Eu andava por aquelas ruas e as sugava, e sugava as pessoas nelas, como um homem feito de fibra de mata-borrão. Arturo Bandini, com um conto vendido, grande escritor, sonhando grandes planos. Ainda posso ver aquele sujeito, aquele Bandini, com uma revista de capa verde debaixo do braço, perpetuamente debaixo do seu braço, caminhando por esta cidade com uma tolerância gentil pelo homem e pela besta também; ele era um filósofo, jovem, a simples história de um escritor que se apaixonou por uma garçonete de bar e foi mandado passear.
Mas vejam, deixem-me tentar contar a minha história. Apaixonei-me por uma garota chamada Camilla Lopez. Entrei num café uma noite e lá estava ela e, muito, muito depois, mesmo agora, esta noite, quando escrevo a respeito, eu engasgo ao pensar na beleza daquela garota. Ela estava lá, ao meu lado, era uma garçonete de cervejaria, trouxe-me café e achei que era um café horroroso e conversamos. Então eu voltei, repetidas vezes, e logo estava tão loucamente apaixonado que me comportava como um tolo, e o tempo todo ela amava outro, ela amava um garçom do Liberty Buffet, onde ela trabalhava, e o garçom não a suportava. Então ela saiu comigo, para se esquecer dele, ia a toda parte comigo, e eu estava maluco por ela, e a coisa piorou, e ela piorou em relação ao garçom. Começou a fumar maconha. Ela me ensinou a fumar. Ela endoidou. Foi colocada num asilo de loucos. Ficou lá um mês. Saiu e eu a vi de novo. Ainda estava apaixonada por Sammy, o garçom. Ele não a suportava. Não a suportava porque ela era simplesmente uma mexicana e ele era um americano e ela estava abaixo dele, e esta é a história — este é o tema de Ramona, só que desta vez é um ítalo-americano que conta a história, e ele, Bandini, tem simpatia pela garota porque entende como funciona essa coisa de preconceito social, e ele a ama loucamente e ela não consegue entendê-lo. Ele é um escritor. Está sozinho em Los Angeles. Escreve sonetos para esta garota. Ela lê os sonetos e os joga na rua. Pergunte ao pó na rua, pergunte ao pó no Liberty Buffet, pergunte à desgraçada serragem suja daquele local e ela dirá que recebeu pedacinhos de papel picados e eles eram meus sonetos, porque ela não ligava para mim, eu só a divertia, ela estava louca pelo americano Sammy.
Não acha que tenho um romance? Ouça, com os diabos, conheci Camilla e, na primeira noite, fomos à praia e nadamos nus, e ela nadou bem longe, bem além do quebra-mar da baía de Santa Monica. Dirigimos até lá no carro dela e ela nadou para longe, a distância sob o luar, bela garota, bela Camilla, oh, que inferno, como eu amava aquela garota e que inferno, que desfeita ela me plantou, achava que eu era um lunático, que dizia coisas engraçadas. Ela nadou bem longe, longe demais para uma garota normal, e às duas da manhã naquele oceano frio, e, ao quando a vi ao luar desconfiei de que era o tipo de garota que entra em colapso sob pressão social, havia algo sensível e belo nela mesmo então e sempre, uma garota exuberante, cabelos negros, pele cremosa, nadando ao luar, me ousando a ir tão longe quanto ela havia nadado, e eu não fui, nadei até certa distância e cansei, e então ela voltou e nos enrolamos num cobertor na praia e fomos dormir — um casal de crianças nuas, mas eu sentia aquilo deitado ao lado dela então —, aquela sensação de que jamais possuiria essa garota, sentia que de certa forma ela era veneno e que aquilo nunca aconteceria, sentia paixão sem desejo, sentia a estranheza dela, sentia dentro de mim com a certeza do seio de minha mãe, essa coisa devorando uma bela garota mexicana que pertencia àquela terra, debaixo daquele céu, e não era bem-vinda. E eu, o solidário, o amigo de homem e besta também, pergunte à areia ao longo da baía de Santa Monica se o grande Arturo Bandini foi tão grande amante naquela noite, não não não, porque eu tinha pena dela como um homem tem pena de sua filha, e não era paixão, eu só sentia desejo e nunca passou disso. E, então, às cinco da manhã, com o sol se erguendo lá no leste, descemos até Wilshire de carro e ela ficou tão contente que eu não a havia tocado, ela dirigia, e disse uma coisa estranha e significativa, lembro as palavras exatamente, ela disse: “Foi uma noite tão bonita. Nunca mais acontecerá de novo.” Mas havia sempre comigo a suspeita de que eu havia agido como um tolo, não só naquela noite, mas em todas noites que passei com ela, enquanto visitávamos muitos lugares estranhos e fascinantes nesta grande cidade. Falo de Hollywood, com seu falso brilho de lantejoulas? Dos filmes? Falo de Bel Air e Lakeside? Falo de Pasadena e dos locais quentes nas redondezas? — não e não mil vezes. Eu lhes digo que este é um livro sobre uma moça e um rapaz numa civilização diferente: trata-se de Main Street e Spring Street e Bunker Hill, sobre esta cidade não mais adiante de Figueroa, e não há ninguém famoso neste livro e nada notório e famoso será mencionado porque nada disso pertence a este livro, ou estará aqui por mais tempo. É Ramona ao reverso. É bom. Sou eu mesmo.
Então eu chamo meu livro de Pergunte ao pó, porque o pó do Leste e do Meio-Oeste está nestas ruas e é um pó em que nada cresce, uma cultura sem raízes, uma ânsia frenética por trincheiras, a fúria vazia de pessoas perdidas e desesperançadas, frenéticas para alcançar uma terra que jamais lhes pode pertencer. E uma garota desorientada que achava que as pessoas frenéticas eram as pessoas felizes e tentava ser uma delas.
Arturo Bandini, eu mesmo, grande escritor, com um conto vendido para The American Mercury, o conto sempre no meu bolso para provar meu sucesso enquanto rondava a Ópera e observava os ricaços entrarem, às vezes me misturando à multidão para tocar acidentalmente uma capa de arminho, apenas um passante, me desculpe, madame, e pelas longas horas da noite eu pensava nela, imaginando quem seria — talvez até a heroína de meu grande romance, conversando com ela enquanto as luzes do St. Paul Hotel piscavam vermelhas e verdes e lançavam cores sobre minha cama.
John Fante, in A grande fome: Contos (1932-1959)

12/07/2017

Um escritor com um Plymouth


Mas, à medida que o tempo passava, nada do que eu lhe dizia a chocava. Conversávamos toda noite, eu falando a maior parte do tempo e ela não prestando atenção alguma ao que eu dizia. Se você perguntasse, não há nenhuma palavra ou frase minha que Jenny pudesse lembrar. Isso é uma tragédia.
Eu disse algumas belas coisas, às vezes até surpreendendo a mim mesmo. Sou incapaz de evocá-las agora, mas lembro que na época elas eram espetaculares, refinadamente expostas e dignas de serem lembradas. Eu disse que eu desejo contar a verdade. Preciso fazer uma pausa agora e admitir que fracassei. Eu disse que Jenny era gorda e não era bonita. Isso é muito inexato, pois Jenny não é nada disso. Não. Jenny é uma beleza. Ela é esbelta e flexível. Sua postura é tão arrogante como a de uma rosa. É uma alegria viver ao seu lado. Seus cabelos são maravilhosos. Nem ruivos nem dourados, mas ambos, e ela os penteia com misteriosa elaboração, enrolando-os em um nó na nuca à maneira das mulheres eslavas. Foi casada, mas agora é divorciada. Seu marido era um avicultor. Achei isso engraçado.
— Jenny — perguntei. — Qual é a cara de um avicultor?
Não havia motivo para isso. Na verdade, eu sei perfeitamente bem como é a cara de um avicultor. Meu tio em Colorado Springs está no ramo avícola e eu trabalhei um verão no seu rancho.
Mike Schwartz é viúvo. Eu o classificaria como bonito. Tem um filho, um bom menino, de seis anos. Às vezes Mike traz o menino aqui para ver Jenny. O menino a chama de Tia Jenny. Ele tem um corpo pequeno maravilhosamente forte, com pernas como marfim polido, e cabelos encaracolados. Um belo menino — um filho que eu teria orgulho de proclamar como meu. Ele é muito barulhento. Às vezes entra no meu quarto e eu o faço sentar à máquina e deixo que martele as teclas como um macaco. Ele gosta disso. Um belo menino. Uma tragédia que seu pai seja um sujeito tão burro. O menino tem um talento literário pronunciado. Se fosse meu, faria dele um gênio literário. Aos doze, eu o faria escrever e publicar uma autobiografia. Seria uma mera obra-prima. Eu providenciaria isso. Do jeito que as coisas vão, o garoto sem dúvida vai crescer e se tornar um bobalhão como o pai, um homem sem poesia que cai de joelhos e uiva como um bezerro ao dar um pedaço de metal de presente a uma garota.
Jenny fica excitada quando Schwartz traz o menino. Começa a parecer que Schwartz vai casar com ela. Ela botou a foto do menino na sua cômoda e ela o adora. Eu já comecei a me cansar da foto daquele menino. Toda vez que entro no seu quarto para pegar um cigarro emprestado tenho de tolerar aquela foto esfregada na minha cara, com uma coletânea de frases inteligentes do rapazinho. São ótimas, sem dúvida, mas não estou interessado. Gosto do menino, é um ótimo rapaz, mas seus epigramas pueris me aborrecem. Não estou realmente interessado.
Mike Schwartz visita Jenny regularmente. Toda noite antes que ele chegue, Jenny corre para o meu quarto e pergunta se está vestida corretamente, se seus cabelos estão bonitos, se eu gosto deste ou daquele par de sapatos. Mike Schwartz tem dinheiro, pilhas de dinheiro no banco. É dono de uma olaria. E isso não é tudo. Tem uma casa em Los Angeles, uma mansão em Bel Air, para não mencionar dois Packards e um Pontiac.
— Jenny — eu disse —, ele pode ser dono de uma olaria e ter um castelo em Bel Air, mas ele tem uma alma? Tem alguma profundidade? Eu o observei de perto pessoalmente e não consigo descobrir nada de belo em sua natureza. É um conformista frio, sem sangue, voltado só para o dinheiro.
— Ele é muito amável — disse Jenny.
— Um julgamento perfeitamente sem sentido. Tem ele alguma percepção das coisas mais delicadas da vida? As coisas profundas, duradouras?
— Ele é simplesmente amável. E, apesar de grandalhão, é gentil como um cordeiro.
Ergui os olhos para o teto.
Ah, Jenny. Sua ingenuidade me entristece. Me dá vontade de sair cegamente na noite para chorar no alto de um morro solitário pelos sofrimentos das mulheres. O simples fato de que Schwartz é amável não prova nada. Uma vaca é amável também. O que eu quero saber é se ele possui alguma poesia em seu sangue?
— Ele nunca me escreveu nenhuma poesia.
— O homem é uma fraude. Ele me diverte. Não tem mais poesia em si do que uma bomba estomacal.
— Eu acho Mike incrivelmente amável.
— Isso porque ele tem dois Packards, um Pontiac e uma casa em Bel Air.
Ela apenas sorriu, pois sequer estava ouvindo minha análise de toda a situação.
Para dizer a verdade, não sou materialista. Mas eu gostaria de dizer algumas coisas a Jenny. Gostaria de dizer a ela que nos meus bons tempos eu era dono de um automóvel. Tinha um carro maravilhoso, com o chassi todo de aço, uma bomba de óleo de alta compressão, vidro blindado, para-lamas, faróis e imensos pneus à prova de estouro.
Não me interpretem mal. Eu falo do Plymouth porque gostaria que vocês soubessem que eu vivi, mais ou menos, a vida do tapado do Mike Schwartz. Não durou muito, porque a financeira logo acabou com aquilo. Mas não me importei, porque já estava cansado daquilo e havia uma porção de novas histórias que eu queria escrever. Mas, eu desejava ter um carro agora. Por uma razão. Jenny relata sempre a mim longas histórias da riqueza de Mike Schwartz. Não estou realmente interessado. Fico simplesmente filosófico, um pouco divertido e um pouco triste.
E, no entanto, apesar de tudo, eu gostaria de ter meu Plymouth. Por apenas uma hora eu gostaria de tê-lo para mim. Eu sei como se faz. Levaria Jenny para dar uma volta no carro uma noite. Tão sobranceiro quanto possível, sentaria ao lado dela, minhas mãos ao volante, falando nada, sequer uma palavra. Deixaria toda a conversa com o Plymouth. Nós iríamos até Santa Monica e estacionaríamos o carro numa colina onde o mar se encontra com as estrelas. Com um toque indiferente dos meus dedos eu ligaria o controle do painel e, do ventre da máquina, o rádio responderia, emitindo o coaxar de rã de Bing Crosby. Eu permaneceria forte e quieto, sem fazer nada. Nenhuma necessidade de dizer a Jenny que seus cabelos me atordoavam, que a expressão de seus olhos cinzentos bastava para me fazer esquecer, por algum tempo, prosa, enredos e toda aquela coisa cansativa. Tudo seria feito por máquina; mas, por pouco tempo, apenas uma hora seria o suficiente. O Plymouth e Bing Crosby levariam Jenny às profundezas de sua alma e por algum tempo tudo estaria bem. Logo eu ficaria cansado daquilo, dentro de uma hora, talvez, e nós voltaríamos para a cidade. Depois Jenny contaria para outras pessoas que conhecia um escritor com um Plymouth. Não um mero escritor, mas um escritor com um Plymouth. Mas isso não importaria também.
John Fante, in A grande fome: Contos (1932-1959)

30/06/2017

Sou um escritor de verdade (trecho)

Não existe nada entre Jenny e eu. Moro de um lado do corredor, ela mora do outro, no andar superior de uma casa de dois andares. O outro aposento aqui em cima é o banheiro. Quando cheguei aqui pensei que podia haver algo. Ouvi o ruído de saltos altos no corredor e no quarto ao lado, e, no banheiro, vi umas coisas azul-pálidas penduradas para secar. Eu as toquei, pois me cativavam, e sua maciez e fragrância trouxeram ideias agradáveis à minha imaginação. Mas nada aconteceu.
Quando ouvia o toc-toc dos saltos altos, eu estava sentado no meu quarto, sempre à noite, e batia violentamente à máquina de escrever, martelava com toda força, escrevendo qualquer coisa que me viesse à cabeça, qualquer coisa. O Discurso de Gettysburg, ou um soneto de Shakespeare, ou qualquer outra coisa, simplesmente batendo nas teclas com muita força para que o som viajasse, pois existem aqueles que vão saber que um escritor está no quarto pelo ruído de sua máquina de escrever e vão gostar do som e virão à sua porta e perguntarão a ele se escreve, e o que escreve — quero dizer, mulheres —, pois isso me aconteceu muitas vezes, já que morei aqui e ali nesta grande cidade, em casas, apartamentos e hotéis, e sei que o negócio de martelar uma máquina de escrever é invariavelmente bem-sucedido, invariavelmente trazendo alguém, um homem ou uma mulher, geralmente uma mulher solitária e curiosa; e, às vezes, muitas vezes, um homem, um homem raivoso que manda você parar com aquilo para que ele possa conseguir algum sono.
Eu morava nesta casa há três dias, até que vi Jenny. O ruído da minha grande máquina nunca a atraiu, nem uma vez sequer a fez parar à minha porta e se perguntar, talvez investigar. Isso me surpreendeu e pensei em outros métodos. Mas, de um modo ou de outro, todas as coisas saem da minha máquina e eu nada mais podia fazer; então, bati as teclas ainda com mais força. Isso foi de noite, depois que a ouvi ir para a cama. Mas o barulho nunca a perturbou. Aparentemente ela dormia sem interrupção. Por fim, foi ela que me atraiu.
Era o telefone. Toda noite ele tocava sem parar ao pé das escadas e era sempre para ela. Com o tempo, fraquejei, afastei meus dedos doloridos do teclado, fiquei parado à porta e ouvi sua conversa telefônica. Dessa vez falava com uma pessoa chamada Jimmie.
— Olá, Jimmie, queridão!
— Olá, Jimmie, seu menino safado!
— Pô, Jimmie, menino safado!
— Jimmie! Seu safadão!
Ouvi aquele tipo de coisa por muito tempo, chocado com a estupidez de um diálogo tão banal. Assim que ela desligou, corri de volta para a máquina de escrever e comecei a martelar de novo. Mas não adiantou nada. Seus pés subiram as escadas e atravessaram o corredor sem nenhuma pausa, e então a porta se fechou.
Depois conheci esse Jimmie. Era um tipo boçal, um dândi que usava casacos xadrez e gravatas com estampas selvagens, um salafrário que não se impressionou com a ousada simplicidade de meus pés descalços em chinelos caseiros, embora meus pés estivessem sobre a mesa de Jenny e eu fumasse um cachimbo maior e mais comprido do que qualquer outro cachimbo na cidade de Los Angeles. Jimmie era um agente de assinaturas de revistas.
— Eu vendo para todas as figuraças — disse ele. — Anne Harding é uma de minhas clientes.
É claro que ele esperava que eu caísse da cadeira com isso. Fumei em silêncio, enquanto ele e Jenny esperavam meu comentário.
— Quem? — falei. — Não me diga que é a atriz de cinema? Muito trágico. Muito trágico mesmo.
Depois Jenny me contou ainda mais dessa chiquérrima da Anne Harding. — Ela compra todas as suas revistas de Jimmie. Dúzias de revistas.
— Isso — comentei — curiosamente não impressiona nem um pouco. Mesmo o fato de que, sem dúvida, muitas histórias que eu escrevi foram publicadas nestas revistas, não consegue despertar meu entusiasmo.
Aqui, de novo, a sagaz urbanidade de minha observação foi lançada em solo caipira. Mas não importava, porque eu não estava muito interessado e sua amizade por Jimmie não era da minha alçada.
Vou contar a verdade sobre minha primeira conversação com Jenny. Foi na noite em que a senhoria nos apresentou. Convidei Jenny para tomar uma taça de vinho em meu quarto. Na verdade, tentei chocá-la. Ela fumava um cigarro apoiada sobre a cômoda, enquanto eu servia o vinho. Olhei de frente para ela.
— Incomoda-se se eu a chamar de Jenny? — perguntei. — O nome tem um sabor divertido e bucólico.
— De modo algum! — sorriu, porque não sabia o significado de bucólico. Passei a ela a taça de vinho.
— Hummm! — ela disse. — Obrigada!
Eu estudava seu rosto de perto, examinando-o como um estudante da humanidade, um escritor, o examinaria. Isso a deixou meio constrangida. Ergueu a taça.
— A você! — brindou. — Sei que deve ser um grande escritor.
Toquei sua taça e ri. No momento tomei consciência de que, afinal, a garota não era completamente sem esperança.
— A questão repousa na História — expliquei. — Eu vivo apenas no passado e no futuro.
Esvaziamos nossas taças. Servi mais duas vezes.
— Jenny — falei. — Eu sou um homem da Verdade. Permita-me fazer uma observação sobre você.
Ela ergueu a taça.
— Pode atirar, sr. Charles Dickens! Me acerte com o cano duplo!
— Jenny — continuei. — Sou como meu grande predecessor, Huneker. Nada na face da Terra me incomoda mais do que uma demi-vierge provocadora.
— Demi-vierge? — perguntou. —O que é uma demi-vierge?
— Uma amásia — e sorri.
— Amásia? — disse ela. — Eu passo, professor. O que é isso?
Sacudi a cabeça com tristeza.
— Uma amásia — falei — é uma megera.
— E o que é uma megera?
— Uma megera — falei — é uma hetaira.
— Me pegou de novo, professor. O que é uma hetaira?
— Uma hetaira é uma meretriz.
— Uma rameira? — franziu a testa e então sorriu. — Tem um som bonito, mas ainda estou boiando.
— Uma Dalila — falei. — Uma Taís. Uma Messalina. Uma Jezebel.
— Vamos lá de novo — disse ela. — Tente mais uma vez.
— O dicionário está bem ali. Consulte.
Ela colocou a taça na mesa e correu para o dicionário.
— Claro! — falou. — Que palavra?
— É melhor tentar meretriz — falei. Ela consultou.
E então fechou o dicionário.
— Mas o que isso tem a ver comigo?
Não estou seguro de que o que respondi era verdade. Mas ninguém pode negar que tinha o som e a força de uma análise surpreendente, uma bomba e, verdade ou mentira, digna de uma explosão, simplesmente pelo efeito.
— Jenny — falei. — Toda a raça feminina é uma meretriz embrionária. A tendência é poderosa e, a partir da puberdade, as mulheres devem combater isso como combateriam o tifo.
Ela depôs a taça de vinho, apagou o cigarro e saiu do quarto.
— Você é horrível — disse. — Simplesmente medonho.
John Fante, in A grande fome: Contos (1932-1959)

16/06/2017

Sou um escritor de verdade (trecho)

Sou um escritor da verdade A verdade é geralmente desagradável, mas precisa ser dita. Nesse caso, a verdade é que Jenny não é uma moça bonita. Faz uma heroína lamentável para esta história. É baixa e gorda, com ondas de banha que caem por seu corpo. Sua burrice vai além. Na verdade, ela me dá nojo. Não: isso não é verdade, pois ela não me dá nojo. Mas ela provoca algo em mim que não é bom. Ela me entristece. Quando penso nela, um sentimento de desesperança toma conta de mim, um sentimento de que nada posso fazer em relação à desigualdade entre homens e mulheres. Não odeio Jenny, mas certamente desprezo as coisas que ela representa. Porém sou incapaz de dizer que coisas são essas.
Certo anoitecer, ofegante, ela entrou correndo em meu quarto com os braços estendidos. Urrava com deleite, seus olhos cinzentos rindo e rindo em triunfo. Afastei-me da máquina de escrever e pedi uma explicação.
— Veja! — disse ela. — No meu pulso! Olhe só! Meu namorado me deu!
Era um relógio de pulso.
— Jenny — falei. — Pelo amor de Deus, pare de dizer “namorado”. Eu abomino essa palavra. Eu a detesto!
O namorado de Jenny é um sujeito chamado Mike Schwartz. É judeu — e um tremendo de um homem, oitenta quilos, forte e quieto, que vem aqui quase toda noite visitar Jenny em seu quarto. Seu jeito forte e quieto não me engana. Pessoalmente, não sou nem uma coisa nem outra, mas sei que o jeito quieto nos grandalhões é inestimável. Quando ele sobe as escadas com seu jeito quieto posso facilmente entender o que ele quer de Jenny. Claro que posso entender! Sei que o jeito quieto tem sua utilidade.
Quanto ao relógio de pulso. Jenny é estenógrafa num escritório do centro de Los Angeles. Naquela tarde mesmo, disse ela, Mike Schwartz apareceu por lá. Chegou quieto, um homenzarrão carregando o relógio de pulso numa caixinha minúscula. Ficou parado lá, forte e quieto. Eu podia visualizar claramente toda a cena. Achei aquilo monstruoso; a verdade é que tenho de rir quando penso a respeito. Mike Schwartz perguntou a ela o que achava do relógio.
— É uma gracinha — disse Jenny.
Uma gracinha! Deus do Céu! Que descrição grotesca. Uma gracinha! Que palavra desprezível! Um relógio de pulso pode ser interessante ou encantador ou até mesmo bonito. Mas nunca uma gracinha. Nunca! Só uma pessoa de inteligência limitada, como Jenny, poderia chamar um relógio de pulso de uma gracinha. Mike disse:
— É para uma amiga minha, uma garota que vai se casar. É um presente de casamento.
Isso desapontou Jenny, que achava que o relógio era para ela. Sem outra palavra, ela devolveu o relógio para ele. Era uma gracinha e aquilo bastava. Posso ver toda a cena. Com o nariz empinado, ela devolveu o relógio.
Mike Schwartz começou a deixar o escritório. Deu as costas e caminhou para a porta. Estou contando exatamente o que Jenny me contou. Sou um escritor: vejo tudo muito claramente. Na porta, ele se virou e havia lágrimas em seus olhos. Lágrimas em seus olhos! Imaginem isso! Um homem forte e quieto, um gigante de um homem, com lágrimas nos olhos. Quero ser verdadeiro e, para mim, um homem de quarenta anos com lágrimas nos olhos é um asno. Ele se virou e havia lágrimas em seus olhos e, sem dúvida, lágrimas em sua camisa e em sua gravata, e ele voltou, caiu de joelhos diante de Jenny, que é gorda e tem vinte anos, e a triturou em seus braços.
— Fique com ele, Jenny! — falou, arfando. — Fique com ele. Eu estava mentindo. Não é um presente de casamento. É para você. Fique com ele — para sempre!
Para sempre! Lágrimas nos olhos! Que espetáculo! Posso visualizá-lo e tive de rir e rir muito. Lá estava ele, um homem de quarenta, forte e quieto, soluçando, de joelhos, diante de uma garota vinte anos mais moça! Por Deus, é engraçado. Eu rio e rio. O imbecil! Tais lágrimas não teriam me comprado. Eu teria rido em sua cara.
Nem compraram Jenny. Mas Jenny é esperta, rápida, astuta. Agora o relógio se tornou mais do que uma gracinha. Era um relógio maravilhoso e ela chorava também. E lá estavam, duas pessoas chorando em cima de um mero relógio de pulso. E naquela noite Jenny trouxe o relógio para o meu quarto e me contou toda a estória, me aborreceu com aquela bobagem toda, contando-me que Mike Schwartz tocava sua alma e que ela chorava por toda a delicadeza dele.
— Não pude aguentar, sr. Bandini — ela falou para mim, um escritor, um intérprete da psicologia humana.
Recusei-me a acreditar em Jenny. Além do mais, recuso-me a acreditar que ela chorou por aquele motivo. Ela é arguta demais, esperta demais, gorda demais para arrependimento ou ternura. Minha teoria é que, se ela chegou a chorar, suas lágrimas foram de alegria, de posse, porque agora ela era dona do relógio, ele lhe pertencia agora, e ela chorava de triunfo.
— Deixe-me ver esse relógio — falei.
Examinei-o com indiferença. Era um Bulova Bagette ou alguma trivialidade dessas. Um minúsculo relógio de prata, com uma pulseira de prata agarrada a ele — um relógio realmente absurdo, um mero brinquedo, pois mal dava para ver o mostrador, menos ainda os ponteiros: uma piada de relógio, absurdo, e inadequado para ver as horas do dia. Virei-o na palma da minha mão. Havia arranhões na caixa, feridas feitas por um canivete, como se alguém tivesse arrancado um monograma. Um relógio de segunda mão. Indiscutivelmente, um relógio de segunda mão.
— Rá! — exclamei. — Mercadoria usada! Um relógio de segunda mão! Precisamente o que suspeitei. O homem é uma fraude. Um malfeitor. Um charlatão barato.
Jenny sabia que era de segunda mão porque ela era realmente astuta. Sabia mais do que aquilo. Fora ao joalheiro e apreçara o relógio. Só Jenny para fazer isso mesmo!
— Bem — eu disse. — O que foi que o joalheiro falou?
Recusou-se a me responder.
— Bastante caro — afirmou ela.
— Seja sincera, por favor — falei. — Sou um escritor, um homem da verdade. A hipocrisia é estranha à minha natureza. Quanto foi que o joalheiro disse que ele valia?
— Um bocado — ela sorriu.
— Pois bem — falei. — Longe de mim meter o bedelho nas suas atividades prosaicas. Mas se você quer saber a verdade, eu lhe digo aqui e agora que você pode conseguir um relógio muito melhor que esse por três dólares e cinquenta centavos. Um relógio bem melhor.
Devolvi o relógio a ela.
— Existe pouco propósito em defender o homem diante de mim — expliquei. — Sem dúvida, ele é uma fraude. Um faquir perfeito. Ele é uma bugiganga. Me diverte ao enésimo grau. Quando você deixar esta sala, vou começar a rir dele.
Ela prendeu o relógio no seu pulso sem uma palavra e então saiu. Estava magoada. Não usa o relógio agora. Não o usou mais desde então. Ele jaz na gaveta de sua cômoda, numa caixinha que descobri uma noite em que vasculhei suas coisas em busca de cigarros.
O relógio de pulso não tem nenhum significado. Verdade que era um relógio barato e Mike Schwartz poderia ter comprado algo melhor. Mas Jenny vir ao meu quarto e perguntar o que eu achava dele — ah! Agora temos aí algo muito significativo! Revela suas próprias suspeitas. O escritor comum teria elogiado o relógio elaboradamente, distorcendo a verdade. Mas não eu. Minhas palavras apunhalavam como uma faca quente. Pois em seu coração ela sabe o que Mike Swartz realmente quer, e eu sei também. O relógio era um lamentável subterfúgio, um insulto. Mas, apesar de tudo, não é da minha conta, nem estou muito interessado.
John Fante, in A grande fome: Contos (1932-1959)