quarta-feira, 28 de junho de 2017

Honestidade

A honestidade dos estúpidos... é mil vezes mais perigosa que a mentira dos inteligentes. É da honestidade dos estúpidos que surgem os fanáticos. Os fanáticos são pessoas honestas que acreditam nos seus pensamentos e nada os dissuade do seu caminho. E porque acreditam na verdade dos seus pensamentos tudo fazem para destruir aqueles que têm ideias diferentes.
Rubem Alves

Soneto

Não! Tempo, não te regozijarás porque envelheço:
Tuas pirâmides erguidas com nova força
A mim não assustam, nem surpreendem;
São apenas visões de velhos lugares.
Nossos dias são breves e, portanto, admiramos
O que tu nos impõe que envelheceu;
E preferimos tê-los conforme nosso desejo,
A conhecê-los somente por suas lendas.
Desafio tanto as histórias quanto a ti,
Sem me importar com o passado ou o presente;
Pois teus livros e o que vemos ambos mentem,
Feitos, mal e mal, em tua contínua pressa:
Isto eu juro, e assim será sempre,
Serei verdadeiro, apesar de ti e tua longa foice.
William Shakespeare

Retratos

Lendo o Journal de Renard. A mãe era terrível. E o seu perfil foi escrito com ácido. Em contrapartida, tinha a sua mulherzinha — sempre paciente, jeitosa, compreensiva... Talvez lhe houvesse ele favorecido o retrato. Ele, o olho fotográfico, que sempre buscou a verdade malgré-tout, teria caído em tal fraqueza para obter uma compensação na vida? Pois, se até aos leitores a pobre Marinette consegue irritar com a sua bondade inalterável, imagine-se ao marido, velho catador de defeitos nos outros e em si mesmo…
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

Capítulo XII - O Mundo Coberto de Penas

O mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau sinal, provavelmente o sertão ia pegar fogo. Vinham em bandos, arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o sul. O casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado.
Sinha Vitória falou assim, mas Fabiano resmungou, franziu a testa, achando a frase extravagante. Aves matarem bois e cabras, que lembrança! Olhou a mulher, desconfiado, julgou que ela estivesse tresvariando. Foi sentar-se no banco do copiar, examinou o céu limpo, cheio de claridades de mau agouro, que a sombra das arribações cortava. Um bicho de penas matar o gado! Provavelmente Sinha Vitória não estava regulando.
Fabiano estirou o beiço e enrugou mais a testa suada: impossível compreender a intenção da mulher. Não atinava. Um bicho tão pequeno! Achou a coisa obscura e desistiu de aprofundá-la. Entrou em casa, trouxe o aió, preparou um cigarro, bateu com o fuzil na pedra, chupou uma tragada longa. Espiou os quatro cantos, ficou alguns minutos voltado para o norte, coçando o queixo.
- Chi! Que fim de mundo! Não permaneceria ali muito tempo. No silêncio comprido só se ouvia um rumor de asas. Como era que Sinha Vitória tinha dito? A frase dela tornou ao espírito de Fabiano e logo a significação apareceu. As arribações bebiam a água. Bem. O gado curtia sede e morria. Muito bem. As arribações matavam o gado. Estava certo. Matutando, a gente via que era assim, mas Sinha Vitória largava tiradas embaraçosas. Agora Fabiano percebia o que ela queria dizer. Esqueceu a infelicidade próxima, riu-se encantado com a esperteza de Sinha Vitória. Uma pessoa como aquela valia ouro. Tinha ideias, sim senhor, tinha muita coisa no miolo. Nas situações difíceis encontrava saída. Então! Descobrir que as arribações matavam o gado! E matavam. Aquela hora o mulungu do bebedouro, sem folhas e sem flores, uma barrancharia pelada, enfeitava-se de penas.
Desejou ver aquilo de perto, levantou-se, botou o aió a tiracolo, foi buscar o chapéu de couro e a espingarda de pederneira. Desceu o copiar, atravessou o pátio, avizinhou-se da ladeira pensando na cachorra Baleia. Coitadinha. Tinham- lhe aparecido aquelas coisas horríveis na boca, o pêlo caíra, e ele precisara matá-la. Teria procedido bem? Nunca havia refletido nisso. A cachorra estava doente. Podia consentir que ela mordesse os meninos? Podia consentir? Loucura expor as crianças à hidrofobia. Pobre da Baleia. Sacudiu a cabeça para afastá-la do espírito. Era o diabo daquela espingarda que lhe trazia a imagem da cadelinha. A espingarda, sem dúvida. Virou o rosto defronte das pedras do fim do pátio, onde Baleia aparecera fria, inteiriçada, com os olhos comidos pelos urubus.
Alargou o passo, desceu a ladeira, pisou a terra de aluvião, aproximou-se do bebedouro. Havia um bater doido de asas por cima da poça de água preta, a garrancheira do mulungu estava completamente invisível. Pestes. Quando elas desciam do sertão, acabava-se tudo. O gado ia finar-se, até os espinhos secariam.
Suspirou. Que havia de fazer? Fugir de novo, aboletar-se noutro lugar, recomeçar a vida. Levantou a espingarda, puxou o gatilho sem ponta,=~,ria. Cinco ou seis aves caíram no chão, o resto se espantou, os galhos queimados surgiram nus. Mas pouco a pouco se foram cobrindo, aquilo não tinha fim.
Fabiano sentou-se desanimado na ribanceira do bebedouro, carregou lentamente a espingarda com chumbo miúdo e não socou a bucha, para a carga espalhar-se e alcançar muitos inimigos. Novo tiro, novas quedas, mas isto não deu nenhum prazer a Fabiano. Tinha ali comida para dois ou três dias; se possuísse munição, teria comida para semanas e mês.
Examinou o polvarinho e o chumbeira, pensou na viagem, estremeceu. Tentou iludir-se, imaginou que ela não se realizaria se ele não a provocasse com ideias ruins. Reacendeu o cigarro, procurou distrair-se falando baixo. Sinha Terta era pessoa de muito saber naquelas beiradas. Como andariam as contas com o patrão? Estava ali o que ele não conseguiria nunca decifrar. Aquele negócio de juros engolia tudo, e afinal o branco ainda achava que fazia favor. O soldado amarelo...
Fabiano, encaiporado, fechou as mãos e deu murros na coxa. Diabo. Esforçava-se por esquecer uma infelicidade, e vinham outras infelicidades. Não queria lembrar-se do patrão nem do soldado amarelo. Mas lembrava-se, com desespero, enroscando- se como uma cascavel assanhada. Era um infeliz, era a criatura mais infeliz do mundo. Devia ter ferido naquela tarde o soldado amarelo, devia tê-lo cortado a facão. Cabra ordinário, mofino, encolhera-se e ensinara o caminho. Esfregou a testa suada e enrugada. Para que recordar vergonha? Pobre dele. Estava então decidido que viveria sempre assim? Cabra safado, mole. Se não fosse tão fraco, teria entrado no cangaço e feito misérias. Depois levaria um tiro de emboscada ou envelheceria na cadeia, cumprindo sentença, mas isto não era melhor que acabar-se numa beira de caminho, assando no calor, a mulher e os filhos acabando-se também. Devia ter furado o pescoço do amarelo com faca de ponta, devagar. Talvez estivesse preso e respeitado, um homem respeitado, um homem. Assim como estava, ninguém podia respeitá-lo. Não era homem, não era nada. Aguentava zinco no lombo e não se vingava.
- Fabiano, meu filho, tem coragem. Tem vergonha, Fabiano. Mata o soldado amarelo. Os soldados amarelos são uns desgraçados que precisam morrer. Mata o soldado amarelo e os que mandam nele.
Como gesticulava com furor, gastando muita energia, pôs-se a resfolegar e sentiu sede. Pela cara vermelha e queimada o suor corria, tornava mais escura a barba ruiva. Desceu da ribanceira, agachou-se à beira da água salobra, pôs-se a beber ruidosamente nas palmas das mãos. Uma nuvem de arribações voou assustada. Fabiano levantou-se, um brilho de indignação nos olhos. - Miseráveis.
A cólera dele se voltava de novo contra as aves. Tornou a sentar-se na ribanceira, atirou muitas vezes nos ramos do mulungu, o chão ficou todo coberto de cadáveres. Iam ser salgados, estendidos em cordas. Tencionou aproveitá-los como alimento na viagem próxima. Devia gastar o resto do dinheiro em chumbo e pólvora, passar um dia no bebedouro, depois largar-se pelo mundo. Seria necessário mudar-se? Apesar de saber perfeitamente que era necessário, agarrou-se a esperanças frágeis. Talvez a seca não viesse, talvez chovesse. Aqueles malditos bichos é que lhe faziam medo. Procurou esquecê-los. Mas como poderia esquecê-los se estavam ali, voando-lhe em torno da cabeça, agitando-se na lama, empoleirados nos galhos, espalhados no chão, mortos? Se não fossem eles, a seca não existiria. Pelo menos não existiria naquele momento: viria depois, seria mais curta. Assim, começava logo - e Fabiano sentia-a de longe. Sentia-a como se ela já tivesse chegado, experimentava adiantadamente a fome, a sede, as fadigas imensas das retiradas. Alguns dias antes estava sossegado, preparando látegos, consertando cercas. De repente, um riscono céu, outros riscos, milhares de riscos juntos, nuvens, o medonho rumor de asas a anunciar destruição. Ele já andava meio desconfiado vendo as fontes minguarem. E olhava com desgosto a brancura das manhãs longas e a vermelhidão sinistra das tardes. Agora confirmavam-se as suspeitas.
- Miseráveis. As bichas excomungadas eram a causa da seca. Se pudesse matá-las, a seca se extinguiria. Mexeu-se com violência, carregou a espingarda furiosamente. A mão grossa, cabeluda, cheia de manchas e descascada, tremia sacudindo a vareta, - Pestes.
Impossível dar cabo daquela praga. Estirou os olhos pela campina, achou-se isolado. Sozinho num mundo coberto de penas, de aves que iam comê-lo. Pensou na mulher e suspirou. Coitada de Sinha Vitória, novamente nos descampados, transportando o baú de folha. Uma pessoa de tanto juízo marchar na terra queimada, esfolar os pés nos seixos, era duro. As arribações matavam o gado. Como tinha Sinha Vitória descoberto aquilo. Difícil. Ele, Fabiano, espremendo os miolos. Não diria semelhante frase. Sinha Vitória fazia contas direito: sentava-se na cozinha, consultava montes de sementes de várias espécies, correspondentes a mil- réis, tostões e vinténs. E acertava. As contas do patrão eram diferentes, arranjadas a tinta e contra o vaqueiro, mas Fabiano sabia que elas estavam erradas e o patrão queria enganá-lo. Enganava. Que remédio? Fabiano, um desgraçado, um cabra, dormia na cadeia e aguentava zinco no lombo. Podia reagir? Não podia. Um cabra. Mas as contas de Sinha Vitória deviam ser exatas. Pobre de Sinha Vitória. Não conseguiria nunca estender os ossos numa cama, o único desejo que tinha. Os outros não se deitavam em camas? Receando magoá-la, Fabiano concordava com ela, embora aquilo fosse um sonho. Não poderiam dormir como gente. E agora iam ser comidos pelas arribações.
Desceu da ribanceira, apanhou lentamente os cadáveres, meteu-os no aió, que ficou cheio, empanzinado. Retirou-se devagar. Ele, Sinha Vitória e os dois meninos comeriam as arribações.
Se a cachorra Baleia estivesse viva, iria regalar-se. Porque seria que o coração dele se apertava? Coitadinha da cadela. Matara-a forçado, por causa da moléstia. Depois voltara aos látegos, às cercas, às contas embaraçadas do patrão. Subiu a ladeira, avizinhou-se dos juazeiros. Junto a raiz de um deles a pobrezinha gostava de espojar-se, cobrir- se de garranchos e folhas secas. Fabiano suspirou, sentiu um peso enorme por dentro. Se tivesse cometido um erro? Olhou a planície torrada, o morro onde os preás saltavam, confessou às catingueiras e aos alastrados que o animal tivera hidrofobia, ameaçara as crianças. Matara-o por isso.
Aqui as ideias de Fabiano atrapalharam-se: a cachorra misturou-se com as arribações, que não se distinguiam da seca. Ele, a mulher e os dois meninos seriam comidos. Sinha Vitória tinha razão: era atilada e percebia as coisas de longe. Fabiano arregalava os olhos e desejava continuar a admirá-la. Mas o coração grosso, como um cururu, enchia-se com a lembrança da cadela. Coitadinha, magra, dura, inteiriçada, os olhos arrancados pelos urubus. Diante dos juazeiros, Fabiano apressou-se, Sabia lá se a alma de Baleia andava por ali, fazendo visagem?
Chegou-se a casa, com medo. Ia escurecendo, e àquela hora ele sentia sempre uns vagos terrores. Ultimamente vivia esmorecido, mofino, Precisava consultar Sinha Vitória, combinar a viagem, livrar-se das arribações, explicar-se, convencer-se de que não praticara injustiça matando a cachorra. Necessário abandonar aqueles lugares amaldiçoados. Sinha Vitória pensaria como ele.
Graciliano Ramos, in Vidas Secas

Tibless - Eu e a Brisa

Ainda não destruímos os fantoches

Cada vez que ouço um discurso político ou que leio os que nos dirigem, há anos que me sinto apavorado por não ouvir nada que emita um som humano. São sempre as mesmas palavras que dizem as mesmas mentiras. E, visto que os homens se conformam, que a cólera do povo ainda não destruiu os fantoches, vejo nisso a prova de que os homens não dão a menor importância ao próprio governo e que jogam, essa é que é a verdade, que jogam com toda uma parte de sua vida e dos seus interesses chamados vitais.”
Albert Camus

terça-feira, 27 de junho de 2017

Revolto de arroubamentos

Recompensado Nando tinha sido no dia seguinte, quando entrava no claustro revestido de azulejos azuis da vida de Santa Teresa. Só homens são admitidos à história azul da vamp de Deus nascida quando seu crucificado amante desembarcava das naus no Brasil. Magra menina em cujos negros olhos armava-se a fogueira futura — mi sagacidad qualquier cosa mala era mucha — e de repente monja aberta em lírio definitivo. Maçã macilenta do segundo paraíso, lírio com que Deus filho se apresentará dizendo há esperança, Pai, se a esta alvura alguns conseguem chegar. Mira esta monja branca em açucena passada a limpo. Teresa boba de Deus no leito de linho místico revolto de arroubamentos. Perdão se são as mesmas as palavras para todos os amores. Mi honra esya tuya e la tuya mia.
Nando buscou no automatismo de sempre a cabeça de Teresa no azulejo em que recebe a inspiração de fundar a Ordem das Descalças, o azulejo do fundo, à direita do esguicho central do repuxo se observado em dia sem vento do limiar da porta da Sacristia. Com espanto, apenas consciente no interior de sua meditação, via um ladrilho de sol em lugar do ladrilho azul. Depois, com a proximidade maior, avistou o azulejo predileto mas com a mancha amarela aos pés, como se Teresa flutuasse sobre a nuvem de ouro dos cabelos de Francisca. Era a recompensa ao samaritano.
Que é isso, padre Nando? Tão distraído — disse Francisca.
Francisca, em geral, quando se encontravam, começava ainda por chamá-lo “padre”. Depois esquecia.
É que...
Já sei. Está espantado de ver uma mulher no claustro.
Francisca brandiu um papel que tinha por baixo da tábua de desenho com o grande pregador de metal de firmar as folhas.
D. Anselmo me deu um salvo-conduto para desenhar os azulejos de Santa Teresa.
Ah, muito bem — disse Nando —, uma invasão legalizada.
E pacífica. De mais a mais Teresa de Ávila era uma mulher. Por que há de ficar sequestrada entre homens? Ou entre santos, se fosse o caso.
Francisca tinha falado com expressão perfeitamente séria mas Nando já notara que na radiosa pureza dos seus olhos verdes se acendiam às vezes uns fogos minúsculos.
Mas o que eu queria mesmo fazer hoje aqui — disse Francisca — é lhe agradecer o abrigo que deu a Levindo.
Como vai ele? — disse Nando. — Deve ter perdido bastante sangue.
Está perfeito outra vez. Nem fez mais nenhum curativo, depois do seu. E não me espanta nada que ele esteja metido em outra “invasão” de engenho.
Anda muito afoito o Levindo — disse Nando. — Veja o caso de outro dia. O tiro pegou na mão mas podia ter causado ferimento grave.
Eu sei, eu sei — disse Francisca — e não pense que não me aflijo o tempo todo com o que pode acontecer a ele. Mas Levindo acaba por convencer a gente de que não morre antes de fazer uma revolução. Diz que ninguém morre no meio de um trabalho importante.
Nando olhou os dois croquis da folha em que Francisca trabalhava. Na parte superior, longos pés descalços da carmelita pisando lajes frias. Embaixo, o esboço de Teresa alanceada pelo anjo, no auge do arroubamento, olhos velados de enlevo, o torvelinho do êxtase misturando hábito, capuz e cara da monja.
Vai documentar as obras de arte do mosteiro? — disse Nando.
Principalmente estes azulejos. É o que existe de mais ameaçado aqui.
Ameaçado? — disse Nando. — E nós que nos gabamos de cuidar tão bem deste forro do nosso claustro.
O forro do claustro de vossas reverendíssimas ainda existe porque os ladrilhos foram muito bem colados à parede. Vossas reverendíssimas adoram Teresa mas não se dão ao trabalho de preservá-la. Há uma carência de Martas nesta casa.
Senhor — riu Nando —, que ataque a nós todos.
Sabe que faltam quinze azulejos? — disse Francisca.
Não é possível — disse Nando.
Pois então conte as falhas na parede.
Nando sempre perguntava a si mesmo, diante de uma mulher moça e bonita como Francisca, se era pura também. Francisca era. Tinha de ser. Era das que Nando contemplava sentindo-se seguro em sua virtude, defendido. O próprio Levindo, tão alegre e violento na sua pregação trotskista, anarquista, comunista ou lá o que fosse, tratava Francisca com doce ternura e quase um certo alheamento. Francisca estava frequentemente sozinha, como agora no mosteiro. E esse procedimento que Nando estranharia se outra fosse a noiva, aceitava como intuição perfeita do noivo. Mesmo no seio de uma montanha o cristal é infenso à terra. Mesmo imersa no mundo Francisca era invulnerável a ele. Pertencia à raça das mulheres amigas da Igreja, inspiração de poetas. Nem todos podem ir diretamente a Deus, escalando o Monte Carmelo em mãos como garras lívidas e joelhos sangrentos, no rastro apaixonado de Don Juan de la Cruz aliás San Juan Tenório. Irmãos leigos dos santos, os poetas do amor indicam trilhas menos escarpadas e semeadas de lagoas que são íris verdes.
Antonio Callado, in Quarup

Abecedário

De vez em quando ele vem,
deposita uma palavra na minha caixa de emoções
e se encaminha para a porta de saída.
É sempre assim; uma sedução, uma partida.
Entorno a caixa de verbetes pelo chão,
na esperança de uma frase coerente,
mas o verbo conjuga erradamente
uma história de amor sem solução.
Flora Figueiredo

Embriagai-vos!

Deveis andar sempre embriagados. Tudo consiste nisso: eis a única questão. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos quebra as espáduas, vergando-vos para o chão, é preciso que vos embriagueis sem descanso.
Mas, com quê? Com vinho, poesia, virtude. Como quiserdes. Mas, embriagai-vos.
E se, alguma vez, nos degraus de um palácio, na verde relva de uma vala, na solidão morna do vosso quarto, despertardes com a embriaguez diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são. E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio vos responderão: — É a hora de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos! Embriagai-vos sem cessar! Com vinho, poesia, virtude! Como quiserdes!
Charles Baudelaire, in Pequenos poemas em prosa

O gênio

Tirinha de Andrício de Souza

Ratos

Um rato, de pé sobre as patinhas traseiras, rilha uma casquinha de pão, observando os companheiros que se espalham nervosos por sobre a imundície, como personagens de um videogame. Outro, mais ousado, experimenta mastigar um pedaço de pano emplastrado de cocô mole, ainda fresco, e, desazado, arranha algo macio e quente, que imediatamente se mexe, assustando-o. No após, refeito, aferra os dentinhos na carne tenra, guincha. Excitado, o bando achega-se, em convulsões.
O corpinho débil, mumificado em trapos fétidos, denuncia o incômodo, o músculo da perna se contrai, o pulmão arma-se para o berreiro, expele um choramingo entretanto, um balbucio de lábios magoados, um breve espasmo. A claridade envergonhada da manhã penetra desajeitada pelo teto de folhas de zinco esburacadas, pelos rombos nas paredes de placas de outdoors. Mas, é noturno ainda o barraco.
A chupeta suja, de bico rasgado, que o bebê mordiscava, escapuliu rolando por sob a irmãzinha de três anos, que, a seu lado, suga o polegar com a insaciedade de quando mamava nos seios da mãe. O peitinho chiou o sono inteiro e ela tossiu e chorou, porque o cobertor fino, muxibento, que ganharam dos crentes, o irmãozinho de seis anos enrolou-se nele.
O colchão-de-mola-de-casal onde se aninham sobreveio numa tarde úmida, manchas escuras desenhando o pano rasgado, locas vomitando pó, aboletado no teto de uma kombi de carreto, vencendo toda a Estrada de Itapecerica, em-desde a Vila Andrade até o Jardim Irene, quando viviam com o Birôla, homem bom, ele. Uma vez levou a meninada no circo, palhaços, cachorro ensinado roupinha-de-balé, macaco de velocípede, domador chicoteando leão desdentado em-dentro da jaula, cavalos destros, trapezista, equilibrista, pipoca, engolidor de espadas, maçã-do-amor, moças de maiô, algodão-doce, serrador de gente, pirulito, sorvete de palito. Aí começou a abusar da mais velha, agora de-maior, mas na época treze anos. Enfezada, despejou álcool nas partes, riscou cabeça de fósforo, o fogo ardeu a vizinhança, salvou os filhos, mas o tal, aquele, em sonhos de crack torrou, carvão indigente.
Dele herdou o menino, oito anos, seu escarro, hominho. Ano passado, ou em-antes, ignora, estourou a coceira, as costas, a barriga, as pernas, uma ferida só, coitado. Internado, as enfermeiras nem um pio ouviram, reclamaçãozinha alguma, uma graça. Levou bronca do doutor, Absurdo, falou, Irresponsável, berrou, disse para a mulher assistente-social acompanhar, Sarna, ela nem as caras deu.
Pensam, é fácil, mas forças não tem mais, embora seus trinta e cinco anos, boca desbanguelada, os ossos estufados os olhos, a pele ruça, arquipélago de pequenas úlceras, a cabeça zoeirenta. E lêndeas explodem nos pixains encipoados das crianças e ratazanas procriam no estômago do barraco e percevejos e pulgas entrelaçam-se aos fiapos dos cobertores e baratas guerreiam nas gretas. Já pediu-implorou para a de treze ajudar, mas, rueira, some, dias e noites. Viu ela certa vez carro em carro filando trocado num farol da avenida Francisco Morato. Quando o frio aperta, aparece.
A de onze, ajuizada, cria os menorzinhos: carrega eles para comer na sopa-dos-pobres, leva eles para tomar banho na igreja dos crentes, troca a roupa deles, toma conta direitinho, a danisca. E faz eles dormirem, contando invencionices, coisas havidas e acontecidas, situações entrefaladas no aqui e ali. Faz gosto: no breu, a vozinha dela, encarrapichada no ursinho-de-pelúcia que naufragava na enxurrada, encaverna-se sonâmbula ouvidos adentro, inoculando sonhos até mesmo na mãe, que geme baixinho num canto, o branco-dos-olhos arreganhado sob o vaivém de um corpo magro e tatuado, mais um nunca antes visto.
Luiz Ruffato, in Eles eram muitos cavalos

Somos contos de contos, nada

Eu acreditava que havia inventado, a partir de algo que não sabia o quê, esta frase completa: “Somos contos de contos contando contos, nada”. E a procurei em meus trabalhos, porque quis citá-la em certa ocasião, mas não a encontrava. Lendo por acaso uma entrevista que tinha dado anos antes ao jornal Libération, leio a frase. Não exatamente esta. E achei o autor. O autor era Ricardo Reis, o heterônimo de Fernando Pessoa. A frase original era “Somos contos de contos, nada”. Durante anos acreditei que isso fazia parte da citação original, isso que é um acréscimo meu: “contando contos”. Num texto que escrevi sobre essa anedota, digo que no fundo é o trabalho da memória, esquecendo e construindo, construindo e construindo.
José Saramago, in As palavras de Saramago

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Honra

Aos humildes a demasiada honra mais os embaraça do que os melhora.”
Padre Antônio Vieira

O salto no desconhecido


Viver no mundo como se não fosse o mundo, respeitar a lei e no entanto colocar-se acima dela, possuir uma coisa “como se não a possuísse”, renunciar como se não tratasse de uma renúncia, todas essas proposições favoritas e formuladas com frequência, todas essas exigências de uma alta ciência da vida somente pode realizá-las o humor. E no caso do Lobo da Estepe, a quem não faltam faculdades e disposições para tanto, se lograsse, no labirinto de seu inferno, absorver e transpirar essa bebida mágica, então estaria salvo. Ainda lhe falta muito para isso, mas a possibilidade, a esperança existem. Quem o ama, quem se interessa por ele, pode desejar-lhe esta salvação. Ela iria, é verdade, mantê-lo preso ao mundo burguês, mas seu padecimento seria suportável e produtivo. Suas relações com o mundo burguês quer no amor ou no ódio perderiam seu sentimentalismo e sua sujeição a ele cessaria de atormentá-lo continuamente como um opróbrio. Para alcançar isto, ou para, afinal, ser capaz de tentar o salto no desconhecido, teria um lobo da estepe de defrontar-se algumas vezes consigo mesmo, olhar profundamente o caos de sua própria alma e chegar à plena consciência de si mesmo. Sua existência enigmática revelar-se-ia então para ele em toda sua invariabilidade e ser-lhe-ia impossível para sempre no futuro escapar do inferno de seus impulsos e refugiar-se em consolos filosóficos e sentimentais. Seria necessário que o homem e o lobo se conhecessem mutuamente sem falsas máscaras sentimentais, que se fitassem nos olhos em toda a sua nudez. Então explodiriam ou se separariam para sempre, de modo que não voltariam a existir lobos da estepe ou chegariam a bons termos à luz nascente do humor. É possível que Harry tenha um dia esta última possibilidade. E possível que um dia aprenda a conhecer-se, seja porque receberá nas mãos um dos nossos espelhinhos, seja porque alcance o Imortal ou talvez encontre num dos nossos teatros mágicos aquilo de que necessita para libertar sua alma desgarrada. Mil possibilidades o esperam, seu destino as atrai irremediavelmente, pois todos esses solitários da burguesia vivem na atmosfera dessas mágicas possibilidades. Basta apenas um nada para que se produza a centelha. E tudo isso é amplamente conhecido pelo Lobo da Estepe, ainda que seus olhos nunca venham a dar com este fragmento de sua biografia íntima. Ele suspeita e teme a possibilidade de um encontro consigo mesmo, e está cônscio da existência daquele espelho no qual tem uma necessidade tão amarga de olhar-se e no qual teme mortalmente ver-se refletido. Para terminar nosso estudo resta esclarecer ainda uma última ficção, um engano fundamental. Todas as interpretações, toda psicologia, todas as tentativas de tornar as coisas compreensíveis se fazem por meio de teorias, mitologias, de mentiras; e um autor honesto não deveria furtar-se, no fecho de uma exposição, a dissipar essas mentiras dentro do possível. Se digo “acimas” ou “abaixo”, isso já é uma afirmação, que exige um esclarecimento, pois só existem acima e abaixo no pensamento, na abstração. O mundo mesmo não conhece nenhum acima nem abaixo. Da mesma maneira, para ser sucinto, o lobo da estepe também é uma ficção.
Hermann Hesse, in O lobo da Estepe

O Melhor Forró do Mundo - show ao vivo

Temas que morrem

Sinto em mim que há tantas coisas sobre o que escrever. Por que não? O que me impede? A exiguidade do tema talvez, que faria com que este se esgotasse em uma palavra, em uma linha. Às vezes é o horror de tocar numa palavra que desencadearia milhares de outras, não desejadas, estas.
No entanto, o impulso de escrever. O impulso puro – mesmo sem tema. Como se eu tivesse a tela, os pincéis e as cores – e me faltasse o grito de libertação, ou a mudez essencial que é necessária para que se digam certas coisas. Às vezes a minha mudez faz com que eu procure pessoas que, sem elas saberem, me darão a palavra-chave. Mas quem? quem me obriga a escrever? O mistério é esse: ninguém, e no entanto a força me impelindo.
Eu já quis escrever o que se esgotaria em uma linha. Por exemplo, sobre a experiência de ser desorganizada, e de repente a pequena febre de organização que me toma como a de uma antiga formiga. É como se o meu inconsciente coletivo fosse o de uma formiga.
Eu também queria escrever, e seriam duas ou três linhas, sobre quando uma dor física passa. De como o corpo agradecido, ainda arfando, vê a que ponto a alma é também o corpo.
E é como se eu fosse escrever um livro sobre a sensação que tive uma vez que passei vários dias em casa muito gripada – e quando saí fraca pela primeira vez à rua, havia sol cálido e gente na rua. E de como me veio uma exclamação entre infantil e adulta: ah, como os outros são bonitos. É que eu vinha do escuro meu para o claro que também descobria que era meu, é que eu vinha de uma solidão de pessoas para o ser humano que movia pernas e braços e tinha expressões de rosto.
Também seria inesgotável escrever sobre beber mal. Bebo depressa demais, e não há alternativas: ou praticamente adormeço dentro de mim e fico morosa, pensativa sem que um pensamento se esclareça como descoberta, ou fico excitada dizendo tolices do maior brilho instantâneo. Mas – mas há um instante mínimo nesse estado em que simplesmente sei como é a vida, como eu sou, como os outros são, como a arte deveria ser, como o abstracionismo por mais abstrato não é abstrato. Esse instante só não vale a pena porque esqueço tudo depois, quase na hora. É como se o pacto com Deus fosse este: ver e esquecer, para não ser fulminado pelo saber.
E às vezes, por mais absurdo, acho lícito escrever assim: nunca se inventou nada além de morrer. E me acrescento: deve ser um gozo natural, o de morrer, pois faz parte essencial da natureza humana, animal e vegetal, e também as coisas morrem. E, como se houvesse ligação com essa descoberta, vem a outra óbvia e espantosa: nunca se inventou um modo diferente de amor de corpo que é estranho e cego. Cada um vai naturalmente em direção à reinvenção da cópia, que é absolutamente original quando realmente se ama. E de novo volta o assunto morrer. E vem a ideia de que, depois de morrer, não se vai ao paraíso, morrer é que é o paraíso.
A verdade é que simplesmente me faltou o dom para a minha verdadeira vocação: a de desenhar. Porque eu poderia, sem finalidade nenhuma, desenhar e pintar um grupo de formigas andando ou paradas – e sentir-me inteiramente realizada nesse trabalho. Ou desenharia linhas e linhas, uma cruzando a outra, e me sentiria toda concreta nessas linhas que os outros talvez chamassem de abstratas.
Eu também poderia escrever um verdadeiro tratado sobre comer, eu que gosto de comer e no entanto não como tanto. Terminaria sendo um tratado sobre a sensualidade, não especificamente a de sexo, mas a sensualidade de “entrar em contato” íntimo com o que existe, pois comer é uma de suas modalidades – e é uma modalidade que engage de algum modo o ser inteiro. Também escreveria sobre rir do absurdo de minha condição. E ao mesmo tempo mostrar como ela é digna, e usar a palavra digna me faz rir de novo.
Eu falaria sobre frutas e frutos. Mas como quem pintasse com palavras. Aliás, verdadeiramente, escrever não é quase sempre pintar com palavras? Ah, estou cheia de temas que jamais abordarei. Vivo deles, no entanto.
Clarice Lispector, in A descoberta do mundo

Domado

Você pode enjaular um tigre, mas jamais terá certeza que ele está domado. Com os homens a coisa é mais fácil.”
Charles Bukowski

Um artista de Shanghai

Para May Zarif

Muita gente sonha em conhecer Paris, Roma, Barcelona, Londres, Cairo”, disse minha amiga. “Eu, desde criança, sonhava em conhecer Shanghai.”

Minha mãe falava muito de um artista chinês que encantou a cidade com seus desenhos e aquarelas. Ele morou uns anos em Manaus e ganhava a vida com sua arte de aquarelista. Perguntava a uma pessoa o nome de um parente morto, pedia que lhe contasse alguma coisa sobre o finado, depois pintava com aquarela manchas coloridas e dessas manchas surgia um rosto. O rosto do parente. Minha mãe dizia que esse chinês, além de ser um artista, era um bruxo. Por isso ficou conhecido como “O bruxo de Shanghai”.
Eu tinha nove anos quando vi o desenho do rosto da minha finada avó, uma aquarela do artista chinês. Minha mãe me mostrou fotografias dessa avó que não conheci, eu fiquei impressionada com a semelhança entre as fotos e a aquarela.
Quando eu ia completar treze anos, aconteceu uma tragédia. Minha mãe foi me apanhar na Escola Normal. Quando atravessávamos a praça São Sebastião, paramos no lugar onde o chinês trabalhava.
Ele ficava aqui, ao lado desse barco de bronze onde está escrito Ásia”, disse minha mãe.
Observei o monumento, o barco, imaginei o artista com seus pincéis, tintas, folhas brancas, e perguntei por onde ele andava.
Não sei”, ela disse. “Morou aqui nos anos 1950. Ainda estava em Manaus quando tu nasceste, mas um dia ele sumiu. Era um artista muito querido.”
Entramos em casa depois de meio-dia, minha mãe murmurou que não queria almoçar, estava indisposta e foi deitar na rede. Almocei com meu pai, conversamos sobre a Escola Normal e sobre um navio inglês que estava atracado no porto. Antes de fazer a sesta, meu pai perguntou à minha mãe se ela se sentia melhor. Ela não respondeu. Estava morta. Morreu deitada, dormindo.
Sim, uma coisa terrível… Quando me lembrava dela, recordava também do pintor de Shanghai, porque as últimas palavras que ouvi de minha mãe falavam do artista e do lugar onde costumava trabalhar. Aí passei anos com a ideia de visitar a China, ou melhor, Shanghai.
Meu pai dizia que isso era besteira, ou loucura. Não insisti, mas também não desisti de visitar Shanghai. Meu pai morreu muito velho, em 1996, quando eu já estudava mandarim com um chinês que trabalhava numa fábrica em Manaus. Quando meu professor envelheceu, eu já falava mandarim, mas não conhecia o dialeto falado na região de Shanghai. Há dois anos viajei à Ásia.
Shanghai, como tu sabes, é o maior porto do mundo, a cidade é enorme, mas essa metrópole tentacular não me intimidou. Visitei o museu de Belas-Artes, o Centro de Escultura de Shanghai, o maravilhoso Lu Xun; saía sozinha, sem intérprete: o nome e endereço do hotel bastavam. Mas fui com um guia até as ilhas Yangshan. Para quem conhece a China, o Ocidente é um diminutivo.
Dois dias antes de voltar para o Brasil, escrevi o nome do artista e perguntei ao guia se ele conhecia alguém com esse nome. Ele me levou a um bairro distante do centro, um bairro situado no coração de Puxi, a oeste do rio Huangpu. Paramos diante de um pequeno sobrado em estilo art déco, resquício da colonização francesa.
Esta é a casa do artista”, disse o guia. “Morreu em Shanghai, em 1978. Sei por que você se interessou por ele.”
Por quê?”
Porque ele morou nove anos na Amazônia.”
Entramos na casa. As paredes das salas estavam cobertas por desenhos e aquarelas de rios, igapós, furos, sementes, frutas, uma enorme variedade de plantas e árvores. E também aquarelas de horizontes, em que a floresta e o céu eram desenhados em vários momentos do dia. Não vi nenhum desenho de pessoas, nem de animais, peixes, insetos. Lembrei a aquarela do rosto da minha avó e pensei: ele desenhava o rosto dos mortos para sobreviver. Era um artista apaixonado pela natureza.
Perguntei ao guia quanto tempo o artista tinha morado naquela casa.
Quase vinte anos”, respondeu. “Mas ele só ocupava um quartinho do andar superior. Quando ele morreu, os outros moradores tiveram que sair daqui. A prefeitura fez esse pequeno museu.”
Quis visitar o quarto. Era de fato pequeno, mal cabiam uma cama, uma cadeira e uma mesinha. Reparei nos pincéis de vários tamanhos e formas, nos delicados estojos de tintas, na roupa dobrada, arrumada sobre o assento da cadeira. Um quartinho modesto, ou mesmo pobre, que contrastava com a riqueza e o luxo que eu tinha visto em Pudong. Mas não senti pena do artista. Por que sentiria pena de um artista talentoso e corajoso?
Quando observei a mesinha, vi uma fotografia ao lado de um caderno. Na capa, estava escrito em mandarim: ‘Passagem por Manaus’. Depois, quando observei a foto, vi o artista ainda jovem abraçado a uma moça. Reconheci o rosto de minha mãe. Não sei se a foto era anterior ou posterior ao meu nascimento. Sei que minha mãe parecia feliz. O sorriso no rosto dela foi a melhor lembrança de Shanghai.
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

domingo, 25 de junho de 2017

Fluência

Eu fiz um livro, mas oh, meu Deus,
não perdi a poesia.
Hoje depois da festa,
quando me levantei para fazer café,
uma densa neblina acinzentava os pastos,
as casas, as pessoas com embrulho de pão.
O fio indesmanchável da vida tecia seu curso.
Persistindo, a necessidade dos relógios,
dos descongestionantes nasais.
Meu livro sobre a mesa contraponteava exato
com os pardais, os urinóis pela metade,
o antigo e intenso desejar de um verso.
O relógio bateu sem assustar os farelos sobre a mesa.
Como antes, graças a Deus.
Adélia Prado

Dona Eduviges

Como se o tempo tivesse retrocedido. Tornei a ver a estrela ao lado da lua. As nuvens se desfazendo. As revoadas de tordos. E em seguida a tarde, ainda cheia de luz.
As paredes refletindo o sol da tarde. Meus passos ressoando nas pedras. O tropeiro que me dizia: “Procure a dona Eduviges, se é que ela ainda está viva!”
Depois um quarto escuro. Uma mulher roncando ao meu lado. Notei que sua respiração era desigual como se estivesse entre sonhos, ou como se não dormisse e só imitasse os ruídos que o sono produz. A cama era de palha coberta com sacos de estopa que cheiravam a urina, como se nunca tivessem sido arejados ao sol; e o travesseiro era um trapo que envolvia uma paina ou lã tão dura ou tão suada que tinha endurecido feito pau.
Junto aos meus joelhos sentia as pernas nuas da mulher, e junto à minha cara a sua respiração. Sentei-me na cama apoiando-me naquela espécie de adobe do travesseiro.
O senhor não dorme? — ela me perguntou.
Não tenho sono. Dormi o dia inteiro. Onde está o seu irmão?
Saiu por aí. O senhor ouviu onde ele tinha de ir. Talvez não volte esta noite.
Quer dizer que acabou indo mesmo? Apesar da senhora?
É. E talvez não volte. Assim foi com todos. Que vou até aqui, que vou até ali. Até que foram se afastando tanto que no fim não voltaram. Ele sempre quis ir embora, e acho que agora chegou a vez. Talvez sem que eu soubesse, me deixou com o senhor para que o senhor cuidasse de mim. Viu que era a oportunidade. Essa história do bezerro fujão foi só um pretexto. O senhor vai ver como ele não volta.
Quis dizer a ela: “Vou sair para buscar um pouco de ar, porque sinto náuseas”, mas disse:
Não se preocupe. Ele volta.
Quando me levantei, ela me disse:
Deixei alguma coisa em cima do braseiro. É muito pouco; mas pode ser que acalme a sua fome.
Encontrei um pedaço de carne-seca e em cima das brasas umas tortilhas.
São as coisas que consegui — ouvi que ela dizia lá de onde estava. — Troquei com minha irmã por dois lençóis limpos que eu tinha guardado desde os tempos da minha mãe. Ela deve ter vindo aqui buscar. Não quis dizer nada na frente de Donis; mas foi ela a mulher que o senhor viu e que o assustou tanto.
Um céu negro, cheio de estrelas. E ao lado da lua, a maior estrela de todas.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

A aventura grotesca do protoplasma

A espécie humana há de passar como passaram os dinossauros e os estegocéfalos. Pouco a pouco, a pequena estrela que nos serve de sol perderá o seu poder iluminador e aquecedor... Terá, nessa altura, cessado toda a vida sobre a Terra, que continuará, como astro caduco, o seu voltear sem fim nos espaços sem limites... E então, de toda a civilização humana ou sobre-humana – descobertas, filosofias, ideais, religiões -, nada subsistirá. Não restará mesmo, de nós, o que resta hoje do homem de Neandertal, do qual, pelo menos, alguns ‘despojos’ encontraram asilo nos museus do seu sucessor. Será anulada, para sempre, neste recanto do Universo, a aventura grotesca do protoplasma. Aventura que, talvez, se renove noutros mundos, sempre sustentada pelas mesmas ilusões, criadoras dos mesmos tormentos, sempre igualmente absurda, igualmente vã e igualmente condenada, desde o princípio, à frustração final e à treva infinita…”
Jean Rostand, in Pensamentos de um biólogo

O traço marcante de Van Gogh

A Siesta (1980), de Vicente Van Gogh

Requerimento

Caro Senhor Tempo, 
 
Espero que esta lhe encontre passando bem, ou melhor, passando o mais devagar possível.
Por aqui vai-se indo, como o Senhor quer e consente, meio rápido demais para o meu gosto, e quando vi já era dezembro.
Foi-se mais um ano.
E com ele se foi uma quantidade incalculável de amores, cores, idades, alguns amigos, não sei quantos neurônios, memórias, remorsos, desvarios, cabelos, ilusões, alegrias, tristezas, várias certezas (se não me engano, treze), algumas verdades indiscutíveis, umas calças que não fecham mais e aquele vestido de que eu gostava tanto.
Foi-se o meu gosto por vitrine.
Foi-se quase todo meu vidro de perfume.
Foi-se meu costume de imaginar asneiras à noite.
Foi-se meu forte instinto de acreditar no que me dizem.
Foi-se meu açucareiro de porcelana. Que pena.
Foi-se o tempo em que uma simples farra não significava necessariamente uma condenação sumária do dia subsequente.
Foi-se a poupança. O troquinho da gaveta.
Foi-se aquele antigo projeto.
Foram-se exatamente nove vírgula seis por cento de todas as minhas esperanças.
Será que o Senhor não cansa, seu Tempo?
Não pensa em tirar umas férias, dar uma pausa, respirar um pouco? Não lhe agrada a ideia de mudar o andamento? Diminuir o ritmo? Em vez de tique-taque, inventar uma palavra mais comprida para compasso, mantra, ícone, diagrama?
Me diz sinceramente: para que tanta pressa?
Anda difícil acompanhar seus passos ultimamente.
Não precisa dar meia-volta, eu não espero tanto. Eternidade? Não. Só queria sua amizade.
Mas já é dezembro.
Foi-se mais um ano.
E o Senhor passou voando, rebocou os meus momentos, foi desbotando minhas lembranças, carregou mais doze meses inteiros levando cada instante meu de carona.
Tentei voltar atrás em algumas decisões. Já era tarde.
Não deixei nada para amanhã. Mesmo assim, não fiz sequer metade do que pretendia. Imaginei várias maneiras de estancar os dias, segunda, terça, quarta, quando via já era quinta. Sexta. Sábado. Domingo. Pronto.
Pensei em fuga. Será que existe algum lugar deste mundo onde as horas não me encontrem? Fiquei meses trancada em casa. Foi inútil. Lá fora, o Senhor continua passando.
E já passou mais um pouquinho.
Calma, Tempo! Espera só um minutinho para eu explicar melhor meu ponto de vista.
Nem todo mundo é pedra, concorda? Dito isso, imagine então quantos pobres mortais sofrem da mesma agonia diária: giros e mais giros nos ponteiros, os cantos dos cucos, as denúncias das sombras, os grãos de areia escorrendo (parece até hemorragia crônica), tudo escapulindo, descendo, subindo, o frenesi dos dígitos, um, dois, três, quatro, cinco, cem, o Senhor vai tirar o pai da forca? Está fugindo de alguém? De quem? De mim? De ontem? Eu conheço de cor suas obrigações.
Estou convencida de suas utilidades.
Não fosse o senhor, não existiria saudade, retrato, suvenir, antiguidade, história, época, período, calendário, outrora, passatempo, novidade, creme antirrugas, disputa por pênaltis, antepassado, descendente, dia, noite, nada, não existiria sabedoria, eu sei disso.
Não tome como queixas minhas palavras, por favor não tome.
Aqui vai apenas uma súplica.
Ah, se o senhor fosse mais indulgente, mais piedoso, mais pensativo, se fosse baiano, menos estressado, mais manso, menos rigoroso, um bon vivant, e se distraísse aí pelo caminho, e se deixasse apreciar as paisagens, e sofresse um devaneio, e ficasse de bobeira, esquecido das horas, divagando.
Escute aqui, seu Tempo, que tal deixar passar o resto e parar quieto um pouco?
Adriana Falcão, in Requerimento