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22/09/2013

Subversiva

A poesia
Quando chega
Não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos
Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha
Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.
E promete incendiar o país.
Ferreira Gullar

20/05/2012

No mundo há muitas armadilhas


No mundo há muitas armadilhas
        e o que é armadilha pode ser refúgio
        e o que é refúgio pode ser armadilha 
Tua janela por exemplo
       aberta para o céu
       e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
     a bater antes de Cabral, antes de Tróia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)
No mundo há muitas armadilhas
       e muitas bocas a te dizer
       que a vida é pouca
       que a vida é louca
       E por que não a Bomba? te perguntam.
       Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
       que a vida é louca? 
Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
       que não sabe
       que afoito se entranha à vida e quer
       a vida
       e busca o sol, a bola, fascinado vê
       o avião e indaga e indaga 
A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade. 
Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e aguentarás até o fim. 
O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje 
A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.
Ferreira Gullar

28/04/2012

Agosto 1964

Entre lojas de flores e de sapatos, bares
Mercados, butiques.
Viajo
Num ônibus Estrada de Ferro – Leblon.
Volto do trabalho, a noite em meio,
Fatigado de mentiras.
O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,
Relógio de lilases, concretismo,
Neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,
Que a vida
Eu a compro à vista aos donos do mundo.
Ao peso dos impostos, o verso sufoca,
A poesia agora responde a inquérito policial militar.
Digo adeus à ilusão
Mas não ao mundo. Mas não à vida,
Meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
Da punição injusta,
Da humilhação, da tortura,
Do terror,
Retiramos algo e com ele construímos um artefato,
Um poema,
Uma bandeira.
Ferreira Gullar, in Toda poesia

04/01/2012

“A poesia é um refúgio para quem tem sede e fome de afeto. A poesia não cura ninguém de nada, mas as pessoas encontram na poesia uma espécie de fonte água limpa, onde será sempre possível beber”.
Ferreira Gullar