Mostrando postagens com marcador Vida. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vida. Mostrar todas as postagens

25/06/2026

Diário de Bernardo Soares

116.

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida — umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.
Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

16/05/2026

Diário de Bernardo Soares

108.

A vida pode ser sentida como uma náusea no estômago, a existência da própria alma como um incómodo dos músculos. A desolação do espírito, quando agudamente sentida, faz marés, de longe, no corpo, e dói por delegação.
Estou consciente de mim num dia, em que a dor de ser consciente é, como diz o poeta,

Languidez, mareo
Y angustioso afán.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

11/03/2026

Dor e esperança

Temos uma capacidade quase infinita de suportar a dor, desde que haja esperança. Diz­-se que a esperança é a última que morre. Mas o certo seria dizer: a penúltima. Há uma morte que acontece antes da morte. Quando se conclui que não há mais razões para viver. Quando ­morrem as razões para viver, entram em cena as razões para morrer.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

12/02/2026

Delicada e preciosa

  “Após cada morte a vida se torna, para nós, mais delicada e preciosa.”

Hermann Hesse, em Do universo à jabuticaba, de Rubem Alves

20/12/2025

Natureza viva

A vida brota. E é toda olhos. Cada gota contém a luz do mundo. E cada cálice é uma boca ávida. A tua mão — fechada em maldição — abre-se em concha, agora…

Mário Quintana, em Caderno H

09/11/2025

A fome

Meu Deus, até que ponto vou na miséria da necessidade: eu trocaria uma eternidade de depois da morte pela eternidade enquanto estou viva.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

03/08/2025

Ciclos

O término da atividade, o encerramento do impulso e da opinião e a morte de ambos não são maus. Considere sua vida quando criança, jovem, adulto e idoso. No decorrer desses ciclos, as transformações foram mortes. Isso é amedrontador? Examine, agora, sua vivência com seu avô, com sua mãe e, então, com seu pai. Reencontrará muitas outras diferenças, oscilações e desfechos. Pergunte-se: “Isso é temeroso?” Do mesmo jeito, o término, o encerramento e a transformação da vida não devem ser temidos.

Marco Aurélio, em Meditações

26/04/2025

Sim

Eu disse a uma amiga:
– A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
– Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

29/03/2025

Eu o vi. Nós nos vimos

“Quando Carl morreu, muitos me perguntaram – e ainda perguntam – se, nos últimos momentos, ele mudou de ideia e passou a acreditar em algo além desta vida. Se, de alguma forma, nos reencontraríamos depois da morte. Mas Carl enfrentou seu fim com a mesma coragem serena com que viveu: sem ilusões, sem se agarrar a esperanças vazias. A verdadeira tragédia era sabermos que nunca mais nos veríamos.

Mas também havia beleza nisso. Porque enquanto estivemos juntos, por quase vinte anos, nunca subestimamos a brevidade e a preciosidade da vida. Nunca fingimos que a morte era outra coisa senão uma despedida definitiva. Cada instante que dividimos foi um milagre – não no sentido sobrenatural, mas no mais puro e assombroso sentido do acaso.

Que sorte imensa termos nos encontrado, como Carl escreveu em Cosmos, ‘na vastidão do espaço e na vastidão do tempo’. Que privilégio termos compartilhado nossa existência por duas décadas. É isso que me sustenta.

Não me iludo esperando revê-lo um dia. Mas eu o vi. Nós nos vimos. Nós nos encontramos no universo – e isso foi o suficiente. Isso foi maravilhoso.”

Ann Druyan, esposa de Carl Sagan

29/01/2025

Dois modos

Como se eu procurasse não aproveitar a vida imediata, mas sim a mais profunda, o que me dá dois modos de ser: em vida, observo muito, sou ativa nas observações, tenho o senso do ridículo, do bom humor, da ironia, e tomo um partido. Escrevendo, tenho observações por assim dizer passivas, tão interiores que se escrevem ao mesmo tempo em que são sentidas, quase sem o que se chama de processo. É por isso que no escrever eu não escolho, não posso me multiplicar em mil, me sinto fatal a despeito de mim.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

28/12/2024

Morrer antes do tempo

Busque em sua memória e reflita sobre em qual momento você teve uma meta fixa, quantos dias se passaram da forma como você planejou, em que momento você esteve à disposição de si mesmo, quando que seu rosto exibiu uma expressão natural, quando sua mente esteve imperturbada, que trabalho realizou em uma vida tão longa, quantos roubaram sua vida enquanto você não estava ciente de que a estava perdendo, quanto desse tempo foi absorvido em tristeza inútil, em alegria tola, em desejo ganancioso, nas seduções da sociedade, quão pouco de si mesmo foi deixado para você. Perceberá, então, que está morrendo antes do tempo.

Sêneca, em Sobre a Brevidade da Vida

11/10/2024

Só tu

Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida – ninguém, exceto tu, só tu.

Friedrich Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra

06/10/2024

Morrer

Tenho morrido muitas vezes.
Depois, respiro fundo,
lavo o rosto, sigo em frente.
Não é fácil morrer,
difícil é renascer,
fingir-se de sol,
cegar a lua,
beber o mar.
Detestável seria ter a covardia
dos que me mataram.
Eu sigo renascendo,
eles seguem covardes.

Pedro Munhoz, em Poemais e Outras Canções Urgentes

16/09/2024

Vida efêmera

Lucila viu Vero falecer. Depois, faleceu. O mesmo se desenrolou com Secunda e Máximo, Epitincano e Diótimo, Antonino e Faustina, Céler e Adriano e assim por diante.
Onde estão aqueles homens perspicazes — videntes ou orgulhosos —, como Charax, Demétrio, Eudemão e semelhantes? Tiveram uma vida efêmera e estão mortos há anos. Alguns não foram lembrados nem momentaneamente. Outros se transformaram em heróis das fábulas. Os demais desapareceram até delas.
Recorde-se: ou esse seu pequeno composto — você — será dissolvido, ou seu sopro vital será dissipado ou movido para outra área.

Marco Aurélio, em Meditações

12/09/2024

Curta é a vida

Vire do avesso e distingua que tipo de coisa é e em quê se transforma ao envelhecer ou adoecer.
Curta é a vida tanto do elogiador e do elogiado quanto de quem lembra e de quem é lembrado. Todos em um recanto desta parte do mundo. Não concordam nem aqui. Não concordam nem sequer consigo mesmos.
A terra é um mero ponto.

Marco Aurélio, em Meditações

04/08/2024

Aproximação gradativa

 Se eu tivesse que dar um título à minha vida seria: à procura da própria coisa.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

11/04/2024

O que passou passou?

Antigamente, se morria.
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria,
e todo mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
Tinha coisas que tem que morrer,
tinha coisas que tem que matar.
A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
deixar tudo para os filhos
e virar fotografia?
Ninguém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Mas ninguém tem culpa.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
Não tem o que reclamar.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
inventou a criônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

Paulo Leminski, in Toda Poesia

31/01/2024

Ah, vida...

A vida está cheia de interferências indébitas, de acasos estúpidos, de personagens errados que travam conosco desencontrados diálogos de surdos, a vida está atravancada de pormenores inúteis, a vida parece um romance malfeito!

Mário Quintana, in Caderno H