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16/11/2024

Por que que eu escrevo?

 “Por que que eu escrevo? Porque é preciso. Nas horas mais difíceis da minha vida, rabiscar frases, ainda que nunca sejam lidas por ninguém, traz pra mim o mesmo conforto que a reza pra quem tem fé. Através da linguagem eu ultrapasso meu caso particular, eu comungo com toda a humanidade. Toda dor dilacera, mas o que a torna intolerável é que quem a sente tem sempre a impressão de estar separado do resto do mundo. Partilhada a dor ao menos deixa de ser um exílio.”

Simone de Beauvoir, em Balanço final

29/06/2017

Encorajados pelo racionalismo de Alain

Sartre viera me ver no Limousin; hospedara-se no hotel Boule d’Or, em Saint-Germain-les-Belles; para evitar falatórios, encontrávamo-nos a boa distância da cidade, no campo. Com que alegria, pela manhã, eu descia correndo os gramados do parque, pulava outeiros, atravessava os prados ainda úmidos onde tantas vezes, e não raro amargamente, eu ruminara a minha solidão! Sentávamo-nos na relva e conversávamos. Não imaginara, no primeiro dia, que, longe de Paris e de nossos colegas, essa ocupação pudesse bastar-me. “Levaremos livros e leremos”, sugerira eu. Sartre ficara indignado; rejeitara também todos os meus projetos de passeio; era alérgico a clorofila, o verde das pastagens irritava-o, só o tolerava com a condição de esquecê-lo. Pois que fosse assim. Por pouco que me encorajasse, o discurso não me assustava; retomamos a conversa iniciada em Paris e logo me dei conta de que, ainda que continuasse até o fim do mundo, o tempo me pareceria curto demais. Mal a manhã acabava de nascer e já o sino do almoço tocava. Ia comer em casa; Sartre comia pão de centeio e mel, ou queijo que minha prima Madeleine depositava com mistério num pombal abandonado ao lado da “casa de baixo”; ela gostava do romanesco. Mal desabrochava e já fenecia a tarde, caía a noite. Sartre voltava ao hotel; jantava ao lado dos caixeiros-viajantes. Eu dissera a meus pais que estávamos trabalhando em um livro que seria uma crítica ao marxismo. Esperava amansá-los, lisonjeando-lhes o ódio ao comunismo, mas não os convenci em absoluto. Quatro dias depois da chegada de Sartre, vi-os surgindo nos limites do prado em que estávamos instalados; aproximaram-se. Meu pai tinha um ar resoluto mas um tanto embaraçado com seu palheta amarelado. Sartre, que nesse dia usava uma camisa de um rosa agressivo, pôs-se em pé, com o olhar provocante. Meu pai pediu-lhe cortesmente que deixasse a região; o povo falava, comentava, e minha aparente má conduta prejudicava a reputação de minha prima, que procuravam casar. Sartre retorquiu com vivacidade mas sem muita violência, pois estava decidido a não adiantar em uma só hora sua partida. Limitamo-nos a ter encontros um pouco mais clandestinos num longínquo bosque de castanheiros. Meu pai não voltou a insistir e Sartre ficou ainda uma semana no Boule d’Or. Depois disso, escrevemo-nos diariamente.
Quando tornei a encontrá-lo, em outubro, tinha liquidado meu passado; 3 empenhei-me por inteira em nosso caso. Sartre devia partir em breve para o serviço militar; entrementes estava de férias. Residia na rua Saint-Jacques, com seus avós Schweitzer, e encontrávamo-nos pela manhã no jardim Luxemburgo cinzento e dourado, sob o olhar branco das rainhas de pedra; só nos largávamos tarde da noite. Andávamos por Paris e continuávamos a conversar, considerando o pé em que estávamos em relação a nós mesmos, nossa ligação, nossa vida e nossos futuros livros. Hoje, o que me parece mais importante nessas conversas são menos as coisas que dizíamos do que as que encarávamos como resolvidas; não estavam, enganávamo-nos em relação a quase tudo. Para nos definir, cumpre examinar esses erros, pois exprimiam uma realidade: a de nossa situação.
Já o disse: Sartre vivia para escrever; tinha por missão testemunhar todas as coisas e retomá-las por sua conta e à luz da necessidade; a mim, era prescrito emprestar minha consciência ao múltiplo esplendor da vida, e eu devia escrever para arrancá-la do tempo e do nada. Essas missões impunham-se a nós com uma evidência que nos garantia sua realização; sem nos formular, aderíamos ao otimismo kantiano: deves, logo podes. E efetivamente, como a vontade duvidaria de si mesma no momento em que se decide e se afirma? É uma só coisa então querer e acreditar. Por isso mesmo confiávamos no mundo e em nós mesmos. Éramos contra a sociedade em sua forma atual; mas esse antagonismo nada tinha de melancólico: implicava um robusto otimismo. O homem devia ser recriado e essa invenção seria em parte obra nossa. Não pensávamos em contribuir para isso senão com livros; os negócios públicos nos entediavam muitíssimo, mas esperávamos que os acontecimentos se desenrolassem segundo nossos desejos, sem que tivéssemos que nos meter neles. A esse respeito, no outono de 1929, partilhávamos a euforia da esquerda francesa. A paz parecia definitivamente assegurada. A expansão do Partido Nazista na Alemanha representava apenas um epifenômeno sem gravidade. O colonialismo seria liquidado em pouco tempo: a campanha iniciada por Gandhi na Índia e a agitação comunista na Indochina nos garantiam isso. A crise de virulência excepcional que sacudia o mundo capitalista pressagiava que essa sociedade não aguentaria muito tempo. Já nos afigurava vivermos na idade de ouro que constituía a nossos olhos a verdade recôndita da História, e que ela se limitaria a desvendar.
Ignorávamos em todos os domínios o peso da realidade. Vangloriávamo-nos de uma liberdade radical. Acreditamos durante tanto tempo e com tanta tenacidade nessa palavra que foi preciso ver de perto o que nela púnhamos.
Cobria uma experiência real. Em toda atividade descobre-se uma liberdade, particularmente na atividade intelectual, porque dá pouca margem a repetição. Tínhamos trabalhado muito; sem cessar, fora preciso compreender e inventar novamente. Tínhamos uma intuição prática da liberdade, irrecusável; nosso erro foi não a encerrar dentro de seus justos limites; ficamos presos à imagem da pomba de Kant: o ar que lhe resiste, longe de travar, suporta seu voo. O dado apareceu-nos como a matéria de nossos esforços, não como seu condicionamento; pensávamos não depender de nada. Assim como nossa cegueira política, esse orgulho espiritualista explica-se antes de tudo pela violência de nossos projetos. Escrever, criar: não ousaríamos, na verdade, arriscar-nos a essa aventura se não tivéssemos absoluta certeza de nós mesmos, de nossos fins e de nossos meios. Nossa audácia era inseparável das ilusões que a sustentavam, e as circunstâncias as haviam favorecido juntas. Nenhum obstáculo exterior jamais nos forçara a ir de encontro a nós mesmos; queríamos conhecer e exprimir-nos; estávamos empenhados até o pescoço nessa tarefa. Nossa existência satisfazia tão bem nossos desejos que nos parecia que a tínhamos escolhido; daí acharmos que sempre se submeteria a nossos desígnios. A sorte que nos servira mascarava a adversidade do mundo. Por outro lado, interiormente, não sentíamos empecilhos. Eu mantinha boas relações com meus pais, mas eles tinham perdido todo domínio sobre mim; Sartre nunca conhecera o pai; nem sua mãe nem seus avós tinham encarnado a lei a seus olhos. Em certo sentido, éramos ambos sem família e tínhamos erigido essa situação em princípio. Havíamos sido encorajados pelo racionalismo cartesiano que Alain nos transmitira e que tínhamos abraçado justamente porque nos convinha. Nenhum escrúpulo, nenhum respeito e nenhuma aderência afetiva nos impediam de tomarmos nossas resoluções à luz da razão e de nossos desejos; não percebíamos em nós nada de opaco ou turvo; pensávamos ser pura consciência e pura vontade. Essa convicção era fortalecida pelo arrebatamento com o qual apostávamos no futuro; não estávamos alienados a nenhum interesse definido, porquanto o presente e o passado deviam ser sempre ultrapassados. Não hesitávamos em contestar todas as coisas e nós mesmos sempre que a ocasião o solicitava; criticávamo-nos e condenávamo-nos com desenvoltura, uma vez que toda mudança nos afigurava um progresso. Como nossa ignorância dissimulava a maior parte dos problemas que nos deveriam ter inquietado, contentávamo-nos com essas revisões e imaginávamo-nos intrépidos.
Simone de Beauvoir, in A força da idade

28/05/2017

A Truta de Ouro

Saindo da igreja, André me perguntou:
Você acha que “A Truta de Ouro” existe ainda?
Vamos ver.
Antigamente, era um dos nossos lugares favoritos, aquele pequeno albergue, à borda da água, onde se comiam pratos simples e deliciosos. Nós lá festejamos as bodas de prata e, depois disso, não tínhamos voltado. Silencioso, pavimentado com pequenas pedras, o lugarejo não havia mudado. Percorremos a rua principal nos dois sentidos: “A Truta de Ouro” tinha desaparecido. O restaurante onde paramos, na floresta, nos desagradou: decerto por compará-lo às lembranças.
E agora, que fazemos? — indaguei.
Nós tínhamos falado do castelo de Vaux, das torres de Blandy.
Mas tem você vontade de ir?
Ele estava pouco ligando e eu também, mas nenhum de nós ousava dizê-lo. Em que pensaria ao certo, enquanto rodávamos sobre estradazinhas cheirando a folhagem? No deserto de seu futuro?
Simone de Beauvoir, in A mulher desiludida

10/01/2017

Minha liberdade

O que me inebriou quando voltei a Paris, em setembro de 1929, foi primeiramente minha liberdade. Com ela sonhara desde a infância, quando “brincava de gente grande” com minha irmã. Já disse como ansiava apaixonadamente por ela, quando estudante. Repentinamente eu a possuía; a cada gesto eu me maravilhava com minha leveza. Ao abrir os olhos pela manhã, agitava-me jubilante. Por volta dos meus doze anos, sofrera por não ter um canto meu em casa. Lendo em Mon Journal a história de uma colegial inglesa, contemplara com nostalgia o cromo que representava o quarto dela: uma carteira, um sofá, prateleiras cheias de livros; entre aquelas paredes de cores vivas, ela trabalhava, lia, tomava chá, sem testemunhas: como a invejava! Entrevira pela primeira vez uma existência mais favorecida do que a minha. E eis que afinal eu também estava em minha casa! Minha avó livrara-se de todas as poltronas, mesinhas e bibelôs de seu salão. Eu comprara móveis de bétula que minha irmã ajudara a envernizar de escuro. Tinha uma mesa, duas cadeiras, um grande baú que servia também de assento, prateleiras para meus livros, um sofá combinando com o papel alaranjado das paredes. Da sacada de meu quinto andar, eu dominava os plátanos da rua Denfert-Rochereau e o Lion de Belfort. Aquecia-me com um fogareiro vermelho a querosene que cheirava mal, e eu gostava desse cheiro porque sentia que defendia minha solidão. Que alegria poder fechar a porta e passar dias ao abrigo de todos os olhares! Durante muito tempo permaneci indiferente ao aspecto do ambiente em que vivia; talvez por causa da ilustração de Mon Journal, preferia os quartos que ofereciam um sofá e prateleiras, mas eu me acomodava em qualquer canto; bastava-me apenas poder fechar a porta para me sentir plenamente satisfeita.
Pagava uma pensão a minha avó e ela me tratava com a mesma discrição com que tratava os outros inquilinos; ninguém controlava minhas idas e vindas. Podia voltar para casa de madrugada ou ler a noite inteira, dormir ao meio-dia, ficar emparedada vinte e quatro horas seguidas, sair para a rua subitamente. Almoçava um borscht no Dominique, jantava na Coupole uma xícara de chocolate. Gostava do chocolate, do borscht, das longas sestas, das noites sem sono, mas apreciava sobretudo meu capricho. Quase nada o contrariava. Constatei alegremente que “a seriedade da existência”, com que os adultos me tinham enchido os ouvidos, na verdade não pesava muito na balança. Passar nos exames não fora brincadeira; estudara seriamente, tivera medo de levar bomba, tropeçara em obstáculos e cansara-me. Agora não encontrava resistências, sentia-me de férias, e para sempre. Alguns alunos particulares e uma substituição no Liceu Victor-Duruy garantiam-me o pão de cada dia; essas tarefas não me aborreciam de modo algum, pois, executando-as, parecia que me entregava a um novo jogo: o jogo de ser adulta. Diligenciar para arranjar uns tapirs, discutir com diretoras e pais de alunos, organizar meu orçamento, pedir emprestado, pagar, calcular, todas essas atividades me divertiam porque as enfrentava pela primeira vez. Recordo com que alegria recebi meu primeiro cheque. Tinha a impressão de iludir alguém.
Nunca me interessei muito por roupas; entretanto, tive prazer em vestir-me de acordo com minha vontade. Ainda estava de luto pela morte de meu avô e não desejava chocar; comprei um manto, um gorro e escarpins cinzentos; mandei fazer um vestido para combinar e outro preto e branco. Reagindo contra os tecidos de algodão e de lã que me tinham obrigado a usar, escolhi tecidos sedosos: crepe da china e outro tecido muito feio que estava na moda naquele inverno, um veludo grosso. Todas as manhãs pintava-me com extravagância: uma placa vermelha em cada maçã, muito pó de arroz, batom. Achava absurdo que as pessoas se vestissem com mais apuro nos domingos do que nos dias de semana; para mim, todos os dias seriam feriados então eu me enfeitava em todas as circunstâncias da mesma maneira. Percebia que o crepe da china e o veludo grosso pareciam algo deslocados nos corredores do liceu, que meus escarpins estariam menos acalcanhados se não os tivesse arrastado o dia inteiro sobre os paralelepípedos de Paris, mas eu não ligava. A toalete era uma dessas coisas que eu não levava a sério.
Instalava-me, arranjava as coisas, recebia amigos, saía; mas eram apenas preliminares. Quando Sartre voltou para Paris, em meados de outubro, uma nova vida começou realmente.
Simone de Beauvoir, in A força da idade

30/11/2016

Numa certa idade

Desta lenta gestação, vão nascer inesperados frutos. Não terminou a aventura da qual participei apaixonadamente: a dúvida, os reveses, o aborrecimento, marcar passo, em seguida a luz entrevista, uma esperança, uma hipótese confirmada. Depois de semanas e de meses de ansiosa paciência, a embriaguez do êxito. Não compreendia bem os trabalhos de André mas minha confiança cabeçuda fortalecia a sua. Ela permanece intata. Mas por que não posso mais transmiti-la? Eu me recuso a crer que não verei jamais brilhar em seus olhos a alegria febril da descoberta.
Disse:
Nada prova que você não terá uma segunda inspiração.
Não. Em minha idade temos hábitos que freiam a invenção. Cada ano que passa fico mais ignorante.
Tornaremos a tocar no assunto daqui a dez anos. Aos setenta anos, talvez, você fará a sua maior descoberta.
Isso é bem o seu otimismo! Garanto-lhe que não.
É bem o seu pessimismo!
Rimos. Entretanto, não há do que rir. O derrotismo de André não tem fundamento, desta feita ele carece de rigor. Sim, Freud escreveu em uma de suas cartas que numa certa idade não se inventa mais nada e isso é desolador. Mas ele era, então, muito mais velho que André. Não importa. Injustificada embora, essa melancolia não me entristece menos. Se André se entrega é que, de um modo geral, ele está em crise. Surpreendo-me, mas o fato é que ele não se resigna a varar os sessenta anos. A mim, mil coisas me divertem ainda, a ele não. Antigamente, tudo o interessava, agora é um problema levá-lo a ver um filme, a uma exposição, à casa de amigos.
Que pena você não gostar mais de passear — disse. — Os dias andam tão bonitos! Pensava há pouquinho que gostaria muito de voltar a Milly e às florestas de Fontainebleau. — Você é espantosa — disse-me sorrindo.
Conhece a Europa inteira e deseja rever os arrabaldes de Paris!
Por que não? A colegial de Champeaux não é menos bela porque eu subi à Acrópole.
Pois seja. Assim que o laboratório estiver fechado, em quatro ou cinco dias, eu lhe prometo uma longa vagabundagem de carro.
Teremos tempo de fazer mais de uma pois que ficaremos em Paris até o início de agosto. Mas terá ele vontade? Perguntei:
Amanhã é domingo. Você estará livre?
Não, infelizmente! Você bem sabe da existência desse encontro com a imprensa sobre o apartheid. Eles me trouxeram uma porção de documentos que ainda não examinei.
Prisioneiros políticos espanhóis, detidos portugueses, iranianos perseguidos, rebeldes congoleses, guerrilheiros venezuelanos, peruanos, colombianos, ele está sempre pronto a ajudá-los na medida de suas forças. Reuniões, manifestos, meetings, tratados, delegações, nada ele recusa.
Você se dá demais!
Por que demais? Que outra coisa fazer?
Que fazer, mesmo, quando o mundo se descoloriu? Só resta matar o tempo. Eu também atravessei um mau período há dez anos. Estava aborrecida com meu corpo, Filipe tornara-se adulto. Após o sucesso de meu livro sobre Rousseau sentia-me vazia. Envelhecer me agoniava. Depois, iniciei um estudo sobre Montesquieu, consegui que Filipe passasse nos exames e começasse sua tese. Confiaram-me cursos na Sorbonne que me interessaram mais que meus problemas. Resignei-me a meu corpo. Pareceu-me que ressuscitava. E hoje, se André não tivesse uma consciência tão aguda de sua idade, eu esqueceria a minha.
Ele tornou a sair e eu fiquei bastante tempo no terraço. Vi voltear contra o fundo azul do céu uma grua cor de mínio. Segui com os olhos um inseto negro que fazia no ar um sulco espumoso e gelado. A perpétua juventude do mundo me deixa sem ar. Coisas que eu amei desapareceram. Muitas outras me foram dadas. Ontem à tarde, eu subia o Bulevar Raspail e o céu estava carmesim. Pareceu-me caminhar num planeta estrangeiro onde a relva fosse violeta, a terra azul. As árvores abrigavam o avermelhar de um anúncio a néon. Andersen aos sessenta anos maravilhava-se por atravessar a Suécia em menos de vinte e quatro horas quando em sua juventude a viagem durava uma semana. Conheci deslumbramentos semelhantes: Moscou a três horas e meia de Paris!
Simone de Beauvoir, in A mulher desiludida

08/11/2016

A idade da discrição (trecho)

Meu relógio parou? Não. Mas os ponteiros parecem não andar. Não olhar para eles... Pensar em outra coisa, em qualquer coisa: nesse dia que passou, tranquilo e rotineiro apesar da agitação da espera.
Enternecimento do acordar... André estava enrodilhado no leito, olhos vendados, mãos postas contra a parede num gesto infantil, como se no desamparo do sono tivesse necessitado experimentar a solidez do mundo. Sentei-me à borda do leito, coloquei a mão sobre seu ombro. Tirou a venda dos olhos, um sorriso desenhou-se em seu rosto espantado.
São oito horas!
Coloquei na biblioteca a bandeja da primeira refeição. Peguei um livro recebido na véspera e já folheado pela metade. Cacetes todas essas lengalengas sobre a não-comunicação! Bem ou mal conseguimos nos comunicar, se o queremos. Não com todo o mundo, é claro, mas com duas ou três pessoas. Às vezes, acontece-me não falar a André sobre estados de ânimo, pequenos cuidados, tristezas. Sem dúvida, ele também tem seus segredinhos, mas grosso modo não ignoramos nada um do outro.
Derramei nas xícaras chá-da-China bem quente, bem escuro. Bebemos enquanto percorríamos a correspondência: o sol de julho entrava em caudais no aposento. Quantas vezes ficamos sentados junto à mesinha, em frente um do outro e diante de xícaras de chá bem escuro e bem quente? Será assim, em seguida, em um ano, em dez anos?... Este instante possuía a doçura de uma lembrança e a alegria de uma promessa. Teríamos trinta ou sessenta anos? Os cabelos de André branquearam cedo: antigamente, aquilo parecia faceirice de sua parte: a neve realçando a frescura de sua tez. É ainda faceirice. A pele endureceu e fendeu-se, gretada como couro velho, mas o sorriso da boca e dos olhos guardou sua luz. Apesar dos desmentidos do álbum de fotografias, sua jovem figura se curva ante seu rosto de hoje: meu olhar não lhe reconhece idade. Uma longa vida com risos, lágrimas, cóleras, abraços, confissões, silêncios, impulsos, e parece, às vezes, que o tempo não passou. O futuro se esconde, ainda até o infinito. Levantou-se: — Bom trabalho! — me disse.
Para você também: bom trabalho.
Não respondeu. Nesse gênero de pesquisas, inevitavelmente, existem períodos em que se marca passo; ele se resigna menos facilmente que outrora.
Abri a janela. Paris cheirava a asfalto e a tempestade, esmagada pelo calor pesado do estio. Segui André com os olhos. É, talvez, nesses instantes em que o vejo distanciar-se que ele existe para mim com mais perturbadora evidência: a silhueta alta diminui, desenhando a cada passo o caminho de sua volta; ela desaparece, a rua semelha vazia mas, em verdade, é um campo imantado que o reconduzirá a mim como a seu lugar natural. Essa certeza me comove ainda mais que sua presença.
Fiquei bastante tempo no balcão. De meu sexto andar descubro um grande trecho de Paris, o voo dos pombos sobre os tetos de ardósia, e esses falsos vasos de flores que são as chaminés. Conto as gruas: cinco, nove, dez. Conto dez — barram o céu com seus braços de ferro vermelhos e amarelos.
À direita, meu olhar dá de encontro a uma alta muralha crivada de pequeninos buracos: um edifício novo. Vejo também torres, arranha-céus construídos de pouco. Desde quando o terreno baldio do Bulevar Edgar-Quinet tornou-se estacionamento? O aspecto jovem recente da paisagem salta-me aos olhos, todavia não me lembra tê-la visto diversa. Gostaria de olhar lado a lado para os dois clichês: antes e depois e me espantar com a diferença. Mas não. O mundo se constrói sob meus olhos num eterno presente. Habituo-me tão depressa às suas faces que ele não me parece mudar.
Em minha mesa, os fichários, o papel branco, me convidam ao trabalho, mas as palavras que me dançam na cabeça impedem-me a concentração: “Filipe estará aqui esta noite”. Quase um mês de ausência. Entrei em seu quarto onde se espalham ainda livros, papéis, uma velha malha cinza, um pijama violeta — esse quarto que eu não me decido a reformar porque não tenho tempo, dinheiro, porque não quero acreditar que Filipe não é mais meu. Voltei para a biblioteca perfumada por um ramo de rosas frescas, ingênuas como alfaces. Espantei-me por este apartamento jamais ter-me parecido deserto. Nada lhe faltava. Acariciei com o olhar as cores ácidas e ternas das almofadas espalhando-se nos divas. As bonecas polonesas, os salteadores eslovenos, os galos portugueses ocupavam, ajuizadamente, seus lugares. “Filipe estará aqui...” Fiquei desamparada. Pode-se chorar de tristeza mas não é fácil conjurar a impaciência da alegria.
Decidi ir respirar o odor do estio. Um negrão vestido com impermeável azul-elétrico e com chapéu de feltro cinza varria a calçada; antes era um argelino cor de terra. No Bulevar Edgar-Quinet misturei-me a confusão das mulheres. Como não saio nunca de manhã, a feira pareceu-me exótica (tantos mercados matinais sob tantos céus!). A velhinha manquitolava de uma banca a outra, suas madeixas bem puxadas para trás, apertando a alça de sua sacola vazia. Antigamente, eu não me incomodava com os velhos, tomava-os por mortos cujas pernas andassem ainda. Agora, eu os vejo: homens e mulheres apenas um pouco mais velhos que eu. Prestei atenção nesta no dia em que, no açougue, ela pediu restos de carne para o gato. — “Para seus gatos!” — disse o açougueiro quando a velha saiu. “— Ela não tem gatos. Vai mais é aferventar-se um caldo!” O açougueiro achava graça nisso. Daqui a pouco ela recolherá detritos sob as bancas, antes que o negrão os varra para o lixo. Sobreviver com dezoito mil francos por mês! mais de um milhão deles estão nesse caso, e mais três milhões são um pouco menos desvalidos.
Comprei flores, frutos, caminhei a esmo. Ser aposentado e ser um rebotalho parece quase a mesma coisa. A palavra me congelava. Espantava-me a extensão de meus lazeres. Estava errada. O tempo, às vezes, parece custar a passar mas eu me arranjo. E que prazer viver sem obedecer ordens, sem constrangimento! Há ocasiões em que me assombro. Lembro-me do primeiro posto, de minha primeira classe, as folhas mortas que rangiam sob os passos no outono provinciano. Então, o dia da aposentadoria — distante de mim um lapso de tempo duas vezes mais longo ou quase, que minha vida anterior — me parecia irreal como a própria morte. E eis que há um ano ele chegou. Passei outras barreiras, porém fluidas. Esta tem a rigidez de uma cortina de aço.
Simone de Beauvoir, in A mulher desiludida

27/09/2016

Sem preocupação moral

Certos críticos acreditaram que em minhas Memórias eu tivesse querido dar uma lição às jovens; desejei sobretudo pagar uma dívida. Este relatório apresenta-se em todo caso isento de qualquer preocupação moral. Atenho-me a testemunhar o que foi minha vida. Nada prejulgo, a não ser que toda verdade pode interessar e servir. A que e a quem servirá o que tento exprimir nestas páginas? Ignoro. Desejaria que fossem abordadas com idêntica inocência.”
Simone de Beauvoir, in A força da idade

06/08/2016

Viver sem obedecer ordens

Comprei flores, frutos, caminhei a esmo. Ser aposentado e ser um rebotalho parece quase a mesma coisa. A palavra me congelava. Espantava-me a extensão de meus lazeres. Estava errada. O tempo, às vezes, parece custar a passar mas eu me arranjo. E que prazer viver sem obedecer ordens, sem constrangimento! Há ocasiões em que me assombro. Lembro-me do primeiro posto, de minha primeira classe, as folhas mortas que rangiam sob os passos no outono provinciano. Então, o dia da aposentadoria — distante de mim um lapso de tempo duas vezes mais longo ou quase, que minha vida anterior — me parecia irreal como a própria morte. E eis que há um ano ele chegou. Passei outras barreiras, porém fluidas. Esta tem a rigidez de uma cortina de aço.”
Simone de Beauvoir, in A mulher desiludida

08/06/2011

            “Ser livre não é ter o poder de fazer não importa o quê, é poder ultrapassar o dado para um futuro aberto”.
Simone de Beauvoir