quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Modelos raros de câmeras fotográficas vendidas em leilões

Edições limitadas, modelo de ouro ou raridade. Esses termos estão entre os mais valorizados para os leiloeiros de câmeras fotográficas. Uma câmera pode chegar a valores milionários, como um modelo da Leica que foi arrematado em 2012 por cerca de R$ 6,5 milhões; veja a seguir modelos históricos de equipamentos fotográficos disponíveis ou já arrematados.


A câmera Leica I mod. A foi feita em 1930 e acredita-se que há apenas três edições dela no mundo. Além de estar funcionando, a câmera tem uma capa de pele de bezerro. O lance inicial da câmera era de R$ 40 mil em um leilão realizado na Westlicht, casa austríaca de leilões, em 2011. No entanto, o preço final chegou a cerca de R$ 358 mil.

A Leica KE-7A teve ao todo 505 unidades produzidas, sendo 460 para o exército dos Estados Unidos. Nesse modelo acima, usado por militares, é possível ter acesso a todo material que acompanhava a câmera (como manual, capa e até a caixa). O lance inicial do leilão liveauctioneers.com, que vai ocorrer em 16 de novembro, é de R$ 168 mil.

Produzida em 1941, a câmera Leica 250 GG funciona e seus acessórios estão intactos. O equipamento fazia parte da universidade francesa de Strasbourg. No leilão que vai acontecer em 23 de novembro na casa austríaca Westlicht, a câmera tem preço inicial de R$ 89 mil.

A Leica 1 Luxus teve apenas 95 unidades produzidas na década de 30. O modelo é coberto por um material que lembra pele de lagarto e conta com detalhes em ouro. A câmera vai ser leiloada em 23 de novembro de 2013 em Hong Kong e tem lance inicial de R$ 3,5 milhões.

Jony Ive, responsável pelo design de produtos da Apple, desenvolveu um desenho exclusivo para a marca alemã Leica. A câmera digital, que vai ser oferecida em um leilão beneficente, tem o corpo de alumínio e tem apenas 561 unidades. A casa de leilão Sotherby's estipulou como lance inicial para o lance inicial de R$ 1,09 milhão. O evento ocorrerá em Nova York (Estados Unidos) no mês de novembro.

Feita na década de 50, a Nikon S tinha capacidade de tirar fotografias estereoscópicas, ou seja, que dão mais impressão de profundidade. De certa forma, essa tecnologia foi precursora do 3D, disponível em equipamentos modernos. O lance inicial da câmera é R$ 60 mil na casa de leilões Westlicht.

Considerada uma das câmeras mais caras já vendidas em um leilão, a Leica A, feita em 1923, foi arrematada por cerca de R$ 6,5 milhões em 2012. O equipamento, feito à mão, teve apenas 25 unidades produzidas.

Fonte: tecnologia.uol.com.br

O Teatro Mágico: Canção da Terra


A infância

“O ócio torna lentas as horas e velozes os anos. A atividade torna rápida as horas e lentos os anos. A infância é a atividade máxima, porque ocupada em descobrir o mundo na sua diversidade.
Os anos tornam-se longos na recordação se, ao repensá-los, encontramos numerosos fatos a desenvolver pela fantasia. Por isso, a infância parece longuíssima. Provavelmente, cada época da vida é multiplicada pelas sucessivas reflexões das que se lhe seguem: a mais curta é a velhice, porque nunca será repensada.
Cada coisa que nos aconteceu é uma riqueza inesgotável: todo o regresso a ela a aumenta e acresce, dota de relações e aprofunda. A infância não é apenas a infância vivida, mas a ideia que fazemos dela na juventude, na maturidade, etc. Por isso, parece a época mais importante, visto ser a mais enriquecida por considerações sucessivas.
Os anos são uma unidade da recordação; as horas e os dias, uma unidade da experiência.”
Cesare Pavese, in O Ofício de Viver

A cada dia

Declaração de amor

“Mas então como se faz uma declaração de amor? Em papel selado, na presença de um advogado. Por que não? As piores declarações são as pífias e clandestinas, do gênero ‘Acho-te uma pessoa muito interessante’. As melhores são aquelas que comprometem quem as faz, que se baseiam em provas capazes de serem apresentadas em tribunal, que fazem corar as testemunhas. As declarações do tipo ‘Experimentar-a-ver-se-dá’ nunca dão. É melhor mandar imprimir 2000 folhetos e distribuí-los por avioneta à população, devidamente identificados, do que um bilhetinho anônimo de ‘um admirador’. As declarações de amor têm de cortar a respiração de quem as recebe, têm de rebentar na cara de quem as lê. O amor e o terrorismo são questões de objetivo, e não de grau.
Como estamos todos a zero, ninguém pode dar conselhos a ninguém. Há séculos que as maiores cabeças do mundo procuram a frase perfeita de apresentação. Há as deixas rascas, do gênero ‘Deixe-me adivinhar o seu signo’ ou ‘Não costuma cá estar às terças-feiras, pois não?’. Há as deixas pirosas, do gênero ‘Importa-se que eu lhe diga que você é muito bonita?’ ou ‘Posso só dizer-lhe uma coisa? O seu namorado tem muita sorte!’. Depois, há as deixas supostamente cool, do tipo ‘O meu nome é Max e eu toco sax’ ou, mais formal, ‘Muito prazer, Luís Bobone, toco saxofone’. Ultimamente, a julgar por recentes exemplos, é moda usar deixas críticas, do gênero ‘Então sempre conseguiu resolver aquilo?’ ou ‘Importa-se de me segurar a bebida enquanto eu olho para si? É que pode apetecer-me bater palmas’ ou ainda (versão 1987) ‘Não se importa de ficar aqui comigo um bocadinho enquanto o meu guarda-costas não volta da casa de banho?’.
Todo o amor é um engano. Trata-se é de nos enganarmos bem.”
Miguel Esteves Cardoso, in Os Meus Problemas

O intelecto

“Sejam quais forem os sentimentos e os interesses humanos, o intelecto é, também ele, uma força. Esta não consegue prevalecer imediatamente, mas por fim os seus efeitos revelam-se ainda mais peremptórios. A verdade que mais fere acaba sempre por ser notada e por se impor, assim que os interesses que lesa e as emoções que suscita tenham esgotado a sua virulência.”
Sigmund Freud

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Dois milagres

A viagem de Maturi do Alto até Vargem Nova do Ingá, naquela manhã fria de julho, já estava me enfastiando. Motivos tinha por demais para tal: tinha acordado cedo, a enxaqueca me incomodava, era uma viagem a trabalho e aquela pequena e recôndita cidade não era servida por empresa de ônibus. O carro de linha, uma C10 Chevrolet, deixava em total desconforto os passageiros nos bancos de madeira na carroceria amontoada de bagagens, víveres, compras, utensílios, animais até.
Amuado, a falação corriqueira entre os outros me irritava ainda mais. O carro não andava, sofreado pelo excesso de peso. Mas isso não era motivo de preocupação para o chofer Totonho de Zacarias que, a cada 500 metros, parava à beira da estrada aos acenos dos futuros passageiros, ante os maldizeres dos que já estavam, à despeito de terem sido, noutras vezes, motivos das ditas maledicências. Totonho, resoluto, pedia: “Pessoal, lá na frente tá vago!”. E lá ia a turba de trás apertar ainda mais os da frente. E continuava o petitório: “Dona Zefinha, esse pote está tomando o canto de um cristão. Leve ele no colo, por bondade!”. E mais: “Seu Chiquinho, esse bode que é melhor pros três e pra todos, que vá amarrado nos tamboretes, no bagageiro”.
Depois essa reorganização provisória, lá se vinha na próxima parada, após os renovados apelos dos fatigados passageiros, outra arrumação nunca definitiva.
O cheiro agradável de mato verde que adentrava constantemente no carro; a paisagem com as suas diferentes verduras; os açudes cheios e a sangrar; O Pau-D'arco roxo e o amarelo com suas florescências em apogeu; aqui, o cantar de um concriz; ali, a algazarra de um bando de periquitos; nada disso me satisfazia, não adentrava o meu espírito ora inquieto, enquanto o carro descia a serra.
E na penúltima parada, subiu uma senhora e o filho, um pirralho de cerca de cinco anos.
O garoto, muito vívido, fazia observações e interrogações constantes à sua mãe: “Olhe, olhe, mãe, aquela casa é azul. Não é azul?”; “Ei, mãe, viu o bezerro mamando, não tava mamando, mãe?”; “Mãe, mãe, que árvore é aquela que é verde diferente daquela outra verde, aquilo é verde, não é mãe?”. E a mãe, paciente e maternalmente, respondia aos questionamentos do filho, como a educá-lo. 
O guri às vezes me incluía nas suas desarrazoadas inquirições: “Né não, seu moço?”; “Viu também, moço?”. E isso me irritava até os ossos, mais que o excesso de passageiros, a matalotagem e as tralhas.
A mãe e o filho foram os primeiros a descerem já na entrada de Vargem Nova do Ingá, e o carro afastou-nos das novas indagações do guri. Para destilar todo o veneno acumulado na viagem, comentei com o passageiro ao lado da impertinência do menino, tratando-o como maluco. O senhor, com voz austera, me indagou: “O senhor é daqui da região?”. Minha resposta foi um seco “não”. Ele continuou: “Então o senhor não conhece o caso. Juninho, aquele menino, quando tinha dois anos, levou uma queda e cegou de vez. Os pais dele são agricultores, bateram todos os doutor dessa região, até foram na capital, e nada de voltar a vista da criança. Mas seu moço, de um mês pra cá ele está recuperando a visão. Milagre, senhor. Que outra coisa mais há de ser?”
E eu, homem letrado, senti um peso no coração, maior que minha vergonha. Compreendi, naquela explicação simples e direta, o quanto fui preconceituoso, e não medi as consequências indevidas do meu ato, baseando-me unicamente nas aparências e no momentâneo, ciente em uma racionalidade tacanha da inferioridade racial, social.
Isso ocorreu a cerca de trinta anos e deixou uma marca indelével em minha alma. Depois desse episódio, tornei-me mais cuidadoso: leio nos outros o diferente, o diverso, assimilando, entre as divergências, o quanto temos em semelhança.
Se essa viagem ocorresse hoje, estaria em sintonia com todos: Totonho de Zacarias, Dona Zefinha, Seu Chiquinho, o Senhor do lado, Juninho e sua Mãe, e eu poderia desfrutar, de forma diversa, a dureza do banco na carroceria, o amontoado das bagagens, as tralhas, a falação embaralhada dos passageiros, bem como poderia distinguir os diversos cheiros de mato verde com suas diferentes verduras; vislumbrar, na paisagem, os açudes cheios e a sangrar; distinguir o Pau-D'arco roxo e o amarelo com suas florescências em apogeu; assobiar, em uníssono, com o cantar de um concriz; fotografar a algazarra de um bando de periquitos; satisfeito, tudo e todos adentrando o meu espírito quieto, enquanto o carro descesse a serra.
Elilson José Batista, in Alumbramentos – Inéditos e Afins

Antes do nome

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”,
o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.
Adélia Prado

Matam e morrem

"Três mais há neste mundo pelos quais anelam, pelos quais morrem e pelos quais matam os homens: mais fazenda; mais honra; mais vida."
Padre Antônio Vieira

Zord, Megazord...

www.willtirando.com.br

O homem, um estranho no mundo

“O homem deveria ser a medida de tudo. De fato, ele é um estranho no mundo que criou. Não soube organizar este mundo para ele, porque não possuía um conhecimento positivo da sua própria natureza. O enorme avanço das ciências das coisas inanimadas em relação às dos seres vivos é, portanto, um dos acontecimentos mais trágicos da história da humanidade. O meio construído pela nossa inteligência e pelas nossas intenções não se ajusta às nossas dimensões nem à nossa forma. Não nos serve. Sentimo-nos infelizes. Degeneramos moralmente e mentalmente.
São precisamente os grupos e as nações em que a civilização industrial atingiu o apogeu que mais enfraquecem. Neles, o retorno à barbárie é mais rápido. Permanecem sem defesa perante o meio adverso que a ciência lhes forneceu. Na verdade, a nossa civilização, tal como as que a antecederam, criou condições em que, por razões que não conhecemos exatamente, a própria vida se torna impossível. A inquietação e a infelicidade dos habitantes da nova cidade têm origem nas instituições políticas, econômicas e sociais, mas sobretudo na sua própria degradação. São vítimas do atraso das ciências da vida em relação às da matéria.”
Alexis Carrel, in O Homem esse Desconhecido

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Um amigo em talas


O meu antigo companheiro de pensão Amadeu Amaral Júnior, um homem louro e fornido, tinha costumes singulares que espantavam os outros hóspedes.
Para falar com propriedade, aquilo não era exatamente pensão, mas isto não tem importância: com um pouco de esforço podíamos admitir que estávamos numa pensão de gente bem comportada. Bocejávamos em demasia, contávamos as pessoas que subiam ou desciam um morro próximo, dormíamos cedo e recebíamos com regularidade a visita do gerente do estabelecimento, o major Nunes, ótima criatura que deixou o cargo por lhe faltar o espírito do negócio.
Amadeu Amaral Júnior vestia-se com sobriedade: usava uma cueca preta e calçava medonhos tamancos barulhentos. Fora isso, o que tinha em cima do corpo era a barba, economicamente desenvolvida, uma barba enorme. Parecia um troglodita. Alimentava-se mal, espichava-se na cama, roncava o dia inteiro e passava as noites acordado, passeando, agitando o soalho, o que provocava a indignação dos outros pensionistas. Quando se cansava, sentava-se a uma grande mesa ao fundo da sala e escrevia o resto da noite. Leu um tratado de psicologia e trocou-o em miúdo, isto é, reduziu-o a artigos, uns quarenta ou cinquenta, que projetou meter nas revistas e nos jornais e com o produto vestir-se, habitar uma casa diferente daquela e pagar ao barbeiro.
Mudamo-nos, separamo-nos, perdemo-nos de vista. Creio que os artigos de psicologia não foram publicados, pois há tempo li este anúncio num semanário: "Intelectual desempregado. Amadeu Amaral Júnior, em estado de desemprego, aceita esmolas, donativos, roupa velha, pão dormido. Também aceita trabalho”.
O anúncio não produziu nenhum efeito, é o que meses depois, nos declara Amadeu Amaral Júnior: "Minha situação continua preta. Reitero o apelo às almas bem formadas: deem de comer a quem tem fome, uma fome atávica, milenária. Deem-me trabalho." E, catalogando as suas habilidades: "Escrevo poesias, crônicas, contos (policiais, psicológicos, de aventura, de terror, de mistério), novelas, discursos, conferências. Sei inglês, francês, italiano, espanhol e um bocado de alemão. Deem-me trabalho pelo amor de Deus ou do diabo."
De literato brasileiro não conheço página mais sincera e razoável que essa. Ao ler o pedido de roupa velha e pão duro, fiquei meio escandalizado, mas refletindo, confessei publicamente que o meu velho companheiro procedia com acerto. E agora, completamente solidário com ele, admiro a exposição que nos faz das suas aptidões e lamento que não as utilizem.
É evidente que Amadeu Amaral Júnior conhece bem o nosso mercado literário e apregoa as mercadorias mais próprias para o consumo: discursos, contos policiais, de aventura, de terror e de mistério. Julgo que vive sem ocupação por não haver falado antes nisso.
O meio cento de artigos redigidos naquelas noites de insônia encalhou certamente na redação, preterido pelas novelas de arrepiar cabelos. Indignado, Amadeu Amaral Júnior oferece de novo os seus préstimos ao editor, afirmando que também sabe compor histórias policiais, de aventura, de terror e de mistério, que arrancam lágrimas e se vendem regularmente.
A maneira como pede trabalho, pelo amor de Deus ou do diabo, revela que o escritor está impaciente e talvez não escrupulize em pôr a sua pena a serviço de qualquer dessas duas entidades, o que não admira, pois Amadeu é jornalista.
Muita gente se espanta com o procedimento desse amigo. Não sei por quê. Os fabricantes anunciam os seus produtos e os sujeitos desempregados costumam, desde que há jornais, dizer neles para que servem. Por que apenas o articulista, precisamente o indivíduo capaz de arrumar umas linhas com decência, deve calar-se e roer chifres?
Eu por mim acho que Amadeu Amaral Júnior andou muito bem. Todos os jornalistas necessitados deviam seguir o exemplo dele. O anúncio, pois não. E, em duros casos, a propaganda oral, numa esquina, aos gritos. Exatamente como quem vende pomada para calos.
Graciliano Ramos, in Linhas tortas

Raridade no Rapadura Cult: Novos Baianos - Mistério do Planeta*



*Mistério do Planeta - vídeo extraído do filme Novos Baianos Futebol Clube, dirigido por Solano Ribeiro e gravado em 1973 no sítio Cantinho do Vovô, em Jacarepaguá. No Youtube compõe a "trilogia NBFC", ao lado dos vídeos "Samba da Minha Terra" e "Alunte".
Câmera na mão - take único e sem cortes - em sintonia com o humor oscilante e malandragem de Paulinho Boca, um típico novo baiano que se joga "nu" mundo.
Yoga de ouvido, Moraes concentrado ao violão.
Pepeu mil anos luz segue à frente da guitarra.
Jorginho, menino arisco, mostra que já conhece os atalhos da batera.
Dadi, arrepia no baixo.
Galvão na letra e poesia.
A criação em estado latente. Para ver e ouvir.
Novos Baianos - vocal: Paulinho Boca de Cantor; violão: Moraes Moreira; guitarra: Pepeu Gomes; baixo: Dadi, batera: Jorginho Gomes. De fora: Baby Consuelo, Baixinho, Bola, Charli, Gato Félix e Galvão.
Fonte: Youtube

Soneto oco

Neste papel levanta-se um soneto,
de lembranças antigas sustentado,
pássaro de museu, bicho empalhado,
madeira apodrecida de coreto.
De tempo e tempo e tempo alimentado,
sendo em fraco metal, agora é preto.
E talvez seja apenas um soneto
de si mesmo nascido e organizado.
Mas ninguém o verá? Ninguém. Nem eu,
pois não sei como foi arquitetado
e nem me lembro quando apareceu.
Lembranças são lembranças, mesmo pobres,
olha pois este jogo de exilado
e vê se entre as lembranças te descobres.
Carlos Pena Filho

Coisas do Brasil: Salvador, Bahia

Fonte: brazilwonders.tumblr.com

Amizade e café

"A amizade é semelhante a um bom café; uma vez frio, não se aquece sem perder bastante do primeiro sabor."
Emmanuel Kant

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Os muitos níveis da felicidade

Embora seja possível atingir a felicidade, a felicidade não é uma coisa simples. Existem muitos níveis. O Budismo, por exemplo, refere-se a quatro fatores de contentamento ou felicidade: os bens materiais, a satisfação mundana, a espiritualidade e a iluminação. O conjunto destes fatores abarca a totalidade da busca pessoal de felicidade. Deixemos de lado, por ora, as aspirações últimas a nível religioso ou espiritual, como a perfeição e a iluminação, e concentremo-nos unicamente sobre a alegria e a felicidade, tal como as concebemos a nível mundano. A este nível, existem certos elementos-chave que nós reconhecemos convencionalmente como contribuindo para o bem-estar e a felicidade. A saúde, por exemplo, é considerada como um fator necessário para o bem-estar. Um outro fator são as condições materiais ou os bens que possuímos. Ter amigos e companheiros, é outro. Todos nós concordamos que para termos uma vida feliz precisamos de um círculo de amigos com quem nos possamos relacionar emocionalmente e em quem possamos confiar.
Portanto, todos estes fatores são causas de felicidade. Mas para que um indivíduo possa utilizá-los plenamente e gozar de uma vida feliz e preenchida, a chave é o estado de espírito. É crucial. Se utilizarmos as condições favoráveis que possuímos, tais como a saúde ou a riqueza, com fins positivos, para ajudar os outros, esses fatores contribuem para uma vida mais feliz.
Claro que, pessoalmente, também tiramos partido destas coisas — facilidades materiais, sucesso, etc., mas se não tivermos a atitude mental correta, se não cuidarmos do fator mental, estas coisas acabam por ter pouca incidência sobre o sentimento geral de felicidade. Por exemplo, se guardarmos ódio ou rancor no fundo de nós mesmos, isso acabará por destruir a nossa saúde, destruindo assim um dos fatores. Por outro lado, se nos sentirmos infelizes ou frustrados, o conforto material não chegará para nos compensar. Mas se mantivermos um estado de espírito calmo e sereno, poderemos sentir-nos felizes mesmo se a nossa saúde não for das melhores. Em contrapartida, mesmo se possuirmos objetos raros ou preciosos, podemos querer deitá-los fora ou destruí-los num momento de grande cólera ou ódio. Nesse momento, os bens não significam nada para nós.
Existem atualmente sociedades com um grande grau de desenvolvimento material e no seio das quais muitos indivíduos não se sentem felizes. A nível superficial, essa abundância é muito atraente, mas por trás existe um desassossego mental que leva à frustração, a discórdias desnecessárias, à dependência das drogas ou do álcool e, no pior dos casos, ao suicídio. Não existe portanto nenhuma garantia de que a riqueza por si só possa trazer-nos a alegria ou a satisfação que procuramos. O mesmo se pode dizer dos amigos. Quando estamos muito zangados, mesmo um amigo muito próximo pode parecer-nos glacial, frio, distante e muito irritante.
Tudo isto indica a enorme influência que o estado de espírito, o fator mental, pode ter na nossa vivência de todos os dias. Portanto, temos de ter esse fator seriamente em linha de conta. Independentemente de uma prática espiritual, mesmo em termos mundanos, a nossa capacidade de desfrutar de uma vida agradável e feliz depende da nossa serenidade mental.
Talvez devesse acrescentar que quando falamos de um estado de espírito calmo ou de paz de espírito não devemos confundir isso com um estado de insensibilidade ou de apatia. Possuir um estado de espírito calmo não significa estar completamente alheado ou amorfo. A paz de espírito, esse estado de serenidade, tem de estar enraizado na afeição e na compaixão, o que implica um grande nível de sensibilidade e de sentimento.
Enquanto nos faltar a disciplina interior que conduz à serenidade, sejam quais forem as facilidades ou as condições exteriores que nos rodeiam, elas nunca nos trarão esse sentimento de alegria e de felicidade que procuramos. Por outro lado, se possuirmos as qualidades interiores de serenidade e de estabilidade, mesmo que os fatores exteriores de conforto normalmente considerados como indispensáveis à felicidade não estejam em nossa posse, podemos ter uma vida alegre e feliz.
Dalai Lama

Galo (1941), Cândido Portinari

Em matéria de automóveis

Imagem: Google

Em matéria de automóveis, seu raciocínio era o seguinte:
— Para que ter automóvel, se eu não sei dirigir?
E se alguém lhe sugeria que aprendesse:
 — Para que aprender, se não tenho automóvel?
 Um dia, porém, não se sabe como, escapou de seu sofismático raciocínio e apareceu dirigindo um automóvel. Aprendera a dirigir, só Deus sabe como:
 — Fazer o carro andar eu faço. Mas não sei como funciona, nem como é lá dentro. Outro dia ameaçou enguiçar e então me perguntaram se não seria o carburador. Só então fiquei sabendo que meu carro dispõe de um carburador.
 O que o encanta principalmente é o poder sugestivo de certos nomes: carburador, embreagem, chassi. radiador, cárter, diferencial.
 — Fala-se também numa famosa mola de seguimento, que deve ser muito importante. Para mim não há alternativa: se enguiçar, desço e tomo um táxi. Imagine se eu tiver de ficar dentro do carro indagando: será o dínamo? a bateria, os acumuladores? falta de força no chassi? falta de óleo na bateria?
Tive de adverti-lo de que bateria e acumuladores eram uma coisa só, e que no radiador só se coloca água.
 — Eu sei, eu sei: aliás, o meu carro, apesar de novo deve estar com algum defeito no radiador, não gasta água nunca! Todas as vezes que mando botar água o homem diz que não é preciso, já tem. Com o óleo é a mesma coisa. Abrem a tampa do carro e retiram lá de dentro, de um lugar que jamais consegui ver direito onde é. Um ferrinho comprido, enxugam o ferrinho, tornam a enfiar e retiram de novo, me mostram a ponta pingando óleo e dizem que não é preciso. Nunca é preciso.
— Você não costuma lubrificar o carro?
— Já lubrifiquei uma vez. Isso é fácil: basta levar o carro no posto e dizer: lubrificação geral, trocar o óleo do cárter. Não me esqueço, por causa daquele detetive dos folhetos do meu tempo, o Nick Cárter.
— Convém não esquecer também a água da bateria. Tem de ser água destilada.
Isto ele também já sabia. Um dia o carro não quis pegar e alguém lhe disse que devia ser a água da bateria. Foi a um posto e mandou que olhassem se tinha água na bateria. Tinha. Então tirem, pediu. O sujeito ficou a olhá-lo como se ele fosse doido: tirar a água? Então ele disse apenas a palavra mágica, que resolve tudo:
— Verifiquem.
 Verificaram, enquanto ele aguardava, meio ressabiado. O homem do posto se aproximou, misterioso:
— Elemento seco.
Olharam-se mutuamente, em silêncio, sem que qualquer sombra de compreensão perpassasse entre os dois, esclarecendo os mistérios insondáveis da mecânica dos semoventes. Eis que impenetrável é o desígnio dos motores de explosão e traiçoeira a força dos acumuladores.
— Elemento seco?
Elemento seco! Secam-se os elementos e esotérico se torna o segredo que faz o poderio dos seres vivos no comando das máquinas inertes. Num repente de inspiração divinatória, com a voz embargada do emoção, ele sugeriu:
— Deve ser o giguelê.
Giguelê — palavra mágica que ele um dia ouviu alguém pronunciar, denunciando a existência de uma peça pequenina que não sabe para que serve nem onde fica, mas da qual certamente emana a energia que movimenta os automóveis, num fluxo de divina inspiração como o que movimenta a dança religiosa em torno à diminuta imagem de Exu e outros deuses pagãos.
— No mais — arremata ele — tirante o giguelê, em matéria de automóveis estou com as mulheres. Para elas como para mim um carro se compõe apenas de duas coisas: buzina e volante.
Fernando Sabino, in Quadrante 2

Tom Jobim e Vinicius de Moraes: Garota de Ipanema

Em demasia

Prolixo?
Pro lixo.
Elilson José Batista

domingo, 27 de outubro de 2013

Verbo ser

Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.
Carlos Drummond de Andrade

Que se chama solidão

Chão da infância. Algumas lembranças me parecem fixadas nesse chão movediço, as minhas pajens. Minha mãe fazendo seus cálculos na ponta do lápis ou mexendo o tacho de goiabada ou ao piano; tocando suas valsas. E tia Laura, a viúva eterna que foi morar na nossa casa e que repetia que meu pai era um homem instável. Eu não sabia o que queria dizer instável mas sabia que ele gostava de fumar charutos e gostava de jogar. A tia um dia explicou, esse tipo de homem não consegue parar muito tempo no mesmo lugar e por isso estava sempre sendo removido de uma cidade para outra como promotor. Ou delegado. Então minha mãe fazia os tais cálculos de futuro, dava aquele suspiro e ia tocar piano. E depois, arrumar as malas.
— Escutei que a gente vai se mudar outra vez, vai mesmo? perguntou minha pajem Maricota. Estávamos no quintal chupando os gomos de cana que ela ia descascando. Não respondi e ela fez outra pergunta: Sua tia vive falando que agora é tarde porque a Inês é morta, quem é essa tal de Inês?
Sacudi a cabeça, não sabia. Você é burra, Maricota resmungou cuspinhando o bagaço. Fiquei olhando meu pé amarrado com uma tira de pano, tinha sempre um pé machucado (corte, espinho) onde ela pingava tintura de iodo (ai, ai!) e depois amarrava aquele pano. No outro pé, a sandália pesada de lama. Essa pajem era uma órfã que minha mãe recolhera, tive sempre uma pajem que me dava banho, me penteava (papelotes nas festas) e me contava histórias até que chegasse o tempo da escola. Maricota era preta e magra, a carapinha repartida em trancinhas com uma fita amarrada na ponta de cada trancinha. Não sei da Inês mas sei do seu namorado, tive vontade de responder. Ele tem feição de cavalo e é trapezista no circo do leão desdentado. Estava sabendo também que quando ela ia encontrar o trapezista, soltava as trancinhas e escovava o cabelo até vê-lo abrir-se em leque como um sol negro. Fiquei quieta. Tinha procissão no sábado e era bom lembrar que eu ia de anjo com asas de penas brancas (meu primeiro impulso de soberba) enquanto que as asas dos outros anjos eram de papel crepom.
.......................................................................................................................
Para continuar lendo esse belíssimo conto de Lygia Fagundes Telles, acesse aqui.

Tem culpa

www.willtirando.com.br

Sobre amor e justiça

"Porque é que se sobrestima o amor em detrimento da justiça e se diz dele as coisas mais lindas, como se ele fosse uma entidade muito superior àquela? Pois não é ele visivelmente mais estúpido que aquela? Por certo, mas, precisamente por isso, tanto mais agradável para todos. Ele é estúpido e possui uma rica cornucópia; tira desta os seus presentes e distribui-os a qualquer pessoa, mesmo que esta não os mereça e até nem sequer lhe agradeça por isso. É imparcial como a chuva, a qual, segundo a Bíblia e a experiência, não só encharca o injusto até aos ossos, mas também, em determinadas circunstâncias, o justo."
Friedrich Nietzsche, in Humano, Demasiado Humano

A mulher esperando o homem

O tema da mulher esperando o homem há muito, muito tempo me fascina; sei que é velho, já serviu para sonetos, contos, páginas de romance, talvez quadro de pintura, talvez música. E eu que não sei fazer nada disso sou, entretanto, perseguido por histórias de sua mulher esperando homem, das mais banais às mais terríveis.
Agora mesmo, quando passou o aniversário da revolução húngara, eu me lembre que entre todos os relatos, alguns dolorosos, horríveis, de gente que fugiu da Hungria, havia o de uma mulher que contou com simplicidade a sua história; e foi o que mais me impressionou quando o li, de madrugada, no meu quarto de hotel em Nova York. O marido saíra para a revolução e lhe disse que ela não saísse de casa de maneira alguma, esperasse sua volta. Chegou a noite e ele não veio; no outro dia entraram na rua tanques russos atirando, e veio outra vez a noite, e veio outro dia, e veio outra noite, e ela esperando; cochilava um pouco sentada, acordava assustada julgando ouvir os passos ou a voz dele, até que chegou por um parente a noticia de que ele morrera.
Ela então saiu de casa e – “como eu não tinha mais nada que esperar”, segundo disse – fugiu para a fronteira da Áustria.
Não sei por quê, achei que essa mulher sentiu um alívio ao saber que não devia esperar mais; acontecera, naturalmente, o pior. Mas a angústia de esperar cessara.
O homem ausente era como um carcereiro que a prendia no lar transformado em câmara de torturas. Ela agora estava desgraçada, mas livre.
Mas não é preciso haver guerra nem nenhum perigo; nesta madrugada em que escrevo, em Ipanema, quantas mulheres não estarão esperando os maridos? Aquela pequena luz acesa em um edifício distante é talvez o apartamento da mulher insone que já telefonou meio envergonhada para várias casas amigas perguntando pelo marido, que já olhou o relógio vinte vezes e tomou comprimido para dormir, ligou a Rádio Relógio, tentou ler uma revista velha, fumou quase um maço de cigarros.
Não importa que seja a esposa vulgar de um homem vulgar; e que no fim a história do atraso dele seja também completamente vulgar. Neste momento ela é a mulher esperando o homem; e todas as mulheres esperando seus homens se parecem no mundo, e se ligam por invisível túnel de solidariedade que atravessa as madrugadas intermináveis.
Todas: a mulher do pescador, a mulher do aviador, e a do revisor de jornal, a do milionário e a do ministro protestante…
Devia haver um santo especial para proteger a mulher esperando o homem, devia haver uma oração forte para ela rezar; ela está desamparada no centro de um mundo vazio.
Ela começa a odiar os móveis e as paredes; a torneira da pia lhe parece antipática; a geladeira, que aliás precisa ser pintada, é estúpida, porque ronca de repente e depois o silêncio é mais quieto. A cama é insuportável.
Devia haver um número de telefone especial para a mulher que está esperando o homem chamar, reclamar providências, ouvir promessas, insistir, tocar outra vez, xingar, bater com o fone. Devia haver funcionários especiais, capazes de abastecer essa mulher de esperança de quinze em quinze minutos, jurar que todas as providências já foram tomadas, “estamos seguros que dentro de poucos minutos teremos alguma coisa a dizer à senhora…”
E diria que pelo menos no necrotério ele não está, nem no pronto-socorro, nem em delegacia nenhuma; mas não diria isso de uma só vez, e sim através de informes espaçados, que fossem formando etapas de ansiedades, que quadriculassem lentamente a insônia.
A mulher que está esperando o homem está sujeita a muitos perigos entre o ódio e o tédio, o medo, o carinho e a vontade de vingança.
Se um aparelho registrasse tudo o que ela sente e pensa durante a noite insone, e se o homem, no dia seguinte, pudesse tomar conhecimento de tudo, como quem ouve uma gravação numa fita, é possível que ele ficasse pálido, muito pálido.
Porque a mulher que está esperando o homem recebe sempre a visita do Diabo, e conversa com ele. Pode não concordar com o que ele diz, mas conversa com ele.
Rubem Braga

sábado, 26 de outubro de 2013

Livre

Livre! Ser livre da matéria escrava,
arrancar os grilh
ões que nos flagelam
e livre penetrar nos Dons que selam
a alma e lhe emprestam toda a et
érea lava.
Livre da humana, da terrestre bava
dos cora
ções daninhos que regelam,
quando os nossos sentidos se rebelam
contra a Inf
âmia bifronte que deprava.
Livre! bem livre para andar mais puro,
mais junto
à Natureza e mais seguro
do seu Amor, de todas as justi
ças.

Livre! para sentir a Natureza,
para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcang
élicas preguiças.
Cruz e Souza

Cabaret - Yamandu Costa e Guto Wirtti

Mulher bonita

"Uma mulher bonita não é aquela de quem se elogiam as pernas ou os braços, mas aquela cuja inteira aparência é de tal beleza que não deixa possibilidades para admirar as partes isoladas."
Sêneca, in Cartas a Lucílio

Poesia em guardanapo

Às vezes, tarde demais é o momento certo.
eumechamoantonio.tumblr.com

A vida não é para se escrever

"Aqui na minha frente a folha branca do papel, à espera; dentro de mim esta angústia, à espera: e nada escrevo. A vida não é para se escrever. A vida — esta intimidade profunda, este ser sem remédio, esta noite de pesadelo que nem se chega a saber ao certo porque foi assim — é para se viver, não é para se fazer dela literatura."
Miguel Torga, in Diário (1936)

O casamento e a cegonha


Os pais da noiva tinham resolvido que o casamento da filha se faria ali mesmo, na chácara, à boa moda antiga, com mesada de doces, churrasco, muita empada, leitoa, frango assado, boas comidas e abundantes bebidas.
Armou-se o altar na sala da frente. Cobriu-se a mesa do civil com um lindo atoalhado de plástico. Vieram os convidados. Veio o vigário, veio o juiz e veio o escrivão. Testemunhas e a roda dos parentes. Fizeram o casamento. A moça sempre fora alta, grandalhona, fornida de carnes e de bons quartos. Naquele vestido branco, rodado, de babados subindo e descendo, de véu e grinalda, inda mais reforçada parecia.
Como a festança era mesmo de arromba, fogos pipocando, música chegando e  muita gente entrando e saindo, ninguém mais reparou nos noivos que depois de posarem para o retrato de praxe, na cabeceira da mesa e de cortarem juntos o bolo artístico, se misturaram com os convidados e cada qual se achou à vontade e sem constrangimento.
O juiz e o vigário deixaram-se ficar numa roda de amigos, conversando com advogados, escrivães, gente do foro.
O baile tinha começado. A moçada saracoteava alegre. Os que não eram de dança, rodeavam a mesa posta, com pratos, copos e garrafas. Espetos de churrasco e bandas de leitão se cruzavam por todos os lados.
Boas comidas, muita bebida e os donos da casa pondo o pessoal à vontade, incansáveis, não cabendo em si de contentes com o casamento daquela primeira filha. Nada alegra tanto o coração da criatura como mesa posta, carne assada, bebidas de graça e falta de cerimônia. Quem contestar esta verdade simples, não merece dois vinténs de crédito.
Bem por isso mesmo diz o caboclo: a alegria vem das tripas — barriga cheia, coração alegre. O que é pura verdade.
A orquestra assoprava valsas e boleros com furor. Os pares girando. Os namorados namorando. Os que não dançavam se encostavam pelas mesas e, quem já estava farto, fazia roda, bebia café, fumava cigarro e contava piadas.
Quando a festança ia mais animada, lá pelas tantas, ouviu-se um corre-corre pelos quartos e corredores.
Logo mais aparecia na sala o dono da casa, ansioso e afobado, se desculpando e pedindo ao juiz e ao vigário fazerem o favor de acabar com a festa porque a noiva estava com dor de parto e a assistente já tinha chegado...
“Isto é que se chama aproveitar o tempo”, comentou um convidado, “numa só festa, casa a filha e chega a cegonha...”
Cora Coralina, in Estórias da Casa Velha da Ponte

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Nina Simone - feelings (1976)*


*Sucesso mundial do Compositor brasileiro Morris Albert, na voz arrebatadora e belíssimo piano de Nina Simone.

O poetinha Vini

Fonte: brazilwonders.tumblr.com

Coisas do Brasil: Bonito, Mato Grosso do Sul

Foto: bob_plant_br

Ao longo das janelas mortas

Imagem: Google

Ao longo das janelas mortas
Meu passo bate as calçadas.
Que estranho bate!...Será
Que a minha perna é de pau?
Ah, que esta vida é automática!
Estou exausto da gravitação dos astros!
Vou dar um tiro neste poema horrível!
Vou apitar chamando os guardas, os anjos,
Nosso Senhor, as prostitutas, os mortos!
Venham ver a minha degradação,
A minha sede insaciável de não sei o quê,
As minhas rugas.
Tombai, estrelas de conta,
Lua falsa de papelão,
Manto bordado do céu!
Tombai, cobri com a santa inutilidade vossa
Esta carcaça miserável de sonho...
Mário Quintana

Uma afirmação consciente da vida

“Devemos escolher como finalidade independente do nosso esforço o conhecimento da verdade ou, exprimindo-nos mais modestamente, a compreensão do mundo inteligível por meio do pensamento lógico? Ou devemos subordinar esse esforço pelo conhecimento racional de qualquer espécie a outros objetivos, por exemplo, a objetivos práticos? O simples pensamento não pode resolver esta questão. A decisão tem, pelo contrário, uma influência decisiva na nossa maneira de pensar e julgar, partindo-se do princípio de que tem o carácter de convicção inabalável. Permitam-me que confesse: para mim, o esforço pelo conhecimento é um daqueles objetivos independentes, sem os quais uma afirmação consciente da vida me parece impossível ao homem de pensamento.
Uma das características do esforço pelo conhecimento é que ele tende a abranger tanto a multiplicidade da experiência como a simplicidade e redução das hipóteses fundamentais. O acordo final desses objetivos é, devido ao estádio primitivo da investigação, uma questão de fé. Sem essa fé, a convicção do valor independente do conhecimento não seria para mim forte e inabalável.
Esta atitude, por assim dizer, religiosa do cientista perante a verdade não deixa de ter influência sobre a sua personalidade. Pois, além daquilo que resulta da experiência e além das leis do pensamento, não há para o investigador, por princípio, nenhuma outra autoridade cuja decisão ou informação, por si, possa pretender ser ‘verdade’. Daí resulta o paradoxo de que o homem que dedica o melhor dos seus esforços às coisas objetivas, se torna, socialmente falando, um individualista extremo que — em princípio pelo menos — em nada confia senão no seu próprio juízo. Até se pode facilmente afirmar que o individualismo intelectual e a ansiedade científica surgiram juntos na História, mantendo-se sempre inseparáveis.”
Albert Einstein, in Como Vejo o Mundo

Guardamo-nos

“Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos a nossa saúde, a nossa capacidade de gozar a vida, as nossas emoções, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa é. E este hábito de reprimirmos constantemente as nossas pulsões naturais é o que faz de nós seres tão refinados. Porque é que não nos embriagamos? Porque a vergonha e os transtornos das dores de cabeça fazem nascer um desprazer mais importante que o prazer da embriaguez. Porque é que não nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separação, uma parte dos nossos corações fica desfeita. Assim, esforçamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer.”
Sigmund Freud

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Verdades e certezas

www.ultimaquimera.com.br

Voar

"Quem tem seis asas e voa só com duas, sempre voa e canta. Quem tem duas asas e quer voar com seis, cansará logo e chorará."
Padre Antônio Vieira

Leo Cavalcanti - Religar



Me cansei
Do cansaço
De não buscar meu mais sincero,
Porque dói demais
Já morei
Na preguiça
Mas esse som já não me atiça, não me satisfaz
Promessas de pacto com deus
Em meio a mil anseios que de fato não são seus
E que estão a construir um falso eu
Tudo o que se quer, é religar
Céu e terra
E o ser, que se entrega
Que só faz crescer
A ideia e o real
Rumo ao amor total
Nada sei
Da minha morte
Mas sei que tudo em minha sorte
É muito natural
Desconfiei
Do processo
Sem ver a eterna dança e o sexo
Além do bem e do mal
Ensaios de encontro com deus
Mas é um ego velho
Que desenha os sonhos seus
E em seus traços a verdade se escondeu
É aí que começa o religar
Céu e terra
E o ser, que se entrega
Que só faz crescer
Sem partido ou ideal.

Minhas 7 quedas

minha primeira queda
não abriu o pára-quedas
daí passei feito uma pedra
pra minha segunda queda
da segunda à terceira queda
foi um pulo que é uma seda
nisso uma quinta queda
pega a quarta e arremeda
na sexta continuei caindo
agora com licença
mais um abismo vem vindo.
Paulo Leminski

Tipos inesquecíveis

Era elegante como um manequim de vitrine e ocupado como telefone de bicheiro. Embora mentiroso como bula de remédio, mais enganador que boletim meteorológico e vagaroso como uma obra da prefeitura, era minucioso como um vendedor de imagináveis e tão perigoso quanto um pastel de botequim. De inteligência era tão quadrado quanto a frente de um carro inglês e sua ignorância era transparente como fatia de presunto em sanduíche. Sob o ponto de vista moral, era mais sujo que qualquer rua do Rio e mais desmoralizado que o cruzeiro. Sentindo-se tão inútil quanto um deputado honesto e mais abandonado que o plano para erradicar a seca, resolveu por fim a vida de maneira tão rápida quanto o governo aumenta impostos. Hoje é apenas uma saudade funda como o time do Olaria e seu nome está mais esquecido que promessa de vereador em época eleitoral.
Max Nunes, in Uma pulga na camisola: o máximo de Max Nunes

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Para Pablo Einstein Batista, com amor


  
23 de outro de 1995: eis que se passaram os anos...
Você foi bebê, criança, adolescente.
Hoje, dia 23 de outro de 2013, um marco divisório: você é adulto, ou seja, é civilmente considerado capaz.
Mas o que é ser capaz? Em que consiste ser adulto? Incontáveis são os exemplos de homens agindo feito adolescentes, e até feito crianças. E isso nunca findará.
“Viver é muito perigoso”, assegurou Guimarães Rosa. No mesmo tom, Nietzsche afirmou que a vida humana é “uma perigosa jornada, um perigoso olhar para trás, um perigoso tremer e parar”. No entanto, não devemos deixar de viver, com medo dos imensos obstáculos. Isso nos fortalece, porque viver também é maravilhoso.
Ademais, alguém permanentemente feliz poderia ser considerado humano? Pois conforme Sidarta Gautama, o sofrimento é parte inevitável da vida humana.
Vá adiante. Avance. Seja ousado. Mas saiba recuar, se resguardar, se necessário. Quando? Os percalços recorrentes serão os parâmetros.
Seja justo, na melhor acepção filosófica que este termo está impregnado.
Creia, não somente no sentido religioso, pois fazer é crer.
Seja solidário, pois tanto a bondade quanto a maldade, quando atinge um, atinge a todos.
Leia. Eduque-se. Instrua-se. Compartilhe saberes. Ensine, pois estará aprendendo. E atente ao maior desafio: leia-se. Conhecer os outros é sinal de inteligência; porém conhecer a si mesmo é sinal de sabedoria.
Trabalhe. Esforce-se. Seja curioso. Seja discreto...
Aumente a sua autoestima, sem ser egocêntrico, pois cada um de nós deve  definir o significado de nossa existência, e quem não se valoriza não é estimado pelos outros.
Seja firme, convicto no pensar e no agir. No entanto, pondere, em certos momentos, nesse mundo de farsas e representações.
A sorte é bem vinda até na autoconfiança – mesmo na insensatez -, visto que mesmo sem compreender plenamente os percalços no que empreendemos, vencemos as dificuldades, às vezes, porque fomos protegidos pela sorte.
Feliz os pais que, recordando, tem poucos dissabores a lamentar de um filho, seja na infância ou na adolescência; as alegrias que você nos trouxe foram várias e grandiosas. Pablo, você proporcionou a seu pai e sua mãe a dizer com convicção: “Somos pais felizes”. E com certeza isso se prolongará enquanto você adulto.

Te amamos.

Elilson (pai), Sandra (mãe) e Heitor (irmão)

O amor acaba

Imagem: Google

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
Paulo Mendes Campos