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15/05/2026

Talvez assim seja

Por outro lado, estou hoje um pouco cansada e é sobre o prazer do cansaço dolorido que vou falar. Todo prazer intenso toca no limiar da dor. Isso é bom. O sono, quando vem, é como um leve desmaio, um desmaio de amor.
Morrer deve ser assim: por algum motivo estar-se tão cansado que só o sono da morte compensa. Morrer às vezes parece um egoísmo. Mas quem morre às vezes precisa muito.
Será que morrer é o último prazer terreno?

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

05/05/2026

Que dor dói mais?



Duas cenas. Na primeira, um homem chora a morte da mulher amada. Na segunda, outro homem chora a partida da mulher amada para um novo amor. Que dor dói mais?
Mais que a morte da pessoa amada, dói a partida dela para um novo amor.
A morte, ao levar a pessoa amada, retira-a do tempo, eterniza o amor e congela o abraço – como numa fotografia. Na fotografia tudo está imóvel, não há mudanças, não há tempo. Ali o amor está fixado para sempre. A mulher que morreu, morreu amando, e a morte tornou eterno esse amor. Ela continuará amando sempre na fotografia. E esse amor estará para sempre com o homem que ficou. A pessoa amada nunca o abandonará. Ele sofre, mas a alma está amando e tranquila. A amada morreu, mas na fotografia a imagem dela está inteira. A fotografia é a presença de uma ausência.
Drummond escreveu um poema em que descreve essa ausência:

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Cecília Meireles fotografou com palavras a ausência de sua avó, em “Elegia”:

Um jardineiro desconhecido se ocupará da simetria
desse pequeno mundo em que estás.
Suas mãos vivas caminharão acima das tuas, em descanso

[...]

Tua voz sem corpo estará comandando,
entre terra e água,
o aconchego das raízes tenras

[...]

Tudo em ti era uma ausência que se demorava:
uma despedida pronta a cumprir-se.

A imaginação sofre. Mas o seu sofrimento é belo. Não há esperança nem o suplício da espera. A ausência de esperança tranquiliza a alma.
Mas, quando não é a morte da pessoa amada, e sim a partida da pessoa amada para um novo amor, a imaginação enche a ausência de fantasmas.
Sei que ela está em algum lugar – onde? Que estará fazendo, livre, esquecida de mim? Quem sabe rindo nos braços de um novo amor...
A fotografia fixou o rosto de uma mulher que me amava e não me ama mais. Havendo partido para um novo amor, ela já não pode continuar lá. A morte não a pegou. Viva, ela vai por onde quer, longe de mim. Não é minha.
É preciso que o tempo faça o seu trabalho de esquecimento. Mas o amante abandonado não quer esquecer. Porque ama. Ainda não foi atingido pela graça da desesperança, que chega muito devagar... Por isso ele sofre…

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

11/03/2026

Dor e esperança

Temos uma capacidade quase infinita de suportar a dor, desde que haja esperança. Diz­-se que a esperança é a última que morre. Mas o certo seria dizer: a penúltima. Há uma morte que acontece antes da morte. Quando se conclui que não há mais razões para viver. Quando ­morrem as razões para viver, entram em cena as razões para morrer.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

03/03/2025

O Grande Anjo

Isso que vou contar já faz muitos anos, é só memória...
Eu disse que o Paraíso mora numa ampola de dolantina... “Cessa, ó dor!” E ela cessa... Pena que o Paraíso seja de tão curta duração. A dor se vai, sim, mas fica de tocaia...
Me tocaiou... Foi voltando devagarzinho, aparecendo num outro lugar: a coluna. Ela chegava e ia torcendo o corpo, obrigando-o a assumir as posições mais estranhas para livrar-se dela. Lembro-me de uma viagem que fiz até o litoral, corpo curvado, o pé apoiado no painel de instrumentos do carro. Chegando lá, praia, lugar de deleites e risos, a dor não me deixou. Ela só me deixava em paz numa posição: agachado.
A dor não me deixava alternativas. Qualquer coisa para livrar-me dela: cirurgia. Mas a cirurgia era de resultados duvidosos. Um ortopedista conhecido, sabendo dos riscos, me disse: “Só faço cirurgia de hérnia de disco quando o paciente ameaça cometer suicídio...”.
Pois é isso mesmo que acontece: a dor, ultrapassado um certo limite, faz sonhar com a morte, como a única possibilidade de libertação. Coisa estranha esta, desejar morrer por amor à vida... Walter Rauschenbush assim colocou a questão no seu livro Orações por um mundo melhor: “A morte não é mais uma inimiga e sim um grande anjo, o único a poder abrir, para alguns de nós, a prisão de dor e do sofrimento...”. Quando a dor é sem trégua, a pessoa que sofre tem um único desejo: parar de sofrer. Esgotados todos os recursos para pôr fim à dor, resta morrer.
Eu não queria morrer; queria parar de sofrer. No quarto do hospital, torturado pela dor, aguardando a cirurgia, ouvi, vindo não sei de onde (ou terá sido uma alucinação minha?), um trecho de uma sonata de Beethoven. Que combinação mais estranha! Beleza e dor... Num arroubo de coragem (ou de loucura), cerrei os dentes e disse para mim mesmo: “Nem toda a dor do mundo será capaz de destruir a beleza dessa sonata!”. Mas foi coisa momentânea. Meu corpo não queria a beleza da sonata de Beethoven; ele só queria não mais sentir a dor... Se o preço de acabar com a dor fosse silenciar a sonata, meu corpo preferiria que a beleza não existisse.
Finalmente, a cirurgia. Abençoo o meu filho que é anestesista, embora jamais tenha sido o “meu” anestesista. É perigoso... para ele... Mergulhado no sono, não sinto dor. No dia seguinte, o cirurgião veio me visitar e pediu-me para fazer um movimento-teste. Fiz. Beliscou. A dor ainda estava lá dentro. Uma outra cirurgia seria necessária. Fiz a segunda cirurgia. A dor piorou, multiplicada por não sei quanto. De volta para casa, só havia um recurso para não sentir dor: ficar deitado sobre o gelo... Semanas... Até que, pela magia dos bioquímicos, a dor deu-se por satisfeita e se foi...
Há de se pensar no que fazer com um corpo possuído pelo demônio da dor. Com os meus cachorros eu sei o que fazer...
(Não é espantoso que haja religiões que creiam que Deus tenha condenado seus desafetos a uma eternidade de dor?)

Rubem Alves, em Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo 

12/07/2024

A dor e o prazer

 “A natureza colocou o gênero humano sob o domínio de dois soberanos: a dor e o prazer. Somente a eles compete apontar o que devemos fazer, bem como determinar o que na realidade faremos. Ao trono desses dois senhores está vinculada, por uma parte, a norma que distingue o que é reto do que é errado, e, por outra, a cadeia das causas e dos efeitos”.

Jeremy Bentham, em Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação 

10/07/2024

Acerca da dor, do amor, da felicidade


 “Numa cena do filme Terra das Sombras, o personagem do historiador inglês C. S. Lewis pergunta a um colega de universidade se ele é feliz. O colega responde: ‘Eu sou o que sou; a vida é o que é. O que tem isso tem a ver com felicidade?’
O diálogo dizia respeito ao amor. Lewis estava apaixonado pela poetisa americana Joy Gresham, e o colega ignorava o que era amar. Na sequência, Joy morre inesperadamente de câncer. O sofrimento de Lewis é imenso e a moral do filme é clara: sem amor estamos amputados de nossa melhor parte. A vida pode até ser mais tranquila e livre de dores quando não amamos. Mas trata-se de uma paz de cinzas, como a do colega de Lewis. Nada substitui a felicidade erótica; nada traz o alento do amor-paixão romântico correspondido. Diante dele tudo empalidece; sem ele, até o que engrandece perde a razão de ser.”

Jurandir Freire Costa, em Sem fraude nem favor

21/07/2019

O que importa!

Tudo é possível e nada o é; tanto tudo é permitido quanto nada. Qualquer que seja a direção escolhida, ela não será melhor do que as outras. Percebam algo ou absolutamente nada, creiam ou não, tudo isto é igual, bem como dá no mesmo gritar ou se calar. Pode-se encontrar uma justificativa para tudo, bem como nenhuma. Tudo é ao mesmo tempo real e irreal, lógico e absurdo, glorioso e insípido. Nada vale mais do que nada, da mesma forma que nenhuma ideia é melhor do que outra. Por que entristecer-se com a tristeza ou alegrar-se com a alegria? Que importa que nossas lágrimas sejam de prazer ou de dor? Amem a infelicidade e detestem a alegria, misturem tudo, confundam tudo! Sejam como um floco de neve levado pelo vento ou como uma flor embalada nas ondas. Resistam quando não se deve e sejam covardes quando se deve resistir. Quem sabe - vocês ganharão talvez. E, de toda forma, o que importa se perderem? Existe alguma coisa a ganhar ou a perder no mundo? Todo ganho é uma perda, assim como toda perda é um ganho. Por que esperar sempre uma atitude clara, ideias precisas e palavras sensatas? Eu sinto que deveria cuspir fogo a título de resposta para todas as questões que me foram - ou não foram - feitas.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

18/02/2019

Ambiguidade do sofrimento

Não há ninguém que, após ter triunfado sobre a dor ou sobre a doença, não experimente, no fundo da alma, um remorso - não importa o quão vago ou pálido. Ainda que desejosos de se restabelecer, aqueles que sofrem longa e intensamente sentem-se sempre levados a encarar sua cura como uma perda. Quando a dor torna-se parte integral do ser, deixá-la para trás suscita necessariamente o pesar, como por algo desaparecido. O que tenho de melhor em mim, sendo tudo o que perdi, devo ao sofrimento. Assim sendo, não se pode amá-lo ou condená-lo. Tenho por ele um sentimento particular, difícil de definir, mas que tem o charme e os atrativos de uma luz crepuscular. A beatitude no sofrimento não passa de ilusão, pois ela exigiria de se reconciliar com a fatalidade da dor, para evitar a destruição. Nesta beatitude ilusória jazem os últimos recursos da vida. A única concessão que se pode fazer ao sofrimento vem do remorso com a cura, mas, vago e difuso demais, este não pode cristalizar-se na consciência. Toda dor que se apaga provoca um sentimento de perturbação, como se o retorno ao equilíbrio impedisse para sempre o acesso às regiões torturantes e enfeitiçadas, das quais não se pode partir sem um olhar para trás. O sofrimento não tendo nos revelado a beleza, nenhuma outra luz pode mais nos seduzir. Somos ainda atraídos pelas trevas do sofrimento?
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

04/12/2018

Sentir e entender

O amor não é para ser entendido é para ser sentido.
A poesia não é para ser entendida é para ser sentida.
O medo não é para ser entendido é para ser sentido.
A dor não é para ser entendida é para ser sentida.
O ódio não é para ser entendido é para ser sentido.
A morte não é para ser entendida é para ser sentida.
Rubem Fonseca, in Amálgama

31/08/2018

A dor da morte

Nos breves intervalos em que a chuva parava de cair e os raios de sol se infiltravam pelas nuvens, o arco-íris aparecia levando os homens a se lembrar da promessa que Deus fizera depois do dilúvio: ele nunca mais permitiria que as águas destruíssem a vida. Mas parece que ele se esquecera. A chuva caía sem parar alagando campos, inundando cidades, derrubando casas, matando gente e bichos.
Ele era um menino de 14 anos, feliz, que gostava de viver. Filho único, morava em Floripa. Como todos os meninos e meninas, ele deveria ir à escola naquele dia porque a chuva não estava tão forte assim. E andar na chuva é uma arte que dá alegria às crianças.
Chegou a hora do recreio, tempo livre para brincar. A chuva voltou a cair mais forte, com raios e trovões. Havia um lugar abrigado da chuva, uma marquise, construída fazia três semanas. Era uma cobertura de cimento, planejada por engenheiros que sabiam o que estavam fazendo. Sólida. Ele se abrigou sob a marquise para ver a chuva. Mas a marquise, ignorando ferro e cimento, caiu sobre ele, esmagando-o. Agora, no seu lugar, resta uma dor que nenhuma palavra pode conter.
A morte faz calar as palavras. São inúteis. Servem para nada. Somente os tolos tentam consolar. Eles não sabem que as palavras de consolo, brotadas das mais puras intenções, são ofensas à dor da pessoa golpeada pela morte. Porque elas, as palavras de consolo, são ditas no pressuposto de que elas têm poder para diminuir o vazio que a morte deixou. Como se a pessoa que a morte levou não fosse tão importante assim e algumas palavras pudessem diminuir a dor que sua morte deixou.
Mas não há palavra ou poema que possa com as únicas palavras que a morte deixa escritas: “nunca mais”. Nada existe de mais definitivo e mais doloroso que esse “nunca mais...”.
Bem fizeram os amigos de Jó que o visitaram com o intuito de consolá-lo na sua desgraça. O texto bíblico descreve o que aconteceu: 
 
“Quando eles de longe o viram, eles não o reconheceram; e eles levantaram suas vozes e choraram. E eles se assentaram com ele no chão durante sete dias e sete noites, e nenhum deles lhe disse uma palavra sequer, porque eles viram que o seu sofrimento era muito grande” (Jó 2.13). 
 
Todos os amigos querem diminuir o sofrimento da mãe. Cercam-na com palavras que, pensam eles, trarão algum consolo. Mas que palavra ou poema poderá substituir o seu filho? E a chamam ao telefone para dizer-lhe suas palavras doces e cheias das intenções mais puras. Mas a pureza das intenções não garante a sua sabedoria. E aí, à dor da morte do filho, acrescenta-se uma outra dor: a mãe é obrigada a ouvir os consoladores delicada e pacientemente, com sorrisos de agradecimento... Mas são tantos os consoladores e eles cansam tanto...
Gestos de consolo, lembro-me de um que me comoveu. Eu vivia em Nova York com a minha família. Aí o pai da minha esposa foi morto num acidente, no Brasil. Ao abrir a porta do apartamento, no chão estava um buquê de flores. Aquele que o trouxera se retirara em silêncio. Não tocara a campainha. Mas deixara um bilhete onde estava escrito: “Não quis perturbar a sua dor...”.
Rubem Alves, in Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

20/06/2018

Dor

Gosto da Adélia Prado por várias razões. É poeta. Tem o jeitão mineiro. E teóloga. Sempre que ela fala sobre os mistérios do mundo sagrado, eu me calo e medito. Quase sempre as palavras dela iluminam as minhas dúvidas. Sugestão para algum estudante que esteja à procura de tema para dissertação: “A Teologia da Adélia Prado”...
Mas hoje peço perdão. Discordo do que ela escreveu. Estava teologando, falando sobre a coisa mais terrível que há no mundo, o demônio, e foi isso, mais ou menos, o que ela escreveu. Digo “mais ou menos” porque não sei de cor e não posso consultar os livros dela que estão encaixotados, prontos para uma mudança que, julgo, será a última... Foi isso que acho que ela disse: “O céu será igualzinho a essa vida, menos uma coisa: o medo...” . Tanta coisa boa! Não é preciso pôr mais nada. O que está aí chega. Precisa só tirar uma coisa, uma única coisa, e a Terra se transformará no céu. Qual é o nome dessa coisa terrível? Ela responde: o medo.
Concordo. Mas eu acho que tem coisa pior, que é a causa de todos os medos: a dor. Nunca tive medo de cálculo renal. A despeito de eu nunca ter tido medo dele, ele veio, sem pedir licença e sem consultar se eu tinha medo ou não. Foi assim que conheci pela primeira vez a dor do inferno. Cessam todos os pensamentos. O corpo só deseja uma coisa: parar de sentir dor, a qualquer preço.
Dor não tem jeito de explicar. Bernardo Soares diz que tudo o que é sentimento é inexplicável. O artista, para comunicar seus sentimentos — inexplicáveis —, se vale de um artifício: ele invoca um sentimento “parecido” que o outro conhece. Não posso explicar o cheiro da flor de um jasmim-do-imperador. O perfume está além das palavras. Mas eu posso dizer: “É igualzinho ao cheiro de pêssego...”.
De que comparação vou me valer para explicar a dor a alguém que não a está sentindo? Só sabe o que é a dor aquele que a está sentindo, no presente. Enquanto a dor está doendo, meu corpo — não minha cabeça — sabe o que ela é. Passada a dor, ela fica na memória. Passa a morar no passado. Mas isso que está na memória não é conhecimento da dor porque o passado não dói. A memória da dor, por terrível que tenha sido quando aconteceu, não me dá conhecimento da dor, depois que ela se foi.
Minha memória mais antiga de dor me leva de volta à roça onde vivi quando menino. Lembro-me da cena, mas não sinto. Acho até engraçado. Era dor de dente — dor num minúsculo dente. A dor fazia meu minúsculo dente inchar até ficar do tamanho do universo — e eu, chorando, sem saber contar a minha dor, dizia que tinha inveja das galinhas que não tinham dentes... Foi o meu primeiro encontro.
Mais tarde, ela voltou sem se anunciar. Não a mesma. Nenhuma dor é a mesma. Cada dor é única. Chegou bruta, definitiva. Lutei contra ela usando as armas que se compram nas farmácias. Inutilmente. Levaram-me (nesse ponto eu já não era dono de mim mesmo; eu estava à mercê dos outros) então para o hospital, lugar da medicina forte. As injeções são mais potentes que os comprimidos. Aplicaram-me seis Buscopan. A dor não tomou conhecimento. Ficou mais forte. Comecei a vomitar. O médico, reconhecendo a derrota dos recursos penúltimos, dirigiu-se à enfermeira e disse o nome do último, nenhum mais forte: “Aplica uma dolantina nele...”.
Ela aplicou. Aí, passados cinco minutos, senti a mais deliciosa sensação que tive em toda a minha vida. Não era sensação de nada. Que me importavam música, sexo ou flores? Era, simplesmente, a sensação de não ter dor. Pensei se essa euforia não deveria ser o estado normal da alma, sempre que o corpo não estivesse sentindo dor. Rindo e feliz, brinquei que o Paraíso morava dentro de uma ampola de dolantina...
Rubem Alves, in Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo

07/06/2018

Arte e dor

“Não é apenas a arte que põe encanto e mistério nas coisas mais insignificantes; esse mesmo poder de relacioná-las intimamente conosco é reservado também à dor.”
Marcel Proust, in A fugitiva

14/02/2018

Solidarizarmos com a dor

Para Dostoiévski, a sensibilidade deveria servir para nos solidarizarmos com a dor, e, de fato, se não for assim, ela me parece estéril. Uma sensibilidade preparada para fruir a estética é importante, mas também inútil.
José Saramago, in As palavras de Saramago

11/07/2017

Barganha

“Nenhuma dor significa o fim da sensibilidade; cada uma de nossas alegrias é uma barganha com o diabo.”
Charles Bukowski, in Notas de um velho safado

22/01/2017

Acerca dos sofrimentos e das dores

“Todos os sofrimentos que nos cercam, é necessário a nós sofrê-los igualmente. Todos nós, não temos um corpo, mas um crescimento, e esse conduz-nos através de todas as dores, seja sob que forma for. Do mesmo modo que a criança, através de todos os estágios da vida, se desenvolve até a velhice e até a morte (e cada estágio parece no fundo inacessível ao precedente, quer seja desejado ou receado), do mesmo modo nos desenvolvemos (não menos solidários da humanidade do que de nós próprios) através de todos os sofrimentos deste mundo. Para a justiça não há, nesta ordem de coisas, lugar algum, não mais do que para o receio dos sofrimentos ou para a interpretação do sofrimento como um mérito.”
Franz Kafka, in Os Aforismos de Zurau

29/10/2016

A dor e o prazer

“A natureza colocou o gênero humano sob o domínio de dois soberanos: a dor e o prazer. Somente a eles compete apontar o que devemos fazer, bem como determinar o que na realidade faremos. Ao trono desses dois senhores está vinculada, por uma parte, a norma que distingue o que é reto do que é errado, e, por outra, a cadeia das causas e dos efeitos.”
Jeremy Bentham

18/07/2016

Obrigação de dor

“Cumpro minha obrigação de dor, meu senhor. Estou alegre de trono, só choro estas poucas lágrimas. Amanhã vou esquecer, depois então vou saber: saudade é chateação, pensamento com cansaço.”
Guimarães Rosa, in Ave Palavra

29/03/2016

Ostra feliz não faz pérola

Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que representam as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos -, seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse, a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem. Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário. Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão…”. Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro de sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de suas asperezas, arestas e pontas, bastava para envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra. Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou-a e deu-a de presente para a sua esposa.
Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos. No seu ensaio sobre o nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzche observou que os gregos, por oposição aos cristãos, levavam a tragédia a sério. Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. A resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza. A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta. Mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer. Esses são os artistas. Beethoven – como é possível que um homem completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa…
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

08/03/2016

Dores alheias

“As dores alheias fazem lembrar as próprias, e são um corretivo da alegria, cujo excesso pode engendrar o orgulho.”
Machado de Assis, in Helena

21/10/2015

Dor e sorte

“A dor cria um escritor?
A dor não cria nada, assim como a pobreza. O artista está lá primeiro. O que será dele está diretamente ligado à sorte. Se sua sorte é boa (falando literalmente), ele se torna um mau artista. Se sua sorte é ruim, ele se torna um dos bons. Em relação à substância envolvida.”
Charles Bukowski, in Pedaços de um caderno manchado de vinho