terça-feira, 2 de junho de 2026

Chico Chico e Orquestra Sesiminas | Admirável Gado Novo / Toada

A coincidência



Conheceram-se na feira. Jorge estava apoiado no cabo do velho guarda-chuva tentando tirar alguma coisa agarrada à sola do sapato, quando teve sua atenção atraída por uma reclamação:
Puxa, mas o preço do tomate tá uma indecência!
Por uma dessas caraminholas da mente, a soma de tomate e indecência deu, na cuca do Jorge, um resultado bastante diverso do real. Jorge procurou a dona da voz e constatou que todas as besteiras esboçadas no bestunto eram poucas diante daquele — sentiu o cheiro de outra barraca — peixão. Forçando a abordagem, Jorge, que detestava tomate, juntou seus mais veementes protestos aos dela, chegando a fazer uma ridícula imitação de um personagem de tevê:
O tomatal tem que tomatar!
A moça achou graça e Jorge completou com um galanteio na medida:
Mas meu negócio não é número. Meu negócio é me apaixonar de repente — numa feira, por exemplo — e levar meu novo amor pra conhecer meu apartamento, aqui pertinho. Todas ficam amarradas em minha vista pro mar.
A moça, que normalmente repeliria uma entrada de sola, caiu na esparrela:
Seu apartamento tem vista pro mar? Aqui?
Meu apartamento dá pra um terreno baldio. Eu é que dou vista pro mar. Espia bem nos meus olhos: verdinhos, né?
Uma expressão de carinho surgiu no rosto da moça e Jorge sentiu que era só dar mais um pouco de linha antes de usar o cerol. Ficou propenso a utilizar a tática aprendida com a edificante leitura de O Último Tango em Paris: nada de nomes.
A verdade é que o Jorge tinha certa bronca do seu nome:
Jorge Goulart Cauby Peixoto da Silva. O da Silva era de sua mãe, assídua frequentadora da Rádio Nacional nos áureos tempos dos grandes programas de auditório. Mãe solteira, colocara no filho seu modesto sobrenome coroando a fusão dos nomes de seus maiores ídolos. Jorge achava tudo isso meio ridículo e só declarava o nome completo em caso de absoluta necessidade.
E a necessidade surgiu quando a moça, já devidamente cantada, teve um capricho maluco:
Vou, mas quero ver tua carteira de identidade. Você tá escondendo alguma coisa de mim.
Mas, minha flor...
Não tem mas-mas. Ou mostra a carteira ou fica na saudade.
Jorge cedeu. A moça, ao contrário do que Jorge esperava, não riu:
Que estranho! Imagina você que meu pai era assíduo frequentador da Rádio Nacional e...
Aterrorizado, Jorge interrompeu a moça:
Como é teu nome?
Jezebel Conceição de Souza.
Ô mundinho danado de pequeno — pensou o Jorge, de pau, quer dizer, de guarda-chuva na mão.

Aldir Blanc, em Rua dos Artistas e Arredores

Nabucodonosor

O nome de Nabucodonosor é belo como um cortejo religioso. O triste é que os seus súditos, para abreviar, chamavam-no simplesmente de Bubu.

Mário Quintana, em Caderno H

Imaginação

Arte: Caetano Cury

Diário de Bernardo Soares

112.

Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém.
É um conceito nosso — em suma, é a nós mesmos — que amamos.
Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é abjeto, mas, em exata verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.
As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha’ complexidade. No próprio acto em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois “amo-te" ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstrata de impressões que constitui a atividade da alma.
Estou hoje lúcido como se não existisse. O meu pensamento é em claro como um esqueleto, sem os trapos carnais da ilusão de exprimir. E estas considerações, que formo e abandono, não nasceram de coisa alguma – de coisa alguma, pelo menos, que me esteja na plateia da consciência.
Talvez aquela desilusão do caixeiro de praça com a rapariga que tinha, talvez qualquer frase lida nos casos amorosos que os jornais transcrevem dos estrangeiros, talvez até uma vaga náusea que trago comigo e me não expeli fisicamente…
Disse mal o escoliasta de Virgílio. É de compreender que sobretudo nos cansamos. Viver é não pensar.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

O Mestre e Margarida — 7


7

Um apartamento sinistro

Se, na manhã seguinte, alguém dissesse a Stiôpa Likhodiêiev: “Stiôpa! Se você não se levantar nesse instante, será fuzilado!”, Stiôpa responderia com uma voz sombria, quase inaudível: “Podem me fuzilar, façam o que quiserem comigo, mas não vou me levantar.”
O problema não era se levantar, mas parecia-lhe que não conseguiria abrir os olhos, porque só de fazer isso um raio cairia e sua cabeça seria dilacerada em vários pedaços. Um sino pesado badalava naquela cabeça, manchas cor de café com bordas verdes e flamejantes flutuavam pelos globos oculares e pelas pálpebras fechadas e, para coroar, ele estava enjoado, e parecia que esse enjoo estava ligado ao som inconveniente de um gramofone.
Stiôpa esforçava-se para lembrar algo, mas só uma coisa vinha à sua mente — aparentemente, ontem, em um lugar desconhecido, ele estava parado com um guardanapo na mão e tentava beijar uma senhora, prometendo-lhe que no dia seguinte, ao meio-dia em ponto, iria visitá-la. A senhora se recusava, dizendo: “Não, não, não estarei em casa!”, mas Stiôpa insistia na sua decisão, obstinado: “Mas eu vou e pronto!”
Stiôpa decididamente não sabia nem quem era a senhora, nem que horas eram agora, nem que dia, nem de que mês, e o pior é que não conseguia sequer reconhecer onde estava. Ele procurou esclarecer pelo menos a última questão, e para isso desgrudou as pálpebras pregadas do olho esquerdo. Algo reluzia levemente na penumbra. Stiôpa finalmente reconheceu o espelho e entendeu que estava deitado de costas em sua cama, quer dizer, na antiga cama da mulher do joalheiro, no quarto. Então sentiu uma dor tão forte na cabeça que fechou os olhos e começou a gemer.
Expliquemos melhor: Stiôpa Likhodiêiev, diretor do Teatro de Variedades, voltou a si de manhã em seu apartamento, aquele mesmo que ele dividia com o falecido Berlioz, num grande prédio de seis andares, localizado na santa paz da rua Sadôvaia.
Deve-se dizer que esse apartamento — o de número 50 — já havia muito gozava de uma reputação, se não má, no mínimo estranha. Dois anos atrás, sua proprietária era a viúva do joalheiro De Fougère. Ánna Frantsiêievna de Fougère, uma senhora honrada de cinquenta anos, muito eficiente, alugava três dos cinco cômodos para inquilinos: um cujo sobrenome, parece, era Bielomút, e outro que tinha perdido o sobrenome.
E então dois anos atrás começaram a ocorrer fatos inexplicáveis no apartamento: as pessoas passaram a desaparecer dali sem deixar vestígios.
Certa vez, num dia de folga, um policial apareceu no apartamento, chamou o segundo inquilino (o que perdeu o sobrenome) até a entrada e disse que ele deveria comparecer à delegacia um minutinho para assinar alguma coisa. O inquilino mandou Anfissa, fiel e antiga empregada de Ánna Frantsiêievna, explicar, caso ele recebesse algum telefonema, que retornaria dali a dez minutos e saiu acompanhado do policial civil de luvas brancas. Porém, ele não só não retornou em dez minutos, como não retornou nunca mais. O mais surpreendente de tudo é que, pelo visto, junto com ele desapareceu também o policial.
Devota ou, para dizer mais francamente, supersticiosa, Anfissa foi correndo contar para a já muito transtornada Ánna Frantsiêievna que aquilo era feitiçaria e que ela sabia muito bem quem tinha levado o inquilino e o policial, só que não queria falar sobre isso na calada da noite.
Bom, com bruxaria é assim, como se sabe; basta começar que depois nada pode detê-la. O segundo inquilino desapareceu, ao que parece, na segunda-feira, e na quarta quem desapareceu como se a terra o tivesse engolido foi Bielomút. Mas isso, na verdade, ocorreu em outras circunstâncias. Pela manhã, como de costume, um carro veio buscá-lo para levá-lo ao trabalho, e de fato o levou, mas não trouxe ninguém de volta, e o próprio carro não apareceu mais.
A aflição e o terror de madame Bielomút eram indescritíveis. Mas, que pena!, tanto um como o outro duraram pouco. Naquela mesma noite, após retornar com Anfissa da datcha, para a qual sabe-se lá por que saiu às pressas, Ánna Frantsiêievna não encontrou mais a cidadã Bielomút no apartamento. E não era só isso: as portas dos dois quartos ocupados pelo casal Bielomút estavam lacradas!
Dois dias se passaram com dificuldade. No terceiro dia, Ánna Frantsiêievna, que estava sofrendo de insônia, foi mais uma vez às pressas para a datcha... e é inútil dizer que ela nunca mais voltou!
Anfissa, que tinha ficado sozinha e chorado tudo o que tinha para chorar, deitou-se para dormir depois da uma da madrugada. Não se sabe ao certo o que aconteceu com ela dali em diante, mas os inquilinos dos outros apartamentos contavam que, durante a noite inteira, teriam ouvido umas batidas no número 50 e que até de manhã teriam visto nas janelas a luz elétrica acesa. Pela manhã, soube-se que Anfissa também havia sumido!
Durante muito tempo, contavam no prédio diversas lendas sobre os desaparecidos e sobre o apartamento maldito, como, por exemplo, que aquela sequinha e beata da Anfissa carregava em seu peito murcho, em um saquinho de couro cru, vinte e cinco diamantes graúdos pertencentes a Ánna Frantsiêievna. Que no depósito de lenha daquela mesma datcha para onde Ánna Frantsiêievna ia às pressas, teriam sido localizados por si só tesouros inestimáveis, na forma daqueles mesmos diamantes, assim como moedas de ouro cunhadas na época do tzar... E outras coisas do mesmo gênero. Bom, não podemos colocar nossa mão no fogo por aquilo que não sabemos.
Seja como for, o apartamento permaneceu vazio e lacrado apenas uma semana, e então mudaram-se para lá o finado Berlioz com a esposa e esse mesmo Stiôpa, também com a esposa. É totalmente natural que, assim que foram parar no apartamento execrado, só o diabo sabe o que é que começou a acontecer com eles. Isto é, num único mês sumiram as duas esposas. Mas elas não se foram sem deixar vestígios. Sobre a esposa de Berlioz contavam que teria sido vista em Khárkov com um certo professor de balé, e a esposa de Stiôpa teria supostamente sido localizada na rua Bojedômka onde, falavam as más línguas, o diretor do Teatro de Variedades, fazendo uso de seus inúmeros contatos, dera um jeito de arranjar-lhe um quarto, mas com a condição de que não pusesse o pé na rua Sadôvaia...
Então Stiôpa começou a gemer. Queria chamar a empregada Grúnia e pedir analgésico, mas sabia que era bobagem. Grúnia não teria analgésico algum, é claro. Tentou pedir ajuda a Berlioz e disse duas vezes, gemendo: “Micha... Micha...”, mas, como vocês já devem ter deduzido, não recebeu resposta. No apartamento reinava um silêncio absoluto.
Mexeu um pouco os dedos dos pés e concluiu que estava deitado de meias; passou a mão trêmula pelo quadril para verificar se estava ou não de calças e não conseguiu. Finalmente, percebendo que estava abandonado e sozinho, que ninguém viria socorrê-lo, resolveu levantar-se, por mais que isso lhe custasse forças sobre-humanas.
Stiôpa desgrudou as pálpebras coladas e viu que se refletia no espelho como um homem de cabelos arrepiados para todos os lados, uma cara inchada e coberta por uma barba preta por fazer, olhos inchados, camisa de colarinho suja, gravata, ceroulas e meias.
Foi assim que ele se viu no espelho e ao lado do espelho viu um homem desconhecido, vestido de preto e de boina preta.
Stiôpa sentou-se na cama e arregalou o quanto pôde os olhos injetados de sangue para o desconhecido.
O silêncio foi quebrado pelo tal desconhecido, que pronunciou as seguintes palavras em voz baixa, pesada e com sotaque estrangeiro:
Bom dia, simpaticíssimo Stepán Bogdánovitch!
Houve uma pausa e depois, com um enorme sacrifício, Stiôpa disse:
O que o senhor deseja? — e surpreendeu-se, pois não reconheceu a própria voz. As palavras “o que”, ele pronunciou em soprano, “o senhor”, em baixo, e “deseja” não saiu de jeito nenhum.
O estranho sorriu, maliciosa e amavelmente, tirou um grande relógio de ouro com um triângulo de diamante na tampa, bateu onze vezes e disse:
Onze! E faz exatamente uma hora que estou sentado esperando o senhor despertar, já que marcou comigo às dez. Aqui estou eu!
Stiôpa procurou as calças tateando a cadeira ao lado da cama e cochichou:
Desculpe... — Vestiu as calças e perguntou, rouco: — Diga-me, por favor, qual é o seu sobrenome?
Estava com dificuldade para falar. A cada palavra alguém enfiava uma agulha em seu cérebro, provocando uma dor infernal.
Como? O senhor esqueceu também o meu sobrenome? — E então o desconhecido sorriu.
Perdão... — rouquejou Stiôpa, sentindo que a ressaca o presenteava com um novo sintoma: pareceu-lhe que o chão ao lado da cama tinha se evaporado e que naquele exato momento ele iria direto para o inferno, para a casa do diabo.
Querido Stepán Bogdánovitch — falou o visitante, com um sorriso perspicaz —, nenhum analgésico ajudará. Siga o velho e sábio conselho: curar o mal com o mesmo mal. A única coisa que o fará voltar à vida são duas doses de vodca com algum tira-gosto picante e quente.
Stiôpa era uma pessoa esperta e, por mais doente que pudesse estar, percebeu que uma vez que o pegassem nesse estado, teria de confessar tudo.
Para dizer a verdade, ontem eu — começou ele, mal conseguindo mover a língua — exagerei um pouco...
Nem mais uma palavra! — respondeu o visitante e afastou-se com a poltrona até o canto.
Stiôpa arregalou os olhos e viu uma pequena mesa posta com uma bandeja, na qual havia pão branco fatiado, caviar prensado em um potinho, cogumelos brancos em conserva em um prato, alguma coisa em uma panelinha e, finalmente, vodca em uma decantadeira robusta que pertencera à mulher do joalheiro. O que mais impressionou Stiôpa foi que a garrafa estava suada por causa do frio. Porém, isso era compreensível, afinal ela estava em uma bacia cheia de gelo. Resumindo, tudo havia sido preparado com asseio e eficiência.
O estranho não deixou a admiração de Stiôpa se desenvolver até um grau doentio e, esperto, serviu-lhe meia dose de vodca.
E o senhor? — piou Stiôpa.
Com prazer!
Stiôpa levou o copinho até os lábios com a mão trêmula, enquanto o estranho engoliu o conteúdo do copo num gole só. Mastigando com vontade um pouco de caviar, Stiôpa arrancou as seguintes palavras de sua boca:
E o senhor, por que não pega... um tira-gosto?
Obrigado, eu nunca belisco — respondeu o estranho e serviu uma segunda dose. Abriram a panelinha e nela havia salsichas com molho de tomate.
Então, o maldito verde diante dos olhos evaporou, as palavras começaram a se articular e, o mais importante, Stiôpa lembrou-se de alguma coisa. Justamente que ontem algo tinha acontecido em Skhôdnia, na datcha de Khustov, autor de esquetes, para onde esse mesmo Khustov levara Stiôpa de táxi. Até lhe veio à mente que, quando pegaram esse táxi perto do Metropol, também estava com eles um ator que não era de meia-tigela... com um gramofone dentro de uma maleta. Isso, isso, isso, foi na datcha! Parecia lembrar, ainda, que cachorros uivavam por causa desse gramofone. Só a senhora que Stiôpa queria tanto beijar continuou sem explicação... vai saber quem diabos era ela... vai ver trabalha na rádio, mas também pode ser que não.
Assim, o dia anterior ia aos poucos se esclarecendo, mas agora Stiôpa estava muito mais interessado no dia de hoje e, em particular, no aparecimento daquele desconhecido em seu quarto e, ainda por cima, com tira-gostos e vodca. Isso sim seria bom explicar!
E então, espero que agora o senhor tenha se lembrado de meu sobrenome?
Mas Stiôpa só sorria, envergonhado, sem saber o que dizer.
Não me diga! Tenho a impressão de que depois da vodca o senhor andou bebendo vinho do Porto! Por favor, é possível uma coisa dessas!
Gostaria de pedir que isso fique só entre nós — disse Stiôpa, com um tom adulador.
Oh, é claro, claro! Mas não preciso nem dizer que não respondo por Khustov!
Mas o senhor por acaso conhece Khustov?
Ontem eu vi esse indivíduo passar rapidamente no seu gabinete, mas basta olhar seu rosto de relance para compreender que ele é um canalha, um fofoqueiro, um oportunista e um puxa-saco.
Exatamente”, pensou Stiôpa, espantado com uma definição tão exata, precisa e concisa de Khustov.
É, os pedaços do dia anterior iam se modelando pouco a pouco, mas mesmo assim a aflição não dava uma trégua ao diretor do Teatro de Variedades. O problema era que um enorme buraco negro se abria nesse dia anterior. Esse estranho de boina, seja como for, Stiôpa realmente não o vira ontem em seu gabinete.
Mestre em magia negra, Woland — disse o visitante com autoridade, percebendo as dificuldades de Stiôpa, e contou tudo em ordem.
Ontem, durante a tarde, ele chegara a Moscou do exterior e, sem demora, surgiu diante de Stiôpa e ofereceu apresentar sua turnê no Teatro de Variedades. Stiôpa telefonou para a comissão de lazer da região de Moscou e resolveu a questão (Stiôpa empalideceu e começou a piscar os olhos), assinou com o professor Woland um contrato que previa sete apresentações (Stiôpa abriu a boca), combinou que Woland viria até seu apartamento às dez horas da manhã de hoje para acertar os detalhes. E então Woland veio. Quando chegou, foi recebido pela empregada Grúnia, que lhe explicou que ela mesma acabara de chegar, que não morava lá, que Berlioz não estava em casa e que se o visitante quisesse ver Stepán Bogdánovitch que fosse ele mesmo até seu quarto. Stepán Bogdánovitch dorme tão profundamente, que ela não se atreve a despertá-lo. Quando percebeu o estado de Stepán Bogdánovitch, o artista mandou Grúnia ao mercado mais próximo atrás de vodca e tira-gostos, à farmácia atrás de gelo e…
Permita-me acertar as contas com o senhor — choramingou Stiôpa, abatido, e começou a procurar a carteira.
Oh, que absurdo! — exclamou o apresentador, e não queria mais nem ouvir falar sobre o assunto.
Então a vodca e os tira-gostos foram esclarecidos, mas mesmo assim dava pena olhar para Stiôpa: decididamente ele não lembrava nada sobre o contrato e podia jurar que não tinha visto esse Woland ontem. Khustov, sim, estava lá, mas Woland, não.
Com sua licença, gostaria de dar uma olhada no contrato — pediu baixinho Stiôpa.
Claro, claro...
Stiôpa deu uma olhada no papel e gelou. Estava tudo certo. Primeiro, a autêntica assinatura espirituosa de Stiôpa! Ao lado, à mão, o endosso torto do diretor financeiro, Rímski, com autorização para liberar ao artista Woland, por conta das sete apresentações, a soma de dez mil rublos do total que lhe é devido de trinta e cinco mil rublos. E tem mais: ali estava o visto de Woland por ele já ter recebido esses dez mil!
Mas o que isso significa?”, pensou o infeliz Stiôpa, e sua cabeça começou a girar. Será que estava começando a ter funestos lapsos de memória?! Mas nem precisa dizer que, depois de o contrato ser apresentado, novas manifestações de admiração seriam simplesmente inadequadas. Stiôpa pediu licença à visita para se retirar por um minuto e, como estava, de meias, correu até o telefone, na antessala. Pelo caminho ele gritou em direção à cozinha:
Grúnia!
Mas ninguém retorquiu. Então, ele deu uma olhada para a porta do gabinete de Berlioz, que ficava ao lado da antessala, e ali mesmo, como se costuma dizer, ficou estarrecido. Ele viu um enorme lacre de cera pendurado na maçaneta da porta. “Pronto!”, rugiu alguém na cabeça de Stiôpa. “Era só o que faltava!” Então os pensamentos de Stiôpa bifurcaram-se por dois caminhos, mas, como sempre acontece no momento de uma catástrofe, em uma única direção, e na realidade, só o diabo sabe para onde. Até mesmo descrever a salada da cabeça de Stiôpa é difícil. Ali estava aquele diabrete de boina preta, a vodca gelada e o incrível contrato e, para completar, faça-me o favor, um selo na porta! Ou seja, se quiserem dizer para alguém que Berlioz andou aprontando, não vão acreditar, juro, não vão acreditar, não! Mas o selo estava lá!
Sim, senhor...
Então começaram a pulular no cérebro de Stiôpa uns pensamentos muito desagradáveis sobre um artigo que, por azar, ele havia pouco impingira a Mikhail Aleksándrovitch para ser publicado na revista. O artigo, cá entre nós, era estúpido! Sem propósito, e o dinheiro, uma mixaria...
Logo depois da lembrança do artigo, pairou a de uma conversa duvidosa, que acontecera, como recordava, no dia vinte e quatro de abril à noite, ali mesmo, na sala de jantar, enquanto Stiôpa jantava com Mikhail Aleksándrovitch. Ou seja, é claro, aquela conversa não podia nunca ser chamada de duvidosa no pleno sentido da palavra (Stiôpa nem começaria uma conversa dessas), mas sim uma conversa sobre algum tema desnecessário. Ele era totalmente livre, cidadãos, para não iniciá-la. Até o selo, sem dúvida, a conversa poderia ser considerada uma verdadeira bobagem, mas depois do lacre...
Ah, Berlioz, Berlioz!”, o sangue subia à cabeça de Stiôpa. “Isso é demais para minha cabeça!”
Mas não havia muito tempo para se lamentar e Stiôpa discou o número do gabinete do diretor financeiro do Teatro de Variedades, Rímski. A situação de Stiôpa era delicada: primeiro, o estrangeiro poderia se ofender porque Stiôpa iria investigá-lo, depois de ter sido mostrado o contrato, além de ser extremamente difícil falar com o diretor financeiro. De fato, não dava mesmo para perguntar desse jeito: “Diga-me, por acaso fechei ontem um contrato de trinta e cinco mil rublos com um professor de magia negra?” Perguntar assim não leva a lugar algum!
Pronto! — soou no fone a voz aguda e desagradável de Rímski.
Olá, Grigóri Danílovitch — começou baixinho Stiôpa —, é o Likhodiêiev. É o seguinte... hum... hum... estou aqui em casa com esse... é... artista, Woland... Então... Bom... eu queria perguntar, e hoje à noite?
Ah, o da magia negra? — retrucou no fone Rímski. — Os cartazes já vão ficar prontos.
A-hã — disse Stiôpa com uma voz fraca —, então até mais...
E o senhor vem logo? — perguntou Rímski.
Daqui a meia hora — respondeu Stiôpa e, pondo o fone no gancho, apertou a cabeça quente com as mãos. Ah, que piada de mau gosto! O que está acontecendo com sua memória, cidadãos? Hein?
No entanto, não convinha permanecer por muito tempo na antessala e Stiôpa na mesma hora traçou um plano: esconder a sua incrível falta de memória de qualquer jeito e, agora, antes de mais nada, como quem não quer nada, arrancar do estrangeiro o que exatamente ele pretende mostrar hoje no Teatro de Variedades, entregue aos cuidados de Stiôpa.
Então Stiôpa virou-se de costas para o aparelho e, no espelho que ficava na antessala e havia muito tempo não era limpo pela preguiçosa Grúnia, viu nitidamente um sujeito estranho — comprido como uma vara, de pincenê (ah, se Ivan Nikoláievitch estivesse aqui! Ele reconheceria esse sujeito de cara!). Ele foi refletido, mas sumiu no mesmo instante. Stiôpa, aflito, olhou melhor para a entrada e perdeu o equilíbrio uma segunda vez, pois um enorme gato preto passou diante do espelho e também sumiu.
Stiôpa ficou com o coração na mão e cambaleou.
Mas o que é isso?”, pensou. “Será que estou enlouquecendo? De onde vêm esses reflexos?” Ele olhou para a entrada e gritou, assustado:
Grúnia! Por que esse gato está perambulando aqui? De onde ele veio? E ainda tem alguém com ele?!
Não se preocupe, Stepán Bogdánovitch — retrucou uma voz, mas não de Grúnia e sim da visita, que vinha do quarto —, esse gato é meu. Não fique nervoso. E a Grúnia não está, despachei-a para Vorônej. Ela reclamou que o senhor se apropriou de suas férias.
Aquelas palavras eram tão inesperadas e disparatadas que Stiôpa achou que estava ouvindo demais. Totalmente transtornado, correu a trote curto até o quarto e postou-se imóvel à soleira da porta. Ficou de cabelos em pé e na testa surgiram pequenas gotas de suor.
O visitante já não estava sozinho no quarto, mas acompanhado. Na segunda poltrona estava sentado aquele mesmo indivíduo que imaginara na entrada. Agora ele estava claramente visível: o bigode-penugem, um vidro do pincenê cintilava, o outro era inexistente. Mas as coisas no quarto se mostraram bem piores: no pufe da mulher do joalheiro, com uma pose petulante, estava estirado um terceiro, justamente — um gato preto de proporções espantosas, com uma dose de vodca em uma das patas e na outra um garfo, com o qual ele conseguira fisgar um cogumelo em conserva.
A luz já fraca do quarto começou a ficar ainda mais lívida aos olhos de Stiôpa. “Então é assim que se enlouquece!”, pensou ele e agarrou-se ao batente da porta.
Estou vendo que o senhor está um pouco surpreso, meu caríssimo Stepán Bogdánovitch? — quis saber Woland de Stiôpa, que estava tiritando os dentes. — No entanto, não há com o que se assombrar. Essa é a minha comitiva.
Então o gato tomou a vodca e a mão de Stiôpa deslizou batente abaixo.
E essa comitiva demanda espaço — continuou Woland. — Por isso, algum de nós está sobrando aqui nesse apartamento. E me parece que é justamente o senhor quem está sobrando!
Eles, eles! — entoou o alto de xadrez com voz de bode, usando o plural para falar de Stiôpa. — De modo geral, eles andam se emporcalhando de maneira espantosa nos últimos tempos. Ficam se embebedando, têm casos com mulheres, valendo-se de sua posição, não fazem absolutamente nada e nem podem fazer nada mesmo, porque não entendem patavina sobre suas responsabilidades. Só sabem deitar terra nos olhos dos seus superiores!
Usa o carro oficial para assuntos particulares! — denunciou o gato, mastigando um cogumelo.
E então aconteceu uma quarta e última aparição no apartamento, enquanto Stiôpa, já deslizando totalmente até o chão, arranhava o batente com a mão enfraquecida.
Diretamente do espelho do aparador saiu um homem pequeno, mas de ombros extraordinariamente largos, de chapéu-coco na cabeça e um canino à mostra, desfigurando sua fisionomia que já era execrável mesmo sem isso, algo sem precedentes. E ainda por cima ruivo, vermelho-fogo.
Eu — entrou na conversa esse novo visitante — de modo geral nem consigo entender como ele foi parar no lugar de diretor — o ruivo ficava cada vez mais fanho. — Se ele é diretor, então eu sou bispo!
Você não se parece com um bispo, Azazello — observou o gato, servindo-se de salsichas.
Mas é isso mesmo que estou falando — esganiçou o ruivo e voltou-se para Woland, com deferência: — Permita-me, meu senhor, expulsá-lo de Moscou e mandá-lo para os diabos?
Chispa!! — rosnou o gato de repente, eriçando o pelo.
Então o quarto começou girar ao redor de Stiôpa e ele bateu a cabeça contra o batente, perdendo os sentidos, e pensou: “Estou morrendo...”
Mas não morreu. Entreabriu os olhos de leve e se viu sentado em cima de algo parecido com uma pedra. Ao seu redor algo marulhava. Quando abriu os olhos devidamente, entendeu que era o mar e que, além disso, as ondas quebravam nos seus próprios pés e que, resumindo, ele estava sentado bem na extremidade de um dique, e que acima dele havia um céu azul reluzente e atrás uma cidade branca nas montanhas.
Sem saber como proceder em tais casos, Stiôpa levantou-se sobre as pernas bambas e caminhou pelo dique até a beira do mar.
No dique havia um homem, fumando, cuspindo na água. Ele olhou para Stiôpa com olhos selvagens e parou de cuspir.
Então Stiôpa fez uma cena daquelas: pôs-se de joelhos diante do fumante desconhecido e pronunciou:
Eu lhe imploro, diga-me, que cidade é essa?
Francamente! — disse o fumante, insensível.
Não estou bêbado — respondeu Stiôpa, rouco. — Aconteceu alguma coisa comigo... estou doente... Onde estou? Que cidade é essa?
Ialta, ora...
Stiôpa suspirou baixinho, caiu de lado, bateu a cabeça contra a pedra quente do dique. A consciência o abandonou.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida