112.
Nunca amamos alguém. Amamos,
tão-somente, a ideia que fazemos de alguém.
É um conceito nosso — em suma, é a
nós mesmos — que amamos.
Isto é verdade em toda a escala do
amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de
um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer
nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é abjeto,
mas, em exata verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do
amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.
As relações entre uma alma e outra,
através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras
comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha’
complexidade. No próprio acto em que nos conhecemos, nos
desconhecemos. Dizem os dois “amo-te" ou pensam-no e sentem-no
por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida
diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma
abstrata de impressões que constitui a atividade da alma.
Estou hoje lúcido como se não
existisse. O meu pensamento é em claro como um esqueleto, sem os
trapos carnais da ilusão de exprimir. E estas considerações, que
formo e abandono, não nasceram de coisa alguma – de coisa alguma,
pelo menos, que me esteja na plateia da consciência.
Talvez aquela desilusão do caixeiro
de praça com a rapariga que tinha, talvez qualquer frase lida nos
casos amorosos que os jornais transcrevem dos estrangeiros, talvez
até uma vaga náusea que trago comigo e me não expeli fisicamente…
Disse mal o escoliasta de Virgílio. É
de compreender que sobretudo nos cansamos. Viver é não pensar.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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