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13/05/2024

Parte Dois | Um ano mais tarde…



[…]

O problema é, o que eu faria com ela depois de conquistá-la? – é como ganhar um anjo no inferno e você tem é autorizado a descer com ela para onde é pior ou para onde talvez haja luz, alguma, lá embaixo, talvez eu esteja maluco –
Ela está pirando”, diz Bull, “essas bolas fazem isso com todo mundo, com você, qualquer pessoa.”
Na verdade, duas noites mais tarde o próprio Bull tomou demais e comprovou isso –
O problema dos viciados, abençoados os viciados em narcóticos, é conseguir a parada – Veem recusas por todos os lados, estão permanentemente infelizes – “Se o governo me desse morfina o suficiente todos os dias, eu seria totalmente feliz e teria a maior disposição de trabalhar como enfermeiro em um hospital Cheguei a mandar minhas ideias sobre o assunto para o governo, em uma carta em 1938 enviada de Lexington, na qual dizia que era possível resolver o problema dos narcóticos botando os viciados para trabalhar, com suas doses diárias, na limpeza do metrô, qualquer coisa, como qualquer outra pessoa doente – Como os alcoólatras, eles precisam de remédio –”
Não me lembro de tudo o que aconteceu exceto pela noite passada tão profética, tão horrível, tão triste e louca – Melhor fazer isso assim, por que ficar valorizando?

Tudo começou quando Bull ficou sem morfina. Estava mal e tomou umas bolas demais (secanol) para compensar a falta de morfina, por isso fica agindo como um bebê, desleixado, como se estivesse senil, não tão ruim quanto na noite em que dormiu em minha cama no telhado porque Tristessa tinha pirado e estava quebrando tudo no quarto dele e batendo nele e caindo de cabeça no chão. Ela tinha comprado as bolas em uma farmácia, Bull não dava mais para ela – As senhorias ansiosas estão gritando na porta, achando que nós a estamos espancando, mas é ela quem está nos dando uma surra –
As coisas que ela me disse, o que ela realmente pensava de mim, agora vieram à tona, um ano mais tarde, um ano tarde demais, e tudo o que eu devia ter feito era contar a ela que eu a amava – Ela me acusou de ser um maconheiro sujo, me expulsou do quarto de Bull, tentou me bater com uma garrafa, tentou pegar minha bolsa de tabaco e ficar com ela, precisei lutar com ela – Bull e eu escondemos a faca de pão embaixo do tapete – Ela fica ali sentada no chão como um bebê idiota, dizendo palavras sem sentido para os objetos – Ela me acusa de tentar fumar maconha tirada da minha bolsa de tabaco mas é apenas fumo Bull Durham para enrolar cigarros porque os cigarros comerciais têm um produto químico neles para mantê-los firmes que prejudicou minhas veias e artérias flebíticas sensíveis –
Então Bull está com medo que ela o mate à noite, não conseguimos tirá-la de lá, antes (há uma semana) ele tinha chamado a polícia e as ambulâncias e nem eles conseguiram tirá-la de lá, México – Então ele vai dormir na cama de meu quarto novo, com lençóis limpos, se esquece que já tomou duas bolas e manda mais duas e aí fica cego, não consegue achar os cigarros, tateia e derruba tudo, mija na cama, derruba o café que levo para ele, eu tenho que dormir no chão de pedra entre percevejos e baratas, eu, mal-humorado, o insulto a noite inteira: “Olhe só o que você fez com minha cama limpinha”.
Não posso evitar – preciso achar outra cápsula – Isto é uma cápsula?” Ele segura um palito de fósforos e acha que é uma cápsula de morfina. “Me dá sua colher” – Ele vai fervê-loe se picar – meu Deus – Ao amanhecer, na hora cinzenta, ele finalmente vai embora para seu quarto aos tropeções. Leva todas as suas coisas, incluindo uma Newsweek que ele nunca poderia ter lido – Derramo as latas de mijo na privada. Está totalmente azul, como o azul de Sir Joshua Reynolds. Penso: “MEU DEUS, ele deve estar morrendo!” mas depois descobri que eram latas de anil – Enquanto isso, Tristessa tinha dormido e estava se sentindo melhor e de alguma forma eles saíram e descolaram suas doses e no dia seguinte ela voltou batendo na janela de Bull, pálida e linda, já não era mais uma feiticeira asteca, pedindo desculpas com ternura –
Ela vai voltar a tomar bola de novo em uma semana”, diz Bull – “Mas eu não vou mais dar para ela” – ele engole uma –
Por que você toma?!” grito.
Porque eu sei como, eu sou viciado há quarenta anos.”
Então chegou a noite fatal –
Eu já tinha arranjado um táxi e uma vez na rua disse a Tristessa que a amo – “Yo te amo” – Sem resposta – Ela mente para Bull e conta a ele que eu fiz a proposta para ela dizendo “Você já dormiu com muitos homens, por que não dormir comigo?” – Eu jamais disse tal coisa, apenas “Yo te amo” – Porque eu a amo – Mas o que fazer com ela – Ela não costumava mentir antes das bolas – Na verdade costumava rezar e ir à igreja –
Desisti de Tristessa e esta tarde, com Bull passando mal, tomamos um táxi para ir até os cortiços encontrar El Indio (O Bastardo Negro como era conhecido em seu ramo), que sempre tem alguma coisa – Sempre foi meu pressentimento secreto que El Indio também ama Tristessa – Ele tem belas filhas crescidas, deita-se em um leito por trás de cortinas finas com a porta escancarada para o mundo, doidão de M, sua mulher mais velha está sentada ansiosa em uma cadeira, os ícones queimam, ocorrem discussões, gemidos, tudo sob os infinitos céus mexicanos – Chegamos até sua casa e a sua velha mulher nos diz que é sua esposa (não sabíamos) e que ele não está então sentamos nos degraus de pedra que davam para aquele terreno maluco cheio de crianças berrando e bêbados e mulheres com roupa para lavar e cascas de bananas, e você devia pensar e esperar aqui – Bull está passando tão mal que precisa ir para casa – Alto, encurvado, o mago quase cadáver ele segue, me deixando bêbado sentado na pedra desenhando as crianças em meu caderninho –
Então surge uma espécie de anfitrião, um homem amistoso e imponente, com um copo cheio de pulque, dois copos, ele insiste que a gente beba de vira-vira, eu topo, bam, para dentro, o suco de cactus escorrendo de nossos lábios, ele me ganha – Mulheres riem Há uma cozinha grande – Ele me traz mais – bebo e desenho as crianças – Ofereço dinheiro pelo pulque, mas ele não aceita – Começa a escurecer no quintal.
Já bebi quase um litro de vinho no caminho até ali, é um de meus dias de beber, tenho andado entediado e triste e perdido – também, por três dias tenho pintado e desenhado a lápis, giz de cera e aquarelas (minha primeira tentativa formal) e estou exausto Fiz um esboço de um artista mexicano pequeno e barbado no teto de sua cabana e ele arrancou o desenho do caderno grande para guardar com ele – bebemos tequila de manhã e fizemos desenhos um do outro – Ele fez uma espécie de esboço de turista de mim, que mostrava como eu era um americano bonito e jovem, não entendo (ele quer que eu compre?) – Eu fiz um terrível rosto negro apocalíptico dele, também seu corpo miúdo retorcido na beira do sofá. Os céus e a posteridade irão julgar toda essa arte, seja lá o que for – Então estou desenhando um menininho em especial que não para quieto e então começo a desenhar a Virgem Madona –
Surgem mais companheiros e eles me convidam para um grande salão onde há uma mesa branca grande coberta com xícaras de pulque e no chão jarros cheios – Impressionantes os rostos ali – Penso “Vou me divertir e enquanto isso estou em frente à porta de El Indio e vou pegá-la para Bull quando ele chegar em casa – E Tristessa vai chegar também – Borracho, secamos xícaras grandes de suco de cactus e há um cantor idoso com violão e seu jovem menino discípulo com lábios sensíveis grossos e a anfitriã grande e gorda que parecia saída da Idade Média de Rabelais e Rembrandt que canta – O líder dessa grande gangue de quinze parece ser Pancho Villa na cabeceira da mesa, o rosto vermelho de barro, perfeitamente redondo e alegre, mas com uma expressão de coruja mexicana, com olhos loucos (acho) e uma camisa vermelha quadriculada muito legal e como sempre em uma felicidade extática – Mas ao lado dele há outros mais sinistros, espécie de tenentes, olho para eles do outro lado da mesa direto nos olhos levanto um brinde e chego a perguntar “Que és la vida? O que é a vida?” – (para mostrar como sou esperto e filosófico) – Enquanto isso um homem de terno e chapéu azuis parece o mais amistoso, ele me conduz até o banheiro para um papo legal enquanto mijamos Ele tranca a porta – Seus olhos estão muito afundados em órbitas gorduchas e marcadas estilo W.C. Fields – órbitas é uma palavra tão limpa – mas um par perverso de olhos engraçados, também um hipnotizador, eu fico olhando fixamente para ele, continuo a gostar dele – Gosto tanto dele que quando ele pega minha carteira e conta meu dinheiro eu rio, finjo que tento pegá-la de volta, ele para de contar – Outros estão tentando entrar no banheiro – “Isso é o México!” diz ele. “Se a gente quiser, a gente fica aqui” – Quando ele me devolve a carteira vejo que meu dinheiro ainda está lá dentro mas juro pela Bíblia, por Deus, por Buda por qualquer coisa supostamente sagrada, que na vida real não havia mais dinheiro naquele carteira (carteira, scharteira, apenas um pedaço dobrado de couro para guardar cheques de viagem) – Ele me deixa alguma grana porque mais tarde dou vinte pesos a um sujeito grande e gordo e peço a ele para descolar um pouco de maconha para o grupo todo – Ele também insiste em me levar ao banheiro para confabulações sinceras, de alguma maneira meus óculos escuros desaparecem –
No fim Chapéu Azul na frente de todo mundo simplesmente arranca meu caderno de dentro de meu casaco (de Bull), como se fosse uma piada, com o lápis e tudo, e o guarda em seu próprio paletó e olha para mim, pervertido e divertido – Na verdade não consigo evitar rir, mas então digo “Vamos lá, vamos, me devolva meus poemas” e tento meter a mão em seu paletó e ele se esquiva, e tento outra vez e ele não deixa Viro-me para o homem de aparência mais distinta ali, na verdade, o único, que está sentado ao meu lado, “Você assume a responsabilidade de conseguir meus poemas de volta?”
Ele diz que sim, sem compreender o que estou dizendo, mas eu, bêbado, suponho que ele concorda – Enquanto isso em um deslumbramento cego de êxtase jogo cinquenta pesos no chão para provar algo mais tarde jogo dois pesos no chão dizendo “É pela música” – Eles acabam dando aquilo para os dois músicos mas estou orgulhoso demais em busca de reconsideração para começar a procurar meus cinquenta pesos também, mas você vai ver que este é apenas um caso de querer ser roubado, uma espécie de exultação estranha e de poder de bêbado, “Não ligo para dinheiro, sou o rei do mundo”, eu mesmo vou liderar suas revoluçõezinhas” – Comecei a executar isso fazendo amizade com Pancho Villa, e meu irmão ouve muito bater de copos e vira-vira e abraços, e música – E a essa hora estou idiota demais para conferir minha carteira, mas não sobrou um centavo Enquanto isso fico muito orgulhoso em demonstrar o quanto aprecio a música, chego a batucar na mesa – No fim saio com o rapaz gordo para conversar no banheiro e quando estamos a caminho surge nos degraus uma mulher estranha, pálida e fantasmagórica, lenta, majestosa, nem jovem nem velha, não consigo evitar olhar para ela e mesmo quando percebo que é Tristessa continuo a olhar admirado para essa mulher estranha e parece que ela chegou para me salvar mas ela só chegou para arranjar uma dose com El Indio (que, por falar nisso, agora, segundo o próprio, tinha ido encontrar Bull a três quilômetros de distância) deixo o bando alegre de ladrões e sigo meu amor.
Ela está usando um vestido comprido sujo e um xale e seu rosto está pálido, com olheiras, aquele nariz fino patrício levemente adunco, os lábios luxuriantes, aqueles olhos tristes – e a música de sua voz, o lamento de sua canção, quando ela fala com os outros em espanhol…
[…]

Jack Kerouac, in Tristessa

16/04/2024

Parte Dois | Um ano mais tarde...

Nunca é suave o chuviscar que não perturbou a calma – Não contei a ela que a amava mas quando fui embora do México comecei a pensar nela e então e comecei a dizer a ela que a amava em cartas, e quase fiz, e ela escreveu, também, belas cartas em espanhol, dizendo que eu era doce, e por favor, volte logo Voltei correndo tarde demais, eu devia ter voltado na primavera, quase voltei, não tinha grana, só cheguei até a fronteira do México e senti aquela ânsia de vômito do México – segui para a Califórnia e vivi em um barraco com jovens visitantes tipo monge budista todos os dias e segui para o norte até Desolation Peak e passei um verão rústico na natureza, comia e dormia sozinho – disse, “Logo vou voltar para os braços quentes de Tristessa” – mas esperei tempo demais.
Oh, Senhor, por que fizeste isso com teus próprios anjos, essa vida malograda, essa cena maltrapilha argh cheia de vômito e ladrões e morte? – não poderias ter-nos posto em um paraíso desolador onde tudo fosse alegre a qualquer preço? – És masoquista, Senhor, és o Doador Índio, és aquele que Odeia?
Estava finalmente de volta ao quarto de Bull depois de uma viagem de seis mil quilômetros desde o pico da montanha perto do Canadá, uma viagem por si só terrível o suficiente, não merece mais discussões – e ele saiu e a buscou.
Ele já havia me avisado: “Não sei qual o problema com ela, ela mudou nas últimas duas semanas, mesmo na semana passada –”
É por que ela sabia que eu estava para chegar?” pensei sombriamente –
Ela tem uns acessos e joga xícaras de café na minha cabeça e perde meu dinheiro e cai pela rua –” “Qual o problema com ela?”
Bolas. Tranquilizantes. – Disse a ela para não tomar demais – Você sabe como só um viciado velho, com muitos anos de experiência, sabe lidar com pílulas para dormir – ela não escuta, ela não sabe usar direito, toma três, quatro, às vezes cinco, uma vez, doze, não é mais a mesma Tristessa – O que quero fazer é casar com ela e conseguir minha cidadania, sabe. Você acha uma boa ideia? – Afinal de contas, ela é minha vida, sou a vida dela” –
Percebi que Old Bull tinha se apaixonado – por uma mulher que não se chamava Morfina.
Eu nunca a toco – é só um casamento de conveniência – você sabe o que estou falando – Eu não consigo descolar as paradas sozinho no mercado negro, eu não sei como, preciso dela e ela precisa do meu dinheiro.
Bull recebia US$ 150 por mês de um fundo de pensão feito por seu pai antes de morrer – seu pai o amara, e eu sabia por que, pois Bull é uma pessoa doce e terna, apesar de ter um pouquinho de presidiário, por anos em Nova York ele sustentou seu vício roubando uns US$ 30 por dia, durante vinte anos – Foi preso algumas vezes quando eles o pegavam com a mercadoria errada – na cadeia, ele era sempre o bibliotecário, é um grande erudito, de muitas maneiras. Com um interesse maravilhoso por história e antropologia e tudo relacionado com a poesia simbolista francesa, acima de tudo Mallarmé – Não estou falando do outro Bull4, que é o grande escritor que escreveu Junkey – Este é outro Bull, mais velho, quase sessenta, escrevi poemas em seu quarto durante todo o verão passado quando Tristessa era minha, minha, e eu não a tomava – Tinha alguma noção ascética ou celibatária idiota de que eu não devia tocar em uma mulher – Meu toque poderia tê-la salvo – Agora tarde demais –
Ele a traz para casa e logo vejo que há algo errado – Ela chega e entra cambaleante de braços com ele e dá um sorriso leve (graças a Deus por isso) e estende os braços rigidamente, não sei o que fazer e seguro seus braços no ar, “Qual o problema com Tristessa, ela está doente?”
Ela ficou o mês passado inteiro com uma perna paralisada e seus braços ficaram cobertos de cistos. Olha, no mês passado, ela foi uma garota muito doente.”
Qual o problema com ela agora?”
Psst – deixe ela sentar” –
Tristessa está me segurando e aos poucos aproxima seu lindo rosto moreno do meu, com um sorriso precioso, e finjo quase deliberadamente ser o americano confuso –
Olhe, eu ainda vou salvá-la –

Jack Kerouac, in Tristessa

09/04/2024

Parte Um | Trêmulo e casto


[...]

Fico olhando para Tristessa, ela veio me visitar em meu quarto, ela não quer sentar, fica em pé, falando – à luz da vela está animada e ansiosa e bela e radiante – Eu me sento na cama e olho para o chão de pedra enquanto ela fala – Nem sequer escuto o que ela diz, sobre droga, Old Bull, como está cansada – “Tenho que fazer issu amanhan – AMANHAN –” Ela me cutuca com a mão para enfatizar, até que eu diga “E, é, isso mesmo”, e ela continua com sua história, que eu não entendo – Simplesmente não posso olhar para ela por medo dos meus pensamentos – Mas ela cuida de tudo isso para mim, ela diz “É, é doloroso” – Eu digo “La Vida es dolor” (a vida é dor), ela concorda, diz que a vida também é amor”. “Quando você tem um milhão de pesos eu não me importo quantos, não importam” – diz ela, apontando para minha parafernália de escritos com capa de couro e envelopes da Sears Roebuck com selos e envelopes de cartas dentro – como se eu tivesse um milhão de pesos escondidos na hora no meu chão – “Um milhão de pesos não importam – mas quando você tem o amigo, o amigo dá isso pra você na cama”, diz ela, as pernas um pouco afastadas, movendo os quadris no ar na direção de minha cama para mostrar como um ser humano é melhor do que um milhão de pesos de papel – Penso na doçura inexplicável de receber essa amizade sagrada do corpo doente sacrificial de Tristessa e quase sinto vontade de chorar ou de agarrá-la e beijá-la – Sou assomado por uma onda de solidão, que me recorda amores passados e corpos em camas e a ondulação irresistível quando você entra em sua profundeza adorada e todo o mundo vai com você – Apesar de sabermos que Maia a Tentadora é má, seus campos de tentação são inocentes – Como Tristessa, ao despertar paixão em mim, pode ter algo a ver, exceto como um campo de batalha ou como uma simplória inocente ou uma testemunha material de minha luxúria assassina, como ela pode ser culpada e como pode ser mais doce do que ali de pé me explicando meu amor diretamente com a pantomima de suas coxas. Ela está doidona, fica mexendo na lapela de seu quimono (por baixo aparece a combinação) e tenta prender o imprendível a um botão inexistente do casaco. Olho no fundo de seus olhos, querendo dizer “Você seria minha amiga desse jeito?” e ela olha direto para mim em poços de nem isso nem aquilo, sua combinação de relutância em romper com as conveniências de sua repugnância pessoal que encontra ainda por cima abrigo na Virgem Maria, e seu amor de me deseje sorte, a torna tão misteriosa quanto Tathagatha cuja forma é descrita como inexistente, mais inescrutável que o lugar para onde vai todo o fogo que é apagado. Não consigo um sim ou um não de seus olhos no tempo que dedico a eles. Muito nervoso, eu me sento, levanto, sento, ela continua de pé explicando outras coisas. Estou impressionado com a maneira como a pele dela se enruga para fazer um O com tanta delicadeza abaixo de seu nariz em linhas ainda mais nítidas, e seu risinho de prazer que surge tão raramente, com um jeitinho de menininha, uma criança alegre. – Será meu pecado se eu passar uma cantada nela.

Quero tomá-la com as duas mãos pela cintura e puxá-la devagar para perto com poucas palavras bem escolhidas de ternura súbita como “Mi gloria angela” ou “Mi qualquer coisa” mas não tenho linguagem para encobrir meu embaraço – Pior de tudo seria com que ela me empurrasse para o lado e dissesse “No, no, no”, como os heróis de bigodes desapontados dos filmes franceses sendo dispensados pela esposa loura do guarda-freios, perto de uma cerca, com fumaça, à meia-noite, nos pátios das ferrovias francesas, e eu viro o rosto de amante em dor e peço desculpas – movendo-me dali com a sensação de que tenho um rasgo bestial em mim que eu não havia percebido, conceitos comuns a todos os jovens apaixonados e velhos também. Não quero deixar Tristessa desgostosa – Eu ficaria horrorizado de incomodar seus segredos ternos de pétalas arruinadas de carne e em saber que acorda de manhã aninhada contra as costas de algum homem indesejado que ama à noite e depois dorme, e acorda berrando antes de se barbear e sua própria presença causa consternação onde antes havia a pureza perfeita e absoluta de ninguém.
Mas o que perdi quando não recebi aquele mergulho amigo do corpo do amante, que vem direto para mim, todo meu, mas era um matadouro por carne e tudo o que você faz está destinado a provocar estragos em uma meninice em que algo terá de ceder. – Quando Tristessa tinha doze anos, velhos pretendentes torceram seu braço sob o sol em frente à porta da cozinha da mãe – Já vi isso um milhão de vezes, no México os rapazes querem as garotas – Sua taxa de natalidade é fantástica – Eles os produzem gemendo e morrendo às toneladas douradas em tonéis parecidos com barris de vinho no Velho Berço de Tóquio. Eu agora perdi o fio de meu pensamento –
É, as coxas de Tristessa e a carne dourada, todos meus, o que eu sou, um homem das cavernas? Sou um homem das cavernas.
Um homem das cavernas enterrado fundo no chão. Apenas a coroa de sua boca na face pulsante, e minha lembrança de seus olhos esplêndidos, como se estivesse sentada em um camarote a adorável última moda na França e começa a orquestra barulhenta e eu me viro para o Monsieur ao meu lado e sussurro “Ela é splendide, non?” – Com uísque Johnny Walker no bolso do paletó do meu smoking.
Eu me levanto. Preciso vê-la.

A pobre Tristessa está ali oscilante enquanto explica todos os seus problemas, como não tem dinheiro suficiente, ela está passando mal, vai continuar a passar mal de manhã e eu percebi em seu olhar o gesto de uma sombra de aceitação da ideia de mim como seu amante – A única vez em que vi Tristessa chorar foi quando ela estava em um bode terrível na beira da cama de Old Bull, como a mulher no último banco de uma igreja na novena diária ela esfrega os olhos Ela aponta para o céu outra vez, “Se meu amigo não me pagar”, diz olhando direto para mim, “meu Senhor me paga – mais” e eu sinto o espírito adentrar no quarto enquanto ela está ali de pé, esperando com o dedo apontado para cima, sobre as pernas afastadas, confiante, pois seu Senhor irá pagá-la – “Entaun eu doo todo o que tenho pro meu amigo e si ele naun me pagar” – ela dá de ombros – “Meu Senhor me paga” – está alerta outra vez – “Mais” e conforme o espírito flutua ali pelo quarto eu percebo todo o horror lúgubre daquilo (sua recompensa é tão pequena) agora vejo irradiar da coroa de sua cabeça mãos incontáveis que chegaram de todos os dez cantos do Universo para abençoá-la e declará-la Bodhisat por dizer e conhecer tão bem.
Sua iluminação é perfeita – “E não somos nada, você e eu”, – ela cutuca meu peito, “Jew-Jew” (jeito mexicano de dizer “You”) “e eu” – apontando para si mesma – “Não somos nada. Podemos morrer amanhan, por isso não somos nada –” Concordo com ela, sinto a estranheza dessa verdade, sinto que somos duas almas vazias de luz, ou como fantasmas em velhas histórias de casa assombrada, diáfanos, preciosos e brancos e ausentes – Ela diz “Eu sei que você quer dormir”:
Não não”, digo ao ver que ela quer ir embora.
Eu preciso de ir dormir, dimanhan cedu vou ver o cara e descolar a morfina e voltu pra encontrar o Old Bool” – e como somos nada, nada, esqueço o que ela disse sobre amigos completamente perdidos na beleza de sua estranha imaginação inteligente, tudo absolutamente verdadeiro – Ela é um anjo, penso em segredo, e a acompanho até a porta com os braços em movimento enquanto ela se inclina na direção da porta e fala enquanto vai embora – Tomamos cuidado para não tocar um no outro – Eu estremeço, certa vez pulei um quilômetro quando seu dedo tocou meu joelho em conversas, sentados em cadeiras – na primeira tarde em que eu a vira de óculos escuros, na janela banhada pelo sol da tarde, perto da luz de uma vela acesa pelo barato, os baratos perversos da vida, fumegante, como a dona, a donzela de Las Vegas, ou a Heroína Revolucionária do México de Marlon Brando Zapata – com heróis de Culiacan e tudo mais – Foi então que ela me pegou – No espaço dourado da tarde a aparência, a beleza pura, como seda, as crianças rindo, eu enrubescido, na casa do cara onde descobrimos Tristessa pela primeira vez e começamos tudo isso – Sympaticus Tristessa com seu coração de portão dourado, que eu no início achava que era uma encantadora do mal – Eu tinha esbarrado com uma santa no México Moderno e aqui estava eu fantasiando sonhos e mais sonhos sobre ordens predeterminadas por nada e traições necessárias – a traição do velho pai quando usa uma artimanha para seduzir os três moleques enlouquecidos que brincam e gritam na casa em chamas “Vou dar para cada um de vocês seu carrinho favorito”, eles saem correndo atrás dos carrinhos, e ele lhes dá o Grande Carrinho Incomparável e Elevado Veículo de um Único Novilho Branco que eles são jovens demais para apreciar com aquele comando do Grandecarro, ele me fizera uma oferta – Olho para a perna de Tristessa e resolvo evitar a questão de destino e descanso além do paraíso.
Faço brincadeiras com seus olhos fabulosos e ela quer estar em um mosteiro.

Deixe Tristessa em paz” digo, de qualquer jeito, como se dissesse “Deixa o gato em paz, não o machuque” e abro a porta para ela, para podermos sair, à meia-noite, de meu quarto – Levo na mão, aos tropeções estranhos, uma grande lanterna de guarda–freios para iluminar seus passos quando descemos os degraus perigosos, é desnecessário dizer, ela quase tinha caído quando subiu, ela gemeu, reclamou enquanto subia, ela sorriu e desceu com passinhos miúdos e a mão na saia, com aquela lentidão linda e majestosa de mulher, como uma ninfeia chinesa.
Não somos nada.” “Podemos morrer amanhã.” “Não somos nada.”
Você e eu.”
Eu acompanho-a educadamente com a lanterna até a rua, onde chamo um táxi branco para levá-la para casa.
Desde tempos imemoriais e adentrando o futuro sem fim, os homens amaram mulheres sem dizer a elas, e o senhor os amou sem dizer, e o vazio não é o vazio porque não há nada para ser esvaziado.
Estás aí, Senhor estrela? – Suave é o chuviscar que perturbou minha calma.

Jack Kerouac, in Tristessa

26/03/2024

Parte Um | Trêmulo e casto


[...]
Ele me deixa sair, mas só depois de resmungar e falar atabalhoadamente até conseguir sair da cama – segurando os pijamas e o roupão de banho, encolhendo a barriga onde ela dói, onde algum tipo de hérnia escondida o incomoda – pobre sujeito doente, quase sessenta anos de idade e segurando a onda de suas doenças sem incomodar ninguém – nascido em Cincinatti, crescido nos Barcos a Vapor do Rio Vermelho. (Perna vermelha?3 Suas pernas brancas como neve) –

Vejo que a chuva parou e estou com sede e bebi duas xícaras de água de Old Bull (fervida, e guardada em uma jarra) – atravesso a rua em meus sapatos molhados e compro uma Spur-Cola bem gelada e a bebo a caminho do meu quarto – Os céus estão se abrindo, talvez faça sol à tarde, o dia está quase fantástico e atlântico, como um dia no mar, em frente à costa de Firth na Escócia – E brado bandeiras imperiais em meus pensamentos e subo correndo os dois lances de escada até meu quarto, o último lance, um esqueleto de metal em ruínas que range e range em seus pregos, cheio de areia, chego no chão de adobe do telhado, o Tejado, e caminho por pequenas poças escorregadias perto do parapeito do pátio aberto com só meio metro de altura então você pode facilmente cair três andares e rachar o crânio no chão de lajotas vermelhas onde americanos rangem os dentes e discutem às vezes em festas barulhentas na madrugada, no lusco-fusco do amanhecer – Eu podia cair, Old Bull quase caiu quando morou um mês no telhado, as crianças sentam sobre a pedra confortável do parapeito de meio metro de altura e conversam e brincam, o dia inteiro correndo em volta daquela coisa e escorregando, e nunca gosto de olhar – Chego ao meu quarto depois de duas curvas do Buraco e destranco meu cadeado que está pendurado em pregos enferrujados meio soltos (uma vez saí e deixei o quarto aberto o dia inteiro) – Entro e bato a porta de madeira úmida com a chuva e a chuva amoleceu a madeira e a porta mal se ajusta no alto – Visto minhas calças secas de vagabundo e duas camisas de vagabundo grandes e vou para a cama com meias grossas e termino com a parada e a deixo sobre a mesa e digo: “Ah”, e esfrego minha boca e olho por um instante para os buracos em minha porta que mostram o céu da manhã de domingo lá fora e escuto sinos de igreja lá na alameda Orizaba e as pessoas estão indo para a igreja e vou dormir, compenso isso depois, boa-noite.

‘‘Abençoado Senhor, Tu que amas toda a vida sensível.”
Por que tenho de pecar e fazer o sinal-da-cruz?
Nem um dentre o vasto acúmulo de conceitos, de tempos imemoriais ao presente e até o futuro infinito, nenhum deles é atingível.”
É a velha questão de “Sim, a vida não é real” mas você vê uma mulher bonita ou algo que não consegue parar de desejar porque está ali na sua frente – Essa mulher bonita de 28 anos em pé à minha frente com seu corpo frágil (“Eu vos ponho em meu pescoço [um peitilho] para que ninguém olhe e veja meu belo corpo,” ela não se considera bonita) e aquele rosto tão expressivo, de dor e beleza que sem dúvida ajuda na construção deste mundo fatal – um belo alvorecer, que faz você parar nas areias e olhar para o mar ouvindo em seus pensamentos a Música do Fogo Mágico de Wagner – a fisionomia frágil e santificada da pobre Tristessa, a bravura trêmula de seu corpinho consumido pela droga que um homem podia jogar três metros para o alto – o fardo da morte e da beleza – uma Forma inteiramente pura diante de mim, todos os abalos e torturas da beleza sexual, os seios, que afloram no corpo, toda aquela carne de mulher boa de abraçar, algumas delas de um metro e oitenta de altura, e dormir sobre suas barrigas à noite como um cochilo em uma margem onírica de mulher – Como Goethe aos oitenta, você conhece a futilidade do amor e dá de ombros – Você dá de ombros para o beijo quente, a língua e os lábios, o puxão na cinturinha fina, toda aquela coisa quente e flutuante contra você, abraçando apertado – a mulherzinha – pois os rios correm e os homens caem das escadas – Os dedos magros marrons e frios de Tristessa, lentos e despreocupados e preguiçosos, como o encontro dos lábios A Noite Espanhola de Tristessa de seu profundo buraco do amor, as touradas em seus sonhos com você, a rosa preguiçosa e molhada contra a face lânguida E toda a beleza concomitante de uma mulher linda que um homem jovem em um país distante devia desejar satisfazer – Eu estava viajando em círculos na América do Norte em meio a uma tragédia sombria.
[...]

Jack Kerouac, in Tristessa

06/03/2024

Tristessa | Parte Um

 


Trêmulo e casto

[…]

Chego na maravilhosa Orizaba Street (depois de cruzar grandes parques enlameados perto do Cine México e a rua de bondes lúgubre nomeada em homenagem ao lúgubre general Obregon na noite chuvosa, com rosas no cabelos de sua mãe) – A Orizaba Street tem uma fonte e um lago magníficos em um parque verdejante. A rua faz um círculo em torno deles na forma residencial esplêndida de pedra e vidro e grades antigas e volutas intrincadas de uma majestade adorável que quando são olhadas pela lua se misturam com os mágicos jardins espanhóis interiores de uma arquitetura (se é arquitetura o que deseja) projetada para noites adoráveis em casa. Andaluza na intenção.
A fonte não está jorrando água às duas horas da manhã, como se devesse fazê-la, embaixo de chuva, e eu andando por ali, sentado em um carrinho sobre trilhos, e passando sobre desvios cor-de-rosa nos subterrâneos da terra como os tiras na ruazinha de putas a 35 quadras atrás e lá perto do centro –
É a noite chuvosa lúgubre que me alcançou – a água escorre de meus cabelos, meus sapatos estão encharcados – mas estou com meu blusão, e ele está empapado pelo lado de fora – mas ele é repelente de chuva – “Por que eu o comprei em Richmond Bank” mais tarde conto extravagâncias sobre ele, em um sonho de criança pequena. – Corro para casa, passo pela padaria onde, às duas da manhã, eles já não fazem mais donuts da madrugada, tranças tiradas de fornos e meladas de xarope e vendidas a você através de uma janela por dois centavos cada, e eu costumava comprar cestos delas em meus dias mais jovens – agora está fechada, a noite chuvosa da Cidade do México do presente não contém rosas e nem donuts quentinhos e frescos e ela é triste e fria. Atravesso a última rua, reduzo o ritmo e relaxo, expirando e tropeçando em meus músculos, agora entro, morte ou não morte, e durmo o sono doce dos anjos brancos.
Mas minha porta está trancada, a minha porta da rua, não tenho a chave dela, todas as luzes estão apagadas, fico ali de pé pingando na chuva sem lugar para me secar e durmo – Vejo uma luz na janela do Velho Bull Gaines e vou até lá e olho surpreso para dentro, vejo só sua cortina dourada, e me dou conta “Se não posso entrar na minha própria casa então vou bater na janela de Bull e dormir na poltrona dele”. O que faço. Bato e ele surge de dentro daquele estabelecimento escuro de cerca de vinte pessoas em seu roupão de banho e anda pelo pedacinho de chuva entre o prédio e a porta – chega e abre a porta de ferro. Entro atrás dele – “Não posso ir para minha casa” digo – Ele quer saber o que Tristessa disse sobre amanhã, quando eles conseguirem mais drogas no Mercado negro, o Mercado Vermelho, o Mercado índio – Então está tudo certo com Old Bull e eu durmo e fico no quarto dele – “Até abrirem a porta da rua às oito horas da manhã”, acrescento, e de repente resolvo me enroscar no chão com uma coberta fina, que, assim que me cubro parece um leito macio de lã e fico ali deitado divino, as pernas muito cansadas e as roupas parcialmente molhadas (estou enrolado no grande roupão atoalhado de Old Bull como um fantasma em um banho turco) e toda a jornada na chuva está terminada, tudo o que tenho a fazer é ficar ali deitado no chão sonhando. Eu me enrosco e começo a dormir. No meio da noite, agora, com a lampadazinha amarela acesa, e a chuva caindo com força lá fora, Old Bull Gaines está com as persianas fechadas e fuma um cigarro atrás do outro e não consigo respirar no quarto e ele está tossindo. “Hã-hã!” a tosse seca de viciado, como um protesto, de nariz comprido, de uma beleza estranha e cabelos grisalhos e magro e elegante no seu jeito negligente de pedir uma dose (“estudante de almas e cidades” ele chama a si mesmo) decapitado e bombardeado pela força da morfina – Mas ainda assim com toda a coragem do mundo. Ele começa a comer um doce. Fico ali acordando e percebendo que Old Bull está comendo doce ruidosamente à noite Todos os lados de seu sonho – Incomodado, olho ansiosamente ao redor e o vejo cumendu e mastigandu doci atrás de doci, que coisa absurda de se fazer às quatro da manhã na cama – Então, às quatro e meia, ele está de pé e ferve umas cápsulas de morfina em uma colher – você o vê, depois que a droga é sugada para dentro e empurrada para fora da seringa, com uma língua grande e satisfeita lambendo para que ele consiga cuspir no fundo enegrecido da colher e ele a esfrega com um pedaço de papel até limpar e deixa-la prateada, usando, para polir de verdade a colher, um pouquinho de cinza – E ele se recosta, começando a sentir, leva dez minutos, um estrondo muscular – por cerca de uns vinte minutos ele pode se sentir muito bem – se não, lá está ele remexendo em sua gaveta e me acordando de novo, está procurando suas bolas – “para ele conseguir dormir”.
Para eu conseguir dormir. Mas não. Imediatamente ele quer outra dose de alguma coisa, ele levanta e abre sua gaveta e tira um vidro de pílulas de codeína e conta dez delas e as toma, empurradas com um gole de café frio de sua xícara velha que está em cima da cadeira ao lado da cama – e ele resiste à noite, com a luz acesa, e acende mais cigarros – Em algum momento perto do amanhecer ele pega no sono Eu me levanto após algumas reflexões às 9h ou 8h ou 7h e logo visto minhas roupas molhadas para correr lá para cima para minha cama quente e roupas secas – Old Bull está dormindo, ele finalmente conseguiu, Nirvana, está roncando e está apagado, odeio acordá-lo mas ele terá de se trancar por dentro, com a tranca e a fechadura – está nublado lá fora, a chuva finalmente parou depois de uma pancada mais pesada ao amanhecer. 40.000 famílias ficaram desabrigadas com a enchente na parte noroeste da cidade do México por causa daquela tempestade. Old Bull, longe das enchentes e tempestades com suas agulhas e seus pós ao lado da cama e algodões e seringas e toda a parafernália – “Quando você tem morfina, você não precisa de mais nada, meu caro”, ele me diz durante o dia, todo penteado e doidão, sentado em sua poltrona com alguns papéis, o retrato do contentamento saudável – “Eu a chamo de Madame Papoula. Quando você tem ópio, você tem tudo do que precisa. – Todo aquele O delicioso corre por suas veias e você tem vontade de cantar Aleluia!” E ele ri. “Se eu tiver que escolher entre a Grace Kelly e a morfina, fico com a morfina.”
‘‘A Ava Gardner também?”
‘‘A Ava Gvavna e todas as gostosas em todos os países até agora – se eu puder ter minha M da manhã e minha M da tarde e minha M da noite antes de ir para a cama, não preciso nem saber que horas são no Relógio da Prefeitura...” Ele me conta tudo isso e ainda mais, balançando a cabeça com vigor e sinceridade. Seu queixo estremece de emoção. Porque, pelamordedeus, se eu não tivesse droga eu ia me entediar até a morte, ia morrer de tédio”, reclama ele, quase chorando – “Leio Rimbaud e Verlaine, sei do que estou falando – A droga é a única coisa que quero – Você nunca sentiu a dor de sua falta, não sabe como é – Cara, quando você acorda de manhã passando mal e toma uma boa dose, cara, isso é gostoso. Posso ver a mim e a Tristessa acordando em nosso louco leito nupcial de cobertores e cães e gatos e canários e manchas de porra no lençol e pelados de corpos colados (sob os olhos gentis da Pomba) ela me aplica ou eu me aplico em uma grande dose de veneno colorido direto na carne de seu braço e para dentro de seu sistema que instantaneamente proclama ser seu na solução você sente a fraqueza cair sobre o seu corpo, se sente doente – mas nunca senti a dor da falta da droga, não conheço o horror dessa doença – Uma história que Old Bull poderia contar muito melhor do que eu –
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Jack Kerouac, in Tristessa

15/02/2024

Parte Um | Trêmulo e casto


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Quando você não tem mais números no Nirvana então não vai mais haver algo como “inumerável” mas as multidões na San Juan Letran pareciam inumeráveis – Eu falo “Conte todos esses sofrimentos daqui até o fim do céu infinito que não é céu e veja quantos você pode somar para fazer um número que impressione o Chefe das Almas Mortas na Fábrica de Carne na cidade Cidade CIDADE todos eles sofrendo e nascidos para morrer, meditando nas ruas às duas da manhã sob aqueles céus imponderáveis” – sua infinitude enorme, a vastidão do platô mexicano distante da Lua vivendo mas para morrer, sua canção triste que às vezes escuto no meu telhado no bairro de Tejado, minha cela no telhado, com velas, à espera do meu Nirvana ou de minha Tristessa – nenhum chega, ao meio-dia ouço “La Paloma” tocada em rádios mentais nos vãos entre as janelas dos cortiços – o menino maluco da porta ao lado canta, o sonho está acontecendo agora mesmo, a música é tão triste, as trompas pulsam, os violinos lamentando-se altos e o bracataca-tracacaca do apregoador Hispano Índio. Vivendo mas para morrer, esperamos aqui nesta prateleira, e lá em cima no céu está todo aquele caramelo de ouro aberto, abra minha porta – o céu é o Sutra de Diamante.
Eu sigo avançando bêbado e insensível, com os pés dando chutes acima da camada de óleo vegetal Tehuantepec sobre a calçada, calçadas verdes, cheias de vermes da escória invisíveis quando não estão doidões – mulheres mortas escondidas em meu cabelo, passando por baixo do sanduíche e da cadeira – “Você está maluco!” grito em inglês para as multidões “Vocês não sabem que diabos estão fazendo nesta torre de sino com a corda que balança ao movimento do titereiro de Magadha, Mara, a Tentadora, insana... E você todo águia e caça e compra – Você meio bêbado e se surpreende e mente – Seus pobres camaradas protetores escorrendo por entre o desfile suculento de Sua Noite na Rua Principal e você não sabe que o Senhor organizou tudo à vista. Incluindo sua morte. E nada está acontecendo. Não sou eu, você não é você, os inumeráveis eles não são eles, e Um Eu Incontável não existe tal coisa.”
Rezo aos pés do homem, à espera, como eles.
Como eles? Como homem? Como ele? Não existe Ele. Há apenas a palavra divina indizível. Que não é uma Palavra, mas um Mistério. Na raiz do Mistério a separação de um mundo do outro por uma espada de luz. –
Os vencedores do jogo de beisebol desta noite ao ar livre enevoado perto de Tacabatabavac estão comemorando ruidosamente na rua balançando seus tacos de beisebol para a multidão mostrando como podem rebater bem e a multidão caminha por lá despreocupada porque são crianças não delinquentes juvenis. Eles puxam a aba dos bonés de beisebol para baixo, sobre seus rostos, quando começa a chuviscar, tamborilando com suas luvas eles se perguntam “Será que fiz uma jogada ruim na quinta entrada? Será que não correspondi às expectativas na sétima entrada?”

No fim de San Juan Letran há aquela última série de bares que termina em uma névoa arruinada, terrenos cobertos de adobe quebrado, sem vagabundos escondidos, só mato, sujeira, e a umidade de esgotos e charcos, valas de metro e meio de profundidade nas ruas com o fundo cheio de água – cortiços poeirentos contra a luz da cidade próxima – Olho para as derradeiras portas de bar tristes, onde há lampejos de mulheres, traseiros enfeitados com fitas douradas reluzentes vejo e sinto chegar voando como um passarinho em voo serpenteia. Há crianças na porta em roupas ridículas, a banda emite um cha-cha-cha lamentoso lá dentro, todos balançam os joelhos enquanto dançam e uivam com a música enlouquecida, todo o clube está dançando, se acabando, um negro americano que estivesse andando comigo poderia dizer “Esses caras estão viajando com alguma coisa muito doida, estão se divertindo o tempo todo, eles gemem, gastam todo o tempo batendo e batendo por esse pão, por essa garota, eles estão em pé diante das portas, cara, todos lamentando – sabia? Eles não sabem quando parar. É como Omar Khayan, eu me pergunto se o que os taberneiros compram é pelo menos a metade precioso do que eles que vendem.” (Meu garoto Al Damlette.)

Eu desligo nesses últimos bares e começa a chover forte de verdade e ando o mais rápido possível e entro em uma poça grande e saio dela em um pulo todo molhado e pulo pra dentro outra vez e a atravesso – A morfina evita que eu me sinta molhado, minha pele e meus membros estão dormentes – como uma criança quando sai para patinar no inverno, que cai através do gelo, corre para casa com os patins embaixo do braço para não pegar um resfriado, eu continuo a abrir caminho por entre a chuva Pan Americana e acima ouço o rugido gigantesco de um avião da Pan American chegando para aterrissar no Aeroporto da Cidade do México com passageiros vindos de Nova York em busca de encontrar a outra ponta dos sonhos. Olho para cima no meio da chuva e vejo suas caudas soltarem fogo – você não vai me ver aterrissando sobre grandes cidades e tudo o que faço é agarrar o lado do banco e sacudo conforme o piloto nos conduz com habilidade para dentro de um acidente, uma colisão flamejante contra a lateral de armazéns no bairro dos cortiços da Velha Cidade dos índios – o quê? Com todos eles rá tá tá com revólveres nos bolsos abrindo caminho por entre meus ossos brumosos à procura de algo feito de ouro, e então os ratos roem você.
Eu prefiro caminhar do que andar de avião, posso cair de cara no chão e morrer assim. – Com uma melancia embaixo do braço. Mira.

Jack Kerouac, in Tristessa

22/12/2023

Parte Um | Trêmulo e casto


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PRECISO DA EXPLICAÇÃO brilhante da clareza de cristal de todos os Mundos para mostrar que ficaremos todos bem – A medida de máquinas robôs dessa vez é um tanto irrelevante, talvez todas as vezes – O fato de Cruz cozinhar em um fogão de querosene fumarento grandes caçarolas cheias de carne, carne-geral de um novilho inteiro, pedaços de vitela, pedaços de tripa de vitela e miolos de novilho e ossos de testa de novilho... isso jamais mandaria Cruz para o inferno porque ninguém disse a ela para parar a chacina, e mesmo se alguém tivesse feito isso, Cristo ou Buda ou Ó Santificado Maomé, ela ainda estaria segura contra qualquer mal – apesar de, para Deus, o novilho, não –
O gatinho mia apressado por carne – ele mesmo um pedaço de carne agitado – espírito devora espírito no vazio geral.

PARA DE RECLAMAR!” grito para o gato quando ele corre pelo chão e, finalmente, pula e se junta a nós na cama – A galinha está esfregando seu corpo longo e emplumado gentilmente, de maneira imperceptível, contra a ponta de meu sapato e eu mal posso sentir e olhar a tempo de reconhecer, que toque gentil de Mão Maia – Ela é a Galinha Poedeira mágica sem origem, a galinha sem limites com a cabeça cortada – O gato mia com tamanha violência que eu começo a me preocupar pela galinha, mas não, o gato está apenas meditando agora em silêncio sobre um pedaço de cheiro no chão, e faço o coitadinho vibrar, um ronronar nos ombros magros e grudentos com a ponta de meu dedo – Hora de ir embora, já afaguei o gato, me despedi de Deus a Pomba, e quero deixar a cozinha hedionda em meio a um sonho dourado perverso – Tudo está acontecendo em uma mente vasta, nós na cozinha, não acredito em uma palavra disso ou em qualquer pedaço substancial de carne vazia de átomos, vejo através disso, através das formas carnais (galinhas e tudo mais) para a brancura do futuro de ametista reluzente da realidade – Estou preocupado mas não satisfeito – “fuu”, digo, e o galo olha para mim, “o que ele quer dizer com fuu?” e o galo prossegue: “Có Coró Có” uma manhã de domingo de verdade (que já é, agora, às duas da manhã) Protesto com veemência e vejo os cantos marrons da casa de sonho e me lembro da cozinha escura de minha mãe há muito tempo em ruas frias na outra parte do mesmo sonho como essa cozinha fria atual com suas panelas embaixo de goteiras e horrores da Cidade do México Indígena – Cruz tenta debilmente me dar boa–noite quando me preparo para ir, eu a afaguei várias vezes, um afago no ombro achando que era isso o que ela queria em certos momentos e a tranquilizei dizendo que a amava e estava de seu lado “mas não tinha um lado próprio”, minto para mim mesmo – Eu me perguntava o que Tristessa achava dos meus afagos por um tempo quase achei que ela era sua mãe, em um momento louco eu adivinhei isso: “Tristessa e El Indio são irmão e irmã e eles a estão deixando louca com suas conversas na noite sobre veneno e morfina – Então eu me dou conta: “Cruz também é uma viciada, usa três gramas por mês, estará no mesmo tempo e na mesma antena de seu sonho problemático, gemendo e rugindo os três vão passar o resto de suas vidas doentes. Vício e sofrimento. Como doenças de loucos, encefalites insanas por dentro do cérebro onde você destrói sua saúde de propósito para agarrar uma sensação de débil satisfação química que não tem qualquer base em coisa alguma além da mente-pensante – Gnose, eles sem dúvida vão mudar para mim no dia em que tentarem me impor a morfina. E a você”.

Apesar de o pico ter me feito algum bem e eu desde então não ter tocado a garrafa, uma espécie de exausta satisfação abateu–se sobre mim colorida com uma força selvagem – a morfina amainou minhas preocupações mas eu prefiro não toma-la devido à fraqueza que traz a minhas costelas – Elas vão acabar esmagadas – “Depois disso não vou mais querer morfina”, prometo, e tenho um desejo ardente de me afastar de todo o papo sobre morfina que, depois de escutá-lo esporadicamente, acabou por me enfastiar.

Levanto-me para partir, El Indio vai comigo, me conduz até a esquina, apesar de no início ele discutir com elas como se quisesse ficar ou se quisesse algo mais – Saímos depressa, Tristessa fecha a porta às nossas costas, nem mesmo dou para ela um olhar íntimo, apenas uma olhadela quando ela fecha para indicar que irei vê-la depois – El Indio e eu andamos vigorosamente pelas veredas chuvosas e cheias de limo, entramos à direita, e cortamos para a rua do mercado, já comentei sobre o chapéu preto dele, e agora aqui estou eu na rua com o famoso Bastardo Negro – Já ri e disse “Você é igualzinho ao Dave” (o ex-marido de Tristessa) “você até usa o chapéu preto” como eu tinha visto Dave uma vez, em Redondas – na confusão e na turbulência de uma noite quente de sexta-feira com os ônibus em desfile lento e multidões na calçada; Dave entrega o pacote para seu garoto, um vendedor chama o tira, o tira vem correndo, o garoto o devolve para Dave, Dave diz “Está bem, pega y core” e o joga de volta e o garoto acerta a lateral de um ônibus que voava e pendura-se no meio da multidão com suas tripas e seu corpo pendurados acima da rua e seus braços segurando rigidamente a barra da porta do ônibus, os tiras não alcançam, nesse meio tempo Dave desapareceu em um bar, removeu seu lendário chapéu preto e sentou ao balcão com outros homens, olhando para a frente – os tiras não encontram – eu admirei Dave por sua coragem, agora admiro El Indio pela dele – Quando saímos do cortiço de Tristessa ele assobia e grita para um grupo de homens na esquina, nós andamos e eles se espalham e chegamos na esquina e continuamos andando conversando, não prestei atenção para o que ele fez, tudo o que quero fazer é ir direto para casa – Começou a chuviscar –

YA VOY DORMIENDO, vou dormir agora” diz El Indio juntando as palmas das mãos em torno da boca digo “Está bem” então ele faz mais uma declaração elaborada eu acho que repetindo em palavras o que eu tinha dito antes por sinais, não consigo demonstrar uma compreensão completa de sua nova afirmação, ele desapontado diz “Yo no untiende” (você não entende) mas eu compreendo que ele quer ir para casa e para a cama – “Está bem” digo – Apertamos as mãos – Então passamos por uma rotina masculina elaborada de sorrisos nas ruas, na verdade sobre as pedras quebradas do calçamento de Redondas –

Para tranquilizá-lo dou um sorriso de despedida e começo a andar mas ele continua olhando com atenção cada movimento do meu sorriso e de minhas pestanas, não consigo me virar com um olhar malicioso arbitrário, quero sorrir para ele quando estiver a caminho, ele responde com os próprios sorrisos igualmente elaborados e psicologicamente corroborativos, trocamos muita informação entre nós com sorrisos loucos de despedida, e então, no limite de sua tensão, El Indio tropeça em uma pedra, e lança ainda um outro sorriso de despedida tranquilizador que encobriu o meu, parecia não haver mais final à vista, mas cambaleamos em nossas direções opostas como se relutássemos – uma relutância que dura um segundo breve, o ar fresco da noite atinge sua solidão recém-nascida e você e seu Indio partem em um novo homem e o sorriso, parte do antigo, é removido, não necessita mais – Ele vai para sua casa, eu para a minha, por que sorrir disso a noite inteira a menos que tenha companhia – A tristeza do mundo com educação – 

DESÇO A RUA TURBULENTA de Redondas, embaixo de chuva, ainda não está forte, eu abro caminho e sigo me esquivando por entre a confusão de atividade com putas às centenas enfileiradas ao longo dos muros da Panamá Street em frente a seus bordéis onde a grande Mamacita está sentada perto da panela de porco da cocina, quando você vai embora ela pede um dinheirinho pelo porco que também representa a cozinha, o rango, cocina – Os táxis vão passando, conspiradores buscam sua escuridão, as putas escondidas na noite com seus dedos curvados de Venha, homens jovens passam e as examinam com um olhar, de braços dados em multidões os jovens mexicanos da Casbah descem juntos sua rua principal de garotas, cabelo jogado sobre os olhos, bêbados, borrachos, morenas de pernas longas em vestidos amarelos apertados os agarram e provocam suas pélvis, e puxam suas lapelas, e imploram – o bambolear dos garotos – os tiras passam pela rua preguiçosos, como bonequinhos em carrinhos pequenos que seguem invisíveis embaixo da calçada – Uma olhada pelo bar onde as crianças bocejam e uma pelo bar de garotos de programa de bichas onde heróis aracnídeos dançam como putas em seus suéteres de gola rulê para anciãos críticos reunidos de 22 – olhe pelos dois buracos e veja o olho do criminoso, criminoso no paraíso. – Abro caminho, curtindo a cena, balanço a bolsa com a garrafa, viro-me para lançar alguns olhares provocadores para as putas enquanto caminho, elas me enviam ondas sonoras estereotipadas de desprezo e praguejam embaixo de seus umbrais – Estou faminto, começo a comer o sanduíche de El Indio que ele me deu e que no início pensei em recusar para deixar para o gato mas El Indio insistiu que era um presente para mim, então eu exposto de peito aberto em um enlevo delicado enquanto ando pela rua – ao ver o sanduíche começo a comê-lo – termino, enquanto passo correndo, tento comprar tacos, de qualquer tipo, em qualquer barraquinha onde eles gritam “Joven!” – compro fígados fedorentos de salsichas cortadas dentro de cebolas negras brancas fumegando em gordura quente que estala sobre o fogareiro feito de um para-lamas invertido Belisco os calores e os molhos apimentados e acabo devorando bocados inteiros de fogo e sigo correndo – ainda assim eu compro outro, depois, dois, de uma feia carne de vaca picada sobre um bloco de madeira, parece que com cabeça e tudo, pedaços de nervos e cartilagem, tudo misturado junto em uma tortilla esquálida e devorada com sal, cebolas e folhas verdes tudo picado – um sanduíche delicioso quando você encontra uma barraquinha boa. – As barraquinhas são 1, 2, 3 em fila por quase um quilômetro da rua, iluminadas tragicamente por velas e lâmpadas fracas e lanternas estranhas, todo o México uma Aventura Boêmia no grande platô ao ar livre da noite de pedras, velas e neblina – Passo pela Plaza Garibaldi, o lugar mais cheio de polícia, multidões estranhas agrupadas em ruas estreitas em torno de músicos silenciosos que só mais tarde e de longe você escuta corneteando depois da esquina – Marimbas vibram nos bares grandes – Homens ricos, homens pobres, em chapéus de abas largas se misturam – Saem de portas de vaivém cuspindo pedaços de charuto e batendo mãos grandes nos quadris como se estivessem prestes a mergulhar em um riacho gelado – culpados – Subindo as ruas laterais, ônibus mortos gingam por entre poças de lama, manchas de vestidos de puta amarelos e impetuosos no escuro, grupos encostados contra a parede amantes da adorável noite mexicana – Garotas bonitas passam, de todas as idades, e todos os Gordos cômicos e eu viramos as cabeças grandes para vê-las, são bonitas demais para aguentar –

Passo embalado pelo Correio, atravesso a parte baixa da Juarez, o Palácio das Belas-Artes afundando ali perto – arrasto a mim mesmo até San Juan Letran e me ponho a andar quinze quadras dela passando rápido por lugares deliciosos onde eles fazem churros e cortam pra você pedaços salgados açucarados e amanteigados de um sonho fresco e quente tirado da cesta engordurada, que você come logo olhando para a noite peruana dos seus inimigos na calçada adiante – Todos os tipos de gangues loucas estão reunidas, líderes chefes satisfeitos ficando altos com a liderança da gangue usam chapéus de esqui escandinavos alucinados por cima de sua parafernália de malandro e corte de cabelo pachuco2 – Outro dia aqui passei por uma gangue de crianças em uma sarjeta seu líder vestido como um palhaço (uma meia de náilon na cabeça) e círculos grandes pintados em torno dos olhos, as crianças pequenas o haviam imitado e tentavam roupas de palhaço parecidas, aquilo tudo cinzento com os olhos enegrecidos com riscos brancos, como as roupas coloridas de seda dos jóqueis de grandes pistas de corrida a ganguezinha de heróis pinoquianos (e de Genet) com sua parafernália nos meios-fios, um menino mais velho zombando do Herói Palhaço “Que palhaçada é essa, Herói Palhaço? – Não tem Paraíso em lugar nenhum?” “Não existe um Papai Noel dos Heróis Palhaços, menino maluquinho” – Outros grupos meio hipsters se escondem diante dos bares e boates com música e barulho lá dentro, eu passo por ali rapidamente com um olhar fugaz de Walt Whitman e absorvendo toda aquela informação Começa a chover mais forte, tenho uma longa distância para caminhar e me arrastar com essa perna machucada bem no meio da chuva que se acumulava, sem qualquer chance ou intenção de pegar um táxi, o uísque e a morfina me deixaram mais tranquilo pela náusea do veneno em meu coração.
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Jack Kerouac, in Tristessa

06/12/2023

Parte Um | Trêmulo e casto


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Meu cigarro se apaga enquanto fumo e levo-o até o ícone para acendê-lo na chama da vela, que está dentro de um copo – Ouço Tristessa dizer algo que interpreto como “Droga, esse idiota está usando nosso altar como isqueiro” – para mim nada há de estranho ou incomum nisso, só quero fogo – mas percebendo a observação, ou mesmo ainda acreditando na observação mesmo sem saber o que foi, eu engulo em seco e me detenho e em vez disso arranjo fogo com El Indio, que depois me mostra como, com uma precezita devota e um pedaço de jornal, arranja fogo de maneira indireta, com um toque e uma oração – Ao perceber o ritual, também o faço para conseguir meu fogo alguns minutos mais tarde – Faço uma pequena oração francesa: “Excuse moá ma Dame” – com ênfase no Dame por causa de Damema, a Mãe dos Budas.
Assim sinto-me menos culpado em relação a meu cigarro e de súbito sei que todos vamos para o Céu direto de onde estamos, como espíritos dourados de Anjos com Auréolas de Ouro vamos pegando carona no Deus Ex Machina até as alturas do Apocalíptico, Eucalíptico, Aristofanesco e Divino – Eu suponho e me pergunto o que o gato pode achar – Digo para Cruz “Sua gata está tendo pensamentos dourados (su gata tienes pensas de or)” mas ela não entende por mil e um bilhão de razões complexas que nadam na multidão fervilhante de seus pensamentos leitosos enterrados em Buda no estresse de sua doença permanente – “What’s pensas?” grita ela para os outros, ela não sabe que o gato está tendo pensamentos dourados – Mas o gato a ama tanto, e fica ali, bem perto de seu queixo, ronronando, satisfeito, olhos bem fechados e tampados, uma gatinha pequena igual a Pinky que perdi em Nova York atropelada na Atlantic Avenue pelos sombrios motoristas alucinados do Brooklyn e do Queens, os autômatos sentados ao volante que vão matando gatos automaticamente todo dia, uns cinco ou seis diariamente na mesma rua. “Mas este gato vai morrer a morte mexicana normal – de velhice ou doença – e será um veterano sábio dos becos da área, e você irá vê-la (sujo como trapos) remexendo o lixo como se fosse um rato, então o gato fica ali perto do queixo dela como um pequeno sinal de suas boas intenções.”
Ei Indio vai na rua e traz sanduíches de carne e agora a gata fica enlouquecida, mia e grita querendo um pouco e El Indio a joga para fora da cama – Mas Gata finalmente consegue um pedaço de carne e se atira sobre ele como um Tigre louco e eu penso “Se ela fosse tão grande quanto aquele do zoológico, iria olhar para mim com grandes olhos verdes antes de me devorar”. Estou vivendo o conto de fadas de sábado à noite, na verdade estou me divertindo por causa da birita e a alegria e as pessoas despreocupadas – curtindo os bichinhos – percebendo a filhotinha de chihuahua que agora espera humildemente por um pedaço de carne ou de pão, aflita, com o rabo entre as pernas, se ela um dia herdar a terra será por causa da humildade – Com as orelhas abaixadas para trás, chega até a chorar o lamento de medo do pequeno chihuahua – Ainda assim ela se alternava entre nos observar e dormir a noite inteira, e suas próprias reflexões sobre o tema do Nirvana e da morte e os mortais que tentam ganhar tempo até a morte são de uma alta frequência lamurienta de variedade doce e apavorada – e do tipo que diz “Deixe-me em paz, sou delicada demais” e você a deixa em paz em sua conchinha frágil como o casco de canoas acima das profundezas do oceano – gostaria de poder comunicar a todas as criaturas e pessoas, no resplendor de meus bons tempos enluarados, o mistério enevoado do leite mágico visto na Fantasia Profunda da Mente onde aprendemos que tudo é nada – no caso, eles não iriam se preocupar mais, exceto após o instante em que pensam em se preocupar novamente – Todos nós trêmulos em nossas botas de mortalidade, nascidos para morrer, NASCIDOS PARA MORRER eu poderia escrever isso no muro e sobre Muros por todos os Estados Unidos Pomba em asas de paz, com seus olhos de Coleção de Bichos de Noé ao Luar; cão com garras afiadas negras e reluzentes, morrer é nascer, treme em seus olhos púrpuros, seus vasos sanguíneos frágeis descendo pelas costelas; é, as costelas da chihuahua, e as costelas de Tristessa também, lindas costelas, as delas com suas tias em chiahuahua também nascidas para morrer, – lindas para serem feias, rápidas para estarem mortas, gratas por estarem tristes, loucas para serem tomadas – e a morte de El Indio, nascido para morrer, o homem, então ele aplica a agulha de Sábado à Noite e toda noite é sábado à noite e ele fica louco de esperar, o que mais ele pode fazer – A morte de Cruz, as gotas de religião se derramando sobre seus cemitérios, a boca repugnante plantada no cetim do caixão da terra... Gemo tentando recuperar toda aquela magia, recordo de minha própria morte iminente, “Se apenas eu tivesse o eu mágico da primeira infância quando me lembrei como era antes de eu nascer, não me preocuparia mais com a morte agora que sei que as duas são o mesmo sonho vazio” – Mas o que o Galo vai dizer quando morrer, e alguém enfiar uma faca em seu pescoço frágil – E a doce Galinha, aquela que come um glóbulo de cerveja dos pés de Tristessa, seu bico fechando-se como lábios humanos sorvem o leite da cerveja – quando ela morrer, doce galinha, Tristessa que a ama vai salvar seu osso da sorte e embrulhá-lo em pano vermelho e vai guardá-lo entre seus pertences, não obstante a doce Mãe Galinha de nossa Noite de Arca de Noé, ela a provedora dourada que remonta tão longe que você não consegue encontrar o ovo que a impulsionou para fora rompendo a primeira casca original, eles vão abrir caminho no rabo dela com serras tico-tico e fazer carne moída dela, que você passa por um moedor de metal de manivela, e você iria se perguntar por que ela também treme de medo do castigo? E a morte do gato, o ratinho morto na sarjeta com o rosto retorcido – Eu gostaria de poder comunicar a todos os seus medos da morte combinados o Ensinamento de Séculos de Idade que escutei, que redime toda a dor com uma recompensa suave de amor perfeito silencioso que permanece pra cima e para baixo e para dentro e para fora de todos os lugares passados, presentes e futuros no Vazio desconhecido onde nada acontece e tudo é simplesmente o que é. Mas eles mesmos sabem disso, besta e chacal e mulher amor, e meu Ensinamento de Séculos na verdade é tão velho que eles já o ouviram há muito tempo antes de minha época.
Fico deprimido e preciso ir para casa. Todos nós, nascidos para morrer.

Jack Kerouac, in Tristessa

02/11/2023

Trêmulo e casto


[...]
Agora El Indio voltou e está de pé perto da cabeceira da cama enquanto estou ali sentado, e viro para olhar para o galo (“para domá-lo”) – Estendo a mão da mesma forma que fiz com a galinha e deixo que ele veja que não tenho medo que me bique, e vou acaricia-lo e livrá-lo de todo o medo de mim – O Galo olha para minha mão sem comentário, e olha para longe, e torna o olhar para mim, e encara minha mão (o campeão melancólico seminal que sonha um ovo diário para Tristessa que ela chupa até o fim depois de furá-lo, fresco) – olha ternamente para minha mão mas acima de tudo majestosamente enquanto a galinha não consegue fazer essa mesma avaliação majestosa, ele é coroado e arrogante e pode uivar, é o Rei da Cerca em duelo ardente com o amanhecer podre. Ele cacareja ao ver minha mão, querendo dizer É, e se vira – e olho orgulhoso ao redor para ver se Tristessa e El Indio ouviram meu estupiante selvagem – Eles comemoram ao me ver com lábios ávidos, “Sim, estávamos conversando sobre os dez gramas de morfina que vamos descolar amanhã – É –” e eu me sinto orgulhoso por ter conquistado o Galo, agora todos os bichinhos no quarto me conhecem e me amam e eu os amo apesar de talvez não os conhecer. Todos, exceto O Cantor no telhado, em cima do guarda-roupa, no canto, longe da beira, contra a parede bem embaixo do teto, a Pomba arrulha confortável sentada no ninho, sempre contemplando toda a cena, para sempre sem comentar. Ergo os olhos, meu Senhor bate asas com o arrulhar branco de pomba e olho para Tristessa para saber por que ela arranjou uma pomba e Tristessa levanta as mãos macias de um jeito indefeso e olha para mim com carinho e tristeza, para indicar, “É minha pomba” – “Minha pombinha bonitinha – O que posso fazer?” “Eu gosto tanto dela” – “É tão branquinha e bonitinha” – “Nunca faz barulho” – “Tem olhos taum bonitus, você olha e vê os olhos taum bonitus” e eu olho nos olhos da pomba e são apenas olhos de pomba, abertos, perfeitos, escuros, poços, misteriosos, quase orientais, é impossível aguentar a pureza tamanha que aqueles olhos emanam – E são tão parecidos com os olhos de Tristessa que eu gostaria de poder comentar e dizer a Tristessa “Tens os olhos da pomba” –
De vez em quando a Pomba se levanta e bate as asas como exercício, em vez de voar pelo ar triste ela espera em seu cantinho dourado do mundo, espera a pureza perfeita, a morte, a Pomba na sepultura é algo melancólico para ser celebrado – o corvo na sepultura não é uma luz branca que ilumina os Mundos e aponta para cima e aponta para baixo por entre os dez lados soberbos da Eternidade – Pobre Pomba, pobres olhos – seu peito branco como neve, seu leite, sua torrente de piedade sobre mim, seu olhar mesmo gentil, os olhos dentro dos meus, das alturas otimistas de seu lugar no armário e nos arcabouços dos Céus Abertos do Mundo da Mente – anjo dourado e otimista de meus dias, e não posso tocá-la, não ousaria subir em uma cadeira e prendê-la no canto e sorrir com um ranger de dentes para ela, tentando impressioná-la em meu coração manchado de sangue – o sangue dela.

El Indio trouxe sanduíches e a gatinha está louca por um pouco de carne e El Indio fica com raiva e a expulsa da cama com um tapa e eu estendo minhas duas mãos para ele “Non” “Não faça isso” e ele nem mesmo me escuta e Tristessa grita com ele – o grande Homem Fera irado com a carne da cozinha e batendo na filha que está na cadeira do outro lado do quarto até cair no chão, as lágrimas começam a escorrer quando ela percebe o que fez – Não gosto de El Indio porque ele bateu na gata. Mas ele não faz por maldade, é apenas uma reprimenda, uma maneira dura, justificada de lidar com a gata, chutá-la de seu caminho na sala quando vai atrás de seus charutos e da televisão O Velho pai Tempo é El Indio, com as crianças, a esposa, as noites na mesa de jantar estapeando os filhos e conduzindo sobre grandes jantares com muita carne sob a luz mortiça – “Buuurp! Braap!”, ele solta diante das crianças que olham para ele com olhos reluzentes e cheios de admiração. Agora é sábado à noite e ele está conversando com Tristessa e se esforçando para explicar a ela, de repente a velha Cruz (que não é velha, tem só quarenta) se levanta gritando “É, com nossa grana, si, com nuestro dinero” e repete duas vezes, soluça, e El Indio a avisa que eu posso entender (quando ergo os olhos com magnificência imperial de indiferença com um toque de respeito pela cena) e como se dissesse “Esta mulher chora porque vocês pegam todo o seu dinheiro” – o que é isso? Rússia? Mússia? Matamorapússia? Como se eu não me importasse de nenhum jeito que não pudesse. Tudo o que queria era ir embora. Tinha me esquecido completamente da pomba e só me lembrei dela dias mais tarde.
A maneira selvagem como Tristessa fica de pé, as pernas afastadas, no meio do quarto para explicar algo, como um viciado em uma esquina do Harlem, ou em qualquer outro lugar, Cairo, Bang Bombayo e todo o Bando de Felás dos Palmeirais da Extremidade das Bermudas às asas de albatroz pousadas que cobrem de penas as rochosas da costa do Ártico, só o veneno que servem das focas Gloogloo dos esquimós e as águias da Groenlândia, não é tão ruim quanto aquela morfina da Civilização Alemã à qual ela (uma índia) é forçada a se submeter e a morrer por ela em sua terra nativa.

Enquanto isso o gato está abrigado confortavelmente perto do lugar do rosto de Cruz, onde ela está deitada ao pé da cama, enrascada, do jeito que dorme a noite inteira enquanto Tristessa se enrosca na cabeceira e elas entrelaçam os pés como irmãs ou como mãe e filha e fazem com que uma cama pequena seja confortável para as duas – O gatinho rosa tem tanta certeza (apesar de todas as suas pulgas que cruzam seu focinho ou passeiam por suas pestanas) – que está tudo bem – que está tudo certo no mundo (pelo menos agora) – quer ficar perto do rosto de Cruz, onde está tudo bem – Ele (na verdade uma Elazinha) ele não percebe as ataduras e o pesar e os horrores de bebedeira e ressaca pelos quais ela está passando, sabe apenas que ela é a senhora todo o dia suas pernas estão na cozinha e de vez em quando ela joga comida para ele e, além disso, ela brinca com ele na cama e finge que vai bater nele e o segura e briga com ele que faz uma carinha naquela cabecinha e pisca os olhos e abana as orelhas para trás para esperar o tapa mas ela está só brincando com ele – Então agora ele se senta em frente a Cruz e apesar de nós gesticularmos como maníacos quando falamos e às vezes uma mão pesada passar perto de suas orelhas, quase acertando-o ou El Indio poder de repente resolver jogar um jornal sobre a cama e acertar bem em cima da cabeça dele, mesmo assim ele fica sentado e curte a gente com olhos fechados e encolhido em um estilo Gato Buda, meditativo em meio a nossas atitudes alucinadas como a Pomba acima – Eu me pergunto: “Será que o gatinho sabe que tem um pombo no guarda-roupa?” Queria que meus parentes de Lowell estivessem aqui para ver como vivem as pessoas e os animais no México –
Mas o pobre do gatinho é uma massa de pulgas, mas ele não se importa, não fica se coçando como gatos americanos mas apenas resiste – Eu o pego do chão e ele é apenas um esqueletinho magrelo com grandes balões de pelo – Tudo é tão pobre no México, as pessoas são pobres, mas mesmo assim tudo o que eles fazem é feliz e despreocupado, não importa o que seja – Tristessa é uma viciada e lida com isso magra e despreocupada, enquanto uma americana seria melancólica – Mas ela tosse e reclama o dia inteiro, e pela mesma lei, de vez em quando, o gato começa a coçar-se furiosamente, o que não ajuda –.

Jack Kerouac, in Tristessa