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27/01/2019

O romance do Nordeste

Nestes quatrocentos anos de colonização literária recebemos a influência de muitos países. Sempre tentamos reproduzir com todas as minudências a língua, as ideias, a vida de outras terras. Não sei donde vem esse medo que temos de sermos nós mesmos. Queremos que nos tomem por outros.
Talvez seja porque entre nós é fácil um preto casar com uma branca, uma preta viver com um branco, sem casar. Os mulatinhos escondem-se dos pais e, com o intuito de clarear a descendência, sujaram-se de pó de arroz e imitaram os modos dos estrangeiros. A religião negra, a arte negra, tudo quanto a África nos podia dar foi sufocado pelo ingênuo desejo de arianizar isto depressa.
Havia em Portugal uma certa quantidade de gramáticos. Arranjamos gramáticos mais numerosos e procuramos há alguns anos escrever melhor que os portugueses. Nunca houve lugar no mundo onde se discutisse tanta sintaxe.
Tudo nos vinha de fora.
Na literatura de ficção é que a falta de caráter dos brasileiros se revelou escandalosamente. Em geral os nossos escritores mostraram uma admirável ignorância das coisas que estavam perto deles. Tivemos caboclos brutos semelhantes aos heróis cristãos e bem-falantes em excesso. Os patriotas do século passado, em vez de estudar os índios, estudaram tupi nos livros e leram Walter Scott. Tivemos Damas das Camélias em segunda mão. Tivemos paisagens inúteis em linguagem campanuda, pores do sol difíceis, queimadas enormes, secas cheias de adjetivos. Descrições. José Veríssimo construiu um candeeiro em não sei quantas páginas.
Muito pouco — rios, poentes cor de sangue, incêndios, candeeiros.
Os ficcionistas indígenas engancharam-se regularmente na pintura dos caracteres. Não mostraram os personagens por dentro: apresentaram o exterior deles, os olhos, os cabelos, os sapatos, o número de botões. Insistiram em pormenores desnecessários, e as figuras ficaram paradas.
Os diálogos antigos eram uma lástima. Em certos romances os indivíduos emudeciam, em outros falavam bonito demais, empregavam linguagem de discurso. Dois estrangeiros, perdidos nas brenhas, discutiam política, sociologia, trapalhadas com pedantismo horrível que se estiravam por muitas dezenas de folhas. Via-se perfeitamente que o autor nunca tinha ouvido nada semelhante ao palavrório dos seus homens.
Felizmente, vamo-nos afastando dessa absurda contrafação de literaturas estranhas. Os romancistas atuais compreenderam que para a execução de obra razoável não bastam retalhos de coisas velhas e novas importadas da França, da Inglaterra e da Rússia. E como deixaram de ser obrigatórias as exibições da porta do Garnier, os provincianos conservaram-se em suas cidadezinhas, acumulando documentos, realizando uma honesta reportagem sobre a vida no interior.
O trabalho que há no Nordeste é mais intenso que em qualquer outra parte do Brasil, tão intenso que um crítico, visivelmente alarmado com as produções daqui, disse ultimamente que não é só no Norte que se faz literatura. Decerto. Era indispensável, porém, que nossos romances não fossem escritos no Rio, por pessoas bem-intencionadas, sem dúvida, mas que nos desconheciam inteiramente.
Hoje desapareceram os processos de pura composição literária. Em todos os livros do Nordeste, nota-se que os autores tiveram o cuidado de tornar a narrativa não absolutamente verdadeira, mas verossímil. Ninguém se afasta do ambiente, ninguém confia demasiado na imaginação.
E é assim que deve ser. Se o Sr. Gastão Cruls vivesse aqui, não teria podido escrever o seu Vertigem. Apesar de médico e romancista, foi-lhe necessário estar habituado à cidade grande.
Também não seria possível a um carioca, ainda que tivesse visitado o interior do Ceará, conceber e realizar o João Miguel. Para fazê-lo a Sra. Rachel de Queiroz consumiu largo tempo examinando uma prisão da roça, registrou as palavras do cabo Salu, conversou com a Filó, viu como ela enchia o cachimbo de barro.
O Sr. Lins do Rego criou-se na bagaceira dum engenho, e julgo que nem sabe que é bacharel. Conservou-se garoto de bagaceira, o que não lhe teria acontecido se morasse no Rio, frequentando teatros e metendo artigos nos jornais. Aqui está bem. Quando o cheiro das tachas vai esmorecendo, dá um salto a uma engenhoca, escuta Zé Guedes, seu Lula, a velha Sinhazinha.
O Sr. Jorge Amado nasceu numa fazenda no sul da Bahia — e por isso escreveu Cacau. Instalou-se depois na ladeira do Pelourinho, 68, onde travou relações com várias criaturas que entraram na composição do seu último livro.
Esses escritores são políticos, são revolucionários, mas não deram a ideias nomes de pessoas: os seus personagens mexem-se, pensam como nós, sentem como nós, preparam as suas safras de açúcar, bebem cachaça, matam gente e vão para a cadeia, passam fome nos quartos sujos duma hospedaria.
Os nossos romancistas não saíram de casa à procura de reformas sociais: a revolução chegou a eles e encontrou-os atentos, observando uma sociedade que se decompõe.
Está claro que ninguém aqui pretende haver construído monumentos. Estamos ainda no começo, mas um excelente começo que nos dá grande quantidade de volumes todos os anos.
Nessa produção excessiva há falhas, topadas, marcas de trabalho feito à pressa. Naturalmente porque estamos a correr sem nos termos acostumado a andar.
O que é certo é que o romance do Nordeste existe e vai para diante. As livrarias estão cheias de nomes novos. Não é razoável pensarmos que toda essa gente escreva porque um dia o Sr. José Américo publicou um livro que foi notado com espanto no Rio:
— Um romance do Nordeste! Que coisa extraordinária!
Graciliano Ramos, in Garranchos (Diário de Pernambuco, Recife, 10/03/1935)

29/12/2015

Vida Nordestina - Djavan



A vida não é de festa
Para o povo do sertão
Mas até quem não tem empresta
Dá a mão
A vida é mais dolorida
Pra esse povo sofredor
Mesmo assim só se vê perdida
De amor
Até o lar onde falta o pão
Tem lá seus dias de alegria
Ao abrigar uma novena
Pra fazer oração
A fé do povo é o que há de seu
Sem ela tudo vai ser pior
Nem roça, nem gado
Existem sem Deus
Mas quando é dia de festa
Todo povo do sertão
Dança para aparar as arestas
Do coração
As moças já tão bonitas
Ficam lindas como quê
E o homem nem acredita
No que vê
Vestindo igreja e palácio
Coroa e catedral
Para o reisado se dançar
Chegança e pastoril
Se dança pelo Natal
Dia de reis é o final
Coco de roda e toré
Orgulho da região
Que agradava a Lampião
Guerreiro e maracatu
Quadrilha e bumba-meu-boi
E só saudade
Depois.

30/09/2014

A eterna e monótona novidade


Imagem: Google

Foi assim que Euclides da Cunha fotografou a seca. Eterna porque independe da ação humana, fenômeno natural com registro no passado, atestado no presente e previsível no futuro. Monótona porque vem em ciclos, repetidamente; de fácil constatação. E novidade por conta da incompetência gerencial do poder político, que faz da seca uma surpresa a cada ano.
Em casos mais graves, nem é incompetência. É cumplicidade política, onde a seca serve para produzir mais riqueza pra quem já é rico e aprofundar mais miséria para os que continuam pobres. Essa prática é também uma novidade eterna e monótona.
Até um órgão com a denominação estúpida de “contra a seca” foi criado. E o pior: de “obras contra”… De lá pra cá, o mesmo ritual de remendos e assistencialismo. Onde o vício dessa “arrumação” encontrou agasalho no poder e nos “favorecidos”. O poder caridoso de um povo mendicante.
Não consigo ver uma ação governamental que pelo menos saia do ramerrão continuado. A transposição do São Francisco? É tão antiga e distante que mais parece piada. Só não é uma piada, porque já derramou e pôs dinheiro público em canos e canais vazios. Essa sim, a transposição de grana do bolso do povo para a botija de empresas e empreiteiras. Tudo devidamente licitado, ao sabor da burocracia.
Vejamos alguns aspectos dessa monumental mentira. Em primeiro lugar é de se constatar o desgaste do próprio São Francisco. Nascentes agonizantes e matas mortas. Seja pela estupidez dos nativos dessas regiões, seja pela falta de fiscalização do Governo e das chamadas entidades de defesa do meio ambiente. O Governo encastelado nos “negócios” políticos. As entidades ambientais vendendo ilusões nas salas refrigeradas e nas luzes da mídia. Muita picaretagem e pouca ação.
Outra constatação. A água que por ventura aqui chegue dessa transposição, será insuficiente para estancar esse processo perverso das relações com a seca. Fossem suficientes as águas de um rio, ao passar numa cidade ou comunidade, não haveria miséria nas cidades ribeirinhas onde passa o São Francisco. Só aí já se desmoraliza a propaganda enganosa.
Há soluções pequenas e pontuais, que mesmo não resolvendo o problema geral, podem atenuar bastante os efeitos da seca.
Vejamos uma. Os açudes e açudecos, das pequenas e médias propriedades, inclusive nas beiras das estradas, estão assoreados. Com menos da metade de sua capacidade de acúmulo. Todo ano, nesta época, eles estão secos e se oferecendo para uma solução. Qual? A dragagem. Coisa que um pequeno trator, com uma escavadeira, aprofundará dois ou três, num dia, dependendo da distância. Refaz o porão e com o material retirado, reforça a parede. Onde se acumulava água por seis meses, passará ao dobro, com reserva para um ano. Fácil e simples. Todo ano, eu repito isso aqui.
Eterna sacanagem. Monótona patifaria. Enrugada novidade. Té mais.
François Silvestre, in Novo Jornal, de 28/09/2014

05/01/2013

Bandeira nordestina



A bandeira nordestina
É uma planta iluminada
É qualquer raiz plantada
Mostrando o caule maduro.

É quando o sol varre o escuro
Com luz e sombra no chão
É quando germina o grão
É quando esbarra o machado
É quando o tronco hasteado
É sombra pra o polegar
É sombra pro fura-bolo
É sombra pro seu-vizinho
É sombra para o mindinho
É sombra prum passarinho
É sombra prum meninote
É sombra prum rapazote
É sombra prum cidadão
É sombra para um terreiro
É sombra pro povo inteiro
Do litoral ao sertão.

Essa bandeira que eu falo
Tem cores de poesia
Tem verde-folha-voada
Amarelo jaca-aberta…

Em tudo que é vegetal
Tem bandeira desfraldada
No duro da baraúna
No forte da aroeira
No panejar buliçoso
Das frondosas bananeiras
Nas bandeirolas dos coentros
E na marca sertaneja:
O rijo e forte umbuzeiro.
Jessier Quirino

02/01/2013

Receba por e-mail o e-book Aves da Caatinga



A caatinga, palavra originária do tupi-guarani que significa "mata branca", é o único sistema ambiental exclusivamente brasileiro. Possui extensão territorial de 734.478 de quilômetros quadrados, correspondendo a cerca de 10% do território nacional, está presente nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Bahia, Piauí e norte de Minas Gerais.
A Editora Coqueiro e o portal www.onordeste.com  - através da Enciclopédia Nordeste - ao lançar o e-book "Aves da Caatinga" tem por objetivo iniciar a desvendar uma pequena parte da enorme diversidade que representa este único e rico bioma.
Para receber por e-mail, inteiramente grátis, o e-book "Aves da Caatinga" basta enviar um solitação para:  mauricio.ivan@uol.com.br
Quanto mais compreendermos caatinga, maior será o nosso orgulho de ser nordestino!

Ivan Maurício
Diretor de Conteúdo do portal
 www.onordeste.com

17/11/2012

Factus est

O que fez o verão também fez
esta água parada água de mal viver.
Fez o dia de cacto e macambira, o dia de sono e sol
sobre a sombra dos pequizeiros. Fez a luz nos olhos
das onças pretas. Os bichos bravos
pisando macio nas folhas secas. As passadas fundas
na areia das trilhas
onde os comboios de jumentos
levaram suas cargas
de carne-seca, farinha e rapadura.
O que fez da vida a selva escondida nos troncos
sob o sol. Fez os olhos da pedra
que vence os verões. Fez as palhas da carnaúba
e as águas cortadas
águas mornas
água de barro
água de cacimba
que a sede não refuga.
O que parou as águas fez irreal este silêncio
dos chapadões. Fez os bichos obstinados
de sol e de poeira: as cabras as formigas
os cupins o homem sóbrio
e os seus dias de mal viver.
H. Dobal, poeta piauiense

15/11/2012

Noel num vem

In todo ano é igual
Se aprochegando o Natal
Já começa o farnizim
De avistar Papai Noel
Espirrar no meio do céu
E arrisca é dele num vim.

Liás, aqui nunca vei
Esse homi de vermei
Cum saco chei de brinquedo
Só se vê mermo im retrato
E os minino do mato
Só fica chupando os dedo.

Me diga, o caba que veve
Nas frialdade das neve
No mei daquelas lonjura
Que diabo vem vê pra cá?
Só se for pa esturricar
No oco dessa quentura.

Ele num vem nem a pau
Um caba internacional
Um lorde da Escandinava
Custumado cum sarmão
Vai vim bater no sertão
Pra cumer preá cum fava?

Só se ele for bocó
Pra vim naquele trenó
Que nem pneu num pissui
Se nas estrada da roça
As vez inté as carroça
Se ingancha nos pidrigúi!?

Inda duvido tombem
Que os animá que ele tem
Nesses camim lhe carregue
No mei desses carrapicho
Só sendo que aqueles bicho
Vai ter os casco dum jegue.

O natal de nossas banda
Num tem os carrim que anda
Nem robô que conta estora
Num tem trenzim que apita
Nem as buneca bonita
Que dorme, que fala e chora.

Nós tem buneca de trapo
Feita de tira e fiapo
Dos retaizim de rayon
Tem pião de aruera
E a mió roladera
De lata de mucilon.

Nós tem buneco de barro
Tem as nota de cigarro
E os cachorro de areia
Tudo coisa de arremedo
Foi num foi se esfola um dedo
Chutando bola de meia.

Vamo dexar de ilusão
Que o véi da televisão
Cum baiba branca na cara
Vistido de incarnado
É um atô custumado
A inganar babaquara.

Não vá pensar que é quexume
Inveja, raiva, ciúme
Ou coisa de quem fuxica
Mais eu lhe digo: se aquete
Que esse veim da charrete
Só é pai de gente rica.
Zenóbio de Oliveira