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25/10/2026
27/01/2019
O romance do Nordeste
Nestes
quatrocentos anos de colonização literária recebemos a influência
de muitos países. Sempre tentamos reproduzir com todas as
minudências a língua, as ideias, a vida de outras terras. Não sei
donde vem esse medo que temos de sermos nós mesmos. Queremos que nos
tomem por outros.
Talvez
seja porque entre nós é fácil um preto casar com uma branca, uma
preta viver com um branco, sem casar. Os mulatinhos escondem-se dos
pais e, com o intuito de clarear a descendência, sujaram-se de pó
de arroz e imitaram os modos dos estrangeiros. A religião negra, a
arte negra, tudo quanto a África nos podia dar foi sufocado pelo
ingênuo desejo de arianizar isto depressa.
Havia
em Portugal uma certa quantidade de gramáticos. Arranjamos
gramáticos mais numerosos e procuramos há alguns anos escrever
melhor que os portugueses. Nunca houve lugar no mundo onde se
discutisse tanta sintaxe.
Tudo
nos vinha de fora.
Na
literatura de ficção é que a falta de caráter dos brasileiros se
revelou escandalosamente. Em geral os nossos escritores mostraram uma
admirável ignorância das coisas que estavam perto deles. Tivemos
caboclos brutos semelhantes aos heróis cristãos e bem-falantes em
excesso. Os patriotas do século passado, em vez de estudar os
índios, estudaram tupi nos livros e leram Walter Scott. Tivemos
Damas das Camélias em segunda mão. Tivemos paisagens inúteis
em linguagem campanuda, pores do sol difíceis, queimadas enormes,
secas cheias de adjetivos. Descrições. José Veríssimo construiu
um candeeiro em não sei quantas páginas.
Muito
pouco — rios, poentes cor de sangue, incêndios, candeeiros.
Os
ficcionistas indígenas engancharam-se regularmente na pintura dos
caracteres. Não mostraram os personagens por dentro: apresentaram o
exterior deles, os olhos, os cabelos, os sapatos, o número de
botões. Insistiram em pormenores desnecessários, e as figuras
ficaram paradas.
Os
diálogos antigos eram uma lástima. Em certos romances os indivíduos
emudeciam, em outros falavam bonito demais, empregavam linguagem de
discurso. Dois estrangeiros, perdidos nas brenhas, discutiam
política, sociologia, trapalhadas com pedantismo horrível que se
estiravam por muitas dezenas de folhas. Via-se perfeitamente que o
autor nunca tinha ouvido nada semelhante ao palavrório dos seus
homens.
Felizmente,
vamo-nos afastando dessa absurda contrafação de literaturas
estranhas. Os romancistas atuais compreenderam que para a execução
de obra razoável não bastam retalhos de coisas velhas e novas
importadas da França, da Inglaterra e da Rússia. E como deixaram de
ser obrigatórias as exibições da porta do Garnier, os provincianos
conservaram-se em suas cidadezinhas, acumulando documentos,
realizando uma honesta reportagem sobre a vida no interior.
O
trabalho que há no Nordeste é mais intenso que em qualquer outra
parte do Brasil, tão intenso que um crítico, visivelmente alarmado
com as produções daqui, disse ultimamente que não é só no Norte
que se faz literatura. Decerto. Era indispensável, porém, que
nossos romances não fossem escritos no Rio, por pessoas
bem-intencionadas, sem dúvida, mas que nos desconheciam
inteiramente.
Hoje
desapareceram os processos de pura composição literária. Em todos
os livros do Nordeste, nota-se que os autores tiveram o cuidado de
tornar a narrativa não absolutamente verdadeira, mas verossímil.
Ninguém se afasta do ambiente, ninguém confia demasiado na
imaginação.
E
é assim que deve ser. Se o Sr. Gastão Cruls vivesse aqui, não
teria podido escrever o seu Vertigem. Apesar de médico e
romancista, foi-lhe necessário estar habituado à cidade grande.
Também
não seria possível a um carioca, ainda que tivesse visitado o
interior do Ceará, conceber e realizar o João Miguel. Para
fazê-lo a Sra. Rachel de Queiroz consumiu largo tempo examinando uma
prisão da roça, registrou as palavras do cabo Salu, conversou com a
Filó, viu como ela enchia o cachimbo de barro.
O
Sr. Lins do Rego criou-se na bagaceira dum engenho, e julgo que nem
sabe que é bacharel. Conservou-se garoto de bagaceira, o que não
lhe teria acontecido se morasse no Rio, frequentando teatros e
metendo artigos nos jornais. Aqui está bem. Quando o cheiro das
tachas vai esmorecendo, dá um salto a uma engenhoca, escuta Zé
Guedes, seu Lula, a velha Sinhazinha.
O
Sr. Jorge Amado nasceu numa fazenda no sul da Bahia — e por isso
escreveu Cacau. Instalou-se depois na ladeira do Pelourinho,
68, onde travou relações com várias criaturas que entraram na
composição do seu último livro.
Esses
escritores são políticos, são revolucionários, mas não deram a
ideias nomes de pessoas: os seus personagens mexem-se, pensam como
nós, sentem como nós, preparam as suas safras de açúcar, bebem
cachaça, matam gente e vão para a cadeia, passam fome nos quartos
sujos duma hospedaria.
Os
nossos romancistas não saíram de casa à procura de reformas
sociais: a revolução chegou a eles e encontrou-os atentos,
observando uma sociedade que se decompõe.
Está
claro que ninguém aqui pretende haver construído monumentos.
Estamos ainda no começo, mas um excelente começo que nos dá grande
quantidade de volumes todos os anos.
Nessa
produção excessiva há falhas, topadas, marcas de trabalho feito à
pressa. Naturalmente porque estamos a correr sem nos termos
acostumado a andar.
O
que é certo é que o romance do Nordeste existe e vai para diante.
As livrarias estão cheias de nomes novos. Não é razoável
pensarmos que toda essa gente escreva porque um dia o Sr. José
Américo publicou um livro que foi notado com espanto no Rio:
— Um
romance do Nordeste! Que coisa extraordinária!
Graciliano
Ramos, in Garranchos (Diário de Pernambuco, Recife,
10/03/1935)
08/05/2016
29/12/2015
Vida Nordestina - Djavan
A
vida não é de festa
Para o povo do sertão
Mas até quem
não tem empresta
Dá a mão
A vida é mais dolorida
Pra
esse povo sofredor
Mesmo assim só se vê perdida
De
amor
Até o lar onde falta o pão
Tem lá seus dias de
alegria
Ao abrigar uma novena
Pra fazer oração
A fé
do povo é o que há de seu
Sem ela tudo vai ser pior
Nem
roça, nem gado
Existem sem Deus
Mas quando é dia de
festa
Todo povo do sertão
Dança para aparar as arestas
Do
coração
As moças já tão bonitas
Ficam lindas como
quê
E o homem nem acredita
No que vê
Vestindo igreja
e palácio
Coroa e catedral
Para o reisado se
dançar
Chegança e pastoril
Se dança pelo Natal
Dia
de reis é o final
Coco de roda e toré
Orgulho da
região
Que agradava a Lampião
Guerreiro e
maracatu
Quadrilha e bumba-meu-boi
E só saudade
Depois.
29/10/2014
30/09/2014
A eterna e monótona novidade

Imagem: Google
Foi
assim que Euclides da Cunha fotografou a seca. Eterna porque independe da ação
humana, fenômeno natural com registro no passado, atestado no presente e
previsível no futuro. Monótona porque vem em ciclos, repetidamente; de fácil
constatação. E novidade por conta da incompetência gerencial do poder político,
que faz da seca uma surpresa a cada ano.
Em
casos mais graves, nem é incompetência. É cumplicidade política, onde a seca
serve para produzir mais riqueza pra quem já é rico e aprofundar mais miséria
para os que continuam pobres. Essa prática é também uma novidade eterna e
monótona.
Até
um órgão com a denominação estúpida de “contra a seca” foi criado. E o pior: de
“obras contra”… De lá pra cá, o mesmo ritual de remendos e assistencialismo.
Onde o vício dessa “arrumação” encontrou agasalho no poder e nos “favorecidos”.
O poder caridoso de um povo mendicante.
Não
consigo ver uma ação governamental que pelo menos saia do ramerrão continuado.
A transposição do São Francisco? É tão antiga e distante que mais parece piada.
Só não é uma piada, porque já derramou e pôs dinheiro público em canos e canais
vazios. Essa sim, a transposição de grana do bolso do povo para a botija de
empresas e empreiteiras. Tudo devidamente licitado, ao sabor da burocracia.
Vejamos
alguns aspectos dessa monumental mentira. Em primeiro lugar é de se constatar o
desgaste do próprio São Francisco. Nascentes agonizantes e matas mortas. Seja
pela estupidez dos nativos dessas regiões, seja pela falta de fiscalização do
Governo e das chamadas entidades de defesa do meio ambiente. O Governo
encastelado nos “negócios” políticos. As entidades ambientais vendendo ilusões
nas salas refrigeradas e nas luzes da mídia. Muita picaretagem e pouca ação.
Outra
constatação. A água que por ventura aqui chegue dessa transposição, será
insuficiente para estancar esse processo perverso das relações com a seca.
Fossem suficientes as águas de um rio, ao passar numa cidade ou comunidade, não
haveria miséria nas cidades ribeirinhas onde passa o São Francisco. Só aí já se
desmoraliza a propaganda enganosa.
Há soluções pequenas e pontuais, que
mesmo não resolvendo o problema geral, podem atenuar bastante os efeitos da
seca.
Vejamos
uma. Os açudes e açudecos, das pequenas e médias propriedades, inclusive nas
beiras das estradas, estão assoreados. Com menos da metade de sua capacidade de
acúmulo. Todo ano, nesta época, eles estão secos e se oferecendo para uma
solução. Qual? A dragagem. Coisa que um pequeno trator, com uma escavadeira,
aprofundará dois ou três, num dia, dependendo da distância. Refaz o porão e com
o material retirado, reforça a parede. Onde se acumulava água por seis meses,
passará ao dobro, com reserva para um ano. Fácil e simples. Todo ano, eu repito
isso aqui.
Eterna sacanagem. Monótona patifaria.
Enrugada novidade. Té mais.
François
Silvestre, in Novo
Jornal, de 28/09/2014
28/03/2014
05/01/2013
Bandeira nordestina

A bandeira nordestina
É uma planta iluminada
É qualquer raiz plantada
Mostrando o caule maduro.
É uma planta iluminada
É qualquer raiz plantada
Mostrando o caule maduro.
É quando o sol varre o escuro
Com luz e sombra no chão
É quando germina o grão
É quando esbarra o machado
É quando o tronco hasteado
É sombra pra o polegar
É sombra pro fura-bolo
É sombra pro seu-vizinho
É sombra para o mindinho
É sombra prum passarinho
É sombra prum meninote
É sombra prum rapazote
É sombra prum cidadão
É sombra para um terreiro
É sombra pro povo inteiro
Do litoral ao sertão.
Com luz e sombra no chão
É quando germina o grão
É quando esbarra o machado
É quando o tronco hasteado
É sombra pra o polegar
É sombra pro fura-bolo
É sombra pro seu-vizinho
É sombra para o mindinho
É sombra prum passarinho
É sombra prum meninote
É sombra prum rapazote
É sombra prum cidadão
É sombra para um terreiro
É sombra pro povo inteiro
Do litoral ao sertão.
Essa bandeira que eu falo
Tem cores de poesia
Tem verde-folha-voada
Amarelo jaca-aberta…
Tem cores de poesia
Tem verde-folha-voada
Amarelo jaca-aberta…
Em tudo que é
vegetal
Tem bandeira desfraldada
No duro da baraúna
No forte da aroeira
No panejar buliçoso
Das frondosas bananeiras
Nas bandeirolas dos coentros
E na marca sertaneja:
O rijo e forte umbuzeiro.
Tem bandeira desfraldada
No duro da baraúna
No forte da aroeira
No panejar buliçoso
Das frondosas bananeiras
Nas bandeirolas dos coentros
E na marca sertaneja:
O rijo e forte umbuzeiro.
Jessier Quirino
02/01/2013
Receba por e-mail o e-book Aves da Caatinga


A
caatinga, palavra originária do tupi-guarani que significa "mata
branca", é o único sistema ambiental exclusivamente brasileiro. Possui
extensão territorial de 734.478 de quilômetros quadrados, correspondendo a cerca
de 10% do território nacional, está presente nos estados do Ceará, Rio Grande
do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Bahia, Piauí e norte de Minas
Gerais.
A
Editora Coqueiro e o portal www.onordeste.com - através da Enciclopédia Nordeste - ao
lançar o e-book "Aves da Caatinga" tem por objetivo iniciar a
desvendar uma pequena parte da enorme diversidade que representa este único e
rico bioma.
Para
receber por e-mail, inteiramente grátis, o e-book "Aves da Caatinga"
basta enviar um solitação para: mauricio.ivan@uol.com.br
Quanto
mais compreendermos caatinga, maior será o nosso orgulho de ser nordestino!
Ivan Maurício
Diretor de Conteúdo do portal www.onordeste.com
Diretor de Conteúdo do portal www.onordeste.com
17/11/2012
Factus est
O que fez o verão também fez
esta água parada água de mal viver.
Fez o dia de cacto e macambira, o dia de sono e sol
sobre a sombra dos pequizeiros. Fez a luz nos olhos
das onças pretas. Os bichos bravos
pisando macio nas folhas secas. As passadas fundas
na areia das trilhas
onde os comboios de jumentos
levaram suas cargas
de carne-seca, farinha e rapadura.
O que fez da vida a selva escondida nos troncos
sob o sol. Fez os olhos da pedra
que vence os verões. Fez as palhas da carnaúba
e as águas cortadas
águas mornas
água de barro
água de cacimba
que a sede não refuga.
O que parou as águas fez irreal este silêncio
dos chapadões. Fez os bichos obstinados
de sol e de poeira: as cabras as formigas
os cupins o homem sóbrio
e os seus dias de mal viver.
H.
Dobal, poeta piauiense
15/11/2012
Noel num vem
In todo ano é igual
Se aprochegando o
Natal
Já começa o farnizim
De avistar Papai Noel
Espirrar no meio do
céu
E arrisca é dele num
vim.
Liás, aqui nunca vei
Esse homi de vermei
Cum saco chei de
brinquedo
Só se vê mermo im
retrato
E os minino do mato
Só fica chupando os
dedo.
Me diga, o caba que
veve
Nas frialdade das
neve
No mei daquelas
lonjura
Que diabo vem vê pra
cá?
Só se for pa
esturricar
No oco dessa quentura.
Ele num vem nem a pau
Um caba internacional
Um lorde da
Escandinava
Custumado cum sarmão
Vai vim bater no
sertão
Pra cumer preá cum
fava?
Só se ele for bocó
Pra vim naquele trenó
Que nem pneu num
pissui
Se nas estrada da
roça
As vez inté as
carroça
Se ingancha nos
pidrigúi!?
Inda duvido tombem
Que os animá que ele
tem
Nesses camim lhe
carregue
No mei desses
carrapicho
Só sendo que aqueles
bicho
Vai ter os casco dum
jegue.
O natal de nossas
banda
Num tem os carrim que
anda
Nem robô que conta
estora
Num tem trenzim que
apita
Nem as buneca bonita
Que dorme, que fala e
chora.
Nós tem buneca de
trapo
Feita de tira e fiapo
Dos retaizim de rayon
Tem pião de aruera
E a mió roladera
De lata de mucilon.
Nós tem buneco de
barro
Tem as nota de
cigarro
E os cachorro de
areia
Tudo coisa de
arremedo
Foi num foi se esfola
um dedo
Chutando bola de meia.
Vamo dexar de ilusão
Que o véi da
televisão
Cum baiba branca na
cara
Vistido de incarnado
É um atô custumado
A inganar babaquara.
Não vá pensar que é
quexume
Inveja, raiva, ciúme
Ou coisa de quem
fuxica
Mais eu lhe digo: se
aquete
Que esse veim da
charrete
Só é pai de gente rica.
Zenóbio de Oliveira
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