Adélia Prado, em O Coração Disparado
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25/07/2026
Órfã na janela
Estou com saudade de Deus,
uma saudade tão funda que me seca.
Estou como palha e nada me conforta.
O amor hoje está tão pobre, tem
gripe,
meu hálito não está para salões.
Fico em casa esperando Deus,
cavacando a unha, fungando meu nariz
choroso,
querendo um pôster dele no meu
quarto,
gostando igual antigamente
da palavra crepúsculo.
Que o mundo é desterro eu toda vida
soube.
Quando o sol vai-se embora é pra casa
de Deus que vai,
pra casa onde está meu pai.
22/07/2026
Canção de mim mesmo
15
A contralto puro canta na galeria do
órgão,
O carpinteiro ajusta sua tábua, a
língua de sua plaina assobia seu zumbido selvagem e ascendente,
Os casados e solteiros rumam para casa
para a ceia de
Ação de Graças,
O piloto agarra o pino mestre, ele
carena com braço forte,
O imediato fica apoiado no baleeiro,
lança e arpão prontos,
O caçador de patos anda em expansões
silenciosas e cautelosas,
Os diáconos são ordenados com mãos
cruzadas ao altar,
A fiandeira recua e avança ao zunido
da grande roda,
O fazendeiro para nas traves ao andar
num passeio
de Primeiro Dia
E olha a aveia e o centeio,
O lunático é carregado por fim para
o asilo, um caso crônico,
(Ele nunca mais dormirá como no catre
no quarto da mãe;)
O tipógrafo de ofício com cabeça
cinzenta e maxilas esquálidas trabalha em sua caixa de tipos,
Ele gira seu bocado de tabaco enquanto
seus olhos se turvam com o manuscrito;
Os membros malformados estão atados à
mesa do cirurgião,
O que é removido cai horrivelmente
num balde;
A quadrarona é vendida no palanque do
leilão,
O bêbado balança a cabeça ao lado
da estufa do bar,
O maquinista enrola as mangas, o
policial percorre sua ronda,
O porteiro marca quem passa, o rapaz
conduz o vagão expresso,
(Eu o amo, embora não o conheça;)
O mestiço amarra suas botas leves
para competir na corrida,
O tiro ao peru no oeste atrai velhos e
jovens, alguns se apoiam nos rifles, alguns sentam nos troncos,
Da multidão caminha o atirador, toma
sua posição, aponta sua arma;
Os grupos de imigrantes recém-chegados
cobrem
o cais e as docas,
Enquanto as carapinhas cultivam o
canavial, o feitor os observa de sua sela,
O clarim chama no salão de festas,
Os cavalheiros correm para seus pares,
os dançarinos se reverenciam,
O jovem descansa acordado no sótão
com teto de cedro e escuta a chuva musical,
O Carcaju põe armadilhas no riacho
que ajuda a encher o Huron,
A índia enrolada em seu tecido de
bainhas amarelas está vendendo mocassins e bolsas de miçangas,
O perito esquadrinha a galeria de
exibição com olhos semi-fechados e o corpo oblíquo,
Conforme os taifeiros amarram o barco
a vapor a prancha é lançada para os passageiros descerem à praia,
A irmã jovem segura a meada enquanto
a mais velha desenrola o novelo, e para às vezes nos nós,
A esposa, um ano de casada, está se
recuperando e feliz tendo uma semana atrás seu primeiro filho,
A moça Yankee de cabelo limpo
trabalha com sua máquina de costura ou na fábrica ou no moinho,
O pavimentador se apoia no seu
bate-estacas, o grafite do repórter voa veloz no caderno de notas,
O letrista pinta com azul e dourado, o
rapaz do canal trota pela trilha de sirga,
O contador conta em sua escrivaninha,
o sapateiro encera seu cadarço,
O regente marca o andamento para a
banda
e todos os músicos o seguem,
A criança é batizada, o convertido
está fazendo suas primeiras profissões de fé,
A regata se espalha na baía, a
corrida começou, (como faíscam as velas brancas!)
O boiadeiro guardando sua boiada aboia
àqueles que se desgarram,
O mascate transpira com o pacote nas
costas, (o comprador pechincha por um centavo;)
A noiva desamarrota seu vestido
branco, o ponteiro dos minutos se move devagar,
O viciado em ópio se reclina com
cabeça rígida e
lábios recém-abertos,
A prostituta enlameia seu chale, sua
touca treme em seu pescoço espinhento e bêbado,
A multidão ri dos seus vis
juramentos, os homens zombam e piscam uns pros outros,
(Miserável! Não rio de teus
juramentos nem zombo de ti;)
O Presidente liderando um conselho de
gabinete é rodeado pelos grandes Secretários,
Na praça andam três matronas
majestosas e simpáticas com os braços cingidos,
A tripulação da sumaca amontoa
camadas repetidas de linguado gigante no recipiente,
O missouriano cruza as planícies
levando artigos e gado,
Conforme o cobrador anda pelo trem
ele se anuncia pelo tilintar do troco solto,
Os ladrilheiros assentam o soalho, os
latoeiros estão fazendo o teto, os pedreiros estão pedindo
argamassa,
Em fila indiana cada um arcando seu
cocho
passam os trabalhadores;
Estações se alternando a
indescritível multidão é reunida, é o quatro do Sétimo mês,
(que saudações de canhões e armas de fogo!)
Estações se alternando o lavrador
lavra, o ceifador ceifa, e a semente invernal cai na terra;
Nos lagos o piqueiro vigia e espera
junto ao buraco na superfície congelada,
Os cepos formam pilhas ao redor da
clareira, o usucapiente golpeia fundo com seu machado,
Chalaneiros se apressam rumo ao poente
junto
aos choupos ou nogueiras,
Capitães do mato atravessam as
regiões do Rio Vermelho ou aquelas banhadas pelo Tennessee, ou
aquelas do Arkansas,
Tochas luzem no escuro que pende sobre
Chattahooche ou Altamahaw,
Patriarcas sentam-se à ceia com
filhos
e netos e bisnetos em volta,
Em muros de adobe, em tendas de lona,
repousam caçadores de animais e peles após o esforço do dia,
Dorme a cidade e dorme o campo,
Os vivos dormem por sua vez, os mortos
dormem por sua vez,
Dorme o velho marido junto à esposa e
dorme o jovem marido junto à esposa;
E estes tendem interiormente para mim,
e eu tendo exteriormente para eles,
E tal como é para ser desses mais ou
menos sou,
E desses todos teço a canção de
mim.
Walt Whitman, em Folhas de Relva
20/07/2026
Todos fazem um poema a Carlos Drummond de Andrade
Enquanto punha o vestido azul com
margaridas amarelas
e esticava o cabelos para trás, a
mulher falou alto:
é isto, eu tenho inveja de Carlos
Drummond de Andrade
apesar de nossas extraordinárias
semelhanças.
E decifrou o incômodo do seu existir
junto com o dele.
Vamos ambos à enciclopédia, seguiu
dizendo, à cata
de constituição, e paramos em
«clematite, flor lilás
de ingênuo desenho que ama
desabrochar nas sebes europeias».
Temos terrores noturnos, diurnos
desesperos
e dias seguidos onde nada acontece.
Comemos, bebemos e diante do nosso
nome impresso
temos nenhum orgulho, porque esta
lembrança não deixa:
uma vez, na avenida Afonso Pena, um
bêbado gritando:
‘Todo mundo aqui é um saco de
tripas’.
Carlos é gauche. A mim, várias
vezes, disseram:
‘Não sabes ler a placa? É
CONTRAMÃO’.
Um dia fizemos um verso tão perfeito
que as pessoas começaram a rir. No
entanto persiste,
a partir de min, a raiva insopitada
quando citam seu nome, lhe dedicam
poemas.
Desta maneira prezo meu caderno de
versos,
que é uma pergunta só, nem ao mesmo
original:
‘Porque não nasci eu um simples
vaga-lume?’
Só à ponta de fina faca, o quisto da
minha inveja,
como aos mamões maduros se tiram os
olhos podres.
Eu sou poeta? Eu sou?
Qualquer resposta verdadeira
e poderei amá-lo.
Adélia Prado, em Bagagem
16/07/2026
Gente do bem
Gente que mantém
pássaros na gaiola
tem bom coração.
Os pássaros estão a salvo
de qualquer salvação.
Paulo Leminski, em Toda Poesia
11/07/2026
Retrato do artista quando coisa
Uso um deformante para a voz.
Em mim funciona um forte encanto a
tontos.
Sou capaz de inventar uma tarde a
partir de
uma garça.
Sou capaz de inventar um lagarto a
partir de
uma pedra.
Tenho um senso apurado de
irresponsabilidades.
Não sei de tudo quase sempre quanto
nunca.
Experimento o gozo de criar.
Experimento o gozo de Deus.
Faço vaginação com palavras até
meu retrato
aparecer.
Apareço de costas.
Preciso de atingir a escuridão com
clareza.
Tenho de laspear verbo por verbo até
alcançar
o meu aspro.
Palavras têm que adoecer de mim para
que se
tornem mais saudáveis.
Vou sendo incorporado pelas formas
pelos
cheiros pelo som pelas cores.
Deambulo aos esgarços.
Vou deixando pedaços de mim no cisco.
O cisco tem agora para mim uma
importância
de Catedral.
Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo
09/07/2026
Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos
meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era
uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha,
estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos
meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não
perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a
família,
E de não ter as esperanças que os
outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não
sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida,
perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de
meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser
menino.
O que fui — ai, meu Deus!, o que só
hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos
meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade
no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me
amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a
casa.
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo
como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos
meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse
tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar
ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem
tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez
que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com
melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas —
doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes,
e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos
meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado
roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos
meus anos!…
Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa), em Poesias de Álvaro de Campos
08/07/2026
A pedidos
Querem um verso,
mas não sou capaz.
Vejo a palavra fraturar
as entrelinhas,
tento soldá-las,
mas não são minhas.
Rompeu-se o verbo
e me deixou pra trás.
Flora Figueiredo, em Amor a céu aberto
04/07/2026
Reza para as quatro almas de Fernando Pessoa
Da belíssima “Ode à noite antiga”
resulta que eu entendo, limpo de
esforço
e vaidade, se nos fosse possível:
da oração verdadeira nasce a força.
Ninguém se cansa de bondade e
avencas.
Os rebanhos guardados guardam o homem.
Todos que estamos vivos morreremos.
Não é para entender que nós
pensamos,
é para sermos perdoados.
Pai nosso, criador da noite, do sonho,
do meu poder sobre os bois,
eis-me, eis-me.
Adélia Prado, em Bagagem
03/07/2026
Ignorar o céu
چگونه میتواند زیست
سنگ پشت پیر
سیصد سال
بی خبر از آسمان.
Como pode viver
a velha tartaruga
trezentos anos
ignorando o céu.
Abbas Kiarostami, em Nuvens de algodão
01/07/2026
Canção de Mim Mesmo | 14
O ganso selvagem guia seu bando pela
noite fresca,
Ele grasna, e soa para mim como um convite,
O atrevido pode supô-lo sem sentido, mas eu, ouvindo perto,
Acho seu propósito e lugar lá em cima no céu invernal.
O casquinho afiado alce do norte, o gato na soleira, o chapim, a marmota,
A ninhada da porca grunhente puxando suas tetas,
Os filhotes da perua e ela com suas asas semiabertas,
Vejo neles e em mim a mesma velha lei.
A pressão de meu pé sobre a terra desperta mil afeições,
Elas desdenham o meu esmero em narrá-las.
Estou encantado com o crescer ao ar livre,
Com homens que vivem entre gado ou provam do oceano ou da selva,
Com construtores e pilotos de navios e machadeiros e malhadores, e condutores de cavalos,
Posso comer e dormir com eles semana após semana.
O que é mais comum, mais barato, mais próximo, mais fácil, sou Eu,
Eu buscando oportunidades, gastando para vastos retornos,
Adornando-me para conceder-me ao primeiro que me tomará,
Sem pedir ao céu que baixe à minha boa vontade,
Difundindo-a livremente para sempre.
Ele grasna, e soa para mim como um convite,
O atrevido pode supô-lo sem sentido, mas eu, ouvindo perto,
Acho seu propósito e lugar lá em cima no céu invernal.
O casquinho afiado alce do norte, o gato na soleira, o chapim, a marmota,
A ninhada da porca grunhente puxando suas tetas,
Os filhotes da perua e ela com suas asas semiabertas,
Vejo neles e em mim a mesma velha lei.
A pressão de meu pé sobre a terra desperta mil afeições,
Elas desdenham o meu esmero em narrá-las.
Estou encantado com o crescer ao ar livre,
Com homens que vivem entre gado ou provam do oceano ou da selva,
Com construtores e pilotos de navios e machadeiros e malhadores, e condutores de cavalos,
Posso comer e dormir com eles semana após semana.
O que é mais comum, mais barato, mais próximo, mais fácil, sou Eu,
Eu buscando oportunidades, gastando para vastos retornos,
Adornando-me para conceder-me ao primeiro que me tomará,
Sem pedir ao céu que baixe à minha boa vontade,
Difundindo-a livremente para sempre.
Walt Whitman, em Folhas de Relva
29/06/2026
Helena
No cômodo onde Menelau vivera
Bateram. Nada. Helena estava morta.
A última aia a entrar fechou a porta,
Levaram linho, unguento, âmbar e
cera.
Noventa e sete anos. Suas pernas
Eram dois secos galhos recurvados.
Seus seios até o umbigo desdobrados
Cobriam-lhe três hérnias bem
externas...
Na boca sem um dente os lábios
frouxos
Murchavam, ralo pêlo lhe cobria
O sexo que de perto parecia
Um pergaminho antigo de tons roxos.
Maquiaram-lhe as pálpebras vincadas,
Compuseram seus ossos quebradiços,
Deram-lhe à boca uns rubores
postiços,
Envolveram-na em faixas perfumadas.
Então chamas onívoras tragaram
A carne que cindiu tantas vontades.
Quando sua sombra idosa entrou no
Hades
As sombras dos heróis todas choraram.
Alexei Bueno, em Lucernário
28/06/2026
Um homem doente faz a oração da manhã
Pelo sinal da Santa Cruz,
chegue até Vós meu ventre dilatado
e Vos comova, Senhor, meu mal sem
cura.
Inauguro o dia, eu que a meu crédito
explico
que passei em claro a treva da noite.
Escutei — e é quando às vezes
descanso —
vozes de há mais de trinta anos.
Vi no meio da noite nesgas claríssimas
de sol.
Minha mãe falou,
enxotei gatos lambendo
o prato da minha infância.
Livrai-me de lançar contra Vós
a tristeza do meu corpo
e seu apodrecimento cuidadoso.
Mas desabafo dizendo:
que irado amor Vós tendes.
Tem piedade de mim,
tem piedade de mim
pelo sinal da Vossa Cruz,
que faço na testa, na boca, no
coração.
Da ponta dos pés à cabeça,
de palma à palma da mão.
Adélia Prado, em Bagagem
25/06/2026
Diário de Bernardo Soares
116.
Escrever é esquecer. A literatura é
a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as
artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar)
entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um
sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida — umas porque
usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da
mesma vida humana.
Não é esse o caso da literatura.
Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um
drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de
ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que
ninguém fala em verso.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
24/06/2026
E Então Que Quereis?
Fiz
ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes
as pálpebras piscantes.
E
logo
de
cada fronteira distante
subiu
um cheiro de pólvora
perseguindo-me
até em casa.
Nestes
últimos vinte anos
nada
de novo há
no
rugir das tempestades.
Não
estamos alegres,
é
certo,
mas
também por que razão
haveríamos
de ficar tristes?
O mar
da história
é
agitado.
As
ameaças
e as
guerras
havemos
de atravessá-las,
rompê-las
ao meio,
cortando-as
como
uma quilha corta
as
ondas.
Vladimir Maiakovski, em Antologia Poética Russa
22/06/2026
Poeminha do contra
Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!
Mário Quintana, em Caderno H
20/06/2026
A teus pés
Trilha sonora ao fundo: piano no
bordel, vozes barganhando uma informação difícil. Agora silêncio;
silêncio eletrônico, produzido no sintetizador que antes construiu
a ameaça das asas batendo freneticamente.
Apuro técnico.
Os canais que só existem no mapa.
O aspecto moral da experiência.
Primeiro ato da imaginação.
Suborno no bordel.
Eu tenho uma ideia.
Eu não tenho a menor ideia.
Uma frase em cada linha. Um golpe de
exercício.
Memórias de Copacabana. Santa Clara
às três da tarde.
Autobiografia. Não, biografia.
Mulher.
Papai Noel e os marcianos.
Billy the Kid versus Drácula.
Drácula versus Billy the Kid.
Muito sentimental.
Agora pouco sentimental. Pensa no seu
amor de hoje que sempre dura menos que o seu amor de ontem.
Gertrude: estas são ideias bem
comuns.
Apresenta a jazz-band.
Não, toca blues com ela.
Esta é a minha vida.
Atavessa a ponte.
É sempre um pouco tarde.
Não presta atenção em mim.
Olha aqueles três barcos colados
imóveis no meio do grande rio.
Estamos em cima da hora.
Daydream.
Quem caça mais o olho um do outro?
Sou eu admito vitória.
Ela que mora conosco então nem se
fala.
Caça, caça.
E faz passos pesados subindo a escada
correndo.
Outra cena da minha vida.
Um amigo velho vive em táxis.
Dentro de um táxi é que ele me diz
que quer
chorar mas não chora.
Não esqueço mais.
E a última, eu já te contei?
É assim.
Estamos parados.
Você lê sem parar, eu ouço uma
canção.
Agora estamos em movimento.
Atravessando a grande ponte olhando o
grande
rio e os três barcos colados imóveis
no meio.
Você anda um pouco na frente.
Penso que sou mais nova do que sou.
Bem nova.
Estamos deitados.
Você acorda correndo.
Sonhei outra vez com a mesma coisa.
Estamos pensando.
Na mesma ordem de coisas.
Não, não na mesma ordem de coisas.
É domingo de manhã (não é dia útil
às três da tarde).
Quando a memória está útil.
Usa.
Agora é a sua vez.
Do you believe in love...?
Então está.
Não insisto mais.
O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos
biográficos.
Mais do que fiel, oh, tão presa!
Esses mosquitos que não largam! Minhas saudades ensurdecidas
por cigarras! O que faço aqui no
campo declamando aos metros versos longos e sentidos?
Ah que estou sentida e portuguesa, e
agora não sou mais, veja, não sou mais severa e ríspida:
agora sou profissional.
Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés
19/06/2026
Cem anos depois
Vamos passear na floresta
Enquanto D. Pedro não vem.
D. Pedro é um rei filósofo,
Que não faz mal a ninguém.
Vamos sair a cavalo,
Pacíficos, desarmados:
A ordem acima de tudo,
Como convém a um soldado.
Vamos fazer a República,
Sem barulho, sem litígio,
Sem nenhuma guilhotina,
Sem qualquer barrete frígio.
Vamos com farda de gala,
Proclamar os tempos novos,
Mas cautelosos, furtivos,
Para não acordar o povo.
José Paulo Paes, em O Melhor Poeta da Minha Rua
18/06/2026
Tabacaria
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os
sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do
mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que
saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua
cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os
pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa,
desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo
das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas
paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de
tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a
verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse
para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as
coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta
casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio,
e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um
ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e
achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade
que devo
À Tabacaria do outro lado da rua,
como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho,
como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum,
talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras
da casa,
Fui até ao campo com grandes
propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à
outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não
sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta
coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma
coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho
génios como eu,
E a história não marcará, quem
sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas
conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos
malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza,
sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas
do mundo
Não estão nesta hora
génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e
lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e
lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem
acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o
conquistar
E não para quem sonha que pode
conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão
fez.
Tenho apertado ao peito hipotético
mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que
nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da
mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para
isso;
Serei sempre só o que tinha
qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe
abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa
capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço
tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça
ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me
acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver
que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos
levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra
inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e
o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no
mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não
ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a
mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de
prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho
deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que
nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um
desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que
atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o
decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e
por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua
que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente
nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores,
gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito,
decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos
pais,
Ou não sei quê moderno — não
concebo bem o quê —,
Tudo isso, seja o que for, que sejas,
se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam
espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma
nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo
os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se
cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma
condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como
tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não
inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas
e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem
estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade
de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um
lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto
remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e
não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir
o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no
vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para
provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos
inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa
que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da
Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de
estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado
tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram
e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à
porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça
mal voltada
E com o desconforto da alma
mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei
versos.
A certa altura morrerá a tabuleta
também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua
onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os
versos.
Morrerá depois o planeta girante em
que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros
sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos
e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a
outra,
Sempre o impossível tão estúpido
como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo
como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou
nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para
comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de
repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido,
humano,
E vou tencionar escrever estes versos
em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em
escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação
de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e
competente,
A libertação de todas as
especulações
E a consciência de que a metafísica
é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder,
continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha
lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou
à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo
troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem
metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves
voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó
Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem
esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa), em Revista Literária Presença, ed. 39
17/06/2026
Epílogo
I am going to pass around in a
minute some lovely, glossy-blue picture postcards.
Num minuto vou passar para vocês
vários cartões postais belos e brilhantes. Esta é a mala de couro
que contém a famosa coleção.
Reparem nas minhas mãos, vazias.
Meus bolsos também estão vazios.
Meu chapéu também está vazio.
Vejam. Minhas manga.
Viro de costa, dou uma volta intena.
Como todos podem ver, não há nenhum
truque, nenhum alçapão escondido, nem jogos de luz enganadores.
A mala repousa nesta cadeira aqui.
Abro a mala com esta chave mestra em
cerimônias do tipo, e me permitem a brincadeira.
A primeira coisa que encontramos na
mala, por cima de tudo, é - adivinhem - um par de luvas.
Ei-la.
Pelica.
Coisa fina.
Visto as luvas – mão esquerda...
mão direita...
corte... perfeito.
Isso me lembra...
Um jovem artista perdido na elegante
Berlim da Belle Époque, sozinho, em vão procurando por
prazer. Passa um grupo ruidoso de patinadores, e uma mulher de branco
deixa cair a sua luva, uma luva com seis botões forrados, branca,
longa, perfumada. O jovem corre, apanha a luva, mas reluta se deve
aceitar ou não o desafio. Afinal decide ignorá-lo, guarda a luva no
bolso e volta caminhando para o seu hotel por ruas mal iluminadas.
Mas assim me desvio do meu propósito
desta noite. Depois se houver tempo concluirei esta história
fantástica, onde entra até uma carruagem de Netuno, um morcego
gigantesco que sorri e foge sempre, e um oceano de folhagens.
Quem sabe esta não é exatamente
aquela luva?
No entanto temos aqui não apenas uma,
mas o par; é muito delicado e contrasta com este terno preto.
A valise de couro conterá objetos de
toucador?
Não, meus amigos.
Como todos podem ver, mediante uma
ligeira rotação que faço na cadeira sobre a qual ela se encontra,
a valise contém apenas papel... cartões... dezenas, talvez centenas
de cartões postais.
Estranha valise!
E agora, atenção.
Com minhas mãos enluvadas – um
momento enquanto abotoo uma... e depois outra cuidadosamente... não
há fraude... ajusto os punhos, assim... – agora com estas mãos,
ao acaso, apanho o primeiro cartão postal, que contemplo por um
instante sob a luz... há um reflexo... mas vejo aqui uma moça
afogada entre os juncos... passo o primeiro cartão, por favor passem
uns para os outros... segundo cartão: a Avenida Atlântica... vão
passando... cadilaque em Acapulco... Carmem... Centro Pompidou...
igreja no Alabama... castelo visto do levante... dois cupidos de
óculos escuros... o ladrão de joias e a duquesa... e este aqui...
Fred Astaire em Lady Be Good, ou não faz arte, menina...
nostálgica... e uma Marilyn, e aqui a praia em Clacton com bingo e
fish and chips... o Boeing da Air France... bondes subindo a
ladeira em São Francisco... um urso polar no zoo de Barcelona...
Salomé‚... Londres... outra Salomé ... vão passando, vão
passando.
Meus amigos, isto é uma valise, não
é uma cartola com coelhos.
Temos cartões para a noite inteira.
Alexandria... Beirute... Praga...
Sejam misteriosas, um quadro de
Paul...
Gauguin, seguido de O que, estás com
ciúme?, uma pergunta malandra em tom capcioso, assim tomando sol na
praia.
E outros de museu aqui:
O olho, como um balão bizarro, se
dirige para o infinito;
No horizonte, o anjo das certitudes, e
no céu sombrio, um olhar interrogador;
A dama em desespero;
O sangue da Medusa;
As mães malvadas;
Tranco a porta sobre mim;
O beijo;
Outro beijo;
O ciúme novamente,
e agora o verdadeiro Morro dos
Ventos Uivantes, seguido de uma curiosa competição esportiva, e
de alguma pornografia, e de um padrinho Cícero.
Meus amigos, eu não sei onde nós
vamos parar.
Continuo a passar mais rapidamente
estes cartões. Reparem nesses bolinhos presos com elástico, e aliás
ia me esquecendo de dizer, podem e devem verificar se no verso há
palavras rabiscadas, este aqui por exemplo, “Para quando serão
nossas próximas horas exquisitas?”, esquisitas com xis, ou este
aqui, “O Posto 6, onde passei minha infância e minha adolescência,
como está mudado!”, ou este outro, ouçam só, “Fico tentando te
mandar um pedacinho de onde estou mas fica faltando sempre”. E com
uma letra bem miúda: “Acalmei bem, me distraí, não penso tanto,
penso a te”. Acho que o final está em italiano. Vão lendo, vão
lendo, a maioria está em branco mesmo, com licença.
Eu preciso sair mas volto logo.
Um cisco no olho, um pequeno cisco; na
volta continuo a tirar os cartões da mala, e quem sabe, quando o
momento for propício, conto o resto daquela história verdadeira,
mas antes de sair tiro a luva, deixo aqui no espaldar desta cadeira.
Fin
Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés
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