segunda-feira, 30 de abril de 2012

Concurso premia os melhores fotógrafos alemães de natureza

A foto acima, de Werner Bollmann, ficou em segundo lugar na categoria Passáros
Foto: GNPY 2012 / Werner Bollmann

Com esta foto, Klaus Echle conquistou o sexto lugar na categoria Passáros
Foto: GNPY 2012 / Klaus Echle

A foto de um pinguim de Michael Lohmann conquistou a terceira posição na categoria Passáros
Foto: GNPY 2012 / Michael Lohmann

‘Taiga Spirit’, de Serge Sorbi, conquistou o quarto lugar na categoria Passáros
Foto: GNPY 2012 / Serge Sorbi

A fotografia acima, de Bernhard Brautlecht, ficou na sexta posição na categoria Outros Animais
Foto: GNPY 2012 / Bernhard Brautlecht

O fotógrafo Martin Schmidt foi o primeiro lugar na categoria Paisagens
Foto: GNPY 2012 / Martin Schmidt

Na categoria Pássaros, a fotografia de Inglo Plenk foi a vencedora
Foto: GNPY 2012 / Inglo Plenk



A fotografia acima, de Rolf Muller, foi premiada na categoria Mamíferos
Foto: GNPY 2012 / Rolf Muller

O fotógrafo Uwe Naeve ficou em primeiro lugar na categoria especial
O fotógrafo Uwe Naeve ficou em primeiro lugar na categoria especial
Foto: GNPY 2012 / Uwe Naeve

A foto
A foto “Toad Migration”, de Klaus Tamm, vencedora do prêmio da Sociedade de Fotógrafos Alemães de Animais
Foto: GNPY 2012 / Klaus Tamm

Fonte: BBC Brasil

A Fascinante Pintura Hiper-realista do iraniano Iman Maleki


Omens of Hafez

A girl by the window (oil on canvas, 2000)

iman-maleki-painting

Elvis (Amazonas em Tempo)

A mulher e a casa

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.
João Cabral de Melo Neto

domingo, 29 de abril de 2012

A borboleta

Foto: Elilson Batista

Essa borboleta permaneceu vários dias no meu quarto e, diferentemente da personagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas, não senti nenhum repelão dos nervos e nem lancei mão de uma toalha para acertá-la.
Embora com janelas e porta aberta, ela teimava em ficar. A bela e enorme borboleta marrom estava condicionando os seus voos ao restrito espaço do quarto. Compadecido, coloquei-a numa sacola e soltei-a na rua em frente. Num voo oscilante, que só as borboletas têm, pousou em uma árvore do outro lado da rua: minha ação de bom menino estava concluída. 
Elilson José Batista

Inocência


Seamos todos locos
Santa Teresa

As pessoas que frequentam o Café Vermelhinho, em frente à abi — centro das jovens artes plásticas do Rio, e onde, depois das lides diárias, alguns escritores costumam também descansar o espírito —, conhecem, pelo menos de vista, o alagoano Antônio Galdino da Silva, autor do inocente poema que hoje vos trago para vos purificar dos males de serdes sociais. Trata-se, o poeta, de um caboclo escuro, cor de melaço rico, com uns olhos distantes e um bigodinho frio num rosto vigoroso e franco de nordestino. Capenga, passeia-se itinerante, a bengala quase chapliniana numa das mãos, na outra um leque de bilhetes de loteria, num trabalho persuasivo de oferecer fortunas, mas que nunca chega a ser maçante.
Não há aluno da Escola de Belas Artes que não lhe queira bem. Tenho certeza de que, numa batalha estudantil, Antônio Galdino da Silva brigaria até o fim em defesa de sua gente — e nisso ele me recorda o velho português Carmona, da Faculdade de Direito do meu tempo, que um dia passou as manoplas duras como um cadeado em volta das grades do portão da escola e explicou aos tiras, que do lado de fora se esforçavam por entrar: “Nos meus m’ninos ningaim bate!”.
Antônio Galdino da Silva apareceu de repente fazendo poesia. Alfredo Ceschiatti, escultor novo do grupo revolucionário das Belas Artes, cuja figura sonolenta como que já se vai fixando pictoricamente entre as vermelhidões do agitado café carioca, compareceu-me outro dia com essa “Santíssima Noemy, em Prece a Deus pelo seu Destino e sua Felicidade”, que Sombra ora vos dá como iguaria rara, em bandeja de prata. O poema, não saberia dizer como, levou-me atrás... ao tempo em que eu, menino de dezoito anos, descobria, entre confuso e maravilhado, no sossego de Itatiaia, a música do texto das Iluminações, de Rimbaud, e deixava-me levar, bêbado de poesia, no seu louco navio, em meio aos “azuis verdes” do mar e do céu confundidos pela visão do poeta. Não poderia explicar a aproximação. Não há nenhuma semelhança efetiva entre esses dois lirismos. São inocências diversas, fruto de naturezas diferentes. Talvez, quem sabe, a mesma tendência em ambos para a sabedoria das palavras inexistentes, inventadas no paroxismo da criação, e capazes de confundir num só organismo cores, climas, perfumes, imagens e ritmos perdidos — quem sabe...
É realmente extraordinário. Um poema nasce de um voto de amor e, súbito, no milagre de uma palavra, reúne tudo o que, de tão vago, poeta nenhum saberia dizer diferentemente sem se tornar banal:

Em sua vida cheia de inverderume céu!

Inverderume tem tudo: o inverno, a cor verde dos campos, uma luz que não chega a se precisar, a ideia da divindade feminina, um amanhecer e uma tarde. E depois deste achado, o poeta atinge, sem mais, uma altitude bíblica. A linha seguinte contém todo o mistério da mulher em sua santidade física. Esses acatos das trevas alucinantes são uma das coisas mais doidas que já li. Como interpretar, sem desfazer o mundo do sentido que circula no espaço dessas três palavras? Poderá haver sublimação maior?

Dos seus acatos das trevas alucinantes...
Em sacraremos das suas inlomares
Que vêm-me varejando os meus clarins.
E por quem é que vou gritando neste caminho?
É por Deus! é por Deus! é por Deus do Céu!...

Parece Isaías. Não são muitos os momentos maiores no tremendo poeta bíblico. Os versos descem numa cadência onde se alternam os mais terríveis gritos e as mais litúrgicas pacificações. O verso: “Em sacraremos das suas inlomares” solta pombas místicas no corpo silencioso de uma nave. O decassílabo que se segue é Guernica, de Picasso, sem tirar nem pôr. Os dois versos finais da estrofe são como a memória de outras vozes, as dos Profetas, a de Saulo na estrada de Damasco, perseguido de Deus...
Isso tudo, tão alto porque tão inocente. Se houvesse propósito, alguns desses versos perderiam talvez em conteúdo, embora me pareça que sua qualidade formal independa do fato de terem sido feitos por um homem simples. Mas sabermos que foram escritos por Antônio Galdino da Silva, bilheteiro, dá-lhes um panejamento insopitável.
Aqui e ali, o poeta lembra Augusto Frederico Schmidt, o Schmidt dos poemas proféticos e do “Canto da noite”:

Noemy anda perdida nas matas do Araquém?
Não! Não! Ainda não! Noemy está pensando
Está sonhando, está dormindo em casa
Da sua amiguinha e companheira inseparável!...

Só Schmidt é capaz de trabalhar conscientemente um valor poético de surpresa com tão cândida mestria. Senão, confronte-se:

Penso num vago luar, penso na estrela
Na andorinha do céu avoando, avoando...
Adeus, Julieta, vou fugir daqui!
(“O canto da noite”)

Em certos trechos surge o músico, o modinheiro que vive em potencial na alma brasileira de Antônio Galdino da Silva, trazendo acordes de frases suburbanas a Uriel Lourival, o divino poeta da valsa “Mimi”:

[...] e o sol brilha elegantemente
Se debruça aos meus pés chorando tanto
Que por uma credencial do sol brilhante
E, espalhadamente, é de minha Aleluia, Aleluia!...

Não vos poderei dizer mais. Relede o poema no silêncio de vós mesmos, e meditai depois sobre este verso puríssimo de um homem do povo que ganha a vida vendendo bilhetes, e cuja cor, no espectro, reúne todas as cores:

Felizes não são estes ainda que me veem de longe...
Vinicius de Moraes (setembro de 1941), in Para uma menina com uma flor

Ypê, com Belchior



Contemplo o rio, que corre parado
e a dançarina de pedra que evolui,
completamente sem metas, sentado.
Não tenho sido, eu sou, não serei, nem fui.
A mente quer ser, mas querendo erra;
pois só sem desejos é que se vive o agora.
Vêde o pé de ypê, apenas mente flore,
revolucionariamente
apenso ao pé da serra.
vêde o pé de ypê, apenas mente flore,
revolucionariamente
apenso ao pé da serra.

Famigerado


Foi de incerta feita — o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça? Eu estava em casa, o arraial sendo de todo tranquilo. Parou-me à porta o tropel. Cheguei à janela.
Um grupo de cavaleiros. Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente à minha porta, equiparado, exato; e, embolados, de banda, três homens a cavalo. Tudo, num relance, insolitíssimo. Tomei-me nos nervos. O cavaleiro esse — o oh-homem-oh — com cara de nenhum amigo. Sei o que é influência de fisionomia. Saíra e viera, aquele homem, para morrer em guerra. Saudou-me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida.
Nenhum se apeava. Os outros, tristes três, mal me haviam olhado, nem olhassem para nada. Semelhavam a gente receosa, tropa desbaratada, sopitados, constrangidos coagidos, sim. Isso por isso, que o cavaleiro solerte tinha o ar de regê-los: a meio-gesto, desprezivo, intimara-os de pegarem o lugar onde agora se encostavam. Dado que a frente da minha casa reentrava, metros, da linha da rua, e dos dois lados avançava a cerca, formava-se ali um encantoável, espécie de resguardo. Valendo-se do que, o homem obrigara os outros ao ponto donde seriam menos vistos, enquanto barrava-lhes qualquer fuga; sem contar que, unidos assim, os cavalos se apertando, não dispunham de rápida mobilidade. Tudo enxergara, tomando ganho da topografia. Os três seriam seus prisioneiros, não seus sequazes. Aquele homem, para proceder da forma, só podia ser um brabo sertanejo, jagunço até na escuma do bofe. Senti que não me ficava útil dar cara amena, mostras de temeroso. Eu não tinha arma ao alcance. Tivesse, também, não adiantava. Com um pingo no i, ele me dissolvia. O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo. O medo O. O medo me miava. Convidei-o a desmontar, a entrar.
Disse de não, conquanto os costumes. Conservava-se de chapéu. Via-se que passara a descansar na sela — decerto relaxava o corpo para dar-se mais à ingente tarefa de pensar. Perguntei: respondeu-me que não estava doente, nem vindo à receita ou consulta. Sua voz se espaçava, querendo-se calma; a fala de gente de mais longe, talvez são-franciscano. Sei desse tipo de valentão que nada alardeia, sem farroma. Mas avessado, estranhão, perverso brusco, podendo desfechar com algo, de repente, por um és-não-és. Muito de macio, mentalmente, comecei a me organizar. Ele falou:
"Eu vim preguntar a vosmecê uma opinião sua explicada..."
Carregara a celha. Causava outra inquietude, sua farrusca, a catadura de canibal. Desfranziu-se, porém, quase que sorriu. Daí, desceu do cavalo; maneiro, imprevisto. Se por se cumprir do maior valor de melhores modos; por esperteza? Reteve no pulso a ponta do cabresto, o alazão era para paz. O chapéu sempre na cabeça. Um alarve. Mais os ínvios olhos. E ele era para muito. Seria de ver-se: estava em armas — e de armas alimpadas. Dava para se sentir o peso da de fogo, no cinturão, que usado baixo, para ela estar-se já ao nível justo, ademão, tanto que ele se persistia de braço direito pendido, pronto meneável. Sendo a sela, de notar-se, uma jereba papuda urucuiana, pouco de se achar, na região, pelo menos de tão boa feitura. Tudo de gente brava. Aquele propunha sangue, em suas tenções. Pequeno, mas duro, grossudo, todo em tronco de árvore. Sua máxima violência podia ser para cada momento. Tivesse aceitado de entrar e um café, calmava-me. Assim, porém, banda de fora, sem a-graças de hóspede nem surdez de paredes, tinha para um se inquietar, sem medida e sem certeza.
— "Vosmecê é que não me conhece. Damázio, dos Siqueiras... Estou vindo da Serra..."
Sobressalto. Damázio, quem dele não ouvira? O feroz de estórias de léguas, com dezenas de carregadas mortes, homem perigosíssimo. Constando também, se verdade, que de para uns anos ele se serenara — evitava o de evitar. Fie-se, porém, quem, em tais tréguas de pantera? Ali, antenasal, de mim a palmo! Continuava:
— "Saiba vosmecê que, na Serra, por o ultimamente, se compareceu um moço do Governo, rapaz meio estrondoso... Saiba que estou com ele à revelia... Cá eu não quero questão com o Governo, não estou em saúde nem idade... O rapaz, muitos acham que ele é de seu tanto esmiolado..."
Com arranco, calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar.
O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos, insequentes, como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava: E, pá:
— "Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado... faz-megerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?
Disse, de golpe, trazia entre dentes aquela frase. Soara com riso seco. Mas, o gesto, que se seguiu, imperava-se de toda a rudez primitiva, de sua presença dilatada. Detinha minha resposta, não queria que eu a desse de imediato. E já aí outro susto vertiginoso suspendia-me: alguém podia ter feito intriga, invencionice de atribuir-me a palavra de ofensa àquele homem; que muito, pois, que aqui ele se famanasse, vindo para exigir-me, rosto a rosto, o fatal, a vexatória satisfação?
— "Saiba vosmecê que saí ind'hoje da Serra, que vim, sem parar, essas seis léguas, expresso direto pra mor de lhe preguntar a pregunta, pelo claro..."
Se sério, se era. Transiu-se-me.
— "Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem têm o legítimo — o livro que aprende as palavras... É gente pra informação torta, por se fingirem de menos ignorâncias... Só se o padre, no São Ão, capaz, mas com padres não me dou: eles logo engambelam... A bem. Agora, se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que é, o que já lhe perguntei?"
Se simples. Se digo. Transfoi-se-me. Esses trizes:
 Famigerado?
— "Sim senhor..." — e, alto, repetiu, vezes, o termo, enfim nos vermelhões da raiva, sua voz fora de foco. E já me olhava, interpelador, intimativo — apertava-me. Tinha eu que descobrir a cara. — Famigerado? Habitei preâmbulos. Bem que eu me carecia noutro ínterim, em indúcias. Como por socorro, espiei os três outros, em seus cavalos, intugidos até então, mumumudos. Mas, Damázio:
— "Vosmecê declare. Estes aí são de nada não. São da Serra. Só vieram comigo, pra testemunho..."
Só tinha de desentalar-me. O homem queria estrito o caroço: o verivérbio.
 Famigerado é inóxio, é "célebre", "notório", "notável"...
— "Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?"
— Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos...
— "Pois... e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana?"
 Famigerado? Bem. É: "importante", que merece louvor, respeito...
— "Vosmecê agarante, pra a paz das mães, mão na Escritura?"
Se certo! Era para se empenhar a barba. Do que o diabo, então eu sincero disse:
— Olhe: eu, como o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado — bem famigerado, o mais que pudesse!...
— "Ah, bem!..." — soltou, exultante.
Saltando na sela, ele se levantou de molas. Subiu em si, desagravava-se, num desafogaréu. Sorriu-se, outro. Satisfez aqueles três: — "Vocês podem ir, compadres. Vocês escutaram bem a boa descrição..." — e eles prestes se partiram. Só aí se chegou, beirando-me a janela, aceitava um copo d'água. Disse: — "Não há como que as grandezas machas duma pessoa instruída!" Seja que de novo, por um mero, se torvava? Disse: — "Sei lá, às vezes o melhor mesmo, pra esse moço do Governo, era ir-se embora, sei não..." Mas mais sorriu, apagara-se-lhe a inquietação. Disse: — "A gente tem cada cisma de dúvida boba, dessas desconfianças... Só pra azedar a mandioca..." Agradeceu, quis me apertar a mão. Outra vez, aceitaria de entrar em minha casa. Oh, pois. Esporou, foi-se, o alazão, não pensava no que o trouxera, tese para alto rir, e mais, o famoso assunto.
Guimarães Rosa, in Primeiras Estórias

Soneto 92 ambíguo

Quem quer a exatidão não é poeta.
Poetas têm o dom da ambiguidade.
A imagem pode ser falsa ou verdade,
Depende só de como se interpreta.

O matemático é uma linha reta.
Filósofos duvidam da unidade.
Católicos têm fé numa trindade.
Mas o poeta nunca se completa.

Quer no “duplipensar” do autor inglês,
Quer seja o “VIVA VAIA” do concreto
Ou triplo trocadilho, a dois por três,

Palavra de poeta não tem teto,
Tem piso, onde rasteja este freguês
Do pé perverso, meu pé predileto.

Glauco Matoso

sábado, 28 de abril de 2012

A Diva

Você se lembra de seu primeiro amor? A excitação infindável da novidade, a descoberta de sua faceta adulta, todos os prazeres e dores…
Agora, imagine se o objeto desse amor inaugural fosse a pessoa mais famosa – e desejada – do mundo. Imagine se, ao menos por alguns dias, em seus braços estivesse Marilyn Monroe.
Pois bem, é esse o pano de fundo de “Sete Dias com Marilyn” (“My Week With Marilyn”, de Simon Curtis).


Ali, o enredo se desenvolve ao redor de Colin Clark (o gracinha Eddie Redmayne), quem, no alto de seus 23 anos, se vê como o terceiro assistente de diretor de um filme, “O Príncipe Encantado”, estrelado por ninguém menos que Marilyn Monroe (belíssima atuação, indicada ao Oscar, de Michelle Williams) e Lawrence Olivier (Kenneth Branagh) e, de quebra, acaba se tornando amante e confidente da estrela principal.
Colin, com toda sua inocência, não apenas se apaixona pela irresistível platinada curvilinea, como também atua como instrumento para que nós, espectadores, enxerguemos parte da faceta humana da personagem femme fatale.
Mais do que isso, ao lado do garoto – e a partir de seu ponto de vista – somos capazes de enxergar as facetas mais humanas (e frágeis) de Marilyn.
H.L. Mencken já alertara que:
O que os homens tomam como beleza em si próprios normalmente não passa de uma pompa oca, uma revoltante ostentação, o espendor superficial de um saracoteio animal (…) Ele sucumbe a um par de olhos bem pintados, a um torneio gracioso de um corpo, a uma compleição sintética ou a uma bela amostra de pernas, sem dar a minima atenção ao fato de que ali pode haver uma mulher inteira, e que as idiossincrasias desse cérebro são muito mais importantes do que todos os estigmas físicos combinados. (…) O ideal de seu sexo é sempre uma mulher bonita, e a vaidade e a frivolidade que costumam acompanhar a beleza tornam-se os totens do encanto” (MENCKEN, H.L.,O Livro dos Insultos, Ed. Companhia das Letras).

E é essa fragilidade da realidade, aliada à potência do desejo, que fazem desse filme tão forte: uma paixão, em si, já é capaz de transpor quaisquer defeitos da pessoa amada; uma paixão por uma diva, porém, ultrapassa os últimos limites da razão (humilhação e subserviência se confundem; idolatria se mistura com ilusão), e faz o pobre amante querer – incondicionalmente – em vão.


Fonte: blogreverb.wordpress.com (A diva, por Flora)

Níquel Náusea, de Fernando Gonsales

O Delírio - Capítulo VII (trecho), de Memórias Póstumas de Brás Cubas


— Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.
Ao ouvir esta última palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o efeito de um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das coisas externas.
— Não te assustes, disse ela, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se afirma. Vives; não quero outro flagelo.
— Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar-me da existência.
— Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver.
Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora uma pluma. Só então pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma contorção violenta, nenhuma expressão de ódio ou ferocidade; a feição única, geral, completa, era a da impassibilidade egoísta, a da eterna surdez, a da vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual me sentia eu o mais débil e decrépito dos seres.
— Entendeste-me? disse ela, no fim de algum tempo de mútua contemplação.
— Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma fábula. Estou sonhando, decerto, ou, se é verdade, que enlouqueci, tu não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma coisa vã, que a razão ausente não pode reger nem palpar. Natureza, tu? a Natureza que eu conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagelo, nem, como tu, traz esse rosto indiferente, como o sepulcro. E por que Pandora?
— Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens. Tremes?
— Sim; o teu olhar fascina-me.
— Creio; eu não sou somente a vida; sou também a morte, e tu estás prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.
Quando esta palavra ecoou, como um trovão, naquele imenso vale, afigurou-se-me que era o último som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita de mim mesmo. Então, encarei-a com olhos súplices, e pedi mais alguns anos.
— Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a quietação da noite, os aspectos da Terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?
— Viver somente, não te peço mais nada. Quem me pôs no coração este amor da vida, senão tu? e, se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me?
— Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jucundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.
Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma coisa única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos Impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim,— flagelos e delícias, — desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, — nada menos que a quimera da felicidade, — ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.
Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de angústia, que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e não sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que me pus a rir, — de um riso descompassado e idiota.
— Tens razão, disse eu, a coisa é divertida e vale a pena, — talvez monótona — mas vale a pena. Quando  amaldiçoava o dia em que fora concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o espetáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a coisa é divertida, mas digere-me.
A resposta foi compelir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os séculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações que se superpunham às gerações, umas tristes, como os Hebreus do cativeiro, outras alegres, como os devassos de Cômodo, e todas elas pontuais na sepultura. Quis fugir, mas uma força misteriosa me retinha os pés; então disse comigo: — Bem, os séculos vão passando, chegará o meu, e passará também, até o último, que me dará a decifração da eternidade. E fixei os olhos, e continuei a ver as idades, que vinham chegando e passando, já então tranquilo e resoluto, não sei até se alegre. Talvez alegre. Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz, de apatia e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de ideias novas, de novas ilusões; cada um deles rebentavam as verduras de uma primavera, e amareleciam depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário, fazia-se a história e a civilização, e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construía o tugúrio e o palácio, a rude aldeia e Tebas de cem portas, criava a ciência, que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecânico, filósofo, corria a face do globo, descia ao ventre da Terra, subia à esfera das nuvens, colaborando assim na obra misteriosa, com que entretinha a necessidade da vida e a melancolia do desamparo. Meu olhar, enfarado e distraído, viu enfim chegar o século presente, e atrás deles os futuros. Aquele vinha ágil, destro, vibrante, cheio de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miserável como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei de atenção; fitei a vista; ia enfim ver o último, — o último!; mas então já a rapidez da marcha era tal, que escapava a toda a compreensão; ao pé dela o relâmpago seria um século. Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um nevoeiro cobriu tudo, — menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel...

"Eu não procuro saber as respostas, procuro compreender as perguntas."
Confúcio

Agosto 1964

Entre lojas de flores e de sapatos, bares
Mercados, butiques.
Viajo
Num ônibus Estrada de Ferro – Leblon.
Volto do trabalho, a noite em meio,
Fatigado de mentiras.
O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,
Relógio de lilases, concretismo,
Neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,
Que a vida
Eu a compro à vista aos donos do mundo.
Ao peso dos impostos, o verso sufoca,
A poesia agora responde a inquérito policial militar.
Digo adeus à ilusão
Mas não ao mundo. Mas não à vida,
Meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
Da punição injusta,
Da humilhação, da tortura,
Do terror,
Retiramos algo e com ele construímos um artefato,
Um poema,
Uma bandeira.
Ferreira Gullar, in Toda poesia

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Bárbaro, com a Trupe Chá de Boldo


A morrença dos meus cumpade


Mas como é que pode, dois caba tá vivo
Forgoso, gaboso, da vida se rir
Os coro da testa sem nunca franzir
Disposto na luta, lutando contente
Sem mesmo tá canso de ser um vivente,
Um corre pro sul mode podregir
O outro pogrede mesmo por aqui
A morte carrega os dois indivíduo
Dá uma descurpa: morreu por ter ido
O outro, coitado, morreu de não ir.

Cumpade Coitim bateu a biela
Sem frei nas estrada, em riba dum fó
Pedim defuntou-se no mei dum forró
Honório pifou com a mão na bainha
Quem enviuvou Gorete e Ritinha
Foi João Cascavé e Bento Cotó
Bié de Zé Tôta fechou o paletó
Mudou-se pro céu cumpade Biliu
Cumpade Zé Danta ninguém nunca viu
Mas dizem que foi-se daqui pra mió.

Quem bateu as bota foi Zé Bacamarte,
Findou-se de vez cumpade Zulu,
Quem empacotou-se com tanta pitu
Foi Pinga, Meloso, Meota e Topada
Ginura já tava na última morada
Quando pediu baixa o vaqueiro Zebu
Foi pro beleléu nas bandas do sul
Veúca, Moreno, Ponez e Zezim
Mimosa se foi que nem passarim
Baixou sete palmos, Luiz do Exu.

Deu uma roleta lá no mei da feira
Juntou-se um bocado com seu criador
Deu adeus ao mundo Mané Vendedor
Foi chegada a hora de Biu das Jumenta
Foi pro rol dos bom, cumpade Pimenta
Biu Pêdo Firmino por fim descansou
Disseram que Nino também botoou
Sargento já foi promovido a defunto
Tiraram Cirila de lá de pé junto.

Perdi meus cumpade
Não sei quando eu vou.

Jessier Quirino, in Besta Fubana