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22/04/2015
02/04/2015
O homem não progrediu muito
“Por mais que se diga, por mais que se façam grandes discursos sobre a evolução, a civilização e um monte de palavras em 'ção', o homem não progrediu muito desde seus primórdios: continua a crer que não esta aqui por acaso e que deuses em sua maioria benevolentes zelam por seu destino.”
Muriel Barbery, in A elegância do ouriço
28/03/2015
16/03/2015
A eternidade nos escapa
“Assim,
como se passa a vida? Nós nos esforçamos bravamente, dia após dia,
para assumir nosso papel nessa comédia
fantasma. Como primatas que somos, o essencial de nossa atividade
consiste em manter e entreter nosso território de tal modo que nos
proteja e nos envaideça, em escalar, ou pelo menos em não descer, a
escada hierárquica da tribo, e em fornicar de todas as maneiras
possíveis – ainda que como um fantasma – tanto para o prazer
como para a descendência prometida. Assim, gastamos parte não
desprezível de nossa energia a intimidar ou seduzir, já que essas
duas estratégias garantem, sozinhas, a busca territorial,
hierárquica e sexual que anima nosso conato. Mas nada disso chega à
nossa consciência. Falamos de amor, de bem e de mal, de filosofia e
de civilização, e nos agarramos a esses ícones respeitáveis como
o carrapato sedento a seu cão bem quentinho.
Às vezes, porém,
a vida nos parece uma comédia
fantasma. Como tirados de um sonho, olhamos os outros agir e, gelados
ao verificarmos o dispêndio vital requerido pela manutenção de
nossos requisitos primitivos, perguntamos com espanto o que restou da
Arte. Nosso frenesi de caretas e olhadelas nos parece de repente o
cúmulo da insignificância, nosso pequeno ninho tão macio, fruto de
um endividamento de vinte anos, parece um inútil costume bárbaro, e
nossa posição na escala social, tão duramente conquistada e tão
eternamente precária, parece de uma grosseira inutilidade. Quanto à
nossa descendência, nós a contemplamos com um olhar novo e
horrorizado porque, sem as vestes do altruísmo, o ato de se
reproduzir parece profundamente deslocado. Restam apenas os prazeres
sexuais; mas, arrastados no rio da miséria primal, eles vacilam da
mesma forma, pois a ginástica sem o amor não entra no quadro de
nossas lições bem aprendidas.
A
eternidade nos escapa.
Nestes
dias em que soçobram no altar de nossa natureza profunda todas as
crenças românticas, políticas, intelectuais, metafísicas e morais
que os anos de instrução e educação tentaram imprimir em nós, a
sociedade, campo territorial cruzado por grandes ondas hierárquicas,
afunda no nada do Sentido. Acabam-se os ricos e os pobres, os
pensadores, os pesquisadores, os gestores, os escravos, os gentis e
os malvados, os criativos e os conscienciosos, os sindicalistas e os
individualistas, os progressistas e os conservadores; não são mais
que hominídeos primitivos, e suas caretas e risos, seus
comportamentos e enfeites, sua linguagem e seus códigos, inscritos
na carta genética do primata médio, significam apenas isto: manter
o próprio nível ou morrer.
Nesses
dias, precisamos desesperadamente da Arte. Aspiramos ardentemente a
retomar nossa ilusão espiritual, desejamos apaixonadamente que algo
nos salve dos destinos biológicos para que toda poesia e toda
grandeza não sejam excluídas deste mundo.”
Muriel
Barbery,
in
A
elegância do ouriço
28/02/2015
A Arte
“Como
toda forma de Arte, tem a missão de tornar suportável a realização
de nossos deveres vitais. Para uma criatura que, como o humano, molda
seu destino na base de reflexão e da reflexividade, o conhecimento
que daí decorre tem o caráter insuportável de toda a lucidez nua.
Sabemos que somos animais dotados de uma arma de sobrevivência, e
não deuses moldando o mundo com seu pensamento próprio, e é
preciso algo para que essa sagacidade se torne tolerável, algo que
nos salve da tristeza e eterna febre dos destinos biológicos. Então,
inventamos a Arte, esse outro processo dos animais que somos, a fim
de que nossa espécie sobreviva.”
Muriel
Barbery, in Elegância
do ouriço
22/02/2015
Girar a grande ilusão universal
“Como
raramente sou simpática, embora sempre bem-educada, não gostam de mim, mas me
toleram porque correspondo tão bem ao que a crença social associou ao paradigma
da concierge, que sou uma das múltiplas engrenagens que fazem girar a grande
ilusão universal de que a vida tem um sentido que pode ser facilmente
decifrado.”
Muriel Barbery, in Elegância do ouriço
07/02/2015
Nós: pobres abelhas
“Acho que
só há uma coisa para fazer: encontrar a tarefa para a qual nascemos e realizá-la
o melhor possível, com todas as nossas forças, sem complicar as coisas e sem
acreditar que há um lado divino na nossa natureza animal. Só assim é que
teremos a sensação de estar fazendo algo construtivo no momento em que a morte
nos pegar. A liberdade, a decisão, a vontade, tudo isso são quimeras.
Acreditamos que podemos fazer mel sem partilhar o destino das abelhas; mas nós
também não somos mais que pobres abelhas fadadas a cumprir sua tarefa e depois
morrer.”
Muriel Barbery, in Elegância do ouriço
03/02/2015
O cínico

“Explico-me:
não há ninguém mais sonhador que o cínico. É porque ainda acredita, do fundo da
alma, que o mundo tem um sentido e porque não consegue abrir mão das baboseiras
da infância que ele adota uma atitude contrária. ‘A vida é uma bandida, não
creio em mais nada, e dela gozarei até a náusea’ são as palavras perfeitas de
um ingênuo contrariado.”
Muriel Barbery, in Elegância do ouriço
09/12/2014
Aquário

Google Imagens
“As
pessoas creem perseguir as estrelas e acabam como peixes-vermelhos num aquário.
Fico pensando se não era mais simples ensinar desde o início às crianças que a
vida é absurda. Isso privaria a infância de alguns bons momentos, mas faria o
adulto ganhar um tempo considerável – sem falar que, pelo menos, seriámos
poupados de um traumatismo, o do aquário.”
Muriel Barbery, in Elegância do ouriço
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