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17/11/2023

Livro Segundo – O Sol Morrendo Entre as Árvores | II


O dia seguinte era domingo e chovia. De tarde, Kikuji foi ao chachitsu a fim de pôr em ordem os objetos que tinham sido usados na véspera à noite. Esperava secretamente retemperar-se na atmosfera da moça, como se ainda pudesse ali respirar o perfume da Srta. Inamura.
Tendo pedido um guarda-chuva à empregada, aprestava-se a seguir pelas pedras dispostas como ilhazinhas até a entrada do pavilhão de chá, quando notou que a água caía forte diante da romãzeira. Erguendo os olhos, constatou que havia um buraco grande na calha.
— É preciso mandar consertar isso — disse à doméstica.
— É também o que eu acho, senhor.
Não raro, quando chovia à noite, ele já tinha sido perturbado na cama por aquele jorro, que o impedia de dormir.
— Mas quando a gente começa a fazer consertos, você sabe como são as coisas, não se termina nunca. O melhor seria vender tudo antes que os defeitos se tornem grandes demais.
— Todos os que possuem casas grandes dizem o mesmo hoje — observou a fiel auxiliar. — No entanto a senhorita que esteve aqui ontem de noite ficou maravilhada com a casa tão grande. Ela tem o propósito de vir morar aqui, não é?
Sem dúvida era essa a sua forma de significar que ele não devia vender.
— A Sra. Kurimoto lhe falou então de alguma coisa?
— Sim, senhor. Logo que a senhorita chegou, ela fez com que visitasse a casa toda.
— Só faltava isso!
Na noite anterior, a moça não lhe deixara adivinhar nada com as palavras. Como era possível? Imaginava que ela só tivesse entrado para o salão, daí passando para o pequeno pavilhão do jardim pelo caminho de pedras, tal como ele ia fazer hoje.
Já na noite precedente, como não conseguia dormir, sentia-se empurrado para o chachitsu a fim de respirar de novo o aroma dela. Mas, raciocinando, repetia a si mesmo, procurando dormir, que ela era dum mundo diferente, para sempre inacessível. Alguém de outra esfera... sempre...
Que Chikako a tivesse feito visitar a casa toda, era a última coisa que teria podido imaginar!
Kikuji pediu à doméstica que lhe trouxesse um braseiro para o chachitsu e seguiu pelo caminho das pedras. Na véspera Chikako, porque devia voltar para Kita-Kamakura, partira ao mesmo tempo que a Srta. Inamura, deixando à empregada a tarefa de arrumar o pavilhão de chá. Assim, não restava mais a Kikuji que pôr no lugar a preciosa baixela e outros objetos, provisoriamente deixados a um canto da pequena peça. Infelizmente, conhecia mal o lugar em que cada coisa devia ser colocada. Resmungando que, sem dúvida, a Kurimoto sabia isso melhor que ele, virou-se para apreciar o kakemono pendurado na véspera: o retrato de um poeta, uma pequena perfeição de Sotatsu, delicada pintura a tinta, finamente realçada com cores de tons esfumados.
No curso da noitada, a Srta. Inamura lhe perguntara o nome do personagem que o retrato representava, mas não pôde senão responder:
— Nada sei, realmente, devo confessar. Nas obras desse estilo, os retratados sofrem um tratamento sempre tão igual que, sem o poema, não se adivinha quem são.
Chikako interveio:
— Deve ser o poeta Muneyuki, e o poema diz mais ou menos: "O verde do pinheiro, que dura todo o ano, parece no entanto mais cintilante quando se acerca a primavera." Devo admitir que essa estação agora já passou um pouco. Mas o seu pai, Sr. Mitani, estimava muito esta obra, com a qual não raro adornava o chachitsu na primavera.
A tais explicações, Kikuji observou que não se podia de fato saber pelo retrato se era Muneyuki ou Tsurayuki. E confirmava de novo agora essa imprecisão, ao contemplar aquele rosto cuja serenidade não era perturbada por nenhum pormenor pessoal que permitisse identificá-lo. Porém o pequeno quadro, de linhas extraordinariamente puras, tinha uma força de sugestão impressionante. Bastava contemplá-lo para alguém se sentir penetrado de viço e pureza.
Como não pensar de novo na Srta. Inamura? E só o arrancou desses pensamentos a chegada da doméstica com o braseiro e a água quente.
— Desculpe se demorei, mas preferi aquecer antes a água. Fica mais cômodo.
Devia ter pensado que era para o chá que pedira o fogo. Na realidade, só pensara no úmido do pavilhão e não tinha qualquer intenção de utilizar a chaleira.
Para não decepcioná-la, colocou o fogo no tripé, mas não da maneira artística, e pôs em cima a chaleira de ferro.
Desde tenra infância, Kikuji conhecia as sessões de chá, de que seu pai era fervente adepto, mas nunca tivera vontade de se entregar àquela prática. Seu pai tampouco jamais insistiu para que aprendesse essa arte.
Neste mesmo instante, logo que a água começou a cantar na chaleira, Kikuji, entregue às suas ideias, contentou-se em deslocar um pouco a tampa sem cerimônia, prosseguindo em sua cisma.
A peça cheirava um tanto a fechado, as esteiras tinham pegado umidade. A tonalidade sóbria das paredes, tão perfeita para valorizar a silhueta de sua jovem convidada de ontem à noite, parecia-lhe hoje triste.
Yukiko, nesta moldura, tinha-lhe causado um pouco o efeito duma moça habituada a viver à maneira ocidental, que não veste senão para certas ocasiões as roupas japonesas e só retoma por exceção o jogo das formas tradicionais. Como para se desculpar, ele lhe tinha dito:
— Esse convite imprevisto da Kurimoto deve tê-la atrapalhado, imagino. É também dela que vem a ideia de recebê-la neste pavilhão de chá.
— Disse-me que era o aniversário da sessão de chá de seu pai.
— A mim também lembrou isso. Tinha esquecido completamente e não me teria de modo algum preocupado.
— A Srta. Kurimoto é uma mestra de chá a quem não falta ironia, receio, convidando a iniciante que eu sou para um semelhante aniversário! Sou ainda menos digna de algo assim porque não tenho seguido o ensino com muita aplicação nesses últimos tempos.
— Foi também esta manhã que Kurimoto subitamente se lembrou do aniversário e resolveu ir pôr em uso o pavilhão. Cheira a fechado, não acha?
E com a voz hesitante, de repente, acrescentou:
— Foi em todo caso uma sorte para mim tê-la conhecido. Lastimo apenas que tenha sido por intercessão dessa mulher... Lastimo muito... especialmente por você.
A moça o olhou, perplexa:
— Mas por quê? Se a Srta. Kurimoto não estivesse aí, ninguém nos teria apresentado um ao outro.
Era tão simples quanto real. Sem Kurimoto não teriam nunca se encontrado. E foi para Kikuji como uma chicotada deslumbrante. Não acabava ela implicitamente de revelar que o projeto de matrimônio tinha o seu consentimento? Era a sua convicção. O ar perplexo e o olhar interrogativo da moça se esclareceram para ele.
Perguntava-se ainda o que ela devia julgar de ouvir chamar simplesmente de Kurimoto, sem uma expressão de polidez, a sua mestra de chá. Saberia que Kurimoto tinha sido a amante de seu pai, embora apenas o tempo duma aventura breve?
— Para mim — quis explicar — existem amargas lembranças relacionadas com a pessoa de Kurimoto.
Sua voz quebrava.
— Me seria especialmente desagradável que chegasse a ser um instrumento do meu destino. Não quero acreditar que seja graças a ela que conheci você.
Chikako chegou então com o jantar para três.
— Me admitem como comensal? — disse, deixando-se cair na esteira como para retomar o fôlego.
Depois, virou-se para a Srta. Inamura, inclinando levemente o busto:
— Sinto muito, realmente, que seja a única conviva. Vai decerto se aborrecer.
Inclinando-se a seguir um pouco para Kikuji, finalizou:
— Mas estou certa, Sr. Mitani, de que seu pai está contente e nos assiste.
A jovem se satisfez em baixar os olhos, afirmando outra vez quanto se sentia pouco qualificada para entrar no venerado chachitsu do falecido pai do Sr. Mitani.
Chikako, sem se deter nessas declarações, pôs-se a narrar o papel do pavilhão antes da morte do Sr. Mitani, aflorando as recordações que lhe ocorriam.
Parecia não guardar a mínima dúvida quanto à conclusão do casamento entre Kikuji e a Srta. Inamura. À porta, na hora de sair, declarou-o mais claro ainda ao dizer, diante desta, ao rapaz:
— Na próxima vez, seremos nós que vamos visitar a Srta. Inamura. Mas dessa vez ao menos, avisando com antecedência.
Aprovando com a cabeça, a moça esteve à beira de dizer alguma coisa, mas em seguida se conteve, como a despeito de si mesma, com uma rara expressão de pudor atingido.
Kikuji estava tão longe de esperar uma tal transparência dos seus sentimentos, que uma lufada de calidez o invadiu, inclusive no corpo: teve a impressão de que passava por ele o calor dela. Apesar de tudo, o sombrio e sujo quadro em que se debatia nem por isso se anulou.
Agora ainda, sozinho no silêncio da peça de chá, via diante de si esse quadro de sujeira e trevas. Não só por causa da mulher que lhe apresentara a Srta. Inamura, não. A mácula recaía também nele mesmo.
Tinha uma imagem no espírito: via o pai, com os dentes escuros, mordiscando as manchas imundas de Chikako; e sentia, em imagem, que não era diferente do pai.
A moça nem se preocupava com o fato de Chikako ser a origem do encontro de ambos; mas ele não podia suportar que ela tivesse representado a alcoviteira entre os dois. Havia nisso algo que o embaraçava ao ponto de paralisá-lo; mas se esse problema explicava em parte sua indecisão e suas covardias, não havia apenas isso, mas outras coisas bem diversas que lhe pesavam.
Se tinha horror de Chikako, sabia quão pouco sincero era ao atiçar seu ódio com o pretexto de ser ela que lhe impunha o casamento com a Srta. Inamura. Nesse papel, em suma, ela se achava muito bem no seu lugar e favorecia uma comodidade indiscutível.
Nessa altura de sua reflexão, Kikuji se sentiu como esbofeteado ao pensar que a Srta. Inamura tinha talvez ido até o fundo dele, e ficou aterrado ao medir de repente a amplidão da sua covardia, de que não tivera consciência até o momento.
No fim da refeição, aproveitando o instante em que Chikako se afastou para preparar o chá, desejou retomar o diálogo interrompido por sua chegada:
— Se cumpre ver em Kurimoto um instrumento do destino — disse, — creio então que temos, eu e você, concepções bem diferentes do destino.
Eis tudo o que soubera dizer e se dava perfeitamente conta de que isso ecoava como uma má desculpa, uma desastrada e vã justificação.
E agora compreendia em que se baseava o desprazer que tinha, depois da morte de seu pai, ao saber que sua mãe estava só neste pavilhão de chá. Sim, acabava de compreender: seu pai antes, depois sua mãe, ele agora, cada um, ao vir se isolar naquele pavilhão, se achava só com os seus pensamentos. . .
Fora, a chuva caía pesada sobre as folhagens vergadas das árvores. E eis que naquele atrito contínuo, distinguiu o barulho de gotas tamborilando num guarda-chuva que se aproximava.
Do exterior, a voz da empregada anunciou:
— A Sra. Ota está aí.
— A Sra. Ota?
— Sim, senhor. E parece doente, está com tão mau aspecto.
Kikuji, que o aviso fizera saltar de pé, ficou ali plantado, sem dizer nada.
— Onde quer recebê-la, senhor?
— Aqui mesmo.
— Muito bem.
Para vir ao chachitsu, a Sra. Ota atravessou o jardim sob a chuva forte. Não trazia sombrinha e o rosto estava molhado quando surgiu. Kikuji se disse que devia decerto ter deixado a sombrinha na entrada. Mas não era a chuva, eram as lágrimas que lhe umedeciam o rosto. Compreendendo, Kikuji foi ao seu encontro quase gritando:
— O que houve?
Com a face erguida para ele, a Sra. Ota se sentou na galeria exterior, com as duas mãos apoiadas no chão. Dir-se-ia que caiu diante dele, em cima dele. Lentamente, suas lágrimas brotavam e Kikuji, vendo as gotas no soalho, perto da entrada, acreditou de novo que eram da chuva.
Com os olhos nos de Kikuji, apoiando nele com força o olhar, era como se apenas isso a retivesse de desfalecer. Consciente do perigo, ele não ousava desviar seu olhar, certo de que ela desmoronaria. Perscrutava, a despeito de si mesmo, as profundas olheiras que lhe comiam o rosto, a pele amarrotada em volta deste olhar batido, em febre, morbidamente fixo, e no entanto transbordando uma ternura suplicante através da torrente do pranto e cheio duma inex-primível doçura.
— Peço que me perdoe — disse ela. — Eu não podia mais. Tinha de vê-lo.
Sua voz, todo o seu ser não eram senão amor. Sem o extraordinário e terno calor que dela emanava, Kikuji nunca teria suportado a vista daquele rosto emaciado. Sentia o coração partido pelo atroz sofrimento cujo espetáculo ela lhe ofertava. Mas ainda que soubesse que sua causa era ele próprio, extraía uma espécie de consolo no banho de ternura infinita que ela lhe dava.
— Venha logo, entre, antes de se molhar completamente — disse-lhe, agarrando-a com os dois braços para soerguê-la e guiar, com uma ponta de brutalidade na pressa.
— Deixe!... Largue-me! — soprou ela, procurando caminhar sozinha, pois ele quase a levava nos braços. — Sou bem leve, não é?
— Sim.
— É que emagreci muito nesses últimos tempos .. . Não sou mais o que era.
Kikuji se censurava já da violência do seu gesto.
— A sua filha não terá ficado preocupada?
— Fumiko?
Pelo modo de pronunciar o nome, ele jurou que a moça tivesse vindo junto.
— Ela veio com você? — indagou.
— Oh, não. Vim às escondidas — declarou num soluço. — Minha filha fica me vigiando todo o tempo. Mesmo de noite, acorda ao menor ruído que eu faça. Sofre tanto por minha causa que chego a desconhecê-la. Diz-me coisas terríveis. “Por que sou filha única? Por que não tiveste outros filhos? Com o Sr. Mitani tu podias ter tido, não?...” Coisas assim!
A Sra. Ota, ao falar, se recompunha um pouco. Kikuji adivinhava, através de suas palavras, que insuportável mágoa sua filha sentira ao ver a mãe sofrer por causa dele. Teve uma pontada no coração ao saber que a moça chegara ao extremo de desejar que a mãe tivesse tido um filho do pai dele.
Sempre com o olhar fito em Kikuji, a Sra. Ota prosseguiu:
— É possível que Fumiko já esteja no meu rastro. Aproveitei sua ausência para escapar de casa. Devia ter pensado que eu não sairia por causa da chuva.
— Por causa da chuva? Só por isso?
— Sim, me julga demasiado enfraquecida para enfrentar o mau tempo.
Ele inclinou a cabeça sem dizer nada. A Sra. Ota procurou saber:
— Outro dia ela veio cá, não?
— Sim. Para me pedir que perdoasse você, segundo disse. . ., e fiquei sem saber o que responder a um pedido desses.
— Ah, eu entendo o que ela sente; e no entanto eis-me de novo aqui, apesar de tudo! Por que faço isso?.. . É horrível. Horrível.
— Mas que coisa. A não ser gratidão, que outro sentimento posso ter por você?
— Oh, obrigada! É mais do que eu poderia esperar ... Não mereço perdão daquela infelicidade depois da...
— E por quê? Não está ligada a ninguém, a nada... a menos que seja ao fantasma de meu pai!
O rosto da Sra. Ota permaneceu impassível, como se ela não tivesse ouvido. Ele teve a impressão de haver falado no vácuo.
— Esqueçamos tudo, não pensemos mais sobre isso — disse. — Nunca eu devia ter-me deixado transtornar a esse ponto pelo telefonema da Srta. Kurimoto! Estou envergonhada.
— Kurimoto lhe telefonou?
— Hoje de manhã. Para me dizer que o seu casamento com a Srta. Inamura estava praticamente resolvido. Ah, por que tinha de ser ela quem desse a notícia! Você poderia ter-me avisado...
Uma onda de lágrimas subiu-lhe aos olhos e ele esperava vê-la soluçar de novo quando, de repente, sorriu. Não o sorriso forçado de quem deseja rir entre lágrimas, não. Um sorriso de criança, cândido e doce.
— Ainda nem mesmo encarei a possibilidade de me meter nessa história — insurgiu-se Kikuji, — Será que permitiu a Kurimoto farejar alguma coisa a nosso respeito? Avistou-se com ela nesse período?
— Não, não a encontrei, mas sei como ela é: é bem capaz de ter descoberto algo. Hoje de manhã, no telefone, podia ter desconfiado.. . Fui tão sem jeito, ai!, sou tão incapaz.. . Tive uma espécie de síncope e acho que dei um grito. E ao telefone se adivinha fácil os sentimentos do outro, não é? Em todo caso, ela me disse: “Querida senhora, por favor, não crie obstáculos.”
Seus ombros se puseram a tremer como se a sacudisse um calafrio de febre. Sua boca se crispou e o semblante descomposto refletia uma angústia sem limites. Parecia à beira duma síncope.
Kikuji se ergueu e estendeu a mão para sustentá-la pelos ombros, mas a Sra. Ota pegou-a:
— Tenho medo, ah, tenho medo! — suspirou, com o rosto extremamente pálido a trair a sua idade.
Seu olhar errou por todos os lados. E súbito, reencontrando ânimo, examinou a peça e inquiriu:
— Foi neste pavilhão?
Kikuji, sem entender o que queria significar, redargüiu com um "sim" vago e ocasional.
— Um maravilhoso chachitsu! — disse ela. Estaria pensando que o marido morto tinha sido não raro recebido nesta sala de chá? Ou pensava no pai de Kikuji?
— É a primeira vez que aqui vem? — quis saber Kikuji.
— Sim.
— Que é que está olhando com este ar engraçado?
— Nada... nada...
— É uma pintura de Sotatsu, o retrato de um poeta.
A Sra. Ota aquiesceu com um sinal de cabeça e baixou os olhos.
— Já tinha vindo aqui em casa?
— Não, nem uma vez.
— De fato? — ele se admirou.
— Ah, sim, perdão. . . Uma vez... no enterro de seu pai.
Sua voz estava tão fraca que Kikuji se fêz diligente:
— A água está fervendo, não acha que isso talvez a animasse? Eu também gostaria de tomar uma taça de chá.
— Com prazer — disse ela. — Dá licença? Ao erguer-se, vacilou um pouco mas se aprumou, dominando-se.
Kikuji foi abrir os estojos colocados num canto e tirou as taças. Por um momento pensou em que esses objetos tinham sido usados na véspera para o chá da Srta. Inamura. Mas afastou a ideia e voltou com as preciosas peças.
Ante o fogo, querendo tirar a tampa da chaleira, a Sra. Ota não pôde impedir a mão de tremer e houve um leve estalido do ferro atritado. Ao se inclinar para a frente, com o bule d'água na mão, suas lágrimas caíram com pequeno ruído no exterior do caldeirão.
— Também isso foi o seu pai que comprou de mim — disse.
— Sim? Não sabia.
Não sentira qualquer embaraço ouvindo dizer que o objeto vinha das coleções de seu marido, tal a forma natural e simples com que ela o informara.
Preparou o chá e o convidou a que ele mesmo viesse pegar sua taça:
— Não posso levá-la — disse.
Ele se colocou ao lado do caldeirão para tomar o chá. Num acesso de fraqueza, ela caiu sobre seus joelhos. Kikuji lhe passou o braço nos ombros e sentiu sua respiração se precipitar.
E foi como uma criança que agarrasse nos braços, tão leve, tão abandonada.

Yasunari Kawabata, in Nuvens de Pássaros Brancos

10/11/2023

LIVRO SEGUNDO | O SOL MORRENDO ENTRE AS ÁRVORES


I

Kikuji se dispunha a deixar o escritório quando recebeu um telefonema de Chikako.
— Vai direto para casa esta noite?
Era o que pretendia fazer, mas hesitou, prevendo algum contratempo.
— Quer dizer...
— Mas sim, sim, esta noite, por favor, vá logo. Pelo seu pai, entende? Hoje é o dia em que costumava convidar os amigos para uma sessão de chá. A lembrança disso me voltou de golpe e foi preciso que eu fizesse alguma coisa.
Kikuji nada respondeu.
— Fiz uma limpeza no pequeno pavilhão de chá... Alô, está ouvindo?... Ah, sim. Pois lavei o chachitsu e em seguida me deu vontade de cozinhar um pouco.
— Mas onde você está?
— Na sua casa, claro, estou na sua casa. Perdoe, devia primeiro tê-lo avisado.
Surpreso, Kikuji ficou calado.
— Recordando este aniversário, não pude ficar aí sem fazer nada, compreende? E disse a mim mesma que a limpeza do chachitsu me acalmaria um pouco. Ah, sei bem: devia ter-lhe pedido permissão, Mas se tivesse lhe telefonado, estou certa de que teria recusado.
O pequeno pavilhão e sua sala de chá estavam em desuso desde a morte do pai de Kikuji. Era verdade. No máximo sua mãe ia ali uma vez ou outra, antes de morrer, em busca de solidão e silêncio. Às vezes ficava tempos, mas sem nunca acender o fogo; mandava que lhe trouxessem a água quente num pequeno cântaro de ferro. Aliás ele não gostava muito de deixar a sua mãe se isolar ali, a saciar mal sabia ele que pensamentos sombrios. Preocupado, várias vezes teve vontade de ir para junto dela, mas, na hora, nunca se atreveu.
Antes da morte do pai, era Chikako que cuidava do pavilhão. Raramente sua mãe nele punha os pés.
E desde que sua mãe falecera, o chachitsu tinha ficado fechado. Só havia a velha doméstica para abri-lo uma ou duas vezes por ano, a fim de arejá-lo. Uma mulher que já os servia quando seu pai era vivo.
— Há quanto tempo que não arrumam aquilo? — continuou Chikako num tom que ele considerou cada vez mais desembaraçado. — As esteiras, limpei e limpei e não consegui tirar o cheiro de mofado. De não se acreditar! Quando tudo ficou bem limpo, me deu desejo de cozinhar e lá fui eu. Assim de improviso, não havia naturalmente tudo o que precisava à mão, mas fiz pelo melhor. E agora o estou esperando, em seguida.
— Realmente, não sei o que dizer.
— Mas se ficarmos só nós dois, vai ser triste. Por que não traz alguns amigos do escritório?
— Nem vale a pena falar, ninguém aqui conhece a prática do chá.
— Não tem importância, ao contrário! É melhor que não sejam entendidos, pois não se poderá ter rigor nos preparativos. Que venham, simplesmente.
— Não, lhe digo, nem vale a pena falar — cortou Kikuji num tom definitivo.
— Oh! de fato? É uma pena! Mas, então, o que faremos?... Quem sabe alguns amigos de chá de seu pai? Não! não poderiam ser convidados assim. Olhe! e se convidássemos a Srta. Inamura para vir?
— Está brincando, não vá fazer uma coisa dessas.
— Por que não? Não compromete você em nada, que lhe importa? A família dela, sabe, se mostra favorável. Enfim, para você é apenas uma ocasião de rever a Srta. Inamura, com quem poderá falar de coração aberto. Se eu a chamar e ela aceitar vir, vai ser uma espécie de confissão de sua parte e você saberá que está de acordo.
— Não quero nada desses processos! — disse Kikuji, contrafeito. — Deixe disso! Se insistir, não vou para casa.
— Bem, bem! De qualquer modo não se pode discutir sobre isso no telefone e adiaremos a coisa para mais tarde. Venha depressa.
— “Isso” não existe, no que a mim diz respeito. Não quero mais ouvir falar no assunto.
— Está certo. Não ouvirá falar mais. Tomo tudo por minha conta e farei como achar melhor, pronto.
Que mulher venenosa! Sua indiscrição, seu desembaraço e este jeito que tem de dispor de você! Indignado, Kikuji sofria com repugnância a autoridade que ela fazia pesar sobre ele. Reviu mais uma vez as terríveis manchas que marcavam a metade esquerda de seu peito. Escutou, como se repercutisse em sua cabeça, o ruído de sua vassoura barulhenta limpando o pavilhão de chá. Sentiu torcer-se em seu cérebro o pano molhado de que ela se servira para lavar os soalhos exteriores.
Além dessas violentas imagens de seu dissabor, Kikuji também se indignou, como duma inconveniência ao mesmo tempo ridícula e odiosa, com o fato de Chikako se permitir ao bel-prazer entrar em sua casa com ele ausente, e aí até mesmo cozinhar!
Se ainda se tivesse contentado em arrumar o chachitsu, pondo nele umas flores em memória do defunto, seria perdoável. . .
E eis que súbito, no remoer detestável dessas sensações aborrecidas, a imagem da Srta. Inamura faiscou nele como uma centelha.
A morte de seu pai forçosamente o afastou de Chikako; estaria ela com o desígnio de se reacercar e prendê-lo em suas redes por meio daquela moça?
Seu telefonema insolente e bufo, se bem que no estilo daquela original, não apenas surpreendera Kikuji, o sobressaltara. Achara no tom de Chikako, no seu modo de cinicamente utilizá-lo, de provocar com consciência o seu riso amargo, de passar adiante de qualquer reação sua, uma espécie de ameaça. Mas tudo isso não se apoiava, olhando a fundo, sobre suas próprias fraquezas? Essa dúvida o retivera, Kikuji sabia perfeitamente, de deixar explodir a sua cólera contra aquele telefonema incongruente. Se ela usava sem complacências de seu ascendente sobre ele, não seria por ter boas razões de se saber a mais forte?
Foi com essas idéias que Kikuji, ao sair do escritório, rumou para Ginza, refugiando-se na atmosfera confinada e sufocante dum café minúsculo. Quisesse ou não, não podia agora deixar de voltar para casa como lhe pedira Chikako. Mas sentia o coração pesado.
Já estaria Chikako a par de seu encontro com a Sra. Ota na saída da sessão de chá? E também de como terminara na pequena hospedaria de Kita-Kamakura? As possibilidades eram poucas... a menos que as duas mulheres não tivessem se avistado depois!
O tom autoritário dela no telefone devia imputá-lo apenas ao defeito natural seu de delicadeza? Ou ainda, não deveria ver naquilo, da parte dela, senão a pressa de ver realizado o seu desígnio, um modo bem seu de chegar logo ao que pretendia no concernente à Srta. Inamura?
Incapaz de suportar-se por mais tempo no local demasiado estreito, Kikuji saiu e foi para a estação, tomando o trem que o levaria para casa.
Pela janela do vagão repleto, entre Yurakucho e a estação central de Tóquio, uma avenida marginada por grandes árvores atraiu seu olhar.
Muito ampla, orientada de este a oeste, fazia cintilar o sol poente. Essa longa fita brilhava sob a luz como aço polido, e as grandes árvores que a margeavam, vistas assim à contra-luz, pareciam dum verde extraordinariamente sombrio. No chão, a densidade da sombra que as sublinhava era como uma fonte de frescura. As árvores eram belas, de folhagem espessa, ostentando altivamente os ramos poderosos. Aqui e ali, recuadas, se erguiam as fachadas de sólidas casas de arquitetura ocidental.
Estranhamente, em todo o comprimento, a avenida que se oferecia ao olhar estava deserta na hora, riscando como um traço de silêncio e imobilidade, um traço nu de luz até as valas do palácio imperial, ao fundo, onde ia terminar. Que contraste entre a corrida do trem repleto e a paz soberana desta vasta aléia, perpendicular à ferrovia, que semelhava ir afundar sozinha no silêncio maravilhoso, àquela hora singularmente vasta do crepúsculo, para ir dar, como num conto, na própria paisagem do poente! Por um momento, Kikuji acreditou perceber distintamente, avançando na sombra alongada das grandes árvores tão frescas e serenas, a delicada silhueta da Srta. Inamura, com o furoshiki de sembazuru na mão. Sim, via até o menor detalhe os pássaros brancos que ornavam o lenço de seda rosa!
Seu coração se pôs a bater a essa visão e seu humor, deliciosamente, se transformou. Quem sabe ela já não estava lá em sua casa?
Repôs-se pensando em Chikako e no que devia estar planejando. Por que, enfim, ela de saída lhe propôs que trouxesse amigos junto e só falou em convidar a moça depois que recusou. Um fingimento? Teria, desde o início, a intenção de chamar a Srta. Inamura? Não compreendia mais nada.
Ao chegar em casa, mal franqueou a porta, Chikako apareceu na entrada.
— Está sozinho?
Respondeu com um sinal de cabeça.
— Felizmente não trouxe ninguém. Ela está aí. Adiantando-se para desembaraçá-lo do chapéu e da pasta, indagou:
— Não veio direto para casa, não foi?
Kikuji se interrogou se seu hálito o traía ou se se notava no quente de sua face que havia bebido.
— O que andou fazendo? Aonde foi? Voltei a ligar para o escritório e me responderam que já tinha saído. Calculando o tempo necessário para chegar, deveria estar aqui bem antes.
— Essa agora!
Mais uma vez a impudência de Chikako o deixou sem voz. O quê? Não bastava a ela chegar em sua casa e aí fazer tudo o que lhe desse na veneta sem mesmo pedir desculpas, tinha ainda censuras a lhe fazer! Passou ao quarto sem uma palavra. Chikako seguiu atrás. A roupa japonesa, preparada pela doméstica, estava à sua espera. Chikako quis ajudá-lo.
— Não, por favor, não faça nada. Não quero abusar e realmente me magoaria infringir a esse ponto as regras da mais simples polidez ou os deveres elementares da hospitalidade! Vou mudar a roupa ao lado.
E como para anular logo qualquer perseguição de parte dela, Kikuji, que tinha tirado o casaco, passou para o vestíbulo.
Trajado à japonesa, voltou ao quarto onde Chikako, sentada a esperá-lo, o acolheu disparando:
— Estes solteiros, afinal, se deslindam bem!
— Acha?
— Sim. Mas esse modo de viver tem muitos inconvenientes e espero que não o prolongue mais do que o necessário.
— Como não! Depois do que vi com o meu pai!... Ela lhe lançou um rápido olhar. Kikuji notou que tinha posto um avental de sua mãe, emprestado pela empregada, sem dúvida. Arregaçara as mangas e ele se impressionou ao ver aqueles braços firmes e brancos, quase brancos demais, com a proeminência aparente dos duros músculos.
Num tom claramente mais convencional, Chikako lhe disse:
— Por ora a introduzi no salão. Mas não seria mais simpático recebê-la no pavilhão de chá?
— Não sei se ali se pode acender a luz. Não me lembro de tê-la visto nunca acesa.
— Poderia se fazer um jantar a velas, era até mais cativante.
— Mas não, ora!
— Ah, estava me esquecendo! — mudou Chikako de assunto bruscamente como se a coisa lhe surgisse da memória. — Há pouco, no telefone, a Srta. Inamura desejou saber se sua mãe estava também convidada. Respondi que isso nos faria ainda mais contentes. Infelizmente a Sra. Inamura tinha um compromisso esta noite e acabamosdecidindo que a Srta. Inamura viria só.
— Acabamos decidindo? Quer dizer que você decidiu e que a forçou de acordo com a sua conveniência. Não está direito convidar pessoas assim, no último minuto! É muito incorreto. O que elas não pensarão de nós?
— Mas sim, é verdade, as regras não foram respeitadas como deviam. Mas já que a moça veio, que está aqui, se anula todo aspecto de incorreção de nossa parte.
— Como assim?
— Claro! Já que veio hoje, é porque aceita de bom grado a ideia do casamento. Não digo que isso seja muito clássico, evidentemente. Que mal há? Podem os dois, feita a coisa, se divertirem comigo e com minhas iniciativas “originais”! Mas, sabe, pode-se encarar dum modo ou de outro, não importa: o que deve acontecer sempre acontece. Pelo menos segundo a experiência que tenho.
Assumira no tom uma segurança insolente, como se conhecesse todos os pensamentos de Kikuji.
— Você por acaso lhe disse tudo?
— Naturalmente! Ela está a par de tudo.
E ao dizer isso, tomou uma atitude que dava claramente a entender: vamos, trate de se decidir, já é tempo!
Kikuji se levantou e passou pela galeria se dirigindo ao salão. Um momento, diante da romãzeira, esforçou-se por compor um rosto melhor. Iria se apresentar com seu aspecto menos ágil ante a Srta. Inamura?
Seu olhar, passando distraído pela sombra negra da árvore, lhe trouxe ao espírito as manchas de Chikako. Kikuji sacudiu a cabeça. Os últimos clarões do poente se espelhavam ainda nas pedras do pequeno jardim, guiando os passos até o salão com os tabiques bem abertos.
A Srta. Inamura, num canto da grande peça em semi-obscuridade, criava uma mancha clara que parecia luminosa. No tokonoma, havia um arranjo de íris numa taça. Cumpria ver nisso um sinal do destino? O mesmo motivo adornava a larga cinta de seda (o obi) da moça, envolvendo sua cintura em flores de íris. Talvez não fosse mais que uma simples coincidência, afinal, já que aquela era a flor da estação e se usava em geral para exprimir o clima daquela quadra do ano, o espírito destes derradeiros dias de primavera.
Não eram aliás íris selvagens, e sim cultivados os que entraram no arranjo do tokonoma. Pela disposição alta e empinada do ramalhete, das flores e das folhas, e também por seu frescor, se podia adivinhar que Chikako mal acabara de arrumá-los.

Yasunari Kawabata, in Nuvens de Pássaros Brancos

31/10/2023

Nuvens de Pássaros Brancos | V


Passados uns quinze dias da reunião de chá no pavilhão do Templo Engakuji, a filha da Sra. Ota foi visitar Kikuji em casa.
Mandou que a fizessem passar para a sala e, tentando calmar as batidas de seu coração, ele próprio foi abrir o armário de gêneros e pôs alguns frios no prato. Viera sozinha ou sua mãe a aguardava na porta, não se atrevendo a entrar? Kikuji não conseguia adivinhar.
Quando veio enfim para a sala, a moça se ergueu da cadeira para a reverência. Ele notou o lábio inferior um pouco saliente de sua boca fechada, enquanto ela baixava a cabeça.
— Perdoe-me por tê-la feito esperar — disse. E passou por trás dela para ir abrir a porta envidraçada que dava para o jardim. As peônias brancas, no vaso, exalavam um perfume delicado. A jovem avançou os ombros redondos, pendendo ligeiramente para a frente quando ele se acercou.
— Permite?... — e Kikuji sentou numa cadeira sem esperar.
Uma sensação de serenidade inexplicavelmente o invadiu, ao ver quanto ela se parecia com a mãe.
— Tomei a liberdade de vir à sua casa sem prevenir — começou ela de olhos baixos.
— É um grande prazer, não se preocupe. Teve dificuldade em achar o caminho?
— Não.
Kikuji de repente lembrou que ela costumava vir até a porta, acompanhando seu pai nos bombardeios, como lhe contara a Sra. Ota no jardim do Templo Engakuji.
Quase lhe diz, mas se retém no último instante. E a observa à vontade, pois ela continua com os olhos baixos.
Sente-se submergir de novo por uma onda morna, lembrando a doçura da Sra. Ota. Não pode se negar a pensar ainda uma vez no total e raro abandono do seu abraço. Abandona-se também, profundamente retranquilizado e quase esquecendo de se manter na defensiva ante a filha. Sua prudente reserva tinha desaparecido, embora não tivesse ainda podido ver o olhar da moça e mergulhar o seu nos olhos obstinadamente descidos.
— Tomei a liberdade de vir...
Fez uma pausa, levantou a cabeça e o fitou no rosto.
— Tomei a liberdade... Trata-se de minha mãe: queria lhe pedir um favor.
Kikuji prendeu o fôlego.
— Desejaria que a perdoasse.
— Perdoasse? O que está dizendo?
Mas ao exprimir o seu assombro, compreendera na hora que a mãe contara tudo.
— Se há alguém que deve pedir perdão, sou eu — declarou.
— E eu ficaria contente que lhe perdoasse também tudo o que sucedeu com seu pai — prosseguiu ela.
— Mas também aí o perdão devia ser dado antes a meu pai. Minha mãe já deixou este mundo, sabe... Ninguém mais poderia ter agora seja o que for a perdoar à senhora sua mãe.
— Seu pai morreu tão cedo! Sempre me pergunto se não foi por causa das preocupações que minha mãe lhe causou. E também sua mãe, com maior razão. É o que eu já disse à minha mãe!
— Você tem escrúpulos exagerados e é injusta em relação a ela.
— Ah, por que não morreu ela primeiro, antes de seus pais!
A moça estava à beira de desmaiar, tanto o penoso diálogo lhe feria o pudor.
Compreendendo que não falava, em suma, senão das relações dela com a mãe, Kikuji se deu conta de como a coisa devia feri-la e ultrajar seus sentimentos, humilhando-a a fundo.
— Por favor, perdoe minha mãe! — repetiu, parecendo, para dizê-lo, apelar às últimas forças.
— Não é um perdão, mas a homenagem do meu reconhecimento e profundo respeito o que devo à sua mãe — precisou Kikuji com firmeza.
— Ela é que é a culpada, com todas as suas fraquezas. E eu queria que não se importasse mais com ela de forma alguma. Suplico-lhe, deixe de se ocupar de minha mãe!
Falou rápido, com uma voz entrecortada e trêmula. Kikuji entendia agora o que desejava dizer pedindo aquele perdão: deixe minha mãe em paz, não volte a vê-la, era o que ela queria significar.
— Não procure nem mesmo lhe telefonar mais — acrescentou.
A despeito do rubor flamejante que lhe invadira a face, ela ergueu a cabeça como para desafiar o próprio arisco pudor e olhou direto nos olhos de Kikuji. Mas seus grandes olhos estavam úmidos de lágrimas e seu olhar, sem o mínimo traço de animosidade, tinha qualquer coisa de suplicante, algo de um apelo desesperado.
— Entendo — disse ele enfim. — Peço desculpas.
— Eu suplico. E me atrevo a contar com você... Essas últimas palavras enrubesceram ainda mais a infeliz jovem, e Kikuji viu-se esbrasear até sua nuca longa e branca. Seria para acentuar a beleza do seu longo pescoço delicado que usava aquele pequeno broche branco na gola do casaco?
— Minha mãe concordou, pelo telefone, com o encontro que você marcou — pôs-se a explicar um pouco menos crispada. — Fazia absoluta questão de ir e fui eu que a impedi. Me agarrei nela com toda a força quando quis sair. Foi por isso que esperou em vão.
Kikuji tinha, com efeito, chamado a Sra. Ota pelo telefone três dias depois do primeiro encontro. O tom dela não deixava qualquer dúvida sobre sua alegria, mas afinal não veio ao café onde a esperava. E desde aquela conversa pelo telefone, nada mais soubera a seu respeito.
— Depois tive muita pena dela, mas, no momento, julguei-a tão odiosa que me opus tenazmente, fora de mim ao ponto de não saber mais onde estava!
“Fumiko — me disse ela, — telefona tu mesma e diz a ele que não irei. Peço-te, telefona!” Fui ao aparelho, mas fiquei com o fone na mão, incapaz de falar. Com o rosto banhado de lágrimas, minha mãe não tirava os olhos do aparelho: era você que ela via, Sr. Mitani, não o telefone. É assim, minha mãe.
Ficaram um longo momento sem dizer nada. Por fim, Kikuji rompeu o comprido silêncio:
— Após a sessão de chá — perguntou, — por que foi na frente quando sua mãe ficava a me esperar?
— Porque queria que você soubesse como ela é, na realidade, um pouco má.
— Má, ela? De fato, é demasiado boa!
A moça desceu os olhos e Kikuji observou de novo o seu rosto: o nariz miúdo e de forma tão perfeita, a boca com o lábio inferior um nada proeminente. A doçura desses traços lhe lembrava os da mãe.
— Desde há muito sabia que a senhora sua mãe tinha uma filha — retomou Kikuji. — Não raro almejei falar de meu pai com ela.
Ela inclinou a cabeça em sinal de aquiescência.
— Foi uma ideia que eu também tive.
Se não tivesse ocorrido nada entre a mãe dela e eu, pensou Kikuji, agora eu poderia lhe falar livremente de meu pai. Mas, pensando — era tão estranho assim? —, foi justamente graças ao que lhe ocorrera com a Sra. Ota, que pudera de todo o coração lhe perdoar a ligação com o pai e compreender tão bem a alma dos dois. As coisas são complexas.
Kikuji fazia em silêncio essas reflexões quando a moça, decerto julgando que prolongara indevidamente a visita, ergueu-se com precipitação. Ele saiu com ela para acompanhá-la.
— Espero que possamos falar um dia juntos de meu pai — disse Kikuji. — E também que me fale de sua mãe. É uma pessoa tão digna de admiração!
Sem dúvida era bastante egoísta o que dizia, mas representava exatamente o que pensava.
— Sim... Mas você não vai se casar logo?
— Eu?
— Você. Soube por minha mãe. Com a Srta. Yukiko Inamura.
— Absolutamente. Não há nada a esse respeito. A rua descia em declive logo após a porta do
jardim, fazendo a meia altura uma curva de onde, a gente se virando, não via mais que a parte de cima das árvores do jardim de Kikuji. Andando, ele divisava em mente a moça do sembazuru, que a visitante há pouco lhe lembrara. Ao chegarem na curva, ela se deteve e se despediu.
Kikuji tornou a subir em direção à casa, enquanto ela se afastava, descendo sempre.

Yasunari Kawabata, in Nuvens de Pássaros Brancos

21/10/2023

Nuvens de Pássaros Brancos | IV


A Sra. Ota devia ter quarenta e cinco anos, pelo menos vinte a mais que Kikuji; mas soube tão bem lhe fazer esquecer essa diferença de idade, que ele pensava realmente estar beijando uma mulher ainda mais jovem do que ele próprio.
A volúpia que acabava de provar era a de um prazer que só a experiência de sua parceira seria capaz de lhe dar; e no entanto o rapaz, em nenhum momento, se sentira coibido pela timidez de sua inexperiência. Tinha a impressão de saber pela primeira vez o que era uma mulher, desde então conhecendo o que era ser um homem. Kikuji se surpreendia com essa revelação e com o despertar completo da sua virilidade.
Nunca antes suspeitara que existisse, nas mulheres, uma receptividade tão flexível e tão profunda, capaz de orientá-lo, seguindo-o. Esta passividade voluptuosamente ativa e cálida que o mergulha num mar de perfumes. Ele, que apenas experimentava um pouco de dissabor, satisfeito o desejo, cada vez que aproveitara as liberdades que sua vida de solteiro oferecia, a essa altura se espantava de se ver, ao contrário, imerso nas delícias duma languidez gostosa e apaziguadora. Sabia que, de qualquer outra parceira, se teria friamente afastado e a enxotado, enquanto aqui, pela primeira vez, seu corpo adorava sentir o calor doce do outro corpo apertado contra si, prolongando o amplexo indefinidamente. Não, nunca conhecera numa mulher estas ondas acariciantes dum sentimento sem fim. Seus sentidos, ébrios, aí descansavam com delícia, enquanto interiormente saboreava o triunfo do conquistador, do triunfador que se faz lavar os pés por seus escravos. Mas, ao mesmo tempo, se sentia também como uma criança que cisma e se refugia no quente dos braços de sua mãe.
Livrando as espáduas e se erguendo um pouco, Kikuji disse de repente:
— Kurimoto é marcada por grandes manchas de nascença, sabia?
Embora consciente da perversidade de sua frase, não ia, em seu langor, ao ponto de se dar conta de quanto podia com isso prejudicar a Chikako. Não pensava absolutamente em ofendê-la.
— Olhe, são aqui, assim, bem no seio — e adiantou a mão.
Obedecia a um impulso estranho e turvo, não sabendo bem de onde lhe vinha esse inesperado desejo, essa impaciência ávida de trair a si mesmo e ferir a outrem. Ou quem sabe era apenas um modo de disfarçar, por pudor juvenil, a curiosidade que tinha daquele corpo feminino?
— Oh! deixe disso, é repugnante — disse ela, com um gesto distraído de fechar o quimono, como se não entendesse do que se tratava. — É a primeira vez que ouço falar disso — acrescentou com indiferença. — Sob o quimono, não se vê nada.
— Não, claro, mas assim mesmo...
— O quê?
— Há momentos em que se deve ver, forçosamente. Veja, pega esta parte aqui e aqui.
— Oh! que malandro... Se eu tivesse a mesma coisa, você procuraria olhar?
— Mas não, ora!... Se você tivesse manchas neste lugar, me pergunto o que você faria e o que isso podia oferecer, justamente neste instante..
— Onde ela tem as manchas, aqui? — e seus olhos se fixaram no próprio peito, tranquilamente. Em seguida, quis saber com simplicidade: — Por que fez essa pergunta? Em que é que isso nos importa?
Kikuji se sentiu desarmado. Desejara passar seu veneno para ela, mas com tão pouco resultado que lhe fora devolvido e de novo o corroía.
— Em muito! Tinha apenas oito ou nove anos na única vez em que vi essas manchas. Desde então, me têm obcecado.
— Mas por quê?
— E você, será que não sofreu também com ela? — insistiu Kikuji. — Há de se lembrar quando a Kurimoto vinha à sua casa, dizendo-se emissária de minha mãe e inclusive de mim, com calúnias e censuras violentas.
Ela curvou a cabeça em sinal de assentimento, iniciando um leve movimento para se apartar; mas os braços de Kikuji só a apertaram melhor.
— Pois bem, nada me tirará da mente que toda a sua maldade, naquele momento, não era causada senão pelo despeito e a raiva de ter o seio marcado por essas nódoas, pelo complexo que criou a propósito.
— Mas é terrível o que você está dizendo!
— E talvez também ela tenha buscado vingar-se de meu pai.
— Mas se vingar de quê?
— Seu complexo... as manchas... Em parte por causa delas, tinha sido abandonada. Ficou ainda mais inconsolável, mais amargurada com elas.
— Oh, basta! Não falemos mais nessas manchas horríveis. Perco o ânimo...
E no entanto — dizia-se Kikuji — não faz a mínima ideia do que são!
— A Srta. Kurimoto não tem mais por que se preocupar com isso. Provavelmente, nem pensa mais no assunto. São coisas que se esquecem...
— Imagina que, tendo acontecido, essas coisas não deixem vestígios?
A Sra. Ota ficou pensativa.
— Ocorre que o passado, na lembrança, nos seja ainda mais grato — disse sonhadora.
Foi então que Kikuji soltou a confissão que no entanto decidira firmemente calar.
— Conhece a moça que estava há pouco a seu lado na sessão de chá?
— Yukiko? Sim... É a filha do Sr. Inamura, não é?
— Kurimoto me tinha convidado expressamente para que eu a conhecesse.
— Oh!
Os grandes olhos da Sra. Ota pareceram ainda aumentar e fitaram Kikuji com gravidade.
— Era a apresentação duma noiva então? E eu, que nada notei!
— Mas não, não — protestou Kikuji. — Não estava em causa matrimônio, lhe afirmo. Nada nesse gênero.
— Ah, sim, sim... E na saída, eu...
Kikuji viu se armar nela um grande soluço; logo o espasmo fez tremer seus ombros e já lágrimas abundantes caíam no travesseiro.
— Imperdoável! Sou imperdoável!... Mas por que você não disse nada?
Observou-a a esconder o rosto no travesseiro, chorando sempre. Ele não entedia bem por quê.
— Se existe algo de mal no que fizemos, não há de ser aquela pequena formalidade que mudará qualquer coisa — disse. — Que o tivéssemos feito ao sair de lá ou não, não importa absolutamente. Não há relação entre as duas coisas!
Falava com convicção, era realmente o que pensava. No mesmo instante, porém, reviu a imagem da Srta. Inamura preparando o chá dentro das regras da arte, e o furochiki rosa lhe surgiu igualmente, com os motivos de sembazuru. Teve um estremecimento como de ódio pelo corpo da mulher que soluçava ao seu lado.
— Ai de mim, o que eu fiz? Mulher funesta, pecadora! — dizia entre os soluços, com arrancos que agitavam os ombros redondos.
Kikuji admitiria de bom grado que devesse se escandalizar daquela aventura, se pudesse por ela sentir o mínimo remorso. Pois enfim, sem falar no primeiro encontro com a Srta. Inamura, era nos braços da amante de seu pai que ele se achava!
Mas não, até o minuto presente não tivera um só instante a consciência de agir mal. Nem por um segundo sentira mágoa ou remorso. Poderia ser um faltoso?
Sequer se lembrava muito bem como haviam chegado a tal ponto, aquela mulher e ele. O mais naturalmente possível, sem dúvida, pela simples força das coisas. . . Mas se tivesse de crer no que ela dizia agora, ela se arrependia amargamente de o ter seduzido. Seria certo? De modo algum. Kikuji não tinha dúvidas: não só ela não tivera a intenção como, em nenhum momento, tivera a consciência de o estar fazendo. Quanto a ele, sabia bem não ter tido nem o sentimento e nem mesmo a suspeita de ter-se deixado arrastar. Haviam simplesmente seguido suas inclinações,, um e outro, sem encarar o aspecto moral da questão, sem pensar nisso. Nem um dos dois vira no caso qualquer obstáculo e ambos não resistiram. A moral, em suma, não tinha nada a ver com o assunto.
Tinham chegado ao pé da colina que se defronta com a do Templo Engakuji, e ali entrado numa hospedaria para jantar. Porque aquela conversa, ou antes as confidências da Sra. Ota falando do pai de Kikuji não acabavam mais. Nada o obrigava a escutá-la, por certo, e considerava mesmo um tanto ridícula a fraqueza que lhe demonstrava. De sua parte, a Sra. Ota, dominada por seu assunto, transbordante de emoção, falava sem fim, sem que pudesse aflorá-la a menor apreensão quanto ao interesse que naquilo tudo pudesse ter o seu interlocutor. Já sutilmente enternecido, a despeito de si mesmo, por sua própria paciência, Kikuji a ouvira, de início, com um sentimento de simpatia vaga, mas foi-se deixando ganhar pouco a pouco pelo calor e a doçura daquela natureza afetuosa e terna, pela deliciosa intimidade que ela criava entre os dois. E em seguida se entregar completamente, envolver-se, cobrir-se naquela intimidade. Ao ponto inclusive de chegar a pensar na felicidade que seu pai deveria ter conhecido.
Sim, se era absolutamente necessário que achasse algo a se censurar, seria essa emoção. Mas do momento em que tinha deixado escapar assim a ocasião que se ofereceu de repeli-la e afastar-se dela, que lhe restava além de se deixar levar, cada vez mais, pelos preciosos enternecimentos do seu coração?
Se se pôs há pouco a lhe falar de improviso, e quase contra a vontade, de Chikako e da Srta. Inamura, foi sem dúvida premido por aquela tenebrosa sensação, aquela parte de sombra que permanecia em seu íntimo. Tinha querido expulsar a peçonha que engolira e lhe fizera mal.
Pagara caro por ela, com efeito, com o coração agora dilacerado mais que nunca por novos arrependimentos, e tão violentamente sacudido, com tanta vergonha de si mesmo, tão furioso, que só experimentava um desejo cego de ferocidade, procurando feri-la com suas palavras mais cruelmente ainda.
— Tratemos de esquecer tudo — insinuou ela.
— Digamos que nada aconteceu.
E em seguida, após uma pausa, num murmúrio:
— Nada absolutamente. Nada.
— Mas é claro que não aconteceu nada — fulminou Kikuji. — Você apenas reviveu um pouco a lembrança de meu pai! Nada mais e só isso!
— Oh!
Ela ergueu surpreendida a cabeça do travesseiro. O rosto estava desfeito, as pálpebras vermelhas com as lágrimas e o branco dos olhos congestionado. Mas mergulhando seu olhar naqueles olhos tão abertos, Kikuji pôde ler ainda neles a deliciosa languidez da mulher.
— Não há de ser eu quem diga o contrário, ai! Sou apenas uma pobre mulher...
— Não me venha com histórias! — bradou Kikuji, descobrindo-lhe os seios num gesto brusco. — Se você por acaso tem um sinal de nascença nalguma parte aí, seria impossível jamais esquecê-la... É antes impressionante.
Surpreendia-se a si mesmo com o que estava dizendo.
— Não me olhe assim, lhe peço. Não sou mais muito jovem...
Com os lábios arregaçados, escarnecendo, Kikuji se acercou ainda mais. E se agarrou nela, subitamente pacificado por sua doce languidez, embalado por suaves ondulações voluptuosas e como ainda tépidas do que sucedera há pouco.
Voltando a serenar, distendido, deixou-se cair no sono.
E quando dele emergiu, nesse mundo ambíguo que oscila entre o sonho e a realidade, foi ouvindo pássaros cantar. Era a primeira vez, parecia-lhe, que despertava assim com o canto dos passarinhos.
A bruma matinal perlava a verde folhagem das árvores e ele estava com a cabeça tão clara como se banhada de orvalho. Nenhum vestígio duma ideia inquietante.
A Sra. Ota dormia ainda, de costas para ele. Kikuji se perguntou em que momento ela se virará e, apoiando-se no cotovelo, contemplou longamente o rosto oferecido às primeiras luzes da aurora. Seus lábios esboçaram um leve sorriso.

Yasunari Kawabata, in Nuvens de Pássaros Brancos