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11/05/2026

A bo de segunda

Dois homens se vestindo, cada um em seu quarto, falando ao telefone. O clima é adolescente, como se estivessem indo pra balada.
SALDANHA Senador Silveira?
SILVEIRA Fala, Saldanha!
SALDANHA Vai chegar lá na votação lá do negócio da emenda?
SILVEIRA Nossa, ia te ligar agora pra perguntar isso!
Os dois riem.
SALDANHA Tô muito na dúvida.
SILVEIRA Tá marcado pra que horas?
SALDANHA Umas nove, mas aquela coisa, né? Só começa a bombar lá pelas onze.
SILVEIRA Mas a questão é: o pessoal vai? A última votação que eu fui tava megamicada. Não tinha ninguém que eu conheço.
SALDANHA Nem fala! Foi o uó. Eu estreei uma gravata nova e não tinha nem CQC.
SILVEIRA Nossa, odeio quando isso acontece! Não comprei uma gravata italiana pra gastar na TV Senado!
Os dois riem.
SILVEIRA Você ligou pro pessoal?
SALDANHA O Zezinho do Sindicato tá em Trancoso. O Josuelton tá em Ibiza. O Pastor Tobias disse que só vai se o Carlinhos for. O Carlinhos falou que só vai se eu for. Mas eu só vou se você for, pra gente sentar no fundão e tocar a zoeira.
SILVEIRA E se a gente mandasse o suplente?
SALDANHA O meu tá cassado.
SILVEIRA A gente pode dar uma passadinha. Se tiver ruim a gente vaza.
SALDANHA Pode ser uma boa. A gente passa, dá uma olhadinha e faz uma social pra marcar presença.
SILVEIRA Combinado, então. Ah, essa votação é sobre o quê?
SALDANHA É uma emenda parlamentar de orçamento impositivo.
SILVEIRA Sério?
SALDANHA Claro que não, porra! Tu acha que eu vou saber que porra de votação que vão tá votando, ô caralho?
Os dois riem.
SILVEIRA A gente se vê lá, filho da puta. E vai perfumado que depois tem puteiro.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

12/12/2025

Cachorradas



Eu sempre alugo um vídeo pornô, quando não encontro filmes do Gordo e o Magro disponíveis nas locadoras. À exceção de algumas gargantas antigas, ou uns três filmes do diretor cult John Stagliano, é tudo a mesma chanchada. A gente continua alugando de teimoso. O poeta que escreveu “Já li todos os livros”, podem crer, assinaria embaixo da frase: “Quem viu um vídeo erótico viu todos”. Meu amigo Luís Alfredo, mais sério do que eu, acha que continuamos garimpando nas prateleiras dos clubes por motivos meio proustianos, à recherche de alguma coisa que nunca mais encontraremos, talvez mais sonhada do que vivida no duro (epa!). Mas é nessa procura aí que reside a força irresistível do cinema. Agora mesmo estou envergando minha fantasia de Indiana Jones e partindo pra Vídeo Shop da Tijuca, em busca da xota perdida.
Confesso aos leitores que fui recentemente à boca-do-lixo pra tentar vender um roteirozinho de minha modesta autoria, coisa simples, meio soft, com bestialismo, sodomia e corrupção de menores. Acho que os produtores não vão se zangar se eu contar a muvuca pra vocês. Em primeira mão:
Em Brasília, às três da tarde de uma quarta-feira, rolava a maior suruba superfaturada na mansão de um ex-ministro. Devido aos preços exorbitantes, um popular (que havia entrado de penetra) não conseguia comer ninguém. Uma sugestão: o popular deverá ser protagonizado por João Canabrava, da Escolinha do Professor Raimundo.
Continuando: Canabrava começava a se desesperar porque não conseguia afogar o ganso, graças ao altíssimo cachê cobrado por lobistas e socialites, quando um juiz togado e um perito da Polícia Federal deram a dica:
Olha, naquele quarto escuro em frente, por apenas trinta mil dólares, há uma profissional que pode quebrar o teu galho.
Mas eu não tenho essa grana!
A gente te empresta a juros da Febraban, desde que você se comprometa a distribuir nosso fumo na tua repartição.
Após alguma barganha, as partes chegaram a um acordo, sem precisar recorrer ao Supremo.
Canabrava entrou no aposento às escuras, tateou o contorno de uma cama e... um orifício! Saudoso como estava, foi logo invadindo o Kuwait. A suruba foi interrompida por ganidos e uivos lancinates. As luzes do quarto se acenderam. Uma cadelinha em pânico, com laço de fita cor-de-rosa e olhos onde se misturavam dor e prazer, encostava na parede a estrela do xerife em fogo.
Também assustado, Canabrava chiou:
Pera lá, trinta mil dólares pelo cu da cachorra?
Foi aí que o tal ex-ministro apareceu:
Pra que esse escândalo, meu filho? Reconheço que foi um pouco heterodoxo, mas a bichinha também é um ser humano.

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

21/11/2024

Congresso

Charge de Millôr


O Congresso é uma instituição meio entreposto, meio bordel, meio confessionário.
O Congresso é uma organização entre o progresso e o retrocesso.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

19/09/2024

O impagável Laerte

 

Siglas



Bota aí: “P”
– “P”
De “Partido”.
Ah.
Nossa proposta qual é? De união, certo? Acho que a palavra “União” deve constar do nome.
Certo. Partido de União...
Mobilizadora!
Boa! Dá a ideia de ação, de congraçamento dinâmico. Partido da União Mobilizadora. Como é que fica a sigla?
PUM.
Não sei não...
É. Vamos tentar outro. Deixa ver. “P”...
– “P” é tranquilo.
Acho que “Social” tem que constar.
Claro. Partido Social...
Trabalhista?
Fica PST Não dá.
É. Iam acabar nos chamando de “Ei, você”.
E mesmo “trabalhista”, não sei. Alguém aqui é trabalhista?
Isso é o de menos. Vamos ver. “P”…
Quem sabe a gente esquece o “P”?
É. O “P” atrapalha. Bota “A”, de Aliança. Aliança Inovadora...
AI.
Que foi?
Não. A sigla. Fica AI.
Espera. Eu ainda não terminei. Aliança Inovadora... de Arregimentação Institucional.
AIAI... Sei não.
É. Pode ser mal interpretado.
Vanguarda Conservadora?
Você enlouqueceu? Fica VC.
Aliança Republicana de Renovação do Estado.
ARRE!
O quê?
Calma.
Espera aí pessoal. Quem sabe a gente define a posição ideológica do partido antes de pensar na sigla? Qual é, exatamente, a nossa posição?
Bom, eu diria que estamos entre a centro-esquerda e a centro-direita.
Então é no centro.
Também não vamos ser radicais...
Nós somos a favor da reforma agrária?
Somos, desde que não toquem na terra.
Aceitaremos qualquer coalizão partidária para impedir a propagação do comunismo no Brasil.
Inclusive com o PCB e o PC do B?
Claro.
Não devemos ter medo de acordos e alianças. Afinal, um partido faz pactos políticos por uma razão mais alta.
Exato. A de chegar ao poder e esquecer os pactos que fez.
Partido Ecumênico Republicano Unido.
PERU?
Movimento Institucionalista Alerta e Unido.
MIAU?!
Que tal KIM? - O que significa?
Nada, eu só acho o nome bonito.
MUMU. Movimento Ufanista Mobilização e – MMM... Movimento Moderador Monarquista.
Mas nós somos republicanos.
Eu sei. Mas por uma boa sigla a gente muda.
TCHAU.
Hum, boa. Trabalho e Capital em Harmonia com Amor e União?
Não, é tchau mesmo.
Aonde é que você vai?
Abrir uma dissidência.

Luís Fernando Veríssimo, em Comédias Para se Ler na Escola

17/05/2024

Ética e trapaça

O sociólogo Peter Berger escreveu um livrinho divertido e inteligente que eu gostava de ler com meus alunos quando era professor da Unicamp: Introdução à sociologia. Um dos seus capítulos tem um título esquisito: “Como trapacear e se manter ético ao mesmo tempo”. Disse “esquisito” porque é conhecimento comum que “trapaça” e “ética” não fazem acordos. Mas o momento atual da política brasileira está demonstrando que esse não é o caso. Ao contrário, que é de suma importância juntar ética e trapaça quando as coisas relativas ao dinheiro e ao poder estão em jogo. Para esclarecer esse assunto enigmático, vou contar uma pequena estória: Havia numa cidade dos Estados Unidos uma igreja batista. Os batistas, como se sabe, são um ramo do cristianismo muito rigoroso nos seus princípios éticos. Havia na mesma cidade uma fábrica de cerveja que, para a igreja batista, era a vanguarda de Satanás. O pastor, representante de Deus, não poupava a fábrica de cerveja nas suas pregações. Aconteceu, entretanto, que, por razões pouco esclarecidas, a fábrica de cerveja fez uma doação de 500.000 dólares para a igreja batista. Os membros da igreja foram unânimes em denunciar aquela quantia como dinheiro do Diabo que não poderia ser aceito. Passada a exaltação dos primeiros dias, acalmados os ânimos, os mais ponderados começaram a analisar os benefícios que aquele dinheiro poderia trazer. Uma pintura nova para a igreja, um órgão de tubos, jardins mais bonitos, um salão social para festas. Reuniram-se então os membros da igreja em assembleia e depois de muita discussão registrou-se a seguinte decisão no livro de atas: “A Igreja Batista Betel resolve aceitar a oferta de 500.000 dólares feita pela cervejaria na firme convicção de que o Diabo ficará furioso quando souber que o seu dinheiro vai ser usado para a glória de Deus”. Quando a ideologia é nobre qualquer meio é permissível. Se esse acordo entre “ética” e “trapaça” valeu para a igreja, por que não valerá para os partidos políticos?

Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola