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25/03/2024

Parte 2 | Capítulo 2


Bem, foi a admissão desse novo tcheloveque que iniciou realmente a minha saída da velha Prisesta, porque ele era um plene tão safado e encrenqueiro, de mentalidide tão nojenta e intenções tão asquerosas que a encrenca natchinatou naquele mesmo dia. Ele era também muito faroleiro e começou fazendo um litso muito desdenhoso para nós todos e uma golosse alta e orgulhosa. Esclareceu que era o único prestúpnique realmente horrorshow que tinha no zoo inteiro, e foi por ali afora, dizendo que tinha feito isso e acontecido aquilo e matado dez rodzes de uma ruqueada só e essa quel toda. Mas ninguém se impressionou muito, ó meus irmãos.
Aí ele começou pra cima de mim, já que era o mais moço que tinha lá dentro, querendo dizer que, como eu era o mais moço, eu é que devia zasnutar no chão, e não ele. Mas os outros todos ficaram do meu lado, critchando: “Deixa ele quieto, seu gréjine brétchene”, e ai ele começou com a velha lamúria de que ninguém gostava dele. Então, naquela mesma nótchi eu acordei e encontrei aquele plene horrendo simplesmente deitado junto comigo no catre, que era o de baixo, numa pilha de três, e muito estreito, e ele estava govoritando eslovos de amor e toca-toca-toca. Aí eu fiquei realmente bezúmine e sentei a lenha, se bem que não estivesse enxergando tão horrorshow assim, que só tinha aquela luzinha vermelha malenque do lado de fora, no patamar da escada. Mas eu sabia que era ele, o puto vonento, e aí a encrenca começou de verdade e ligaram as luzes e eu videei o seu litso horrendo com o crove todo pingando da rote, onde eu tinha acertado com o meu rúquer cerrado.
O que eslutchatou então, naturalmente, foi que os meus companheiros de cela acordaram e começaram a entrar na dança, toltchocando meio adoidado na semi-obscuridade, e parece que o chume acordou a galeria inteira e esluchava-se um bocado de gente critchando e batendo com as canecas de lata na parede como se todos os plenes, em todas as celas, pensassem que estivesse pra começar uma fuga em massa, ó meus irmãos.
Aí então as luzes se acenderam e os tchassos chegaram de mangas de camisa, calça e boné e agitando grandes bastões. Aí nós pudemos videar os nossos litsos afogueados e a agitação de róqueres fechados, e houve um bocado de critche e palavrão. Aí eu fiz a minha reclamação e todos os tchassos disseram que, provavelmente o Vosso Humilde Narrador, irmão, é que tinha começado mesmo o negócio, porque eu não tinha marca nem arranhão, mas havia aquele horrível plene pingando crove vermelho, vermelho da rote onde eu tinha acertado meu rúquer fechado. Aquilo me deixou muito bezúmine. Eu disse que não dormia nem mais uma nótchi naquela cela se as Autoridades Penitenciárias viessem permitir que prestúpniques pervertidos, vonentos e nojentos pulassem em cima do meu plote numa hora em que eu estava dormindo, sem condições de me defender. “Espera até de manha”, disseram eles. “É um quarto particular com banheiro e televisão que vossa senhoria deseja? Muito bem, amanhã de manhã vamos ver isso. Mas por enquanto, druguinho, enfia a porra do gúliver no teu podúcheca de palha e que ninguém mais faça confusão. Certo, certo, certo?” E lá se foram eles com severas advertências a todos, e logo depois as luzes se apagaram e aí eu disse que ia passar o resto da nótchi sentado, dizendo antes ao prestúpnique nojento:
Vai, sobe no meu catre se quiser. Eu não quero mais. Você já emporcalhou tudo, deitando o seu plote vonento e nojento em cima dele. – Mas aí os outros se meteram. O Judeuzão falou, ainda suando da bitvazinha que a gente tinha tido no escuro
Efa a gente não afeita não, irmãof. Não dá o lugar pra efe merda não. – Aí o novo disse:
Fecha o penico, juda – querendo dizer pra calar a boca, mas era muito insultuoso. Então o Judeuzão se preparou pra mandar um toltchoque. O Doutor falou:
Vamos, senhores, nós não queremos confusão, queremos? – com a sua golosse de classe alta, mas o tal prestúpnique novo estava mesmo pedindo. videava-se que ele estava mesmo pensando que era um veque de muito bolche importância e que estava abaixo da sua dignidade ficar dividindo uma cela com outros seis e tendo que dormir no chão, até que eu fiz aquela atitude pra ele. Com seu jeito desdenhoso ele tentou arremedar o Doutor, fazendo:
Óóóó, vocêsss não quierem mass confuseo, não é seusss capadossos? – Então Jojohn, maldoso, astuto agitadinho, disse:
Já que não podemos dormir, então vamos à educação. Aqui o nosso novo colega devia receber uma aula.
Apesar de ser assim especialista em Estupro, ele tinha um modo agradável de govoritar, calmo e assim preciso. Aí, o novo plene escarneceu: “Nhenhenhenhé, seu monstrenguinho.” Aí é que o negócio começou mesmo, mas de um modo estranho, assim suave, sem ninguém levantar muito a golosse. O novo plene critchou um malenquinho no começo, mas o Muro punhou ele na rote, enquanto o Judeuzão segurava ele contra as grades pra que pudesse ser videado à malenque luz vermelha do patamar da escada, e ele fazia só ai ai ai. O tipo dele não era de veque muito forte, sendo muito débil na tentativa de toltchocar de volta, e eu presumo que ele compensava isso usando uma golosse muito chumenta e muito convencida. Seja como for, quando eu vi o crove velho correr vermelho na luz vermelha, eu senti aquela velha alegria assim tomando conta das minhas quíchecas e disse:
Deixa ele pra mim, anda, me dá ele agora, irmãos.
Aí o Judeuzão falou:
É fim, é fim, pefoal, é jufto. Amafa ele você agora, (sic) Alecf. - E aí eles ficaram em volta enquanto eu rachava aquele prestúpuique na semi-obscuridade. Eu punhei ele todo, dançando á volta de botas, se bem que desamarradas, e aí pisoteei ele e ele fazia pafe pafe no chão. Dei-lhe um pontapé muito horrorshow no gúliver e o Doutor falou:
Tá bom, isso chega como castigo – olhando com os olhos semicerrados pra videar o veque surrado e arriado no chão. – Deixa, que talvez ele esteja sonhando em ser um menino melhor no futuro. – Então, nós todos subimos nos catres, que agora estávamos todos muito cansados. O que eu sonhei, meus irmãos, foi que eu estava numa orquestra imensa, de centenas e centenas de músicos, e o regente era assim uma mistura de Ludwig van e G. F. Handel, e parecia muito surdo e cego e cansado do mundo. Eu ficava em meio aos instrumentos de sopro, mas o que eu estava tocando era assim um fagote branco-rosado feito de carne e saindo do meu plote, bem no meio da minha barriga, e quando eu soprava nele eu tinha de esmecar hi hi hi muito alto, porque ele me fazia assim cócegas, e aí Ludwig van G. F. ficou muito rasdraz e bezúmine. Então ele veio direto ao meu litso e critchou alto no meu uco e aí eu acordei assim suando. Naturalmente, o chume alto era na realidade a campainha da prisão brrrr brrrr brrrr. Era manhã de inverno e os meus glazes estavam todos quelentos de remela e quando eu abri, eles doeram com a luz elétrica que tinha sido acesa no zôo inteiro. Ai, eu olhei pra baixo e videei o novo prestúpuique muito ensangúcutado e machucado e ainda completamente desligado.
Mas quando eu desci do catre e mexi nele com o meu noga descalço, o toque foi assim frio e rígido; então eu fui até o catre do Doutor e sacudi ele, que era muito duro de acordar de manhã. Mas ele saiu do catre bastante escorre dessa vez, e o mesmo fizeram os outros, com exceção do Muro, que dormia como um bife. – Muito lamentável – disse ô Doutor. – Ataque cardíaco, deve ter sido isso. – Aí ele disse olhando em torno, pra nós todos: – Realmente, vocês não deviam ter partido pra ele desta forma. Foi realmente muito mal ensado. –
Jojohn disse:
Deixa disso, ô doutor você também não ficou pra trás na hora de dar a sua porradinha. – Ai, o Judeuzão virou-se pra mim, dizendo:
Alecf, vofê foi muito impetuovo. Aquele último fiute foi muito fério. – Eu comecei a ficar rasdraz com aquilo (sic) e falei:
Quem foi que começou, hein? Eu só peguei ele no fim, não foi? Apontei pra Jojohn dizendo: – A ideia foi sua! – O Muro roucou um pouco alto, então eu disse: – Acordem esse brétchene vonento. Foi ele que ficou batendo na rote enquanto aqui o Judeuzão segurava ele de encontro à grade. – O Doutor falou:
Ninguém pode negar que bateu um pouquinho no homem, pra lhe dar uma lição, digamos assim, mas aparentemente foi você, meu caro jovem, que, com o vigor e, diria eu, a maneira descuidosa da juventude, aplicou-lhe o golpe de misericórdia. Grande lástima.
Traidores – disse eu. – Traidores e mentirosos porque eu podia videar que era tudo como antes, dois anos antes quando os meus falsos drugues tinham me abandonado aos rúqueres brutais dos milicentes. Não se podia confiar em ninguém neste mundo, ó meus irmãos, pelo que eu estava vendo. E Jojohn foi acordar o Muro, e o Muro estava mais do que pronto a jurar que tinha sido o Vosso Humilde Narrador que tinha realmente praticado os tolchoques e a repugnante brutalidade. Quando os tchassos chegaram e depois o Tchasso-Chefe e depois o próprio diretor, aqueles meus drugues todos ficaram muito chumentos, contando lorotas a respeito de tudo o que eu tinha feito pra ubivatar aquele pervertido inútil, cujo plote coberto de crove jazia no chão como um saco.
Aquele foi um dia muito estranho, ó meus irmãos. o cadáver foi levado embora, e aí todo mundo na prisão inteira teve que ficar trancado até segunda ordem, e não deram píchetcha, nem mesmo uma caneca de tchai quente. A gente ficou tudo sentado lá, e os carcereiros ou tchassos lavam passadas pra cima e pra baixo na galeria critchando de vez em quando: “Fecha essa cloaca!” assim que esluchavam nem que fosse um cochicho em uma das celas. Então, por volta de onze horas da manhã, houve uma espécie assim de retesamento e excitação e assim o vone do medo se espalhando e vindo de fora da cela e a gente podia videar o Diretor, o Tchasso-Chefe e alguns tcheloveques de bolche importância passando muito escorre, govoritando que nem bezúmines. Pareciam se dirigir para o fim da galeria, depois dava pra esluchar eles voltando novamente, dessa vez mais devagar, e esluchava-se o Diretor, um veque muito gordo e suarento e de cabelo claro, dizendo slovos como “Mas, Excelência...” e “Bem, mas o que se pode fazer, Excelência?” e assim por diante. Depois o banho todo parou na nossa cela e o Tchasso-Chefe abriu. Vodeava-se logo de cara quem era o veque realmente importante; muito alto, de glazes azuis, e vestindo pletes realmente horrorshow, o terno mais lindo que eu já tinha visto, no rigor da moda. Ele só lançou um olhar sobre nós, pobres plenes, dizendo, numa golosse muito bonita, realmente educada: “O Governo não pode mais se preocupar com teorias penalógicas caducas. Amontoem-se delinquentes deste modo e veja-se o que acontece. Obtém-se a criminalidade concentrada, o crime no meio do castigo. Em breve, estaremos necessitando de todo o espaço de nossas prisões para os transgressores políticos.” Isso eu não poniei nada, irmãos, mas afinal ele não estava falando comigo. Aí, ele disse: “Os criminosos comuns, como essa malta intragável” (isso era eu, irmãos, tanto quanto os outros, que eram verdadeiros prestóúpniques e muito traiçoeiros), “podem ser melhor tratados em bases puramente curativas. Matar o reflexo criminoso, só isso.”
Implementação completa em um ano. O castigo não significa nada para eles, como podem ver. Eles desfrutam do pretenso castigo. Começam a se assassinar uns aos outros." E voltou os seus olhos azuis pra mim. Aí, eu disse, muito atrevido:
Com o devido respeito, Excelência, eu protesto energicamente contra o que o senhor acaba de dizer. Eu não sou um criminoso comum, e não sou intragável. Os outros podem ser intragáveis, mas eu não sou. – O Tchasso-Chefe ficou violáceo e critchou.
Feche essa cloaca imunda! Você sabe com quem está falando?
Deixe, deixe – disse o tal veque grande. Aí ele se virou pro Diretor e disse: – Pode usá-lo como abre-alas. Ele é jovem, atrevido, perverso. Brodsky vai tomar conta dele amanhã e o senhor pode ficar sentado lá e ver Brodsky trabalhar. Funciona bem, não se preocupe. Este jovem baderneiro, perverso vai ser irreconhecivelmente transformado.
E esses duros eslovos, meus irmãos, foram assim o início da minha liberdade.

Anthony Burgess, in Laranja Mecânica

22/01/2024

Laranja Mecânica | Parte 2


Capítulo 1

Qual vai ser o programa, hein?
Reinicio agora, e esta é a parte realmente chorosa e assim trágica da história que está começando, meus irmãos e únicos amigos, na Prisesta (quer dizer, Prisão Estatal) numero 84-F. Vocês não vão querer esluchar toda a quelenta e horrível rascadze do choque que deixou meu pai brandindo os rúqueres machucados e croventos assim contra o injusto Bog dos Céus e minha mãe abrindo a rote num aiiiii aiiiii na sua dor de mãe porque o seu filho, o único do seu ventre, tinha deixado todo mundo na mão muito horrorshow. E depois teve também o estarre magistrado muito sinistro no tribunal de primeira instância govoritando alguns eslovos duros contra o Vosso Amigo e Humilde Narrador, e depois todas as gréjines e quelentas calúnias escarradas por P. R. Deltoid e os rodzes, que Bog os fulmine. E depois teve o recambiamento pra imunda Detenção, no meio dos prestúpniques vonentos e pervertidos. Depois, teve o julgamento no tribunal de segunda instância, com juizes e um júri e alguns eslovos realmente muito grosseiros e govoritados de modo assim muito solene, e depois Culpado e minha mãe buuuuuuu quando disseram Catorze anos, ó meus irmãos. Portanto, cá estava eu, exatamente dois anos depois daquele dia em que fui chutado e trancado na Prisesta 84-F, vestido no rigor da moda presidiária, que era uma roupa de uma só peça, cor de quel assim muito suja e com o número costurado nos meus grudes, logo acima do tique-taque e nas costas também, de modo que, para todos os efeitos, eu era o 6655321, e não mais o vosso druguinho Alex.
Qual vai ser o programa, hein?
Não tinha sido assim edificante, deveras não tinha, ficar dois anos nesse gréjine buraco do inferno, unia espécie de jardim zoológico humano, sendo chutado e toltchocado por carcereiros brutais e valentões e conhecendo criminosos vonentos de olhar atravessado, alguns deles autênticos pervertidos prontos a desencaminhar um jovem maltchique gostoso como este que vos fala. E a gente tinha que rabitar na oficina, fazendo caixas de fósforos, e itar rodando, rodando, rodando em volta do pátio assim pra fazer exercício, e de noite, às vezes, um veque estarre qualquer com pinta de professor fazia palestras sobre escaravelhos ou a Via Láctea, ou as Gloriosas Maravilhas do Floco de Neve, e essa última me fazia dar bons esmeques, porque me lembrava do tempo dos toltchoques e do Puro Vandalisnio, como aquele dede saindo da Bíblio Pública numa noite de inverno, quando os meus drugues ainda não eram traidores e eu era assim livre e feliz. Desses drugues, eu só tinha esluchado uma coisa, isso foi num dia em que meu pê e eme vieram me visitar e me contaram que Georgie já era morto, morto sim, meus irmãos. Estava morto com um montinho de quel de cachorro na rua. Georgie tinha levado os outros dois à casa de um tcheloveque assim muito rico e eles tinham chutado e toltchoeado o dono da casa no chão, e depois Georgie tinha começado a rasrezar as almofadas e as cortinas e o Tapado tinha quebrado alguns adornos preciosos como estátuas e coisas assim, e o rico tcheloveque espancado tinha se enraivecido como um bezúmine e tinha partido pra cima deles com uma barra de ferro muito pesada. O fato dele estar muito rasdraz tinha dado a ele uma força gigantesca, e o Tapado e Pete tinham fugido pela janela, mas Georgie tinha tropeçado no tapete e aí levou aquela porrada que lhe estraçalhou a cabeça e acabou-se o traiçoeiro Georgie.
O estarre assassino tinha escapado por legítima defesa e estava realmente tudo muito certo. Mataram Georgie, mesmo mais de um ano depois de eu ter sido apanhado pelos milicentes, tudo isso estava muito certo e era assim, o Destino.
Qual vai ser o programa, hein?
Eu estava na Capela Wing, que era domingo de manhã e o carlitos da prisão estava govoritando a Palavra do Senhor. Meu rábite era tocar o estarre estéreo, botando musica solene antes, depois e no meio também, quando cantavam hinos. Eu estava nos fundos da Capela Wing (tinha quatro aqui na Prisesta 54-E), perto de onde os carcereiros ou tchassos ficavam com os seus rifles e suas imundas queixadas bolches, azuis e brutais, e eu podia videar todos os plenes sentados esluchando o Eslovo do Senhor em suas horríveis roupas de prisão cor de quel, e uma espécie de vone nojento exalava deles, não como se realmente não estivessem lavado, não gredzes, mas assim um vone especialmente muito fedorento, que a gente só sente nos criminosos, meus irmãos, um vone assim de poeira, de graxa, sem esperanças. E eu estava pensando que talvez eu também estivesse com aquele vone, que eu também tivesse me tornado um autêntico plene, apesar de muito jovem. Por isso é que era tão importante pra mim, ó meus irmãos, sair desse zôo gréjine tão depressa quanto fosse possível e, como vocês vão videar, se continuarem lendo, não faltava muito pra isso.
Qual vai ser o programa, hein? – disse o carlitos da prisão pela terceira raze. – Vai ser entra e sai e entra e sai de instituições como esta, se bem mais que entra do que sai, para a maioria de vocês, ou vocês vão prestar atenção à Palavra Divina e compreender os castigos que esperam o pecador impenitente no outro mundo, tanto quanto neste? A maioria de vocês não passa de um bando de imbecis vendendo seus direitos de nascença por um pires de papa fria. A emoção do roubo, da violência, a necessidade de vida fácil – tudo isso vale a pena, quando temos provas insofismáveis; sim, sim, incontroversas de que o inferno existe? Eu sei, eu sei, meus amigos, eu fui informado em visões de que existe um lugar, mais escuro do que qualquer prisão, mais quente do que qualquer chama de fogo humano, onde as almas dos pecadores criminosos impenitentes como vocês – e não debochem de min, malditos, não achem graça –, como vocês, estou lhes dizendo, gritam em agonia interminável e infinita, as narinas sufocadas pelo odor de imundície, a boca entalada de sujidade escaldante, a pele caindo e apodrecendo, uma bola de fogo rodando nas suas entranhas que gritam. Sim, sim, eu sei.
Neste ponto, irmãos, um plene num ponto qualquer da fila de trás fez um som chumento com os lábios – “Prrrrrrrrp” – e aí os tchassos brutais puseram mais uma vez mãos à obra, correndo muito escorre para onde eles acharam que ficava a origem do som, batendo feio e distribuindo toltchoques prum lado e pro outro.
Depois agarraram um pobre plene trêmulo, muito magro e malenque e estarre também, e arrastaram ele pra fora, mas o tempo todo ele critchava: “Não fui eu não, foi ele, viu?”, mas isso não fez a menor diferença. Ele foi toltchocado feio e forte e arrastado pra fora da Capela Wing, critchando de arrebentar.
Bom – disse o carlitos da prisão –, escutem a Palavra do Senhor. - Então ele pegou o grande livro e começou a passar as páginas, sempre molhando os dedos e pra isso os lambia, eslupe eslupe. Era um sacanão boiche e troncudo, de litso muito vermelho, mas gostava muito de mim, porque eu era jovem e também muito interessado no grande livro. Tinha sido providenciado, como parte da minha educação complementar, que eu lesse o livro e até mesmo ouvisse música no estéreo da capela enquanto lia, ó meus irmãos. E isso era muito horrorshow. Eles me trancavam assim lá dentro e me deixavam esluchar a linda música de J. S. Bach e G. F. Handel, e eu lia sobre aqueles brutalhões estarres se toltchocando uns aos outros e depois pitando o seu vino hebreu e indo assim pra cama com as aias das suas mulheres, muito horrorshow.
Isso me ajudava a ir levando, meus irmãos. Eu não copetei lá muito bem a parte final do livro, que tem assim mais govorite de pregador do que briga e entra-sai-entra-sai. Mas um dia o Charles me disse, me abraçando assim apertado com o seu rúquer bolche e carnudo: “Ah, 6655321, pense no sofrimento divino. Medite sobre isso, meu filho!” E ele tinha sempre aquele vone rico e másculo de escocês, que a gente ia sempre ao cantora dele pra pitar mais um bocadinho. E aí eu lia tudo sobre a flagelação e a coroa de espinhos e depois a véssiche da cruz e aquela quel toda, e videava melhor que aquilo encerrava alguma coisa. Enquanto o estéreo tocava trechos do lindo Bach, eu fechava os glazes e me videava ajudando e até me encarregando dos toltchoques e de pregar os cravos, vestido com uma toga, que era o rigor da moda romana. Portanto, ficar na Prisesta não foi tanto perda de tempo assim, e o próprio Diretor ficou muito satisfeito de ouvir que eu tinha passado a gostar de religião, e era nisso que eu depositava as minhas esperanças.
Naquele domingo de manhã, o carlitos leu no livro sobre tcheloveques que eslucharam o eslovo e não deram a menor bola de estar a dome assim construída sobre a areia, e aí veio a chuva esplache e bumbumbum estalou no céu e lá se foi a tal dome. Mas eu achei que só um veque muito tapado ia construir a própria dome em cima da areia e que ele tinha um bando de drugues que eram uns auténticos gozadores e vizinhos calhordas, que ninguém falou pra ele que tapado que ele era fazendo a obra daquele jeito. Aí, o Charles critchou: “Certo, cambada. Vamos terminar com o número 435 do Hinário dos Detentos.” Ai houve um trasque e plope e zuche zuche zuche enquanto os plenes pegavam, soltavam e viravam as páginas dos seus hinários gredzes e malenques e os brutamontes raivosos dos guardas critchavam: “Parem de falar aí, seus sacanas! Tô de olho em você, 920537!” É claro que eu já estava com o disco pronto no estéreo e aí foi só deixar a singela música para órgão entrar, envolvendo tudo com um grrrrooooouuooooouu. Então os plenes começaram a cantar que era realmente um horror:
Nós somos chã fraco, misturado há pouco,
Mas mexer faz tudo ficar forte.
Não comemos da comida dos anjos,
E longa provação é a nossa sorte
Eles como que choravam e uivavam esses eslovos imbecis, com o carlitos assim vergastando:
Mais alto, amaldiçoados, cantem, anda!”, e os carcereiros critchando “Você vai ver, 7749222!” e “O que é teu tá guardado, seu porco!” Depois acabou tudo e o carlitos disse: “Que a Santíssima Trindade vos guarde sempre e vos faça bons, amém.” E o arrastar de pés da saída começou com um trechinho seleto da Sinfonia nº 2 de Adrian Schweigselber, escolhido aqui pelo Vosso Humilde Narrador, ó meus irmãos. Que cambada aquela, pensava eu enquanto ficava lá perto do estarre estéreo da capela videando eles arrastando os pés pra sair e fazendo marrre e béééé como uns bichos e me fazendo sinal de enfiar no cu com seus dedos gréjines, porque parecia que eu tinha privilégios muito especiais. Depois que o último deles tinha arrastado os pés pra fora os rúqueres caídos que nem macaco, e o único carcereiro que ainda restava saiu, dando-lhe um toltchoque por detrás do gúliver, e depois que eu desliguei o estéreo, o carlitos veio até mim, dando baforadas num câncer, ainda com as suas estarres pletes de homemdebog, toda branca e rendada que nem de devótcheca.
Ele disse:
Como sempre, muito obrigado, 665531. Quais são as novidades que você tem pra mim hoje? – Eu sabia que o negócio era que esse carlitos estava querendo virar um santo tcheloveque no mundo da Religião nas prisões e que ele queria um testemunho muito horrorshow do diretor; por isso, de vez em quando ele ia e govoritiva muito na moita com o diretor a respeito de que negras tramas estavam fervilhando entre os plenes, e muita dessa quel ele obtinha de mim. Muita coisa era assim tudo inventado, mas muita coisa era verdade, como, por exemplo, da vez que tinha chegado até à nossa cela, pelos encanamentos toquetoque toquetoque, que o Harriman grandão ia fugir. Ia dar um toltchoque no carcereiro na hora ia refeição e sair com as pletes do guarda. Aí ia haver uma baita jogação da píchetcha horrenda que nos serviam no refeitório, e eu sabia disso e contei. Então o carlitos passou adiante e foi felicitado pelo diretor por ter Espírito Público e Ouvidos Atentos. Por isso daquela vez eu disse e não era verdade:
Bem, reverendo, chegou pelos encanamentos que uma partida de cocaína chegou por meios ilícitos e que uma das celas da Galeria 5 vai ser o centro distribuição.
Tudo isso eu inventei enquanto ia falando, como tantas outras histórias dessas que eu já tinha fabricado, mas o carlitos da prisão ficou muito agradecido, dizendo: – Ótimo, ótimo, ótimo, ótimo. Vou levar essa ao Próprio – que era assim que ele chamava o Diretor. Aí, eu filei:
Reverendo, eu estou fazendo o que posso, não estou? – Eu sempre usava a minha muito polida golosse de cavalheiro, quando govoritava com o pessoal lá de cima.
Eu tenho feito o que posso, reverendo, não tenho?
Eu acho – disse o carlitos – que no geral você tem, 6655321. Você tem Sido muito útil e, acho eu, mostrando um desejo autêntico de se recuperar. Você, se continuar assim, vai ganhar o seu indulto sem problema algum.
Mas, reverendo – disse eu –, e essa novidade de que eles estão falando agora? Que tal esse novo tratamento que tira a gente assim da prisão logo logo e assegura que a gente não volta nunca mais.
Ué – disse ele muito desconfiado. – Onde foi que você ouviu isso? Quem lhe falou desse negócio?
Essas coisas correm, reverendo – disse eu. – Dois guardas conversam, por exemplo, e a gente não pode deixar de escutar o que eles estão falando. Ou então alguém pega um pedaço de papel de jornal na oficina e o jornal conta tudo. Que tal o senhor me inteirar desse negócio, se é que o senhor permite a liberdade de dar a sugestão?
Eu podia videar que ele estava pensando no assunto enquanto puxava o seu cancerzinho, avaliando o quanto ele ia poder contar do que sabia a respeito dessa véssiche de que eu tinha falado. Aí, ele disse: – Suponho que você esteja se referindo á Técnica Ludovico. – Ele continuava muito cauteloso.
Não sei como se chama, reverendo – eu falei. – Só sei que tira a gente daqui rápido e garante que não volta mais.
E isso mesmo – disse ele, as sobrancelhas assim muito arqueadas, enquanto olhava pra mim. – é bem assim, 6655321. É claro que ainda está na fase experimental, no momento. É muito simples, mas muito drástica.
Mas está sendo usada aqui, não está, reverendo? – disse eu. – Aqueles prédios brancos novos, assim perto da muralha sul, reverendo. Nós víamos aquilo sendo construído enquanto estava fazendo exercício, reverendo.
Ainda não foram usados – disse ele –, não nesta prisão, 6655321. O Próprio tem sérias dúvidas a respeito. O problema é saber se uma técnica assim pode tornar alguém bom. A bondade vem de dentro, 6655321. A bondade é uma coisa que se escolhe. Quando alguém não pode escolher, deixa de ser humano. – Ele bem que ia continuar com muito mais quel desse tipo, mas já se esluchava a nova leva de plenes marchando planque planque planque pelas escadas de ferro abaixo, pra receber o seu naquinho de Religião. Ele falou: – Nós vamos bater um papo sobre isso noutra hora. Agora é melhor você botar o solo de órgão pra tocar. – Aí, eu voltei pro estéreo estarre e botei o prelúdio Wachet Auf do J. S. Bach, e aqueles delinquentes pervertidos, gréjines, vonentos e filhos da puta chegaram arrastando os pés como um bando de macacos alquebrados, os guardas ou tchassos latindo pra eles e chocoteando. E em breve, o carlitos da prisão estava perguntando: – Qual vai ser o programa, hein? – E foi aí que vocês chegaram.
Nós tivemos assim quatro dessas lontiques de Religião nas Prisões naquela manhã, mas o charles não falou mais nada sobre a tal de Técnica Ludovico, fosse lá o que fosse, ó meus irmãos. Quando eu terminei a minha rabitagem com o estéreo, ele só me govoritou alguns eslovos de agradecimento e aí eu fui privoditado de volta à cela da galeria 6, que era o meu próprio lar, vonento e entulhado. O tchasso não era um veque tão mau assim, e não me dava toltchoques nem pontapés quando abria a porta, apenas dizia; “Pronto, filhinho, cá está você de volta pro poço.” E lá estava eu com os meus novos drugues, todos muito criminosos, mas, Bog seja louvado, não dados a perversões corporais. Tinha Zophar, no seu catre, um veque muito magro e escuro, que falava, falava, falava, com uma voz assim muito cancerenta, portanto ninguém se dava ao trabalho de esluchar. O que ele estava falando agora era: “E naquele tempo, tu não conseguia agarrar um pogue” (fosse lá isso o que fosse, irmãos), “não se tu tivesse que entregar dois milhões de arquibaldos; então o que foi que eu fiz, hein? Eu desci até o Turkey's e disse que tinha aquele esprugue na manhã seguinte, e aí o que é que ele podia fazer?” Era aquela gíria de delinquente muito antiga, que ele falava. Tinha também o Muro, que tinha um glazinho só e estava arrancando pedaços de unha de pé, pra comemorar o domingo. Tinha também o Judeuzão, um veque muito gordo e suarento, caído prostrado no catre como morto. Em seguida tinha o Jojohn e o Doutor. Jojohn era muito maldoso, astuto e agitadinho e tinha assim se especializado em Estupro, e o Doutor tinha alegado ser capaz de curar sífilis, gonô e corrimento, mas só injetava água e tinha também matado duas devótchecas em vez de, como havia prometido, livrá-las dos seus fardos indesejáveis. Era um bando realmente gréjine, terrível, e eu não gostava de estar junto com eles, ó meus irmãos, não mais do que vocês agora, mas não vai ser por muito tempo.
Agora, o que eu quero que vocês saibam é que esta cela tinha sido destinada a três pessoas, quando foi construída, mas nós éramos seis lã dentro, todos amontoados, suados e apertados. E essa era a situação de todas as celas em todas as prisões naquele tempo, irmãos, e era uma vergonha imunda e quelenta, que não havia um lugar decente prum tcheloveque esticar os membros. E vocês mal vão acreditar no que eu vou lhes contar agora, que é que naquele domingo brosataram mais um plene lá dentro. E, a gente tinha comido a nossa píchetcha horrorosa de bolinhos e cozido vonento, e estava fumando um câncer tranqtiilo, cada um no seu catre, quando aquele veque foi jogado no meio da gente. Era um veque estarre e queixudo e foi ele quem começou critchando reclamações, antes mesmo que a gente tivesse chance de videar a posição. Ele tentou sacudir as grades, critechando: – Eu exijo a porra dos meus direitos, isso aqui tá lotado, é um abuso escroto, isso é o que é! – Mas um dos tchassos voltou pra dizer que ele ia ter que se arrumar como pudesse e dividir um catre com quem quisesse deixar, que de outro modo ia ter que ser no chão mesmo. – E – disse o carcereiro – vai ser pior. Um mundo criminoso muito sujo é o que essa cambada criminosa de vocês está tentando construir.

Anthony Burgess, in Laranja Mecânica

10/01/2024

Laranja Mecânica | Capítulo 6


Me arrastaram praquele cantora todo caiado de branco, muito iluminado, e tinha um vone forte que era uma mistura assim de vômito, mictório, cerveja podre e desinfetante, tudo vindo dos xilindrós próximos. Ouviam-se alguns dos plenes nas suas celas, praguejando e cantando e eu achei que estava esluchando um que berrava: E eu voltarei para o meu amor, meu amor,
Quando você, meu amor, for embora.
Mas tinha as golosses dos milicentes dizendo a eles pra calar a boca e esluchava-se até o esvuque de alguém sendo toltchocado realmente horrorshow e fazendo ó e era assim a golosse de uma ptitsa estarre bêbeda e não de homem. Comigo, no cantora, estavam quatro milicentes, todos tomando um bom pite ruidoso de tchai forte, um grande bule estava em cima da mesa e eles chupando e arrotando por cima de suas boiches canecas imundas. Não me ofereceram. Tudo que me deram foi um espelho estarre e ordinário pra eu me olhar, e de fato eu não era mais o vosso jovem e belo Narrador, mas uma visão estreque, minha rote inchada, meus glazes completamente vermelhos e meu nariz também um pouco encalombado. Todos eles soltaram um esmeque horrorshow quando videaram minha consternação, e um deles falou: – Assim o jovem pesadelo do amor. – E aí entrou um milicente graduado, com estrelas nos pletchos, pra mostrar que estava alto alto alto, e ele me videou e disse: – Hum. - Aí então eles começaram. Eu disse:
Eu não vou falar um único eslovo pra amostra, a menos que meu advogado esteja aqui. Eu conheço a lei, seus putos. – Naturalmente todos eles deram um gronque esmeque com isso, e o milicente estrelar falou:
Muito bem, moçada, vamos começar por mostrar a ele que nós também conhecemos a lei, mas que conhecer a lei não é tudo. - Tinha assim uma golosse de cavalheiro e falava num tom muito cansado e fez sinal de cabeça, com um sorriso muito drugue, prum puto muito gordalhão. O puto gordalhão tirou a túnica e videavase que uma baita barriga estarre ele tinha. Aí, ele veio na minha direção, não muito escorre, e quando abriu a rote, com um esgar de lado, muito cansado, eu podia sentir o vone do chá com leite que ele tinha pitado. Pra rodze ele não estava muito bem barbeado e videavam-se nódoas de suor seco na camisa, debaixo dos braços, e eu podia sentir aquele vone assim de cera de ouvido vindo dele quando ele se aproximava. Aí, ele fechou o fétido rúquer vermelho e me deu uma bem na barriga, o que era uma sujeira, e todos os outros milicentes esmecaram de estourar com isso, menos o graduado, que continuou com o sorriso assim lasso, como se estivesse entediado. Eu tive de me encostar na parede branca de cal, de modo que o branco ficou todo nas minhas pletes, eu tentando recuperar a respiração, numa grande agonia, e sentia vontade de vomitar a torta grudenta que tinha comido antes, no começo da noite. Mas eu não podia tolerar esse tipo de véssiche de vomitar o chão todo, então eu prendi. Aí eu vi que o capanga banhento estava olhando pro lado dos drugues milicentes, pra dar um esmeque horrorshow com o que tinha feito, então eu levantei meu noga esquerdo e, antes que pudessem critchar pra ele tomar cuidado, acertei-lhe um pontapé lindo e caprichado na canela. Ele abriu o berro, pulando pela sala.
Mas depois disso, todos eles fizeram uma roda, me empurrando de um pro outro, como se eu fosse uma bola sangrenta muito cansada, ó meus irmãos, e me dando socos nos iarbos, na rote e na barriga e me distribuindo pontapés, e então, finalmente, eu tive que vomitar no chão e como um veque realmente bezúmine, eu até falei:
Desculpem, irmãos, isso não é coisa que se faça. Desculpem, desculpem, desculpem.” Mas eles me deram pedaços estarres de gazeta e me fizeram limpar, depois me fizeram passar serragem. E aí me disseram, quase como se fossem velhos e queridos drugues, pra eu ir me sentar, que nós íamos ter um govoritezinho tranquilo.
E ai o P. R. Deltoid entrou pra dar uma videada, que o escritório dele era no mesmo prédio, com um ar muito cansado e gréjine, e pra dizer:
Então aconteceu, Alexito, não é? Exatamente como eu previa. Ai ai ai ai ai. Não é? Aí voltou-se para os milicentes pra dizer: – Noite, inspetor. Noite, sargento. Noite pra todos. E... isso pra mim é o fim da linha, não é? Ai, ai, esse rapaz parece que está muito desmazelado, não está? Olha só o estado dele.
A violência gera a violência – disse o milicente graduado num tom de golosse muito santo. – Ele resistiu aos seus captores legais.
O fim da linha, não é? – disse P. R. Deltoid de novo. Olhou pra mim com glazinhos muito frios, como se eu tivesse virado uma coisa e não mais um tcheloveque espancado, muito cansado e sangrento.– Suponho que eu terei que ir ao tribunal amanhã.
Não fui eu, irmão, Sr. Deltoid – disse eu, um malenquezinho choroso. – Fale por mim, senhor, que eu não sou tão mau assim. Eu fui levado pela traição dos outros, senhor.
Canta como um rouxinol – disse o rodze graduado escarnecendo. – Canta bem, em cima do telhado, lá ele canta.
Vou falar – disse o frio P. R. Deltoid. – Estarei lá amanhã, não se preocupe.
Se o senhor quiser dar um murro nos queixos dele, Sr. Deltoid – disse o milicente graduado –, não se acanhe com a gente. A gente segura ele. Ele deve ser outra grande decepção para o senhor.
P. R. Deltoid então fez uma coisa que eu nunca pensei que um homem como ele, que se esperava que transformasse a nós, os mauzinhos, em maltebiques muito horrorshow fizesse, principalmente com aqueles rodzes todos em volta. Ele chegou um pouco mais perto e cuspiu. Cuspiu. Cuspiu em cheio no meu litso e depois limpou a rote molhada de cuspe com o róquer. E eu limpava e limpava e limpava o meu litso cuspido com o meu tachetuque ensanguentado, dizendo: – Muiito obrigado, senhor, muitíssimo obrigado, senhor, isso foi muita bondade sua, muito obrigado. - E aí P. R. Deltoid saiu sem mais um eslovo.
Os milicentes então passaram a fazer aquele longo depoimento pra eu assinar e eu pensei comigo mesmo: quero que vocês todos se danem, seus putos, Se vocês estão do lado do bem, então eu fico muito contente de estar do outro lado. - Tá bom - eu disse pra eles. - Seus gréjines brétchenes, seus bostas vonentos. Ouçam, ouçam tudo. Eu não vou mais ficar rastejando de bruço, seus fetos mersques. Onde é que vocês querem que eu comece, seus animais quelentos, vonentos? Desde a minha última correcional? Horrorshow, horrorshow, então lá vai. - Aí eu contei tudo pra ele, e fiz aquele milicente taquígrafo, um tipo de tcheloveque muito quieto e assustado, que não tinha nada de rodze, cobrir páginas e páginas e paginas. Entreguei a ultraviolência, os crastes, as dratsas, o entra-sai-entra-sai, tudo, até chegar à véssiche daquela noite, com a ptitsa estarre bôgate dos cotes e cótebecas miantes. E fiz questão de que os meus supostos drugues estivessem em todas, até o chiieque. Quando eu acabei a tralha toda, o milicente taquígrafo parecia estar meio zonzo, coitado do veque. O rodze graduado falou pra ele, com uma golosse amável:
Tá, meu filho, sai e toma uma boa xícara de tchai, com calma, e depois bate essa podridão toda à máquina, com um pregador de roupa no nariz, três cópias. Depois traz pro nosso lindo amiguinho assinar. E você – disse ele pra mim – já pode ser levado para a sua suíte nupcial, com água corrente e todas as comodidades. Tudo certo – na sua golosse cansada a dois dos rodzes tipo durão –, levem ele daqui.
Então eu fui chutado, socado e brutalizado em direção às celas e trancafiado junto com dez ou doze outros plenes, muitos deles embriagados. Tinha veques que eram verdadeiros tipos de bichos ujássines, entre eles um com o nariz todo comido e a rote aberta, que nem um grande buraco preto, um que estava no chão roncando e um visgo escorrendo sem parar da rote, e um que tinha largado toda a quel nas calças. Depois, tinha assim duas bichas que se engraçam ambas comigo e uma delas deu um pulo pras minhas costas e eu tive unia dratsa feia com ela, e o vone que tinha, assim de bebida e perfume barato, me deu vontade de vomitar de novo, só que agora eu estava de barriga vazia, ó meus irmãos. Aí a outra bicha começou a botar os rúqueres em cima de mim e teve uma dratsa cheia de rosnados entre as duas, ambas querendo pegar no meu plote. O chume ficou muito alto, então chegou um par de milicentes e rachou os dois assim com cassetetes e aí os dois sentaram quietos assim olhando pro ar e o crove velho pingando, pim pim pini pim pelo litso de um deles abaixo. Havia catres na cela, mas todos ocupados. Eu subi até o mais alto de uma pilha de catres, tinha quatro em cada pilha e lá estava um veque estarre bêbedo roncando, muito provavelmente içado lá pra cima pelos milicentes. Seja lá como for, eu desci ele de novo, que ele não era tão pesado assim, e ele desabou no chão, em cima de um tcheloveque gordo e bêbedo. e ambos acordaram e começaram a critchar e dar socos um no outro que era patético. Então eu deitei naquela cama vonenta, meus irmãos, e peguei num sono muito cansado. exausto e magoado. Mas não era realmente sono, era como passar para outro mundo melhor. E nesse outro mundo melhor, ó meus irmãos, eu estava num vasto campo, com tudo quanto era flor e árvore, e tinha assim um bode com litso de homem, tocando uma flauta. E então surgiu, como o Sol, o próprio Ludwig van, de litso de trovão e gravata, o volosse revolto pelo vento, e então eu ouvi a Nona, último movimento, com os eslovos um tanto ou quanto misturados, como se até eles soubessem que tinham que estar misturados, já que aquilo era um sonho:

Ó tu, jovem turbulento, glutão do céu,
Carniceiro do Eliseu.
Corações em fogo, alevantados extasiados
Toltchocar-te-mos na rote e chutaremos
Teu gréjine, vonento rabo.

Mas a melodia estava certa, como eu soube quando estava sendo acordado dois ou dez minutos ou vinte horas ou dias ou anos mais tarde, meu relógio tinha sido levado. Tinha um milicente assim milhas e milhas lá embaixo e ele estava me espetando uma vara comprida com um prego na ponta, dizendo:
Acorda, meu filho. Acorda, minha beleza. Acorda pra enfrentar o pior! - Eu disse:
Por quê? Quem? O quê? O que é? – E o tema de Ode à Alegria da Nona estava cantando que era uma beleza e horrorshow dentro da cuca. O milicente falou:
Desce pra saber. Tem uma notícia muito boa pra você, meu filho. – Então eu desci de cambulhada, muito duro e assim sem estar realmente acordado, e esse rodze que tinha um vone forte de queijo e cebola, me empurrou para fora da cela imunda que roncava toda e depois ao longo de corredores, e todo esse tempo o velho tema Oh, Tu Alegria Gloriosa Centelha do Céu estava cintilando dentro de mim. Então chegamos a um cantora muito arrumado, com máquinas de escrever e flores nas escrivaninhas, e assim na escrivaninha principal estava sentado o milicente graduado, com um ar muito sério e fixando assim um glaze muito gelado em meu litso sonolento. Eu falei:
Ora, ora, ora. O que é que há, brete? Qual é, assim bem no meio da nótchi? – Ele disse:
Dou-lhe só dez segundos pra tirar esse riso imbecil da cara. Depois, quero que escute.
O que é que é isso? – disse eu esmecando. – Vocês não estão satisfeitos de me bater quase até eu morrer, de me cuspirem e me fazerem confessar crimes horas a fio, depois me jogarem no meio de pervertidos bezúmines e vonentos naquela cela gréjine? Tem alguma tortura nova pra mim, seu brétchene?
Vai ser a sua própria tortura – disse ele sério. – Espero em Deus que te torture até a loucura.
Então, antes que ele me dissesse, eu sabia o que era. A ptitsa velha que tinha aqueles cotes e cóchecas tinha passado desta para melhor, num dos hospitais da cidade. Eu tinha rachado assim com força demais. Ora, ora.
Agora eu já tinha feito de tudo. E só estava com quinze anos.

Anthony Burgess, in Laranja Mecânica

29/12/2023

Laranja Mecânica | Capítulo 6


Um pouco adiante do Duke of New York, indo pro leste, tinha escritórios e depois a estarre bíblio surrada e depois tinha um bolche prédio de apartamentos chamado Edifício Victória, por causa de uma vitória qualquer, e depois a gente chegava às casas estarres da cidade, no lugar que era por isso chamado Oldtown. Aqui é que se encontravam os domes antigos mais horrorshow, meus irmãos, com liúdes estarres morando, tipo coronéis velhos magros e de bastãozinho falando aos latidos e velhas ptitsas viúvas e damas estarres surdas, com gatos, que não tinham jamais sentido o toque de um tcheloveque em toda a sua djísene de pureza. E aqui, é verdade, tinha véssiches estarres que pegariam o seu quinhão de cortador no mercado dos turistas, como quadros e jóias e toda essa quel estarre pré-plástica desse tipo. Então nós chegamos muito devagarzinho a essa casa chamada Solar e tinha globos de luz em hastes de ferro do lado de fora assim guardando a porta da frente de cada lado, e tinha uma luz fraca num dos quartos, no andar de baixo, e a gente foi até um pedaço da rua escura espiar pela janela o que é que estava itando lã dentro. A janela tinha barras de ferro do lado de fora, como se a casa fosse uma prisão, mas a gente videava direitinho o que é que estava itando.
O que estava itando é que aquela ptitsa estarre, de volosse muito grisalho, e um litso muito enrugado, estava botando moloco de uma garrafa em pires e depois botando esses pires no chão, de modo que já se sabia que tinha uni bocado de cotes e cóchecas miando e se enroscando ali por baixo. E a gente podia videar um ou dois gordos que nem umas escotinas pulando pra cima da mesa, as rotes abertas fazendo mé mé mé. E se videava a babúcheca velha respondendo a eles, govoritando tatebitate assim com os bichaninhos. No quarto, dava pra videar uma porção de quadros antigos nas paredes e relógios estarres muito elaborados e também alguns vasos e ornamentos que pareciam estarres e dorogóis. Georgie sussurrou: – Tem coisa aí que dá um dengue horrorshow de alto, irmãos. Will o Inglês está seco atrás disso. – Pete falou: - Entrar como?
Agora era comigo e escorre, antes que Georgie começasse a dizer como. – A primeira véssiche – murmurei – é tentar o caminho normal, pela frente. Eu vou, muito educado, e digo que um dos meus drugues teve assim um desmaio esquisito no meio da rua. O Georgie pode ficar pronto pra aparecer fazendo esse papel quando ela abrir a porta. Depois, pedir água, ou pra telefonar pro doutor. Aí, a gente entra fácil. – Georgie falou:
Pode ser que ela não abra. – Eu disse:
Agente tenta, não é? – Ele deu de ombros, fazendo boca de sapo. Então eu disse a Pete e ao Tapado: - Vocês, drugues, ficam um de cada lado da porta. Certo? – Eles menearam a cabeça na penumbra, certo, certo, certo. –
Então... – disse eu pro Georgie, e saí sem rebouços, direto à porta da frente. Tinha um cordão de campainha e eu puxei e soou brrrr brrrr dentro do vestíbulo. Seguiu-se assim uma sensação de silêncio, como se a ptitsa e seus cóchecas estivessem todos de ouvidos voltados pro brrrr brrrr, intrigados. Aí, eu puxei o esvonoque com um pouco mais de urgência. Depois abaixei até à caixa das cartas e clamei com uma golosse assim refinada:
Auxilio, minha senhora, por favor. Meu amigo acaba de ter um mal-estar no meio da rua. Deixe-me telefonar para um médico, por favor. - Então eu pude videar uma luz sendo acesa no vestíbulo e ouvir as nogas da babúcheca velha com os chinelos fazendo lepe lepe para mais perto da porta da frente e me veio a idéia, não sei por quê, de que ela carregava um gatarrão enorme debaixo de cada braço. Então ela retrucou assim numa golosse surpreendentemente grossa:
Vá-se embora. Vá-se embora ou eu atiro. – Georgie ouviu e ficou com vontade de rir. Eu disse, com sofrimento e pressa na minha golosse de cavalheiro:
Por favor, me ajude, minha senhora. Meu amigo está muito doente!
Vá-se embora respondeu ela.  Eu conheço esses seus macetes pra me fazer abrir a porta e comprar coisas que eu não quero. Olhe o que eu estou dizendo: vá-se embora.  Que era uma inocência muito linda, lá isso era.  Vá-se embora  repetiu ela - ou eu atiço os meus gatos em cima de você.
Ela era um malenquezinho bezúnime, percebia-se, à força de passar a djísene completamente no odinoque. Eu aí olhei pro alto e videei que tinha uma folha de janela basculante acima da porta de entrada e que seria muito mais escorre dar só aquela subida no pletcho de alguém e entrar assim. Senão ia ficar aquela discussão a nótchi inteira. Então eu disse:
Muito bem, minha senhora. Se a senhora não quer me ajudar, eu vou ter que levar o meu amigo doente a outra casa. – E pisquei o olho pros meus drugues, todos afastados e calados, só eu gritando. "É, amigo, na certa você há de encontrar alguma boa samaritana em outro lugar qualquer. Esta senhora talvez não tenha culpa de ser tão desconfiada, com tanto patife e salafrário à solta no meio da noite. Não, não tem não." Então nós tornamos a esperar na escuridão e eu sussurrei: Certo. Voltem pra porta. Eu trepo nos pletchos do Tapado.
Abro aquela basculante e entro, drugues. Aí apago a velha e abro pra todo mundo. Sem problema. – Porque eu estava mostrando que era o chefe, o tcheloveque que tinha as idéias. – Olha – disse eu –, tem um ressalto de pedra em cima daquela porta que é um horrorshow, um degrau pros meus nogas. – Eles videaram tudo aquilo talvez admirando, pensei eu, e acenaram com a cabeça certo, certo, certo, no escuro.
Portanto, de volta à porta, na ponta dos pés. O Tapado era o nosso maltebique parrudo, e Pete e Georgie me levantaram assim até os seus bolche e másculos pletchos. Durante esse tempo todo, oh graças aos programas mundiais da glupe TV e mais ainda aos temores noturnos das líudes por falta de guarda noturna, desertas estavam as ruas. Lá em cima dos pletchos do Tapado, eu vi que o ressalto acima da porta aguentava lindamente as minhas botas. Coloquei o joelho, meus irmãos, e lá estava eu. A janela, como eu esperava, estava fechada, mas eu puxei da minha britva e parti o vidro da janela com jeitinho, usando o cabo de osso.
Enquanto isso, embaixo, meus drugues respiravam forte. Aí eu enfiei meu rúquer pelo buraco do vidro e fiz a metade inferior da folha da janela subir como uma vela de barco, macio e lindo. E estava assim entrando no banheiro, dentro. E lá estavam meus carneiros embaixo, de rote aberta olhando pra cima, ó irmãos.
Eu estava numa escuridão de dar caneladas, cheia de camas e armários e banquetas bolches e pesadas e pilhas de caixas e livros tudo à volta. Mas eu avançava virilmente em direção à porta do quarto onde me achava, vendo uma fresta de luz embaixo. A porta fez iiiiiiiiúc e aí eu estava num corredor empoeirado, cheio de outras portas. Esse desperdício todo, meus irmãos, quer dizer, todos esses quartos e só uma dona estarre e seus bichanos, mas talvez os cotes e cóchecas tivessem assim quartos separados e passassem a creme e cabeça de peixe, que nem rainhas e príncipes. Eu estava ouvindo a golosse abafada da ptitsa velha, embaixo, dizendo: 'É, é, é, isso mesmo", mas ela devia estar govoritando com aqueles malandros miadores fazendo meeeeé pra ganhar mais moloco. Aí eu vi a escada que descia pro vestíbulo e pensei comigo mesmo que eu ia mostrar àqueles meus drugues volúveis e inúteis que eu valia pelos três deles juntos e mais alguém. Eu ia fazer tudo no meu odinoque. Eu ia executar a ultraviolência em cima da ptitsa estarre, e dos seus bichaninhos se fosse preciso, e aí ia apanhar belos ruqucados do que parecesse troço assim polésine de verdade e ia valsar até a porta da frente e abrir, fazendo chover ouro e prata em cima dos meus drugues que esperavam. Eles precisavam aprender tudo sobre liderança.
Então eu itei pra baixo, lento e leve, admirando no vão da escada quadros gréjines de antigamente – devótchecas de cabelo comprido e golas altas, assim o campo com árvores e cavalos, o santo veque barbudo todo nagói pendurado numa cruz. Eu sentia um vone azedo de gato e de peixe e de poeira estarre naquele dome, diferente do dos apartamentos. E aí eu estava no andar de baixo e conseguia videar a luz daquele quarto da frente onde ela tinha estado distribuindo moloco aos cotes e cóchecas. E mais, eu conseguia videar aquelas enormes escotinas peludas entrando e saindo de rabo abanando e se esfregando na beira da porta. No armário assim grande, de madeira, eu podia videar na penumbra uma estatueta malenque, lindai que brilhava à luz do quarto, e crastei pra min, porque era uma devótcheca magra, de pé sobre um noga só, com os rúqueres estendidos, e eu estava vendo que era de prata. Logo, eu estava com ela na mão quando entrei no quarto iluminado dizendo: – Oba oba oba. Finalmente nos eu encontramos. Nosso breve govorite através da caixa das cartas não foi, digamos, satisfatório, não é? Vamos confessar que não, ah, realmente não, sua bruxa estarre fedorenta.  E fiquei assim piscando pra luz do quarto e a velha ptitsa que estava dentro. Estava tudo cheio de cotes e cóchecas engatinhando pra cima e pra baixo no tapete, com pedacinhos de pêlo flutuando na parte rente ao chão, e aquelas escotinas gordas eram de diversas formas e cores, pretos brancos, ruivos, cinzentos, cor de gengibre, de casca de tartaruga, e de todas as idades também, de maneira que tinha gatinhos pequenos brincando uns com os outros, e tinha bichanos já adultos e tinha uns estarres trôpegos muito mal-huniorados. A sua dona, a ptitsa velha, olhou pra mim feroz como um homem e falou:
Como foi que você entrou? Fique longe de mim, seu sapinho malfeitor, ou eu lhe bato!
Com essa, eu dei uni esmeque horrorshow, videando que ela empunhava, com o rúquer cheio de veias, uma sebenta bengala de madeira, que levantou pra mim me ameaçando. Aí, botando os zubes de fora, eu itei um pouco mais perto dela, sem pressa, e no caminho eu vi uma véssichezinha muito linda, a véssiche malenque mais linda que um maltichique amante de música como eu jamais tinha esperado videar com seus glazinhos e que era assim o gúliver e os pletehos de Ludwig van em pessoa, o que chamam de busto, uma véssiche em pedra, com cabelos compridos, olhinhos cegos e a grande gravata enfunada. Eu parti pra ele na hora, dizendo:
Puxa, que lindo, e todinho pra mim!” Mas, itando em direção a ele com os olhos assim grudados nele e com o rúquer cúpido esticado, eu não vi os pires de leite no chão e pisei num deles, perdendo o equilíbrio. “Uui!”, fiz eu, tentando me aprumar mas a ptitsa velha tinha vindo por detrás de mim, muito astuta e muito escorre pra idade dela, e toque toque no meu gúliver com a bengala. Eu me vi de quatro, tentando me levantar e dizendo:
Feia, feia, feia!”, e ela continuava toque toque dizendo:
Seu piolhozinho de favela, invadindo casa de gente de verdade!” Eu não gostei dessa igra de toque toque, então agarrei a ponta da bengala dela, assim que desceu de novo, e aí ela perdeu o equilíbrio e tentou se firmar na mesa, mas quando a toalha da mesa caiu com uma jarra de leite e uma garrafa de leite que primeiro ficou de porre e depois espalhou esploche branco em todas as direções, aí ela caiu no chão grunhindo: “Seu amaldiçoado, você vai sofrer.” Agora, a gataria estava aterrorizada, correndo e pulando em pânico, uns botando a culpa nos outros, dando toltchoques de gato com a lapa e ptaaaaá e grrrrrrr e crrrrrrac. Eu me pus em cima dos nogas e lá estava aquela horrenda forela estarre vingativa com os gravetos tremendo e grunhindo enquanto tentava se levantar do chão, então eu lhe dei um pontapé bem, malenque no litso e disso ela não gostou, gritando "uaaaaá", e videavase o seu litso enodoado e cheio de veias ir ficando violáceo no lugar onde eu acertei o noga.
No que eu recuei do pontapé, devo ter pisado no rabo de um dos bichanos que estavam critchando e dratsando, porque eu eslutchei um gronque iaaaaaauuuuu e verifiquei assim que pele, dentes e garras tinham se amarrado na minha perna, e lá estava eu xingando e tentando sacudir fora, segurando a malenque estatueta de prata num rúquer e tentando subir em cima da ptitsa velha no chão pra alcançar o lindo Ludwig van assim de cenho de pedra franzido. E aí eu caí dentro de outro pires cheio de cremoso moloco até a beira e quase saí voando de novo, a véssiche toda realmente muito engraçada se se pudesse imaginá-la eslutchatando a outro veque qualquer que não o Vosso Humilde Narrador. E aí, a ptitsa estarre, no chão, se esticou por cima de toda a gataria que estava dratsando e uivando e agarrou o meu noga, ainda fazendo “uaaaaaá” pra mim e, estando o meu equilíbrio já comprometido, eu realmente desabei dessa vez, em cima do leite esplochado e da gataria que lanhava, e a forela começou a me socar no litso, estando nós ambos no chão, critchando: Bate nele, dá uma surra nele, arranca as unhas dele, desse besouro venenoso! - dirigindo-se apenas aos seus bichanos, e aí, como que obedecendo à ptitsa estarre, um par de cochecas trepou em cima de mim e começou a me arranhar que nem bezúmines. Aí eu próprio fiquei bezúmine, dei porrada neles, mas a tal babúcheca disse: – Seu sapo, não toque nos meus gatinhos – e assim arranhou o meu litso. Aí eu critchei: – Sua sunca velha imunda! – e levantei a estatueta malenque de prata e rachei-lhe um bom toltchoque no gúliver que fez ela calar a boca muito horrorshow, uma beleza.
Mas agora, enquanto eu me levantava do chão, entre os cotes e as cóchecas, o que eu esluchava em apenas o velho chume de sirene do carro da polícia, à distância, e comecei a compreender que a forela velha dos bichanos tinha falado com os milicentes pelo telefone, enquanto eu estava pensando que ela govoritava com os miadores, que ela já tinha ficado com o desconfiômetro fervendo quando eu puxei o esvonoque fingindo precisar de ajuda. Portanto agora, esluchando o temível chume do furgão dos rodzes, eu disparei pra porta da frente e tive que rabitar um bocado desfazendo todas as fechaduras correntes, trincos e outras vessiches de segurança. Aí, consegui abrir e quem é que estava no umbral senão o Tapado, eu mal tendo tempo de videar os meus outros dois supostos drugues se mandando
Vamos – critchei pro Tapado. Os rodzes vêm aí! – O Tapado falou: – Você fica pra receber eles, hu hu hu hu hu  então eu videi que ele estava com a uze solta e aí ele levantou ela e silvou uishhhhh e me deu uma correntada suave e artística assim nas pálpebras, que eu mal tive tempo de fechar. Aí fiquei uivando às tontas, tentando ver com aquela dor de uivar mesmo, e o Tapado falou: – Eu não gosto que você tenha feito que nem fez, druguinho velho. Não foi legal não, me encestar do jeito que você fez, brete! – E aí esluchei as suas botas boiches e massudas se mandando, ele fazendo hu hu hu hu nas sombras, e só uns sete segundos depois foi que eu esluchei o furgão dos milicentes chegar, com um enorme uivo de sirene, asqueroso, morrendo, que nem um animal bezúmine dando a pitada. Eu também estava uivando e assim à deriva, e batendo com o gúliver nas paredes do vestíbulo, que os meus glazes estavam apertados e o caldo escorrendo deles, uma agonia. Portanto, lá estava eu, tateando no vestíbulo, quando os milicentes entraram. Eu não podia videar eles, é claro, mas podia esluchar e, merda, podia sentir o vone dos putos, e logo logo pude sentir os putos quando eles engrossaram e me deram aquela torcida de braço, me levando pra fora. Eu também esluchei uma golosse de milicente falando do quarto de onde eu tinha saído, comi todos os cotes e cóchecas dentro: – Ela levou uma pancada feia mas está respirando – e o tempo todo se ouviam os miados altos.
Mas isso é realmente um prazer – ouvi outra golosse de milicente dizer enquanto eu era toltchocado com força e escorre pra dentro do carro. – O Alexinho todinho pra nós! – Eu critechei:
Eu estou cego, Bog que dê cabo de vocês, seus gréjines filhos da puta!
Que linguagem, que linguagem... – esmecou uma golosse, e aí eu levei um tolchoque de costas de mão com um anel qualquer bem no meio da rote. Eu disse:
Bog mate vocês, seus brétchenes fedorentos. Onde estão os outros? Onde estão meus drugues traidores fedorentos? Um dos meus malditos bretes gréjines me deu uma correntada nos glazes. Pegues eles antes que eles fujam. Foi tudo idéia deles irmãos. Eles é que me obrigaram a fazer isso. Eu sou inocente, Bog que estraçalhe vocês!
Nessa altura eles estavam todos dando uma boa esmecada assim com toda a grosseria à minha custa e me toltchocando pra traseira do carro, mas eu continuava falando nos meus falsos drugues e videei que não ia adiantar, porque já deviam estar de volta ao aconchego do Duke of New York, empurrando cerveja preta e escoceses duplos nos gorlos das ptitsas estarres e fedorentas, elas sem protestar e dizendo: "Obrigada, rapazes.
Deus abençoe vocês, moços. A gente ficou aqui o tempo todo que vocês ficaram, rapazes. Não saíram da nossa vista, não."
O tempo todo a gente ia sirenando em direção à loja dos rodzes, eu imprensado entre dois milicentes e levando uns tecos e outros e toltchoques malenques dos dois brutamontes que esmecavam. Então eu descobri que podia entreabrir as pálpebras um malenquinho e videar assim entre lágrimas uma espécie de cidade líquida passando, as luzes como se tivesse corrido umas pras outras. Agora eu conseguia videar com os glazes doridos os dois milicentes esmecantes que iam atrás comigo e o motorista de pescoço fino e o filho da puta de pescoço grosso do lado dele, esse último me dirigindo um govorite muito sarca, dizendo: – Então, Alexito, temos pela frente uma noitada agradável juntos, não temos não?
Como é que você sabe o meu nome, seu mastodonte vonento? Que Bog te mande pro inferno, seu gréjine brétchene, seu bosta. – Então todos eles esmecaram com essa e eu tive o meu uco assim torcido por um dos milicentes fedorentos que iam atrás comigo. O de pescoço grosso. que não ia guiando, falou:
Todo mundo conhece Alexinho e seus drugues. O nosso Alex ficou um menininho muito famoso.
Foram aqueles outros – critchei eu. – O Georgie, o Tapado e o Pete. Meus drugues, esses filhos da puta não são.
Bom – disse o de pescoço grosso –, você vai ter a noite toda pela frente pra contar a história toda das ousadas proezas desses jovens cavalheiros e de como eles levaram o pobre inocente do Alex pelo mau caminho. – Aí teve o chume de outra sirene da polícia passando pelo nosso carro, só que indo pro outro lado.
Isso é praqueles filhos da puta? – disse eu. – Eles estão sendo agarrados pelos filhos da puta do lado de vocês?
Aquilo – disse o de pescoço grosso – era uma ambulância. Com certeza pra sua vítima, seu safado nojento, desgraçado.
Foi tudo culpa deles – critchei eu, piscando meus glazes doloridos. – Os putos devem estar pitando no Duke of New York. Peguem eles, porra, seus bestas fedorentos!
E teve mais esmeques e outro toltchoque malenque, ó meus irmãos, na minha rote dolorida. E aí chegamos à loja dos rodzes e eles me ajudaram a sair do carro aos pontapés e empurrões e me toltchocaram escada acima e eu sabia que ia ter tudo menos lealdade, de parte daqueles gréjines brétchenes duma figa, Bog que os fulmine.

Anthony Burgess, in Laranja Mecânica

18/12/2023

Laranja Mecânica | Capítulo 5


O que aconteceu, porém, foi que eu acordei tarde (quase sete e meia, pelo meu relógio) e, como se viu depois, isso não foi bem bolado. Pode-se videar que tudo neste mundo malvado conta. Agente pode poniar que uma coisa sempre leva a outra. Certo, certo, certo. Meu estéreo não estava mais naquela Alegria e Eu Vos Abraço, Ó Vós Que Sois Milhões, que um veque qualquer tinha cortado, e só podia ter sido pê ou eme, ambos muito nitidamente eslucháveis na sala de estar, tanto no tlique tlique dos pratos quanto no chupe chupe da pitação de chá nas xícaras, da sua refeição cansada depois da rabitagem diária, ele na fábrica, ela na loja. Coitado do velho.
Pobrezinha da estarre. Enfiei o chambre e botei a cara pra fora, na pele do filho amantíssimo, dizendo:
Oba, oba oba, pessoal. Tô muito melhor depois desse descanso diurno. Agora estou pronto pro batente noturno, pra faturar aquele tutuzinho.  Porque era isso que eles pensavam que eu fazia naquele tempo. – lamiamiam, mãe. Tem pra mim? – Era assim uma torta congelada que a mãe tinha descongelado e esquentado e não parecia nada apetitosa, mas eu tinha que dizer o que disse. O velho me olhou com um olhar não muito contente e desconfiado, mas não disse nada, sabendo que não ousava, e a mãe me deu um esmequezinho tipo a ti, fruto do meu ventre, meu único filho. Eu dancei pro banheiro e, bem escorre, dei um tchiste muito completo, que eu estava me sentindo sujo e pegajoso, depois voltei pro meu quarto pra botar as pletas noturnas. Depois, luzindo, penteado, escovado e lindo, sentei pra pegar o meu lontique de torta. Papapá falou:
Não é que eu queira me meter, meu filho, mas onde exatamente você vai trabalhar à noite?
Ah – mastiguei eu – são principalmente umas coisas avulsas, uns biscates, aqui e ali, onde aparece. – Eu lhe lancei um olhar feio direto, como pra dizer pra cuidar da dele que eu cuidava da minha. – Eu nunca peço dinheiro, peço? Nem pra roupa, nem pra diversão. Pois então, pra que perguntar?
Meu pai era assim muito humildezinho. – Desculpe, meu filho – disse ele – mas é que às vezes eu fico preocupado. As vezes eu tenho sonhos. Pode rir, se quiser, mas há muita coisa nos sonhos. Essa noite eu sonhei com você e não gostei nada do que sonhei.
Ah, é? – Agora ele tinha me deixado interessovatado sonhando comigo daquele jeito. Eu tinha a sensação de ter tido um sonho também, mas não conseguia me lembrar direito. – Que foi? – disse eu parando de mastigar a minha torta grudenta.
Era muito vivido – disse meu pai. – Eu vi você caído deitado na rua, você tinha levado uma surra dos outros rapazes. Os rapazes eram assim como aqueles com quem você andava antes de ser mandado pra escola correcional.
Ah, é? – Eu sorria por dentro com essa, papapa acreditando que eu tinha sido realmente reformado ou acreditando que acreditava. E aí eu me lembrei do meu próprio sonho, que era o daquela manhã, com Georgie dando as suas ordens de general e o Tapado esmecando à volta desdentado enquanto brandia o chicote. Mas, uma vez me tinham dito que os sonhos funcionam ao contrário. – Não te preocupes com o teu único filho e herdeiro, ó meu pai – disse eu. – Não temas. Ele sabe se garantir, deveras.
E – disse meu pai – você estava indefeso e ensangüentado e não podia mais reagir. – Eram realmente ao contrário, portanto eu dei outra risadinha malenque interior e aí tirei todo o dengue dos meus cármans e botei pra tilintar em cima da toalha da mesa suja de molho. E falei:
Olha, pai, isso aí não é muito. Foi o que eu ganhei Ontem à noite. Mas talvez dê pro escocês, pra você e mamãe pitarem aconchegados em algum lugar.
Obrigado, meu filho – disse ele. – Mas agora a gente quase não sai. Não se tem coragem de sair, as ruas estando do jeito que estão. Rapazes desordeiros e tudo isso. Mesmo assim, obrigado. Amanhã eu vou trazer pra casa, pra ela, uma garrafa de qualquer coisa. – E rapou o tutu malganho pra dentro dos cármans da calça, mamãe tchistando os pratos na cozinha. E eu saí, distribuindo sorrisos amáveis.
Quando cheguei ao pé da escada do edifício, eu fiquei algo surpreso. Fiquei mais do que isso. Escancarei assim a rote como se estivesse dando um baita bocejo. Eles tinham vindo ao meu encontro. Estavam esperando perto da pintura municipal toda escalavrada, representando a nagói dignidade do trabalho, veques e tchinas pelados e austeros, comandando as engrenagens da indústria, como eu disse, com toda aquela sacanagem rabiscada nas rotes por maltchiques travessos. O Tapado estava com um bastão grosso e comprido de lápis de cera preto, traçando enormes eslovos feios em cima da nossa pintura municipal, enquanto ia soltando a sua famosa gargalhada – hu hu hu hu hu. Mas se voltou quando Georgie e Pete me deram o como é que é, mostrando os zumbes brilhantes e drugues, e aí buzinou: – Tamos aí, chegamos, oba, oba, oba – e fez umas piruetas desajeitadas.
Nós ficamos preocupados – disse Georgie. – A gente ficou lá esperando e pitando o nosso molocozinho com facas, você podia ter ficado ofendido com alguma véssiche, então a gente veio até o seu domicílio. Está certo, Pete, certo?
Ah, é, certo – disse Pete.
Desculpas – disse eu, cauteloso. – Eu tive aí uma dor de gúliver e tinha que dormir. Não me acordaram na hora que eu tinha dado ordem. Mas estamos aí, prontos para o que a nótchi nos oferece, não é? – Parece que eu tinha pego aquele “não é?” do P. R. Deltoid, meu consultor pós-correcional. Muito estranho.
Pena essa dor de cabeça – disse Georgie assim muito preocupado. – Assim usando o gúliver demais, talvez.
Dando ordens e disciplina e coisas assim, talvez. Tem certeza de que não vai se sentir mais feliz se voltar pra cama? – E todos fizeram um ar de riso malenque.
Espera aí – disse eu. Vamos esclarecer tudo direitinho. Esse sarcasmo, se se pode chamar assim, não fica bem em vocês, ó meus amiguinhos. Talvez vocês tenham tido um govoritezinho tranqúilo pelas minhas costas, fazendo as suas piadinhas e coisa e tal. Como eu sou drugue e chefe de vocês, é claro que eu tenho o direito de saber o que está acontecendo, não é? Como é, ô Tapado, o que é que prenuncia esse riso á guisa de bocejo de cavalo? – Porque oTapado estava de rote aberta, numa espécie de esmeque bezúmine, sem som.
Georgie atalhou, muito escorre:
Tá bom, não implica mais com o Tapado. Isso faz parte das novas normas.
Novas normas? disse eu. – Que negócio é esse de novas normas? Houve muito falatório enquanto eu estava de costas, dormindo, não tem como errar. Deixem eu esluchar mais. - E cruzei os rúqueres e me apoiei confortavelmente pra ouvir, no corrimão quebrado da escada, estando eu ainda mais alto do que eles, os meus drugues, como se intitulavam, no terceiro degrau.
Não se ofenda, Alex – disse Pete –, mas nós queremos fazer as coisas assim mais democráticas. Não assim você dizendo o que que pode e o que que não pode, o tempo todo. Mas não se ofenda.
Georgie falou:
- Isso não é ofensa coisa nenhuma. E uma questão de quem tem idéias Que idéias é que ele teve? - E mantinha os glazes muito ousados fixos em mim. – E tudo troço pequeno, véssichezinhas malenques, como ontem à noite. Nós estávamos crescendo, irmãos.
Mais – disse eu. – Deixa eu esluchar mais.
Bom – disse Georgie –, Se você quer ouvir, então vai ouvir. Agente ia por aí, crastando lojas e coisas assim e sai com um ruqucado lastimável de cortador cada um. E fica o Will o Inglês no café Muscleman dizendo que recepta qualquer coisa que qualquer maltchique se dê ao trabalho de crastar. O vil metal, a gaita – disse ele, ainda com Os glazes frios em cima de mim.
O dinheiro muito, muito, muito alto está disponível, é isso que o Will o Inglês diz.
Ah – disse eu, muito à vontade por fora, mas muito rasdraz por dentro, desde quando você anda de carne e unha com o Will o Inglês?
De vez em quando – disse Georgie. – Eu circulo muito, quando estou no meu odinoque. Como no último Sabá, por exemplo. Eu tenho direito a minha djísene, certo, druguinho?
Eu pouco estava ligando para tudo aquilo, meus irmãos. – E o que é que vocês vão fazer – disse eu – com o muito, muito, muito tutu, ou dinheiro, como você chama tão bombasticamente? Vocês não têm todas as véssiches que querem? Se vocês precisam de um carro, é só colher no pé. Se precisam de tutu, é só pegar. Por que esse súbito chilarne de passar a grande capitalista barrigudo?
Ah – disse Georgieie –, ás vezes você pensa e govorita como se fosse uma criancinha. – O Tapado fez hu hu hu com essa. - Hoje à noite a gente vai dar uma crastada de adulto.
Meu sonho tinha contado a verdade então... Georgie, o general, dizendo o que a gente devia ou não devia fazer, o Tapado de chicote, um buldogue sorridente e desmiolado. Mas eu agia com cuidado, com muito cuidado, o máximo, dizendo, sorrindo: – Ótimo. Horrorshow mesmo. A iniciativa chega àqueles que sabem esperar. Eu lhe ensinei muita coisa, meu druguinho. Agora me diga o que está querendo fazer, Georgito.
Ah – disse Georgie com um sorriso astuto e ardiloso, primeiro um moloco-com, você não acha? Alguma coisa pra nos deixar acesos, cara, e você principalmente, que a gente vai começar com você.
Você govoritou meus pensamentos por mim – disse eu sorrindo. – Eu já ia sugerir o velho Korova. Muito bem, muito bem, muito bem. Lidere, Georginho. – E eu fiz assim uma profunda curvatura sorrindo que nem bezúmine, mas pensando o tempo todo. Mas, quando saímos pra rua, eu videei que pensar é pros glupes e que os úmines usam a inspiração e o que Bog manda. Porque agora era linda música que vinha em meu auxílio.
Tinha um carro itando perto e o rádio estava ligado e eu consegui esluchar um compasso ou dois de Ludwig van (era o Concerto para Violino, último momento) e videei no mesmo instante o que tinha a fazer. Falei, assim com uma golosse pesada e profunda: – Certo, Georgie, agora – e saquei zunindo a minha britva de degolar. Georgie disse “Ahn?”, mas era bastante escorre com a noje dele, a lâmina pulando rápida de dentro do cabo, e partimos um pro outro. O Tapado falou: – Ah, isso não tá legal não! – e fez menção de desenrolar a corrente da cintura, mas Pete falou, botando a mão firme em cima do Tapado: – Deixa eles. Assim é que tá certo. – Aí então, Georgie e aqui o Vosso Humilde ficaram naquela silenciosa dança de gato, procurando aberturas, um conhecendo o estilo do outro um pouco horrorshow demais até, de vez em quando Georgie dando golpes perigosos com a sua noje reluzente, mas sem me tocar. E esse tempo todo as líudes passavam e videavam tudo isso, mas metiam-se com a deles, aquilo sendo talvez uma cena de rua bastante comum. Mas aí eu contei ôdin, dva, tri e fui zape zape zape com a britva, se bem que não ao litso ou aos glazes, mas ao rúquer de Georgi e que segurava a noje e, meus irmãozinhos, ele soltou. soltou. Deixou cair a sua noje com um tlinqueliaque na calçada dura de inverno. Eu só tinha feito uma cosquinha nos dedos dele com a minha britva e lá estava ele olhando paira a malenque goteirinha de crove que estava se averjuelhando à luz do poste. –
Agora – disse eu, e desta vez era eu que estava começando, porque Pete tinha dado o soviete ao Tapado de não desenrolar a uze e o Tapado tinha acatado, agora, Tapado, vamos tu e eu resolver isso agora, vamos nós? – O
Tapado fez “Aaaiaaaargh”, como se fosse um bolche animal bezúmine, e tirou a corrente da cintura como uma cobra, muito horrorshow e escorre, aí a gente tinha que admirar. Agora, a posição certa pra eu ficar era abaixado, que nem na dança do sapo, pra proteger o litso e os glazes, e foi o que eu fiz, irmãos. poir isso o coitado do Tapado ficou um malenque surpreso, que ele estava acostumado a dar a chicotada direto na cara, lape lape lape. Agora, devo dizer que ele me deu uma lambada horrível nas costas, que me deu uma dor bezúnime, mas aquela dor me aconselhou a abrir caminho escorre e de uma vez por todas e terminar com o Tapado. Então eu zuni a britva no noga esquerdo dele, na parte mais apertada da malha, abri duas polegadas de roupa e arranquei uma quantidade malenque de crove, o bastante para deixar o Tapado bezúmine de verdade. Então, enquanto ele fazia au au au que nem um cachorrinho, eu tentei o mesmo lance usado com Georgie, botando as bolas todas na caçapa de uma jogada só, pra cima, cruzado e corta – e eu senti a britva entrar suficientemente fundo no bife do pulso do Tapado, e ele deixou cair a uze serpenteando, berrando feito uma criancinha. Aí, ele tentou beber de volta todo o sangue do pulso e uivar ao mesmo tempo, e tinha crove demais pra beber e ele fazia blube blube blube blube, o vermelho assim jorrando lindo que nem uma fonte, mas não por muito tempo. Eu falei:
Certo, meus druguinhos. Agora nós já sabemos. Sim, Pete?
Eu nunca falei nada – disse Pete. – Não govoritei nem um eslovo. Olha, o Tapado vai sangrar até morrer.
Nunca – disse eu. A gente só morre uma vez. O Tapado morreu antes de nascer. Esse crove vermelho vermelho vai parar logo.  Porque eu não tinha cortado assim os vasos principais. E eu mesmo tirei um tachetuque limpo do meus cárman pra enrolar o rúquer do pobre Tapado moribundo, uivando e gemendo que ele estava, e o crove parou como eu tinha dito, ó meus irmãos. Aí eles ficaram sabendo quem era o mestre e o líder, carneiros, pensei eu.
Não demorou muito pra acalmar esses dois soldados feridos no aconchego do Duke of New York, com grandes conhaques (pagos com o cortador deles, que o meu eu tinha dado todo pro meu pai) e uma limpeza com os tachetuques molhados na jarra d'água. As ptitsas velhas com quem a gente tinha sido tão horrorshow na noite da véspera estavam lá de novo, fazendo “obrigada, meninos” e “Deus abençoe vocês, moços” como se não pudessem parar, se bem que a gente não tivesse repetido a ação sâmie com elas. Mas Pete disse: – O que é que vai ser, garotas? – e pagou cerveja preta pra elas, que ele parecia estar com um bocado de tutu nos cármans, ai elas continuaram mais alto do que nunca com o seu “Deus abençoe e guarde vocês, rapazes” e “os melhores rapazes que ainda estão com vida, isso é o que vocês são”. Finalmente, eu disse pro Georgie:
Agora a gente está como antes, não é? Tudo como antes e tudo esquecido, certo?
Certo, certo, certo – disse Georgie. Mas o Tapado ainda parecia um pouco atordoado e até disse:
Eu podia ter apanhado aquele puto com a minha uze, sabe, mas teve um veque que ficou no meio – como se ele tivesse estado dratsando não comigo, mas com um outro maltchique qualquer. Eu disse:
Bom, Georgito, o que era que você estava planejando?
Ah – disse Georgie –, hoje à noite não. Por favor, não esta nótchi.
Você é um tcheloveque grande e forte – disse eu –, como todos nós. Nós não somos criancinhas, somos, Georgito? O que então planejando estavas tu?
Eu podia ter dado uma correntada nos glazes dele bem horrorshow – dizia o Tapado, e as velhas babúchecas ainda estavam no ar com “obrigada, moços”.
Era aquela casa, sabe? - disse Georgie. – A que tem duas lâmpadas do lado de fora. Aquela assim que tem o nome glupe.
Que Mansão?
A Mansão, ou o Solar, ou uma glupice dessas. Onde mora aquela ptitsa muito estarre com seus gatos e todas aquelas véssiches velhas valiosas.
Como o quê?
Ouro, prata e jóias. Foi Will o Inglês que falou.
Estou videando – disse eu – estou videando horrorshow. – Eu sabia do que é que ele estava falando –
Oldtown, logo depois do edifício Victoria. Bem, o chefe realmente horrorshow sempre sabe quando dar e mostrar generosidade para com os seus subordinados. – Muito bem, Georgie – disse eu.  Uma boa idéia, que merece ser executada. Vamos itar imediatamente.  E enquanto a gente saía, as velhas babúchecas diziam:
Nós não vamos dizer nada, rapazes. Nós ficamos aqui o tempo todo que vocês ficaram. – Aí eu disse: – Boas meninas. Agente volta pra pagar mais, dentro de dez minutos. – E levei os meus três drugues pra fora e para a minha danação.

Anthony Burgess, in Laranja Mecânica