terça-feira, 31 de outubro de 2017

Do julgar

Normalmente é um mau hábito, que provoca frequentes enganos, estarmos tão prontamente dispostos a julgar, e principalmente a desaprovar. Assim como não se condena nem o mais culpado sem acolher a sua defesa, não se deve rejeitar estouvadamente certas coisas que seriam bem acolhidas, se se pudessem expor em toda a plenitude do seu direito. Conheço pessoas que não olham o que quer que seja senão com a intenção de notar-lhe os defeitos, e este é o meio mais apropriado para atrair o ódio e a inveja. Mas vejo também os que examinam aquilo que se apresenta para descobrir ali algo de agradável; e não é que não tenham o gosto melhor e mais delicado que os outros: mas eles desculpam tudo, e cuido que são facilmente amados, e que a sua amizade é bem vista.
Aquele que quer ser boa companhia deve fazer de modo que, quanto mais conhecidos sejam o seu coração e a sua forma de proceder, mais seja desejado; e como é belo ser humano, e não ter nada de injusto! Como a sinceridade confere distinção, e a falsidade me parece desagradável! Deve-se seguir este sentimento, em qualquer caso; pois jamais fica bem afastar-se dele. Alguns têm-no espontaneamente, o que é uma grande vantagem; mas quando não o temos, é necessário tentar adquiri-lo, conformando-nos o máximo possível à ideia da perfeição.
Antoine Gombaud, in Do Espírito da Conversação

História do outro

Você prepara o café da manhã, como todo dia.
Como todo dia, você leva seu filho até a escola.
Como todo dia.
E então, o vê. Na esquina, refletido numa poça, contra a calçada; e quase é atropelada por um caminhão.
Depois, você vai para o trabalho. E o vê novamente, na janela de um botequim medonho, e o vê na multidão que a boca do metrô devora e vomita.
Ao anoitecer, seu marido passa para buscá-la. E no caminho de casa vão os dois, calados, respirando o veneno do ar, quando você torna a vê-lo no turbilhão das ruas: esse corpo, essa cara que sem palavras pergunta e chama.
E desde então você o vê com os olhos abertos, em tudo que olha, e o vê com os olhos fechados, em tudo que pensa; e o toca com seus olhos.
Este homem vem de algum lugar que não é este lugar e de algum tempo que não é este tempo. Você, mãe de, mulher de, é a única que o vê, a única que pode vê-lo. Você já não tem mais fome de ninguém, fome de nada, mas cada vez que ele aparece e se desvanece você sente uma irremediável necessidade de rir e chorar os risos e os prantos que engoliu ao longo de tantos longos anos, risos perigosos, prantos proibidos, segredos escondi dos em quem sabe que cantos de seus cantos.
E quando chega a noite, enquanto seu marido dorme, você vira de costas e sonha que desperta.
Eduardo Galeano, in Mulheres

Nossos atos, nossas vidas

Diariamente criticamos o destino: “Porque foi este homem arrebatado a meio da carreira? E aquele, porque não morre, em vez de prolongar uma velhice tão penosa para ele como para os outros?” Diz-me cá, por favor: o que achas tu mais justo, seres tu a obedecer à natureza ou a natureza a ti? Que diferença faz sair mais ou menos depressa de um sítio de onde temos mesmo de sair? Não nos devemos preocupar em viver muito, mas sim em viver plenamente; viver muito depende do destino, viver plenamente, da nossa própria alma. Uma vida plena é longa quanto basta; e será plena se a alma se apropria do bem que lhe é próprio e se apenas a si reconhece poder sobre si mesma. Que interessa os oitenta anos daquele homem passados na inação? Ele não viveu, demorou-se nesta vida; não morreu tarde, levou foi muito tempo a morrer! “Viveu oitenta anos!”. O que importa é ver a partir de que data ele começou a morrer. “Mas aquele outro morreu na força da vida”. É certo, mas cumpriu os deveres de um bom cidadão, de um bom amigo, de um bom filho, sem descurar o mínimo pormenor; embora o seu tempo de vida ficasse incompleto, a sua vida atingiu a plenitude.
Viveu oitenta anos”. Não, existiu durante oitenta anos, a menos que digas que ele viveu no mesmo sentido em que falas na vida das árvores. Peço-te insistentemente, Lucílio: façamos com que a nossa vida, à semelhança dos materiais preciosos, valha pouco pelo espaço que ocupa, e muito pelo peso que tem. Avaliemo-la pelos nossos atos, não pelo tempo que dura. Queres saber qual a diferença entre um homem enérgico, que despreza a fortuna, cumpre todos os deveres inerentes à vida humana e assim se alça ao seu supremo bem, e um outro por quem simplesmente passam numerosos anos? O primeiro continua a existir depois da morte, o outro já estava morto antes de morrer! Louvemos, portanto, e incluamos entre os afortunados o homem que soube usar com proveito o tempo, mesmo exíguo, que viveu. Contemplou a verdadeira luz; não foi um como tantos outros; não só viveu, como o fez com vigor.
Sêneca, in Cartas a Lucílio

O jardim em frente

Foto: Regina Arrais Vasconcelos

Os big-shots da empresa estavam reunidos em conferência. Assunto importante, desses que exigem atenção, objetividade. O presidente recomendara:
Não estamos para ninguém. Essa porta fica trancada. Avisem a telefonista que não atenda a nenhum chamado. Nem do papa.
Começou-se por dividir o assunto em partes, como quem divide um leitão. Cada parte era examinada pelo direito e pelo avesso, avaliada, esquadrinhada, radiografada. Cartesianamente.
Você aí, quer fazer o favor de parar com essa caricatura?
O presidente não admitia alienação. Por sua vez, foi advertido pelo vice:
E você, meu caro, podia deixar de bater com esse lápis, toc, toc, toc, na mesa?
Estavam tensos, à véspera de uma decisão que envolvia grandes interesses. Alguém bateu à porta.
Não respeitam! Não respeitam o trabalho da gente! Isso não é país!
Seja ou não seja país, quando batem à porta a solução é abrir, para evitar novas batidas, ou, mesmo, que a porta venha abaixo. Pois ninguém deixa de bater, se sabe que tem gente do outro lado.
O diretor-secretário abriu, de óculos fuzilantes. O chefe da portaria, cheio de dedos, balbuciou:
Essa senhora… essa senhora aí. Veio pedir uma coisa.
O primeiro impulso do diretor-secretário foi demitir imediatamente o chefe da portaria, servidor antigo, conceituadíssimo, mas viu ao mesmo tempo diante de si a imagem consternada do homem e a lei trabalhista: duas razões de clemência. Pensou ainda em mandar a senhora àquele lugar de Roberto Carlos ou a outro pior. Dominou-se: ela ostentava no rosto aquela marca de tristeza que amolece até diretoria.
A senhora me desculpe, mas estou tão ocupado.
Eu sei, eu é que peço desculpas. Estou perturbando, mas não tinha outro jeito. Moro do outro lado da rua, no edifício em frente. Meu canário…
Fugiu e entrou aqui no escritório? Eu mando pegar. Fique tranquila.
Antes tivesse fugido. Morreu.
E daí? — Viveu quinze anos conosco. Era uma graça… Pousava no dedo…
E daí, minha senhora?
O senhor vai estranhar meu pedido… Eu estava sem coragem de vir aqui. Por favor, não ria de mim.
Não estou rindo. Pode falar.
Os senhores têm um jardim tão lindo na cobertura. Da minha janela, fico apreciando. Então agora está uma coisa. Posso fazer um pedido?
Pode.
Eu queria enterrar o meu canário no seu jardim. Lá é que é lugar bom para ele descansar. O senhor vê, nós temos aquele terrenão ao lado do edifício, com três palmeiras, um pé de fruta-pão, mas é grande demais para um passarinho, falta intimidade. Se o senhor consente, eu mesma abro a covinha. Não dou o menor trabalho, não sujo nada.
O diretor-secretário esqueceu que tinha pressa, que havia um problema sério a discutir. Que problema? Naquele momento, o importante, o real era um canarinho morto, e amado.
Pois não, minha senhora, disponha do jardim. Eu mesmo vou levar a senhora lá em cima, para escolher o lugar.
Subiram, escolheram o canteiro mais apropriado, onde bate sol pela manhã, e à tarde as plantas balançam levemente, à brisa do mar.
Não é abuso eu fazer mais um pedido? Queria que o jardineiro não revolvesse a terra neste ponto, durante três meses. O tempo de os ossinhos dele se desfazerem… Volto daqui a meia hora, para o enterro.
Meia hora depois, voltava com uma caixinha forrada de veludo azul-claro, e a reunião dos big-shots, que ainda durava, foi suspensa para que todos, com o presidente muito compenetrado, assistissem ao sepultamento.
Carlos Drummond de Andrade, in 70 historinhas

O ferrador de cavalos

Em que língua falarei
ao ferrador de cavalos?
Por que, na minha língua
de assombro e vogal,
só falo a mim mesmo
— ao meu nada e ao meu tudo —
e nem sequer disponho
do gesto dos mudos?
Se as palavras morrem
à míngua como os homens
e se o silêncio fala
seu próprio idioma
em que língua direi
ao homem diferente
que ele é meu semelhante
quando o vejo ferrar
o casco de um cavalo?
Empunhando o martelo
ele me conta histórias
de cravos perdidos
e cavalos mancos.
Palavras que se perdem
como ferraduras
no caminho do pasto.
Lêdo Ivo

A teoria cívivo-linguística da catedral

Foi em 2011, entrevistando o escritor israelense Amós Oz, que finalmente compreendi o tamanho do erro de ver na língua um ponto cego do pensamento — mais do que um equívoco típico da tradição anti-intelectual brasileira, o sintoma de uma deficiência mais grave. De uma falha cultural, quem sabe até cívica. Não creio que esteja exagerando.
Estávamos num salão vazio no segundo andar do belo hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, e Oz discorria com paixão sobre o idioma hebraico:
É um instrumento tremendo, ao mesmo tempo antigo e moderno. É cheio de ecos da antiguidade, os salmos e profetas estão todos lá, e no entanto é uma língua contemporânea. Deve-se ter muito cuidado com esse instrumento maravilhoso, como quem toca órgão numa catedral.
A princípio não entendi. Cuidado por quê? Qual era o perigo?
Conjurar ecos monstruosos — explicou Oz. — Se você tocar sem querer certas cordas bíblicas, soará grotesco, ridículo. Isso é ótimo para a paródia e a ironia, mas você precisa saber o que está fazendo. É um campo minado.
O pé-direito alto do salão em que nos encontrávamos parecia ilustrar o elegante argumento. Me ocorreu então um pensamento que, embora talvez óbvio, recebi como uma epifania: toda língua é uma caixa de ressonância e um campo minado. Se um escritor de língua portuguesa dificilmente evocará profetas, pode, de propósito ou não, conjurar num único texto os fantasmas de Camões, Vieira, Machado, Bandeira, Vinicius. Ou Didi Mocó.
É a tradição literária acumulada e o peso que ela tem na cultura geral, dependente do grau de letramento da sociedade, que vai determinar no fim das contas a intensidade dessa reverberação — a altura do pé-direito, por assim dizer, que tanto pode ser o de uma catedral magnífica como o de uma capelinha de província.
Sentado ao órgão, o escritor produz a música que seu talento lhe sopra, mas também a que sua caixa de ressonância lhe permite produzir. Ao mesmo tempo, ao contrário do que ocorre no mundo físico — o que demarca o limite da metáfora oziana —, os acordes que saem dos tubos têm o potencial de sustentar o teto, impedindo que ele desabe e até, nos casos mais felizes, ajudando a elevá-lo.
Sérgio Rodrigues, in Viva a língua brasileira!

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Um Café Lá em Casa com Tico de Moraes e Nelson Faria

Ouça mais!

A natureza nos deu duas orelhas e uma só boca para nos advertir de que se impõe mais ouvir do que falar.
Zenão de Cítio

Cúmplices

[O livro] leva uma história? Pois leva. Leva personagens, e episódios, e acidentes, e coisas mais ou menos interessantes, ou divertidas, ou dramáticas, mas sobretudo leva uma pessoa dentro, que é o autor. E a grande história será reconhecer o leitor isso mesmo. Porque quando o leitor o reconhece, quando o autor lhe dá os meios para que seja reconhecido, então, sim, estabelece-se uma relação afetiva, mais profunda, mais cúmplice, de muito maior comunicação entre o autor e o leitor.”
José Saramago, in As palavras de Saramago

A Arte ilusionista do holandês Escher

Relatividade (1953), de M. C. Escher

Mútua tolerância

No decorrer dos séculos, a História dos povos não passa de uma lição de mútua tolerância, e assim, o sonho último será envolvê-los todos numa ternura comum para os salvar o mais possível da dor comum. No nosso tempo detestar-se e ferir-se porque não se tem o crânio construído exatamente da mesma maneira, começa a tornar-se a mais monstruosa das loucuras.”
Émile Zola

Antes que se rompa o fio

O telefone chamou e deu a notícia: você ficará diferente de todos nós. Nós, que continuamos automáticos e seguros a andar pela planície, repetindo as mesmas rotinas do dia: o café da manhã, o jornal, o carro precisa ser lavado, o que vamos ter para o almoço?, a correspondência, a lamentação sobre a crise econômica, que faremos no próximo fim de semana? Mas de repente tudo isso cessou para você, pois você está pendurado sobre o abismo, preso por um tênue fio, contemplando a grande escuridão. Só nos resta olhar e esperar. E a alma se encheu de uma imensa tristeza ante a possibilidade de um adeus. Mas eu não quero lhe dizer adeus, pois a sua presença faz parte da nossa alegria. E, no entanto, é isto que nós somos, sem que tenhamos coragem para dizê-lo: um adeus. É por isso que precisamos dos poetas. Pois eles são aqueles que tecem as suas palavras em volta do frágil fio que nos amarra sobre o abismo. Eles sabem que nos nossos corpos mora um adeus. Como dizia a Cecília Meireles: “Tudo em ti era uma ausência que se demorava: uma despedida pronta a cumprir-se”.
De repente, sem nenhum anúncio.

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma [...]
De repente da calma fez-se o vento [...]
De repente, não mais que de repente
Fez-se [...] de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante [...]
De repente, não mais que de repente
(Vinicius de Moraes).

Mas não é absurdo? Este “de repente”? Já disse que não quero que ela venha súbita. O que espanta a todos os que me ouvem, que dizem que o melhor é que ela venha sem avisar e nos apague bem no meio de uma risada ou de um ritual de amor. Acho mesmo é que eles têm medo dos pensamentos que pensariam no tempo da espera. Pela vida inteira se recusaram a conversar com a Morte e se sentiriam enlouquecidos com as perguntas da suprema filósofa. Melhor recebê-la como um golpe final sem palavras, que faz cessar todos os pensamentos. Tive um amigo, Alexander Schmemann, teólogo místico russo que, informado pelo seu médico de que no seu cérebro havia um tumor inoperável e de que só lhe restavam seis meses de vida, disse: “É bom saber disso. Tenho tempo suficiente para celebrar a liturgia da morte.” E desde esse momento se dedicou a fazer exatamente aquilo que sempre desejara fazer, não permitindo que coisa alguma e nem mesmo os mais bem-intencionados consoladores (a praga suprema) o interrompessem: ler os livros que nunca lera, olhar a natureza com olhos que nunca tivera, ouvir suas músicas preferidas com ouvidos que acabavam de nascer. Eu gostaria que uma graça semelhante me fosse concedida: poder preparar o fim da minha vida como um compositor termina a sua sonata – para deixá-la perfeita e completa, como herança àqueles a quem amo, obra de arte acabada e bela.
Mas a vida não acontece assim. É como naquele terrível poema de Vallejo:

Há golpes na vida, tão fortes... Não sei!

[...] São poucos, mas são... Abrem sulcos escuros
no rosto mais indômito e no dorso mais forte.

[...] E o homem... Pobre... pobre! [...]
Volta os olhos enlouquecidos, e tudo o que foi vivido
se empoça, como charco de culpa, no olhar.
Há golpes na vida, tão fortes... Nem sei!

Ainda há poucos dias, no meio de risos, cerveja gelada e picanha, éramos donos do mundo, percorríamos mapas, imaginávamos os lugares que veríamos e antegozávamos uma felicidade futura. Mas, de repente, não mais que de repente, o duro golpe na vida, e tudo se fez espuma.
Estranho. Acho que estou ficando acostumado com o martelo e com a bigorna do diabo. Não me assustei. Estava escrevendo uma crônica para o jornal quando o telefone deu a notícia.
Meus sentimentos fugiram do texto, e tudo o que eu havia escrito me pareceu tolo e sem sentido. Até aquele momento escrevia para muitos anônimos, cujos rostos eu nunca vi, cujas dores eu nunca senti. De repente os muitos desapareceram da minha frente, e o seu era o único rosto que eu via. Queria estar ao seu lado, segurar a sua mão. Mas você está longe – e fui então para a minha solidão. Consertei uma cerca. Tinha um buraco por onde a cachorra escapulia. Cuidei da horta abandonada, onde umas plantas teimavam em viver. Limpei o aquário. Preguei uns quadros da parede. “Há que se cuidar da vida...” Pensei neste absurdo – mas tem que ser assim – que quando morrermos a vida continuará. Ela tem de continuar, pois continua a ser bela, a despeito de tudo.
Em outros tempos eu tinha medo da morte. E até disse isso numa pequena autobiografia que apareceu na última capa de um dos meus livros, o que provocou protestos indignados de pessoas religiosas que acham que a morte é melhor que a vida. Para elas, eu penso, cada morte é sempre um motivo de júbilo. “Está muito melhor agora”, dizem os tolos consoladores profissionais, nos velórios. O que me deixa perplexo, porque então as lágrimas não têm explicação. Deveriam, mesmo, é estar dando uma festa.
Meus sentimentos mudaram. A morte não mais me causa medo. O que ela me dá é uma imensa tristeza. Muitos, muitos anos atrás, quando minha filha Raquel não tinha mais que três anos – eu ainda estava dormindo –, ela me acordou com uma pergunta que eu nunca ouvira, uma pergunta de tal densidade poético-metafísica que tive a impressão de estar ouvindo uma voz vinda de séculos de sabedoria e não de uma menininha que começava a viver – é certo que coisa semelhante eu nunca haveria de ouvir da boca de um adulto: “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?” Ante o meu espanto sem palavras, ela acrescentou: “Mas não chore não. Eu vou te abraçar...” Ela entendera que a dor da morte não é a dor do medo. É a dor da saudade. Imaginar a ausência das coisas que amamos: a cerca para ser consertada, a horta para ser cuidada, o aquário para ser limpo, os quadros a serem pendurados... Cecília Meireles escreveu uma “Elegia” para a sua avó morta, que é, talvez, a mais bela canção de saudade que eu conheço. Ela fala sobre as cigarras que cantam e os trovões que caminham por cima da terra, a chuva que corre pelas montanhas, as noites claras, o canto dos grilos que faz palpitar o cheiro molhado do chão, as frutas maduras, o arrulho dos pássaros, os cravos de perfume profundo e obscuro, a areia branca e seca junto ao mar lampejante, as nuvens brancas, o desenho das pombas voantes, o destino dos trens pelas montanhas, o brilho tênue de cada estrela, imagens do mundo que amamos, com o mar, seus peixes e barcas, os pomares e seus cestos derramados de frutos, os jardins de malva e trevo, com seus perfumes brancos e vermelhos.
Ah! A vida é bela! O mundo é belo! É por isso que toda despedida é triste. E é isto que eu sinto: que a morte é uma saudade sem remédio.
Desta distância onde estou quero lhe dizer isto: você faz parte da maravilha do mundo. É preciso que você fique, para que a saudade seja, pelo menos, adiada. Pois isto é o máximo que podemos fazer: adiar a saudade. Mais cedo ou mais tarde “se romperá o fio de prata, e se despedaçará o copo de ouro, e se quebrará o cântaro junto à fonte” (Eclesiastes 12,6).
E, quando isso acontecer, só nos restará fazer a mais inútil de todas as coisas: chorar...
Até lá, celebraremos a vida. Por favor, não vá agora!
Rubem Alves, in Se eu pudesse viver minha vida novamente

domingo, 29 de outubro de 2017

O único fio que a unia ao mundo lá de fora


Muitos anos antes, quando ainda ela era menina, ele tinha dito:
Desça mais, Susana, e me diga o que está vendo.
Estava pendurada naquela corda que machucava sua cintura, sangrava as suas mãos; mas que não queria soltar: era como se fosse o único fio que a unia ao mundo lá de fora.
Não vejo nada, papai.
Procura bem, Susana. Faz por encontrar alguma coisa.
E a iluminou com sua lamparina.
Não vejo nada, papai. 
— Vou descer você mais. Avisa quando chegar no chão.
Tinha entrado por um pequeno buraco aberto no meio das tábuas. Havia caminhado sobre tábuas apodrecidas, velhas, quebradas e cheias de terra pegajosa:
Desça mais, Susana, que você encontra o que estou dizendo.
E ela desceu e desceu balançando, ondulando na profundeza, com seus pés bamboleando sem ter onde os pôr.
Mais para baixo, Susana. Mais para baixo. Diga se está vendo alguma coisa.
E quando encontrou apoio permaneceu ali, calada, porque emudeceu de medo. A lamparina circulava e a luz passava ao largo perto dela. E o grito lá do alto a estremecia:
Susana, me dá aquilo ali!
E ela agarrou a caveira nas mãos e, quando a luz bateu em cheio, soltou-a.
É uma caveira de morto — disse.
Deve ter mais alguma coisa ao lado dela. Quero que você me dê tudo que encontrar.
O cadáver se desfez em ossos; a queixada soltou-se como se fosse de açúcar. Foi dando a ele pedaço a pedaço até que chegou aos dedos dos pés e entregou falange por falange. E a caveira, primeiro; aquela bola redonda que se desfez entre suas mãos.
Procura mais um pouco, Susana. Dinheiro. Rodelas redondas de ouro. Procura, Susana.
Então ela não soube dela, a não ser muitos dias depois no meio do gelo, no meio do olhar de gelo de seu pai.
Por isso dava risada agora:
Adivinhei que era você, Bartolomé.
E a coitada da Justina, que chorava sobre seu coração, precisou levantar-se ao ver que ela ria e que seu riso se transformava em gargalhada.
Lá fora continuava chovendo. Os índios tinham ido embora. Era segunda-feira e o vale de Comala continuava empapando-se de chuva.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

O árbitro


O árbitro é arbitrário por definição. Este é o abominável tirano que exerce sua ditadura sem oposição possível e o verdugo afetado que exerce seu poder absoluto com gestos de ópera. Apito na boca, o árbitro sopra os ventos da fatalidade do destino e confirma ou anula os gols. Cartão na mão, levanta as cores da condenação: o amarelo, que castiga o pecador e o obriga ao arrependimento, ou o vermelho, que o manda para o exílio.
Os bandeirinhas, que ajudam, mas não mandam, olham de fora. Só o árbitro entra em campo; e com toda razão se benze ao entrar, assim que surge diante da multidão que ruge. Seu trabalho consiste em se fazer odiar. Única unanimidade do futebol: todos o odeiam. É vaiado sempre, jamais é aplaudido.
Ninguém corre mais do que ele. É o único obrigado a correr o tempo todo. Este intruso que ofega sem descanso entre os vinte e dois jogadores galopa como um cavalo, e a recompensa por tanto sacrifício é a multidão que exige sua cabeça. Do princípio ao fim de cada partida, suando em bicas, o árbitro é obrigado a seguir a bola branca que vai e vem entre os pés alheios. É evidente que adoraria brincar com ela, mas nunca essa graça lhe foi concedida. Quando a bola, por acidente, bate em seu corpo, todo o público lembra de sua mãe. E, no entanto, pelo simples fato de estar ali, no sagrado espaço verde onde a bola gira e voa, ele aguenta insultos, vaias, pedradas e maldições.
Às vezes, raras vezes, alguma decisão do árbitro coincide com a vontade do torcedor, mas nem assim consegue provar sua inocência. Os derrotados perdem por causa dele e os vitoriosos ganham apesar dele. Álibi de todos os erros, explicação para todas as desgraças, as torcidas teriam que inventá-lo se ele não existisse. Quanto mais o odeiam, mais precisam dele.
Durante mais de um século, o árbitro vestiu-se de luto. Por quem? Por ele. Agora, disfarça com cores.
Eduardo Galeano, in Futebol ao sol e à sombra

Exemplos

Caminhando os homens quase sempre pelos caminhos já por outros percorridos, e tendendo, nas suas ações, a proceder por imitação, não podem, contudo, seguir inteiramente a mesma via nem alcançar a virtude daqueles que pretendem imitar. Por tal motivo, um homem avisado deve procurar seguir as vias percorridas por grandes homens e imitar aqueles que atingiram o mais elevado patamar de excelência, de modo que, se não pudermos igualar a sua virtude, deles vos fique, ao menos, o perfume do seu valor. É o que fazem os arqueiros habilidosos, os quais, parecendo-lhes muito distante o alvo que desejam atingir, e, conhecendo bem as limitações de alcance do seu arco, fazem pontaria para um ponto muito mais alto do que o alvo, não para aí acertar com as suas flechas, mas, sim, para, com a ajuda de tão elevada mira, poderem bater o alvo pretendido.”
Nicolau Maquiavel, in O Príncipe

Tiago Iorc e Milton Nascimento - Mais Bonito Não Há

Sigilo de fonte

Quem há de dizer das linhas
que as ondas armem e não armem?
Quem há de dizer das flâmulas,
lágrimas acesas, tantas lâmpadas,
milagres, passando rápidas?
Diga você, já que se sabe
que nem tudo na água é margem,
nem tudo é motivo de escândalo,
nem tudo me diz eu te amo,
nem tudo na terra é miragem.
Signos, sonhos, sombras, imagens,
ninguém vai nunca saber
quantas mensagens nos trazem.
lá vai um homem sozinho
o que ele pensa da noite
eu não sei
apenas adivinho
pensa o que pensa
todo mundo indo
um dia
eu já tive vizinho.
Paulo Leminski

Os sinais das mãos humanas

Não há ideal a que possamos sacrificar-nos, porque de todos eles conhecemos a mentira, nós os que ignoramos em absoluto o que seja a verdade. A sombra terrestre que se alonga por detrás dos deuses de mármore basta para nos afastar deles. Ah, com que amplexo o homem se estreitou a si próprio! Pátria, justiça, grandeza, piedade, verdade, qual das suas estátuas não traz em si os sinais das mãos humanas para que não desperte a mesma ironia triste que os velhos rostos outrora amados? Compreender não significa necessariamente aceitar todas as loucuras. E, no entanto, quantos sacrifícios, quantos heroísmos injustificados dormem em nós…”
André Malraux, in A Tentação do Ocidente

A colheita é comum, mas o capinar é sozinho...

As vezes eu penso! seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem, em algum apropriado lugar, no meio dos gerais, para se viver só em altas rezas, fortíssimas, louvando a Deus e pedindo glória do perdão do mundo. Todos vinham comparecendo, lá se levantava enorme igreja, não havia mais crimes, nem ambição, e todo sofrimento se espraiava em Deus, dado logo, até à hora de cada uma morte cantar. Raciocinei isso com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça! ― Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho... ― ciente me respondeu.
Compadre meu Quelemém é um homem fora de projetos. O senhor vá lá, na Jijujã.Vai agora, mês de junho. A estrela-dalva sai às três horas, madrugada boa gelada. E tempo da cana. Senhor vê, no escuro, um quebra-peito ― e é ele mesmo, já risonho e suado, engenhando o seu moer. O senhor bebe uma cuia de garapa e dá a ele lembranças minhas. Homem de mansa lei, coração tão branco e grosso de bom, que mesmo pessoa muito alegre ou muito triste gosta de poder conversar com ele.
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

Arte e corpo fundidos na obra de Cecilia Paredes

A artista peruana Cecilia Paredes desaparece em suas próprias obras. Com uma mistura de fotografia, pintura e performance, Cecilia encontrou uma forma de integrar-se fisicamente às produções.
Com ajuda de assistentes, Cecilia aplica a maquiagem em seu próprio corpo, com o padrão de suas obras, e cria quase que uma fusão para ser fotografada. Por algumas vezes a artista deixa seus cabelos expostos, fazendo com que sua presença seja notada pelo espectador.
A peruana, em sua performance, tem o cuidado de fazer com que cada elemento se encaixe, o que torna evidente a vontade da artista em abordar a adaptação do homem a ambientes. Cecilia Paredes explica que utilizou o próprio corpo por, justamente, se tratar de um trabalho autobiográfico e que somente sendo o objeto cênico, teria controle do resultado que esperava.












Fonte: www.zupi.com.br

Levante

- Sumeris.
- Bonito nome. Estranho.
- Pois é.
- Era uma deusa do Oriente, não era?
- Sei lá.
- O meu é Pio.
- “Pio?!”
- Pio.
- De passarinho?
- Não, de devoto. Minha família era muito religiosa.
- Pio…
- Você é uma deusa?
- Ai, ai, ai...
- Do Oriente?
- Não sei. Carazinho é Oriente ou Ocidente?
Mas antes que a noite acabasse ele descobriria atrás da orelha dela um perfume de cedro e jasmim, e lamberia das suas coxas o sal de Bet'said, que sustentava as caravanas.
Luís Fernando Veríssimo, in As mentiras que os homens contam

"Eu não sei por que, mas quero saber por que"

Pensei: a Irmã Mary Ethelbert adorava esta canção. Ela a tocava no órgão quando eu estava no quarto ano. E está em um convento no Wyoming. Reza por mim toda noite. Esta canção sempre me lembra dela. Neste exato momento provavelmente está rezando por mim. E, Deus, que paradoxo, toda vez que penso nela, penso em ir para a cama com ela. O que Jurgen dizia? Agora a história se desenrola — não. Não é isso. Sim. “Não há lembrança menos satisfatória do que a lembrança de alguma tentação à qual resistimos.” Mas isso é um pouco maldoso para com a Irmã Ethelbert. E ela reza por mim. E minha mãe está em casa agora rezando por mim. E também padre Benson em St. Louis e Paul Reinert e Dan Campbell. Por que deviam ser padres? Se vissem os livros de E. Boyd Barrett, eles os queimariam, mas não os leriam. Eu devia estar em casa lendo e escrevendo. Vou ter de ficar acordado até tarde esta noite se desejo escrever setecentas palavras. Tenho de escrever, escrever, escrever. Eu deveria ir para a cama cedo. Os barcos de aço amanhã. Odeio o maldito do aço. Corta minhas mãos em tiras. Que diabo. Eu devia me sentir com sorte por ter um emprego. Sorte? Que diacho! Conceitos de bem e mal são apenas meios para se atingir um fim. São expedientes para se adquirir poder. É preciso ter coragem para fazer o que Nietzsche diz, mas, por Deus, ele está certo, e eu vou fazê-lo. A Irmã Mary Ethelbert era bonitinha. Achava que eu ia ser padre. Minha mãe também. Somente nuas eu gostaria de vê-las, pois apenas a beleza ensinaria a penitência. Mas o que ele quer dizer com isso? Não sei. Como aquele garoto em Sherwood Anderson que dizia: “Eu não sei por que, mas quero saber por que.” Anderson escreve como um velho fazendeiro de músculos enrijecidos. Cabell escreve as belas frases, Oh, Cabell, Oh, Jurgen, Jurgen. Um sujeito monstruosamente esperto. Certo. Pois é o que a história conta. Hah, Jurgen. Só sou jovem uma vez. Agora, por que diabos Nietzsche perseguiu aquela Salomé por toda a Europa? Por que não? Ele só foi jovem uma vez. Eu ainda podia ser padre. Me pergunto se vou clamar por um padre no meu leito de morte? Eu. Um covarde? Não. Sou um sujeito monstruosamente esperto que devia estar em casa agora, em vez de sentado aqui ouvindo esta canção. Preciso escrever, escrever, escrever. A canção é bonita. Irmã Ethelbert gostava dela.
John Fante, in Um sujeito monstruosamente esperto