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31/10/2017

A teoria cívivo-linguística da catedral

Foi em 2011, entrevistando o escritor israelense Amós Oz, que finalmente compreendi o tamanho do erro de ver na língua um ponto cego do pensamento — mais do que um equívoco típico da tradição anti-intelectual brasileira, o sintoma de uma deficiência mais grave. De uma falha cultural, quem sabe até cívica. Não creio que esteja exagerando.
Estávamos num salão vazio no segundo andar do belo hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, e Oz discorria com paixão sobre o idioma hebraico:
É um instrumento tremendo, ao mesmo tempo antigo e moderno. É cheio de ecos da antiguidade, os salmos e profetas estão todos lá, e no entanto é uma língua contemporânea. Deve-se ter muito cuidado com esse instrumento maravilhoso, como quem toca órgão numa catedral.
A princípio não entendi. Cuidado por quê? Qual era o perigo?
Conjurar ecos monstruosos — explicou Oz. — Se você tocar sem querer certas cordas bíblicas, soará grotesco, ridículo. Isso é ótimo para a paródia e a ironia, mas você precisa saber o que está fazendo. É um campo minado.
O pé-direito alto do salão em que nos encontrávamos parecia ilustrar o elegante argumento. Me ocorreu então um pensamento que, embora talvez óbvio, recebi como uma epifania: toda língua é uma caixa de ressonância e um campo minado. Se um escritor de língua portuguesa dificilmente evocará profetas, pode, de propósito ou não, conjurar num único texto os fantasmas de Camões, Vieira, Machado, Bandeira, Vinicius. Ou Didi Mocó.
É a tradição literária acumulada e o peso que ela tem na cultura geral, dependente do grau de letramento da sociedade, que vai determinar no fim das contas a intensidade dessa reverberação — a altura do pé-direito, por assim dizer, que tanto pode ser o de uma catedral magnífica como o de uma capelinha de província.
Sentado ao órgão, o escritor produz a música que seu talento lhe sopra, mas também a que sua caixa de ressonância lhe permite produzir. Ao mesmo tempo, ao contrário do que ocorre no mundo físico — o que demarca o limite da metáfora oziana —, os acordes que saem dos tubos têm o potencial de sustentar o teto, impedindo que ele desabe e até, nos casos mais felizes, ajudando a elevá-lo.
Sérgio Rodrigues, in Viva a língua brasileira!

27/10/2017

Perda de tempo? Não: pilar da cidadania

Existe uma parcela da sociedade brasileira — talvez pequena, mas certamente aguerrida, a julgar pelas mensagens furiosas que de lá me chegaram ao longo dos anos — que considera a linguagem um não assunto. Escrever sobre ela seria o modo mais garantido de perder tempo, uma revoltante inutilidade.
Trata-se de um equívoco de grandes proporções. As palavras nos falam dos pés à cabeça, do nascimento à morte, estejamos dormindo ou acordados. Ainda assim, para essas pessoas, não se pode falar delas. Como se a linguagem fosse um ponto cego, uma paisagem que, de tão vista, já não conseguimos ver. Apontá-la é inútil porque parece não haver nada lá.
Certa vez o escritor americano David Foster Wallace abriu um discurso de paraninfo contando uma fábula singela. Dois peixes jovens cruzam com um peixe mais velho, que lhes pergunta:
Como está a água hoje, rapazes?
Os dois não respondem e, quando o veterano se afasta, se entreolham:
Água? O que é água?
Sérgio Rodrigues, in Viva a língua brasileira

23/10/2017

A língua mais difícil do mundo?

Quantas vezes você já ouviu que nossa língua é a mais complicada que existe? Bobagem. O português é uma das línguas mais fáceis do mundo, isso sim.
Claro que depende do ponto de vista: aprender sueco, por exemplo, é moleza para quem fala dinamarquês. Mas um ranking elaborado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos (do ponto de vista dos falantes de inglês, portanto) situa nossa língua no grupo um, o dos idiomas acessíveis em que se pode ficar fluente com até seiscentas horas de estudo. Na mesma categoria estão francês, italiano e espanhol. No extremo oposto, o grupo quatro, o tempo de ralação sobe para 2200 horas. Ali estão árabe, mandarim, coreano e japonês.
Quanto à mania brasileira de achar que o português é mais difícil que engenharia espacial, é como diria um velho professor rabugento:
Português não é difícil, você é que estudou pouco!

De onde tiraram isso?
Baseada provavelmente na dor de cabeça real que acomete estrangeiros diante da arquitetura barroca de nossos verbos, a afirmação dispensa a necessidade de prova. O sujeito erra o gênero da palavra alface e pronto, lá vem a desculpa universal:
Também, como é difícil a porcaria dessa língua! Ah, se tivéssemos sido colonizados pelos holandeses!
Isso não quer dizer que o queixoso saiba holandês. É na imensa parcela monoglota da população que a crença na dificuldade insuperável do português encontra solo mais fértil. Não é uma conclusão a que se chegue depois de estudar latim, alemão, húngaro, russo e japonês. Ninguém precisa ter encarado uma declinação — vespeiro do qual a gramática portuguesa nos poupou — para deplorar o desafio invencível da crase.
O mito das agruras superlativas do português diz muito sobre a falência educacional brasileira.
Sérgio Rodrigues, in Viva a língua brasileira!

20/10/2017

Coitada da Norma, tão culta!

E a Norma, hein?
O que é que tem?
Você não soube? Anda mal falada.
A Norma? Depois de velha? Mas ela é tão culta!
Pois é. E com aquela pose toda, a mania de ditar regrinhas de bom comportamento, de corrigir todo mundo…
Mas o que foi que aconteceu?
Ora, o que aconteceu é que caiu a máscara da madame, né? Descobriram finalmente como ela é autoritária, elitista e preconceituosa. E pior, arbitrária, totalmente desconectada da realidade.
Puxa, eu sempre achei a Norma tão correta…
Correta demais, aí é que está. Era para desconfiar, acho que demorou. Parece que até aqueles amigos que ela se orgulhava de ter no ministério andam virando a cara para ela.
Ah, coitada. Eu sinto pena.
Pois eu acho ótimo. Nunca fiquei à vontade na presença da dona, sabia? Muitas vezes aconteceu de eu ter alguma coisa importante para falar e ficar com medo. Preferia nem abrir a boca.
Isso é verdade, a Norma sempre foi difícil.
Tá vendo? Nem você, que é meio puxa-saco, está disposto a defender a megera!
Estou, sim; defendo, sim. E você? Fica aí esculachando, mas até que está se expressando direitinho, do jeito que ela gosta.
Eu?
Você.
Ah, você não viu nada, meu amigo. A gente vamos barbarizar!
Sérgio Rodrigues, in Viva a língua brasileira