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12/02/2026

Delicada e preciosa

  “Após cada morte a vida se torna, para nós, mais delicada e preciosa.”

Hermann Hesse, em Do universo à jabuticaba, de Rubem Alves

26/02/2025

Escrever (III)

Escrever para jornal não é tão impossível: é leve, tem que ser leve, e até mesmo superficial: o leitor, em relação a jornal, não tem nem vontade nem tempo de se aprofundar.
Mas escrever o que se tornará depois um livro exige às vezes mais força do que aparentemente se tem.
Sobretudo quando se teve que inventar o próprio método de trabalho, como eu e muitos outros. Quando conscientemente, aos 13 anos de idade, tomei posse da vontade de escrever — eu escrevia quando era criança, mas não tomara posse de um destino —, quando tomei posse da vontade de escrever, vi-me de repente num vácuo. E nesse vácuo não havia quem pudesse me ajudar.
Eu tinha que eu mesma me erguer de um nada, tinha eu mesma que me entender, eu mesma inventar por assim dizer a minha verdade. Comecei, e nem sequer era pelo começo. Os papéis se juntavam um ao outro — o sentido se contradizia, o desespero de não poder era um obstáculo a mais para realmente não poder. A história interminável que então comecei a escrever (com muita influência de O lobo da estepe, Hermann Hesse), que pena eu não a ter conservado: rasguei, desprezando todo um esforço quase sobre-humano de aprendizagem, de autoconhecimento. E tudo era feito em tal segredo. Eu não contava a ninguém, vivia aquela dor sozinha. Uma coisa eu já adivinhava: era preciso tentar escrever sempre, não esperar por um momento melhor porque este simplesmente não vinha. Escrever sempre me foi difícil, embora tivesse partido do que se chama vocação. Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

21/08/2020

Hermínia era como a própria vida

Com os olhos ainda fitos na orquídea, emudeceu; o rosto distendeu-se-lhe como um botão que floresce e, de súbito, apareceu um sorriso encantador em seus lábios, ao passo que os olhos permaneceram fixos e alheios por uns instantes. Logo ergueu a cabeça movendo o pega-rapaz, bebeu um gole d'água, deu-se conta de que estávamos jantando e inclinou-se sobre o prato com alegre apetite. Eu escutara palavra por palavra a sua inquietante exposição, pressentira mesmo o significado de sua última ordem antes que ela a houvesse pronunciado e não me assustei ao ouvi-la dizer: você terá de matar-me. Tudo o que disse soou-me convincente e predestinado; aceitei-o e não me opus a isso; e, no entanto, apesar da crua seriedade com que ela o pronunciara, tudo aquilo para mim carecia de realidade, não o podia levar a sério. Uma parte de minha alma bebeu suas palavras e acreditou nelas, mas a outra acudiu conciliadora e veio assegurar-me que também esta prudente, sadia e segura Hermínia tinha seus momentos de devaneio e seus estados nebulosos. Mal terminara de pronunciar suas últimas palavras, um véu de irrealidade e inexistência baixou por sobre elas. Não obstante, eu não podia ir de um pólo ao outro assim com a mesma rapidez com que Hermínia o fazia. — De modo que um dia terei de matá-la? — perguntei, ainda meio em sonho, enquanto ela ria, e trincava o pato com grande satisfação.
— Sem dúvida — disse — mas não vamos voltar ao assunto, pois estamos jantando. Seja bonzinho e peça agora um pouco mais de salada para mim. Não está com apetite? Acho que lhe falta ainda aprender aquilo que é natural nas outras pessoas, como por exemplo o prazer de comer. Veja só este peito de pato: quando se separa a carne branca e deliciosa do osso, é como se fosse uma festa! Deve ser para o nosso coração tão apetitoso, emocionante e sensível quanto para um jovem ajudar pela primeira vez a namorada a tirar o casaco. Compreendeu? Não? Você é burrinho mesmo. Aqui: vou lhe dar um pedacinho desta carne para você provar. Assim, abra a boca! Oh, que bobão você é! Fica olhando em torno para ver se estão observando você comer do meu garfo! Não ligue para isso, filho pródigo, não farei um escândalo. Mas pobre daquele que não pode se dar a um prazer sem pedir antes a permissão dos outros. A cena que se passara antes tornava-se cada vez mais irreal. Cada vez mais me era difícil acreditar fossem os mesmos aqueles olhos que um momento antes se mantiveram fixos como numa obsessão de horror. Mas neste particular Hermínia era como a própria vida: não se podia antecipá-la, era sempre o momento presente. Agora comia e levava a sério a carne do pato e a salada, a torta e o licor; fazia deles objetos de alegria e raciocínio, de conversação e fantasia. Quando retiraram os pratos, começou um novo capítulo. Aquela mulher, que tão completamente havia penetrado em mim, que parecia saber mais a respeito da vida do que todos os sábios, continuava menina, continuava vivendo cada minuto com tal arte que havia feito de mim um discípulo incondicional. Quer fosse alta perspicácia quer simples ingenuidade, quem vivia assim tão no presente e sabia apreciar tão cuidadosa e amigavelmente cada florzinha do caminho, estava acima de tudo e a vida nada podia contra ela. E dizer que a alegre criatura, com sua gula infantil, era ao mesmo tempo uma sonhadora e uma histérica, que desejava a morte, ou uma fria calculista, que queria fascinar-me consciente e friamente e fazer de mim seu escravo!... Isto não podia ser. Não, seu abandono ao momento era tão simples e tão completo que estava aberta por inteira ao mesmo tempo a todo acontecimento prazeroso como a todo horror negro e fugitivo que proviesse dos mais profundos recessos de sua alma; e tudo saboreava até o fim. Embora fosse aquela a segunda vez que eu me encontrava com Hermínia, ela tudo sabia a meu respeito e pareceu-me inteiramente impossível que lhe pudesse ocultar qualquer segredo. Talvez não chegasse a compreender por completo a minha vida espiritual; talvez não conseguisse acompanhar-me nas minhas relações com a música, Goethe, Novalis ou Baudelaire. Mas isto também era um ponto discutível; talvez não tivesse mais trabalho nisso do que em relação aos demais. E, afinal de contas, que restara de minha vida espiritual? Não estava toda feita em pedaços? Não perdera o sentido? Mas, quanto ao resto, aos meus problemas pessoais, meus anseios, não tinha dúvida de que ela os compreendia bem. Em breve falaria com ela a propósito do Lobo da Estepe, do tratado, de tudo aquilo que até então só existira para mim e a respeito do que nunca dissera uma palavra a quem quer que fosse. De fato, não consegui resistir à tentação de tocar no assunto imediatamente.
Hermann Hesse, in O Lobo da Estepe

08/01/2020

Minha hospedeira

E antes que me desse conta peguei no sono e dormi durante quatro ou cinco horas. Eram mais de dez da manhã quando acordei, com as roupas todas amarrotadas, exausto, e em minha cabeça a memória semi-esquecida da sensação horrível do dia anterior; mas estava vivo, tinha esperança e felizes pensamentos. Ao voltar para casa, já não sentia aquele terror que teria sentido se regressasse na véspera.
Na escada, no andar acima do pinheirinho, dei de encontro com a “tia”, minha hospedeira, a quem via de raro em raro, mas cuja amistosa presença me era muito agradável. Tal encontro não fora muito oportuno, pois estava sujo e três noitado, despenteado e com a barba por fazer. Cumprimentou-se e quis passar adiante. Ela sempre respeitava meu desejo de estar sozinho e de não ser observado continuamente, mas hoje parecia ter-se rompido um véu entre mim e o mundo em redor, ter-se desmoronado a barreira — ela sorriu e permaneceu parada.
— Divertiu-se esta noite, hein, Sr. Haller? Não desfez a cama e decerto deve estar cansado, não?
— Sim — disse eu, e tive de sorrir também — a noite de ontem foi animada e, como não quisesse interromper a paz de sua casa, acabei dormindo num hotel. Meu respeito pela calma e a honorabilidade de sua casa é muito grande, e às vezes me sinto como um “corpo estranho” nela.
— Não faça pouco, Sr. Haller.
— Eu só faço pouco de mim mesmo.
— Pois não devia fazê-lo. Não devia sentir-se em minha casa como um “corpo estranho”. Pode viver como melhor lhe convenha e fazer o que bem entenda. Já tive muitos inquilinos distintos, verdadeiras joias de amabilidade, mas nenhum era tão sossegado ou nos incomodou menos que o senhor. E agora, quer tomar uma chávena de chá? Não me opus. Na sala de jantar, entre formosos retratos de seus antepassados e os móveis de seus avós, tomei um chá excelente e conversamos um pouco; a amável senhora, sem que o perguntasse expressamente, ficou sabendo algumas coisas a respeito de minha vida e de meus pensamentos, e ouviu-me com esse misto de respeito e de indulgência maternal que as mulheres prudentes têm para com as complicações dos homens. Falou-me também de seu sobrinho e me mostrou num quarto contíguo o trabalho que este fizera durante as últimas férias: um aparelho de rádio. Ali o esforçado jovem passava seus momentos de ócio e montara aquela máquina, seduzido pela telegrafia sem fios, prostrado de joelhos diante do deus da técnica, cujo poder possibilitou o descobrimento, após milhares de anos, de um fato que todos os pensadores sempre souberam e do qual fizeram melhor uso do que neste recente e muito imperfeito estágio atual. Falamos a propósito disso, pois a senhora era inclinada à devoção e os temas religiosos não lhe eram desagradáveis. Disse-lhe que a onipresença de todas as forças e ações eram bem conhecidas pelos antigos hindus, e a técnica havia simplesmente trazido um pouco desse fato à consciência comum, e por esse meio, no que se refere às ondas sonoras, havia construído um emissor e um receptor que ainda estavam totalmente imperfeitos. A base daquela idéia antiga, a irrealidade do tempo, não fora ainda observada pela técnica, mas naturalmente viria a ser finalmente "descoberta" e cairia nas mãos dos laboriosos engenheiros. Seria descoberto, talvez muito em breve, pois não só as imagens e acontecimentos presentes e momentâneos poderiam chegar continuamente até nós, como a música de Paris ou de Berlim se faz agora audível em Frankfurt ou em Munique, mas também tudo o que já aconteceu fica registrado e pode tornar-se atual; e que um dia, com fios ou sem eles, com ou sem ruídos, chegaremos a ouvir a voz do rei Salomão ou a de Walter von der Vogelwide. E que tudo isto, como hoje os primórdios do rádio, só servirá ao homem para fugir de si mesmo e de sua meta e envolver-se numa rede cada vez mais cerrada de distrações e ocupações inúteis. Mas disse todas essas coisas não no costumeiro tom de amargura e desdém contra os tempos atuais e a técnica, mas em tom de pilhéria e com ar de brincalhão; a senhora se ria e passamos assim uma hora juntos, a tomar chá e a nos divertirmos. Havia convidado a admirável jovem do Águia Negra para a noite de terça-feira, e não me foi fácil esperar que chegasse aquele dia; quando por fim chegou a terça-feira, tive perfeita noção da importância que tinham para mim as relações com aquela moça, uma simples desconhecida, e isso me encheu de espanto. Só pensava nela, e esperava tudo dela, estava disposto a sacrificar-lhe tudo e pôr tudo a seus pés, embora não estivesse em absoluto enamorado dela. Bastava imaginar que não compareceria ao encontro ou que dele se houvesse esquecido, para ver claramente o que ela representava para mim; o mundo me parecia então novamente vazio, os dias eram escuros e destituídos de encanto, voltava a envolver-me a cruel quietude e a morte, e não via outra saída daquele inferno silencioso senão a navalha de barbear. E a navalha de barbear não fora nada agradável para mim nestes dias, não havia perdido nada de seu antigo horror. Isto era exatamente o mais terrível: sentia uma profunda e opressiva angústia em cortar a garganta, temia a morte como uma força tão obstinada e selvagem, como se fosse o homem mais saudável do mundo e minha vida um verdadeiro paraíso. Conhecia meu estado com plena e brutal clareza e reconhecia que a tensão insuportável entre o não poder viver e o não poder morrer era o que me fazia dar tanta importância à desconhecida, à linda bailarina do Águia Negra. Era a única janela, a luminosa e diminuta abertura em minha sombria e angustiosa caverna. Era a salvação, o caminho para a liberdade. Haveria de ensinar-me a viver ou ensinar-me a morrer, haveria de tocar com sua mão firme e formosa meu coração transido, para que ele, em contato com a vida, de novo florescesse ou se tornasse em cinzas. De onde tirava ela essa força, de onde lhe vinha a magia, de que profundos abismos se elevava até ela essa profunda significação que tinha para mim? Não sabia e não me importava sabê-lo. Bastava-me saber de sua existência. Nenhuma ciência, nenhum conhecimento me importara tanto; estava saciado deles, precisamente nisto consistia a ignomínia e o tormento mais agudos de que eu padecia: ver tão claramente meu próprio estado, ter perfeita consciência dele. Via a este infeliz, a este Lobo da Estepe diante de mim como uma mosca numa teia de aranha, e contemplava como seu destino forçava o desenlace, como pendia da teia enlaçado e indefeso, como a aranha se dispunha a devorá-lo, como aparecia também uma salvadora mão. Poderia dizer as coisas mais racionais e inteligentes sobre a concatenação e os motivos do meu padecimento, da enfermidade de minha alma, de meu enfeitiçamento e de minha neurose, pois a mecânica era evidente para mim. O que mais me fazia falta, aquilo por que suspirava tão desesperadamente, não era saber e compreender, mas vida, decisão, movimento e impulso. Embora durante aqueles dois dias de espera nunca duvidasse de que minha amiga cumpriria o prometido, às últimas horas estive muito excitado e inseguro; nunca na vida esperara com tamanha ansiedade a noite de nenhum dia. E embora a tensão e a impaciência se me tornassem quase insuportáveis, aquilo me causou um grande bem: era indizivelmente formoso e novo para mim, para o desiludido que há muito tempo nada mais esperava, que não se satisfazia com o que quer que fosse; era maravilhoso correr daqui para ali o dia todo, cheio de impaciência, de inquietude e veemente expectativa, imaginar antecipadamente o encontro, a conversação, os acontecimentos da noite, barbear se e vestir-se para o encontro (com muito apuro, camisa nova, gravata nova, cordões novos nos sapatos). Fosse quem fosse aquela moça inteligente e misteriosa, que tivesse chegado até mim por este ou aquele caminho, tudo me era indiferente; ali estava, e realizara-se o prodígio de eu voltar a sentir-me um ser humano e encontrar novamente interesse na vida! Só me importava que tudo prosseguisse, abandonar-me àquela atração, seguir aquela estrela! Momento inesquecível em que tornei a vê-la! Estava sentado junto a uma mesinha no antigo e confortável restaurante, a qual eu reservara pelo telefone, sem que houvesse necessidade; examinei o cardápio e coloquei no jarro duas formosas orquídeas que comprara para presentear minha amiga. Tive de esperá-la algum tempo, mas sempre na certeza de que viria, e não me angustiei. E chegou, e deteve-se junto ao vestiário e me cumprimentou somente com um olhar atento, um tanto inquisitivo, de seus claros olhos cor de cinza. Desconfiado, fiquei observando como o moço do vestuário se comportaria com ela. Não, graças a Deus, não houve qualquer intimidade entre eles, qualquer falta de respeito; mostrou-se impecavelmente correto. E, no entanto, se conheciam, pois ela o chamou por Emil.
Quando lhe dei as orquídeas, alegrou-se e sorriu.
— Muito obrigada pela sua atenção, Harry. Você queria me dar um presente, não é? E não sabia exatamente o que escolher. Não estava certo se eu ficaria satisfeita em receber o presente ou se me ofenderia, por isso escolheu orquídeas, que não passam de flores, mas são sempre muito apreciadas. Portanto, muito, muito grata. E aproveito para dizer-lhe que não quero que me traga presentes. Vivo à custa dos homens, mas não quero viver à sua custa. Mas, como você está diferente! Parece até outra pessoa! Outro dia estava como alguém que foi salvo da forca e agora já está quase um homem outra vez.
Hermann Hesse, in O Lobo da Estepe

23/11/2019

Santos que tenho devoção

Estendeu-me a mão e analisei que esta se casava perfeitamente com sua voz, formosa e cheia, sábia e bondosa. Ela sorriu irônica enquanto eu lhe beijava a mão.
E, no último instante, voltou-se de novo para mim e disse:
— Quero dizer-lhe mais uma palavra a propósito de Goethe. O que lhe aconteceu em relação a Goethe, de quem não pode suportar certas representações, acontece comigo em relação aos santos.
— Aos santos? Você é tão religiosa assim?
— Não, não sou religiosa, infelizmente, mas já fui noutra época e mais tarde voltarei a ser. Agora não tenho tempo para isso.
— Não tem tempo? É preciso tempo para ser religioso?
— Claro que sim. Para sermos religiosos, é preciso tempo, muito tempo. Ter independência de tempo! Não se pode ser formalmente religiosa e viver ao mesmo tempo na realidade e levar as coisas a sério: o tempo, o dinheiro, o bar Odeon e tudo o mais.
— Compreendo. Mas o que foi que disse a propósito dos santos?
— Bem, há muitos santos pelos quais tenho devoção: Santo Estêvão, São Francisco e outros. Às vezes vejo imagens deles e também do Salvador e da Virgem Santíssima, imagens tão piegas, tão falsas e estúpidas que não posso suportar, como lhe aconteceu com a gravura de Goethe. Quando vejo uma imagem tão melosa e apalermada do Salvador ou do Santo de Assis, que os outros acham tão devota e edificante, considero-a um insulto ao verdadeiro Salvador e penso: Ah! Ele viveu e sofreu tão terrivelmente para que as pessoas se contentem com uma estampa tão idiota? Apesar disso, sei também que a imagem que faço do Salvador ou de São Francisco não passa de uma imagem humana que não alcança nem de leve a imagem original, e que o Salvador por sua vez acharia a imagem interior que faço d'Ele, tão estúpida e insuficiente quanto acho aquelas estampas medíocres. Estou-lhe dizendo isto, não pata lhe dar razão por seu mau humor e sua fúria contra o retrato de Goethe; não, nisso você não tem razão. Digo-lhe simplesmente para demonstrar-lhe que posso compreendê-lo Vocês, os artistas e os eruditos, têm coisas singulares no miolo, mas no fundo não passam de pessoas iguais as outras, e nós também temos nossos sonhos e fantasias na cabeça. Também notei, ilustre senhor, que teve certa vacilação em me contar sua história sobre Goethe, que teve de esforçar-se para compartilhar suas ideias com uma moça simples como eu. Por isso quis demonstrar-lhe que não precisava esforçar-se tanto. Compreendo-o perfeitamente. Bem, já disse o que queria e agora você vai para a cama. Ela se foi e uma velha criada subiu comigo dois lances de escada. Primeiro perguntou-me onde estava minha bagagem e quando se inteirou de que eu não trazia nenhuma, tive de Pagar-lhe o pouso adiantado. Depois levou-me por uma escavelha e escura até um quarto e me deixou só. Ali havia uma cama de madeira estreita e dura, e da parede pendiam uma espada e um cromo de Garibaldi, além de uma coroa de flores murchas de alguma festa de associação. Eu teria dado tudo por um pijama. Mas ao menos havia água e uma pequena toalha, podia lavar-me; depois meti-me vestido na cama deixei a luz acesa e tive tempo para refletir. Então acertei contas com Goethe. Fora esplêndido que me visitasse em sonhos E aquela maravilhosa jovem, se pelo menos eu lhe soubesse o nome! De repente uma pessoa, uma pessoa viva percute a campânula de cristal da minha apatia e me estende a mão, uma mão boa, bela, cálida! De repente, voltam a surgir coisas que me afetam, nas quais posso pensar com alegria, com preocupação, com interesse! De repente, uma porta que se abre e por ela entra a vida para mim! Talvez possa voltar a viver, talvez possa voltar a ser gente. Minha alma, que havia tombado adormecida no frio e quase se enregela, respira de novo e volta a bater sonolenta as pequenas asas débeis. Goethe estivera comigo. Uma jovem me animara a comer, a beber e a dormir, se mostrara amável comigo, me havia sorrido e me chamara de criança tola. E aquela maravilhosa amiga me havia falado também sobre os santos e me mostrara que até em minha prodigiosa esquisitice eu não estava só, nem era incompreendido, nem era uma enfermiça exceção, mas que tinha irmãos que me compreendiam. Voltaria a vê-la? Com certeza! Podia confiar nela: “Palavra é palavra”.
Hermann Hesse, in O lobo da estepe

30/11/2018

Um sonho com Goethe

Sonhei que estava sentado numa sala de espera já fora de moda. A princípio sabia apenas que tinha uma entrevista marcada com alguma pessoa importante. Logo percebi que era o Sr. von Goethe quem iria receber-me. Infelizmente eu não estava ali em caráter pessoal, mas como correspondente jornalístico, o que muito me desagradava e não podia compreender por que demônios me tinham metido naquela enrascada. Além disso, estava preocupado com um escorpião que aparecia de vez em quando e tentava subir-me pela perna. É certo que saberia defender-me contra o negro rastejante, mas não sabia agora onde se escondera e não me atrevia a procurá-lo. Ademais, não estava muito certo se, por engano, me haviam anunciado a Matthinson, em vez de Goethe, a quem confundi de novo em sonhos com Bürger, pois lhe atribuía os poemas de Molly. Por outra parte, eu teria apreciado muito um encontro com Molly, pois a imaginava maravilhosa, delicada, musical. Se pelo menos não estivesse ali a mando daquele maldito jornal! Meu mau humor foi aumentando, aumentando, e pouco a pouco se concentrava sobre Goethe, a quem já intentava fazer várias reprovações. A entrevista talvez não se encaminhasse a bom termo. O escorpião, apesar perigoso e escondido bem próximo de mim, talvez não fosse tão mau assim; pareceu-me que podia significar também algo amistoso pareceu-me provável que tivesse algo a ver com Molly ser uma espécie de enviado seu, ou uma fera heráldina, belo e perigoso animal da feminilidade e do pecado. Não poderia chamar-se por acaso Vúlpius? Mas neste momento um criado abriu a porta, levantei-me e entrei. Lá estava o velho Goethe, baixo e muito ereto, trazendo no jeito clássico a enorme condecoração de alguma Ordem. Dava a impressão de que ainda governava, de que estava concedendo audiências, de que ainda controlava o mundo sentado em seu museu de Weimar. Pois mal olhou para mim, com um movimento de cabeça que lembrava um velho corvo, começou a falar pomposamente:
— Com que então, vós, os jovens, não tendes grande apreço por nós e pelos nossos esforços?
— Exatamente — disse eu, gelado pelo seu frio olhar ministerial. — Nós, os jovens, não estamos muito de acordo com Vossa Excelência. Sois demasiado solene para nós, demasiado vaidoso, demasiado auto-suficiente e pouco sincero Sem dúvida, este é o ponto capital: pouco sincero.
O homenzinho lançou a severa testa para a frente e enquanto sua boca dura e enrugada se distendia num leve sorriso e se tornava encantadoramente viva, o coração bateu-me com força, pois recordei a poesia “Desceu a tarde...” e que fora daquela boca e daquele homem que haviam brotado as palavras daquela poesia. Fiquei tão desarmado e vencido naquele instante que, sem dúvida, teria preferido ajoelhar-me diante dele. Mas me mantive de pé e ouvi-o dizer com um sorriso:
— Então o senhor me acusa de insinceridade? Isso é coisa que se diga! Tenha a bondade de fazer-se mais explícito!
Eu estava contente em poder fazê-lo.
— Como todos os grandes espíritos, Exmo. Sr. Goethe, o senhor claramente reconheceu e sentiu a dúvida e a desesperança da vida humana, com seus momentos de transcendência que vão afundar-se de novo na miséria, a impossibilidade de atingir-se a altura ideal dos sentimentos senão à custa de muitos anos de escravidão à labuta cotidiana; o ardente as pirar pelo reino do espírito em eterna luta mortal com o amor à perdida inocência da natureza, igualmente ardente e sagrado; todo este temeroso oscilar no vazio e na incerteza essa condenação ao transitório, incompleto, ao eternamente empírico e diletante; em suma, toda a falta de escopo a que o ser humano está condenado... para seu desespero devorador O senhor reconheceu tudo isso e houve tempo em que também o confessou, e no entanto consagrou toda sua vida a pregar o contrário, manifestando fé e otimismo e espalhando diante de si e dos demais a ilusão de que nosso esforço espiritual tinha algum significado e continuidade. O senhor fez ouvidos surdos àqueles que sondavam as profundezas e reprimiu as vozes dos que diziam a desesperada verdade, o que se aplica a Kleist e a Beethoven. Ano após ano, o senhor viveu em Weimar a acumular conhecimentos e a colecionar objetos de arte, a escrever cartas e a coletá-las, como se tivesse em sua idade provecta encontrado o verdadeiro caminho para eternizar o instante, embora só pudesse mumificá-lo, e a tentar espiritualizar a natureza, embora só conseguisse ocultá-la sob uma bela máscara. Esta é a insinceridade que nós lhe reprovamos.
O velho conselheiro olhou-me, pensativo, nos olhos, enquanto sua boca continuava a sorrir.
Logo perguntou, enchendo-me de admiração:
— O senhor deve ter uma profunda objeção contra a Flauta Mágica de Mozart, não? E antes que eu pudesse responder, continuou:
— A Flauta Mágica apresenta-nos a vida como se fora um canto prodigioso, celebra nossos sentimentos, ainda que transitórios como são, como algo divino e eterno, não estando pois de acordo nem com o Sr. Kleist nem com o Sr. Beethoven, já que predica a fé e o otimismo. — Já sei, já sei — gritei furioso. — Deus sabe que a Flauta Mágica que o senhor menciona é o que mais venero neste mundo! Mas Mozart não chegou aos oitenta e dois anos de idade, nem teve essas pretensões de continuidade, de ordem de rígida dignidade que o senhor teve. Não se deu tanta importância! Compôs suas divinas melodias e morreu; morreu cedo, pobre e desconhecido... O hálito me faltava. Quisera dizer mil coisas em dez palavras. Minha testa começou a suar. Goethe, no entanto, disse, muito amável:
— Pode parecer imperdoável que eu tenha chegado aos oitenta e dois anos. Minha satisfação relativamente a esse fato é, entretanto, muito menor do que o senhor imagina. Tem razão quando afirma que sempre tive um grande anseio de perdurar; sempre vivi em luta contra a morte, temendo-a sempre. Creio que a luta contra a morte, a obstinação absoluta de querer continuar vivo, seja a força motivadora que jaz sobre as vidas e atividades de todos os homens representativos. Com meus oitenta e dois anos, meu jovem amigo, consegui provar apenas que o homem tem de morrer afinal, da mesma forma como teria morrido quando era um escolar. Se acaso servir de justificativa, queria dizer também que havia muito de infantilidade em minha natureza de curioso e muito desejo de matar o tempo em brincadeiras. E custei muito a dar-me conta de que o jogo haveria de acabar, afinal.
Ao dizer isso, sorria com muita sutileza, quase pilheriando. Sua figura tornara-se maior, desaparecera a rígida postura e a forçada dignidade de sua face. O ambiente que nos rodeava estava agora cheio de sonoras melodias, e harmoniosos lieder de Goethe; ouvi distintamente a Veilchen (Violetas), de Mozart e a Füllest wieder Busch und Tal (De Novo Enches o Bosque e o Vale), de Schubert. O rosto de Goethe estava agora cotado e jovem e sorria; parecia-se agora com Mozart, logo com Schubert, ou como se fora um seu irmão, e a roseta que havia em seu peito estava composta inteiramente de flores silvestres, com uma primavera amarela abrindo-se alegre e louçã no meio delas.
Não me agradou de todo que o ancião estivesse fugindo as minhas perguntas e reprovações daquela maneira tão irônica, e olhei para ele com olhar de censura. A isso, inclinou-se e aproximando de mim a boca que se havia tornado inteiramente infantil, sussurrou ao meu ouvido:
— Meu amigo, levas o velho Goethe muito a sério. Não se devem tomar as pessoas idosas que já estão mortas demasiadamente a sério, pois seria cometer uma injustiça contra elas. Nós, os imortais, não gostamos de coisas que devem ser levadas a sério, preferimos gracejar. A seriedade, meu jovem é uma consequência do tempo; consiste, permito-me confiar-lhe, numa superestimação do tempo. Eu também, em minha época, dei valor demais ao tempo, por isso queria viver cem anos. Mas, na eternidade, como vês, não há tempo; a eternidade não é mais que um momento, cuja duração não vai além de um gracejo.
E, em verdade, já não se podia continuar falando a sério com o homem: dava pulos de contentamento, ágil e flexível, e logo deixou a primavera saltar de sua condecoração como se fosse um foguete para, em seguida, fazê-la encolher-se e desaparecer. Enquanto se exibia de um lado para outro com seus passos de dança e suas visagens, tive de admitir pelo menos que aquele homem não se havia esquecido de aprender a dançar. Fazia-o maravilhosamente. Então lembrei-me do escorpião, ou antes de Molly, e perguntei a Goethe:
— Diga-me: Molly está aí?
Goethe riu sonoramente. Caminhou para a escrivaninha e abriu uma gaveta; tirou de dentro uma caixa de couro ou de veludo, abriu-a e colocou-a diante dos meus olhos. Dentro havia uma diminuta perna de mulher, perfeita e brilhante, repousando sobre o escuro fundo da caixa, uma perna encantadora, um pouco inclinada no joelho, estirando o pé para baixo e com os delicados dedos em ponta. Estendi a mão e quis apanhar a pequenina perna, que tanto me havia encantado, mas quando quis tomá-la entre os dedos me pareceu que o brinquedinho se movia com imperceptível movimento, e de súbito assaltou-me a suspeita de que podia ser o escorpião. Goethe pareceu compreendê-lo; parecia mesmo que o tivesse feito de propósito, com o fito de provocar aquela febril dissensão entre o desejo e o temor. Estendeu o provocante escorpião muito próximo do meu rosto, me viu desejá-lo, me viu retroceder horrorizado, e isto parecia causar-lhe grande prazer. Enquanto me provocava com o objeto encantador e perigoso, voltara a tornar-se novamente velho, convertera-se num ancião de mil anos, com os cabelos brancos como a neve; e o rosto enrugado de ancião sorria sereno e silencioso, um riso que lhe comovia as entranhas com o insondável humorismo dos velhos.
Quando despertei, havia esquecido o sonho, do qual só me recordei mais tarde. Dormira mais de uma hora, em meio à música e à algazarra, na mesa de um salão, como jamais julgara possível.
Hermann Hesse, in O Lobo da Estepe

18/10/2018

Um sonho claro e belo

— Veja só — comecei a dizer. — Na verdade, não foi nada de grave. Fui convidado a jantar em casa de um professor (devo dizer-lhe que eu não sou professor), mas na verdade não devia ter ido; não estou acostumado a sentar-me entre as pessoas e conversar, já esqueci. Entrei na casa com a sensação de que algo não ia bem; e quando pendurei o chapéu no cabide, veio-me logo a ideia de que breve iria precisar dele. Pois bem, havia na casa desse professor uma gravura, uma gravura estúpida, que muito me aborreceu...
— Que gravura? Por que se aborreceu? — perguntou interrompendo-me.
— Bem, era um quadro que representava Goethe, sabe, o poeta Goethe. Mas não estava ali representado como o foi de fato. A rigor não se sabe muito bem como foi na realidade, pois há mais de cem anos que morreu. Mas algum pintor moderno pintou-o tão alambicado e penteadinho conforme imaginação, que o retrato me irritou e achei-o odioso. Não sei se me compreende.
— Estou compreendendo perfeitamente, não se preocupe. Adiante!
— Já antes disso eu não estava lá muito de acordo com o professor. Como quase todos os professores, ele é um grande patriota e durante a guerra ajudou decididamente a enganar o povo, com as melhores intenções, é claro. Eu, ao contrário, sou inimigo da guerra. Mas, deixemos isso de lado. Continuando a história, não havia a menor necessidade de estar olhando para o retrato...
— Claro que não.
— Mas, em primeiro lugar, causou-me pena por causa de Goethe, a quem tenho na mais alta das considerações, e, além disso, porque pensei: "Bem, estou aqui sentado entre pessoas que me parecem iguais a mim e que devem amar Goethe tanto quanto eu e devem ter dele uma imagem igual àquela que tenho em meu espírito; e, no entanto, ali está aquele retrato sensaborão, falso e meloso, e o acham admirável e não têm a menor ideia de que o espírito desse retrato é exatamente o contrário do espírito de Goethe. Acham o quadro maravilhoso, da mesma forma como acham maravilhoso quase tudo quanto eu também estimo; mas a essa altura eu já perdera de vez toda a confiança, amizade e sentimento de afinidade que podia depositar nessas amáveis pessoas. Além do mais, a minha amizade por eles não era lá grande coisa. De modo que fiquei indignado e triste e compreendi que estava completamente só e que ninguém me compreendia. Sabe o que quero dizer?
— Perfeitamente, Harry. E depois? Você quebrou o quadro na cabeça deles?
Não, mas cheguei quase a insultar o professor e me despachei dali, correndo. Queria ir para casa, mas...
— Mas lá não encontraria nenhuma mamãe que consolasse o nenenzinho ou que ralhasse com ele, não é? Sim, Harry, você chega a me dar pena. Nunca vi ninguém criança quanto você!
Também me parecia, tive de concordar. Deu-me um copo de vinho para beber. Estava comportando-se comigo como se fosse uma babá. Não obstante eu ia aos poucos percebendo o quanto era jovem e bonita.
— Acontece que — voltou ela a dizer — há mais de cem anos Goethe está morto e Harry o admira tanto que faz dele uma ideia maravilhosa, de como teria sido e nisto está no seu direito, não é mesmo? Mas o pintor, que também admita Goethe e dele tem a sua ideia, esse está errado e bem assim o professor, já que isso não agrada a Harry e o põe desesperado a ponto de insultar as pessoas e sair correndo! Se fosse uma pessoa normal, teria simplesmente rido do pintor e do professor. Se fosse louco, teria atirado com o retrato na cabeça deles. Mas como não passa de um garotinho, só sabe correr para casa e pensar em matar-se. Olha, compreendi muito bem a sua história, Harry. É muito engraçada. Me faz rir. Espere aí, nada de beber de um só trago! O borgonha se bebe aos pouquinhos, senão dá muito calor. Puxa! a gente tem de ensinai tudo a você!
Seu olhar era severo e admoestador como o de uma governanta sessentona.
— Oh, por favor, senhorita — supliquei, contente.
— Ensine-me tudo!
— Que você quer mais que lhe ensine?
— Tudo o que a senhorita houver por bem.
— Olhe, vou lhe dizer uma coisa. Há coisa de uma hora que o estou chamando com toda a intimidade de você e você ainda me vem com esse negócio de senhorita. Cheio de frases rebuscadas, sempre complicando as coisas. Quando uma pessoa trata a gente com intimidade e isso não nos desagrada, devemos tratá-la com intimidade também. Bem, já lhe ensinei uma coisa. Depois, em segundo lugar, há meia hora se que se chama Harry. Sei porque lhe perguntei. Mas você nem sequer se interessou em saber o meu nome.
— Oh, por favor, me interesso sim; quero saber como se...
— Agora é tarde! Se nos encontrarmos de novo, pode então me perguntar Hoje é que não digo. E agora vou dançar. E como fizesse menção de levantar-se, meu ânimo aba se e a angústia tomou conta de mim, pois se ela se fosse e deixasse só, tudo iria começar de novo. Como uma dor de dente que passa por um instante e depois volta a abrasar como fogo, assim reapareceram em mim a angústia e o horror. Oh, Deus, tinha conseguido esquecer, então, o que estava à minha espera? Podia esperar outra coisa?
— Espere! — exclamei suplicante — não se vá! Você pode dançar o quanto quiser, mas volte depois para cá. Volte de novo, volte!
Levantou-se, sorrindo. Imaginava-a mais alta; era esguia, mas não muita alta. Voltou de novo a lembrar-me alguém. Quem seria? Não conseguia atinar.
— Volta? Promete?
— Prometo, mas isso pode durar um instante ou uma hora talvez. Quero dizer-lhe mais uma coisa: feche os olhos e descanse um pouco. É disso que você está precisando. Afastei-me para que ela passasse e a saia roçou-me os joelhos. Ao sair, olhou-se num pequenino espelho de bolsa, ergueu as sobrancelhas e passou a esponja pelo queixo; depois desapareceu no salão de baile. Olhei em meu redor: caras estranhas, homens fumando, cerveja derramada sobre o mármore das mesas, vozerio e algazarra por toda a parte e música de dança em meus ouvidos. Eu devia dormir, me dissera ela. Ah, boa menina, se você soubesse que o meu sono é tão arisco quanto uma doninha! Dormir em meio a este tumulto, sentado a uma mesa, entre o brindar dos copos de cerveja!... Sorvi um pouco do vinho, tirei um cigarro do bolso, procurei o fósforo, mas como na realidade não tivesse nenhum desejo de fumar, pus o cigarro diante de mim sobre a mesa. “Feche os olhos!” — me dissera ela. Sabe Deus por a moça tinha aquela voz, uma voz tão bondosa, maternal. Fazia bem obedecer-lhe, isso eu já havia descoberto antes. Fechei os olhos obediente, apoiei a cabeça na parede, ouvi o ruído de mil vozes que vinham chocar-se contra achei graça na ideia de dormir naquele lugar, resolvi aproximar-me da porta do salão de baile e dar uma olhada para dentro — queria ver a minha formosa companheira dançando — fiz um movimento para levantar-me e logo me dei conta de como estava exausto em razão de haver caminhado horas e horas e por isso permaneci sentado. E logo adormeci, como me fora ordenado pela voz maternal; dormi ansioso e agradecido, e sonhei, um sonho claro e belo, como há muito não me era dado sonhar.
Hermann Hesse, in O lobo da estepe

22/08/2018

Difícil de explicar

— Vamos com calma — disse — muita calma! Então você não sabe dançar? Dança nenhuma? Nem mesmo o one step. E não obstante andou aí dizendo que teve de lutar na vida!
Esta é uma mentira da grossa, seu moço, e não fica bem fazer isso na sua idade. Como pode dizer que a vida lhe deu muito trabalho se você nem sequer sabe dançar?
— É que nunca aprendi. Não pude. Ela sorriu.
— Mas aprendeu a escrever e a ler, não é verdade? E a somar, aprendeu latim e francês possivelmente e muitas outras coisas semelhantes? Aposto que passou uns dez ou doze anos na escola e estudou nela o possível, e talvez tenha ate um título de doutor e conhece o chinês ou o espanhol. Ou não? Muito bem. Mas a verdade é que nunca dedicou um pouco de tempo nem dinheiro para aprender a dançar, hein?
— Foram meus pais — justifiquei-me. — Fizeram-me aprender o latim e o grego e todas essas coisas. Mas não me ensinaram a dançar, não era uso entre nós; eles próprios não sabiam dançar. Olhou-me friamente, com muito desprezo, e em seu rosto voltou a brilhar algo que me recordou a infância.
— Agora põe a culpa nos pais! Será que perguntou a eles também se podia vir hoje ao Águia Negra? Perguntou? Está me dizendo que morreram há muito tempo? Ah! Talvez você não tenha aprendido a dançar em sua juventude por ser uma criança obediente. Embora eu não creia que você tenha sido uma criança modelo. Mas, e depois, que foi que você fez durante tantos anos?
— Ah! — confessei — nem eu mesmo sei. Estudei, aprendi música, li, escrevi livros, viajei...
— Engraçada a ideia que você tem da vida! Sempre metido em coisas difíceis e complicadas, e não aprendeu as fáceis? Não teve tempo para isso? Tinha outras coisas para fazer. Bem, graças a Deus, não sou sua mãe. Mas agir assim, como se você já tivesse experimentado toda a vida e nela não encontrasse nada de interessante, isso não; isso não pode ser.
— Não ralhe comigo! — supliquei. —Já sei que estou louco.
— Espere aí, não me venha com esta história. O senhor não está louco, professor; até me parece que de louco não tem nada. É apenas racional de uma maneira estúpida, eis o que acho; exatamente como um professor. Vamos, coma outro sanduíche! Depois você me conta. Pediu para mim outro sanduíche, deitou nele um pouco de sal, untou-o com mostarda, cortou um pedaço para si e me animou a que comesse a outra metade. Comi. Teria feito tudo o que me pedisse; tudo, menos dançar. Fazia-me muito em estar-lhe obedecendo, sentar-me junto a alguém que pergunta, que ordena, que nos desnuda. Se o professor e sua senhora tivessem feito o mesmo comigo algumas horas antes, ter-me-iam evitado muitas coisas. Mas, não, assim fora melhor; do contrário teria perdido muito mais!
— E como é que você se chama? — perguntou de repente.
— Harry.
— Harry? Que nome mais infantil! E continua sendo uma criança, Harry, apesar das manchas grisalhas do cabelo. É uma criança e precisa de alguém que vele um pouco por você. Não vou falar mais nada sobre a dança. Mas como você está mal penteado! não tem nem mulher, nem amante?
— Não tenho mulher, estamos separados. Tenho uma amante, mas não mora aqui. Só a vejo de quando em quando, não nos entendemos muito bem.
Ela resmungou.
— Você me parece uma pessoa muito difícil, pois ninguém pára ao seu lado. Mas que lhe aconteceu hoje de especial para fazê-lo correr assim tão desesperado? Brigou com alguém? Perdeu no jogo?
Aquilo era difícil de explicar.
Hermann Hesse, in O Lobo da Estepe

17/06/2018

O fantasma que tanto temia

Comecei a ver cada vez mais se aproximando, cada vez mais claramente, o fantasma que tanto temia. A volta a casa, o voltar a encerrar-me no quarto, o ter de permanecer quieto diante do desespero! Não podia escapar a isso ainda que continuasse caminhando horas e horas: o regresso à minha porta, à minha mesa cheia de livros, ao divã com o reto de minha amada pendurado em cima; não podia escapar ao instante em que tomaria a navalha e teria de cortar o pescoço. Esta imagem fazia-se cada vez mais clara diante de mim e cada vez mais precisa; sentindo o coração bater-me fortemente, provava a angústia maior de todas as angústias; o medo à morte! Sim, tinha um pavoroso horror à morte. Embora não vislumbrasse outra saída, embora o tédio, a dor e o desespero me tivessem sitiado, embora já nada me atraísse nem pudesse causar-me alegria ou dar-me esperanças, horrorizava-me indizivelmente a execução, o último instante, a fria ferida aberta na própria carne! Não enxergava nenhum caminho por onde pudesse escapar daquilo que tanto temia. Se na luta contra o desespero e a covardia esta última vencesse também hoje por acaso, amanhã e todos os dias seguintes estaria diante de mim o desespero, aumentado pelo desprezo de mim mesmo. Tantas vezes apanharia a lâmina para tornar a afastá-la, que uma vez decerto chegaria ao fim. Então era melhor fazê-lo logo, hoje! Falava comigo mesmo como se falasse com uma criança assustada, mas a criança não me ouvia, fugia dali, queria viver. Continuei minha caminhada inconstante pela cidade, fiz amplos círculos em torno de minha casa, com a ideia do regresso em mente, mas sempre procrastinando. Parava aqui e ali nas tabernas, enquanto esvaziava um copo ou dois; logo voltava a caminhar, em amplos círculos em torno da meta, em torno da navalha, em torno da morte. Às vezes, sentava-me, morto de cansaço, num banco, na borda de uma fonte, à beira da calçada; ouvia bater meu coração, limpava o suor da face, continuava meu trajeto, cheio de angústias mortais, cheio de vacilantes ânsias de viver. Desta forma, cheguei, já avançada a noite, a uma hospedaria de ura quarteirão afastado e que pouco conhecia, por trás de cujas janelas soava uma estridente música de dança. Sobre a porta li ao entrar um velho letreiro: Água Negra. Dentro havia grande animação, muita fumaça, cheiro de vinho e algazarra; no salão, mais para dentro, estavam dançando ao som de uma música ensurdecedora. Detive-me na primeira sala onde havia umas pessoas simples, na sua maioria pobremente vestidas, enquanto que na sala de baile podiam-se ver pessoas elegantes. Empurrado pelos circunstantes, acabei por sentar-me a uma mesa, junto ao balcão; uma jovem bonita e pálida estava sentada num divã junto à parede; trazia um vestido de baile com grande decote e uma flor enfiada nos cabelos. Lançou-me um olhar observador e cordial ao me aproximar e com um sorriso chegou-se para o lado a fim de ceder-me lugar.
— Com licença? — perguntei, sentando-me ao seu lado.
— À vontade — disse ela.
— Obrigado — respondi. — Não consigo ir para casa. Não quero, não quero, não posso. Quero ficar aqui, ao seu lado, se é que me permite. Não, não devo ir para casa.
Ela assentiu com a cabeça como se me compreendesse, e enquanto o fazia, observei a onda de cabelo que lhe ia da testa até atrás da orelha e descobri que a flor já murcha era uma camélia. No salão a música ressoava e diante do balcão as garçonetes transmitiam aos gritos os pedidos do público.
— Pode ficar aqui à vontade — disse, numa voz que me fez muito bem. — Por que não quer voltar para casa?
— Não posso. Tenho algo à minha espera. Não posso, não posso; é horrível.
— Pois deixa esperar à vontade e fique por aqui. Mas antes de mais nada, vamos limpar esses óculos, que assim não vai conseguir ver nada. Empreste-me o lenço. Que vamos beber? Borgonha?
Limpou meus óculos e pude então vê-la melhor: o rosto pálido e a boca vermelha cor de sangue, os claros olhos cinzentos, a testa lisa e fresca, com a onda a cair-lhe sobre a orelha. Afável c com um toque de ironia, começou a deixar-me à vontade; pediu vinho, brindou comigo e olhou para os meus pés.
— Santo Deus! de onde esta vindo? Parece ate que veio a pé de Paris. Isso não é maneira de se vir a um baile. Eu disse sim e não, sorri um pouquinho e deixei-a falar. Estava achando-a bastante encantadora, para surpresa minha, pois até então sempre olhara com desconfiança a esta classe de moças. E foi muito bondosa comigo, começou a tratar-me da maneira que melhor me convinha naquele momento. E assim foi sempre a partir daquele instante! Tratou-me com a doçura de que eu necessitava e troçou de mim exatamente da maneira que convinha. Pediu um sanduíche e ordenou-me que o comesse. Serviu-me de vinho e mandou-me bebê-lo devagar e não de um trago. Depois elogiou minha obediência
— Estou vendo que é um bom menino — disse, para animar-me. — Não é de tornar as coisas difíceis. Mas sou capaz de apostar que há muito tempo não obedece a ninguém.
— Isto mesmo. Como soube?
— Não é difícil. Obedecer é assim como comer ou beber. Quando se passa muito tempo sem fazer uma ou outra coisa, não é preciso que insistam conosco. Não é verdade? Não ficou satisfeito de fazer o que lhe disse?
— Muito contente. Como sabe de tudo?
— Você é que facilita as coisas. Sou capaz talvez de lhe dizer o que está esperando em casa e o que tanto o angustia. Mas, você sabe muito bem o que é e não precisamos falar no assunto, não é mesmo? Assunto desagradável! Ou a gente se enforca e está tudo muito bem, pois se deve ter lá suas razões para isso, ou então continua vivendo sem se preocupar senão com a vida. O negócio é este!
— Ah! — exclamei — se fosse simples assim! Deus sabe o quanto me tenho preocupado com a vida e que isto de nada me serviu. Enforcar-se deve ser uma coisa difícil, suponho. Mas viver, viver é muito mais difícil! Só Deus sabe o quanto é difícil!
— Verá como é sumamente fácil! Já começamos bem. Limpamos os óculos, você comeu, bebeu. Agora vamos escovar um pouco essas calças e sapatos e em seguida você vai dançar o shimmy comigo.
— Vai ver que eu tinha razão! — exclamei exaltado. Nada mais desagradável para mim do que deixar de satisfazer um desejo seu. Mas não posso aceder ao que me pede. Não sei dançar o shimmy, nem a valsa, nem a polca, nem como se chamam todas essas outras; nunca aprendi a dançar em toda a minha vida. Agora está vendo que a coisa não é assim tão fácil quanto diz?
A bela jovem sorriu com os lábios cor de sangue e balançou a cabeça firme e resoluta. Enquanto a olhava, pensei ver nela alguma semelhança com Rosa Kreisler, a primeira jovem de quem me enamorei quando rapaz, só que Rosa tinha os cabelos castanhos e a pele morena. Não, não me lembrava com quem se parecia aquela estranha jovem; era alguém de minha primeira juventude, talvez de minha infância.
Hermann Hesse, in O Lobo da Estepe

05/06/2018

Expressar-me da maneira mais rude

 

— É de supor — disse eu — que Goethe não fosse assim na realidade, não tivesse este vaidoso ar de nobreza, esta majestade lançando olhares amáveis para os seus admiradores, este ar varonil de quem vive num mundo de encantadores sentimentalismos! Sem dúvida, poder-se-iam dizer muitas coisas contra ele; eu próprio muito teria de recriminar sua venerável pomposidade; mas, representá-lo assim, bem! já é ir longe demais.
A dona da casa serviu o café com uma expressão de profunda reprovação no olhar e deixou a sala, e logo o marido confessou-me, um tanto encabulado, que o retrato de Goethe pertencia à esposa e era considerado por ela uma de suas mais caras relíquias.
— E mesmo que, objetivamente, o senhor tivesse razão, o que me permito duvidar, não devia ter-se expressado com tamanha franqueza.
— O senhor tem razão — admiti. — Infelizmente, é um hábito, um vício que tenho, este de sempre expressar-me da maneira mais rude, coisa que o próprio Goethe costumava fazer em seus melhores momentos. Nesta reprodução amaneirada, Goethe certamente jamais se permitiria o uso de urna expressão crua, direta e autêntica. Peço-lhe mil perdões, ao senhor e à sua senhora; diga-lhe, por favor, que sou um esquizofrênico. E agora, se me permite, está na hora de retirar-me. A isso o confuso senhor opôs algumas objeções, voltando a recordar-me quanto tinham sido belas e emotivas nossas anteriores discussões e que minhas teorias a propósito de Mithras e Krishna Ine causaram naquele tempo uma profunda impressão; achava, pois, que hoje também seria a oportunidade.. etc. Agradeci-lhe e disse-lhe que tais palavras eram muito amáveis, mas que, infelizmente, meu interesse por Krishna, assim como meu gosto pelas conversas eruditas, haviam desaparecido por completo, e que além do mais, hoje, lhe havia mentido várias vezes; por exemplo, que não estava na cidade há apenas alguns dias, mas já há muitos meses; vivia, entretanto, só para mim e não me sentia mais apto a participar de reuniões familiares, primeiro porque estava sempre de mau humor e afetado pela gota, e segundo, por estar bêbado a maioria das vezes. Finalmente, para reabilitar-me e não passar por mentiroso, tive de declarar ao ilustre senhor que ele me havia ofendido muitíssimo. Corroborara a opinião contra Haller, veiculada por um estúpido militar desocupado e cabeça dura, expedida num jornaleco reacionário. Aquele indivíduo, o apátrida Haller, era eu mesmo; e melhor para o país e o mundo que ao menos um ou dois indivíduos capazes de pensar se inclinassem pela razão e a paz, do que levar cegamente os homens a uma nova guerra. E me levantei e me despedi de Goethe e do professor, apanhei no cabide as minhas coisas e saí correndo. O malvado lobo uivava dentro de mim. Os dois Harrys se atracaram numa cena. Compreendi depois claramente que aquela noitada tão pouco edificante tinha para mim muito mais importância do que para o indignado professor; para ele fora uma decepção e um pequeno escândalo; mas para mim foi um último fracasso e deserção; minha despedida do mundo burguês, moralista, erudito; uma vitória completa do lobo da estepe. E fora uma despedida de fugitivo e vencido, uma declaração de falência ante mim mesmo, uma despedida sem consolo, sem supremacia, sem humor. Eu me havia despedido de meu mundo de então e de minha pátria, da burguesia, dos costumes, da ciência, da mesma forma que um paciente de úlcera estomacal se despede do leitão assado. Furioso, corri sob a luz dos lampiões, furioso e com uma tristeza mortal. Que dia mais desconsolador, mais vergonhoso e miserável, desde a manhã até a noite, desde o cemitério até à cena na casa do professor! Por quê? Para quê? Haveria sentido em continuar sofrendo dias e mais dias assim, em continuar tragando tais sopas? Não! E assim sendo, aquela comédia tinha de acabar hoje mesmo. Vá para casa, Harry, e corte o pescoço! Chega de esperar! Corri pelas ruas de um lado para outro, impulsionado pela miséria. Naturalmente fora uma tolice de minha parte vituperar contra os adornos de salão daquela boa gente; fora tolo e grosseiro, mas não podia fazer outra coisa, não podia resistir àquela vida mansa, falsa, judiciosa. E como tampouco pudesse aguentar, ao que parece, a solidão, como minha própria sociedade me odiasse tão indizivelmente e me tivesse horror, afogado que estava no espaço sem ar de meu inferno, que saída me restava? Nenhuma. Pensei em meu pai e minha mãe, na sagrada chama de minha juventude há tanto tempo extinta, nos milhares de alegrias e afãs de minha vida. Nada me restava de tudo aquilo, nem sequer o arrependimento, somente o tédio e a dor. Nunca me havia causado tamanha pena o simples fato de viver como naquela hora. Numa afastada taberna de subúrbio descansei por uns momentos, bebendo água e conhaque, e depois continuei a correr, acicatado pelo diabo, indo pelas abruptas e tortuosas ruelas da cidade velha, pelas avenidas, até a praça da estação. “Viajar!” — pensei. Entrei na estação, consultei a lista dos trens pregada à parede, bebi um copo de vinho e tentei recobrar o ânimo.
Hermann Hesse, in O Lobo da Estepe

29/03/2018

Livre de todas as obrigações oficiais

“E agora, que estou livre de todas as obrigações oficiais, sinto-me atraído pela ideia de usar meu tempo e bom humor para, num desses dias, escrever um livro – ou antes, um livrinho, uma coisinha para os amigos e aqueles que partilham dos meus pontos de vista. O assunto não terá a menor importância. Será apenas um pretexto para que eu me isole a fim de gozar a felicidade de ter tempo de lazer. O importante mesmo será o tom, que deverá estar entre o solene e o íntimo, entre o sério e o brinquedo, um tom que não seja de instrução, mas de conversa amigável sobre as várias coisas que aprendi...”
Hermann Hesse, in O jogo das contas de vidro

07/02/2018

Uma noite prodigiosa

A noite foi também prodigiosa. Detive-me um momento diante da casa de meu conhecido e olhei para dentro através das janelas. “Ali mora um homem” — pensei — “que leva avante seu trabalho ano após ano, que lê e comenta textos, procura interrelações entre as mitologias pré-asiáticas e indicas, e sente satisfação com isto, pois crê no valor de seu trabalho, crê na ciência, de quem é fiel servidor; acredita no valor do saber, que se deva acumular cultura, pois crê no progresso e no desenvolvimento. Não viveu a guerra nem a revolução das bases do pensamento humano feita por Einstein (‘Isso é algo que diz respeito somente aos matemáticos’ — pensa ele); não percebe em absoluto que em seu redor se está preparando a próxima guerra; considera odiosos os judeus e os comunistas; é um bom menino, irreflexivo, alegre, que se considera importante e invejável”. Assim mesmo resolvi entrar; fui recebido por uma criada de avental branco, que por algum pressentimento me fez notar com exatidão onde deixava meu chapéu e o sobretudo; introduziu-me numa sala cauda e luminosa, rogou-me que esperasse; aí, em vez de rezar uma oração ou dormitar um pouco, segui um impulso brincalhão e apanhei a primeira coisa que estava a meu alcance, era uma gravura e representava o poeta Goethe, um ancião cheio de caráter, genialmente penteado e com o rosto muito bem modelado, no qual não faltava nem o célebre fogo do olhar nem o traço de solitário com um ligeiro véu de cortesia detalhes que devem ter exigido grande trabalho ao artista Conseguira ele dar a este demoníaco ancião, sem prejuízo de sua profundidade, um ar algo acadêmico e ao mesmo tempo teatral de autodomínio e probidade, e o representara, enfim como um senhor formoso em sua ancianidade, próprio para adornar qualquer casa burguesa. Provavelmente a estampa não fosse mais estúpida que as outras dessa classe; todos aqueles nobres redentores, apóstolos, heróis, intelectuais e estadistas, confeccionados por aplicados artífices, me irritavam mais talvez pelo virtuosismo com que eram tratados. Fosse como fosse, talvez devido à minha irritabilidade habitual, aquela vã e pretensiosa representação do velho Goethe despertou em mim uma dissonância fatal e me deu a entender que não estava no lugar devido. Ali era o ambiente familiar dos grandes mestres belamente estilizados e das grandezas nacionais, e não dos lobos da estepe. Se o dono da casa se tivesse apresentado, ter-me-ia sido fácil retirar-me em seguida com aceitáveis pretextos. Mas foi a dona da casa quem entrou e me conformei com a sorte, embora estivesse prenunciando desgraça. Cumprimentamo-nos, e ao primeiro desacordo seguiram-se outros mais sonoros. A senhora elogiou minha boa aparência, embora eu estivesse mais que convencido do muito que mudara desde o nosso último encontro; já ao apertar-me os dedos gotosos, fez-me recordar minhas terríveis dores reumáticas. E logo perguntou como ia minha mulher, tendo eu lhe dito que ela me havia abandonado e que o nosso casamento estava desfeito. Estávamos alegres quando entrou o professor. Ele também me cumprimentou alegremente, e o falso e o cômico da situação chegaram logo a um belo clímax. Trazia um jornal à mão, um diário que assinava, órgão do partido militarista exaltado, e após haver-me dado a mão, apontou o jornal e disse que nele havia um artigo sobre um indivíduo que tinha o mesmo nome que eu, um tal de Haller, articulista, que devia ser um indivíduo sem pátria, pois zombara do Kaiser e afirmara que sua pátria não era menos culpada da guerra do que os países inimigos. Que espécie de indivíduo devia ser!? A redação respondera energicamente a esse tipo e o expusera à execração pública. Passamos a outro assunto quando viu que o tema não me interessava, e nem de longe ocorreu a ambos a possibilidade de aquele monstro estar sentado à sua frente, no entanto, a verdade é que estava, pois o horrível indivíduo era eu. Deixa para lá! para que perturbar e assustar as pessoas! Ri para dentro, sabendo que lá se fora a esperança de sentir algo agradável àquela noite. Recordo-me claramente do instante em que o professor começou a falar de Haller, o traidor de sua pátria. Foi aí que o horrendo sentimento de depressão e desespero, que progressivamente crescia em meu interior desde a cena do enterro, se materializou numa rude opressão, chegou ao clímax de uma angústia corporal (no ventre), despertando dentro de mim um terrível e sufocante presságio. Tive a impressão de que algo estava à minha espera, de que se aproximava um perigo. Felizmente anunciaram que o jantar estava à mesa. Passamos à sala de jantar, e enquanto me esforçava por dizer ou perguntar algo sem importância, comi mais do que de costume e me senti cada vez mais digno de lástima. Santo Deus — pensava continuamente — por que nos sacrificas tão severamente? Percebi claramente que meus anfitriões também não se sentiam à vontade e que sua cordialidade era forçada, fosse porque eu me comportasse de maneira tão lamentável, fosse em consequência talvez de algum desentendimento doméstico. Não houve uma só pergunta que me fizessem que recebesse de mim uma resposta exata; logo me vi embaraçado em minhas mentiras e tive de lutar contra o asco que cada palavra me causava. Por fim, à guisa de mudar de assunto, comecei a falar-lhes a propósito do enterro que presenciara naquela manha. Mas não consegui encontrar o tom; minhas recorrências o humor soaram vazias e cada vez mais nos afastávamos uns os outros. Em meu interior o Lobo da Estepe arreganhava os dentes com ironia; e ao chegar a sobremesa, o silêncio já havia tomado conta de nós três. Regressamos à sala de estar onde tomamos café e licor na esperança de que isso pudesse animar-nos. Mas ali, entretanto, voltou a cair-me sob a vista a figura do príncipe dos poetas, embora estivesse colocado sobre uma cômoda a um canto da sala. Sem conseguir livrar-me dele, levantei-me e apanhei-o de novo, embora ouvisse em meu interior a advertência de que estava prestes a cometer uma indelicadeza. De tal forma me senti obcecado pelo insustentável da situação que achei chegado o momento de animar meus anfitriões, arrastá-los para fora de sua comodidade e colocá-los de acordo comigo, senão, do contrário, sobreviria certamente uma explosão.
Hermann Hesse, in O Lobo da Estepe

12/11/2017

A um passo do ridículo

Os outros acontecimentos daquela noite tiveram efeito mais perdurável. Voltei a ler várias vezes o Tratado do Lobo da Estepe, já com abnegação e agradecimento como se um mago invisível estivesse dirigindo prudentemente o meu destino, já com desprezo e desdém pela insipidez do tratado que, a meu ver, não compreendia em absoluto a disposição e o transe específicos de minha vida. O que ali estava escrito sobre os lobos da estepe e os suicidas era, sem dúvida, muito bom e judicioso, caracterizava bem a espécie e o tipo, mas era uma rede de malhas muito largas para apanhar o meu ser individual, meu destino único e insubstituível. Todavia, o que mais me ocupava o pensamento era aquela alucinação ou visão do muro da igreja, a advertência cheia de promessas daquelas letras luminosas, que concordavam com o significado do tratado. Muito me estava prometido ali, as vozes daquele estranho mundo acicatavam-me a curiosidade; nelas pensei profundamente durante longas horas. E a advertência daquela inscrição me falava cada vez mais claramente: “Só para os raros!” “Só para loucos!'” Louco eu devia ser e sem dúvida era um dos “raros”, senão aquela voz não me teria alcançado, senão aquele mundo não me teria o que dizer. Meu Deus, não estava, há bastante tempo, afastado da vida comum, da existência e do pensamento dos normais, não estava, há muito, mais do que suficientemente solitário e louco? E, no entanto, compreendi muito bem no íntimo do meu ser o chamado, o convite à loucura, o alijamento da razão, a escapada aos estorvos da convenção para entregar-me a um mundo flutuante e anárquico, da alma e da fantasia. Uma tarde, após percorrer em vão as ruas e praças em busca do homem do cartaz e após haver passado e tornado a passar diante do muro da porta invisível, acabei dando com um cortejo fúnebre em São Martim. Enquanto examinava a face dos que acompanhavam o carro fúnebre, fiquei pensando: Em que parte da cidade, em que parte do mundo vive o homem cuja morte significará uma perda para mim? E onde estará o homem para quem minha morte há de significar algo? Havia Erika, é verdade, mas há muito que vivíamos separados; raramente nos víamos sem que brigássemos, e por ora nem sequer sabia de seu paradeiro. Vinha às vezes ver-me ou ia ao seu encontro, e embora ambos fôssemos pessoas solitárias e difíceis, aparentadas na alma e nas suas enfermidades, havia entre nós certos laços que persistiam apesar de tudo. Mas, não haveria de respirar fundo e sentir-se um tanto aliviada, ao ter conhecimento de minha morte? Não sabia. Também nada sabia sobre a autenticidade de meus próprios sentimentos. É preciso que se viva no normal e no possível para que saiba algo destas coisas. Enquanto isso, seguindo meu capricho, juntei-me ao cortejo fúnebre e caminhei ao lado dos acompanhantes até o cemitério, uma necrópole moderna, de cimento, dotada de cernatório e de todos os requisitos imagináveis. Nosso defunto, entretanto, não foi cremado. Descarregaram o caixão junto a uma simples cova aberta no solo, e vi o padre e os outros abutres da morte mais os agentes funerários executarem suas funções, procurando revesti-las de alta solenidade e de tristeza; sua teatralidade, confusão e fingimento eram tais que ficavam a um passo do ridículo. Vi como suas vestes negras caíam-lhes flutuantes dos ombros e como se esforçavam por imitar a tristeza dos parentes e em dobrar o joelho diante da majestade da morte. Tal afã era inútil, pois ninguém chorava, o morto não parecia insubstituível para quem quer que fosse. Ninguém parecia disposto a piedosas reflexões, e quando o padre se dirigiu à comitiva chamando a todos de “meus irmãos em Cristo”, silenciosos e mercantis aqueles negociantes e quitandeiros acompanhados de suas mulheres baixaram os olhos com muita seriedade, embaraçados e perplexos, movidos apenas pelo desejo de que tudo aquilo acabasse o quanto antes. Quando parecia ter chegado o fim, os dois irmãos em Cristo que estavam na frente apertaram a mão do orador e limparam os sapatos numa moita tirando-lhes o barro úmido em que fora sepultado o morto; logo os rostos voltaram a ficar imediatamente naturais e humanos e um deles me pareceu de repente conhecido; era, segundo imaginei, o homem que naquele dia carregava o cartaz, o mesmo que me entregou aquele pequeno livro. Naquele instante, como me parecesse havê-lo reconhecido, o homem se voltou, agachou-se, deteve-se a baixar a bainha das calças de fazenda negra, que trazia arregaçadas sobre os sapatos, e afastou-se às pressas dali, com um guarda-chuva pendurado ao braço. Saí atrás dele, alcancei-o, cumprimentei-o com a cabeça, mas ele pareceu não me reconhecer.
Hermann Hesse, in O Lobo da Estepe

04/09/2017

A vida me sabia horrivelmente amarga

— Hoje tem espetáculo? — perguntei, tentando piscar um olho à maneira daqueles que compartilham um segredo. Mas semelhante linguagem mímica havia deixado de ser natural para mim, pois, vivendo como vivia, quase perdera o hábito de falar e senti que toda a minha tentativa de fazer um sinal acabara não passando de uma estúpida careta.
— Espetáculo? — grunhiu o homem, olhando-me como se jamais me tivesse deitado os olhos. — O senhor que vá ao Águia Negra, se é o que deseja.
Na verdade eu não estava seguro se aquele era ou não o homem do cartaz. Decepcionado, continuei a caminhar, sem saber aonde ia, sem metas, sem preocupações ou deveres. A vida me sabia horrivelmente amarga. O asco que morava em mim estava atingindo o seu mais alto nível, sentia que a vida me empurrava e me arrastava para fora. Furioso corri pela cidade em brumas, tudo me parecendo cheirar a terra e a fossa. Não! em meu enterro não haveria nenhum daqueles pássaros da morte, com suas sotainas e seus murmúrios piedosos! Ah! para qualquer sítio que olhasse, para qualquer parte que dirigisse o pensamento, em lugar algum me esperava uma alegria, em nenhuma parte havia um chamado para mim, nem sentia qualquer atrativo, tudo cheirava a decomposição e a apodrecido conformismo, tudo era velho, murcho, triste, balofo e esgotado. Meu Deus! como era possível tal coisa? Que havia sido de mim, que tivera as asas da juventude e da poesia, o amigo das musas, o viajante do mundo, o ardente idealista? Como me sobreviera uma paralisia tão lenta e furtiva, esse ódio contra mim mesmo e contra todos, essa obstrução de todo sentimento, essa profunda e perniciosa indolência, esse imundo inferno de saciedade e coração vazio?
Ao passar pela biblioteca, encontrei-me com um jovem professor, com quem havia conversado algumas vezes e a quem fora procurar em sua casa quando da última vez em que estive aqui, faz alguns anos, para conversarmos sobre mitologia oriental — um tema que então me interessava muito. 0 estudioso vinha em minha direção, andando com ar empertigado e aparência de quem sofre da vista, e só me reconheceu no momento exato em que eu já me dispunha a pasmar ao largo. Precipitou-se sobre mim com muita cordialidade, e eu, em meu lamentável estado de espírito, quase me senti agradecido por tal cordialidade. Estava contente em ver-me e animou-se ainda mais recordando-me algumas particularidades de nossas conversações anteriores, assegurando-me que muito devia aos meus estímulos e que pensava freqüentemente em mim; desde aquela época não voltara a conversar com nenhum colega de maneira tão emotiva e proveitosa. Perguntou-me desde quando estava na cidade (menti: uns poucos dias apenas) e por que ainda não fora visitá-lo. Olhei para a cara do homem, achei a cena um tanto ridícula, mas lambi como um cão faminto aquelas migalhas de simpatia, aquelas sobras de calor humano, aquele bocado de reconhecimento. Harry, o Lobo da Estepe, sorriu comovido, a baba veio-lhe às fauces secas e, contra sua vontade, deixou-se entregar ao sentimentalismo. Sim, tornei a mentir: estava aqui apenas de passagem, por motivos de estudos, e não me sentia muito bem disposto, senão já teria ido visitá-lo, é claro. E quando me convidou amavelmente para passar a tarde em sua casa, aceitei agradecido, e pedi-lhe que transmitisse minhas recomendações à sua senhora, enquanto as faces me doíam de tanto esforço, pois não estavam acostumadas àquele fastidioso exercício. E durante o tempo em que eu, Harry Haller, estive em meio à rua surpreso e envaidecido, estudadamente polido e sorridente, diante do rosto míope e bondoso do colega professor, o outro Harry ficou ao lado, rindo-se ironicamente e pensando no irmão tão singular, tão desnaturalizado, tão mentiroso que tinha, pois não fazia dois minutos havia arreganhado os dentes contra o mundo maldito e agora, à primeira chamada, ao primeiro saudar ingênuo de um honrado homem de bem se sentia comovido e extremamente condescendente, e se refestelava todo como um leitãozinho diante de um pouco de afeto, de consideração e de amizade. Assim estavam os dois Harrys, as duas figuras extraordinariamente antipáticas, diante do professor, insultando-se, observando-se e cuspindo-se mutuamente, e ao mesmo tempo fazendo a si mesmas, como sempre que se achavam nessa situação, a mesma pergunta: se aquilo não passava de debilidade e estupidez humana, vulgar falta de hombridade, ou se aquele sentimental egoísmo, aquela falta de caráter aquele desmazelo e discussão dos sentimentos era simplesmente uma peculiaridade dos lobos da estepe. Se tal sordidez fosse comum aos humanos, então podia entregar-me ao desprezo pelo mundo com renovadas energias, mas se fosse apenas uma debilidade pessoal, então ali estava o motivo para uma orgia de autodesprezo. Com a disputa entre os dois Harrys, o professor foi quase esquecido; de repente voltou a parecer-me aborrecido e me apressei em despachá-lo. Vi-o afastando-se pela avenida deserta, com o passo humilde e algo cômico de um idealista, de um crente. Alvoroçava-se a batalha em meu interior, e enquanto eu contraía e distendia mecanicamente os dedos intumescidos, em luta contra a gota, tive de confessar a mim mesmo que me havia deixado apanhar, que aceitara um convite para jantar às sete e meia da noite, com a obrigação de fazer cortesias, de conversar assuntos científicos e de contemplar a felicidade de uma família estranha. Voltei furioso para casa, misturei conhaque com água, engoli minhas pílulas para a gota, estendi-me no divã e tentei ler. Quando consegui entregar-me um instante à leitura da Viagem de Sofia, de Memel à Saxônia, um folhetim encantador do século XVIII, recordei-me de repente do convite e de que não estava barbeado nem vestido. Sabe Deus por que motivo havia concordado em aceitar o convite! Assim sendo, Harry, levanta-te, deixa o livro de lado, ensaboa a cara, raspa a barba até sair sangue, veste a roupa e entrega-te ao convívio dos homens! E enquanto me barbeava, pensei no imundo buraco de lama do cemitério, no qual haviam baixado o desconhecido, e nos rostos avinagrados dos contrafeitos irmãos de Cristo, mas não consegui rir-me disto nem uma só vez. Ali terminava, segundo me parecia, naquele imundo buraco de lama, em meio às tolas palavras do pregador e os estúpidos gestos dos acompanhantes, no espetáculo desconsolador de todas aquelas cruzes de lápides de metal e mármore, junto àquelas flores artificiais de olha e vidro — ali terminava não só o desconhecido, ali acabaria enterrado amanhã ou depois não só eu, diante da perplexidade e da hipocrisia dos acompanhantes, mas ainda tudo o mais, todo o nosso anseio, toda a nossa cultura, toda a nossa fé. toda nossa alegria de viver e nosso gosto de existir! Nosso mundo cultural era um cemitério, ali estavam Jesus Cristo e Sócrates, ali estavam Mozart e Haydn, Dante e Goethe; não passavam de nomes meio apagados numa placa de metal enferrujada, rodeada de assistentes falsos e hipócritas, que dariam tudo para continuar acreditando nas placas de metal, em outros tempos sagradas para eles; que dariam tudo para dizer ao menos umas honestas e sérias palavras de tristeza e desesperança sobre o mundo desaparecido, mas só sabiam em vez disso rodear o túmulo, gesticulantes e forçados. Acabei cortando o queixo no lugar de costume; gastei uns minutos para estancar o sangue, e tive de trocar o colarinho, sem saber por que fazia tudo aquilo, pois não sentia o menor prazer em atender àquele convite. Mas uma parte de Harry estava representando de novo uma comédia, dizendo que o professor era uma pessoa simpática; suspirava por um pouco de aroma de humanidade, de sociedade e de palestra; lembrou-se da bela mulher do professor, achou no fundo muito alentadora a idéia de passar a noite na casa daqueles amáveis anfitriões, e me ajudou a pregar no queixo um pedacinho de esparadrapo; ajudou-me a vestir e dar o nó à gravata decente, e me impediu com jeito de seguir meu verdadeiro impulso de permanecer em casa. Ao mesmo tempo, pensava comigo: "Assim como agora me visto e saio, vou visitar o professor e troco com ele algumas frases amáveis, mais ou menos falsas, tudo isto contra a minha vontade, assim procede a maioria dos homens que vivem e negociam todos os dias, todas as horas, forçadamente e sem na realidade querê-lo; fazem visitas, mantêm conversações, sentam-se durante horas inteiras em seus escritórios e fábricas, tudo à força, mecanicamente, sem vontade; tudo poderia ser realizado com a mesma perfeição por máquinas ou não se realizar; e essa mecânica eternamente continuada é o que lhes impede, assim como a mim, de exercer a crítica de sua própria vida, reconhecer e sentir sua estupidez e superficialidade, sua desesperada tristeza e solidão. E têm razão, muitíssima razão, os homens que assim vivem, que se divertem com seus brinquedinhos, que correm atrás de seus assuntos, em vez de se oporem à mecânica aflitiva e olharem desesperados o vazio, como faço eu, homem marginalizado que sou. Se às vezes desprezo e até me burlo dos homens nestas páginas, não será por isto que os culpe de minha indigência pessoal! Mas eu, que cheguei tão longe e estou à margem da vida, de onde se tomba à escuridão sem fundo, cometo uma injustiça e minto, se pretendo enganar-me e enganar os outros, como se funcionasse também para mim aquela mecânica, como se continuasse a pertencer àquele mundo nobre e infantil do eterno jogo!
Hermann Hesse, in O Lobo da Estepe