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19/06/2025

De onde e como se originam os sonhos

Quando o fogo exterior se retira pela noite, o fogo interior se encontra separado dele; então, se sai dos olhos, cai sobre um elemento diferente, se modifica e extingue, uma vez que deixa de ter uma natureza comum com o ar que o rodeia, que já não tem fogo. Deixa de ver, e conduz ao sono. Esses aparatos protetores da visão dispostos pelos deuses, as pálpebras, quando se fecham freiam a força do fogo interior. Este, por sua vez, acalma e aquieta os movimentos internos. E assim que estes se tenham apaziguado, sobrevém o sonho; e se o repouso é completo, um sono quase sem sonhos se abate sobre nós. Por outro lado, quando subsistem em nós movimentos mais acentuados, de acordo com sua natureza e segundo o lugar em que se encontrem, dele resultam imagens de diversos tipos, mais ou menos intensas, semelhantes a objetos interiores ou exteriores, e das quais conservamos alguma lembrança ao despertar.

Platão, Timeo, XLV, em Livro dos Sonhos, de Jorge Luís Borges

23/06/2024

O Mito da Caverna | Introdução


O Mito da Caverna é um dos textos filosóficos mais lidos de todos os tempos, extraído do clássico de Platão A República, e narra um diálogo entre o irmão de Platão, Glauco, e Sócrates, seu mentor, tratando-se de um permanente convite à reflexão.
O Mito da Caverna é uma poderosa metáfora que explora a natureza do conhecimento, da realidade e da jornada filosófica em direção à iluminação. É uma das passagens mais conhecidas e influentes da história da filosofia. No Mito da Caverna, Platão descreve um grupo de prisioneiros acorrentados em uma caverna desde o nascimento, com seus rostos voltados para a parede do fundo. Eles nunca viram o mundo exterior e acreditam que as sombras projetadas na parede pelas figuras que passam são a única realidade.
Na Caverna de Platão, os prisioneiros são dispostos em fila em uma caverna escura desde a infância. Eles estão acorrentados de forma que não podem mover seus corpos, e suas cabeças também estão presas de forma que só podem olhar para frente, em direção a uma parede. Eles podem ouvir e falar, mas não podem ver uns aos outros, nem a si mesmos. Atrás deles há uma fogueira. A luz do fogo mostra as sombras dos prisioneiros na parede. Entre os prisioneiros e a fogueira, há pessoas e animais encenando uma peça realista que também projeta sombras na parede. Os prisioneiros veem apenas as sombras, mas ouvem todos os sons. Naturalmente, eles acham que o mundo é composto de sombras na parede e que eles próprios são sombras na parede. As sombras conversam entre si e interagem, e tudo faz sentido para os prisioneiros, que pensam que todas as sombras na parede são como eles próprios. Os prisioneiros até se conhecem por meio das sombras que veem e das vozes que ouvem, e ganham status por sua capacidade de reconhecer outras sombras e prever o que elas farão.
Agora, imagine que um dos prisioneiros seja libertado. Seus grilhões caem no chão e ele pode virar a cabeça. Ele vê os outros prisioneiros sentados em uma fileira acorrentados ao chão e fica horrorizado. Ele também vê os atores e os animais entre os prisioneiros e o fogo. Ele vê a abertura da caverna e se aventura a sair. Ele fica cego com a luz, mas finalmente vê o quadro geral: Durante toda a sua vida, ele esteve sentado em uma caverna, acorrentado ao chão, acreditando que a parede era tudo. Agora ele percebia que a cena na parede é guiada principalmente por alguns atores, com os prisioneiros fazendo comentários. Agora ele vê as oportunidades no mundo real.
Ele se sente no dever de voltar e informar os prisioneiros sobre a situação e tentar libertá-los. Primeiro, ele tenta explicar a existência dos mestres de marionetes aos prisioneiros, mas é improvável que os mestres corroborem sua história, pois eles obtêm muitos benefícios pessoais com o modo atual do mundo. Em seguida, ele tenta explicar como o sistema é organizado com os prisioneiros e a caverna. Tragicamente, ele descobre que os prisioneiros são mais resistentes do que ele esperava. A maioria não acredita nele – e por que deveriam acreditar? Tendo se adaptado à luz externa, ele não consegue ver as sombras tão claramente quanto eles. “Que idiota.” Tirar as correntes exige muito esforço, então a maioria deles permanece sentada. Essas são pessoas que são muito boas e bem-sucedidas em identificar, nomear e lidar com as sombras e, por isso, talvez não queiram sair. Há também aqueles que sentem a necessidade de sair. Sair não é fácil; requer muito aprendizado e uma reorientação dos valores de uma pessoa, que deixa de considerar o sucesso como a identificação de sombras e passa a considerar o sucesso como a movimentação no mundo real. Na vida real, os prisioneiros da Caverna de Platão são aqueles que são prisioneiros ou escravos de seus salários e de sua cultura.
Os espectadores de filmes modernos irão perceber a mesma premissa no filme “The Matrix”, que retrata ideia semelhante. Outra analogia moderna seriam pessoas que creem na mídia e tomam aquilo que veem na TV ou leem nos jornais como a verdade e não como sombras projetadas. Aquele que se rebela contra esse engano e tenta avisar o próximo também é agredido, chamado de negacionista ou conspiracionista.
O mito da caverna simboliza a jornada do homem em busca da verdade e do conhecimento. Os prisioneiros representam a condição humana de ignorância e ilusão, presos em uma realidade superficial e enganosa. O prisioneiro que é libertado e se eleva acima da caverna representa o sábio/filósofo que busca a verdade além das aparências e das convenções sociais.
Essa alegoria destaca a importância do questionamento, da reflexão crítica e da busca por conhecimento para alcançar uma compreensão mais profunda da realidade. Ela nos convida a questionar nossas percepções e crenças, e a nos libertarmos das limitações impostas pela sociedade e pela ignorância, em busca de uma verdade mais essencial e significativa. O “Mito da Caverna” de Platão continua a ser uma metáfora poderosa e relevante, nos lembrando da importância do pensamento crítico, da busca da sabedoria e da expansão do nosso entendimento do mundo ao nosso redor.
Não aceite as correntes; saia da caverna.

Alexandre Pires Vieira, em O Mito da da Caverna, de Platão

18/06/2024

O sonho de Er

Esta é a história do valoroso Er, armênio de Panfília. Morto na guerra, seu cadáver incontaminado foi recolhido após dez dias. A pira estava pronta, quando no décimo segundo dia despertou e contou o que havia visto no outro mundo.
Depois de abandoná-lo, sua alma encaminhou-se com outras até um lugar onde havia dois buracos na terra em frente a dois que estavam no céu. Dois juízes pronunciavam as sentenças; os justos se encaminhavam ao céu, pela direita, e os injustos à terra, pela esquerda.
Quando viram Er chegar disseram-lhe que seria mensageiro entre os homens de tudo o que ali ocorria, e que prestasse atenção.
Pelo outro buraco da terra saíam almas sujas ou empoeiradas; pelo outro do céu, almas inteiramente puras. Pareciam chegar de uma longa viagem. Reuniram-se na pradaria e, como velhas conhecidas, as da terra perguntavam pelo céu, e as do céu pela terra. Umas choravam os seus padecimentos de um milênio; outras exaltavam sua bem-aventurança.
Cada alma sofria por dano cometido, outro dano dez vezes maior, durante cem anos (tempo da vida humana). As almas piedosas recebiam pelas boas ações prêmios igualmente maiores.
Uma das almas perguntou pela sorte de Ardieo, tirano de Panfilia mil anos antes. Outra respondeu que não o tinha visto.
Ardieo havia assassinado seu velho pai e seu irmão mais velho; para os que pecavam contra os deuses e contra os pais, os castigos eram piores dos que os mencionados.
De repente Ardieo e outros grandes pecadores emergiram do buraco. A abertura fechou-se e bramiu, e uns seres selvagens envoltos em fogo precipitaram-nos no abismo. Amarraram os pés de Ardieo e o esfolaram e mutilaram de encontro aos espinhos. Para os condenados, porém, o mais atroz de tudo era o bramido.
As almas descansaram sete dias na pradaria; no oitavo saíram em marcha. Depois de quatro dias viram uma coluna de luz semelhante a um arco-íris, porém mais brilhante; em um dia mais chegaram até ela, que ocupava todo o céu e a terra. Viram as correntes do céu; a luz era o laço que unia toda a esfera celeste. Ali estava, aumentado, o fuso da Necessidade que permite girar todas as esferas, e se percebiam os oito céus concêntricos, cada um deles encaixando no outro, como potes côncavos, cujas bordas, de diferentes cores e brilho, formam um mesmo plano. Giram com diferente velocidade e no sentido inverso do fuso, que atravessa a oitava esfera bem no centro. Cada céu era presidido por uma sereia, que emitia um som único, de tom invariável; as oito vozes formavam um conjunto harmônico. Equidistantes e em seus tronos, se achavam as Parcas, filhas da Necessidade; Láquesis, Cloto e Atropo.
Acompanhavam as sereias em seu canto; Láquesis lembrava os tempos passados, Cloto falava nos presentes e Atropo previa os futuros.
Ao chegar perante Láquesis, as almas foram informadas por um adivinho que empreenderiam uma nova etapa em um corpo portador de morte. “Elegereis vós mesmas a vossa sorte, e permanecereis irrevogavelmente unidas; como a virtude não tem dono, cada uma a possuirá conforme a honre. A divindade é inocente.”
Cada uma elegeu um número de ordem, menos Er, e de acordo com a precedência, elegeram um modelo de vida. Havia modelos de tiranos, de mendigos, desterrados, necessitados; prestigiosos por beleza, por vigor, tenacidade, progênie ou prosápia. Havia também, para homens e mulheres, vidas sem qualquer relevo. Riqueza e pobreza, saúde e doença se misturavam. O perigo era grande; necessitava-se de discrição e conhecimento para escolher bem.
Disse o adivinho: — Mesmo para a última que escolher haverá boa fortuna se for sensata; não se descuide a primeira, nem desanime a última.
A primeira precipitou-se e optou por ser tirano: seu destino incluía devorar os próprios filhos. Quando o soube lançou a culpa na sua má sorte e nos deuses, e amaldiçoou a todos menos a si mesma; era uma alma que vinha do céu e que em toda a sua vida havia exercido a virtude. As que provinham da terra eram experimentadas no sofrimento e escolhiam com mais cuidado.
Por não ser gerado por mulher, por aversão ao sexo feminino e porque se lembrava de sua morte, Orfeu escolheu ser cisne. Tâmiras decidiu reencarnar como um rouxinol, e algumas aves como seres humanos. A vigésima alma a escolher, quis ser leão: era Ajax. A seguinte optou por ser águia: era Agamenon, que, como é sabido, odiava a Humanidade. Atalanto decidiu ser atleta e conquistar honrarias; e Epeo resolveu ser artesã. Entre as últimas estava a de Tersites, revestido da ridícula forma de um símio: decidiu ser Ulisses, cuja alma permanecia afastada e esquecida por todos. Ulisses, por sua vez, havia optado por uma existência obscura e sedentária.
Terminada a eleição, cada alma recebeu de Láquesis o seu gênio tutelar; Cloto confirmou os destinos e Átropo tornou-os irrevogáveis.
Junto com seu respectivo gênio tutelar, cada alma (que já não podia retroceder) passou diante do trono da Necessidade e se dirigiu à planície do Esquecimento, onde não havia árvores nem nada do que a terra produz, e onde o calor era atroz. Ao entardecer foram até o rio da Despreocupação, cuja água nenhum recipiente consegue reter. Aí, os que beberam demais, perderam a memória. À meia-noite, todas as almas dormiam. A terra rugiu e moveu-se, e as almas foram lançadas no espaço como estrelas diferentes do seu nascimento anterior.
A Er não foi permitido beber; reencarnou em seu próprio corpo, ergueu os olhos para o céu, viu que era madrugada e encontrou-se sobre sua pira.

Platão, A República, em Livro de Sonhos, de Jorge Luís Borges

13/02/2024

Vistos de cima

Uma bela ideia de Platão:

Quem discorre sobre os homens deveria encarar as coisas terrenas como se as avistasse de cima. Assembleias, exércitos e lavouras; matrimônios e divórcios; mortes e nascimentos; tribunais barulhentos e locais desertos; nações bárbaras; festas, funerais e feiras. Uma mistura de tudo e uma combinação ordenada de coisas opostas.”

Marco Aurélio, in Meditações

12/06/2020

Bom ou mau

Quanto a mim, dar-lhe-ia com justiça esta resposta: Não falas bem se pensas que um homem, para que tenha um pouco de valor, deve pesar as chances de viver ou morrer, e não deve, ao contrário, olhar em tudo que faz apenas para o fato de agir justa ou injustamente e sendo um homem bom ou mau.”
Platão, in Apologia

25/01/2020

Harmonia universal dos contrários

Belo trecho de Platão: “Aquele que discorre sobre os homens deveria olhar também para as coisas terrenas como se ele as visse de um lugar mais alto; assembleias, exércitos, trabalhos agrícolas, casamentos, separações, nascimentos, mortes, barulhos nos tribunais, lugares desertos, nações diversas dos bárbaros, festas, lamentações, praças públicas, a confusão geral e a harmonia universal dos contrários.”
Marco Aurélio, in Meditações

02/07/2018

05/03/2016

Em quem ama

Platão observou que o amor está em quem ama e não em quem é amado.”
Irvin D. Yalom, in A cura de Schopenhauer

25/10/2012

Nem riqueza nem pobreza

“Uma sociedade em que nem a riqueza nem a pobreza existem produz homens de excelente caráter, já que nela não há lugar para violência ou maldade, nem rivalidade ou inveja.”
Platão

24/05/2012

Nem riqueza, nem pobreza

“Uma sociedade em que nem a riqueza nem a pobreza existem produz homens de excelente caráter, já que nela não há lugar para violência ou maldade, nem para rivalidade ou inveja”.
Platão

23/06/2011

“Sócrates, antes de morrer: ‘Chegou a hora de seguirmos por caminhos diferentes: eu, o da morte, vocês, o da vida. Qual deles é o melhor, somente Deus sabe’”.
Platão, in Apologia