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13/05/2026

Fábula

Minha pátria é minha infância.
Por isso vivo no exílio.
Talvez o barco contasse
deste percurso no tempo.
De como seria o escafandro
isento de tal mergulho.
Minha pátria é sob a pele:
Cargueiro no mar de névoa.
Antigamente os conflitos
não aspiravam a ser.
De como fiquei trancado
na torre em que era dono.
E a certeza como faca
engolindo a própria lâmina.
De como se libertaram
os mitos presos na forca,
e o exato espanto vindo da terra,
dos gestos do imperador.

Cacaso, em Poesia completa

19/10/2025

O pássaro incubado

O pássaro preso na gaiola
é um geógrafo quase alheio:
Prefere, do mundo que o cerca,
não as arestas: o meio.
É isso que o diferencia
dos outros pássaros: ser duro.
Habita cada momento
que existe dentro do cubo.
Ao pássaro preso se nega
a condição acabado.
Não é um pássaro que voa:
É um pássaro incubado.
Falta a ele: não espaços
nem horizontes nem casas:
Sobra-lhe uma roupa enjeitada
que lhe decepa as asas.
O pássaro preso é um pássaro
recortado em seu domínio:
Não é dono de onde mora,
nem mora onde é inquilino.

Cacaso, em Antologia Poética

01/10/2025

Lero-lero

Sou brasileiro
de estatura mediana
gosto muito de fulana
mas sicrana é quem me quer
porque no amor
quem perde quase sempre ganha
veja só que coisa estranha
saia dessa se puder.

Eu sou poeta
e não nego minha raça
faço verso por pirraça
e também por precisão
de pé quebrado
verso branco rima rica
negaceio dou a dica
tenho a minha solução.

Não guardo mágoa
não blasfemo não pondero
não tolero lero-lero
devo nada pra ninguém
sou esforçado
minha vida levo a muque
do batente pro batuque
faço como me convém.

Sou brasileiro
tatu-peba taturana
bom de bola ruim de grana
tabuada sei de cor
4 x 7
28 noves fora
ou a onça me devora
ou no fim vou rir melhor.

Não entro em rifa
não adoço não tempero
não remarco o marco zero
se falei não volto atrás
por onde passo
deixo rastro deito fama
desarrumo toda trama
desacato satanás.

Diz um ditado
natural da minha terra
bom cabrito é o que mais berra
onde canta o sabiá
desacredito
no azar da minha sina
tico-tico de rapina
ninguém leva o meu fubá.

Cacaso (musicado por Edu Lobo)

16/09/2025

Hora do recreio

O coração em frangalhos o poeta é
levado a optar entre dois amores.
as duas não pode ser pois ambas não deixariam
uma só é impossível pois há os olhos da outra
e nenhuma é um verso que não é deste poema
Por hoje basta. Amanhã volto a pensar neste problema.

Cacaso, em Antologia Poética

02/09/2025

O pássaro incubado

O pássaro preso na gaiola
é um geógrafo quase alheio:
Prefere, do mundo que o cerca,
não as arestas: o meio.

É isso que o diferencia
dos outros pássaros: ser duro.
Habita cada momento
que existe dentro do cubo.

Ao pássaro preso se nega
a condição acabado.
Não é um pássaro que voa:
É um pássaro incubado.

Falta a ele: não espaços
nem horizontes nem casas:
Sobra-lhe uma roupa enjeitada
que lhe decepa as asas.

O pássaro preso é um pássaro
recortado em seu domínio:
Não é dono de onde mora,
nem mora onde é inquilino.

Cacaso, em Palavra Cerzida

14/07/2025

Dentro de mim mora um anjo

Quem me vê assim cantando
não sabe nada de mim
dentro de mim mora um anjo
que tem a boca pintada
que tem as asas pintadas
que tem as unhas pintadas
que passa horas a fio
no espelho do toucador
dentro de mim mora um anjo
que me sufoca de amor

Dentro de mim mora um anjo
montado sobre um cavalo
que ele sangra de espora
ele é meu lado de dentro
eu sou seu lado de fora
Quem me vê assim cantando
não sabe nada de mim

Dentro de mim mora um anjo
que arrasta as suas medalhas
e que batuca pandeiro
que me prendeu nos seus laços
mas que é meu prisioneiro
acho que é colombina
acho que é bailarina
acho que é brasileiro.

Cacaso, em Antologia Poética 

28/04/2025

Fábula

Minha pátria é minha infância.
Por isso vivo no exílio.
Talvez o barco contasse
deste percurso no tempo.
De como seria o escafandro
isento de tal mergulho.
Minha pátria é sob a pele:
Cargueiro no mar de névoa.
Antigamente os conflitos
não aspiravam a ser.
De como fiquei trancado
na torre em que era dono.
E a certeza como faca
engolindo a própria lâmina.
De como se libertaram
os mitos presos na forca,
e o exato espanto vindo da terra,
dos gestos do imperador.

Cacaso, em Poesia completa

13/03/2025

Em tempo de notícia

Deitado ao frio espero
a transição que já vem:
Galo rompendo luas
galopando entre marcas
que não ousam assentar.
Onde a noite me recolhe
em silente nostalgia
mando notícia dos meus:
A família se dissolve
e transborda mansamente,
dispersante além do frasco:
Insônia ramo partido
medo, tortura, asco.
A cada passo uma pena
a cada traço uma cena
desafia os meus olhos
nem duo de contrição.
E vou de mim despedindo,
aceno ao largo, na volta,
em mim mesmo que prescrevo
sinuosa afeição.
Sou mapa e não me desvendo,
sou ilha e não me abraço.
Sou chama na saliência
deste incontido amor.
Peixe parindo rios,
cristal de minha ambição
que se recua a si mesmo
entre vísceras latentes
retidas no alçapão.
Terra de peixe: magia.
Sangue de peixe: noção.
Não era sangue nem terra
adubo de fina hera
e alga também não era
convergindo na feição.
Não era sangue e tingia
não era amor e doía
pungia no coração.
Que sombra já me pressente
e me nomeia até mesmo
onde não mando cartão?
Indago apontamentos
e me censuro e cerco
o que de mim esvoaça
sem formas de contenção.
Estou partindo: para onde?
Viajo pelo deserto
e sinto que vou morrer.
E sinto voar a pena
ao longo de meus cabelos.
Agora estou livre e deito
numa planície minada.
Entre rios cresce a chama
buscando uniformidade,
uma orquídea entre as ramas.
Em meus olhos cravejados
constrói o peixe o retiro:
Fluir além das escamas.

Cacaso, em A Palavra Cerzida

06/03/2025

Terceiro amor

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam os afluentes
como passam as correntes
que desencontram do mar
Como qualquer atitude
também passa a juventude
que nem findou de chegar

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam os espelhos
como passam os conselhos
ilusões de pedra e cal
Como passam os perigos
e tantos muitos amigos
sem deixar nenhum sinal

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam as gaivotas
as vitórias as derrotas
fantasias carnavais
as inocências perdidas
como passam avenidas
corredores temporais
A correnteza dos rios
como passam os navios
que a gente acena do cais.

Cacaso, em Poesia marginal – Antologia poética

18/02/2025

Anulação

Fiquei mais velho. 20 anos
e nenhuma preparação para a vida.
A calma sedimentou-se mas
a ironia vagueia no campo e ruge.
Pelos olhos recebo o tempo, interpreto
e nego. É muito forte o tempo.
Me invento na laje, no corte e na
palavra. Inútil: estou sempre começando.
O amor resvala e acena e já
descrente desta ou de outra miragem,
recolho nada entre o céu e a idade.
Tudo esfriou e nem era o frio, e nem
o germe pondo a noite no casulo:
Corpo desfeito e tempo nulo.

Cacaso, em Poesia Completa

30/01/2025

Obrigação

Os homens colhendo flores
vão resgatar os seus mortos.
Uma culpa não se lava
com simples água de chuva.

Os que se foram conhecem
este ofício do homem.
O sentimento permanece,
só os rostos se renovam.

Viver já se torna um peso
para o homem carregar.
Dizei, Jesus: há sempre paz
no reino de meus irmãos?

Os homens são deglutidos
pela carreta humana.
Estão alheios entre flores,
saudosos da inexistência.

Cacaso, em Poesia completa

17/01/2025

Palavras… palavras…

Tem havido muitas luas
muitas luas cheias
muitas noites
daquelas bem escuras
Muitos dias lindos
daqueles bem claros
de modos que vou ficando
por aqui, não sem antes
celebrar… Celebrar o quê
meu Deus! Celebrar o quê?!…
A natureza é tão pura
a gente planta uma semente
e ela vira árvore. Até os
grilos parece que foram
feitos por Deus. Tudo canta.
Tem havido muitas luas
muitas luas cheias

Cacaso, em Poesia Completa

29/12/2024

Gameleira

Muito longe do arabesco,
do arlequim e da moda,
à sombra da gameleira
que a previsão já recorta,
naquelas terras perdidas
recuperadas na troca,
vagamos por um caminho:
Mistura de ida e volta.
Naquelas terras estanques
onde a razão era morta:
Araçá, caju do brejo,
mistura de vida e volta.
Mistura de teu soluço
com a nossa ânsia torta:
No ventre da gameleira
a vida era tida morta.
A vida era tida longe
como um sol que não acorda:
No ventre da gameleira
volta e vida, ida e volta.

Cacaso, em Poesia completa 

12/06/2023

E com vocês a Modernidade

Meu verso é profundamente romântico.
Choram cavaquinhos luares se derramam e vai
por aí a longa sombra de rumores e ciganos.

Ai que saudade que tenho de meus negros verdes anos!

Cacaso, in Poesia Completa

01/07/2020

Primeiras impressões

Jamais quis tão pouco nesta vida
ouvir de uma certa boca a palavra adeus.

O navio deixa o cais e uma negra foice
mergulha e novamente mergulha e novamente.

Sons esparsos martelando tímpanos
que são cerejas e gorjeios da passarada.

Cai a noite jamais quis tão pouco nesta vida
ouvir numa certa hora a palavra adeus.
Cacaso

07/05/2019

Meio-termo

Ah como tenho me enganado
como tenho me matado
por ter demais confiado
nas evidências do amor.

Como tenho andado certo
como tenho andado errado
por seu carinho inseguro
por meu caminho deserto.

Como tenho me encontrado
como tenho descoberto
a sombra leve da morte
passando sempre por perto.

E o sentimento mais breve
rola no ar e descreve
a eterna cicatriz
mais uma vez
mais de uma vez
quase que eu fui feliz.

A barra do amor
é que ele é meio ermo
a barra da morte
é que ela não tem meio termo.
Cacaso

05/03/2019

As aparências revelam

Afirma uma firma que o Brasil
confirma: “Vamos substituir o
Café pelo Aço”.

Vai ser duríssimo descondicionar
o paladar

Não há na violência
que a linguagem imita
algo da violência
propriamente dita?
Cacaso

15/07/2015

Descartes

Não há
no mundo nada
mais bem
distribuído do que a
razão: até quem não tem tem
um pouquinho.
Cacaso

14/10/2013

Amor amor

Quando o mar
quando o mar tem mais segredo
não é quando ele se agita
nem é quando é tempestade
nem é quando é ventania
quando o mar tem mais segredo
é quando é calmaria
quando o amor
quando o amor tem mais perigo
não é quando ele se arrisca
nem é quando ele se ausenta
nem quando eu me desespero
quando o amor tem mais perigo
é quando ele é sincero.
Cacaso

24/09/2013

Terceiro amor

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam os afluentes
como passam as correntes
que desencontram do mar
Como qualquer atitude
também passa a juventude
que nem findou de chegar.

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam os espelhos
como passam os conselhos
ilusões de pedra e cal
Como passam os perigos
e tantos muitos amigos
sem deixar nenhum sinal.

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam as gaivotas
as vitórias as derrotas
fantasias carnavais
as inocências perdidas
como passam avenidas
corredores temporais
A correnteza dos rios
como passam os navios
que a gente acena do cais.
Cacaso