terça-feira, 2 de junho de 2026

A coincidência



Conheceram-se na feira. Jorge estava apoiado no cabo do velho guarda-chuva tentando tirar alguma coisa agarrada à sola do sapato, quando teve sua atenção atraída por uma reclamação:
Puxa, mas o preço do tomate tá uma indecência!
Por uma dessas caraminholas da mente, a soma de tomate e indecência deu, na cuca do Jorge, um resultado bastante diverso do real. Jorge procurou a dona da voz e constatou que todas as besteiras esboçadas no bestunto eram poucas diante daquele — sentiu o cheiro de outra barraca — peixão. Forçando a abordagem, Jorge, que detestava tomate, juntou seus mais veementes protestos aos dela, chegando a fazer uma ridícula imitação de um personagem de tevê:
O tomatal tem que tomatar!
A moça achou graça e Jorge completou com um galanteio na medida:
Mas meu negócio não é número. Meu negócio é me apaixonar de repente — numa feira, por exemplo — e levar meu novo amor pra conhecer meu apartamento, aqui pertinho. Todas ficam amarradas em minha vista pro mar.
A moça, que normalmente repeliria uma entrada de sola, caiu na esparrela:
Seu apartamento tem vista pro mar? Aqui?
Meu apartamento dá pra um terreno baldio. Eu é que dou vista pro mar. Espia bem nos meus olhos: verdinhos, né?
Uma expressão de carinho surgiu no rosto da moça e Jorge sentiu que era só dar mais um pouco de linha antes de usar o cerol. Ficou propenso a utilizar a tática aprendida com a edificante leitura de O Último Tango em Paris: nada de nomes.
A verdade é que o Jorge tinha certa bronca do seu nome:
Jorge Goulart Cauby Peixoto da Silva. O da Silva era de sua mãe, assídua frequentadora da Rádio Nacional nos áureos tempos dos grandes programas de auditório. Mãe solteira, colocara no filho seu modesto sobrenome coroando a fusão dos nomes de seus maiores ídolos. Jorge achava tudo isso meio ridículo e só declarava o nome completo em caso de absoluta necessidade.
E a necessidade surgiu quando a moça, já devidamente cantada, teve um capricho maluco:
Vou, mas quero ver tua carteira de identidade. Você tá escondendo alguma coisa de mim.
Mas, minha flor...
Não tem mas-mas. Ou mostra a carteira ou fica na saudade.
Jorge cedeu. A moça, ao contrário do que Jorge esperava, não riu:
Que estranho! Imagina você que meu pai era assíduo frequentador da Rádio Nacional e...
Aterrorizado, Jorge interrompeu a moça:
Como é teu nome?
Jezebel Conceição de Souza.
Ô mundinho danado de pequeno — pensou o Jorge, de pau, quer dizer, de guarda-chuva na mão.

Aldir Blanc, em Rua dos Artistas e Arredores

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