Conheceram-se na feira. Jorge estava
apoiado no cabo do velho guarda-chuva tentando tirar alguma coisa
agarrada à sola do sapato, quando teve sua atenção atraída por
uma reclamação:
— Puxa, mas o preço do tomate tá
uma indecência!
Por uma dessas caraminholas da mente,
a soma de tomate e indecência deu, na cuca do Jorge, um resultado
bastante diverso do real. Jorge procurou a dona da voz e constatou
que todas as besteiras esboçadas no bestunto eram poucas diante
daquele — sentiu o cheiro de outra barraca — peixão. Forçando a
abordagem, Jorge, que detestava tomate, juntou seus mais veementes
protestos aos dela, chegando a fazer uma ridícula imitação de um
personagem de tevê:
— O tomatal tem que tomatar!
A moça achou graça e Jorge completou
com um galanteio na medida:
— Mas meu negócio não é número.
Meu negócio é me apaixonar de repente — numa feira, por exemplo —
e levar meu novo amor pra conhecer meu apartamento, aqui pertinho.
Todas ficam amarradas em minha vista pro mar.
A moça, que normalmente repeliria uma
entrada de sola, caiu na esparrela:
— Seu apartamento tem vista pro mar?
Aqui?
— Meu apartamento dá pra um terreno
baldio. Eu é que dou vista pro mar. Espia bem nos meus olhos:
verdinhos, né?
Uma expressão de carinho surgiu no
rosto da moça e Jorge sentiu que era só dar mais um pouco de linha
antes de usar o cerol. Ficou propenso a utilizar a tática aprendida
com a edificante leitura de O Último Tango em Paris: nada de
nomes.
A verdade é que o Jorge tinha certa
bronca do seu nome:
Jorge Goulart Cauby Peixoto da Silva.
O da Silva era de sua mãe, assídua frequentadora da Rádio Nacional
nos áureos tempos dos grandes programas de auditório. Mãe
solteira, colocara no filho seu modesto sobrenome coroando a fusão
dos nomes de seus maiores ídolos. Jorge achava tudo isso meio
ridículo e só declarava o nome completo em caso de absoluta
necessidade.
E a necessidade surgiu quando a moça,
já devidamente cantada, teve um capricho maluco:
— Vou, mas quero ver tua carteira de
identidade. Você tá escondendo alguma coisa de mim.
— Mas, minha flor...
— Não tem mas-mas. Ou mostra a
carteira ou fica na saudade.
Jorge cedeu. A moça, ao contrário do
que Jorge esperava, não riu:
— Que estranho! Imagina você que
meu pai era assíduo frequentador da Rádio Nacional e...
Aterrorizado, Jorge interrompeu a
moça:
— Como é teu nome?
— Jezebel Conceição de Souza.
Ô mundinho danado de pequeno —
pensou o Jorge, de pau, quer dizer, de guarda-chuva na mão.
Aldir Blanc, em Rua dos Artistas e Arredores

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