segunda-feira, 3 de março de 2025

O Grande Anjo

Isso que vou contar já faz muitos anos, é só memória...
Eu disse que o Paraíso mora numa ampola de dolantina... “Cessa, ó dor!” E ela cessa... Pena que o Paraíso seja de tão curta duração. A dor se vai, sim, mas fica de tocaia...
Me tocaiou... Foi voltando devagarzinho, aparecendo num outro lugar: a coluna. Ela chegava e ia torcendo o corpo, obrigando-o a assumir as posições mais estranhas para livrar-se dela. Lembro-me de uma viagem que fiz até o litoral, corpo curvado, o pé apoiado no painel de instrumentos do carro. Chegando lá, praia, lugar de deleites e risos, a dor não me deixou. Ela só me deixava em paz numa posição: agachado.
A dor não me deixava alternativas. Qualquer coisa para livrar-me dela: cirurgia. Mas a cirurgia era de resultados duvidosos. Um ortopedista conhecido, sabendo dos riscos, me disse: “Só faço cirurgia de hérnia de disco quando o paciente ameaça cometer suicídio...”.
Pois é isso mesmo que acontece: a dor, ultrapassado um certo limite, faz sonhar com a morte, como a única possibilidade de libertação. Coisa estranha esta, desejar morrer por amor à vida... Walter Rauschenbush assim colocou a questão no seu livro Orações por um mundo melhor: “A morte não é mais uma inimiga e sim um grande anjo, o único a poder abrir, para alguns de nós, a prisão de dor e do sofrimento...”. Quando a dor é sem trégua, a pessoa que sofre tem um único desejo: parar de sofrer. Esgotados todos os recursos para pôr fim à dor, resta morrer.
Eu não queria morrer; queria parar de sofrer. No quarto do hospital, torturado pela dor, aguardando a cirurgia, ouvi, vindo não sei de onde (ou terá sido uma alucinação minha?), um trecho de uma sonata de Beethoven. Que combinação mais estranha! Beleza e dor... Num arroubo de coragem (ou de loucura), cerrei os dentes e disse para mim mesmo: “Nem toda a dor do mundo será capaz de destruir a beleza dessa sonata!”. Mas foi coisa momentânea. Meu corpo não queria a beleza da sonata de Beethoven; ele só queria não mais sentir a dor... Se o preço de acabar com a dor fosse silenciar a sonata, meu corpo preferiria que a beleza não existisse.
Finalmente, a cirurgia. Abençoo o meu filho que é anestesista, embora jamais tenha sido o “meu” anestesista. É perigoso... para ele... Mergulhado no sono, não sinto dor. No dia seguinte, o cirurgião veio me visitar e pediu-me para fazer um movimento-teste. Fiz. Beliscou. A dor ainda estava lá dentro. Uma outra cirurgia seria necessária. Fiz a segunda cirurgia. A dor piorou, multiplicada por não sei quanto. De volta para casa, só havia um recurso para não sentir dor: ficar deitado sobre o gelo... Semanas... Até que, pela magia dos bioquímicos, a dor deu-se por satisfeita e se foi...
Há de se pensar no que fazer com um corpo possuído pelo demônio da dor. Com os meus cachorros eu sei o que fazer...
(Não é espantoso que haja religiões que creiam que Deus tenha condenado seus desafetos a uma eternidade de dor?)

Rubem Alves, em Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo 

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