Depois
de um single com seu grupo de rock progressivo Vímana (com
Lobão, Ritchie, Luis Paulo Simas e Fernando Gama) ter passado em
branco, o carioca Lulu Santos (1953) iniciou carreira solo com o nome
de Luiz Mauricio, também sem sucesso. Em 1976, ele havia trabalhado
como músico com o jornalista, letrista e produtor Nelson Motta no
musical Feiticeira, estrelado por Marilia Pêra, mas só em
1980 eles se reencontraram para iniciar uma carreira vitoriosa de
hitmakers.
Nelson
começou como letrista na era dos festivais, com 21 anos. Escrita em
parceria com Dori Caymmi, “Saveiros” venceu o I FIC (Festival
Internacional da Canção) em 1966. Em seguida, a dupla levou “O
cantador” às finais no histórico festival de 1967 da TV Record.
Depois do AI-5, em 1969, Nelson parou de compor, só voltando em
1977, com o provocativo rock “Perigosa”, parceria com Rita Lee e
Roberto de Carvalho e sucesso nacional com as Frenéticas.
Em
1982, Nelson gravava todos os dias o talk show Noites cariocas,
na TV Record do Rio, em dupla com a jornalista Scarlet Moon.
Recém-casada com Lulu, ela os reaproximou e estimulou a comporem
juntos. Começaram com o rock “Tesouros da juventude” e
emplacaram seu primeiro hit com o surf rock “De repente
Califórnia”, do filme Menino do Rio, de Antônio Calmon, um
espetacular sucesso de bilheteria.
“Como
uma onda” foi feita originalmente para outro longa de Calmon,
Garota dourada, que pretendia surfar na onda de Menino do
Rio. Mas a produção se arrastou tanto que, quando o filme foi
lançado (e naufragou nas salas de cinema), a música já era um
grande sucesso nacional.
Apesar
de ligado ao rock desde garoto, em “Como uma onda” Lulu fez um
bolero. Original e moderno, com referências de música havaiana, mas
um bolero pop. A letra de Nelson é inspirada no verso “A vida vem
em ondas como o mar”, de Vinicius de Moraes no poema “Dia da
criação”. Para que não soasse pretensiosa e metida a filosófica,
foi acrescentado o subtítulo irônico de “Zen surfismo”, que
sintetiza a mistura de leituras de Jorge Luís Borges, filosofia
budista e a Bíblia com o hedonismo de surfistas e gatinhas de praia,
os personagens de Garota dourada.
“Nada
do que foi será / de novo do jeito que já foi um dia / Tudo passa,
tudo sempre passará / A vida vem em ondas como o mar / num indo e
vindo infinito.”
Na
certeza de que tristezas e alegrias passarão, e voltarão sempre,
como no eterno retorno do filósofo grego Heráclito (540 a.C.), a
música tocou o coração do público. Tanto como celebração da
permanente mutação da vida, quanto como consolo para as dores do
mundo.
Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

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