quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Como uma onda | Lulu Santos e Nelson Motta, 1982



Depois de um single com seu grupo de rock progressivo Vímana (com Lobão, Ritchie, Luis Paulo Simas e Fernando Gama) ter passado em branco, o carioca Lulu Santos (1953) iniciou carreira solo com o nome de Luiz Mauricio, também sem sucesso. Em 1976, ele havia trabalhado como músico com o jornalista, letrista e produtor Nelson Motta no musical Feiticeira, estrelado por Marilia Pêra, mas só em 1980 eles se reencontraram para iniciar uma carreira vitoriosa de hitmakers.
Nelson começou como letrista na era dos festivais, com 21 anos. Escrita em parceria com Dori Caymmi, “Saveiros” venceu o I FIC (Festival Internacional da Canção) em 1966. Em seguida, a dupla levou “O cantador” às finais no histórico festival de 1967 da TV Record. Depois do AI-5, em 1969, Nelson parou de compor, só voltando em 1977, com o provocativo rock “Perigosa”, parceria com Rita Lee e Roberto de Carvalho e sucesso nacional com as Frenéticas.
Em 1982, Nelson gravava todos os dias o talk show Noites cariocas, na TV Record do Rio, em dupla com a jornalista Scarlet Moon. Recém-casada com Lulu, ela os reaproximou e estimulou a comporem juntos. Começaram com o rock “Tesouros da juventude” e emplacaram seu primeiro hit com o surf rock “De repente Califórnia”, do filme Menino do Rio, de Antônio Calmon, um espetacular sucesso de bilheteria.
Como uma onda” foi feita originalmente para outro longa de Calmon, Garota dourada, que pretendia surfar na onda de Menino do Rio. Mas a produção se arrastou tanto que, quando o filme foi lançado (e naufragou nas salas de cinema), a música já era um grande sucesso nacional.
Apesar de ligado ao rock desde garoto, em “Como uma onda” Lulu fez um bolero. Original e moderno, com referências de música havaiana, mas um bolero pop. A letra de Nelson é inspirada no verso “A vida vem em ondas como o mar”, de Vinicius de Moraes no poema “Dia da criação”. Para que não soasse pretensiosa e metida a filosófica, foi acrescentado o subtítulo irônico de “Zen surfismo”, que sintetiza a mistura de leituras de Jorge Luís Borges, filosofia budista e a Bíblia com o hedonismo de surfistas e gatinhas de praia, os personagens de Garota dourada.
Nada do que foi será / de novo do jeito que já foi um dia / Tudo passa, tudo sempre passará / A vida vem em ondas como o mar / num indo e vindo infinito.”
Na certeza de que tristezas e alegrias passarão, e voltarão sempre, como no eterno retorno do filósofo grego Heráclito (540 a.C.), a música tocou o coração do público. Tanto como celebração da permanente mutação da vida, quanto como consolo para as dores do mundo.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

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