quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Cartas para minha avó

Vó, essa talvez seja uma lembrança prosaica, mas vou te contar mesmo assim. Um dia em casa, em Santos, preparei um prato simples, rápido, porque, como disse, não suportava ter que cozinhar — ainda mais ter que perder muito tempo fazendo isso. Fiz arroz, peito de frango e completei com batata palha. Como éramos só Thulane e eu, se aquilo não fosse suficiente, eu fritaria um ovo ou comeria um lanche. Porém, de repente, Donald chegou para almoçar, e eu vi que não havia arroz o bastante. Eu disse, então, que iria ao mercado — na verdade era uma padaria que vendia alguns produtos — buscar mais alguma coisa. O dia estava agradável, o sol havia aparecido após dois longos dias chuvosos. Enquanto andava, sentia aquele sol de outono aquecendo meu rosto. Sóis de outono são na medida certa, nem verão, nem inverno.
Passei pela praça em que costumava levar minha filha, os bancos vazios me convidavam para sentar e apreciar mais o sol. Na padaria havia três marcas de arroz, mas somente em duas havia etiquetas com o preço. Hesitei e acabei pegando o pacote sem preço, na esperança de que fosse o mais barato. No caixa, vi que aquele arroz era dez centavos mais caro que os outros dois. Boa estratégia, pensei. Lembrei de minha mãe, que não aceitava receber troco em bala nem que o caixa deixasse de dar dez centavos de troco. “Por isso que eles estão ricos, de dez em dez”, ela dizia.
Atravessei a rua e passei novamente pela praça, aproveitei mais um pouco do sol e quase aceitei o convite do banco. As folhas das árvores balançavam, as crianças brincavam no parque, mas eu tinha de fazer o arroz. Fui ao supermercado da esquina comprar mais filé de frango. Pedi ao rapaz do balcão da carne que cortasse o peito em cubos, para estrogonofe, e peguei mais um pacote de batata palha.
Eu me sentia tão leve que até a moça do caixa, que geralmente era indiferente a mim, me tratou bem. Enquanto ela passava as compras do senhor que estava à minha frente, de vez em quando me olhava. Na minha vez, perguntou gentilmente se eu desejava nota fiscal paulista. Até aquela moça, uma pessoa que só me via vez por outra, conseguiu perceber minha invejável distância do mundo, minha sincera apatia por obrigações sem sentido. Afinal, havia um sol lindo de outono.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

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