Vó,
essa talvez seja uma lembrança prosaica, mas vou te contar mesmo
assim. Um dia em casa, em Santos, preparei um prato simples, rápido,
porque, como disse, não suportava ter que cozinhar — ainda mais
ter que perder muito tempo fazendo isso. Fiz arroz, peito de frango e
completei com batata palha. Como éramos só Thulane e eu, se aquilo
não fosse suficiente, eu fritaria um ovo ou comeria um lanche.
Porém, de repente, Donald chegou para almoçar, e eu vi que não
havia arroz o bastante. Eu disse, então, que iria ao mercado — na
verdade era uma padaria que vendia alguns produtos — buscar mais
alguma coisa. O dia estava agradável, o sol havia aparecido após
dois longos dias chuvosos. Enquanto andava, sentia aquele sol de
outono aquecendo meu rosto. Sóis de outono são na medida certa, nem
verão, nem inverno.
Passei
pela praça em que costumava levar minha filha, os bancos vazios me
convidavam para sentar e apreciar mais o sol. Na padaria havia três
marcas de arroz, mas somente em duas havia etiquetas com o preço.
Hesitei e acabei pegando o pacote sem preço, na esperança de que
fosse o mais barato. No caixa, vi que aquele arroz era dez centavos
mais caro que os outros dois. Boa estratégia, pensei. Lembrei de
minha mãe, que não aceitava receber troco em bala nem que o caixa
deixasse de dar dez centavos de troco. “Por isso que eles estão
ricos, de dez em dez”, ela dizia.
Atravessei
a rua e passei novamente pela praça, aproveitei mais um pouco do sol
e quase aceitei o convite do banco. As folhas das árvores
balançavam, as crianças brincavam no parque, mas eu tinha de fazer
o arroz. Fui ao supermercado da esquina comprar mais filé de frango.
Pedi ao rapaz do balcão da carne que cortasse o peito em cubos, para
estrogonofe, e peguei mais um pacote de batata palha.
Eu
me sentia tão leve que até a moça do caixa, que geralmente era
indiferente a mim, me tratou bem. Enquanto ela passava as compras do
senhor que estava à minha frente, de vez em quando me olhava. Na
minha vez, perguntou gentilmente se eu desejava nota fiscal paulista.
Até aquela moça, uma pessoa que só me via vez por outra, conseguiu
perceber minha invejável distância do mundo, minha sincera apatia
por obrigações sem sentido. Afinal, havia um sol lindo de outono.
Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó
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