terça-feira, 21 de junho de 2022

Destinado


Essa é a história que tenho lido, dia e noite, desde que ela se foi.
Procuro a mim próprio, nessa história. Procuro-me nas linhas e nas entrelinhas, procuro-me nos nomes próprios e nos nomes comuns, procuro-me nos verbos e nos advérbios, nos pontos, nas vírgulas, nas reticências. E não me acho. Assim como não me acho em lugar nenhum. Estou perdido.
Continuo atendendo em minha clínica, mas tenho pensado seriamente em mudar de rumo, em retomar o estudo da História. Vou ganhar menos, e me incomodar mais, mas espero não ter desilusões. Quero esquecê-la.
Que mais? Ah, sim, ela era feia.
A feiura é fundamental, ao menos para o entendimento desta história. É feia, esta que vos fala. Muito feia. Feia contida ou feia furiosa, feia envergonhada ou feia assumida, feia modesta ou feia orgulhosa, feia triste ou feia alegre, feia frustrada ou feia satisfeita — feia, sempre feia.
Desde a infância eu suspeitava disso, de que era feia. As outras meninas da aldeia, bonitas em geral, relutavam em brincar comigo; quando eu aparecia, davam um jeito de escapulir, rindo à socapa. Ora, eu não era aleijada, nem estúpida; por que fugiam? Era algo que viam em mim, e de que não falavam. Assim, e por incrível que possa parecer, só fui descobrir a extensão de minha fealdade aos dezoito anos. Quem colaborou para isso, ironicamente, foi minha irmã mais nova, a irmã que era amiga e confidente e a quem eu procurava sempre que tinha algo a contar.
Uma tarde, entrei no quarto e lá estava ela. Julgando-se só, mirava-se ao espelho.
Eu não sabia que minha irmã tinha um espelho. Ninguém sabia que minha irmã tinha um espelho. Mais: ninguém sabia que havia um espelho na casa.
Em primeiro lugar, espelho era uma coisa cara, ao alcance só de nobres e ricos proprietários. Não era o caso de nosso pai; embora patriarca da aldeia, tinha apenas um rebanho de cabras, e nem era dos maiores. Na verdade, até a época de meu avô nossa gente era nômade; percorria o deserto em busca de pastagem para as cabras, morava em tendas. Sempre fora assim e tudo indicava que sempre seria assim. Meu pai, contudo, decidiu que a tribo teria residência fixa. Seu sonho era que formássemos o núcleo de uma cidade, de uma cidade que cresceria rapidamente, tornando-se uma metrópole, talvez a capital de um império. Era um homem ambicioso, ele, ainda que não muito inteligente. E intratável: não admitia ser contrariado. Quando alguém lhe perguntava acerca da metrópole que antecipava, do império, limitava-se a responder, seco: — Tu verás.
E mais não dizia.
Enquanto o futuro por meu pai profetizado não chegava, continuávamos morando numa casa pequena, austera. Poucos móveis, nenhum conforto; qualquer coisa que cheirasse a luxo seria abominação. Assim, mesmo que pudesse comprar um espelho, não o faria. Isso é coisa dos demônios, dizia, por trás de cada espelho está o Mal, pronto a usar a vaidade para atrair as pessoas ao pecado. Não que fosse um exemplo de moral; era um mulherengo conhecido, desses que não respeitam nem a mulher do próximo.
Além disso, andara metido em negócios escusos — parte de seu rebanho era, para usar um eufemismo, de procedência duvidosa. Nada disso o impedia de posar como um guardião da moralidade. Exigia da tribo, e da família em particular, um comportamento irrepreensível. Não tolerava a menor manifestação de vaidade nas filhas.
Uma disposição que minha irmã desobedecera, ao obter (de que forma, só depois eu descobriria) um pequeno espelho redondo, o espelho no qual agora se olhava. Extasiada, e com razão: era linda, ela. Tão linda quanto eu era feia. Grandes olhos, narizinho delicado, boca bem desenhada... Linda mas imprudente: esquecera a porta aberta. E assim eu pudera surpreendê-la em plena transgressão.
Ao ver-me, assustou-se, quis esconder o espelho. Antes que o fizesse, agarrei-a; dá-me isso, gritei, furiosa, quero olhar-me também. De imediato deu-se conta do riscoque eu corria, tentou dissuadir-me: não o faças, este espelho é maldito, me enfeitiçou, vai te enfeitiçar também, nosso pai tinha razão em proibir essa coisa do demônio, não te olhes, por favor, não te olhes, isso é vaidade, é abominação, eu já pequei, não peques tu também.
De nada adiantaram seus gritos, seu desespero. No fundo eu sabia que ela queria poupar-me de algo para mim ainda desconhecido: a devastadora revelação da minha feiura, da qual, àquela altura, eu apenas suspeitava.
Tendo visto o espelho, porém, eu não recuaria por nada neste mundo. Era uma tentação irresistível; a vertigem do abismo, por assim dizer. Pois que me tragasse, aquele abismo, a mim pouco importava: em busca da verdade, de bom grado me precipitaria nele. No fundo eu talvez nutrisse a esperança de um milagre, o espelho revelando-me um rosto surpreendentemente belo, ou pelo menos não de todo feio. Talvez fosse aquele um espelho mágico, mágico só para mim, bem entendido, não para as outras; um espelho capaz de sintonizar com os ocultos anseios da pessoa, procedendo, mediante a energia psíquica da qual se tornaria instantaneamente depositário, a um completo reordenamento — e embelezamento — de linhas faciais, aquela coisa do sapo virando príncipe.
O que pensei, o que almejei naquele instante, já não recordo. Só sei que queria o espelho e faria qualquer coisa para consegui-lo.
Em pânico, minha irmã tentou fugir. Fui em seu encalço, derrubei-a.
Lutamos. Pouco: não era adversária para mim; o que eu tinha de feia, tinha de forte... Dominei-a, arrebatei de sua mão o espelho. E pronto, agora ele era meu.
Não era dos melhores espelhos, aquele: um simples disco de bronze polido, de qualidade duvidosa. Mas fazia o que todos os espelhos têm de fazer, para felicidade ou desgraça de quem neles se mira: mostrava um rosto. Meu rosto.
Eu não podia acreditar no que estava vendo. Meu Deus, sou essa aí? Não havia ali nenhuma simetria, naquela face, nem mesmo a temível simetria do focinho do tigre; eu buscava em vão alguma harmonia. Não era a grande harmonia das esferas que eu pretendia, um pequeno ser harmônico já me seria suficiente, mas nem isso eu obtive porque havia um conflito naquele rosto, a boca destoando do nariz, as orelhas destoando entre si.
E os olhos, que poderiam salvar tudo, eram estrábicos, um deles mirando, desconsolado, o espelho, o outro com o olhar perdido, fitando desamparado o infinito, talvez para não ter de enxergar a cruel imagem. Detalhe (mas ainda é preciso detalhar? É, sim, é preciso ir ao detalhe, é preciso descer até o fundo do melancólico poço): sinais. Disseminados pela face, eu tinha — não contei, mas acho que duas dezenas é uma estimativa até conservadora — sinais. Sinais às pencas, um despropósito de sinais, um surto inflacionário de sinais. Pela variedade, poderiam se constituir no objeto de um tratado de dermatologia. Havia-os de variado tamanho e matiz. Um deles me incomodava particularmente; de tão protuso; era quase séssil, balançando desamparado no ar. A um vento mais forte, e ventos fortes em nossa região não eram incomuns, se desprenderia e seria levado para longe dali. Se caísse entre pedras feneceria, se caísse na areia do deserto feneceria, se caísse na cratera de um vulcão feneceria — e ele fenecendo eu só me alegraria, mas se caísse em terra fértil... Se caísse em terra fértil germinaria, e sabe Deus que planta nasceria dali, que estranha árvore de galhos secos e retorcidos. Se a esse espécime dessem, mesmo que por intuição, o epíteto de árvore da feia, eu não poderia me queixar; o máximo que poderia fazer era tentar abatê-la na calada da noite.
Resumindo, era isso o que eu via: a) assimetria flagrante; b) carência de harmonia; c) estrabismo (ainda que moderado); d) excesso de sinais.
Falta dizer que o conjunto era emoldurado (emoldurado! Essa é boa, emoldurado! Emoldurado, como um lindo quadro é emoldurado! Emoldurado!) por uns secos e opacos cabelos, capazes de humilhar qualquer cabeleireiro.
O que o espelho me mostrava era algo semelhante a uma paisagem estranha, atormentada, na qual os acidentes (acidentes: muito apropriado, o termo) geográficos não guardavam a menor relação entre si. Uma catástrofe tinha ocorrido em minha face, um cataclismo que seguramente antecedera de muito o meu nascimento; o que eu estava vendo era a feiura arcaica, a feiura ancestral, uma feiura consolidada pelos anos, pelos milênios, talvez.
Rosto oculto entre as mãos, minha irmã soluçava baixinho. Não me dava pena vê-la assim. Ao contrário, o que sentia era raiva — imensa, incontida raiva, dela, da outra irmã, de meus pais. Por que não me haviam dito antes que eu era tão feia? Por que me haviam enganado? Por piedade, era a resposta mais óbvia. Tinham tentado poupar-me à acabrunhante realidade mediante uma laboriosa conspiração. Ao longo dos anos, haviam sido personagens de uma comédia, exitosamente encenada para plateia reduzida: eu. “Aí vem ela, vamos fingir que nada notamos em sua face, vamos fingir que ela é normal, um pouco bela, até — não vamos nos mostrar deslumbrados diante de sua beleza porque periga não colar, quando a esmola é demais o santo desconfia, mas se nos portarmos de maneira natural, cairá direitinho.” Espectadora única, eu fora facilmente enganada. Verdade que a atuação deles, agora eu era forçada a reconhecer, fora soberba. Ninguém falava de meus traços; ninguém diria, por exemplo, como és bela — mas também ninguém diria, és medonha. Guardariam silêncio, ou então recorreriam a sinuosas expressões de elogio: como tu estás bonita com essa túnica. A afirmativa “tu estás bonita” sempre se acompanharia de uma relativizadora complementação (“com essa túnica”), o que atenuaria a mentira, tornando-a suportável aos olhos de Jeová e ao mesmo tempo alimentando a piedosa ilusão.
Com um pouco de atenção eu teria percebido o embuste. Mas, será que eu queria perceber o embuste? Ou estaria, eu própria, participando dele, enganando-me — em parte para não frustrar a trupe familiar, em parte para não descobrir a aterradora verdade? Essa dúvida já não tinha sentido. A farsa não mais se sustentava.
Confrontada com a realidade, eu dela não conseguiria escapar. Ah, se pudesse voltar atrás... Por que me olhei naquele espelho, eu me perguntava, golpeando o peito com incontida fúria, por que cedi à maldita curiosidade, à maldita vaidade? Por que não me arrancou Jeová da mão aquele revelador, mas funesto objeto? Hein, Jeová? Por que não tomaste alguma providência, tu que sabes tudo, tu que podes tudo? Podias ter reduzido o espelho a pó, com o simples ato de tua vontade. Por que não o fizeste? Será que não existes, amigo? Hein? Será que não passas de uma abstração, uma ilusão da ótica emocional? Clamor inútil, inúteis recriminações. Nada mais podia ser feito. Eu tinha me olhado ao espelho e pronto: o que tinha visto, não esqueceria. Mas eu precisava, senão de consolo, ao menos de explicação. Tinha de saber a razão pela qual coubera a mim tamanho quinhão de feiúra. A Natureza não poderia ter procedido em vão, ao obrar a minha face. Aquilo, sem dúvida, era a resposta a um pecado, a um crime. Mas que pecado, que crime havia eu cometido? Em busca de resposta, voltei-me para a infância. Verdade, eu fora malvada, mas não mais que a média das crianças; batia nas minhas irmãs, mas só de vez em quando, e mesmo assim de forma relativamente comedida: a minha agressão podia resultar em arranhões, em equimoses, mas não em luxações, por exemplo, e muito menos em fraturas. Não, nada em minha conduta pregressa podia explicar a imagem que eu vira e que agora não me abandonaria. Por minhas faltas passadas eu mereceria uma meia dúzia de verrugas, no máximo, e das menores. Ou um discreto estrabismo. Ou orelhas um pouco grandes. Não mais do que isso. Todo o resto devia-se a uma outra causa, uma causa externa. Eu era vítima, não vilã. Mas vítima de quem? Depois de pensar muito, achei a culpada: minha mãe. Aquela mulher quieta, assustadiça — tinha medo de tudo, do vento, da trovoada, mas temia sobretudo meu pai, que a tratava a pontapés —, nunca se aproximara muito de mim. Às vezes me contava uma história, às vezes entoava, em sua desafinada voz, uma canção de ninar qualquer; às vezes me acariciava o rosto — mas com mão arisca, trêmula. E a isso se resumira nossa relação.
Tendo olhado o espelho, eu agora identificava o motivo de sua conduta.
Ela me evitava por causa da fealdade, mas também, concluí, depois de muito pensar a respeito, por causa da culpa que devia sentir, culpa da qual a própria fealdade dava testemunho.
Culpa de quê? Buscando resposta para essa pergunta eu lembrava algo que me contara, eu ainda criança: quando estava grávida de mim, costumava olhar a montanha, a pedregosa, escalavrada montanha que dominava a paisagem em nossa região desértica. Esse comentário, fizera — em tom forçadamente casual, um tom destinado a mascarar a oculta inquietação, da qual sem dúvida não se dava conta — nem ela, nem, naquela época, eu. Mas tal inquietação, que eu agora em retrospecto detectava, era muito sugestiva, muito eloquente. Porque ali estava a explicação para a minha feiúra: na montanha. Naquele hostil acidente geográfico que eu aliás conhecia bem: era um lugar no qual eu, menina esquiva, frequentemente me refugiava, movida talvez, agora me ocorria, por certa afinidade eletiva, os medonhos traços de minha fisionomia correspondendo, em escala reduzida, mas nem por isso menos atroz, à torturada paisagem. Uma obtusa rocha era o meu nariz; a escura entrada de uma das muitas cavernas correspondia à minha boca. Muitos veem faces em nuvens; eu via na montanha — monumento ao insólito — a reprodução de meu próprio rosto. As impressões que minha mãe tivera durante a gestação se haviam gravado de maneira indelével na face da filha. Filha esta que certamente não desejara; nessa época meu pai estava atrás de uma outra mulher.
Emprenhara a esposa para que não atrapalhasse o ignóbil romance. Entre lágrimas, a desprezada grávida passava os dias olhando a montanha. Sabia que ali, oculto em uma caverna qualquer, estava seu fescenino marido trepando sem parar; queria pelo menos ir ao seu encontro quando ele, cansado e satisfeito, emergisse do esconderijo, para dirigir-lhe um olhar de censura. Até conseguiu esse objetivo, uma ou duas vezes, mas sem resultado algum: o homem estava cagando para a censura dela. A obsessiva vigilância teve, contudo, um inesperado efeito: a visão da montanha ficou impressa para sempre no meu rosto. Como aquelas mães que comem morango e o filho nasce com um sinal em tudo semelhante ao morango.
Inesperado efeito. Hum... Não sei se foi tão inesperado assim. Não teria, a minha mãe, sido guiada por um propósito oculto nessa obsessiva conduta? O cretino está me traindo, então vou me vingar dele deixando na cara do filho (era um varão que meu pai queria para primogênito; aliás, só queria filhos homens, mas Jeová o castigou dando-lhe três filhas, a primeira medonha) as mesmas marcas da crueldade que deixou em meu coração; e, com esse raciocínio, toca a olhar para as pedras. Que a criança nascesse medonha, era o que mais queria. Sua face, metafórica alusão à montanha onde meu pai pecara, se constituiria em permanente memento, em insistente denúncia, em contínuo protesto contra a fidelidade: um breve contra a luxúria, enfim. Deu resultado: nasci horrenda.
Que susto deve ter sentido meu pai quando me tomou nos braços. Que susto, que trauma.
A pergunta é: por que não me matou? Havia histórias, entre nossa gente, de pais que liquidavam recém-nascidas — jogando-as do alto da montanha, num abismo em cujo fundo, dizia-se à boca pequena, havia tantos ossinhos quanto calhaus. Uma primogênita era sempre um inconveniente, para dizer o mínimo: não garantia sucessão, não ajudava no trabalho e ainda precisaria de um dote para poder casar.
Agora, uma primogênita feia era mais do que isso, era um descalabro cujo destino só poderia ser o precipício.
Meu pai não me matou. O motivo, não sei. Talvez sofresse, ele também, de culpa — culpa era o componente essencial de nossa tradição. Em todas as histórias que os idosos contavam, havia sempre um deus impiedoso nos acusando de alguma coisa. Afora isso, é bem possível que meu pai sentisse algum remorso porque, diferente de minha mãe, a outra mulher não mostrava por ele nenhum respeito, espalhara que não passava de um amante incompetente. De modo que aceitou a muda acusação representada pela cara da recém-nascida.
Fui crescendo, cada vez mais feia. E ignorante de minha feiúra. Por falta do espelho, obviamente, mas essa falta eu podia ter suprido. Não faltam, na natureza, superfícies refletoras: uma poça d'água, por exemplo, faria as vezes de espelho, verdade que com o inconveniente da distorção (misericordiosa distorção, no meu caso) resultante da líquida ondulação.
E os olhos dos outros, não poderiam ter me servido indiretamente de espelho? A expressão de assombro, ou mesmo de horror, que eu vi, ou julguei ter visto, na face de pessoas que me miravam, não teria sido aquilo um indício suficiente? Mesmo que fosse cega (e como desejei a cegueira, logo após ter me mirado no espelho), nada impediria que me desse conta da realidade. Bastaria que tocasse meu rosto, bastaria que o explorasse com dedos medianamente espertos para detectar de imediato grotescas angulosidades, assustadoras assimetrias. Mas nunca o fiz. Tenho belas mãos (aliás tenho belos seios, belos quadris — sou da variedade paradoxal conhecida como feia-de-cara-mas-boa-de-corpo), e essas mãos, como que movidas por vontade própria, recusavam-se a excursionar ao sombrio país da face. Eu tentava convencê-las: vão lá, mãos, descubram a boca, o nariz, não temam o desconhecido, ousem, o mundo é dos ousados, quem não arrisca não petisca. Mas as mãos eram mais inteligentes que sua dona. Não, diziam, vamos ficar na nossa, a cara não é a nossa praia, para lá não queremos excursionar, não há pacote turístico que nos convença; preferimos ficar por aqui, empenhadas nas tarefas do cotidiano, tais como cozinhar, lavar, limpar — ou, na melhor das hipóteses, acariciando os seios, essas belas e suaves ondulações com as quais temos afinidade. E assim as mãos se juntaram ao faz-de-conta, ao deixa-pra-lá, ao tudo-bem, ao vamos-levando; à conspiração do silêncio, enfim. Astutas mãos. Em nossa terra, amputá-las era uma punição comum para ladrões e pervertidos sexuais. Minhas mãos não tinham cometido crime tão grave, mas sua omissão era também censurável.
Que eu tenha chegado a meu décimo oitavo ano de vida para enfim poder diagnosticar minha feiura mostra o quanto o ser humano, com ou sem a ajuda de outros, é capaz de se enganar. E também mostra o quanto é forte a tentação da mentira piedosa. Minha irmã, por exemplo, não desistiu de consertar os desastrosos efeitos do incidente com o espelho. Na manhã seguinte veio falar comigo. Contou uma história tão bem-intencionada quanto mal enjambrada, uma história que seguramente lhe havia custado uma noite de insônia. Depois de um exame acurado, afirmou, tinha detectado falhas no espelho, falhas que antes não notara e que certamente haviam prejudicado em muito minha imagem. Eu não deveria, portanto, me preocupar, tudo o que vira não passava de uma errônea impressão que um espelho um pouco menos imperfeito se encarregaria de corrigir.
Tive de reconhecer: estava fazendo o possível e o impossível para me convencer. Mas não foi bem-sucedida. Tudo o que lhe sobrava em comiseração (e em culpa) faltava-lhe em habilidade para mentir: gaguejava, evitava me olhar. Para poupá-la, menti também. Nisso é que dá, proclamei, recorrer a espelhos de qualidade duvidosa.
Eu sabia — anunciei, num tom muito mais convincente do que o dela —, eu sabia que não podia ser tão horrorosa.
Com o que sentiu-se aliviada, gratificada. Eu, não. Mentiras à parte, meu destino estava traçado. Agora eu era a feia, e tudo em minha vida seria condicionado por essa feiura. Homem algum gostaria de mim. Homem algum cantaria minha beleza em traços líricos. Minha vida amorosa seria tão árida quanto o deserto que nos rodeava.
Não nego: pensei em me matar. Tudo o que eu tinha de fazer era galgar a montanha e jogar-me no abismo. Meu corpo se despedaçaria contra as rochas; os abutres devorariam minha carne e minhas vísceras, meus ossos branquejariam ao sol no lugar que lhes havia, desde o começo dos tempos, sido destinado.

Moacyr Scliar, in A Mulher que escreveu a Bíblia

Nenhum comentário:

Postar um comentário