Essa
é a história que tenho lido, dia e noite, desde que ela se foi.
Procuro
a mim próprio, nessa história. Procuro-me nas linhas e nas
entrelinhas, procuro-me nos nomes próprios e nos nomes comuns,
procuro-me nos verbos e nos advérbios, nos pontos, nas vírgulas,
nas reticências. E não me acho. Assim como não me acho em lugar
nenhum. Estou perdido.
Continuo
atendendo em minha clínica, mas tenho pensado seriamente em mudar de
rumo, em retomar o estudo da História. Vou ganhar menos, e me
incomodar mais, mas espero não ter desilusões. Quero esquecê-la.
Que
mais? Ah, sim, ela era feia.
A
feiura é fundamental, ao menos para o entendimento desta história.
É feia, esta que vos fala. Muito feia. Feia contida ou feia furiosa,
feia envergonhada ou feia assumida, feia modesta ou feia orgulhosa,
feia triste ou feia alegre, feia frustrada ou feia satisfeita —
feia, sempre feia.
Desde
a infância eu suspeitava disso, de que era feia. As outras meninas
da aldeia, bonitas em geral, relutavam em brincar comigo; quando eu
aparecia, davam um jeito de escapulir, rindo à socapa. Ora, eu não
era aleijada, nem estúpida; por que fugiam? Era algo que viam em
mim, e de que não falavam. Assim, e por incrível que possa parecer,
só fui descobrir a extensão de minha fealdade aos dezoito anos.
Quem colaborou para isso, ironicamente, foi minha irmã mais nova, a
irmã que era amiga e confidente e a quem eu procurava sempre que
tinha algo a contar.
Uma
tarde, entrei no quarto e lá estava ela. Julgando-se só, mirava-se
ao espelho.
Eu
não sabia que minha irmã tinha um espelho. Ninguém sabia que minha
irmã tinha um espelho. Mais: ninguém sabia que havia um espelho na
casa.
Em
primeiro lugar, espelho era uma coisa cara, ao alcance só de nobres
e ricos proprietários. Não era o caso de nosso pai; embora
patriarca da aldeia, tinha apenas um rebanho de cabras, e nem era dos
maiores. Na verdade, até a época de meu avô nossa gente era
nômade; percorria o deserto em busca de pastagem para as cabras,
morava em tendas. Sempre fora assim e tudo indicava que sempre seria
assim. Meu pai, contudo, decidiu que a tribo teria residência fixa.
Seu sonho era que formássemos o núcleo de uma cidade, de uma cidade
que cresceria rapidamente, tornando-se uma metrópole, talvez a
capital de um império. Era um homem ambicioso, ele, ainda que não
muito inteligente. E intratável: não admitia ser contrariado.
Quando alguém lhe perguntava acerca da metrópole que antecipava, do
império, limitava-se a responder, seco: — Tu verás.
E
mais não dizia.
Enquanto
o futuro por meu pai profetizado não chegava, continuávamos morando
numa casa pequena, austera. Poucos móveis, nenhum conforto; qualquer
coisa que cheirasse a luxo seria abominação. Assim, mesmo que
pudesse comprar um espelho, não o faria. Isso é coisa dos demônios,
dizia, por trás de cada espelho está o Mal, pronto a usar a vaidade
para atrair as pessoas ao pecado. Não que fosse um exemplo de moral;
era um mulherengo conhecido, desses que não respeitam nem a mulher
do próximo.
Além
disso, andara metido em negócios escusos — parte de seu rebanho
era, para usar um eufemismo, de procedência duvidosa. Nada disso o
impedia de posar como um guardião da moralidade. Exigia da tribo, e
da família em particular, um comportamento irrepreensível. Não
tolerava a menor manifestação de vaidade nas filhas.
Uma
disposição que minha irmã desobedecera, ao obter (de que forma, só
depois eu descobriria) um pequeno espelho redondo, o espelho no qual
agora se olhava. Extasiada, e com razão: era linda, ela. Tão linda
quanto eu era feia. Grandes olhos, narizinho delicado, boca bem
desenhada... Linda mas imprudente: esquecera a porta aberta. E assim
eu pudera surpreendê-la em plena transgressão.
Ao
ver-me, assustou-se, quis esconder o espelho. Antes que o fizesse,
agarrei-a; dá-me isso, gritei, furiosa, quero olhar-me também. De
imediato deu-se conta do riscoque eu corria, tentou dissuadir-me: não
o faças, este espelho é maldito, me enfeitiçou, vai te enfeitiçar
também, nosso pai tinha razão em proibir essa coisa do demônio,
não te olhes, por favor, não te olhes, isso é vaidade, é
abominação, eu já pequei, não peques tu também.
De
nada adiantaram seus gritos, seu desespero. No fundo eu sabia que ela
queria poupar-me de algo para mim ainda desconhecido: a devastadora
revelação da minha feiura, da qual, àquela altura, eu apenas
suspeitava.
Tendo
visto o espelho, porém, eu não recuaria por nada neste mundo. Era
uma tentação irresistível; a vertigem do abismo, por assim dizer.
Pois que me tragasse, aquele abismo, a mim pouco importava: em busca
da verdade, de bom grado me precipitaria nele. No fundo eu talvez
nutrisse a esperança de um milagre, o espelho revelando-me um rosto
surpreendentemente belo, ou pelo menos não de todo feio. Talvez
fosse aquele um espelho mágico, mágico só para mim, bem entendido,
não para as outras; um espelho capaz de sintonizar com os ocultos
anseios da pessoa, procedendo, mediante a energia psíquica da qual
se tornaria instantaneamente depositário, a um completo
reordenamento — e embelezamento — de linhas faciais, aquela coisa
do sapo virando príncipe.
O
que pensei, o que almejei naquele instante, já não recordo. Só sei
que queria o espelho e faria qualquer coisa para consegui-lo.
Em
pânico, minha irmã tentou fugir. Fui em seu encalço, derrubei-a.
Lutamos.
Pouco: não era adversária para mim; o que eu tinha de feia, tinha
de forte... Dominei-a, arrebatei de sua mão o espelho. E pronto,
agora ele era meu.
Não
era dos melhores espelhos, aquele: um simples disco de bronze polido,
de qualidade duvidosa. Mas fazia o que todos os espelhos têm de
fazer, para felicidade ou desgraça de quem neles se mira: mostrava
um rosto. Meu rosto.
Eu
não podia acreditar no que estava vendo. Meu Deus, sou essa aí? Não
havia ali nenhuma simetria, naquela face, nem mesmo a temível
simetria do focinho do tigre; eu buscava em vão alguma harmonia. Não
era a grande harmonia das esferas que eu pretendia, um pequeno ser
harmônico já me seria suficiente, mas nem isso eu obtive porque
havia um conflito naquele rosto, a boca destoando do nariz, as
orelhas destoando entre si.
E
os olhos, que poderiam salvar tudo, eram estrábicos, um deles
mirando, desconsolado, o espelho, o outro com o olhar perdido,
fitando desamparado o infinito, talvez para não ter de enxergar a
cruel imagem. Detalhe (mas ainda é preciso detalhar? É, sim, é
preciso ir ao detalhe, é preciso descer até o fundo do melancólico
poço): sinais. Disseminados pela face, eu tinha — não contei, mas
acho que duas dezenas é uma estimativa até conservadora — sinais.
Sinais às pencas, um despropósito de sinais, um surto inflacionário
de sinais. Pela variedade, poderiam se constituir no objeto de um
tratado de dermatologia. Havia-os de variado tamanho e matiz. Um
deles me incomodava particularmente; de tão protuso; era quase
séssil, balançando desamparado no ar. A um vento mais forte, e
ventos fortes em nossa região não eram incomuns, se desprenderia e
seria levado para longe dali. Se caísse entre pedras feneceria, se
caísse na areia do deserto feneceria, se caísse na cratera de um
vulcão feneceria — e ele fenecendo eu só me alegraria, mas se
caísse em terra fértil... Se caísse em terra fértil germinaria, e
sabe Deus que planta nasceria dali, que estranha árvore de galhos
secos e retorcidos. Se a esse espécime dessem, mesmo que por
intuição, o epíteto de árvore da feia, eu não poderia me
queixar; o máximo que poderia fazer era tentar abatê-la na calada
da noite.
— Resumindo,
era isso o que eu via: a) assimetria flagrante; b) carência de
harmonia; c) estrabismo (ainda que moderado); d) excesso de sinais.
Falta
dizer que o conjunto era emoldurado (emoldurado! Essa é boa,
emoldurado! Emoldurado, como um lindo quadro é emoldurado!
Emoldurado!) por uns secos e opacos cabelos, capazes de humilhar
qualquer cabeleireiro.
O
que o espelho me mostrava era algo semelhante a uma paisagem
estranha, atormentada, na qual os acidentes (acidentes: muito
apropriado, o termo) geográficos não guardavam a menor relação
entre si. Uma catástrofe tinha ocorrido em minha face, um cataclismo
que seguramente antecedera de muito o meu nascimento; o que eu estava
vendo era a feiura arcaica, a feiura ancestral, uma feiura
consolidada pelos anos, pelos milênios, talvez.
Rosto
oculto entre as mãos, minha irmã soluçava baixinho. Não me dava
pena vê-la assim. Ao contrário, o que sentia era raiva — imensa,
incontida raiva, dela, da outra irmã, de meus pais. Por que não me
haviam dito antes que eu era tão feia? Por que me haviam enganado?
Por piedade, era a resposta mais óbvia. Tinham tentado poupar-me à
acabrunhante realidade mediante uma laboriosa conspiração. Ao longo
dos anos, haviam sido personagens de uma comédia, exitosamente
encenada para plateia reduzida: eu. “Aí vem ela, vamos fingir que
nada notamos em sua face, vamos fingir que ela é normal, um pouco
bela, até — não vamos nos mostrar deslumbrados diante de sua
beleza porque periga não colar, quando a esmola é demais o santo
desconfia, mas se nos portarmos de maneira natural, cairá
direitinho.” Espectadora única, eu fora facilmente enganada.
Verdade que a atuação deles, agora eu era forçada a reconhecer,
fora soberba. Ninguém falava de meus traços; ninguém diria, por
exemplo, como és bela — mas também ninguém diria, és medonha.
Guardariam silêncio, ou então recorreriam a sinuosas expressões de
elogio: como tu estás bonita com essa túnica. A afirmativa “tu
estás bonita” sempre se acompanharia de uma relativizadora
complementação (“com essa túnica”), o que atenuaria a mentira,
tornando-a suportável aos olhos de Jeová e ao mesmo tempo
alimentando a piedosa ilusão.
Com
um pouco de atenção eu teria percebido o embuste. Mas, será que eu
queria perceber o embuste? Ou estaria, eu própria, participando
dele, enganando-me — em parte para não frustrar a trupe familiar,
em parte para não descobrir a aterradora verdade? Essa dúvida já
não tinha sentido. A farsa não mais se sustentava.
Confrontada
com a realidade, eu dela não conseguiria escapar. Ah, se pudesse
voltar atrás... Por que me olhei naquele espelho, eu me perguntava,
golpeando o peito com incontida fúria, por que cedi à maldita
curiosidade, à maldita vaidade? Por que não me arrancou Jeová da
mão aquele revelador, mas funesto objeto? Hein, Jeová? Por que não
tomaste alguma providência, tu que sabes tudo, tu que podes tudo?
Podias ter reduzido o espelho a pó, com o simples ato de tua
vontade. Por que não o fizeste? Será que não existes, amigo? Hein?
Será que não passas de uma abstração, uma ilusão da ótica
emocional? Clamor inútil, inúteis recriminações. Nada mais podia
ser feito. Eu tinha me olhado ao espelho e pronto: o que tinha visto,
não esqueceria. Mas eu precisava, senão de consolo, ao menos de
explicação. Tinha de saber a razão pela qual coubera a mim tamanho
quinhão de feiúra. A Natureza não poderia ter procedido em vão,
ao obrar a minha face. Aquilo, sem dúvida, era a resposta a um
pecado, a um crime. Mas que pecado, que crime havia eu cometido? Em
busca de resposta, voltei-me para a infância. Verdade, eu fora
malvada, mas não mais que a média das crianças; batia nas minhas
irmãs, mas só de vez em quando, e mesmo assim de forma
relativamente comedida: a minha agressão podia resultar em
arranhões, em equimoses, mas não em luxações, por exemplo, e
muito menos em fraturas. Não, nada em minha conduta pregressa podia
explicar a imagem que eu vira e que agora não me abandonaria. Por
minhas faltas passadas eu mereceria uma meia dúzia de verrugas, no
máximo, e das menores. Ou um discreto estrabismo. Ou orelhas um
pouco grandes. Não mais do que isso. Todo o resto devia-se a uma
outra causa, uma causa externa. Eu era vítima, não vilã. Mas
vítima de quem? Depois de pensar muito, achei a culpada: minha mãe.
Aquela mulher quieta, assustadiça — tinha medo de tudo, do vento,
da trovoada, mas temia sobretudo meu pai, que a tratava a pontapés
—, nunca se aproximara muito de mim. Às vezes me contava uma
história, às vezes entoava, em sua desafinada voz, uma canção de
ninar qualquer; às vezes me acariciava o rosto — mas com mão
arisca, trêmula. E a isso se resumira nossa relação.
Tendo
olhado o espelho, eu agora identificava o motivo de sua conduta.
Ela
me evitava por causa da fealdade, mas também, concluí, depois de
muito pensar a respeito, por causa da culpa que devia sentir, culpa
da qual a própria fealdade dava testemunho.
Culpa
de quê? Buscando resposta para essa pergunta eu lembrava algo que me
contara, eu ainda criança: quando estava grávida de mim, costumava
olhar a montanha, a pedregosa, escalavrada montanha que dominava a
paisagem em nossa região desértica. Esse comentário, fizera — em
tom forçadamente casual, um tom destinado a mascarar a oculta
inquietação, da qual sem dúvida não se dava conta — nem ela,
nem, naquela época, eu. Mas tal inquietação, que eu agora em
retrospecto detectava, era muito sugestiva, muito eloquente. Porque
ali estava a explicação para a minha feiúra: na montanha. Naquele
hostil acidente geográfico que eu aliás conhecia bem: era um lugar
no qual eu, menina esquiva, frequentemente me refugiava, movida
talvez, agora me ocorria, por certa afinidade eletiva, os medonhos
traços de minha fisionomia correspondendo, em escala reduzida, mas
nem por isso menos atroz, à torturada paisagem. Uma obtusa rocha era
o meu nariz; a escura entrada de uma das muitas cavernas correspondia
à minha boca. Muitos veem faces em nuvens; eu via na montanha —
monumento ao insólito — a reprodução de meu próprio rosto. As
impressões que minha mãe tivera durante a gestação se haviam
gravado de maneira indelével na face da filha. Filha esta que
certamente não desejara; nessa época meu pai estava atrás de uma
outra mulher.
Emprenhara
a esposa para que não atrapalhasse o ignóbil romance. Entre
lágrimas, a desprezada grávida passava os dias olhando a montanha.
Sabia que ali, oculto em uma caverna qualquer, estava seu fescenino
marido trepando sem parar; queria pelo menos ir ao seu encontro
quando ele, cansado e satisfeito, emergisse do esconderijo, para
dirigir-lhe um olhar de censura. Até conseguiu esse objetivo, uma ou
duas vezes, mas sem resultado algum: o homem estava cagando para a
censura dela. A obsessiva vigilância teve, contudo, um inesperado
efeito: a visão da montanha ficou impressa para sempre no meu rosto.
Como aquelas mães que comem morango e o filho nasce com um sinal em
tudo semelhante ao morango.
Inesperado
efeito. Hum... Não sei se foi tão inesperado assim. Não teria, a
minha mãe, sido guiada por um propósito oculto nessa obsessiva
conduta? O cretino está me traindo, então vou me vingar dele
deixando na cara do filho (era um varão que meu pai queria para
primogênito; aliás, só queria filhos homens, mas Jeová o castigou
dando-lhe três filhas, a primeira medonha) as mesmas marcas da
crueldade que deixou em meu coração; e, com esse raciocínio, toca
a olhar para as pedras. Que a criança nascesse medonha, era o que
mais queria. Sua face, metafórica alusão à montanha onde meu pai
pecara, se constituiria em permanente memento, em insistente
denúncia, em contínuo protesto contra a fidelidade: um breve contra
a luxúria, enfim. Deu resultado: nasci horrenda.
Que
susto deve ter sentido meu pai quando me tomou nos braços. Que
susto, que trauma.
A
pergunta é: por que não me matou? Havia histórias, entre nossa
gente, de pais que liquidavam recém-nascidas — jogando-as do alto
da montanha, num abismo em cujo fundo, dizia-se à boca pequena,
havia tantos ossinhos quanto calhaus. Uma primogênita era sempre um
inconveniente, para dizer o mínimo: não garantia sucessão, não
ajudava no trabalho e ainda precisaria de um dote para poder casar.
Agora,
uma primogênita feia era mais do que isso, era um descalabro cujo
destino só poderia ser o precipício.
Meu
pai não me matou. O motivo, não sei. Talvez sofresse, ele também,
de culpa — culpa era o componente essencial de nossa tradição. Em
todas as histórias que os idosos contavam, havia sempre um deus
impiedoso nos acusando de alguma coisa. Afora isso, é bem possível
que meu pai sentisse algum remorso porque, diferente de minha mãe, a
outra mulher não mostrava por ele nenhum respeito, espalhara que não
passava de um amante incompetente. De modo que aceitou a muda
acusação representada pela cara da recém-nascida.
Fui
crescendo, cada vez mais feia. E ignorante de minha feiúra. Por
falta do espelho, obviamente, mas essa falta eu podia ter suprido.
Não faltam, na natureza, superfícies refletoras: uma poça d'água,
por exemplo, faria as vezes de espelho, verdade que com o
inconveniente da distorção (misericordiosa distorção, no meu
caso) resultante da líquida ondulação.
E
os olhos dos outros, não poderiam ter me servido indiretamente de
espelho? A expressão de assombro, ou mesmo de horror, que eu vi, ou
julguei ter visto, na face de pessoas que me miravam, não teria sido
aquilo um indício suficiente? Mesmo que fosse cega (e como desejei a
cegueira, logo após ter me mirado no espelho), nada impediria que me
desse conta da realidade. Bastaria que tocasse meu rosto, bastaria
que o explorasse com dedos medianamente espertos para detectar de
imediato grotescas angulosidades, assustadoras assimetrias. Mas nunca
o fiz. Tenho belas mãos (aliás tenho belos seios, belos quadris —
sou da variedade paradoxal conhecida como
feia-de-cara-mas-boa-de-corpo), e essas mãos, como que movidas por
vontade própria, recusavam-se a excursionar ao sombrio país da
face. Eu tentava convencê-las: vão lá, mãos, descubram a boca, o
nariz, não temam o desconhecido, ousem, o mundo é dos ousados, quem
não arrisca não petisca. Mas as mãos eram mais inteligentes que
sua dona. Não, diziam, vamos ficar na nossa, a cara não é a nossa
praia, para lá não queremos excursionar, não há pacote turístico
que nos convença; preferimos ficar por aqui, empenhadas nas tarefas
do cotidiano, tais como cozinhar, lavar, limpar — ou, na melhor das
hipóteses, acariciando os seios, essas belas e suaves ondulações
com as quais temos afinidade. E assim as mãos se juntaram ao
faz-de-conta, ao deixa-pra-lá, ao tudo-bem, ao vamos-levando; à
conspiração do silêncio, enfim. Astutas mãos. Em nossa terra,
amputá-las era uma punição comum para ladrões e pervertidos
sexuais. Minhas mãos não tinham cometido crime tão grave, mas sua
omissão era também censurável.
Que
eu tenha chegado a meu décimo oitavo ano de vida para enfim poder
diagnosticar minha feiura mostra o quanto o ser humano, com ou sem a
ajuda de outros, é capaz de se enganar. E também mostra o quanto é
forte a tentação da mentira piedosa. Minha irmã, por exemplo, não
desistiu de consertar os desastrosos efeitos do incidente com o
espelho. Na manhã seguinte veio falar comigo. Contou uma história
tão bem-intencionada quanto mal enjambrada, uma história que
seguramente lhe havia custado uma noite de insônia. Depois de um
exame acurado, afirmou, tinha detectado falhas no espelho, falhas que
antes não notara e que certamente haviam prejudicado em muito minha
imagem. Eu não deveria, portanto, me preocupar, tudo o que vira não
passava de uma errônea impressão que um espelho um pouco menos
imperfeito se encarregaria de corrigir.
Tive
de reconhecer: estava fazendo o possível e o impossível para me
convencer. Mas não foi bem-sucedida. Tudo o que lhe sobrava em
comiseração (e em culpa) faltava-lhe em habilidade para mentir:
gaguejava, evitava me olhar. Para poupá-la, menti também. Nisso é
que dá, proclamei, recorrer a espelhos de qualidade duvidosa.
— Eu
sabia — anunciei, num tom muito mais convincente do que o dela —,
eu sabia que não podia ser tão horrorosa.
Com
o que sentiu-se aliviada, gratificada. Eu, não. Mentiras à parte,
meu destino estava traçado. Agora eu era a feia, e tudo em minha
vida seria condicionado por essa feiura. Homem algum gostaria de
mim. Homem algum cantaria minha beleza em traços líricos. Minha
vida amorosa seria tão árida quanto o deserto que nos rodeava.
Não
nego: pensei em me matar. Tudo o que eu tinha de fazer era galgar a
montanha e jogar-me no abismo. Meu corpo se despedaçaria contra as
rochas; os abutres devorariam minha carne e minhas vísceras, meus
ossos branquejariam ao sol no lugar que lhes havia, desde o começo
dos tempos, sido destinado.
Moacyr Scliar, in A Mulher que escreveu a Bíblia

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