29/12/2023
Sobre vacas e sabonetes
Você
leu um texto meu em que eu falava sobre as múltiplas utilidades das
vacas. De fato, das vacas se aproveita tudo. Quem tem um rebanho de
vacas tem o futuro garantido. Razão por que, em tempos idos, se
media a riqueza de uma pessoa pela quantidade de cabeças de gado que
possuía. Primeiro, é o leite. Do leite, o queijo, a manteiga, o
requeijão, a ricota, a coalhada, o iogurte, o doce de leite, os
sorvetes, os bolos. Seguindo o leite, a utilidade da carne:
churrascos, bifes, assados, caldos, pastéis, picadinhos, sanduíches,
etc. A carne, como se sabe, tem também uma utilidade médica: um
bife cru aplicado sobre um hematoma, diz-se, tem um poder curativo. E
aqui, bem baixinho, se vocês não leram o livro Portnoy’s
Complaint [A queixa de Portnoy], de Philip Roth –, leiam-no
para dar risadas e para aprender sobre um uso erótico inominável
que Portnoy dava aos bifes que posteriormente seriam comidos pela
família. Há também a utilidade do couro: couro decorativo, como
tapete; couro para fazer roupa; couro para fazer cabrestos; couro
para fazer escudos de guerra, nos tempos antigos; couro para fazer
sapatos, pastas, botas, móveis; couro para fazer chicotes. A
utilidade dos chifres, que se usam como instrumentos musicais,
berrantes, para fazer botões, para fazer taças de guerreiros
ferozes. Não sei as razões das expressões “chifrudo”, “pôr
chifre”. Até a bosta das vacas é útil, como se sabe. Pois,
usadas como esterco, delas pode nascer a beleza delicada das flores.
E um amigo meu, já encantado, o Geraldo Jurgensen, usou pizzas de
bosta de vaca secas, depois de escovadas e pintadas a spray
dourado, para fazer móbiles levíssimos para decoração de loja
grã-fina no shopping... Tudo isso você entendeu.
Mas
eu disse que das vacas também se faz sabão. Isso você não
entendeu. O que revela sua pouca idade e o fato de você não ter
vivido na roça, em lugares de fogão de lenha. O sebo da vaca, que
você pede que o açougueiro tire, era cuidadosamente guardado
embaixo do fogão. Ele era matéria-prima para a feitura do famoso
sabão preto (que alguns afirmam ter propriedades embelezadoras). Era
assim que se fazia. Numa lata de querosene de 18 litros, na qual se
faziam alguns furos a prego no fundo, se colocava a cinza retirada do
fogão. A cinza era impiedosamente pilada por meio de um pilão, até
ficar dura como pedra. Então, diariamente, se colocava um pouquinho
de água sobre a cinza. A água filtrava e pingava, através dos
furos, num prato. O líquido era negro como café, conhecido por
“diquada” (esse nome não se encontra no Aurélio). Segundo me
disseram, esse líquido continha potássio, de propriedades
detergentes. Aí se ajuntavam, num tacho enorme de cobre, o sebo e a
“diquada” e se acendia um fogaréu embaixo. A coisa ia
derretendo, misturando, fervendo, bolhas infernais estourando, a
poção sendo mexida com uma longuíssima colher de pau, para evitar
que os estouros das bolhas caíssem na pele. Ao final, esfriada a
pasta negra, ela era enrolada em forma e tamanho de laranjas e
embrulhada em palha de milho. Esse sabão era parte importantíssima
do uso e da economia de qualquer casa de antigamente.
Uma
vez, visitando a aldeia de Salem, nos Estados Unidos – aquela da
caça às bruxas –, encontrei-me com uma reprodução da aldeia dos
primeiros colonizadores ingleses que vieram para a América do Norte.
Do jeito mesmo como viviam. Pois, num canto, estava a sua fabriqueta
de sabão, que era igualzinha àquela que havia na minha casa.
Se
os fabricantes modernos de sabão ainda usam sebo de vaca, não sei.
Mas o cheiro que se sente ao passar perto de suas fábricas me cria
suspeitas. Quem sabe, o delicado e perfumado sabonete que você usa
para aveludar a sua cútis é feito com sebo de vaca?
Rubem Alves, in Se eu pudesse viver minha vida novamente
A medida do abismo
Não
é o grito
A
medida do abismo?
Por
isso eu grito
Sempre
que cismo
Sobre
tua vida
Tão
louca e errada...
– Que
grito inútil!
– Que
imenso nada!
Vinicius de Moraes, in Para viver um grande amor
Carey e Clay e El Matador no quintal
Ele
jamais esqueceria o dia em que a viu pela primeira vez na rua Archer,
ou melhor, o dia em que ela olhou para cima e o viu.
Era
início de dezembro.
Ela
havia feito uma viagem de carro de sete horas com os pais, e a tarde
já se aproximava do fim quando estacionaram na rua. Logo atrás
vinha um caminhão de mudança com caixas, mobília e
eletroeletrônicos, alocados primeiro na varanda e depois carregados
para dentro da casa. Também havia selas, rédeas e estribos, o
material de turfe tão importante para o pai dela. Ele foi jóquei,
vinha de uma família de jóqueis, e os irmãos mais velhos dela
também seguiam os passos do patriarca, participando de competições
em cidades com nomes esquisitos.
Devia
fazer uns quinze minutos que eles tinham chegado quando de repente a
menina parou no meio do gramado. Estava com uma caixa debaixo de um
braço, enquanto o outro se ocupava com uma torradeira que, de alguma
maneira, se soltara no caminho, o fio do aparelho arrastando pelo
chão.
— Olha
ali — disse ela, apontando casualmente para o outro lado da rua. —
Tem um menino naquele telhado.
***
Um
ano e alguns meses depois, naquela noite de sábado, um farfalhar de
pés anunciava sua chegada às Cercanias.
— Oi,
Clay.
Ele
sentiu a boca e o sangue e o calor e o coração dela. Tudo em um
único suspiro.
— Oi,
Carey.
Eram
umas nove e meia, e ele esperava por ela no colchão.
Também
havia mariposas por lá. E a lua.
O
menino se deitou de costas.
A
garota parou na beirada e pôs algo no chão, então se deitou
também, passando a perna de leve por cima do corpo dele. Clay sentiu
o cabelo castanho-avermelhado dela roçando em seu pescoço e, como
sempre, se deleitou com as cócegas. Sentiu que ela havia notado o
vermelho em seu rosto e decidido que era melhor não tocar no assunto
ou procurar outros ferimentos.
Mas
ela não conseguiu se conter.
— Vocês
são fogo... — disse, alisando o machucado, esperando Clay dizer
alguma coisa.
— Está
gostando do livro? — perguntou ele. As palavras saíram com
dificuldade no começo, pesadas, como se precisassem ser suspensas
por uma roldana. — Continua bom da terceira vez?
— Está
ainda melhor. Rory não te falou?
Clay
tentou lembrar se Rory tinha mencionado algo do tipo.
— Eu
esbarrei com ele na rua um dia desses — prosseguiu ela. — Acho
que foi um pouquinho antes de...
Clay
estava prestes a se levantar, mas se deteve.
— Antes...
antes do quê?
Ela
sabia.
Sabia
que ele tinha voltado para casa.
Por
ora, Clay achou melhor deixar essa conversa pra lá, preferindo
voltar sua atenção para O marmoreiro e para o pule de aposta
velho e desbotado que servia como marcador de página, o do El
Matador no quinto.
— Aliás,
em que parte você está? — perguntou. — Ele já foi trabalhar em
Roma?
— E
em Bolonha também.
— Que
rápida. Ainda está apaixonada pelo nariz quebrado dele?
— Claro.
Você sabe que eu não resisto.
Ele
abriu um sorriso grande, porém breve.
— Eu
também não.
Carey
adorava saber que Michelangelo, quando adolescente, bancou o
espertinho e acabou arranjando um nariz quebrado. Era um lembrete de
que ele era humano. Uma insígnia de imperfeição.
Para
Clay, a questão era ligeiramente mais pessoal.
Porque
acontece que aquele não era o primeiro nariz quebrado de que ele
tinha conhecimento.
***
Um
tempo atrás — bastante tempo atrás, na verdade, dias após a
mudança de Carey —, Clay estava na varanda de casa comendo uma
torrada, com o prato apoiado no corrimão. Tinha acabado de dar a
última mordida quando Carey atravessou a rua Archer, vestindo uma
camisa de flanela com as mangas dobradas até os cotovelos e jeans
muito surrados, trazendo consigo o último raio de sol:
O
brilho de seus antebraços.
Os
ângulos de seu rosto.
Os
dentes dela, por exemplo, não eram exatamente brancos, não eram
exatamente retos, mas havia algo de notável neles, algo especial. De
tanto rangê-los durante o sono, eles ganharam um aspecto peculiar,
como vidro marinho, erodidos até ficarem lisos.
Carey
não sabia se ele tinha notado sua presença, mas então o garoto
desceu timidamente os degraus da varanda, ainda com o prato nas mãos.
A
uma distância curta-porém-cautelosa, ela o estudou, com interesse,
com uma curiosidade faceira.
A
primeira palavra que ele lhe disse foi:
— Desculpa.
Falou
para baixo, para o prato.
***
Após
o silêncio confortável de costume, Carey tornou a falar. Seu queixo
estava encostado na clavícula dele, e, daquela vez, ela o faria
confrontar a realidade.
— Então...
— começou ela. — Ele voltou...
Ali
eles nunca falavam aos sussurros. Conversavam baixinho, com
serenidade, como amigos.
— Matthew
me contou — confessou ela.
Clay
sentiu o machucado repuxar.
— Você
encontrou o Matthew?
Ela
assentiu bem de leve e o tranquilizou:
— Na
quinta agora. Ele estava tirando o lixo quando eu cheguei. É meio
impossível não esbarrar com os garotos Dunbar, sabia?
E
Clay quase desmoronou:
O
nome Dunbar, prestes a desaparecer.
— Deve
ter sido bem difícil ver... — comentou ela, completando a frase
logo depois — ... Vê-lo.
— Já
vi coisas mais difíceis.
Era
verdade, e ambos sabiam.
— Matthew
falou algo sobre uma ponte...
Era
verdade, eu tinha falado mesmo. Era uma das características mais
desconcertantes de Carey Novac: você sempre acabava contando para
ela muito mais do que deveria.
Mais
silêncio. Uma mariposa rodopiava.
O
som ficou mais próximo quando ela voltou a falar. Clay sentiu o peso
de cada uma daquelas palavras, como se estivessem sendo depositadas
em sua garganta.
— Clay,
você vai embora para construir uma ponte?
Aquela
mariposa se recusava a ir embora.
***
— Por
quê? — perguntara ela, naquela varanda de tanto tempo atrás. —
Por que você está pedindo desculpas?
A
noite já se espalhara pela rua.
— Ah,
porque naquele dia eu devia ter ajudado você com a mudança, em vez
de só ficar sentado, olhando.
— No
telhado?
Ele
já gostava dela.
Gostava
das suas sardas.
Da
forma que elas se distribuíam pelo rosto dela.
Só
dava para notar se você olhasse de verdade.
***
Clay
navegou, então, para um lugar livre do nosso pai.
— Ei
— disse, virando-se para ela. — Você ficou de me passar umas
dicas de aposta. Acha que vai me dar hoje?
Ela
se aninhou com mais vontade nele e falou, brincando:
— Se
eu vou te dar, é? Que abusado. Vê se me respeita, garoto.
— Não...
Não foi isso que eu quis dizer... Queria que você me desse umas
dicas...
A
voz dele foi se dissipando, e tudo aquilo era parte do jogo. Era
sempre assim nas Cercanias, por mais que sábado à noite fosse o
pior dia para receber orientações de aposta, já que todas as
corridas importantes já tinham acontecido na tarde do mesmo dia. O
outro dia de competições, menos prestigioso, era quarta-feira, mas,
como eu disse, esse diálogo sobre apostas não passava de um ritual.
— O
que andam falando por aí? — retomou ele.
Carey
deu um sorrisinho, animada para mais uma provocação.
— Vou
te dar tantas dicas que você não vai conseguir pensar em outra
coisa — disse, deslizando os dedos pela clavícula dele. — El
Matador no quinto.
Clay
notou que, embora ela estivesse se divertindo com a conversa, seus
olhos lutavam para conter as lágrimas, e a abraçou com um tantinho
mais de força, e Carey aproveitou para baixar o rosto, pousando a
cabeça no peito dele.
O
coração dele disparou portões afora.
Ele
se perguntou se ela conseguia escutar.
***
Ainda
em frente à casa dele, eles continuaram conversando. Ela estava
interessada nos números.
— Quantos
anos você tem?
— Quase
quinze.
— Ah,
é? Eu tenho quase dezesseis.
A
garota chegou mais para perto e meneou a cabeça de leve em direção
ao telhado.
— Por
que você não está lá em cima agora?
Ele
ficou agitado. Carey sempre o deixava assim — não que ele não
gostasse.
— Matthew
me falou para tirar o dia de folga. Ele vive me dizendo isso.
— Matthew?
— Já
deve ter cruzado com ele por aí. É meu irmão mais velho. Fala
“Jesus Cristo” toda hora.
Clay
sorriu, e ela aproveitou a oportunidade.
— Por
que você vai lá para cima?
— Ah,
sabe como é... — Ele pensou na melhor maneira de explicar. — Dá
para ver bem longe de lá.
— Posso
subir um dia?
Ele
ficou surpreso com o pedido e sentiu uma vontade incontrolável de
fazer uma piadinha.
— Não
sei, não. Não é nada fácil chegar lá em cima.
Carey
riu, mordendo a isca.
— Difícil
porra nenhuma. Se você consegue, eu também consigo.
— Porra
nenhuma?
Ambos
deram um risinho frouxo.
— Prometo
que não vou te distrair. — Então ela teve uma ideia. — Se me
deixar subir, levo meus binóculos.
Parecia
que ela sempre estava pensando à frente.
***
Às
vezes, quando estava com Carey, as Cercanias pareciam mais amplas.
Os
eletrodomésticos carcomidos davam a impressão de ser apenas
monumentos distantes.
O
subúrbio parecia ainda mais remoto.
Naquela
noite, depois das dicas de Carey e do El Matador, eles conversaram
sobre as competições. Clay perguntou se ela conseguiria participar
de alguma corrida, algo além de treinos e páreos-teste. Carey
respondeu que McAndrew ainda não dissera nada, mas que sabia o que
estava fazendo. Se insistisse muito, seria pior para ela, acabaria
prejudicando o progresso feito até ali.
É
claro que, enquanto ela falava, sua cabeça permanecia pousada no
peito dele, ou no pescoço, o momento preferido de Clay no mundo. Em
Carey Novac, o garoto encontrara alguém que o conhecia, alguém que
era ele, em todos os aspectos que importavam — exceto um. Clay
sabia que, se pudesse, ela daria tudo para compartilhar com ele
também aquilo:
O
motivo pelo qual ele carregava o pregador.
Em
troca, ela abriria mão de sua vaga de aprendiz de joqueta, de sua
primeira vitória no pomposo Grupo Um ou até de uma vaga em uma
corrida de grande prestígio. Tenho certeza, inclusive, de que ela
abriria mão da chance de competir na corrida anual da cidade, ou na
que mais amava: a Cox Plate.
Mas
ela não podia fazer nada disso.
O
que ela podia fazer era definir, sem pensar duas vezes, a melhor
forma de se despedir dele. Por isso, bem baixinho, ela suplicou,
suave mas assertiva:
— Não
faz isso, Clay. Não vai, não me deixa... mas vai.
Se
estivesse em um dos épicos de Homero, seria a Carey Novac dos olhos
cintilantes, ou a Carey dos olhos preciosos. Ela fez questão de
deixar claro o tamanho da saudade que sentiria dele, mas que também
esperava — na verdade, exigia — que ele fosse fazer o que tinha
que ser feito.
Não
faz isso, Clay. Não vai, não me deixa... mas vai.
***
Lá
atrás, logo depois de ir embora, ela se deu conta.
Cruzando
a rua Archer, deu meia-volta.
— Ei,
qual é o seu nome?
O
garoto, lá na frente da varanda:
— Clay.
Silêncio.
— E
você? Não quer saber qual é o meu nome?
Ela
falava como se já o conhecesse desde sempre, e Clay se corrigiu, fez
a pergunta, e a menina andou até ele.
— Meu
nome é Carey — disse ela, e já estava se virando para ir embora
de novo quando Clay teve uma dúvida repentina.
— Ei,
como se soletra o seu nome?
Então
ela voltou correndo e pegou o prato.
Com
a ponta do dedo, escreveu cuidadosamente o nome entre as migalhas,
rindo ao perceber que era impossível decifrar a palavra, mas ambos
já sabiam que letras estavam ali, principalmente o C e o R.
Então
ela abriu um sorriso para ele, breve porém afável, atravessou a rua
e foi para casa.
***
Eles
permaneceram ali mais uns vinte minutos, em silêncio, assim como as
Cercanias que os envolviam.
Então
veio a pior parte de sempre:
Carey
Novac se afastou dele.
Sentou-se
na beira do colchão, mas, em vez de se levantar e ir embora, se
ajoelhou ao lado da cama, no lugar em que se detivera ao chegar, e
havia um pacote em suas mãos, embrulhado em jornal; então, bem
devagar, ela o colocou no peito dele. Nada mais foi dito.
Nada
de Olha só, trouxe um presente para você.
Ou
Toma.
Muito
menos um Muito obrigado da parte de Clay.
Ele
só abriu o pacote depois que a menina partiu, e o que havia ali
dentro o surpreendeu.
Markus Zusak, in O construtor de pontes
Os Nascimentos | 1523 – Painala
A
Malinche
De
Cortez teve um filho, e para Cortez abriu as portas de um império.
Foi sua sombra e vigia, intérprete, conselheira, mensageira e
amante, tudo isso ao longo da conquista do México; e continua
cavalgando ao seu lado.
Passa
por Painala vestida de espanhola, veludos, sedas, cetins, e no
princípio ninguém reconhece a florida senhora que vem com os novos
amos. Do alto de um cavalo alazão, a Malinche passeia seu olhar
pelas margens do rio, respira fundo o aroma adocicado do ar e busca,
em vão, os rincões da folhagem onde há mais de vinte anos
descobriu a magia e o medo. Passaram-se muitas chuvas e vendavais e
penas e pesares desde que sua mãe vendeu-a como escrava e foi
arrancada da terra mexicana para servir aos senhores maias de
Yucatán.
Quando
a mãe descobre quem é a que chegou de visita a Painala, se atira
aos seus pés e se banha em lágrimas suplicando perdão. A Malinche
detém a choradeira com um gesto, levanta sua mãe pelos ombros,
abraça-a e pendura em seu pescoço os colares que usa. Depois, monta
o cavalo e segue seu caminho junto aos espanhóis.
Não
necessita odiar sua mãe. Desde que os senhores de Yucatán a deram
de presente a Hernán Cortez, há quatro anos, a Malinche teve tempo
de vingar-se. A dívida está paga: os mexicanos se inclinam e tremem
quando a veem chegar. Basta um olhar de seus olhos negros para que um
príncipe balance na forca. Sua sombra flutuará, além da morte,
sobre a grande Tenochtitlán que ela tanto ajudou a derrotar e a
humilhar, e seu fantasma de cabelos soltos e túnica flutuante
continuará metendo medo, para sempre, saído dos bosques e das
grutas de Chapultepec.
Eduardo Galeano, in Os Nascimentos
Laranja Mecânica | Capítulo 6
Um
pouco adiante do Duke of New York, indo pro leste, tinha escritórios
e depois a estarre bíblio surrada e depois tinha um bolche prédio
de apartamentos chamado Edifício Victória, por causa de uma vitória
qualquer, e depois a gente chegava às casas estarres da cidade, no
lugar que era por isso chamado Oldtown. Aqui é que se encontravam os
domes antigos mais horrorshow, meus irmãos, com liúdes estarres
morando, tipo coronéis velhos magros e de bastãozinho falando aos
latidos e velhas ptitsas viúvas e damas estarres surdas, com gatos,
que não tinham jamais sentido o toque de um tcheloveque em toda a
sua djísene de pureza. E aqui, é verdade, tinha véssiches estarres
que pegariam o seu quinhão de cortador no mercado dos turistas, como
quadros e jóias e toda essa quel estarre pré-plástica desse tipo.
Então nós chegamos muito devagarzinho a essa casa chamada Solar e
tinha globos de luz em hastes de ferro do lado de fora assim
guardando a porta da frente de cada lado, e tinha uma luz fraca num
dos quartos, no andar de baixo, e a gente foi até um pedaço da rua
escura espiar pela janela o que é que estava itando lã dentro. A
janela tinha barras de ferro do lado de fora, como se a casa fosse
uma prisão, mas a gente videava direitinho o que é que estava
itando.
O
que estava itando é que aquela ptitsa estarre, de volosse muito
grisalho, e um litso muito enrugado, estava botando moloco de uma
garrafa em pires e depois botando esses pires no chão, de modo que
já se sabia que tinha uni bocado de cotes e cóchecas miando e se
enroscando ali por baixo. E a gente podia videar um ou dois gordos
que nem umas escotinas pulando pra cima da mesa, as rotes abertas
fazendo mé mé mé. E se videava a babúcheca velha respondendo a
eles, govoritando tatebitate assim com os bichaninhos. No quarto,
dava pra videar uma porção de quadros antigos nas paredes e
relógios estarres muito elaborados e também alguns vasos e
ornamentos que pareciam estarres e dorogóis. Georgie sussurrou: –
Tem coisa aí que dá um dengue horrorshow de alto, irmãos. Will o
Inglês está seco atrás disso. – Pete falou: - Entrar como?
– Agora
era comigo e escorre, antes que Georgie começasse a dizer como. –
A primeira véssiche – murmurei – é tentar o caminho normal,
pela frente. Eu vou, muito educado, e digo que um dos meus drugues
teve assim um desmaio esquisito no meio da rua. O Georgie pode ficar
pronto pra aparecer fazendo esse papel quando ela abrir a porta.
Depois, pedir água, ou pra telefonar pro doutor. Aí, a gente entra
fácil. – Georgie falou:
– Pode
ser que ela não abra. – Eu disse:
– Agente
tenta, não é? – Ele deu de ombros, fazendo boca de sapo. Então
eu disse a Pete e ao Tapado: - Vocês, drugues, ficam um de cada lado
da porta. Certo? – Eles menearam a cabeça na penumbra, certo,
certo, certo. –
Então...
– disse eu pro Georgie, e saí sem rebouços, direto à porta da
frente. Tinha um cordão de campainha e eu puxei e soou brrrr brrrr
dentro do vestíbulo. Seguiu-se assim uma sensação de silêncio,
como se a ptitsa e seus cóchecas estivessem todos de ouvidos
voltados pro brrrr brrrr, intrigados. Aí, eu puxei o esvonoque com
um pouco mais de urgência. Depois abaixei até à caixa das cartas e
clamei com uma golosse assim refinada:
– Auxilio,
minha senhora, por favor. Meu amigo acaba de ter um mal-estar no meio
da rua. Deixe-me telefonar para um médico, por favor. - Então eu
pude videar uma luz sendo acesa no vestíbulo e ouvir as nogas da
babúcheca velha com os chinelos fazendo lepe lepe para mais perto da
porta da frente e me veio a idéia, não sei por quê, de que ela
carregava um gatarrão enorme debaixo de cada braço. Então ela
retrucou assim numa golosse surpreendentemente grossa:
– Vá-se
embora. Vá-se embora ou eu atiro. – Georgie ouviu e ficou com
vontade de rir. Eu disse, com sofrimento e pressa na minha golosse de
cavalheiro:
– Por
favor, me ajude, minha senhora. Meu amigo está muito doente!
– Vá-se
embora respondeu ela. – Eu conheço esses seus macetes pra me fazer
abrir a porta e comprar coisas que eu não quero. Olhe o que eu estou
dizendo: vá-se embora. – Que era uma inocência muito linda, lá
isso era. – Vá-se embora – repetiu ela - ou eu atiço os meus gatos
em cima de você.
Ela
era um malenquezinho bezúnime, percebia-se, à força de passar a
djísene completamente no odinoque. Eu aí olhei pro alto e videei
que tinha uma folha de janela basculante acima da porta de entrada e
que seria muito mais escorre dar só aquela subida no pletcho de
alguém e entrar assim. Senão ia ficar aquela discussão a nótchi
inteira. Então eu disse:
– Muito
bem, minha senhora. Se a senhora não quer me ajudar, eu vou ter que
levar o meu amigo doente a outra casa. – E pisquei o olho pros meus
drugues, todos afastados e calados, só eu gritando. "É, amigo,
na certa você há de encontrar alguma boa samaritana em outro lugar
qualquer. Esta senhora talvez não tenha culpa de ser tão
desconfiada, com tanto patife e salafrário à solta no meio da
noite. Não, não tem não." Então nós tornamos a esperar na
escuridão e eu sussurrei: Certo. Voltem pra porta. Eu trepo nos
pletchos do Tapado.
Abro
aquela basculante e entro, drugues. Aí apago a velha e abro pra todo
mundo. Sem problema. – Porque eu estava mostrando que era o chefe,
o tcheloveque que tinha as idéias. – Olha – disse eu –, tem um
ressalto de pedra em cima daquela porta que é um horrorshow, um
degrau pros meus nogas. – Eles videaram tudo aquilo talvez
admirando, pensei eu, e acenaram com a cabeça certo, certo, certo,
no escuro.
Portanto,
de volta à porta, na ponta dos pés. O Tapado era o nosso maltebique
parrudo, e Pete e Georgie me levantaram assim até os seus bolche e
másculos pletchos. Durante esse tempo todo, oh graças aos programas
mundiais da glupe TV e mais ainda aos temores noturnos das líudes
por falta de guarda noturna, desertas estavam as ruas. Lá em cima
dos pletchos do Tapado, eu vi que o ressalto acima da porta aguentava
lindamente as minhas botas. Coloquei o joelho, meus irmãos, e lá
estava eu. A janela, como eu esperava, estava fechada, mas eu puxei
da minha britva e parti o vidro da janela com jeitinho, usando o cabo
de osso.
Enquanto
isso, embaixo, meus drugues respiravam forte. Aí eu enfiei meu
rúquer pelo buraco do vidro e fiz a metade inferior da folha da
janela subir como uma vela de barco, macio e lindo. E estava assim
entrando no banheiro, dentro. E lá estavam meus carneiros embaixo,
de rote aberta olhando pra cima, ó irmãos.
Eu
estava numa escuridão de dar caneladas, cheia de camas e armários e
banquetas bolches e pesadas e pilhas de caixas e livros tudo à
volta. Mas eu avançava virilmente em direção à porta do quarto
onde me achava, vendo uma fresta de luz embaixo. A porta fez
iiiiiiiiúc e aí eu estava num corredor empoeirado, cheio de outras
portas. Esse desperdício todo, meus irmãos, quer dizer, todos esses
quartos e só uma dona estarre e seus bichanos, mas talvez os cotes e
cóchecas tivessem assim quartos separados e passassem a creme e
cabeça de peixe, que nem rainhas e príncipes. Eu estava ouvindo a
golosse abafada da ptitsa velha, embaixo, dizendo: 'É, é, é, isso
mesmo", mas ela devia estar govoritando com aqueles malandros
miadores fazendo meeeeé pra ganhar mais moloco. Aí eu vi a escada
que descia pro vestíbulo e pensei comigo mesmo que eu ia mostrar
àqueles meus drugues volúveis e inúteis que eu valia pelos três
deles juntos e mais alguém. Eu ia fazer tudo no meu odinoque. Eu ia
executar a ultraviolência em cima da ptitsa estarre, e dos seus
bichaninhos se fosse preciso, e aí ia apanhar belos ruqucados do que
parecesse troço assim polésine de verdade e ia valsar até a porta
da frente e abrir, fazendo chover ouro e prata em cima dos meus
drugues que esperavam. Eles precisavam aprender tudo sobre liderança.
Então
eu itei pra baixo, lento e leve, admirando no vão da escada quadros
gréjines de antigamente – devótchecas de cabelo comprido e golas
altas, assim o campo com árvores e cavalos, o santo veque barbudo
todo nagói pendurado numa cruz. Eu sentia um vone azedo de gato e de
peixe e de poeira estarre naquele dome, diferente do dos
apartamentos. E aí eu estava no andar de baixo e conseguia videar a
luz daquele quarto da frente onde ela tinha estado distribuindo
moloco aos cotes e cóchecas. E mais, eu conseguia videar aquelas
enormes escotinas peludas entrando e saindo de rabo abanando e se
esfregando na beira da porta. No armário assim grande, de madeira,
eu podia videar na penumbra uma estatueta malenque, lindai que
brilhava à luz do quarto, e crastei pra min, porque era uma
devótcheca magra, de pé sobre um noga só, com os rúqueres
estendidos, e eu estava vendo que era de prata. Logo, eu estava com
ela na mão quando entrei no quarto iluminado dizendo: – Oba oba
oba. Finalmente nos eu encontramos. Nosso breve govorite através da
caixa das cartas não foi, digamos, satisfatório, não é? Vamos
confessar que não, ah, realmente não, sua bruxa estarre fedorenta. – E fiquei assim piscando pra luz do quarto e a velha ptitsa que
estava dentro. Estava tudo cheio de cotes e cóchecas engatinhando
pra cima e pra baixo no tapete, com pedacinhos de pêlo flutuando na
parte rente ao chão, e aquelas escotinas gordas eram de diversas
formas e cores, pretos brancos, ruivos, cinzentos, cor de gengibre,
de casca de tartaruga, e de todas as idades também, de maneira que
tinha gatinhos pequenos brincando uns com os outros, e tinha bichanos
já adultos e tinha uns estarres trôpegos muito mal-huniorados. A
sua dona, a ptitsa velha, olhou pra mim feroz como um homem e falou:
– Como
foi que você entrou? Fique longe de mim, seu sapinho malfeitor, ou
eu lhe bato!
Com
essa, eu dei uni esmeque horrorshow, videando que ela empunhava, com
o rúquer cheio de veias, uma sebenta bengala de madeira, que
levantou pra mim me ameaçando. Aí, botando os zubes de fora, eu
itei um pouco mais perto dela, sem pressa, e no caminho eu vi uma
véssichezinha muito linda, a véssiche malenque mais linda que um
maltichique amante de música como eu jamais tinha esperado videar
com seus glazinhos e que era assim o gúliver e os pletehos de Ludwig
van em pessoa, o que chamam de busto, uma véssiche em pedra, com
cabelos compridos, olhinhos cegos e a grande gravata enfunada. Eu
parti pra ele na hora, dizendo:
“Puxa,
que lindo, e todinho pra mim!” Mas, itando em direção a ele com
os olhos assim grudados nele e com o rúquer cúpido esticado, eu não
vi os pires de leite no chão e pisei num deles, perdendo o
equilíbrio. “Uui!”, fiz eu, tentando me aprumar mas a ptitsa
velha tinha vindo por detrás de mim, muito astuta e muito escorre
pra idade dela, e toque toque no meu gúliver com a bengala. Eu me vi
de quatro, tentando me levantar e dizendo:
“Feia,
feia, feia!”, e ela continuava toque toque dizendo:
“Seu
piolhozinho de favela, invadindo casa de gente de verdade!” Eu não
gostei dessa igra de toque toque, então agarrei a ponta da bengala
dela, assim que desceu de novo, e aí ela perdeu o equilíbrio e
tentou se firmar na mesa, mas quando a toalha da mesa caiu com uma
jarra de leite e uma garrafa de leite que primeiro ficou de porre e
depois espalhou esploche branco em todas as direções, aí ela caiu
no chão grunhindo: “Seu amaldiçoado, você vai sofrer.” Agora,
a gataria estava aterrorizada, correndo e pulando em pânico, uns
botando a culpa nos outros, dando toltchoques de gato com a lapa e
ptaaaaá e grrrrrrr e crrrrrrac. Eu me pus em cima dos nogas e lá
estava aquela horrenda forela estarre vingativa com os gravetos
tremendo e grunhindo enquanto tentava se levantar do chão, então eu
lhe dei um pontapé bem, malenque no litso e disso ela não gostou,
gritando "uaaaaá", e videavase o seu litso enodoado e
cheio de veias ir ficando violáceo no lugar onde eu acertei o noga.
No
que eu recuei do pontapé, devo ter pisado no rabo de um dos bichanos
que estavam critchando e dratsando, porque eu eslutchei um gronque
iaaaaaauuuuu e verifiquei assim que pele, dentes e garras tinham se
amarrado na minha perna, e lá estava eu xingando e tentando sacudir
fora, segurando a malenque estatueta de prata num rúquer e tentando
subir em cima da ptitsa velha no chão pra alcançar o lindo Ludwig
van assim de cenho de pedra franzido. E aí eu caí dentro de outro
pires cheio de cremoso moloco até a beira e quase saí voando de
novo, a véssiche toda realmente muito engraçada se se pudesse
imaginá-la eslutchatando a outro veque qualquer que não o Vosso
Humilde Narrador. E aí, a ptitsa estarre, no chão, se esticou por
cima de toda a gataria que estava dratsando e uivando e agarrou o meu
noga, ainda fazendo “uaaaaaá” pra mim e, estando o meu
equilíbrio já comprometido, eu realmente desabei dessa vez, em cima
do leite esplochado e da gataria que lanhava, e a forela começou a
me socar no litso, estando nós ambos no chão, critchando: Bate
nele, dá uma surra nele, arranca as unhas dele, desse besouro
venenoso! - dirigindo-se apenas aos seus bichanos, e aí, como que
obedecendo à ptitsa estarre, um par de cochecas trepou em cima de
mim e começou a me arranhar que nem bezúmines. Aí eu próprio
fiquei bezúmine, dei porrada neles, mas a tal babúcheca disse: –
Seu sapo, não toque nos meus gatinhos – e assim arranhou o meu
litso. Aí eu critchei: – Sua sunca velha imunda! – e levantei a
estatueta malenque de prata e rachei-lhe um bom toltchoque no gúliver
que fez ela calar a boca muito horrorshow, uma beleza.
Mas
agora, enquanto eu me levantava do chão, entre os cotes e as
cóchecas, o que eu esluchava em apenas o velho chume de sirene do
carro da polícia, à distância, e comecei a compreender que a
forela velha dos bichanos tinha falado com os milicentes pelo
telefone, enquanto eu estava pensando que ela govoritava com os
miadores, que ela já tinha ficado com o desconfiômetro fervendo
quando eu puxei o esvonoque fingindo precisar de ajuda. Portanto
agora, esluchando o temível chume do furgão dos rodzes, eu disparei
pra porta da frente e tive que rabitar um bocado desfazendo todas as
fechaduras correntes, trincos e outras vessiches de segurança. Aí,
consegui abrir e quem é que estava no umbral senão o Tapado, eu mal
tendo tempo de videar os meus outros dois supostos drugues se
mandando
– Vamos
– critchei pro Tapado. Os rodzes vêm aí! – O Tapado falou: –
Você fica pra receber eles, hu hu hu hu hu – então eu videi que ele
estava com a uze solta e aí ele levantou ela e silvou uishhhhh e me
deu uma correntada suave e artística assim nas pálpebras, que eu
mal tive tempo de fechar. Aí fiquei uivando às tontas, tentando ver
com aquela dor de uivar mesmo, e o Tapado falou: – Eu não gosto
que você tenha feito que nem fez, druguinho velho. Não foi legal
não, me encestar do jeito que você fez, brete! – E aí esluchei
as suas botas boiches e massudas se mandando, ele fazendo hu hu hu hu
nas sombras, e só uns sete segundos depois foi que eu esluchei o
furgão dos milicentes chegar, com um enorme uivo de sirene,
asqueroso, morrendo, que nem um animal bezúmine dando a pitada. Eu
também estava uivando e assim à deriva, e batendo com o gúliver
nas paredes do vestíbulo, que os meus glazes estavam apertados e o
caldo escorrendo deles, uma agonia. Portanto, lá estava eu, tateando
no vestíbulo, quando os milicentes entraram. Eu não podia videar
eles, é claro, mas podia esluchar e, merda, podia sentir o vone dos
putos, e logo logo pude sentir os putos quando eles engrossaram e me
deram aquela torcida de braço, me levando pra fora. Eu também
esluchei uma golosse de milicente falando do quarto de onde eu tinha
saído, comi todos os cotes e cóchecas dentro: – Ela levou uma
pancada feia mas está respirando – e o tempo todo se ouviam os
miados altos.
– Mas
isso é realmente um prazer – ouvi outra golosse de milicente dizer
enquanto eu era toltchocado com força e escorre pra dentro do carro.
– O Alexinho todinho pra nós! – Eu critechei:
– Eu
estou cego, Bog que dê cabo de vocês, seus gréjines filhos da
puta!
– Que
linguagem, que linguagem... – esmecou uma golosse, e aí eu levei
um tolchoque de costas de mão com um anel qualquer bem no meio da
rote. Eu disse:
– Bog
mate vocês, seus brétchenes fedorentos. Onde estão os outros? Onde
estão meus drugues traidores fedorentos? Um dos meus malditos bretes
gréjines me deu uma correntada nos glazes. Pegues eles antes que
eles fujam. Foi tudo idéia deles irmãos. Eles é que me obrigaram a
fazer isso. Eu sou inocente, Bog que estraçalhe vocês!
Nessa
altura eles estavam todos dando uma boa esmecada assim com toda a
grosseria à minha custa e me toltchocando pra traseira do carro, mas
eu continuava falando nos meus falsos drugues e videei que não ia
adiantar, porque já deviam estar de volta ao aconchego do Duke of
New York, empurrando cerveja preta e escoceses duplos nos gorlos das
ptitsas estarres e fedorentas, elas sem protestar e dizendo:
"Obrigada, rapazes.
Deus
abençoe vocês, moços. A gente ficou aqui o tempo todo que vocês
ficaram, rapazes. Não saíram da nossa vista, não."
O
tempo todo a gente ia sirenando em direção à loja dos rodzes, eu
imprensado entre dois milicentes e levando uns tecos e outros e
toltchoques malenques dos dois brutamontes que esmecavam. Então eu
descobri que podia entreabrir as pálpebras um malenquinho e videar
assim entre lágrimas uma espécie de cidade líquida passando, as
luzes como se tivesse corrido umas pras outras. Agora eu conseguia
videar com os glazes doridos os dois milicentes esmecantes que iam
atrás comigo e o motorista de pescoço fino e o filho da puta de
pescoço grosso do lado dele, esse último me dirigindo um govorite
muito sarca, dizendo: – Então, Alexito, temos pela frente uma
noitada agradável juntos, não temos não?
– Como
é que você sabe o meu nome, seu mastodonte vonento? Que Bog te
mande pro inferno, seu gréjine brétchene, seu bosta. – Então
todos eles esmecaram com essa e eu tive o meu uco assim torcido por
um dos milicentes fedorentos que iam atrás comigo. O de pescoço
grosso. que não ia guiando, falou:
– Todo
mundo conhece Alexinho e seus drugues. O nosso Alex ficou um
menininho muito famoso.
– Foram
aqueles outros – critchei eu. – O Georgie, o Tapado e o Pete.
Meus drugues, esses filhos da puta não são.
– Bom
– disse o de pescoço grosso –, você vai ter a noite toda pela
frente pra contar a história toda das ousadas proezas desses jovens
cavalheiros e de como eles levaram o pobre inocente do Alex pelo mau
caminho. – Aí teve o chume de outra sirene da polícia passando
pelo nosso carro, só que indo pro outro lado.
– Isso
é praqueles filhos da puta? – disse eu. – Eles estão sendo
agarrados pelos filhos da puta do lado de vocês?
– Aquilo
– disse o de pescoço grosso – era uma ambulância. Com certeza
pra sua vítima, seu safado nojento, desgraçado.
– Foi
tudo culpa deles – critchei eu, piscando meus glazes doloridos. –
Os putos devem estar pitando no Duke of New York. Peguem eles, porra,
seus bestas fedorentos!
– E
teve mais esmeques e outro toltchoque malenque, ó meus irmãos, na
minha rote dolorida. E aí chegamos à loja dos rodzes e eles me
ajudaram a sair do carro aos pontapés e empurrões e me toltchocaram
escada acima e eu sabia que ia ter tudo menos lealdade, de parte
daqueles gréjines brétchenes duma figa, Bog que os fulmine.
Anthony Burgess, in Laranja Mecânica
28/12/2023
Mensagem
Em
marcha, heroico, alado pé de verso,
busca-me
o gral onde sangrei meus deuses:
conta
às suas relíquias, ontem de ouro,
hoje
de obscura cinza, pó de tempo,
que
ele os venera ainda, o jogral verde
que
outrora celebrou seus milagres fecundos.
Dize
a eles que vinham
tecer
silentes minha eternidade
que
a lava antiga é pura cal agora
e
queima-lhes incenso, e rouba-me farrapos
de
seus mantos desertos de oferendas
onde
possa chorar meu disfarce ferido.
Dize
a eles que tombam
como
chuvas de sêmen sobre campos de sal
sem
mancha, mas terríveis
que
desçam sobre a urna deste olvido
e
engendrem rosas rubras
do
estrume em que tornei seus dons de trigo e vinho.
Segue,
elegia, busca-me nos portos
e
nas praias de Antanho, e nas rochas de Algures
os
deuses que afoguei no mar absurdo
de
um casto sacrifício.
Apanha
estas palavras do chão túmido
onde
as deixo cair, findo o dilúvio:
forma
delas um palco, um absoluto
onde
possa dançar de novo, nu
contra
o peso do mundo e a pureza dos anjos,
até
que a lucidez venha construir
um
templo justo, exato, onde cantemos.
Mário Faustino, in O homem e sua hora
Pinturas a óleo hiper-realistas capturam a magnífica glória dos navios no mar
O
pintor polonês Marek Rużyk cria belas paisagens marinhas e arte
marinha na grande tradição da era romântica. Uma reminiscência de
artistas do século XIX como Ivan Konstantinovich Aivazovsky, estas
pinturas a óleo retratam a elegância e a majestade dos navios no
mar.
O
trabalho de Rużyk é caracterizado pela sua capacidade de capturar
as mudanças de luz no mar. Os raios suaves do sol poente refletem
nas ondas do oceano ou queimam em um vermelho intenso, banhando a
cena com cores quentes. Suas pinturas de paisagens marinhas trazem
emoções poderosas, seja através das ondas quebrando ou da
misteriosa quietude da água.
Embora
a arte marinha do pintor homenageie a batalha entre a natureza e os
navios feitos pelo homem, os humanos estão praticamente ausentes das
peças, exceto por algumas figuras em jangadas. A sua obra relembra
uma época em que o homem dependia do mar, uma época de exploração
onde a aventura e o perigo se entrelaçavam.
Fonte: AWorkstation. com. Acesse aqui.
Spoilers
(JULHO
DE 2014)
Uma
mulher é assassinada no Baixo Gávea ao meio-dia. Um avião é
derrubado e mata trezentas pessoas. Morre João Ubaldo Ribeiro.
Israel invade a Faixa de Gaza.
A
morte dos outros é um spoiler. Parece te revelar algo que você não
sabia, ou fingia não saber sobre você mesmo: você vai morrer. Olhe
à sua volta. Todo mundo vai morrer. A vida é pior que Game of
Thrones. Não sobra nem o anão. A vida só é possível enquanto
a gente esquece que a morte está à espreita. Os jornais, como a
revista Minha Novela, contam o que a gente não quer saber.
“Olha a morte ali, te esperando. Nada disso faz sentido. Nunca
fez.”
Há
quem busque um sentido na religião, só porque ela jura que o melhor
está por vir. O padre dá ao beato o mesmo conselho que um fã de
Breaking Bad dá àquele que está começando a série: só
vai ficar bom mesmo lá pela última temporada. Mas não pule nenhum
capítulo. Você vai ser recompensado. Confie em mim.
O
que vale para Breaking Bad não vale para a vida. O câncer
não regride quando você começa a vender drogas — infelizmente. A
vida está mais pra Lost. A cada episódio que passa surgem
novos mistérios. Prometem que no final tudo vai se esclarecer mas
tudo acaba de repente, com todo mundo se abraçando. Só te resta a
perplexidade: mas e aquele pé gigantesco? E aqueles números
malditos? E aquele moço que usa lápis no olho e não envelhece? E o
Rodrigo Santoro? Esquece. A vida vai morrer na praia.
O
que entendi é que é melhor desistir de entender. O roteirista da
vida é preguiçosíssimo. Personagens queridos somem do nada.
Personagens chatíssimos duram pra sempre. A gente vê episódios
inteiros de pura encheção de linguiça e, de repente, tudo o que
deveria ter acontecido numa temporada inteira acontece num dia só.
As coincidências não são críveis — e são numerosas demais. A
vida é inverossímil.
Aí
você me pergunta: vale a pena ver um seriado tão longo que pode ser
interrompido a qualquer momento sem que te expliquem porra nenhuma?
Talvez valha, como Seinfeld, pelas tardes com os amigos
tomando café e falando merda. Ou, como Girls, pelas cenas de
sexo. E pela nudez. Talvez valha, como Chaves, pra rir das
mesmas piadas e chorar quando você menos espera. Pelos churros.
Pelos sanduíches de presunto.
E
vale, de qualquer maneira, porque a vida, chata, óbvia ou
repetitiva, é a única coisa que está passando.
Gregório Duvivier, in Put some farofa
Capítulo 104 | Era Ele!
Restitui
o grampo a Virgília, que o repregou nos cabelos, e preparou-se para
sair. Era tarde; tinham dado três horas.
Tudo
estava esquecido e perdoado. Dona Plácida, que espreitava a ocasião
idônea para a salda, fecha subitamente a janela e exclama:
– Virgem
Nossa Senhora! aí vem o marido de Iaiá!
O
momento de terror foi curto, mas completo. Virgília fez-se da cor
das rendas do vestido, correu até a porta da alcova; Dona Plácida,
que fechara a rótula, queria fechar também a porta de dentro; eu
dispus-me a esperar o Lobo Neves. Esse curto instante passou.
Virgília tomou a si, empurrou-me para a alcova, disse a Dona Plácida
que voltasse janela; a confidente obedeceu.
Era
ele. Dona Plácida abriu-lhe a porta com muitas exclamações de
pasmo: – O senhor por aqui! honrando a casa de sua velha! Entre,
faça favor. Adivinhe quem está cá... Não tem que adivinhar, não
veio por outra coisa... Apareça, Iaiá.
Virgília,
que estava a um canto, atirou-se ao marido. Eu espreitava-os pelo
buraco da fechadura. O Lobo Neves entrou lentamente, pálido, frio,
quieto, sem explosão, sem arrebatamento, e circulou um olhar em
volta da sala.
– Que
é isto? exclamou Virgília. Você por aqui?
– Ia
passando, vi Dona Plácida à janela, e vim cumprimentá-la.
– Muito
obrigada, acudiu esta. E digam que as velhas não valem alguma
coisa... Olhai, gentes! Iaiá parece estar com ciúmes. E
acariciando-a muito: – Este anjinho é que nunca se esqueceu da
velha Plácida. Coitadinha! é mesmo a cara da mãe. Sente-se, senhor
Doutor...
– Não
me demoro.
– Você
vai para casa? disse Virgília. Vamos juntos.
– Vou.
– Dê
cá o meu chapéu, Dona Plácida.
– Está
aqui.
Dona
Plácida foi buscar um espelho, abriu-o diante dela.
Virgília
punha o chapéu, atava as fitas, arranjava os cabelos, falando ao
marido, que não respondia nada. A nossa boa velha tagarelava demais;
era um modo de disfarçar as tremuras do corpo. Virgília, dominado o
primeiro instante, tomara à posse de si mesma.
– Pronta!
disse ela. Adeus, Dona Plácida; não se esqueça de aparecer, ouviu?
A outra prometeu que sim, e abriu-lhes a porta.
Machado de Assis, in Memórias Póstumas de Brás Cubas
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