26/04/2023
Cosmogonia | O.P.Q.R.S.T.U.V.X.Y.Z.
SEGUNDA
E DEFINITIVA CARTA AO TIMES
(Com
vista ao Sr. redator da Seção Necrológica)
Escrevo-lhe
esta em prantos, não para comunicar-lhe a morte de um ente querido,
mas a minha própria morte. Como tudo que parece estranho, isto que
acabo de anunciar tem na realidade uma explicação muito simples: é
que resolvi suicidar-me e o senhor foi (à falta de um parente ou
amigo, que não tenho) a única pessoa a quem me ocorreu dar, de
antemão, a dolorosa notícia. Ao chegar esta à sua mesa repleta de
avisos fúnebres e convites de missa de 7.° dia, já meu corpo, se
foi encontrado, estará repousando no lugar que lhe compete dentro da
imensidão da terra, ao lado de outros corpos de indigentes anônimos
e esquecidos do mundo, com os quais possivelmente me comunicarei nas
noites de tédio infinito.
Ainda
uma hora atrás eu não sabia que hoje iria dormir em companhia dos
mortos — hoje ou amanhã, conforme o tempo que levem para descobrir
meu corpo franzino entres estes enormes eucaliptos e sob este
cipreste que espero venha a cobrir um dia minha sepultura rasa. Como
tudo que tenho feito na vida, decidi realizar minha morte sem pensar
muito tempo no assunto, mesmo porque sempre me pareceu que a morte
não é tão importante quanto querem fazer crer os vivos, dada a
nossa perfeita insignificância dentro do universo. A morte de um
mosquito é tão importante quanto a minha própria morte, digo-o sem
falsa modéstia, e disso o senhor mesmo terá prova ao ficar sabendo
do meu suicídio, que o afetará tanto quanto a morte de um dos
milhões de perus sacrificados à véspera do Natal. A comunhão dos
mortos ainda pode ser uma realidade, pelo menos para os que nela
creem piamente, à sombra da necrofilia católica ou que outro nome
tenha; a comunhão dos vivos, porém, ainda está por existir e com
toda certeza não existirá nunca, dada a pouca cordialidade
existente entre os homens, como de resto entre todas as feras de uma
mesma espécie.
Sei
que é de praxe o suicida invocar grandes razões, e se possível
belas, para justificar seu gesto tresloucado, como dizem — e sinto
ter que decepcioná-lo não invocando nenhuma razão maior para
explicar esta minha fuga prematura de um mundo que afinal é o único
mundo com o qual podemos contar honestamente. Se eu quisesse,
certamente poderia encontrar uma dúzia ou mesmo duas de belas razões
(metafísicas, econômicas, políticas etc. etc.) capazes de
justificar não apenas o meu suicídio como o suicídio de toda a
humanidade, nos dias que correm como em todos os tempos. Prefiro,
porém, ser honesto e dizer que me mato pelo prazer único de
matar-me, como existem casos de sujeitos que matam um desconhecido
qualquer (não falando da guerra) pelo simples prazer de vê-lo cair
morto ou para experimentar uma arma nova. Sei que é raro isto
acontecer, mas acontece; e o meu caso é exatamente um desses. Enjoei
de mim, como poderia ter enjoado da cara de um vizinho que nunca me
tivesse feito mal em sua vida — e como não sou obrigado a viver de
enjoo, cortei simplesmente o mal pela raiz, eliminando-me da minha
vista. É possível que num dia de primavera e com os bolsos cheios
de dinheiro eu não pensasse em eliminar-me com tanta facilidade,
mesmo porque o homem é suficientemente tolo para contentar-se com
pouca coisa, eterna criança que é; acontece que hoje não é
primavera, nem tenho os bolsos abarrotados de notas de mil francos,
de sorte que me sinto decididamente disposto ao suicídio, como o
estaria para o homicídio também. O certo mesmo seria chamar a este
meu suicídio de homicídio, já que em mim eu mato o homem que não
me agrada e não o meu eu verdadeiro, que é até simpático.
E
já que falo em simpatia, devo deixar claro que morro tão antipático
como sempre vivi, tomando-se por base naturalmente a opinião dos
outros a meu respeito, não a minha própria. A náusea que venho de
sentir pelo meu corpo cheio de esperma, lágrimas e outros humores
trágicos, é uma náusea que, bem ou mal, eu poderia superar com
ajuda de alguma filosofia, desde que me dispusesse a praticar a
necessária ginástica mental diante do espelho; ao passo que a
antipatia que me inspiram os outros, e vice-versa, é algo que nasceu
comigo e será hoje comigo assassinado, e que só pode ter explicação
na perfeita dessemelhança existente entre mim e os meus semelhantes,
entre o meu EU e o que se convencionou chamar o homem comum. Todas as
normas de educação que me tentaram impingir no cérebro tinham por
objetivo convencer-me de que eu e o meu vizinho éramos feitos da
mesma massa e consequentemente da mesma qualidade de alma, havendo
mesmo alguns exagerados que chegavam a proclamar que ambos éramos
filhos do mesmo pai celestial, a cuja imagem e semelhança havíamos
sido feitos em nove meses; a experiência, porém, convenceu-me
exatamente do contrário, e não foi preciso muito tempo para eu
descobrir que não passava de um pequeno monstro dentro da minha
espécie, de alguém que não se parecia nem sequer consigo mesmo nos
diversos momentos e que já nascera fatalmente marcado para a
solidão. E como eu não podia andar metido num escafandro todas as
horas do dia, embora já tenha exercido a profissão de escafandrista
na penúltima guerra, deu-se o entrechoque fatal entre a minha
multidão de almas e a alminha dos meus pseudossemelhantes, com
consequentes ódios e ressentimentos de parte a parte, como ficou
provado nas páginas de meu Diário íntimo e que um dia ainda serão
publicadas. Nesse livro aparentemente triste, eu me situo na posição
de antípoda de todos os seres com os quais vivo esbarrando-me pelas
ruas ou mesmo dentro de casa — o que talvez em parte explique meu
contínuo peregrinar pelos quatro cantos do mundo, à procura de
outro polo no qual certamente houvesse um outro antípoda à minha
espera.
Mas,
Sr. redator de assuntos fúnebres, nada mais tenho a dizer, por ora,
neste in extremis que já se vai fazendo longo e sem graça, e
que certamente será tido por V. S. na devida consideração,
atirando-o simplesmente à cesta de papéis velhos. Desconhecendo-me
como o Sr. me desconhece, é justo que não queira levar-me a sério
e nem sequer se dê ao trabalho de procurar no mapa onde fica San
Juan de Ia Sierra, onde dentro em pouco entregarei a alma ao Criador
ou a quem lhe faça as vezes, como quem restitui um guarda-chuva que
apenas lhe foi dado em empréstimo. E para que o Sr. me acredite em
parte, e bem assim não se sinta de todo roubado em seu precioso
tempo, deixo-lhe de presente o meu relógio de estimação, que
pertenceu a um enforcado das minhas relações e que marca todos os
minutos da vida com uma precisão realmente cronométrica, apesar de
também já ter sido enforcado com o seu dono.
Funereamente
seu,
...................................................................…
FIM
Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia
A temporada de saury
[…]
As
encostas das montanhas assumiram um tom escuro de verde. Ventos
fracos, pouco mais fortes que uma brisa, começaram a soprar do
leste. As moscas começaram a demonstrar seu prolífico poder de
reprodução e enxameavam em volta das lulas penduradas para secar.
Quando chegou a noite, mosquitos passaram a voar zumbindo perto dos
ouvidos das pessoas.
De
vez em quando um barco de carga passava diante da aldeia, mas os
habitantes mal erguiam os olhos do trabalho enquanto os navios
desapareciam à distância no mar calmo.
O
número de lulas que conseguiam pescar começou a diminuir, e menos
delas eram vistas penduradas para secar. Aquelas já secas eram
amarradas com um barbante, e colocadas junto com as outras, esperando
para ser levadas montanha acima.
A
mãe de Isaku levou outras duas cargas de lula para a aldeia vizinha.
A quantidade de grãos que trouxe como pagamento não foi nada de
especial, mas ela parecia animada mesmo assim. Tinha parado no
intermediário de contratos de servidão para perguntar sobre o pai
dele e não havia notícias. Não haver notícias era uma boa
notícia; ele devia estar bem. Isaku ficou aliviado ao saber disso,
mas então ouviu a mãe dizer que a irmã mais velha de Tami tinha
ficado doente depois de apenas dois meses.
— E
o intermediário teve a audácia de reclamar que foi enganado, depois
de pagar um bom preço por ela — disse a mãe, cuspindo as
palavras, ultrajada.
Se
um servo sob contrato morria, o intermediário tinha de pagar uma
certa quantia como compensação ao empregador com base no fato de
ter oferecido um trabalhador inadequado. Por causa disso os
intermediários só escolhiam pessoas fortes e saudáveis. Para
cobrir uma possível perda financeira com a morte do trabalhador, ele
pagava à família do trabalhador muito menos do que recebia do
empregador. A aldeia de Isaku fornecia um bom número de
trabalhadores.
Sem
dúvida a família de Tami já devia saber a essa altura, e Isaku
imaginou como eles teriam recebido a notícia. Sem dúvida teriam
ficado perturbados, mas imaginou que poderiam pensar outras coisas
também. Eles já haviam recebido o pagamento pelo contrato e a
partida da irmã de Tami significava que tinham uma boca a menos para
alimentar. Além disso, mesmo que ela pudesse voltar à vila depois
de terminar o contrato, em termos de idade seria incapaz de obter um
casamento favorável. Levando isso em consideração, a notícia de
que a irmã de Tami tinha ficado doente com o que só poderia ser uma
doença fatal não significava necessariamente má sorte para a
família.
Colocando
os grãos que trouxera em um vaso na despensa, a mãe murmurou:
— Não
há chance de seu pai ter morrido. Ele é forte demais — o tom de
voz dela foi como se estivesse admoestando a si mesma por ter tido um
momento de dúvida.
Na
tarde do dia seguinte, Isaku estava puxando seu barco para a praia
quando ouviu o homem ao lado dele exclamar:
— Um
arco-íris!
Erguendo
os olhos, Isaku viu que o arco-íris começava mais ou menos no alto
da cadeia de montanhas e seguia até o mar. Era o primeiro arco-íris
do ano.
— Logo
os saury estarão aqui — disse o homem, entusiasmado, ao
colocar o remo sobre o ombro e seguir para a praia.
As
cores do arco-íris gradualmente ficaram mais escuras, adornando o
céu da tarde. Arco-íris no final da tarde eram vistos como bom
presságio, especialmente aqueles que apareciam no começo do verão,
que acreditavam prenunciar uma boa temporada de saury. Mas
Isaku não se sentia tão otimista ao olhar o arco-íris. Sua
habilidade de pegar saury deixava muito a desejar e, se sua
pesca fosse tão ruim quanto a do ano anterior, sua família iria
passar fome. A temporada de saury era crucial para a aldeia,
já que a sobrevivência das famílias ao longo do ano dependia da
habilidade de estocar essa fonte vital de nutrição. Takichi dissera
que iria ensinar a Isaku o jeito certo de capturar saury, mas
talvez ele só tivesse falado isso porque estava de bom humor por
causa do casamento.
Isaku
às vezes via Takichi na praia, e às vezes o via pescando lá fora
no mar. Se era porque agora tinha uma esposa não estava claro, mas
Takichi parecia ter um brilho de confiança nos olhos. Apesar de
Takichi ser pequeno, Isaku achava que ele o fitava do alto com um ar
de condescendência. Isaku imaginava que a atitude de Takichi
significava que não iria ensinar a ele como pegar saury.
Mas
uma mudança muito mais dramática em Kura chamou a atenção dos
habitantes da aldeia. Ela ia até a praia assim que via Takichi
retornando do dia de pescaria. Era uma pessoa diferente na presença
de Takichi, seguindo obedientemente todas as ordens dele. Forte como
era, Kura erguia sem esforço a grande tina com todo o pescado do
dia, apoiando-a no ombro e voltando apressada para casa. Takichi
subia a encosta de mãos abanando. Sorrindo de modo lascivo, os
outros brincavam dizendo que Takichi devia ter tirado o couro dela.
Nos
dias em que o mar estava bravo, Isaku amarrava uma machadinha e
barbante em um quadro de carga e ia para o mato recolher casca de
tília para fazer tecido. Era comum encontrar cobras nos bosques
fechados de tílias, por isso Isaku usava protetores nas pernas, além
de calças justas.
Estava
chovendo levemente, mas o vento era forte. Isaku baixou a aba do
chapéu de junco para impedir que fosse levado pelo vento ao subir
pela trilha úmida da montanha.
Depois
de caminhar por cerca de uma hora ele chegou à floresta. O topo das
árvores balançava de forma selvagem, mas não havia vento embaixo e
o cheiro úmido da casca das árvores impregnava o ar. Ele parou
perto de uma tília e soltou a machadinha e o barbante do quadro que
trazia nas costas. Seu pai o levara para colher casca de tílias duas
vezes no passado e, assim como o pai, Isaku enfiou a lâmina da
machadinha bem perto da raiz. Cortou um galho da árvore próxima,
dando-lhe a forma de uma espátula, e inseriu a ponta sob a casca,
erguendo a ponta o suficiente para pegá-la com a mão e puxar. A
casca foi arrancada do tronco.
Ele
foi de uma árvore para outra, arrancando a casca de cada uma delas.
As gotas de chuva faziam barulho ao cair em seu chapéu. A água
escorrendo pelos troncos das tílias brilhava.
Seu
estômago lhe dizia que estava na hora de comer. Isaku abriu um
pequeno pacote de folha de bambu e atacou o bolinho de milho miúdo
que havia ali dentro. No ano anterior ele não havia apanhado nenhuma
casca de tília, mas nesse ano conseguiria levar o suficiente para
sua mãe fazer roupas para eles. Enquanto olhava para as cascas de
tília que havia arrancado das árvores, ele sentiu que se tornara o
chefe da família.
Isaku
trabalhou mais um pouco antes de recolher todas as cascas, dobrá-las
ao meio e amarrar tudo com o barbante, que prendeu no quadro de carga
que por sua vez foi colocado sobre suas costas. Era pesado, cerca de
trinta ou trinta e cinco quilos.
Usando
uma vara para se equilibrar, Isaku caminhou cautelosamente entre as
árvores e saiu da floresta. A chuva estava mais forte, espalhando-se
em gotículas ao atingir seu chapéu e ombros. O vento empurrava sua
carga, e ele sentia o corpo se movendo com ela. Isaku desceu a trilha
parando ocasionalmente para se endireitar contra as rajadas de vento.
O mar tempestuoso apareceu à vista abaixo dele. Estava molhado até
os ossos de chuva e suor.
A
mãe começou a preparar as cascas de árvore naquela mesma noite.
Cortou a parte externa com uma faca e colocou as camadas internas no
chão. Isaku reparava seu equipamento de pesca no chão de terra
enquanto observava a mãe, que parecia concentrada no trabalho.
No
dia seguinte ela ensopou as camadas internas das cascas de árvore no
riacho perto da casa deles. Os pedaços externos das cascas foram
reunidos em um canto, prontos para ser usados para iniciar o fogo.
Cinco dias depois ela tirou as camadas do riacho e as ferveu em uma
panela de água, misturando com cinzas. Então colocou-as no riacho
novamente, lavou-as bem, e pendurou-as para secar à sombra antes de
desfiá-las para fazer linha. Em seguida fiou a linha na roda de fiar
e depois sentou-se diante do tear, transformando-a em tecido.
Tratava-se de um trabalho cansativo; às vezes ela parava para
esfregar os olhos, com sono.
A
estação chuvosa começou e muita água caiu sobre a aldeia. Os
habitantes não encontravam mais lulas, e agora não pegavam nada
além de pequenos peixinhos.
À
tarde um velho pescador voltou da praia dizendo que os saury
estavam começando a chegar. Isaku sentiu que perdia a compostura.
Seu pai era hábil para pegar saury, mas para Isaku era um
truque que ele não conseguia aprender de jeito nenhum. Na estação
chuvosa anterior ele tentara pescar da forma como se lembrava de ver
o pai fazendo, mas não conseguira pegar nada. A família de Isaku
teve de ficar sentada sem ter o que fazer, olhando a fumaça que
exalava das outras casas, onde estavam grelhando saury e vendo
todos os outros guardando o saury em tinas. Naquele ano, ele
pensou, tenho de pegar alguma coisa, mesmo que não seja muito, para
minha família.
Como
a pesca do saury era a mais importante de todo o ano para a
aldeia, os homens faziam o máximo para pegar tanto quanto possível;
não havia tempo disponível para ensinar técnicas de pesca para os
outros. Na temporada anterior, as outras famílias da aldeia haviam
ficado com pena da família de Isaku e cada uma lhes dera um pouco de
peixe, mas naquele ano ele não queria ter de depender de caridade.
A
única pessoa a quem Isaku podia recorrer era seu primo Takichi, mas,
agora que ele tinha a própria casa para cuidar, era pouco provável
que pudesse ensinar Isaku a pescar. Além disso, Isaku estava
preocupado porque Takichi havia mudado desde o casamento. Mas Isaku
decidiu que não havia modo de ele deixar sua família morrer de
fome, então naquela mesma tarde, depois de engolir seu jantar bem
depressa, ele correu pela trilha iluminada pelo luar até a casa do
primo.
— Alô?
— chamou Isaku ao enfiar a cabeça pela esteira de palha pendurada
na entrada.
Takichi
olhou para a porta de onde estava sentado no chão de terra, com a
esposa ajoelhada a seu lado. Havia vários pedaços de palha grossa
espalhados no chão, assim como muitos pedaços grossos de corda.
Vendo que Takichi estava começando a preparar seu material de pesca,
Isaku se aproximou dele.
— Você
disse que ia me ensinar a pegar saury. Quero que me ensine.
Minha família vai passar fome. Espero que não tenha esquecido o que
disse naquela noite — disse Isaku.
— Eu
não esqueci. Eu achava que você ia aparecer logo — disse Takichi.
Um leve sorriso apareceu nos lábios dele.
Isaku
ficou aliviado. Sentou-se ao lado do primo e fixou os olhos nas mãos
de Takichi, que não paravam.
Para
pescar saury, um pescador devia amarrar juntas três ou quatro
peças de esteira de palha grossa e amarrar uma corda pesada nelas,
deixando o conjunto flutuar cerca de quarenta metros atrás do barco.
Ao mesmo tempo, junto da amurada, devia deixar flutuando um pedaço
de esteira de palha com algas penduradas embaixo. Depois de lançar a
âncora, ele devia se deitar para não ser visto pelos peixes. Quando
sentisse que um cardume de saury estava perto da esteira, ele
devia puxá-la pela corda. Os peixes se moviam com ela e nadavam por
baixo da esteira com as algas. As algas presas sob a esteira deixavam
os saury excitados, e eles subitamente começavam a desovar. O
pescador devia então enfiar a mão por um dos vários buracos na
esteira e mover os dedos na água. Atraídos, os saury nadavam
entre os dedos e eram pegos em um instante. […]
Akira Yoshimura, in Naufrágios
25/04/2023
Perguntas
Numa
incerta hora fria
perguntei
ao fantasma
que
força nos prendia,
ele
a mim, que presumo
estar
livre de tudo,
eu
a ele, gasoso,
todavia
palpável
na
sombra que projeta
sobre
meu ser inteiro:
um
ao outro, cativos
desse
mesmo princípio
ou
desse mesmo enigma
que
distrai ou concentra
e
renova e matiza,
prolongando-a
no espaço,
uma
angústia do tempo.
Perguntei-lhe
em seguida
o
segredo de nosso
convívio
sem contato,
de
estarmos ali quedos,
eu
em face do espelho,
e
o espelho devolvendo
uma
diversa imagem,
mas
sempre evocativa
do
primeiro retrato
que
compõe de si mesma
a
alma predestinada
a
um tipo de aventura
terrestre,
cotidiana.
Perguntei-lhe
depois
por
que tanto insistia
nos
mares mais exíguos
em
distribuir navios
desse
calado irreal,
sem
rota ou pensamento
de
atingir qualquer porto,
propícios
a naufrágio
mais
que a navegação;
nos
frios alcantis
de
meu serro natal,
desde
muito derruído,
em
acordar memórias
de
vaqueiros e vozes,
magras
reses, caminhos
onde
a bosta de vaca
é
o único ornamento,
e
o coqueiro-de-espinho
desolado
se alteia.
Perguntei-lhe
por fim
a
razão sem razão
de
me inclinar aflito
sobre
restos de restos,
de
onde nenhum alento
vem
refrescar a febre
deste
repensamento;
sobre
esse chão de ruínas
imóveis,
militares
na
sua rigidez
que
o orvalho matutino
já
não banha ou conforta.
No
voo que desfere,
silente
e melancólico,
rumo
da eternidade,
ele
apenas responde
(se
acaso é responder
a
mistérios, somar-lhes
um
mistério mais alto):
Amar,
depois de perder.
Carlos Drummond de Andrade, in Claro Enigma
Dever
Cumpro com meu dever. Nada mais me perturba. O restante carece de vida ou de razão, ou divagou e não conhece o caminho.
Marco Aurélio, in Meditações
Sonha o fidalgo da torre
I
Mas
Gonçalo, que abominava aquela lenda, a silenciosa figura degolada,
errando por noites de inverno entre as ameias da Torre com a cabeça
nas mãos — despegou da varanda, deteve a Crônica imensa: — Toca
a deitar, ó Videirinha, hein? Passa das três horas, é um horror.
Olhe! O Titó e o Gouveia jantam cá na Torre, no Domingo.
Apareça
também, com o violão e cantiga nova; mas menos sinistra...
Atirou
o charuto, fechou a vidraça da sala — a “sala velha”, toda
revestida desses denegridos e tristonhos retratos de Ramires que ele
desde pequeno chamava as carantonhas dos avós. E, atravessando o
corredor, ainda sentia rolarem ao longe, no silêncio dos campos
cobertos de luar, façanhas rimadas dos seus:
Ai!
lá na grande batalha...
El-Rei
Dom Sebastião...
O
mais moço dos Ramires
Que
era pagem do guião...
Despido,
soprada a vela, depois de um rápido sinal da cruz, o Fidalgo da
Torre adormeceu. Mas no quarto, que se povoou de sombras, começou
para ele uma noite revolta e pavorosa. André Cavaleiro c João
Gouveia romperam pela parede, revestidos de cotas de malha, montados
em horrendas tainhas assadas! E lentamente, piscando o olho mau,
arremessavam contra o seu pobre estômago pontoadas de lança, que o
faziam gemer e estorcer sobre o leito de pau preto. Depois era, na
Calçadinha de Vila-Clara, o medonho Ramires morto, com a ossada a
ranger dentro da armadura, e El-Rei Dom Afonso II, arreganhando
afiados dentes de lobo, que o arrastavam furiosamente para a batalha
das Navas. Ele resistia, fincando nas lajes, gritando pela Rosa, por
Gracinha, pelo Titó! Mas D. Afonso tão rijo murro lhe despedia nos
rins, com o guante de ferro, que o arremessava desde a Hospedaria do
Gago até a Serra Morena, ao campo da lide, luzente e fremente de
pendões e de armas. E imediatamente seu primo d'Espanha, Gomes
Ramires, Mestre, de Calatrava, debruçado do negro ginete, lhe
arrancava os derradeiros cabelos, entre a retumbante galhofa de toda
a hoste sarracena e os prantos da tia Louredo trazida como um andor
aos ombros de quatro Reis!... — Por fim, moído, sem sossego, já
com a madrugada clareando nas fendas das janelas e as andorinhas
piando no beirai dos telhados, o Fidalgo da Torre atirou um
verdadeiro repelão aos lençóis, saltou ao assoalho, abriu a
vidraça — e respirou deliciosamente o silêncio, a frescura, a
verdura, o repouso da quinta.
Mas
que sede! uma sede desesperada que lhe encortiçava os lábios!
Recordou
então o famoso fruit salt que lhe recomendara o Dr. Mattos,
arrebatou o frasco, correu à sala de jantar em camisa. E, a
arquejar, deitou duas colheradas num copo d'água da Bica-Velha, que
esvaziou dum trago, na fervura picante.
— Ah,
que consolo, que rico consolo!. . .
Voltou
derreadamente à cama: e readormeceu logo, muito longe, sobre as
relvas profundas d'um prado de África, debaixo de coqueiros
sussurrantes, entre o apimentado aroma de radiosas flores que
brotavam através de pedregulhos de ouro. Dessa perfeita beatitude o
arrancou o Bento, ao meio-dia, inquieto com “aquele tardar do Sr.
Doutor”.
— É
que passei uma noite horrenda, Bento: Pesadelos, pavores, bulhas,
esqueletos... Foram os malditos ovos com chouriço; e o pepino...
Sobretudo
o pepino! Uma ideia daquele animal do Titó. . . Depois, de
madrugada, tomei o tal fruit salt, e estou ótimo, homem!... Estou
otimíssimo! Até me sinto capaz de trabalhar. Leva para a livraria
uma chávena de chá verde, muito forte. . . Leva também torradas.
II
Os
pensamentos de Gonçalo esvoaçaram logo, com irresistida tentação,
para D. Ana — para os seus decotes, para os languidos banhos em que
se esquecia lendo o jornal. Por fim, que diabo!. . . Essa D. Ana
assim tão honesta, tão perfumada, tão esplendidamente bela, só
apresentava, mesmo como esposa, um feio senão — o papá
carniceiro.
E
a voz também — a voz que tanto o arrepiara na Bica-Santa... Mas o
Mendonça assegurava que aquele timbre rolante e gordo, na
intimidade, se abatia, liso e quase doce. .. Depois, meses de
convivência habituam as vozes mais desagradáveis — e ele mesmo,
agora, nem percebia quanto o Manuel Duarte era fanhoso! Não! mancha
teimosa, realmente, só o pai carniceiro. Mas nesta Humanidade
nascida toda d'um homem só, quem, entre os seus milhares de avós
até Adão, não tem algum avô carniceiro? Ele, bom fidalgo, de uma
casa de Reis de onde Dinastias irradiavam, certamente,
escarafunchando o passado, toparia com o Ramires carniceiro. E que o
carniceiro avultasse logo na primeira geração, cm um talho ainda
afreguesado, ou que apenas se esfumasse, através de espessos
séculos, entre os trigésimos avós — lá estava, com a faca, e o
cepo, e as postas de carne, e as nódoas de sangue no braço suado!
E
este pensamento não o abandonou até a Torre — nem ainda depois, à
janela do quarto, acabando o charuto, escutando o cantar dos gaios.
Já mesmo se deitara, e as pestanas lhe adormeciam, e ainda sentia
que os seus passos impacientes se embrenhavam para trás, para o
escuro passado da sua Casa, por entre a emaranhada História,
procurando o carniceiro... Era já para além dos confins do Império
Visigodo, onde reinava com um globo de ouro na mão o seu barbudo avô
Recesvinto. Esfalfado, arquejando, transpusera as cidades cultas,
povoadas de homens cultos — penetrara nas florestas que o
mastodonte ainda sulcava. Entre a úmida espessura já cruzara vagos
Ramires, que carregavam, grunhindo, reses mortas, molhos de lenha.
Outros surdiam de tocas fumarentas, arreganhando agudos dentes
esverdeados para sorrir ao neto que passava. Depois, por tristes
ermos, sob tristes silêncios, chegara a uma lagoa enevoada. E à
beira da água limosa, entre os canaviais, um homem monstruoso,
peludo como uma fera, agachado no lodo, partia a rijos golpes, com um
machado de pedra, postas de carne humana. Era um Ramires. No céu
cinzento voava o Açor negro. E logo, dentre a neblina da lagoa, ele
acenanava para Santa Maria de Craquede, para a formosa e perfumada D.
Ana, bradando por cima dos Impérios e dos Tempos: — “Achei o meu
avô carniceiro!”
III
Gonçalo
remoeu a amarga certeza de que sempre, através de toda a sua vida
(quase desde o colégio de S. Filipe!) não cessara de padecer
humilhações. E todas lhe resultavam de intentos muito simples, tão
seguros para qualquer homem como o voo para qualquer ave —só para
ele constantemente rematados por dor, vergonha ou perda! À entrada
da vida escolhe com entusiasmo um confidente, um irmão, que trás
para a quieta intimidade da Torre — e logo esse homem se apodera
ligeiramente do coração de Gracinha e ultrajosamente a abandona!
Depois concebe o desejo tão corrente de penetrar na Vida Política —
e logo o Acaso o força a que se renda e se acolha à influência
desse mesmo homem, agora Autoridade poderosa, por ele durante todos
esses anos de despeito tão detestada e chasqueada! Depois abre ao
amigo, agora restabelecido na sua convivência, a porta dos Cunhaes,
confiado na seriedade, no rígido orgulho da irmã — e logo a irmã
se abandona ao antigo enganador, sem luta, na primeira tarde em que
se encontra com ele na sombra favorável de um caramanchão! Agora
pensa em casar com uma mulher que lhe oferecia com uma grande beleza
uma grande fortuna — e imediatamente um companheiro de Vila-Clara
passa e segreda: — “A mulher que escolheste, Gonçalinho, é uma
marafona cheia de amantes!” De certo essa mulher não o amava com
um amor nobre e forte! Mas decidira acomodar nos formosos braços
dela, muito confortavelmente, a sua sorte insegura — e eis que logo
desaba, com esmagadora pontualidade, a humilhação costumada.
Realmente
o Destino malhava sobre ele com um rancor desmedido!
— E
por quê? murmurava Gonçalo, despindo melancolicamente o casaco. Em
vida tão curta, tanta decepção ... Por quê? Pobre de mim!
Caiu
no vasto leito como em uma sepultura — enterrou a face no
travesseiro com um suspiro, um enternecido suspiro de piedade por
aquela sua sorte tão contrariada, tão sem socorro. E recordava o
presunçoso verso do Videirinha, ainda nessa noite proclamado ao
violão:
Velha
casa de Ramires Honra e flor de Portugal!
Como
a flor murchara! Que mesquinha honra! E que contraste o do derradeiro
Gonçalo, encolhido no seu buraco de Santa Ireneia, com esses grandes
avós Ramires cantados pelo Videirinha — todos eles, se História e
Lenda não mentiam, de vidas triunfais e sonoras! Não! nem sequer
deles herdara a qualidade por todos herdada através dos tempos, a
valentia fácil. Seu pai ainda fora o bom Ramires destemido — que
na falada desordem da romaria da Riosa avançava com um guarda-sol
contra três clavinas engatilhadas. Mas ele... Ali, no segredo do
quarto apagado, bem o podia livremente gemer — ele nascera com a
falha, a falha de pior desdouro, essa irremediável fraqueza da carne
que, irremediavelmente, diante de um perigo, uma ameaça, uma sombra,
o forçava a recuar, a fugir. .. A fugir de um Casco. A fugir de uma
malandro de suíças louras que numa estrada e depois numa venda o
insulta sem motivo, para meramente ostentar pimponice e arreganho.
E
a Alma... Nessa calada treva do quarto bem o podia reconhecer também,
gemendo. A mesma fraqueza lhe tolhia a Alma! Era essa fraqueza que o
abandonava a qualquer influência, logo por ela levado como folha
seca por qualquer sopro. Por que a prima Maria uma tarde adoça os
espertos olhos e lhe aconselha por trás do leque que se interesse
pela D. Ana — logo ele, fumegando de esperança, ergue sobre o
dinheiro e a beleza de D. Ana uma presunçosa torre de ventura e
luxo.
E
a Eleição? Essa desgraçada Eleição? Quem o empurrara para a
Eleição, e para a reconciliação indecente com o Cavaleiro, e para
os desgostos daí emanados? Gouveia! Com leves argúcias, murmuradas
pela rua. Mas quê! Se mesmo dentro da sua Torre era governado pelo
Bento, que superiormente lhe impunha gostos, dietas, passeios, e
opiniões e gravatas! A um homem assim, por mais bem dotado na
Inteligência, é massa inerte a que o mundo constantemente imprime
formas várias e contrárias.
Enterrou-se
sob a roupa. Batiam as quatro horas. Através das pálpebras
cerradas, percebeu faces antigas, com desusadas barbas ancestrais e
ferozes cicatrizes, que sorriam no fragor de uma batalha ou na pompa
de uma gala, dilatadas pelo uso soberbo de mandar e vencer.
E
Gonçalo, espreitando por sobre a borda do lençol, reconhecia os
velhos Ramires.
Os
robustíssimos corpos emergiam cobertos de saios de malha ferrugenta,
por arneses de aço, clavas godas eriçadas de pontas e espadins de
baile.
Das
suas tumbas dispersas seus avós acudiam à casa nove vezes secular —
para reunir Assembleia majestosa da sua raça ressurgida... E até
mesmo reconhecia alguns dos mais esforçados, que agora, com o
repassar constante do Poemeto do tio Duarte e o Videirinha gemendo
fielmente o seu “fado”, lhe andavam sempre na imaginação...
O
de brial branco e cruz vermelha era Gutierres Ramires o d'Ultramar,
que correu ao assalto de Jerusalém; o velho Egas Ramires, negava
acolhida no seu puro solar a El-Rei D. Fernando e à adúltera
Leonor! Esse, de crespa barba ruiva, que cantava sacudindo o pendão
real de Castela, quem, senão Diogo Ramires, o Trovador, na alegria
da radiosa manhã d'Aljubarrota? Diante da incerta claridade do
espelho tremiam as fofas plumas escarlates do morrião de Paio
Ramires que se armava para salvar S. Luís, Rei de França. Ruy
Ramires sorria às naus inglesas que fugiam da sua Capitania pelo mar
português. Paulo Ramires, pajem do Guião d'El Rey nos campos fatais
de Alcácer, sem elmo, rota a couraça, inclinava para ele a sua face
de donzel, com a doçura grave de um avô enternecido...
Gonçalo
sentiu que a sua ascendência toda o amava e que acudia a socorrê-lo
na sua debilidade, e que o alcançava a espada que combatera em
Ourique, a acha que derrubara as portas de Arcilla. “Ó avós, de
que me servem as vossas armas — se me falta a vossa alma?...”
Acordou
muito cedo, confuso, e abriu as vidraças à manhã.
Bento
desejou saber se o Sr. Doutor passara mal a noite...
— Pessimamente!…
Eça de Queiroz, in A ilustre casa de Ramires
24/04/2023
O supremo castigo
Em
todos os aeródromos, em todos os estádios, no ponto principal de
todas as metrópoles, existe — quem é que não viu? — aquele
cartaz...
De
modo que, se esta civilização desaparecer e seus dispersos e
bárbaros sobreviventes tiverem de recomeçar tudo desde o princípio
— até que um dia também tenham os seus próprios arqueólogos —
estes hão de sempre encontrar, nos mais diversos pontos do mundo
inteiro, aquela mesma palavra.
E
pensarão eles que Coca-Cola era o nome do nosso Deus!
Mário Quintana, in Caderno H
Vogal
Ilustração: Leya
Mira Brander
Tia
Alda era um mistério para mim, menina tímida, de pouca conversa.
Tinha o dom de encantar com as palavras. Qualquer mal-entendido entre
os parentes, lá vinha ela, por vontade própria, ou convocada com
urgência, para colocar as coisas em ordem. Se um conflito avultava,
tia Alda o reduzia; se o rio familiar transbordava de intrigas, ela o
devolvia à calma de suas nascentes; se o vento da discórdia
soprava, ela o recolhia com a agilidade de quem caçava borboletas.
Lembro-me
de uma de suas proezas, uma das que mais me impressionaram. Sem
sabermos o motivo, uma de nossas vizinhas um dia desentendeu-se com o
marido: pegou uma faca de repente e saiu em correria pelo quintal
atrás dele, ameaçando matá-lo. Era um caso perigoso porque a
mulher usava habilmente facas, facões e machadinhas: degolava
frangos para outras donas de casa, matava leitoas e limpava peixes a
pedido dos homens do bairro. O marido, encurralado entre o tanque e a
jabuticabeira, tentava se safar e suplicava para que ela o poupasse.
Alguém
chamou tia Alda às pressas. Eu estava na varanda de casa, apavorada,
quando ela voltou da vizinha com a faca na mão, o rosto sereno.
Minha mãe, pasma com aquele milagre, perguntou-lhe:
— Deus,
como você conseguiu?
— Com
paciência! — respondeu tia Alda.
— Sim,
mas qual é o segredo?
— O
segredo está nas palavras.
Nessa
época, eu aprendia a ler e a escrever e me peguei imaginando quais
palavras ela usara para desarmar a vizinha e conseguir a sua
rendição.
Então,
uma tarde na escola, depois de soar a campainha anunciando o fim das
aulas, demorei para sair e, ao fazê-lo, umas meninas pararam no
portão e me impediram a passagem. Pedi educadamente que me deixassem
passar. Negaram-se. E, como tentei escapar à força, empurraram-me
de lá para cá, beliscaram-me e só não me bateram porque um
inspetor viu a provocação e veio em meu socorro. Cheguei arrasada
em casa, as marcas de arranhões nos braços, os olhos vermelhos. De
nada valeu minha mãe tentar me extrair a verdade, eu me recolhera
num mutismo de aço. Aborrecida com minha teimosia, telefonou para a
irmã, pedindo-lhe que viesse falar comigo.
Pouco
depois, ouvi tia Alda bater à porta de meu quarto.
— Posso
entrar? — perguntou.
Já
que eu não respondia nem sim nem não, ela girou a maçaneta,
entrou, mansamente, e se sentou ao pé da cama. Não disse nada e se
manteve assim um tempão. Em vez de me sentir acuada, animei-me a
falar e pensei que seu segredo não estava nas palavras, mas em seu
silêncio. Contei-lhe, então, aos pedaços, o que me sucedera. Ao
relembrar a humilhação de que fora vítima, voltei a soluçar. Por
que as meninas tinham feito aquilo comigo?
Depois
de meu desabafo, ela se levantou; vendo minha mochila escolar, pegou
um caderno e o folheou por longo tempo, como se não encontrasse o
que me dizer. Seria a primeira derrota dela e me senti duplamente
triste em imaginar que meu ídolo cairia diante de meus pés. Mas, de
repente, ela fechou o caderno, suspirou e perguntou se eu sabia a
diferença entre vogais e consoantes, o que me decepcionou ainda
mais; eu precisava da ajuda dela e desejava experimentar plenamente
em mim o seu milagre.
Virei
o rosto e me recusei a responder, não queria falar de nada que
lembrasse a escola onde eu, havia pouco, provara aquela lição
dolorosa. Aí ela disse que o mundo era como o alfabeto, feito de
vogais e consoantes. As vogais eram sons que nasciam quando o ar saía
livremente pela nossa boca. As consoantes não: os lábios, os
dentes, a língua e o palato criavam obstáculos à passagem do ar
quando a gente as pronunciava.
Eu
era uma vogal e tentara passar livremente pelo portão, mas as
meninas, consoantes, haviam me impedido. E se existissem apenas
vogais, ou só consoantes, o mundo teria de ser escrito de outra
maneira; o bonito era que podíamos fazer inúmeras combinações.
Conforme
tia Alda falava, comecei a pensar nas pessoas que eu conhecia, a
comparar uma das garotas balofas com a letra B, o inspetor alto e
magro que me socorrera com a letra I, a minha rechonchuda prima com a
letra O, e, assim, fui me alegrando a cada vez que encontrava no
alfabeto uma vogal ou consoante que lembrava algum conhecido.
Agora,
tantos anos depois, recebo por telefone a notícia de que ela morreu.
Ao saber pela voz de minha mãe as circunstâncias, estremeço com a
escrita do destino, ou do acaso, se é que ambos não são faces da
mesma moeda: tia Alda fora ao banco pagar uma conta, quando três
assaltantes, entre eles uma mulher, renderam os seguranças e
exigiram o dinheiro do cofre. A polícia cercou o banco, os
ladrões fizeram clientes e funcionários seus reféns.
Meu
coração se comprimia, enquanto ela me contava os detalhes: o tempo
passara e as negociações não evoluíam. Então, os assaltantes
ameaçaram matar uma pessoa a cada meia hora, se não lhes
facilitassem a fuga. Depois de uma hora, soaram dois estampidos; Era
só pra assustar, minha mãe disse, chorando, ninguém tinha se
ferido, como se soube mais tarde.
Mas
aí, quando os policiais invadiam o banco para libertar os reféns,
tia Alda surgiu à porta com umas armas nas mãos. Tinha
convencido os assaltantes a se entregarem, filha! Só que os
policiais a confundiram com a cúmplice dos ladrões. Não sabiam o
que eu descobri, naquela tarde, com as suas palavras: que ela era uma
vogal. Ela estava ali para lhes abrir a passagem.
João Anzanello Carrascoza, in Aquela água toda
Profundidade
از
صدای وزغ ها
اندازه
میگیرم
عمق
مرداب را.
Pelo
coaxar das rãs
meço
a
profundidade da lagoa.
Abbas Kiarostami, in Nuvens de algodão
Capítulo vinte | A revelação
Cada
um descobre o seu anjo tendo um caso com o demónio.
– Avô
Mariano –
– Onde
é que encontrou essa boina? Desde que eu visitara meu pai, me
esquecera do boné enterrado na cabeça. A Avó Dulcineusa espreita o
adorno com desconfiança. Reconhecia-o?
– Encontrei
isto no quarto de arrumos.
– Que
quarto de arrumos?
Esse
que eu chamava de quarto de arrumos há muito que estava vazio,
aberto aos ratos. – Como não há quarto? Se a Avó me entregou as
chaves, eram até as únicas chaves que serviam.
– Depois
sou eu que estou louca?! Esse quarto nem porta tem, nem soalho nem
nada.
Como
eu teimasse, ela me conduziu ao lugar. Dulcineusa, afinal, estava
certa. Não existia porta e as tábuas do chão haviam sido
arrancadas. Umas traves soltas, como ossos descarnados, era tudo o
que restava. Meus olhos zonzearam pelo corredor a reclamar certeza.
Só podia ser aquele o compartimento onde eu ardera de amores, onde
desencantara roupas e lembranças de roupas.
– Mas,
Avó, eu tenho a certeza...
– Venha,
meu neto. Venha, que lhe faço um chá.
Bate-me
com a mão na testa, como que em consolo de uma tonteira. Espontaneia
a larga e bem fermentada gargalhada. Há muito que não via
Dulcineusa tão satisfeita. Cantarola e dança pelos corredores. Só
um nome floresce em sua boca: Mariano, Mariano, Mariano. Reclama que
se tem encontrado com ele, me agradece o ter adiado o funeral do
desfalecido marido.
– Nem
imagina, Marianinho! Tem sido melhor que antes, quando éramos vivos.
– A
Avó é viva, não esqueça.
– Eu
estou como ele, nem a meio nem a metade. Só sei que ele agora é
meu, só meu.
– E
Miserinha? Há um tempo que não a vejo.
– Miserinha
foi, voltou para casa dela.
A
nossa visitante se despedira uns dias antes. A gorda chegou à sala e
anunciou a intenção de abandonar Nyumba-Kaya. Se arrastou para a
sala fúnebre e ali, com permissão de Dulcineusa, beijou o Avô na
fronte dizendo: – Obrigado, Mariano. Lhe agradeço. Mas fico melhor
no meu escuro, lá no meu canto! Depois, rasgou um pedaço do lençol
onde o A vá jazia. Levou esse pano rasgado para costurar e
recosturar lembranças em sua casa.
A
saída de Miserinha acabava reconfortando Dulcineusa. Ela estava
sozinha, sem competir com a sua antiga rival. A Avó redescobrira os
amores exclusivos do seu Mariano.
Depois
do chá, saio para a lagoa Tzivondzene. É lá que estão enterrados
os líquidos restos de minha mãe e meu pequeno irmão. Na borda da
água nada assinala o local do enterro. Sentei-me ali, no calado da
tarde. E relembro minha mãe, Dona Mariavilhosa. Agora, eu sabia a
sua história e isso era como que um punhal em minha consciência.
Como pudera eu estar tão desatento ao seu sofrimento? A vida de
Mariavilhosa se tinha infernizado desde que lhe sucedera o
nado-morto. Passara a ser uma mulher condenada, portadora de má
sorte e vigiada pelos outros para não espalhar sua sina pela vila. O
menino desnascido era um ximuku, um afogado. É assim que chamam aos
que nascem sem vida. Meu irmãozito nascera sem dizer nada, trouxera
um segredo que levara com ele.
Minha
mãe ficara em estado de impureza. Meu pai se opusera ao completo
exercício da tradição. Todavia, dentro dele havia ainda alguma
resistência a virar página sobre os antigos preceitos. Mariavilhosa
estava interdita de pegar em comida. Evitava entrar na cozinha. O
simples segurar de um prato a obrigava a purificar as mãos. Dizia-se
que devia “queimar” as mãos. Aquecia os braços numa chama da
fogueira para que os laivos da desgraça não conspurcassem os
alimentos. Devido a essa exclusão da cozinha eu não me recordava
dela, rodopiando com as demais mulheres junto ao fogão. Até no
falar ela seguira o tradicional mandamento. Mariavilhosa falava
baixo, tão baixo que nem a si se escutava. Não mais ela ajudou nos
campos. Sua impureza podia manchar a terra inteira e afligir a
fecundidade das machambas. Minha mãe acabara sucumbindo como o velho
navio de carga. Transportava demasiada tristeza para se manter
flutuando.
Um
pássaro-martelo rodopia sobre mim. Pousa e se aproxima, sem medo.
Fica-me olhando, sereno como se eu lhe fosse familiar. Me apetece
tocar-lhe mas me guardo, imóvel. Ele se anicha em seu próprio
corpo, parece adormecido. Fecho os olhos, afrouxado naquela quietude.
Quando me levanto e, pé ante pé, tento despertar o pássaro, ele se
conserva imóvel. Estaria adoentado, ainda me ocorreu. Um pássaro
adoece? Ou desmorona-se logo na morte, sem enfermidade pelo meio?
Encorajado pela atitude da ave acabo tocando-lhe, num leve roçar dos
dedos. É então que do corpo do mangondzwane se libertam dezenas de
outras aves semelhantes, num deflagrar de asas, bicos e penas. E o
bando, em espesso cortejo, se afasta, rente ando o rio Madzimi,
láonde minha mãe se converteu em água.
Volto
a casa, já anoitece. Procuro Dulcineusa, quero-lhe contar o sucedido
com a ave dos presságios. Não está no quarto nem na cozinha.
Surpreendo-a na sala deitada no escuro com o Avô. Está de costas,
ainda meio despida. A blusa está desabotoada e as costas nuas luzem,
gotejadas de suor. Parecem ter acabado de ter relações. A Avó
ainda está ofegante. Receio que fique ali, ao rigor do frio e da
cacimba. Chamo-a, com carinho: – Avó Dulcineusa! Lentamente ela se
vira. Um choque quase me atira ao chão. Não é Dulcineusa. É minha
Tia Admirança! E sua ofegação não resulta de cansaço. Ela
estáchorando. Mãos nas mãos, dedos num entrelaço cego. Chora
junto de Mariano.
– Esse
homem, você não sabe quanto eu o amei!.. Quanto eu o amo.
– O
Avô?
– Esse
homem não é seu Avô, Mariano.
Ergue-se
e sai chorando. Fico no escuro, vazio de ideia, deserto de
sentimento. Mariano não era meu avô? Teria eu escutado bem? Ou a
Tia estaria já contaminada pela morte que pairava em casa? A sombra
do pássaro-martelo atravessa o chão da minha alma.
Regresso
ao quarto e sento na mesa. À minha frente, olho a folha em branco.
Nada está nela escrito. Alguma vez terá havido realmente qualquer
palavra escrita? Seguro a caneta. O desejo arde em minhas mãos mas,
ao mesmo tempo, o medo me paralisa. É um receio profundo de que
qualquer coisa esteja desabando. Começo escrevendo, a mão obedece a
uma voz antiga enquanto vou redigindo: Desculpe sua Tia. Mas eu
careço de lhe fazer uma revelação: Admirança foi a mulher em
minha vida. Não foi Dulcineusa, nem Miserinha, nem nenhuma. Foi ela,
minha Admirança. Ela é muito mais nova que a irmã Dulcineusa.
Quando casei, ela estava longe de ser mulher. Era menina, a mais nova
das irmãs de Dulcineusa. Depois, foi completando formas, enchendo-se
de redondeada polpa. Não imagina como ela detinha belezas! Vivia
connosco, em nossa casa, e Dulcineusa nem suspeitava como sua irmã
recheava meu coração e apaladava meus sonhos.
Dimira,
assim eu lhe chamava. Minha Dimira que eu sempre tanto desejei! Em
miúda, ela se costumava meter numa canoa e subir o rio. Nas noites
sem luar, Admirança empurrava a embarcação até quase não ter pé.
Depois saltava para dentro da canoa e, à medida que se afastava, ia
despindo suas roupas. Uma por uma, as lançava na água e as vestes,
empurradas pela corrente, vinham ter à margem. Desse modo, eu sabia
quando ela já estava inteiramente nua. Sucedia, porém, quando eu
deixava de vislumbrar a canoa, perdida que estava na distância. Não
vendo, eu adivinhava a sua nudez e prometia que, um dia, aquela
mulher me pertenceria. E era como se, naquele instante, uma luz
abrisse o ventre da escuridão. Eu era o acendedor das noites.
Não
houve lua nova que eu não ficasse na margem espreitando sua
invisível presença, entre as ne blinas do rio. Certa vez me
alertaram: um crocodilo fora visto no encalço da canoa. O bicho,
assim me disseram, seria de alguém. Imaginava mesmo de quem seria:
de Miserinha. A mulher detinha poderes. Por ciúme destinava a morte
na sua rival Admirança, nos remansos do Madzimi. Esbaforido corri
para junto de Miserinha. E lhe dei ordem que suspendesse o feitiço.
Ela negou. A dizer verdade, nem me ouviu. Estava possuída, guiando o
monstro perante a escuridão. Não consegui me conter: lhe bati na
nuca com um pau de pilão. Ela tombou, de pronto, como um peso
rasgado. Quando despertou, me olhou como se não me visse. O golpe
lhe tinha roubado a visão. Miserinha passou a ver sombras. Nunca
mais poderia conduzir o seu crocodilo pelas águas do rio.
Pensei
que Miserinha me passaria a odiar. No dia seguinte, ela se despediu
de nossa casa. Puxou-me para um canto e me perguntou: – Está com
medo de minha vingança? – Eu sei que a senhora tem poderes...
– Não
receie, Mariano. Um homem que ama assim só pode inspirar respeito
nas outras mulheres! Naquela noite regressei ao rio e encontrei
Admirança ainda no bote. Ela acreditou que eu vinha para propósitos
de corpo e beijo. Mas eu, mal entrei na embarcação, me prostrei
como que de joelhos e lhe pedi se podia dormir ali com ela. Dormir,
sem mais demais. Que eu nunca havia dormido com mulher nenhuma. Ela
me olhou, espantada, como se a ausência do luar me escangalhasse o
juízo. E estendeu a mão, ajudando-me a deitar, todo estendido no
barquito. No embalo da ondulação acabei adormecendo.
Admirança,
entretanto, foi mandada para Lualua, onde havia uma missão católica.
Nós nos encontrávamos lá, não havia mês que não o fizéssemos.
Foi assim que ela engravidou. E não podia. Pensei, rápido, num modo
de sanar o pecado. Pedi a Mariavilhosa, sua mãe, que fizesse de
conta que estava grávida. Se ela fingisse bem, os xicuembos lhe
dariam, mais tarde, um filho verdadeiro. Sua mãe fingiu tão bem,
que a barriga lhe foi crescendo.
Sua
mãe aumentava de um vazio. Seu pai sorria, todo saciado. E até ela
mesma acreditava estar dando guarida a um novo rebento. Na missão de
Lualua, entretanto, nascia um menino do ventre de Admirança.
Trouxemos o pequeno bebé na encobertura da noite e fizemos de conta
que se dava um parto na casa grande, em Nyumba-Kaya. Até seu pai
chorou, crente de que o vindouro era genuíno fruto de seu sangue.
Mas
com o tempo o menino cresceu, foi ganhando feições. Admirança
definhava só ao pensar que esse moço ia revelando a identidade do
pai verdadeiro. Ela me suplicou que deixasse esse seu filho sair da
Ilha. Ele que crescesse fora, longe das vistas. E longe de sua culpa.
E o menino foi mandado para a cidade. Lá se fez homem, um homem
acertado no sentimento. Esse homem é você, Mariano. Admirança é
sua mãe.
Foi
esta mentira que fechou a terra, fazendo com que o chão negasse
receber-me. Mas não foi apenas esta impostura. Há outro assunto,
outra vergonha em minha vida. Quase nem me resta coragem para
confessar. Mas sei que devo fazer) colocar tudo isso em letra que
seja sua. Só assim lavarei sombras da minha existência.
E
prossigo na ordem dos tempos. Como sabe) Fulano Malta) esse que se
acredita ser seu pai) voltou da guerrilha trazendo duas pistolas. Ele
as guardava como lembrança de um tempo. Aquilo tinha valor de vida
sonhada. Uma noite encontrei o esconderijo dessas armas) por baixo de
umas velhas tábuas. Fui lá e rapinei uma pistola. O que fazer com
essa arma) eu não sabia. Mas tinha a certeza que ela me traria
dinheiro para urgentes precisões. Falei então com meus netos) os
filhos de Ultímio. Nessa altura) eles ainda viviam na cidade) foi
antes de partirem para o estrangeiro. Me haviam dito que eles se
entortaram para maldades) assaltavam carros e casas lá na cidade.
Chamei-os a Luar-do-Chão e lhes vendi a arma mais as respectivas
munições. Eles me pagaram pronto) tudo fechado) sem boca nem
ouvido. Segredo de sangue) assunto de família.
Sabe
o que suspeito? Que essa mesma arma foi a que matou meu amigo Juca
Sabão. Com certeza ele foi desensaboado com ajuda de minha ganância.
Pois aconteceu que) ao lado do corpo de Sabão) encontraram a arma) a
mesma arma que era de meu filho Fulano. Levaram a pistola para a
esquadra. Nessa noite eu não apanhava o devido sono) devorado pelo
pensamento. Podia deixar cair suspeita sobre os meus próprios netos?
Ou sobre Fulano) dono da arma? Trairia minha própria família para
que se fizesse justiça sobre o meu amigo? Não fiz outra coisa:
assaltei a esquadra e apanhei a arma) de escondido. Lancei-a no rio
nessa mesma noite. Sucedeu) porém) o que eu nunca poderia prever: em
lugar de se afundar, a Pistola ficou flutuando, animada por um
rodopio como que em infernoso redemoinho. E de repente, como se
houvesse um invisível dedo percutindo o gatilho, se deflagraram
tiros apontados às nuvens. Relâmpagos ainda sulcavam os céus
quando regressei, em debandada, para Nyumba-Kaya.
Todo
este tempo me condisse uma benzida ignorância sobre quem matou.
Preferia assim: acreditar no que disseram os tribunais, ficar de bem
com as aparências. Mas essa ilusão nunca me apaziguou. Nem a mim
nem aos meus antepassados que residem no chão do tempo. A terra não
aceita o espinho dessa mentira. Agora, deito esta mágoa na folha,
como se rasgasse o silêncio em que guardei essa má lembrança.
Pergunto-lhe,
meu filho Mariano: matei Juca, também eu? Talvez. Ou, quem sabe,
todos nós ajudámos nesse crime, por consentimento de silêncio? O
que eu devia ter feito era vencer o medo e sair pelo mundo a relatar
o testemunhado. Entregar-me como ocultador de provas. Mas não.
Mandado fui por minhas inferioridades. Você sabe: homem cobarde
transpira mesmo dentro da água. Dobrei-me sob o peso desse rebate de
consciência. Lembre de mim essa vergonha e cresça por cima de minha
fraqueza. Como um degrau que, para si, desenhei em minhas costas.
Depois
disto, sim, eu posso, em estreada vez, assinar de pulso aberto e por
extenso: Dito Ma ria no, seu pai PS: Me leve agora para o rio. Já
chegou o meu tempo. Peça a Curozero que lhe ajude. Não quero mais
ninguém lá. Nem parente, nem amigo. Ninguém. Lembra onde foram
enterradas as águas de sua mãe e o corpo de seu pequeno irmão, o
pré-falecido? junto à lagoa que nunca seca. Pois eu quero ser
enterrado junto ao rio. Pergunte ao coveiro Curozero, ele lhe dirá.
É lá que deverei ser enterrado. Eu sou um mal-morrido. já viu
chover nestes dias? Pois sou eu que estou travando a chuva. Por minha
culpa, a lua, mãe da chuva, perdeu a sua gravidez.
Sabe,
Marianito? Quando você nasceu eu lhe chamei de “água”. Mesmo
antes de ter nome de gente, essa foi a primeira palavra que lhe
deitei: madzi. E agora lhe chamo outra vez de “água”.
Sim, você é a água que me prossegue, onda sucedida em onda, na
corrente do viver.
Já
passou o meu momento. Você está aqui, a casa está sossegada, a
família está aprontada. já me despedi de mim, nem eu me preciso.
Vai ver que, agora, se vão desamarrar as águas, lá no alto das
nuvens. Vai ver mais como a terra se voltará a abrir, oferecida como
um ventre onde tudo nasce.
Já
sou um falecido inteiro, sem peso de mentira, sem culpa de falsidade.
Me
faça um favor: meta no meu túmulo as cartas que escrevi,
deposite-as sobre o meu corpo. Faz conta me ocuparei em ler nessa
minha nova casa. Vou ler a si, não a mim. Afinal, tudo o que escrevi
foi por segunda mão. A sua mão, a sua letra, me deu voz. Não foi
senão você que redigiu estes manuscritos. E não fui eu que ditei
sozinho. Foi a voz da terra, o sotaque do rio. O quanto lembrei veio
de antes de ter nascido. Como essa estrela já morta que ainda vemos
por atraso de luz. Dentro de mim, até já esse brilho esmoreceu.
Agora, estou autorizado a ser noite.
Depois
disto, vá chamar Curozero Muando. E levem-me para o, rio.
Aproveitemos a madrugada que é boa hora para se nascer.
Lá
fora, a noite está perdendo espessura. Salto o muro da casa, olho
para trás e, não cabendo em meu espanto, o que vejo? O telhado da
sala já refeito. A casa já não se defendia do luto. Nyumba-Kaya
estava curada da morte.
Uma
azulação no horizonte revela o amanhecer. Encontro Curo zero Muando
saindo de sua casa. Com uma pá às costas ele caminha na minha
direcção: – Eu sabia, eu sabia que você me vinha chamar! Vamos
rápido que, agora, ninguém nos pode ver.
No
segredo do escuro, trazemos o falecido para o rio. Me assombra como
não tem peso o Avô Mariano. Levamos o corpo para o rio, enrolado em
seu velho lençol. Lá onde o Madzimi se encurva, quase arrependido,
Curozero fez paragem.
– É
aqui!
– Vamos
deitá-lo na corrente? Não. O Avô vai ser enterrado na margem, onde
o chão é basto e fofo. Curozero levanta areia às pazadas com tais
facilidades que seu acta perde realidade. Começa a chover assim que
descemos o Avô à terra. Conservo as cartas em minhas mãos. Mas as
folhas tombam antes de as conseguir atirar para dentro da cova.
– Curozero,
ajude-me a apanhar esses papéis.
– Quais
papéis? Só eu vejo as folhas esvoando, caindo e se adentrando no
solo. Como é possível que o coveiro seja cego para tão visíveis
acontecências? Vou apanhando as cartas uma por uma. É então que
reparo: as letras se esbatem, aguadas, e o papel se empapa,
desfazendo-se num nada. Num ápice, meus dedos folheiam ausências.
– Quais
papéis? – insiste Curozero.
Respondo
num gesto calado, de mãos vazias. O coveiro salpica com água as
paredes do buraco. Cobrimos a sepultura de terra. Muando, descalço,
pisoteia o chão, alisando a areia. Em seguida, por cima da campa
espalha uns pés de ubuku, dessas ervas que só crescem junto ao rio.
No fim, entrega-me um caniço e ordena que o espete na cabeceira da
tumba. Foi um caniço que fez nascer o Homem. Estamos repetindo a
origem do mundo. Afundo a cana bravia na areia. Como uma bandeira, o
caniço parece envaidecido, apontando o poente.
– Agora
lavemo-nos nas águas do rio. Mergulhamos nas águas. Não sei do que
nos lavamos. Para mim, o rio, de tão sujo, só nos pode conspurcar.
Todavia, cumpro o ritual, preceito a preceito. Limpamo-nos no mesmo
pano. Em seguida, Curozero segura um pedaço de capim a arder e o
agita apontando os quatro pontos cardeais.
– Seu
Avô está abrindo os ventos. A chuva está solta, a terra vai
conceber.
Mia Couto, in Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra
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