26/04/2023

Fernanda Takai | Partida

Cosmogonia | O.P.Q.R.S.T.U.V.X.Y.Z.

SEGUNDA E DEFINITIVA CARTA AO TIMES

(Com vista ao Sr. redator da Seção Necrológica)

Escrevo-lhe esta em prantos, não para comunicar-lhe a morte de um ente querido, mas a minha própria morte. Como tudo que parece estranho, isto que acabo de anunciar tem na realidade uma explicação muito simples: é que resolvi suicidar-me e o senhor foi (à falta de um parente ou amigo, que não tenho) a única pessoa a quem me ocorreu dar, de antemão, a dolorosa notícia. Ao chegar esta à sua mesa repleta de avisos fúnebres e convites de missa de 7.° dia, já meu corpo, se foi encontrado, estará repousando no lugar que lhe compete dentro da imensidão da terra, ao lado de outros corpos de indigentes anônimos e esquecidos do mundo, com os quais possivelmente me comunicarei nas noites de tédio infinito.
Ainda uma hora atrás eu não sabia que hoje iria dormir em companhia dos mortos — hoje ou amanhã, conforme o tempo que levem para descobrir meu corpo franzino entres estes enormes eucaliptos e sob este cipreste que espero venha a cobrir um dia minha sepultura rasa. Como tudo que tenho feito na vida, decidi realizar minha morte sem pensar muito tempo no assunto, mesmo porque sempre me pareceu que a morte não é tão importante quanto querem fazer crer os vivos, dada a nossa perfeita insignificância dentro do universo. A morte de um mosquito é tão importante quanto a minha própria morte, digo-o sem falsa modéstia, e disso o senhor mesmo terá prova ao ficar sabendo do meu suicídio, que o afetará tanto quanto a morte de um dos milhões de perus sacrificados à véspera do Natal. A comunhão dos mortos ainda pode ser uma realidade, pelo menos para os que nela creem piamente, à sombra da necrofilia católica ou que outro nome tenha; a comunhão dos vivos, porém, ainda está por existir e com toda certeza não existirá nunca, dada a pouca cordialidade existente entre os homens, como de resto entre todas as feras de uma mesma espécie.
Sei que é de praxe o suicida invocar grandes razões, e se possível belas, para justificar seu gesto tresloucado, como dizem — e sinto ter que decepcioná-lo não invocando nenhuma razão maior para explicar esta minha fuga prematura de um mundo que afinal é o único mundo com o qual podemos contar honestamente. Se eu quisesse, certamente poderia encontrar uma dúzia ou mesmo duas de belas razões (metafísicas, econômicas, políticas etc. etc.) capazes de justificar não apenas o meu suicídio como o suicídio de toda a humanidade, nos dias que correm como em todos os tempos. Prefiro, porém, ser honesto e dizer que me mato pelo prazer único de matar-me, como existem casos de sujeitos que matam um desconhecido qualquer (não falando da guerra) pelo simples prazer de vê-lo cair morto ou para experimentar uma arma nova. Sei que é raro isto acontecer, mas acontece; e o meu caso é exatamente um desses. Enjoei de mim, como poderia ter enjoado da cara de um vizinho que nunca me tivesse feito mal em sua vida — e como não sou obrigado a viver de enjoo, cortei simplesmente o mal pela raiz, eliminando-me da minha vista. É possível que num dia de primavera e com os bolsos cheios de dinheiro eu não pensasse em eliminar-me com tanta facilidade, mesmo porque o homem é suficientemente tolo para contentar-se com pouca coisa, eterna criança que é; acontece que hoje não é primavera, nem tenho os bolsos abarrotados de notas de mil francos, de sorte que me sinto decididamente disposto ao suicídio, como o estaria para o homicídio também. O certo mesmo seria chamar a este meu suicídio de homicídio, já que em mim eu mato o homem que não me agrada e não o meu eu verdadeiro, que é até simpático.
E já que falo em simpatia, devo deixar claro que morro tão antipático como sempre vivi, tomando-se por base naturalmente a opinião dos outros a meu respeito, não a minha própria. A náusea que venho de sentir pelo meu corpo cheio de esperma, lágrimas e outros humores trágicos, é uma náusea que, bem ou mal, eu poderia superar com ajuda de alguma filosofia, desde que me dispusesse a praticar a necessária ginástica mental diante do espelho; ao passo que a antipatia que me inspiram os outros, e vice-versa, é algo que nasceu comigo e será hoje comigo assassinado, e que só pode ter explicação na perfeita dessemelhança existente entre mim e os meus semelhantes, entre o meu EU e o que se convencionou chamar o homem comum. Todas as normas de educação que me tentaram impingir no cérebro tinham por objetivo convencer-me de que eu e o meu vizinho éramos feitos da mesma massa e consequentemente da mesma qualidade de alma, havendo mesmo alguns exagerados que chegavam a proclamar que ambos éramos filhos do mesmo pai celestial, a cuja imagem e semelhança havíamos sido feitos em nove meses; a experiência, porém, convenceu-me exatamente do contrário, e não foi preciso muito tempo para eu descobrir que não passava de um pequeno monstro dentro da minha espécie, de alguém que não se parecia nem sequer consigo mesmo nos diversos momentos e que já nascera fatalmente marcado para a solidão. E como eu não podia andar metido num escafandro todas as horas do dia, embora já tenha exercido a profissão de escafandrista na penúltima guerra, deu-se o entrechoque fatal entre a minha multidão de almas e a alminha dos meus pseudossemelhantes, com consequentes ódios e ressentimentos de parte a parte, como ficou provado nas páginas de meu Diário íntimo e que um dia ainda serão publicadas. Nesse livro aparentemente triste, eu me situo na posição de antípoda de todos os seres com os quais vivo esbarrando-me pelas ruas ou mesmo dentro de casa — o que talvez em parte explique meu contínuo peregrinar pelos quatro cantos do mundo, à procura de outro polo no qual certamente houvesse um outro antípoda à minha espera.
Mas, Sr. redator de assuntos fúnebres, nada mais tenho a dizer, por ora, neste in extremis que já se vai fazendo longo e sem graça, e que certamente será tido por V. S. na devida consideração, atirando-o simplesmente à cesta de papéis velhos. Desconhecendo-me como o Sr. me desconhece, é justo que não queira levar-me a sério e nem sequer se dê ao trabalho de procurar no mapa onde fica San Juan de Ia Sierra, onde dentro em pouco entregarei a alma ao Criador ou a quem lhe faça as vezes, como quem restitui um guarda-chuva que apenas lhe foi dado em empréstimo. E para que o Sr. me acredite em parte, e bem assim não se sinta de todo roubado em seu precioso tempo, deixo-lhe de presente o meu relógio de estimação, que pertenceu a um enforcado das minhas relações e que marca todos os minutos da vida com uma precisão realmente cronométrica, apesar de também já ter sido enforcado com o seu dono.

Funereamente seu,
...................................................................…

FIM

Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia

A temporada de saury


[…]
As encostas das montanhas assumiram um tom escuro de verde. Ventos fracos, pouco mais fortes que uma brisa, começaram a soprar do leste. As moscas começaram a demonstrar seu prolífico poder de reprodução e enxameavam em volta das lulas penduradas para secar. Quando chegou a noite, mosquitos passaram a voar zumbindo perto dos ouvidos das pessoas.
De vez em quando um barco de carga passava diante da aldeia, mas os habitantes mal erguiam os olhos do trabalho enquanto os navios desapareciam à distância no mar calmo.
O número de lulas que conseguiam pescar começou a diminuir, e menos delas eram vistas penduradas para secar. Aquelas já secas eram amarradas com um barbante, e colocadas junto com as outras, esperando para ser levadas montanha acima.
A mãe de Isaku levou outras duas cargas de lula para a aldeia vizinha. A quantidade de grãos que trouxe como pagamento não foi nada de especial, mas ela parecia animada mesmo assim. Tinha parado no intermediário de contratos de servidão para perguntar sobre o pai dele e não havia notícias. Não haver notícias era uma boa notícia; ele devia estar bem. Isaku ficou aliviado ao saber disso, mas então ouviu a mãe dizer que a irmã mais velha de Tami tinha ficado doente depois de apenas dois meses.
— E o intermediário teve a audácia de reclamar que foi enganado, depois de pagar um bom preço por ela — disse a mãe, cuspindo as palavras, ultrajada.
Se um servo sob contrato morria, o intermediário tinha de pagar uma certa quantia como compensação ao empregador com base no fato de ter oferecido um trabalhador inadequado. Por causa disso os intermediários só escolhiam pessoas fortes e saudáveis. Para cobrir uma possível perda financeira com a morte do trabalhador, ele pagava à família do trabalhador muito menos do que recebia do empregador. A aldeia de Isaku fornecia um bom número de trabalhadores.
Sem dúvida a família de Tami já devia saber a essa altura, e Isaku imaginou como eles teriam recebido a notícia. Sem dúvida teriam ficado perturbados, mas imaginou que poderiam pensar outras coisas também. Eles já haviam recebido o pagamento pelo contrato e a partida da irmã de Tami significava que tinham uma boca a menos para alimentar. Além disso, mesmo que ela pudesse voltar à vila depois de terminar o contrato, em termos de idade seria incapaz de obter um casamento favorável. Levando isso em consideração, a notícia de que a irmã de Tami tinha ficado doente com o que só poderia ser uma doença fatal não significava necessariamente má sorte para a família.
Colocando os grãos que trouxera em um vaso na despensa, a mãe murmurou:
— Não há chance de seu pai ter morrido. Ele é forte demais — o tom de voz dela foi como se estivesse admoestando a si mesma por ter tido um momento de dúvida.
Na tarde do dia seguinte, Isaku estava puxando seu barco para a praia quando ouviu o homem ao lado dele exclamar:
— Um arco-íris!
Erguendo os olhos, Isaku viu que o arco-íris começava mais ou menos no alto da cadeia de montanhas e seguia até o mar. Era o primeiro arco-íris do ano.
— Logo os saury estarão aqui — disse o homem, entusiasmado, ao colocar o remo sobre o ombro e seguir para a praia.
As cores do arco-íris gradualmente ficaram mais escuras, adornando o céu da tarde. Arco-íris no final da tarde eram vistos como bom presságio, especialmente aqueles que apareciam no começo do verão, que acreditavam prenunciar uma boa temporada de saury. Mas Isaku não se sentia tão otimista ao olhar o arco-íris. Sua habilidade de pegar saury deixava muito a desejar e, se sua pesca fosse tão ruim quanto a do ano anterior, sua família iria passar fome. A temporada de saury era crucial para a aldeia, já que a sobrevivência das famílias ao longo do ano dependia da habilidade de estocar essa fonte vital de nutrição. Takichi dissera que iria ensinar a Isaku o jeito certo de capturar saury, mas talvez ele só tivesse falado isso porque estava de bom humor por causa do casamento.
Isaku às vezes via Takichi na praia, e às vezes o via pescando lá fora no mar. Se era porque agora tinha uma esposa não estava claro, mas Takichi parecia ter um brilho de confiança nos olhos. Apesar de Takichi ser pequeno, Isaku achava que ele o fitava do alto com um ar de condescendência. Isaku imaginava que a atitude de Takichi significava que não iria ensinar a ele como pegar saury.
Mas uma mudança muito mais dramática em Kura chamou a atenção dos habitantes da aldeia. Ela ia até a praia assim que via Takichi retornando do dia de pescaria. Era uma pessoa diferente na presença de Takichi, seguindo obedientemente todas as ordens dele. Forte como era, Kura erguia sem esforço a grande tina com todo o pescado do dia, apoiando-a no ombro e voltando apressada para casa. Takichi subia a encosta de mãos abanando. Sorrindo de modo lascivo, os outros brincavam dizendo que Takichi devia ter tirado o couro dela.
Nos dias em que o mar estava bravo, Isaku amarrava uma machadinha e barbante em um quadro de carga e ia para o mato recolher casca de tília para fazer tecido. Era comum encontrar cobras nos bosques fechados de tílias, por isso Isaku usava protetores nas pernas, além de calças justas.
Estava chovendo levemente, mas o vento era forte. Isaku baixou a aba do chapéu de junco para impedir que fosse levado pelo vento ao subir pela trilha úmida da montanha.
Depois de caminhar por cerca de uma hora ele chegou à floresta. O topo das árvores balançava de forma selvagem, mas não havia vento embaixo e o cheiro úmido da casca das árvores impregnava o ar. Ele parou perto de uma tília e soltou a machadinha e o barbante do quadro que trazia nas costas. Seu pai o levara para colher casca de tílias duas vezes no passado e, assim como o pai, Isaku enfiou a lâmina da machadinha bem perto da raiz. Cortou um galho da árvore próxima, dando-lhe a forma de uma espátula, e inseriu a ponta sob a casca, erguendo a ponta o suficiente para pegá-la com a mão e puxar. A casca foi arrancada do tronco.
Ele foi de uma árvore para outra, arrancando a casca de cada uma delas. As gotas de chuva faziam barulho ao cair em seu chapéu. A água escorrendo pelos troncos das tílias brilhava.
Seu estômago lhe dizia que estava na hora de comer. Isaku abriu um pequeno pacote de folha de bambu e atacou o bolinho de milho miúdo que havia ali dentro. No ano anterior ele não havia apanhado nenhuma casca de tília, mas nesse ano conseguiria levar o suficiente para sua mãe fazer roupas para eles. Enquanto olhava para as cascas de tília que havia arrancado das árvores, ele sentiu que se tornara o chefe da família.
Isaku trabalhou mais um pouco antes de recolher todas as cascas, dobrá-las ao meio e amarrar tudo com o barbante, que prendeu no quadro de carga que por sua vez foi colocado sobre suas costas. Era pesado, cerca de trinta ou trinta e cinco quilos.
Usando uma vara para se equilibrar, Isaku caminhou cautelosamente entre as árvores e saiu da floresta. A chuva estava mais forte, espalhando-se em gotículas ao atingir seu chapéu e ombros. O vento empurrava sua carga, e ele sentia o corpo se movendo com ela. Isaku desceu a trilha parando ocasionalmente para se endireitar contra as rajadas de vento. O mar tempestuoso apareceu à vista abaixo dele. Estava molhado até os ossos de chuva e suor.
A mãe começou a preparar as cascas de árvore naquela mesma noite. Cortou a parte externa com uma faca e colocou as camadas internas no chão. Isaku reparava seu equipamento de pesca no chão de terra enquanto observava a mãe, que parecia concentrada no trabalho.
No dia seguinte ela ensopou as camadas internas das cascas de árvore no riacho perto da casa deles. Os pedaços externos das cascas foram reunidos em um canto, prontos para ser usados para iniciar o fogo. Cinco dias depois ela tirou as camadas do riacho e as ferveu em uma panela de água, misturando com cinzas. Então colocou-as no riacho novamente, lavou-as bem, e pendurou-as para secar à sombra antes de desfiá-las para fazer linha. Em seguida fiou a linha na roda de fiar e depois sentou-se diante do tear, transformando-a em tecido. Tratava-se de um trabalho cansativo; às vezes ela parava para esfregar os olhos, com sono.
A estação chuvosa começou e muita água caiu sobre a aldeia. Os habitantes não encontravam mais lulas, e agora não pegavam nada além de pequenos peixinhos.
À tarde um velho pescador voltou da praia dizendo que os saury estavam começando a chegar. Isaku sentiu que perdia a compostura. Seu pai era hábil para pegar saury, mas para Isaku era um truque que ele não conseguia aprender de jeito nenhum. Na estação chuvosa anterior ele tentara pescar da forma como se lembrava de ver o pai fazendo, mas não conseguira pegar nada. A família de Isaku teve de ficar sentada sem ter o que fazer, olhando a fumaça que exalava das outras casas, onde estavam grelhando saury e vendo todos os outros guardando o saury em tinas. Naquele ano, ele pensou, tenho de pegar alguma coisa, mesmo que não seja muito, para minha família.
Como a pesca do saury era a mais importante de todo o ano para a aldeia, os homens faziam o máximo para pegar tanto quanto possível; não havia tempo disponível para ensinar técnicas de pesca para os outros. Na temporada anterior, as outras famílias da aldeia haviam ficado com pena da família de Isaku e cada uma lhes dera um pouco de peixe, mas naquele ano ele não queria ter de depender de caridade.
A única pessoa a quem Isaku podia recorrer era seu primo Takichi, mas, agora que ele tinha a própria casa para cuidar, era pouco provável que pudesse ensinar Isaku a pescar. Além disso, Isaku estava preocupado porque Takichi havia mudado desde o casamento. Mas Isaku decidiu que não havia modo de ele deixar sua família morrer de fome, então naquela mesma tarde, depois de engolir seu jantar bem depressa, ele correu pela trilha iluminada pelo luar até a casa do primo.
— Alô? — chamou Isaku ao enfiar a cabeça pela esteira de palha pendurada na entrada.
Takichi olhou para a porta de onde estava sentado no chão de terra, com a esposa ajoelhada a seu lado. Havia vários pedaços de palha grossa espalhados no chão, assim como muitos pedaços grossos de corda. Vendo que Takichi estava começando a preparar seu material de pesca, Isaku se aproximou dele.
— Você disse que ia me ensinar a pegar saury. Quero que me ensine. Minha família vai passar fome. Espero que não tenha esquecido o que disse naquela noite — disse Isaku.
— Eu não esqueci. Eu achava que você ia aparecer logo — disse Takichi. Um leve sorriso apareceu nos lábios dele.
Isaku ficou aliviado. Sentou-se ao lado do primo e fixou os olhos nas mãos de Takichi, que não paravam.
Para pescar saury, um pescador devia amarrar juntas três ou quatro peças de esteira de palha grossa e amarrar uma corda pesada nelas, deixando o conjunto flutuar cerca de quarenta metros atrás do barco. Ao mesmo tempo, junto da amurada, devia deixar flutuando um pedaço de esteira de palha com algas penduradas embaixo. Depois de lançar a âncora, ele devia se deitar para não ser visto pelos peixes. Quando sentisse que um cardume de saury estava perto da esteira, ele devia puxá-la pela corda. Os peixes se moviam com ela e nadavam por baixo da esteira com as algas. As algas presas sob a esteira deixavam os saury excitados, e eles subitamente começavam a desovar. O pescador devia então enfiar a mão por um dos vários buracos na esteira e mover os dedos na água. Atraídos, os saury nadavam entre os dedos e eram pegos em um instante. […]

Akira Yoshimura, in Naufrágios

25/04/2023

Perguntas

Numa incerta hora fria
perguntei ao fantasma
que força nos prendia,
ele a mim, que presumo
estar livre de tudo,
eu a ele, gasoso,
todavia palpável
na sombra que projeta
sobre meu ser inteiro:
um ao outro, cativos
desse mesmo princípio
ou desse mesmo enigma
que distrai ou concentra
e renova e matiza,
prolongando-a no espaço,
uma angústia do tempo.

Perguntei-lhe em seguida
o segredo de nosso
convívio sem contato,
de estarmos ali quedos,
eu em face do espelho,
e o espelho devolvendo
uma diversa imagem,
mas sempre evocativa
do primeiro retrato
que compõe de si mesma
a alma predestinada
a um tipo de aventura
terrestre, cotidiana.

Perguntei-lhe depois
por que tanto insistia
nos mares mais exíguos
em distribuir navios
desse calado irreal,
sem rota ou pensamento
de atingir qualquer porto,
propícios a naufrágio
mais que a navegação;
nos frios alcantis
de meu serro natal,
desde muito derruído,
em acordar memórias
de vaqueiros e vozes,
magras reses, caminhos
onde a bosta de vaca
é o único ornamento,
e o coqueiro-de-espinho
desolado se alteia.

Perguntei-lhe por fim
a razão sem razão
de me inclinar aflito
sobre restos de restos,
de onde nenhum alento
vem refrescar a febre
deste repensamento;
sobre esse chão de ruínas
imóveis, militares
na sua rigidez
que o orvalho matutino
já não banha ou conforta.
No voo que desfere,
silente e melancólico,
rumo da eternidade,
ele apenas responde
(se acaso é responder
a mistérios, somar-lhes
um mistério mais alto):

Amar, depois de perder.

Carlos Drummond de Andrade, in Claro Enigma

Serenata

Dever

Cumpro com meu dever. Nada mais me perturba. O restante carece de vida ou de razão, ou divagou e não conhece o caminho.

Marco Aurélio, in Meditações

Sonha o fidalgo da torre

I

Mas Gonçalo, que abominava aquela lenda, a silenciosa figura degolada, errando por noites de inverno entre as ameias da Torre com a cabeça nas mãos — despegou da varanda, deteve a Crônica imensa: — Toca a deitar, ó Videirinha, hein? Passa das três horas, é um horror. Olhe! O Titó e o Gouveia jantam cá na Torre, no Domingo.
Apareça também, com o violão e cantiga nova; mas menos sinistra...
Atirou o charuto, fechou a vidraça da sala — a “sala velha”, toda revestida desses denegridos e tristonhos retratos de Ramires que ele desde pequeno chamava as carantonhas dos avós. E, atravessando o corredor, ainda sentia rolarem ao longe, no silêncio dos campos cobertos de luar, façanhas rimadas dos seus:

Ai! lá na grande batalha...
El-Rei Dom Sebastião...
O mais moço dos Ramires
Que era pagem do guião...

Despido, soprada a vela, depois de um rápido sinal da cruz, o Fidalgo da Torre adormeceu. Mas no quarto, que se povoou de sombras, começou para ele uma noite revolta e pavorosa. André Cavaleiro c João Gouveia romperam pela parede, revestidos de cotas de malha, montados em horrendas tainhas assadas! E lentamente, piscando o olho mau, arremessavam contra o seu pobre estômago pontoadas de lança, que o faziam gemer e estorcer sobre o leito de pau preto. Depois era, na Calçadinha de Vila-Clara, o medonho Ramires morto, com a ossada a ranger dentro da armadura, e El-Rei Dom Afonso II, arreganhando afiados dentes de lobo, que o arrastavam furiosamente para a batalha das Navas. Ele resistia, fincando nas lajes, gritando pela Rosa, por Gracinha, pelo Titó! Mas D. Afonso tão rijo murro lhe despedia nos rins, com o guante de ferro, que o arremessava desde a Hospedaria do Gago até a Serra Morena, ao campo da lide, luzente e fremente de pendões e de armas. E imediatamente seu primo d'Espanha, Gomes Ramires, Mestre, de Calatrava, debruçado do negro ginete, lhe arrancava os derradeiros cabelos, entre a retumbante galhofa de toda a hoste sarracena e os prantos da tia Louredo trazida como um andor aos ombros de quatro Reis!... — Por fim, moído, sem sossego, já com a madrugada clareando nas fendas das janelas e as andorinhas piando no beirai dos telhados, o Fidalgo da Torre atirou um verdadeiro repelão aos lençóis, saltou ao assoalho, abriu a vidraça — e respirou deliciosamente o silêncio, a frescura, a verdura, o repouso da quinta.
Mas que sede! uma sede desesperada que lhe encortiçava os lábios!
Recordou então o famoso fruit salt que lhe recomendara o Dr. Mattos, arrebatou o frasco, correu à sala de jantar em camisa. E, a arquejar, deitou duas colheradas num copo d'água da Bica-Velha, que esvaziou dum trago, na fervura picante.
— Ah, que consolo, que rico consolo!. . .
Voltou derreadamente à cama: e readormeceu logo, muito longe, sobre as relvas profundas d'um prado de África, debaixo de coqueiros sussurrantes, entre o apimentado aroma de radiosas flores que brotavam através de pedregulhos de ouro. Dessa perfeita beatitude o arrancou o Bento, ao meio-dia, inquieto com “aquele tardar do Sr. Doutor”.
— É que passei uma noite horrenda, Bento: Pesadelos, pavores, bulhas, esqueletos... Foram os malditos ovos com chouriço; e o pepino...
Sobretudo o pepino! Uma ideia daquele animal do Titó. . . Depois, de madrugada, tomei o tal fruit salt, e estou ótimo, homem!... Estou otimíssimo! Até me sinto capaz de trabalhar. Leva para a livraria uma chávena de chá verde, muito forte. . . Leva também torradas.

II

Os pensamentos de Gonçalo esvoaçaram logo, com irresistida tentação, para D. Ana — para os seus decotes, para os languidos banhos em que se esquecia lendo o jornal. Por fim, que diabo!. . . Essa D. Ana assim tão honesta, tão perfumada, tão esplendidamente bela, só apresentava, mesmo como esposa, um feio senão — o papá carniceiro.
E a voz também — a voz que tanto o arrepiara na Bica-Santa... Mas o Mendonça assegurava que aquele timbre rolante e gordo, na intimidade, se abatia, liso e quase doce. .. Depois, meses de convivência habituam as vozes mais desagradáveis — e ele mesmo, agora, nem percebia quanto o Manuel Duarte era fanhoso! Não! mancha teimosa, realmente, só o pai carniceiro. Mas nesta Humanidade nascida toda d'um homem só, quem, entre os seus milhares de avós até Adão, não tem algum avô carniceiro? Ele, bom fidalgo, de uma casa de Reis de onde Dinastias irradiavam, certamente, escarafunchando o passado, toparia com o Ramires carniceiro. E que o carniceiro avultasse logo na primeira geração, cm um talho ainda afreguesado, ou que apenas se esfumasse, através de espessos séculos, entre os trigésimos avós — lá estava, com a faca, e o cepo, e as postas de carne, e as nódoas de sangue no braço suado!
E este pensamento não o abandonou até a Torre — nem ainda depois, à janela do quarto, acabando o charuto, escutando o cantar dos gaios. Já mesmo se deitara, e as pestanas lhe adormeciam, e ainda sentia que os seus passos impacientes se embrenhavam para trás, para o escuro passado da sua Casa, por entre a emaranhada História, procurando o carniceiro... Era já para além dos confins do Império Visigodo, onde reinava com um globo de ouro na mão o seu barbudo avô Recesvinto. Esfalfado, arquejando, transpusera as cidades cultas, povoadas de homens cultos — penetrara nas florestas que o mastodonte ainda sulcava. Entre a úmida espessura já cruzara vagos Ramires, que carregavam, grunhindo, reses mortas, molhos de lenha. Outros surdiam de tocas fumarentas, arreganhando agudos dentes esverdeados para sorrir ao neto que passava. Depois, por tristes ermos, sob tristes silêncios, chegara a uma lagoa enevoada. E à beira da água limosa, entre os canaviais, um homem monstruoso, peludo como uma fera, agachado no lodo, partia a rijos golpes, com um machado de pedra, postas de carne humana. Era um Ramires. No céu cinzento voava o Açor negro. E logo, dentre a neblina da lagoa, ele acenanava para Santa Maria de Craquede, para a formosa e perfumada D. Ana, bradando por cima dos Impérios e dos Tempos: — “Achei o meu avô carniceiro!”

III

Gonçalo remoeu a amarga certeza de que sempre, através de toda a sua vida (quase desde o colégio de S. Filipe!) não cessara de padecer humilhações. E todas lhe resultavam de intentos muito simples, tão seguros para qualquer homem como o voo para qualquer ave —só para ele constantemente rematados por dor, vergonha ou perda! À entrada da vida escolhe com entusiasmo um confidente, um irmão, que trás para a quieta intimidade da Torre — e logo esse homem se apodera ligeiramente do coração de Gracinha e ultrajosamente a abandona! Depois concebe o desejo tão corrente de penetrar na Vida Política — e logo o Acaso o força a que se renda e se acolha à influência desse mesmo homem, agora Autoridade poderosa, por ele durante todos esses anos de despeito tão detestada e chasqueada! Depois abre ao amigo, agora restabelecido na sua convivência, a porta dos Cunhaes, confiado na seriedade, no rígido orgulho da irmã — e logo a irmã se abandona ao antigo enganador, sem luta, na primeira tarde em que se encontra com ele na sombra favorável de um caramanchão! Agora pensa em casar com uma mulher que lhe oferecia com uma grande beleza uma grande fortuna — e imediatamente um companheiro de Vila-Clara passa e segreda: — “A mulher que escolheste, Gonçalinho, é uma marafona cheia de amantes!” De certo essa mulher não o amava com um amor nobre e forte! Mas decidira acomodar nos formosos braços dela, muito confortavelmente, a sua sorte insegura — e eis que logo desaba, com esmagadora pontualidade, a humilhação costumada.
Realmente o Destino malhava sobre ele com um rancor desmedido!
— E por quê? murmurava Gonçalo, despindo melancolicamente o casaco. Em vida tão curta, tanta decepção ... Por quê? Pobre de mim!
Caiu no vasto leito como em uma sepultura — enterrou a face no travesseiro com um suspiro, um enternecido suspiro de piedade por aquela sua sorte tão contrariada, tão sem socorro. E recordava o presunçoso verso do Videirinha, ainda nessa noite proclamado ao violão:
Velha casa de Ramires Honra e flor de Portugal!
Como a flor murchara! Que mesquinha honra! E que contraste o do derradeiro Gonçalo, encolhido no seu buraco de Santa Ireneia, com esses grandes avós Ramires cantados pelo Videirinha — todos eles, se História e Lenda não mentiam, de vidas triunfais e sonoras! Não! nem sequer deles herdara a qualidade por todos herdada através dos tempos, a valentia fácil. Seu pai ainda fora o bom Ramires destemido — que na falada desordem da romaria da Riosa avançava com um guarda-sol contra três clavinas engatilhadas. Mas ele... Ali, no segredo do quarto apagado, bem o podia livremente gemer — ele nascera com a falha, a falha de pior desdouro, essa irremediável fraqueza da carne que, irremediavelmente, diante de um perigo, uma ameaça, uma sombra, o forçava a recuar, a fugir. .. A fugir de um Casco. A fugir de uma malandro de suíças louras que numa estrada e depois numa venda o insulta sem motivo, para meramente ostentar pimponice e arreganho.
E a Alma... Nessa calada treva do quarto bem o podia reconhecer também, gemendo. A mesma fraqueza lhe tolhia a Alma! Era essa fraqueza que o abandonava a qualquer influência, logo por ela levado como folha seca por qualquer sopro. Por que a prima Maria uma tarde adoça os espertos olhos e lhe aconselha por trás do leque que se interesse pela D. Ana — logo ele, fumegando de esperança, ergue sobre o dinheiro e a beleza de D. Ana uma presunçosa torre de ventura e luxo.
E a Eleição? Essa desgraçada Eleição? Quem o empurrara para a Eleição, e para a reconciliação indecente com o Cavaleiro, e para os desgostos daí emanados? Gouveia! Com leves argúcias, murmuradas pela rua. Mas quê! Se mesmo dentro da sua Torre era governado pelo Bento, que superiormente lhe impunha gostos, dietas, passeios, e opiniões e gravatas! A um homem assim, por mais bem dotado na Inteligência, é massa inerte a que o mundo constantemente imprime formas várias e contrárias.
Enterrou-se sob a roupa. Batiam as quatro horas. Através das pálpebras cerradas, percebeu faces antigas, com desusadas barbas ancestrais e ferozes cicatrizes, que sorriam no fragor de uma batalha ou na pompa de uma gala, dilatadas pelo uso soberbo de mandar e vencer.
E Gonçalo, espreitando por sobre a borda do lençol, reconhecia os velhos Ramires.
Os robustíssimos corpos emergiam cobertos de saios de malha ferrugenta, por arneses de aço, clavas godas eriçadas de pontas e espadins de baile.
Das suas tumbas dispersas seus avós acudiam à casa nove vezes secular — para reunir Assembleia majestosa da sua raça ressurgida... E até mesmo reconhecia alguns dos mais esforçados, que agora, com o repassar constante do Poemeto do tio Duarte e o Videirinha gemendo fielmente o seu “fado”, lhe andavam sempre na imaginação...
O de brial branco e cruz vermelha era Gutierres Ramires o d'Ultramar, que correu ao assalto de Jerusalém; o velho Egas Ramires, negava acolhida no seu puro solar a El-Rei D. Fernando e à adúltera Leonor! Esse, de crespa barba ruiva, que cantava sacudindo o pendão real de Castela, quem, senão Diogo Ramires, o Trovador, na alegria da radiosa manhã d'Aljubarrota? Diante da incerta claridade do espelho tremiam as fofas plumas escarlates do morrião de Paio Ramires que se armava para salvar S. Luís, Rei de França. Ruy Ramires sorria às naus inglesas que fugiam da sua Capitania pelo mar português. Paulo Ramires, pajem do Guião d'El Rey nos campos fatais de Alcácer, sem elmo, rota a couraça, inclinava para ele a sua face de donzel, com a doçura grave de um avô enternecido...
Gonçalo sentiu que a sua ascendência toda o amava e que acudia a socorrê-lo na sua debilidade, e que o alcançava a espada que combatera em Ourique, a acha que derrubara as portas de Arcilla. “Ó avós, de que me servem as vossas armas — se me falta a vossa alma?...”
Acordou muito cedo, confuso, e abriu as vidraças à manhã.
Bento desejou saber se o Sr. Doutor passara mal a noite...
— Pessimamente!…

Eça de Queiroz, in A ilustre casa de Ramires

24/04/2023

Toda Luz que Não Podemos Ver | Teaser

O supremo castigo

Em todos os aeródromos, em todos os estádios, no ponto principal de todas as metrópoles, existe — quem é que não viu? — aquele cartaz...
De modo que, se esta civilização desaparecer e seus dispersos e bárbaros sobreviventes tiverem de recomeçar tudo desde o princípio — até que um dia também tenham os seus próprios arqueólogos — estes hão de sempre encontrar, nos mais diversos pontos do mundo inteiro, aquela mesma palavra.
E pensarão eles que Coca-Cola era o nome do nosso Deus!

Mário Quintana, in Caderno H

Vogal

Ilustração: Leya Mira Brander


Tia Alda era um mistério para mim, menina tímida, de pouca conversa. Tinha o dom de encantar com as palavras. Qualquer mal-entendido entre os parentes, lá vinha ela, por vontade própria, ou convocada com urgência, para colocar as coisas em ordem. Se um conflito avultava, tia Alda o reduzia; se o rio familiar transbordava de intrigas, ela o devolvia à calma de suas nascentes; se o vento da discórdia soprava, ela o recolhia com a agilidade de quem caçava borboletas.
Lembro-me de uma de suas proezas, uma das que mais me impressionaram. Sem sabermos o motivo, uma de nossas vizinhas um dia desentendeu-se com o marido: pegou uma faca de repente e saiu em correria pelo quintal atrás dele, ameaçando matá-lo. Era um caso perigoso porque a mulher usava habilmente facas, facões e machadinhas: degolava frangos para outras donas de casa, matava leitoas e limpava peixes a pedido dos homens do bairro. O marido, encurralado entre o tanque e a jabuticabeira, tentava se safar e suplicava para que ela o poupasse.
Alguém chamou tia Alda às pressas. Eu estava na varanda de casa, apavorada, quando ela voltou da vizinha com a faca na mão, o rosto sereno. Minha mãe, pasma com aquele milagre, perguntou-lhe:
— Deus, como você conseguiu?
— Com paciência! — respondeu tia Alda.
— Sim, mas qual é o segredo?
— O segredo está nas palavras.
Nessa época, eu aprendia a ler e a escrever e me peguei imaginando quais palavras ela usara para desarmar a vizinha e conseguir a sua rendição.
Então, uma tarde na escola, depois de soar a campainha anunciando o fim das aulas, demorei para sair e, ao fazê-lo, umas meninas pararam no portão e me impediram a passagem. Pedi educadamente que me deixassem passar. Negaram-se. E, como tentei escapar à força, empurraram-me de lá para cá, beliscaram-me e só não me bateram porque um inspetor viu a provocação e veio em meu socorro. Cheguei arrasada em casa, as marcas de arranhões nos braços, os olhos vermelhos. De nada valeu minha mãe tentar me extrair a verdade, eu me recolhera num mutismo de aço. Aborrecida com minha teimosia, telefonou para a irmã, pedindo-lhe que viesse falar comigo.
Pouco depois, ouvi tia Alda bater à porta de meu quarto.
— Posso entrar? — perguntou.
Já que eu não respondia nem sim nem não, ela girou a maçaneta, entrou, mansamente, e se sentou ao pé da cama. Não disse nada e se manteve assim um tempão. Em vez de me sentir acuada, animei-me a falar e pensei que seu segredo não estava nas palavras, mas em seu silêncio. Contei-lhe, então, aos pedaços, o que me sucedera. Ao relembrar a humilhação de que fora vítima, voltei a soluçar. Por que as meninas tinham feito aquilo comigo?
Depois de meu desabafo, ela se levantou; vendo minha mochila escolar, pegou um caderno e o folheou por longo tempo, como se não encontrasse o que me dizer. Seria a primeira derrota dela e me senti duplamente triste em imaginar que meu ídolo cairia diante de meus pés. Mas, de repente, ela fechou o caderno, suspirou e perguntou se eu sabia a diferença entre vogais e consoantes, o que me decepcionou ainda mais; eu precisava da ajuda dela e desejava experimentar plenamente em mim o seu milagre.
Virei o rosto e me recusei a responder, não queria falar de nada que lembrasse a escola onde eu, havia pouco, provara aquela lição dolorosa. Aí ela disse que o mundo era como o alfabeto, feito de vogais e consoantes. As vogais eram sons que nasciam quando o ar saía livremente pela nossa boca. As consoantes não: os lábios, os dentes, a língua e o palato criavam obstáculos à passagem do ar quando a gente as pronunciava.
Eu era uma vogal e tentara passar livremente pelo portão, mas as meninas, consoantes, haviam me impedido. E se existissem apenas vogais, ou só consoantes, o mundo teria de ser escrito de outra maneira; o bonito era que podíamos fazer inúmeras combinações.
Conforme tia Alda falava, comecei a pensar nas pessoas que eu conhecia, a comparar uma das garotas balofas com a letra B, o inspetor alto e magro que me socorrera com a letra I, a minha rechonchuda prima com a letra O, e, assim, fui me alegrando a cada vez que encontrava no alfabeto uma vogal ou consoante que lembrava algum conhecido.
Agora, tantos anos depois, recebo por telefone a notícia de que ela morreu. Ao saber pela voz de minha mãe as circunstâncias, estremeço com a escrita do destino, ou do acaso, se é que ambos não são faces da mesma moeda: tia Alda fora ao banco pagar uma conta, quando três assaltantes, entre eles uma mulher, renderam os seguranças e exigiram o dinheiro do cofre. A polícia cercou o banco, os ladrões fizeram clientes e funcionários seus reféns.
Meu coração se comprimia, enquanto ela me contava os detalhes: o tempo passara e as negociações não evoluíam. Então, os assaltantes ameaçaram matar uma pessoa a cada meia hora, se não lhes facilitassem a fuga. Depois de uma hora, soaram dois estampidos; Era só pra assustar, minha mãe disse, chorando, ninguém tinha se ferido, como se soube mais tarde.
Mas aí, quando os policiais invadiam o banco para libertar os reféns, tia Alda surgiu à porta com umas armas nas mãos. Tinha convencido os assaltantes a se entregarem, filha! Só que os policiais a confundiram com a cúmplice dos ladrões. Não sabiam o que eu descobri, naquela tarde, com as suas palavras: que ela era uma vogal. Ela estava ali para lhes abrir a passagem.

João Anzanello Carrascoza, in Aquela água toda

A Arte Cubista de Picasso

 
Retrato de Dora Maar (1937), de Pablo Picasso

Profundidade

از صدای وزغ ها
اندازه میگیرم
عمق مرداب را.

Pelo coaxar das rãs
meço
a profundidade da lagoa.

Abbas Kiarostami, in Nuvens de algodão 

Capítulo vinte | A revelação


Cada um descobre o seu anjo tendo um caso com o demónio.
– Avô Mariano –

– Onde é que encontrou essa boina? Desde que eu visitara meu pai, me esquecera do boné enterrado na cabeça. A Avó Dulcineusa espreita o adorno com desconfiança. Reconhecia-o?
– Encontrei isto no quarto de arrumos.
– Que quarto de arrumos?
Esse que eu chamava de quarto de arrumos há muito que estava vazio, aberto aos ratos. – Como não há quarto? Se a Avó me entregou as chaves, eram até as únicas chaves que serviam.
– Depois sou eu que estou louca?! Esse quarto nem porta tem, nem soalho nem nada.
Como eu teimasse, ela me conduziu ao lugar. Dulcineusa, afinal, estava certa. Não existia porta e as tábuas do chão haviam sido arrancadas. Umas traves soltas, como ossos descarnados, era tudo o que restava. Meus olhos zonzearam pelo corredor a reclamar certeza. Só podia ser aquele o compartimento onde eu ardera de amores, onde desencantara roupas e lembranças de roupas.
– Mas, Avó, eu tenho a certeza...
– Venha, meu neto. Venha, que lhe faço um chá.
Bate-me com a mão na testa, como que em consolo de uma tonteira. Espontaneia a larga e bem fermentada gargalhada. Há muito que não via Dulcineusa tão satisfeita. Cantarola e dança pelos corredores. Só um nome floresce em sua boca: Mariano, Mariano, Mariano. Reclama que se tem encontrado com ele, me agradece o ter adiado o funeral do desfalecido marido.
– Nem imagina, Marianinho! Tem sido melhor que antes, quando éramos vivos.
– A Avó é viva, não esqueça.
– Eu estou como ele, nem a meio nem a metade. Só sei que ele agora é meu, só meu.
– E Miserinha? Há um tempo que não a vejo.
– Miserinha foi, voltou para casa dela.
A nossa visitante se despedira uns dias antes. A gorda chegou à sala e anunciou a intenção de abandonar Nyumba-Kaya. Se arrastou para a sala fúnebre e ali, com permissão de Dulcineusa, beijou o Avô na fronte dizendo: – Obrigado, Mariano. Lhe agradeço. Mas fico melhor no meu escuro, lá no meu canto! Depois, rasgou um pedaço do lençol onde o A vá jazia. Levou esse pano rasgado para costurar e recosturar lembranças em sua casa.
A saída de Miserinha acabava reconfortando Dulcineusa. Ela estava sozinha, sem competir com a sua antiga rival. A Avó redescobrira os amores exclusivos do seu Mariano.
Depois do chá, saio para a lagoa Tzivondzene. É lá que estão enterrados os líquidos restos de minha mãe e meu pequeno irmão. Na borda da água nada assinala o local do enterro. Sentei-me ali, no calado da tarde. E relembro minha mãe, Dona Mariavilhosa. Agora, eu sabia a sua história e isso era como que um punhal em minha consciência. Como pudera eu estar tão desatento ao seu sofrimento? A vida de Mariavilhosa se tinha infernizado desde que lhe sucedera o nado-morto. Passara a ser uma mulher condenada, portadora de má sorte e vigiada pelos outros para não espalhar sua sina pela vila. O menino desnascido era um ximuku, um afogado. É assim que chamam aos que nascem sem vida. Meu irmãozito nascera sem dizer nada, trouxera um segredo que levara com ele.
Minha mãe ficara em estado de impureza. Meu pai se opusera ao completo exercício da tradição. Todavia, dentro dele havia ainda alguma resistência a virar página sobre os antigos preceitos. Mariavilhosa estava interdita de pegar em comida. Evitava entrar na cozinha. O simples segurar de um prato a obrigava a purificar as mãos. Dizia-se que devia “queimar” as mãos. Aquecia os braços numa chama da fogueira para que os laivos da desgraça não conspurcassem os alimentos. Devido a essa exclusão da cozinha eu não me recordava dela, rodopiando com as demais mulheres junto ao fogão. Até no falar ela seguira o tradicional mandamento. Mariavilhosa falava baixo, tão baixo que nem a si se escutava. Não mais ela ajudou nos campos. Sua impureza podia manchar a terra inteira e afligir a fecundidade das machambas. Minha mãe acabara sucumbindo como o velho navio de carga. Transportava demasiada tristeza para se manter flutuando.
Um pássaro-martelo rodopia sobre mim. Pousa e se aproxima, sem medo. Fica-me olhando, sereno como se eu lhe fosse familiar. Me apetece tocar-lhe mas me guardo, imóvel. Ele se anicha em seu próprio corpo, parece adormecido. Fecho os olhos, afrouxado naquela quietude. Quando me levanto e, pé ante pé, tento despertar o pássaro, ele se conserva imóvel. Estaria adoentado, ainda me ocorreu. Um pássaro adoece? Ou desmorona-se logo na morte, sem enfermidade pelo meio? Encorajado pela atitude da ave acabo tocando-lhe, num leve roçar dos dedos. É então que do corpo do mangondzwane se libertam dezenas de outras aves semelhantes, num deflagrar de asas, bicos e penas. E o bando, em espesso cortejo, se afasta, rente ando o rio Madzimi, láonde minha mãe se converteu em água.
Volto a casa, já anoitece. Procuro Dulcineusa, quero-lhe contar o sucedido com a ave dos presságios. Não está no quarto nem na cozinha. Surpreendo-a na sala deitada no escuro com o Avô. Está de costas, ainda meio despida. A blusa está desabotoada e as costas nuas luzem, gotejadas de suor. Parecem ter acabado de ter relações. A Avó ainda está ofegante. Receio que fique ali, ao rigor do frio e da cacimba. Chamo-a, com carinho: – Avó Dulcineusa! Lentamente ela se vira. Um choque quase me atira ao chão. Não é Dulcineusa. É minha Tia Admirança! E sua ofegação não resulta de cansaço. Ela estáchorando. Mãos nas mãos, dedos num entrelaço cego. Chora junto de Mariano.
– Esse homem, você não sabe quanto eu o amei!.. Quanto eu o amo.
– O Avô?
– Esse homem não é seu Avô, Mariano.
Ergue-se e sai chorando. Fico no escuro, vazio de ideia, deserto de sentimento. Mariano não era meu avô? Teria eu escutado bem? Ou a Tia estaria já contaminada pela morte que pairava em casa? A sombra do pássaro-martelo atravessa o chão da minha alma.
Regresso ao quarto e sento na mesa. À minha frente, olho a folha em branco. Nada está nela escrito. Alguma vez terá havido realmente qualquer palavra escrita? Seguro a caneta. O desejo arde em minhas mãos mas, ao mesmo tempo, o medo me paralisa. É um receio profundo de que qualquer coisa esteja desabando. Começo escrevendo, a mão obedece a uma voz antiga enquanto vou redigindo: Desculpe sua Tia. Mas eu careço de lhe fazer uma revelação: Admirança foi a mulher em minha vida. Não foi Dulcineusa, nem Miserinha, nem nenhuma. Foi ela, minha Admirança. Ela é muito mais nova que a irmã Dulcineusa. Quando casei, ela estava longe de ser mulher. Era menina, a mais nova das irmãs de Dulcineusa. Depois, foi completando formas, enchendo-se de redondeada polpa. Não imagina como ela detinha belezas! Vivia connosco, em nossa casa, e Dulcineusa nem suspeitava como sua irmã recheava meu coração e apaladava meus sonhos.
Dimira, assim eu lhe chamava. Minha Dimira que eu sempre tanto desejei! Em miúda, ela se costumava meter numa canoa e subir o rio. Nas noites sem luar, Admirança empurrava a embarcação até quase não ter pé. Depois saltava para dentro da canoa e, à medida que se afastava, ia despindo suas roupas. Uma por uma, as lançava na água e as vestes, empurradas pela corrente, vinham ter à margem. Desse modo, eu sabia quando ela já estava inteiramente nua. Sucedia, porém, quando eu deixava de vislumbrar a canoa, perdida que estava na distância. Não vendo, eu adivinhava a sua nudez e prometia que, um dia, aquela mulher me pertenceria. E era como se, naquele instante, uma luz abrisse o ventre da escuridão. Eu era o acendedor das noites.
Não houve lua nova que eu não ficasse na margem espreitando sua invisível presença, entre as ne blinas do rio. Certa vez me alertaram: um crocodilo fora visto no encalço da canoa. O bicho, assim me disseram, seria de alguém. Imaginava mesmo de quem seria: de Miserinha. A mulher detinha poderes. Por ciúme destinava a morte na sua rival Admirança, nos remansos do Madzimi. Esbaforido corri para junto de Miserinha. E lhe dei ordem que suspendesse o feitiço. Ela negou. A dizer verdade, nem me ouviu. Estava possuída, guiando o monstro perante a escuridão. Não consegui me conter: lhe bati na nuca com um pau de pilão. Ela tombou, de pronto, como um peso rasgado. Quando despertou, me olhou como se não me visse. O golpe lhe tinha roubado a visão. Miserinha passou a ver sombras. Nunca mais poderia conduzir o seu crocodilo pelas águas do rio.
Pensei que Miserinha me passaria a odiar. No dia seguinte, ela se despediu de nossa casa. Puxou-me para um canto e me perguntou: – Está com medo de minha vingança? – Eu sei que a senhora tem poderes...
– Não receie, Mariano. Um homem que ama assim só pode inspirar respeito nas outras mulheres! Naquela noite regressei ao rio e encontrei Admirança ainda no bote. Ela acreditou que eu vinha para propósitos de corpo e beijo. Mas eu, mal entrei na embarcação, me prostrei como que de joelhos e lhe pedi se podia dormir ali com ela. Dormir, sem mais demais. Que eu nunca havia dormido com mulher nenhuma. Ela me olhou, espantada, como se a ausência do luar me escangalhasse o juízo. E estendeu a mão, ajudando-me a deitar, todo estendido no barquito. No embalo da ondulação acabei adormecendo.
Admirança, entretanto, foi mandada para Lualua, onde havia uma missão católica. Nós nos encontrávamos lá, não havia mês que não o fizéssemos. Foi assim que ela engravidou. E não podia. Pensei, rápido, num modo de sanar o pecado. Pedi a Mariavilhosa, sua mãe, que fizesse de conta que estava grávida. Se ela fingisse bem, os xicuembos lhe dariam, mais tarde, um filho verdadeiro. Sua mãe fingiu tão bem, que a barriga lhe foi crescendo.
Sua mãe aumentava de um vazio. Seu pai sorria, todo saciado. E até ela mesma acreditava estar dando guarida a um novo rebento. Na missão de Lualua, entretanto, nascia um menino do ventre de Admirança. Trouxemos o pequeno bebé na encobertura da noite e fizemos de conta que se dava um parto na casa grande, em Nyumba-Kaya. Até seu pai chorou, crente de que o vindouro era genuíno fruto de seu sangue.
Mas com o tempo o menino cresceu, foi ganhando feições. Admirança definhava só ao pensar que esse moço ia revelando a identidade do pai verdadeiro. Ela me suplicou que deixasse esse seu filho sair da Ilha. Ele que crescesse fora, longe das vistas. E longe de sua culpa. E o menino foi mandado para a cidade. Lá se fez homem, um homem acertado no sentimento. Esse homem é você, Mariano. Admirança é sua mãe.
Foi esta mentira que fechou a terra, fazendo com que o chão negasse receber-me. Mas não foi apenas esta impostura. Há outro assunto, outra vergonha em minha vida. Quase nem me resta coragem para confessar. Mas sei que devo fazer) colocar tudo isso em letra que seja sua. Só assim lavarei sombras da minha existência.
E prossigo na ordem dos tempos. Como sabe) Fulano Malta) esse que se acredita ser seu pai) voltou da guerrilha trazendo duas pistolas. Ele as guardava como lembrança de um tempo. Aquilo tinha valor de vida sonhada. Uma noite encontrei o esconderijo dessas armas) por baixo de umas velhas tábuas. Fui lá e rapinei uma pistola. O que fazer com essa arma) eu não sabia. Mas tinha a certeza que ela me traria dinheiro para urgentes precisões. Falei então com meus netos) os filhos de Ultímio. Nessa altura) eles ainda viviam na cidade) foi antes de partirem para o estrangeiro. Me haviam dito que eles se entortaram para maldades) assaltavam carros e casas lá na cidade. Chamei-os a Luar-do-Chão e lhes vendi a arma mais as respectivas munições. Eles me pagaram pronto) tudo fechado) sem boca nem ouvido. Segredo de sangue) assunto de família.
Sabe o que suspeito? Que essa mesma arma foi a que matou meu amigo Juca Sabão. Com certeza ele foi desensaboado com ajuda de minha ganância. Pois aconteceu que) ao lado do corpo de Sabão) encontraram a arma) a mesma arma que era de meu filho Fulano. Levaram a pistola para a esquadra. Nessa noite eu não apanhava o devido sono) devorado pelo pensamento. Podia deixar cair suspeita sobre os meus próprios netos? Ou sobre Fulano) dono da arma? Trairia minha própria família para que se fizesse justiça sobre o meu amigo? Não fiz outra coisa: assaltei a esquadra e apanhei a arma) de escondido. Lancei-a no rio nessa mesma noite. Sucedeu) porém) o que eu nunca poderia prever: em lugar de se afundar, a Pistola ficou flutuando, animada por um rodopio como que em infernoso redemoinho. E de repente, como se houvesse um invisível dedo percutindo o gatilho, se deflagraram tiros apontados às nuvens. Relâmpagos ainda sulcavam os céus quando regressei, em debandada, para Nyumba-Kaya.
Todo este tempo me condisse uma benzida ignorância sobre quem matou. Preferia assim: acreditar no que disseram os tribunais, ficar de bem com as aparências. Mas essa ilusão nunca me apaziguou. Nem a mim nem aos meus antepassados que residem no chão do tempo. A terra não aceita o espinho dessa mentira. Agora, deito esta mágoa na folha, como se rasgasse o silêncio em que guardei essa má lembrança.
Pergunto-lhe, meu filho Mariano: matei Juca, também eu? Talvez. Ou, quem sabe, todos nós ajudámos nesse crime, por consentimento de silêncio? O que eu devia ter feito era vencer o medo e sair pelo mundo a relatar o testemunhado. Entregar-me como ocultador de provas. Mas não. Mandado fui por minhas inferioridades. Você sabe: homem cobarde transpira mesmo dentro da água. Dobrei-me sob o peso desse rebate de consciência. Lembre de mim essa vergonha e cresça por cima de minha fraqueza. Como um degrau que, para si, desenhei em minhas costas.
Depois disto, sim, eu posso, em estreada vez, assinar de pulso aberto e por extenso: Dito Ma ria no, seu pai PS: Me leve agora para o rio. Já chegou o meu tempo. Peça a Curozero que lhe ajude. Não quero mais ninguém lá. Nem parente, nem amigo. Ninguém. Lembra onde foram enterradas as águas de sua mãe e o corpo de seu pequeno irmão, o pré-falecido? junto à lagoa que nunca seca. Pois eu quero ser enterrado junto ao rio. Pergunte ao coveiro Curozero, ele lhe dirá. É lá que deverei ser enterrado. Eu sou um mal-morrido. já viu chover nestes dias? Pois sou eu que estou travando a chuva. Por minha culpa, a lua, mãe da chuva, perdeu a sua gravidez.
Sabe, Marianito? Quando você nasceu eu lhe chamei de “água”. Mesmo antes de ter nome de gente, essa foi a primeira palavra que lhe deitei: madzi. E agora lhe chamo outra vez de “água”. Sim, você é a água que me prossegue, onda sucedida em onda, na corrente do viver.
Já passou o meu momento. Você está aqui, a casa está sossegada, a família está aprontada. já me despedi de mim, nem eu me preciso. Vai ver que, agora, se vão desamarrar as águas, lá no alto das nuvens. Vai ver mais como a terra se voltará a abrir, oferecida como um ventre onde tudo nasce.
Já sou um falecido inteiro, sem peso de mentira, sem culpa de falsidade.
Me faça um favor: meta no meu túmulo as cartas que escrevi, deposite-as sobre o meu corpo. Faz conta me ocuparei em ler nessa minha nova casa. Vou ler a si, não a mim. Afinal, tudo o que escrevi foi por segunda mão. A sua mão, a sua letra, me deu voz. Não foi senão você que redigiu estes manuscritos. E não fui eu que ditei sozinho. Foi a voz da terra, o sotaque do rio. O quanto lembrei veio de antes de ter nascido. Como essa estrela já morta que ainda vemos por atraso de luz. Dentro de mim, até já esse brilho esmoreceu. Agora, estou autorizado a ser noite.
Depois disto, vá chamar Curozero Muando. E levem-me para o, rio. Aproveitemos a madrugada que é boa hora para se nascer.
Lá fora, a noite está perdendo espessura. Salto o muro da casa, olho para trás e, não cabendo em meu espanto, o que vejo? O telhado da sala já refeito. A casa já não se defendia do luto. Nyumba-Kaya estava curada da morte.
Uma azulação no horizonte revela o amanhecer. Encontro Curo zero Muando saindo de sua casa. Com uma pá às costas ele caminha na minha direcção: – Eu sabia, eu sabia que você me vinha chamar! Vamos rápido que, agora, ninguém nos pode ver.
No segredo do escuro, trazemos o falecido para o rio. Me assombra como não tem peso o Avô Mariano. Levamos o corpo para o rio, enrolado em seu velho lençol. Lá onde o Madzimi se encurva, quase arrependido, Curozero fez paragem.
– É aqui!
– Vamos deitá-lo na corrente? Não. O Avô vai ser enterrado na margem, onde o chão é basto e fofo. Curozero levanta areia às pazadas com tais facilidades que seu acta perde realidade. Começa a chover assim que descemos o Avô à terra. Conservo as cartas em minhas mãos. Mas as folhas tombam antes de as conseguir atirar para dentro da cova.
– Curozero, ajude-me a apanhar esses papéis.
– Quais papéis? Só eu vejo as folhas esvoando, caindo e se adentrando no solo. Como é possível que o coveiro seja cego para tão visíveis acontecências? Vou apanhando as cartas uma por uma. É então que reparo: as letras se esbatem, aguadas, e o papel se empapa, desfazendo-se num nada. Num ápice, meus dedos folheiam ausências.
– Quais papéis? – insiste Curozero.
Respondo num gesto calado, de mãos vazias. O coveiro salpica com água as paredes do buraco. Cobrimos a sepultura de terra. Muando, descalço, pisoteia o chão, alisando a areia. Em seguida, por cima da campa espalha uns pés de ubuku, dessas ervas que só crescem junto ao rio. No fim, entrega-me um caniço e ordena que o espete na cabeceira da tumba. Foi um caniço que fez nascer o Homem. Estamos repetindo a origem do mundo. Afundo a cana bravia na areia. Como uma bandeira, o caniço parece envaidecido, apontando o poente.
– Agora lavemo-nos nas águas do rio. Mergulhamos nas águas. Não sei do que nos lavamos. Para mim, o rio, de tão sujo, só nos pode conspurcar. Todavia, cumpro o ritual, preceito a preceito. Limpamo-nos no mesmo pano. Em seguida, Curozero segura um pedaço de capim a arder e o agita apontando os quatro pontos cardeais.
– Seu Avô está abrindo os ventos. A chuva está solta, a terra vai conceber.

Mia Couto, in Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra