29/10/2017

"Eu não sei por que, mas quero saber por que"

Pensei: a Irmã Mary Ethelbert adorava esta canção. Ela a tocava no órgão quando eu estava no quarto ano. E está em um convento no Wyoming. Reza por mim toda noite. Esta canção sempre me lembra dela. Neste exato momento provavelmente está rezando por mim. E, Deus, que paradoxo, toda vez que penso nela, penso em ir para a cama com ela. O que Jurgen dizia? Agora a história se desenrola — não. Não é isso. Sim. “Não há lembrança menos satisfatória do que a lembrança de alguma tentação à qual resistimos.” Mas isso é um pouco maldoso para com a Irmã Ethelbert. E ela reza por mim. E minha mãe está em casa agora rezando por mim. E também padre Benson em St. Louis e Paul Reinert e Dan Campbell. Por que deviam ser padres? Se vissem os livros de E. Boyd Barrett, eles os queimariam, mas não os leriam. Eu devia estar em casa lendo e escrevendo. Vou ter de ficar acordado até tarde esta noite se desejo escrever setecentas palavras. Tenho de escrever, escrever, escrever. Eu deveria ir para a cama cedo. Os barcos de aço amanhã. Odeio o maldito do aço. Corta minhas mãos em tiras. Que diabo. Eu devia me sentir com sorte por ter um emprego. Sorte? Que diacho! Conceitos de bem e mal são apenas meios para se atingir um fim. São expedientes para se adquirir poder. É preciso ter coragem para fazer o que Nietzsche diz, mas, por Deus, ele está certo, e eu vou fazê-lo. A Irmã Mary Ethelbert era bonitinha. Achava que eu ia ser padre. Minha mãe também. Somente nuas eu gostaria de vê-las, pois apenas a beleza ensinaria a penitência. Mas o que ele quer dizer com isso? Não sei. Como aquele garoto em Sherwood Anderson que dizia: “Eu não sei por que, mas quero saber por que.” Anderson escreve como um velho fazendeiro de músculos enrijecidos. Cabell escreve as belas frases, Oh, Cabell, Oh, Jurgen, Jurgen. Um sujeito monstruosamente esperto. Certo. Pois é o que a história conta. Hah, Jurgen. Só sou jovem uma vez. Agora, por que diabos Nietzsche perseguiu aquela Salomé por toda a Europa? Por que não? Ele só foi jovem uma vez. Eu ainda podia ser padre. Me pergunto se vou clamar por um padre no meu leito de morte? Eu. Um covarde? Não. Sou um sujeito monstruosamente esperto que devia estar em casa agora, em vez de sentado aqui ouvindo esta canção. Preciso escrever, escrever, escrever. A canção é bonita. Irmã Ethelbert gostava dela.
John Fante, in Um sujeito monstruosamente esperto

27/10/2017

A curva dos teus olhos

A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço noturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.
Paul Eluard (Tradução de António Ramos Rosa)

Pra você dar o nome - ao vivo - 5 a Seco

O ex-mágico da Taberna Minhota

Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me; porque eu sou desvalido e pobre. (Salmos, LXXXV, 1)

Hoje sou funcionário público e este não é o meu desconsolo maior.
Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.
Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.
Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.
O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.
Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas, ofereceu-me emprego e passei daquele momento em diante a divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.
O homem, entretanto, não gostou da minha prática de oferecer aos espectadores almoços gratuitos, que eu extraía misteriosamente de dentro do paletó. Considerando não ser dos melhores negócios aumentar o número de fregueses sem o consequente acréscimo nos lucros, apresentou-me ao empresário do Circo-Parque Andaluz, que, posto a par das minhas habilidades, propôs contratar-me. Antes, porém, aconselhou-o que se prevenisse contra os meus truques, pois ninguém estranharia se me ocorresse a ideia de distribuir ingressos graciosos para os espetáculos.
Contrariando as previsões pessimistas do primeiro patrão, o meu comportamento foi exemplar. As minhas apresentações em público não só empolgaram multidões como deram fabulosos lucros aos donos da companhia.
A plateia, em geral, me recebia com frieza, talvez por não me exibir de casaca e cartola. Mas quando, sem querer, começava a extrair do chapéu coelhos, cobras, lagartos, os assistentes vibravam. Sobretudo no último número, em que eu fazia surgir, por entre os dedos, um jacaré. Em seguida, comprimindo o animal pelas extremidades, transformava-o numa sanfona. E encerrava o espetáculo tocando o Hino Nacional da Cochinchina. Os aplausos estrugiam de todos os lados, sob o meu olhar distante.
O gerente do circo, a me espreitar de longe, danava-se com a minha indiferença pelas palmas da assistência. Notadamente se elas partiam das criancinhas que me iam aplaudir nas matinês de domingo. Por que me emocionar, se não me causavam pena aqueles rostos inocentes, destinados a passar pelos sofrimentos que acompanham o amadurecimento do homem? Muito menos me ocorria odiá-las por terem tudo que ambicionei e não tive: um nascimento e um passado.
Com o crescimento da popularidade a minha vida tornou-se insuportável.
Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.
Se, distraído, abria as mãos, delas escorregavam esquisitos objetos. A ponto de me surpreender, certa vez, puxando da manga da camisa uma figura, depois outra. Por fim, estava rodeado de figuras estranhas, sem saber que destino lhes dar.
Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.
Situação cruciante.
Quase sempre, ao tirar o lenço para assoar o nariz, provocava o assombro dos que estavam próximos, sacando um lençol do bolso. Se mexia na gola do paletó, logo aparecia um urubu. Em outras ocasiões, indo amarrar o cordão do sapato, das minhas calças deslizavam cobras. Mulheres e crianças gritavam. Vinham guardas, ajuntavam-se curiosos, um escândalo. Tinha de comparecer à delegacia e ouvir pacientemente da autoridade policial ser proibido soltar serpentes nas vias públicas.

Não protestava. Tímido e humilde mencionava a minha condição de mágico, reafirmando o propósito de não molestar ninguém.
Também, à noite, em meio a um sono tranquilo, costumava acordar sobressaltado: era um pássaro ruidoso que batera as asas ao sair do meu ouvido.
Numa dessas vezes, irritado, disposto a nunca mais fazer mágicas, mutilei as mãos. Não adiantou. Ao primeiro movimento que fiz, elas reapareceram novas e perfeitas nas pontas dos tocos de braço. Acontecimento de desesperar qualquer pessoa, principalmente um mágico enfastiado do ofício.

Urgia encontrar solução para o meu desespero. Pensando bem, concluí que somente a morte poria termo ao meu desconsolo.
Firme no propósito, tirei dos bolsos uma dúzia de leões e, cruzando os braços, aguardei o momento em que seria devorado por eles. Nenhum mal me fizeram. Rodearam-me, farejaram minhas roupas, olharam a paisagem, e se foram.
Na manhã seguinte regressaram e se puseram, acintosos, diante de mim.
— O que desejam, estúpidos animais?! — gritei, indignado.
Sacudiram com tristeza as jubas e imploraram-me que os fizesse desaparecer:
— Este mundo é tremendamente tedioso — concluíram.
Não consegui refrear a raiva. Matei-os todos e me pus a devorá-los. Esperava morrer, vítima de fatal indigestão.
Sofrimento dos sofrimentos! Tive imensa dor de barriga e continuei a viver.
O fracasso da tentativa multiplicou minha frustração. Afastei-me da zona urbana e busquei a serra. Ao alcançar seu ponto mais alto, que dominava escuro abismo, abandonei o corpo ao espaço.
Senti apenas uma leve sensação da vizinhança da morte: logo me vi amparado por um paraquedas. Com dificuldade, machucando-me nas pedras, sujo e estropiado, consegui regressar à cidade, onde a minha primeira providência foi adquirir uma pistola.
Em casa, estendido na cama, levei a arma ao ouvido. Puxei o gatilho, à espera do estampido, a dor da bala penetrando na minha cabeça.
Não veio o disparo nem a morte: a máuser se transformara num lápis.
Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos.
Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de suicídio que melhor me convinha: se lenta ou rápida. Por isso empreguei-me numa Secretaria de Estado.
Rolei até o chão, soluçando. Eu, que podia criar outros seres, não encontrava meios de libertar-me da existência.

1930, ano amargo. Foi mais longo que os posteriores à primeira manifestação que tive da minha existência, ante o espelho da Taberna Minhota.
Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo.
Quando era mágico, pouco lidava com os homens — o palco me distanciava deles. Agora, obrigado a constante contato com meus semelhantes, necessitava compreendê-los, disfarçar a náusea que me causavam.
O pior é que, sendo diminuto meu serviço, via-me na contingência de permanecer à toa horas a fio. E o ócio levou-me à revolta contra a falta de um passado. Por que somente eu, entre todos os que viviam sob os meus olhos, não tinha alguma coisa para recordar? Os meus dias flutuavam confusos, mesclados com pobres recordações, pequeno saldo de três anos de vida.
O amor que me veio por uma funcionária, vizinha de mesa de trabalho, distraiu-me um pouco das minhas inquietações.
Distração momentânea. Cedo retornou o desassossego, debatia-me em incertezas. Como me declarar à minha colega? Se nunca fizera uma declaração de amor e não tivera sequer uma experiência sentimental!
1931 entrou triste, com ameaças de demissões coletivas na Secretaria e a recusa da datilógrafa em me aceitar. Ante o risco de ser demitido, procurei acautelar meus interesses. (Não me importava o emprego. Somente temia ficar longe da mulher que me rejeitara, mas cuja presença me era agora indispensável.)
Fui ao chefe da seção e lhe declarei que não podia ser dispensado, pois, tendo dez anos de casa, adquirira estabilidade no cargo.
Fitou-me por algum tempo em silêncio. Depois, fechando a cara, disse que estava atônito com meu cinismo. Jamais poderia esperar de alguém, com um ano de trabalho, ter a ousadia de afirmar que tinha dez.
Para lhe provar não ser leviana a minha atitude, procurei nos bolsos os documentos que comprovavam a lisura do meu procedimento. Estupefato, deles retirei apenas um papel amarrotado — fragmento de um poema inspirado nos seios da datilógrafa.
Revolvi, ansioso, todos os bolsos e nada encontrei.
Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.
Hoje, sem os antigos e miraculosos dons de mago, não consigo abandonar a pior das ocupações humanas. Falta-me o amor da companheira de trabalho, a presença de amigos, o que me obriga a andar por lugares solitários. Sou visto muitas vezes procurando retirar com os dedos, do interior da roupa, qualquer coisa que ninguém enxerga, por mais que atente a vista.
Pensam que estou louco, principalmente quando atiro ao ar essas pequeninas coisas.
Tenho a impressão de que é uma andorinha a se desvencilhar das minhas mãos. Suspiro alto e fundo.
Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico.
Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a Terra de um extremo a outro. E os aplausos dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.
Murilo Rubião, in Obra completa

Temos que nos arriscar

Mal podemos acreditar no filósofo a quem tudo deixa indiferente; não acreditamos na tranquilidade do estoico, não desejamos sequer a impavidez, porque a própria condição humana nos lança na paixão e no medo, e são as lágrimas e o júbilo que nos permitem conhecer o que é. Eis por que somente o impulso ascendente nos liberta das perturbações anímicas e não é pela supressão que nos encontramos.
Temos, pois, que nos arriscar a ser homens e, enquanto homens, fazermos o que pudermos para alcançar a independência conquistada. Sofreremos então sem queixume, desesperar-nos-emos sem nos afundarmos, abalados mas nunca completamente derrubados quando suspensos à íntima independência que em nós se gera.
A filosofia, porém, é a escola dessa independência, não a sua posse.
Karl Jaspers, in Iniciação filosófica

Perda de tempo? Não: pilar da cidadania

Existe uma parcela da sociedade brasileira — talvez pequena, mas certamente aguerrida, a julgar pelas mensagens furiosas que de lá me chegaram ao longo dos anos — que considera a linguagem um não assunto. Escrever sobre ela seria o modo mais garantido de perder tempo, uma revoltante inutilidade.
Trata-se de um equívoco de grandes proporções. As palavras nos falam dos pés à cabeça, do nascimento à morte, estejamos dormindo ou acordados. Ainda assim, para essas pessoas, não se pode falar delas. Como se a linguagem fosse um ponto cego, uma paisagem que, de tão vista, já não conseguimos ver. Apontá-la é inútil porque parece não haver nada lá.
Certa vez o escritor americano David Foster Wallace abriu um discurso de paraninfo contando uma fábula singela. Dois peixes jovens cruzam com um peixe mais velho, que lhes pergunta:
— Como está a água hoje, rapazes?
Os dois não respondem e, quando o veterano se afasta, se entreolham:
— Água? O que é água?
Sérgio Rodrigues, in Viva a língua brasileira

26/10/2017

As molas de San Blas

Índia Cuna

As índias cunas fazem as molas, nas ilhas de San Blas, no Panamá, para exibi-las pragadas nas costas ou no peito. Com fio e agulha talento e paciência, vão combinando retalhos de panos. Coloridos em desenhos que jamais se repetem. Às ezes imitam a realidade; às vezes a inventam. E às vezes acontecem com elas, querendo copiar, só copiar, algum pássaro que viram, se põem a recortar e costurar, ponto após ponto, e terminam descobrindo algo mais colorido e cantor e voadeiro que qualquer um dos pássaros do céu.
Eduardo Galeano, in Mulheres

Fome

Se Deus não ficar bravo comigo, proponho um acréscimo às palavras de Jesus, no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que têm fome porque serão fartos”. “Bem-aventurados os que estão fartos porque eles terão fome de novo!” Pois poderá haver desgraça maior que deixar de ter fome? Estar farto, não ter mais fome é o tédio, o enfado, a impotência. Quem não tem fome está condenado a não ter alegria.
Os filósofos trataram de determinar quais são as categorias fundamentais do pensamento, as mais famosas sendo as de Aristóteles e as de Kant. Mas o corpo do nenezinho, que nada sabe e que nenhuma palavra fala ou entende, já sabe que as coisas do mundo se dividem em duas categorias apenas. Primeira, a classe das coisas gostosas que devem ser degustadas e engolidas. Segunda, a classe das coisas que não são gostosas e que devem ser cuspidas ou vomitadas. Essas são as duas categorias fundamentais da sapiência.
A criança brinca com o seio. Seio é mais que leite. É brinquedo. Chupar dá prazer: início dos nossos impulsos antropofágicos! Esse desejo infantil vai nos acompanhar pelo resto da vida.
Os poetas são cozinheiros pretensiosos que se esforçam por transformar o universo em banquete.
Amor e fome são a mesma coisa. Nada mais triste para uma cozinheira que o convidado sem apetite. “Não tenho fome.” Ou aquele que diz: “ Já estou satisfeito”. Quem diz “não tenho fome” está dizendo “não quero mais fazer amor com você”.
Diz o ditado que “o melhor da festa é esperar por ela”. Há prazeres que moram no tempo da espera. Num verso alegre, sem a tristeza do verso do Chico, posso dizer que “saudade é fazer comida para o filho que vai chegar...”. Ai que saudade boa! É prazeroso preparar o prazer.
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

A Palavra Destino

Deixai vir a mim
a palavra destino.

Manhã de surpresas, lascívia e gema.
Acasos felizes, deslizes.
Ovo dentro da ave dentro do ovo.
Palavra folha e flor.

Deixai vir a mim palavra
e seus versos, reversos:
metamorfose,
metaformosa.

Deixai vir a mim
a palavra pão-de-consolo.
Livre de ataduras, esparadrapos,
choques elétricos
e sutis guardanapos em seco engolidos socos.

Deixai vir a mim
a palavra intumescida pelo desejo
a palavra em alvoroço sutil, ardil
e ave na folhagem da memória.
A palavra estremecida entre a palavra.
A palavra entre o som
mas entre o silêncio do som.

Deixai vir a mim
a palavra entre homem e homem.
E a palavra entre o homem
e seu coração posto à prova
na liberdade da palavra coração.

Deixai vir a mim
a palavra destino.
Lindolf Bell

A Arte Surrealista do russo Vladimir Kush


Moral

Mas o dia seguinte! o terrível dia seguinte! todos os órgãos relaxados, cansados, os nervos acalmados, os titilantes desejos de chorar, a impossibilidade de se dedicar a um trabalho contínuo, mostram-lhe cruelmente que você se entregou a um jogo proibido. A natureza medonha, despojada de sua iluminação da véspera, assemelha-se aos restos melancólicos de uma festa. A vontade, sobretudo, é atacada, de todas as faculdades a mais preciosa. Dizem, e é quase verdade, que esta substância não causa nenhum mal físico, nenhum mal grave, ao menos. Mas é possível afirmar que um homem incapaz de ação, e próprio somente aos sonhos, se portaria realmente bem, mesmo quando todos os seus membros estivessem em bom estado? Ora, conhecemos bem a natureza humana para saber que um homem que pode, com uma colherada de confeito, alcançar instantaneamente todos os bens do céu e da terra, não ganharia jamais a milésima parte destes bens pelo trabalho. É possível imaginar um Estado onde todos os cidadãos se embriagassem de haxixe? Que cidadãos! que guerreiros! que legisladores! Mesmo no Oriente, onde o seu uso é tão difundido, há governos que compreenderam a necessidade de proscrevê-lo. Na verdade, é proibido ao homem, sob pena de degradação e morte intelectual, de desordenar as condições primordiais de sua existência e de romper o equilíbrio de suas faculdades com o meio onde elas estão destinadas a se moverem, em uma palavra, de desordenar seu destino para substituí-lo por uma fatalidade de gênero novo. Lembremo-nos de Melmoth, este admirável símbolo. Seu sofrimento assustador jaz na desproporção entre suas maravilhosas faculdades, adquiridas instantaneamente por um pacto satânico, e o meio em que, como criatura de Deus, está condenado a viver. E nenhum daqueles que quer seduzir consente em comprar-lhe, nas mesmas condições, seu terrível privilégio. Na verdade, todo homem que não aceita as condições da vida, vende sua alma. É fácil perceber a relação que existe entre as criações satânicas dos poetas e as criaturas vivas que se devotam aos excitantes. O homem quis ser Deus e, em seguida, ei-lo, em virtude de uma lei moral incontrolável, posto abaixo de sua real natureza. É uma alma que se vende a granel.
Balzac pensava sem dúvida que não há para o homem vergonha maior nem sofrimento mais vívido que a abdicação de sua vontade. Eu o vi uma vez, em uma reunião onde se tratava dos efeitos prodigiosos do haxixe. Ele escutava e questionava com uma atenção e uma vivacidade divertidas. As pessoas que o conheciam supõem que ele devia estar interessado. Mas a ideia deste desejo mesmo que involuntária, chocava-o vivamente. Apresentaram-lhe um pouco de dawamesk; ele o examinou, cheirou e devolveu sem tocar. A luta entre sua curiosidade quase infantil e sua repugnância à renúncia traía-se em seu rosto de maneira tocante. Conduzia-o o amor pela dignidade. Na verdade, é difícil imaginar o teórico da vontade, este gêmeo espiritual de Louis Lambert, consentindo em perder uma parcela desta preciosa substância.
Apesar dos admiráveis serviços prestados pelo éter e pelo clorofórmio, parece-me que, do ponto de vista da filosofia espiritualista, o mesmo estigma moral se aplica a todas as invenções modernas que tendem a diminuir a liberdade humana e a indispensável dor. Não foi sem uma certa admiração que ouvi uma vez o paradoxo de um oficial que me contava a operação cruel feita em um general francês em El-Aghouat, e da qual este morreu apesar do clorofórmio. O general era um homem valente e até algo mais, uma destas almas a quem se aplica naturalmente o termo: cavalheiresco. “Não era”, disse-me ele, “o clorofórmio o que lhe faltava, mas os olhares de todo o seu exército e a música dos regimentos. Desta forma, talvez pudesse ser salvo!” O cirurgião não era da mesma opinião que o oficial; mas o capelão teria, sem dúvida, admirado este sentimento.
É realmente supérfluo, após todas estas considerações, insistir no caráter imoral do haxixe. Mesmo que eu o compare ao suicídio, a um suicídio lento, a uma arma sempre sanguinolenta e sempre afiada, nenhum espírito razoável terá em que me censurar. Mesmo que eu o associe à feitiçaria, à magia, que querem, ao operarem sobre a matéria, e por meio de arcanos, cuja falsidade não pode ser melhor provada que sua eficiência, conquistar um domínio proibido ao homem ou permitido somente àquele considerado digno, nenhuma alma filosófica criticará esta comparação. Se a Igreja condena a magia e a feitiçaria, é que elas militam contra as invenções de Deus, suprimem o trabalho do tempo e querem tornar supérfluas as condições de pureza e moralidade; e que ela, a Igreja, apenas considera legítimos, verdadeiros, os tesouros ganhos pela boa intenção assídua. Chamamos de trapaceiro o jogador que achou um meio de jogar para ganhar infalivelmente; como denominaremos o homem que quer comprar, com alguns trocados, a felicidade e o gênio? É a própria infalibilidade do meio que constitui a imoralidade, como a suposta infalibilidade da magia lhe impõe seu estigma infernal. Seria necessário acrescentar que o haxixe, como todos os prazeres solitários, torna o indivíduo inútil aos homens e a sociedade supérflua para o indivíduo, levando-o a se admirar a si próprio sem cessar e empurrando-o, dia a dia, ao abismo luminoso onde ele admira sua face de Narciso?
E se ainda, à custa de sua dignidade, de sua honestidade e de seu 1ivre arbítrio, o homem pudesse tirar do haxixe grandes benefícios espirituais, fazer dele uma espécie de máquina de pensar, um instrumento fecundo? É uma indagação que ouvi sempre ser feita e a respondo. Primeiramente, como expliquei longamente, o haxixe não revela ao indivíduo nada além do próprio indivíduo. É verdade que este indivíduo é, por assim dizer, elevado ao cubo e levado ao extremo. E como é igualmente certo que a memória das impressões sobrevive à orgia, a esperança destes utilizadores não parece à primeira vista totalmente desprovida de razão. Mas rogarei que observem que os pensamentos, dos quais contam com tirar um partido tão grande, não são realmente tão belos quanto parecem em seus disfarces momentâneos e recobertos de ouropéis mágicos. Tais pensamentos estão mais para a terra que para o céu, e devem uma grande parte de sua beleza à agitação nervosa, à avidez com a qual o espírito se lança sobre eles. Em seguida, esta esperança é um círculo vicioso: admitindo por um instante que o haxixe suscita ou pelo menos aumenta o gênio, esquecem que é da natureza do haxixe diminuir a vontade e que, desta forma, dá de um lado o que tira do outro, isto é, a imaginação sem a faculdade de dela tirar proveitos. Enfim, há que sonhar, imaginando um homem correto e vigoroso o suficiente para se preservar esta alternativa, deste outro perigo, fatal, terrível, que é o de todos os hábitos. Todos se transformam logo em necessidade. Aquele que puder recorrer a um veneno para pensar, em breve não poderá mais pensar sem veneno. É possível supor o terrível destino de um homem cuja imaginação paralisada não soubesse mais funcionar sem o recurso do haxixe ou do ópio?
Nos estudos filosóficos, o espírito humano, à imitação da marcha dos astros, deve seguir uma curva que o devolva a seu ponto de partida. Concluir é fechar um círculo. No começo, falei deste estado maravilhoso onde o espírito do homem se encontrava, às vezes, lançado como que por uma graça especial; disse que ao ansiar incessantemente a reanimação de suas esperanças e a sua elevação ao infinito ele mostrava, em todos os países e em todos os tempos, um gosto frenético por todas as substâncias, mesmo que perigosas, e, ao exaltar sua personalidade, pudessem suscitar por um instante aos seus olhos este paraíso de segunda mão, objeto de todos os seus desejos e disse, enfim, que este espírito arrojado levado, sem o saber, até o inferno, confirmava assim a sua grandeza original. Mas o homem não está tão abandonado, tão privado de meios honestos para ganhar o céu, a ponto de ser obrigado a invocar as drogas e a feitiçaria, não é necessário vender sua alma para pagar as carícias embriagantes e a amizade das huris. Que paraíso é este comprado à custa de sua saúde eterna? Imagino um homem (um brâmane? um poeta? um filósofo cristão?) colocado no árduo Olimpo da espiritualidade, à sua volta as Musas de Rafael ou de Mantegna, para consolá-lo de seus longos jejuns e de suas preces assíduas, combinam-se nas mais nobres, olham-no com seus mais doces olhares e seus mais iluminados sorrisos; o divino Apolo, mestre em tudo saber (o de Francavilla, de Albert Durer, de Goltzius ou de qualquer outro, que importa? não há um Apolo para todo homem que o mereça?), acaricia com seu arco as cordas mais vibrantes. Abaixo dele, ao pé da montanha, nas sarças e na lama, a multidão dos humanos, o bando dos párias, simula os esgares do prazer e solta urros provocados pelas dentadas do veneno; e o poeta entristecido diz a si mesmo: “Estes infortunados que não jejuaram, nem oraram e que recusaram a redenção pelo trabalho, buscam na magia negra os meios de se elevarem, de uma só vez, à existência sobrenatural. A magia os engana e acende para eles uma falsa felicidade e uma falsa luz; enquanto nós, poetas e filósofos, regeneramos nossa alma pelo trabalho sucessivo e pela contemplação; pelo exercício assíduo da vontade e pela nobreza permanente da intenção, criamos para nosso uso um jardim de beleza verdadeira. Confiantes na promessa que diz que a fé remove montanhas, realizamos o único milagre cuja licença nos foi concedida por Deus!”
Charles Baudelaire, in Paraísos artificiais

25/10/2017

Dos princípios

Entre os homens, alguns há que possuem naturalmente um excelente caráter e que assimilam sem necessidade de longa instrução os princípios tradicionais, que abraçam a via da moralidade desde o primeiro momento em que dela ouvem falar; do meio destes é que surgem aqueles gênios que concitam em si toda a gama de virtudes, que produzem eles mesmos virtudes. Mas aos outros, àqueles que têm o espírito embotado, obtuso ou dominado por tradições errôneas, a esses há que raspar a ferrugem que têm na alma. Mais ainda: se transmitirmos os preceitos básicos da filosofia aos primeiros, rapidamente eles atingirão o mais alto nível, pois estão naturalmente inclinados ao bem; se o fizermos aos outros, os de natureza mais fraca, ajudá-los-emos a libertarem-se das suas convicções erradas. Por aqui podes ver como são necessários os princípios básicos. Temos instintos em nós que nos fazem indolentes ante certas coisas, e atrevidos perante outras; ora, nem este atrevimento nem aquela indolência podem ser eliminados se primeiro não removermos as respectivas causas, ou seja, a admiração infundada ou o receio infundado.
Enquanto tivermos em nós esses instintos, bem poderás dizer: “estes são os teus deveres para com teu pai, ou para com os filhos, ou para com os amigos, ou para com os teus hóspedes” — o espírito de lucro será sempre uma causa de hesitações. Um homem bem pode saber que se deve lutar pela pátria, mas o medo convencê-lo-á do contrário; pode saber que se deve suar em benefício dos amigos até a última gota de suor, mas o comodismo impedi-lo-á de o fazer; pode saber que a maior ofensa para uma mulher casada é o marido ter uma amante, mas a sensualidade impeli-lo-á a arranjar uma. Por conseguinte, de nada servirá dar conselhos práticos se primeiro se não removem os obstáculos a que esses conselhos sejam seguidos, do mesmo modo que de nada serve pormos à vista e ao alcance de alguém armas que não poderá usar porque lhe não desamarramos primeiro as mãos! Para que a alma possa pôr em prática os conselhos que lhe damos, devemos primeiro desamarrá-la!
Imaginemos alguém que procede como deve ser: pode não proceder assim com frequência, pode não proceder assim com constância, porque não sabe por que motivo procede como deve ser. Às vezes, por mero acaso ou em virtude da prática, podemos desenhar linhas retas, mas não temos à mão uma régua que permita verificar se são realmente retas as linhas que julgamos tais. Um homem que seja bom por acaso não dá garantias de que será sempre bom!
Sêneca, in Cartas a Lucílio

Temas que morrem

Sinto em mim que há tantas coisas sobre o que escrever. Por que não? O que me impede? A exiguidade do tema talvez, que faria com que este se esgotasse em uma palavra, em uma linha. Às vezes é o horror de tocar numa palavra que desencadearia milhares de outras, não desejadas, estas. No entanto, o impulso de escrever. O impulso puro – mesmo sem tema. Como se eu tivesse a tela, os pincéis e as cores – e me faltasse o grito de libertação, ou a mudez essencial que é necessária para que se digam certas coisas. Às vezes a minha mudez faz com que eu procure pessoas que, sem elas saberem, me darão a palavra-chave. Mas quem? quem me obriga a escrever? O mistério é esse: ninguém, e no entanto a força me impelindo.
Eu já quis escrever o que se esgotaria em uma linha. Por exemplo, sobre a experiência de ser desorganizada, e de repente a pequena febre de organização que me toma como a de uma antiga formiga. É como se o meu inconsciente coletivo fosse o de uma formiga.
Eu também queria escrever, e seriam duas ou três linhas, sobre quando uma dor física passa. De como o corpo agradecido, ainda arfando, vê a que ponto a alma é também o corpo.
E é como se eu fosse escrever um livro sobre a sensação que tive uma vez que passei vários dias em casa muito gripada – e quando saí fraca pela primeira vez à rua, havia sol cálido e gente na rua. E de como me veio uma exclamação entre infantil e adulta: ah, como os outros são bonitos. É que eu vinha do escuro meu para o claro que também descobria que era meu, é que eu vinha de uma solidão de pessoas para o ser humano que movia pernas e braços e tinha expressões de rosto.
Também seria inesgotável escrever sobre beber mal. Bebo depressa demais, e não há alternativas: ou praticamente adormeço dentro de mim e fico morosa, pensativa sem que um pensamento se esclareça como descoberta, ou fico excitada dizendo tolices do maior brilho instantâneo. Mas – mas há um instante mínimo nesse estado em que simplesmente sei como é a vida, como eu sou, como os outros são, como a arte deveria ser, como o abstracionismo por mais abstrato não é abstrato. Esse instante só não vale a pena porque esqueço tudo depois, quase na hora. É como se o pacto com Deus fosse este: ver e esquecer, para não ser fulminado pelo saber.
E às vezes, por mais absurdo, acho lícito escrever assim: nunca se inventou nada além de morrer. E me acrescento: deve ser um gozo natural, o de morrer, pois faz parte essencial da natureza humana, animal e vegetal, e também as coisas morrem. E, como se houvesse ligação com essa descoberta, vem a outra óbvia e espantosa: nunca se inventou um modo diferente de amor de corpo que é estranho e cego. Cada um vai naturalmente em direção à reinvenção da cópia, que é absolutamente original quando realmente se ama. E de novo volta o assunto morrer. E vem a ideia de que, depois de morrer, não se vai ao paraíso, morrer é que é o paraíso.
A verdade é que simplesmente me faltou o dom para a minha verdadeira vocação: a de desenhar. Porque eu poderia, sem finalidade nenhuma, desenhar e pintar um grupo de formigas andando ou paradas – e sentir-me inteiramente realizada nesse trabalho. Ou desenharia linhas e linhas, uma cruzando a outra, e me sentiria toda concreta nessas linhas que os outros talvez chamassem de abstratas.
Eu também poderia escrever um verdadeiro tratado sobre comer, eu que gosto de comer e no entanto não como tanto. Terminaria sendo um tratado sobre a sensualidade, não especificamente a de sexo, mas a sensualidade de “entrar em contato” íntimo com o que existe, pois comer é uma de suas modalidades – e é uma modalidade que engage de algum modo o ser inteiro.
Também escreveria sobre rir do absurdo de minha condição. E ao mesmo tempo mostrar como ela é digna, e usar a palavra digna me faz rir de novo.
Eu falaria sobre frutas e frutos. Mas como quem pintasse com palavras.
Aliás, verdadeiramente, escrever não é quase sempre pintar com palavras? Ah, estou cheia de temas que jamais abordarei. Vivo deles, no entanto.
Clarice Lispector, in Aprendendo a viver

Sr. Brasil | Yamandu Costa

Odisséia

O amor foi à função, bebeu, cantou e bailou, estava muito excitado, tiveram de levá-lo para casa e prendê-lo no quarto para que repousasse. No dia seguinte o amor cantou e bailou sem beber, e era sempre primavera nos seus modos e falas. O amor viajou, voltou, fazia piruetas, trocadilhos, esculturas, criava línguas e ensinava-as de graça. Todos o queriam para companheiro, paravam de guerrear para abraçá-lo, jogavam-lhe moedas que ele não apanhava, gerânios que ele oferecia às crianças e às mulheres. O amor não adoecia nem ficava mais velho, resplandecia sempre, havia quem o invejasse, quem inventasse calúnias a seu respeito, o amor nem ligava. Cercaram sua casa de madrugada, meteram-lhe a cabeça num saco preto, conduziram-no a um morro que dava para o abismo, interrogaram-no, bateram-lhe, ameaçaram jogá-lo no precipício, jogaram. O amor caiu lá embaixo aos pedaços, mas se recompôs e foi preso outra vez, aplicaram-lhe choques elétricos, arrancaram-lhe as unhas, os dedos, o amor sorria e quando não podia mais sorrir gritava numa de suas línguas novas, que não era entendida. E desfalecendo voltava à consciência, e torturado outra vez, era como se não fosse com ele. Quebraram o amor em mil partículas, e ninguém pôde ver as partículas. Foi sepultado normalmente no fim do mundo, que é para lá da memória. Ninguém o localizou, mas todos falavam nele, o amor virou um sonho, uma constelação, uma rima, e todos falavam nele, e ressuscitou ao terceiro dia.
Carlos Drummond de Andrade, in Contos plausíveis

Hei-de voltar

Mwadia sentiu o conflito a mordiscar-lhe o peito: ela queria, mas temia. O regresso a Vila Longe era sonho e pesadelo. Desejo de reencontrar os seus, de regressar à velha casa de infância. Receio de que os “seus” já não lhe pertencessem, e que a velha casa estivesse morta.
Recordava-se das últimas palavras de sua mãe, na distante tarde da despedida:
— Vai de vez?
— Eu hei-de voltar.
— Se é para voltar, volte antes de partir.
Mwadia era a última filha a sair do lar. Todas as filhas tinham tomado a estrada e se desvaneceram na neblina. Nunca mais voltaram. A mãe remoía tristezas, repisando as palavras:
— Pois então, minha filha, você vai embora...
Demorava os adeuses, queria que a despedida se arrastasse a vida inteira.
— Você nasceu-me muito tarde, Muadita. Estou cansada, eu já não tenho forças para mais um rasgão dentro de mim.
Mia Couto, in O outro pé da sereia

24/10/2017

Faça!

“Se não fizeres isto, quem o fará? Se não o fazes logo, quando será?”
André Gide, in Os moedeiros falsos

Quem é?

Se Nelson Rodrigues tinha as estagiárias da PUC, Mario tinha as jovens repórteres de TV.
Em 1978, o Planetário da Universidade Federal do Rio Grande do Sul resolveu misturar poesia e astronomia. Os poemas de Quintana integravam o projeto e ele foi convidado para dar uma entrevista coletiva a respeito lá mesmo, no belo prédio futurista do planetário. Depois de toda a badalação dos 70 anos, já estava mais ou menos amaciado para essas coisas de entrevistas.
Falou com repórteres de jornais e agora, pacientemente, esperava que a equipe da TV Gaúcha se organizasse para gravar com ele. Teste daqui, luz dali, liga, desliga, microfone, contraplano, ok?, e ele olhando, quieto.
Lançada no Brasil pela TV Globo, estava na moda aquela história de o repórter encostar o microfone na boca do entrevistado e perguntar: “Quem é o Fulano de Tal?”. E o Fulano respondia: “Sou um ator, um homem do povo, que compra em supermercado, entra em ônibus, acredita no mundo novo, patati, patatá”. Deu pra lembrar? A repórter da TV Gaúcha precisava estar na onda e foi de primeira:
– Quem é Mario Quintana?
Surpreso, quase incrédulo diante da pergunta, ele só achou uma saída:
– Sou eu, minha filha.
Juarez Fonseca, in Ora bolas – O humor de Mario Quintana

A brasilidade no traço de Portinari

Colheita de arroz (1957), de Cândido Portinari

Acerca da saúde da alma

A célebre forma de medicina moral (a de Aríston de Chios), “a virtude é a saúde da alma”, deveria ser pelo menos assim transformada para se tornar utilizável: “A tua virtude é a saúde da tua alma”. Porque em nós não existe qualquer saúde, e todas as experiências que se fizeram para dar este nome a qualquer coisa malograram-se miseravelmente. Importa que se conheça o seu objetivo, o seu horizonte, as suas forças, os seus impulsos, os seus erros e sobretudo o ideal e os fantasmas da sua alma para determinar o que significa a saúde, mesmo para o seu corpo.
Existem, portanto, inúmeras saúdes do corpo; e quanto mais se permitir ao indivíduo, a quem não podemos comparar-nos, que levante a cabeça, mais se desaprenderá o dogma da “igualdade dos homens”, mais necessário será que os nossos médicos percam a noção de uma saúde normal, de uma dieta normal, de um curso normal da doença. Será só então que se poderá talvez refletir na saúde e na doença da alma e colocar a virtude particular de cada um nesta saúde, que corre muito o risco de ser num o contrário do que sucede com outro. Restará a grande questão de saber se podemos dispensar a doença, mesmo para desenvolver a nossa virtude, se, nomeadamente, a nossa sede de conhecer, e de nos conhecermos a nós próprios, não tem necessidade da nossa alma doente tanto como da nossa alma saudável, em resumo, se querer exclusivamente a nossa saúde não será um preconceito, uma covardia e talvez um resto de barbárie mais sutil e do espírito mais retrógado.
Friedrich Nietzsche, in A Gaia Ciência