25/04/2016

Adestrado

cão cachorro mau maldade bom bondade igreja religião depoimento adestrado adestramento pitbull
www.willtirando.com.br

A arte de chutar tampinhas

Google Imagens

Há algum tempo venho afinando certa mania. Nos começos chutava tudo o que achava. A vontade era chutar. Um pedaço de papel, uma ponta de cigarro, outro pedaço de papel. Qualquer mancha na calçada me fazia vir trabalhando o arremesso com os pés. Depois não eram mais papéis, rolhas, caixas de fósforos. Não sei quando começou em mim o gosto sutil. Somente sei que começou. E vou tratando de trabalhá-lo, valorizando a simplicidade dos movimentos, beleza que procuro tirar dos pormenores mais corriqueiros da minha arte se afinando.
Chutar tampinhas que encontro no caminho. É só ver tampinha. Posso diferenciar ao longe que tampinha é aquela ou aquela outra. Qual a marca (se estiver de cortiça para baixo) e qual a força que devo empregar no chute. Dou uma gingada, e quase já controlei tudo. Vou me chegando, a vontade crescendo, os pés crescendo para a tampinha, não quero chute vagabundo. Errei muitos, ainda erro. É plenamente aceitável a ideia de que para acertar, necessário pequenas erradas. Mas é muito desagradável, o entusiasmo desaparecer antes do chute. Sem graça.
Meu irmão, tipo sério, responsabilidades. Ele, a camisa; eu, o avesso. Meio burguês, metido a sensato. Noivo…
— Você é um largado. Onde se viu essa, agora!
É que eu, às vezes, interrompo conversas na calçada para os meus chutes.
Só um sujeito como eu, homem se atilando naquilo que faz, pode avaliar um chute digno para determinadas tampinhas. Porque como as coisas, as tampinhas são desiguais. Para algumas que vêm nas garrafas de água mineral, reservo carinho. Cuidado particular, jeito. É doce chutá-las bem baixo, para subirem e demorarem no ar. Ou de lado, quase com o peito do pé, atingindo de chapa. Sobem. Não demoram muito, que ainda não sou um grande chutador. Mas capricho, porque elas merecem.
Minhas tampinhas… Umas belezas.
Descobri com encanto que meus sapatos de borracha se prestam melhor para apurar minha tarefa. Doce e difícil tarefa de chutar tampinhas. Realmente. A tampinha parece nem sentir. Vai até o outro lado da rua com alguma facilidade. Está claro que na razão direta da propulsão dos chutes. A borracha apenas toca o cimento, a tampinha desliza, vai embora. Necessário equilibrar a força dos pés.
Mas quem se entrega a criar vive descobrindo. Descobri o muito gostoso “plac-plac” dos meus sapatos de saltos de couro, nas tardes e nas madrugadas que varo, zanzando, devagar. Esta minha cidade a que minha vila pertence, guarda homens e mulheres que, à pressa, correm para viver, pra baixo e pra cima, semanas bravas. Sábados à tarde e domingos inteirinhos — cidade se despovoa. Todos correm para os lados, para os longes da cidade. São horas, então, do meu “plac-plac”. Fica outra a minha cidade! Não posso falar dos meus sapatos de saltos de couro… Nas minhas andanças é que sei! Só eles constatam, em solidão, que somente há crianças, há pássaros e há árvores pelas tardes de sábados e domingos, nesta minha cidade.
Agora me lembro — minhas favoritas vêm acima do gargalo das garrafas de água mineral marca Prata. Em vermelho e branco. A cortiça coberta por uma espécie de papel impermeável e branco e brilhante. O que mais as valoriza é a cortiça forrada. Harmoniosas e originais. Muito jeitosas.
Para elas diligencio firmeza, apuro. Às vezes, encontrando-as por circunstância na rua, eu as guardo no bolso do paletó, para aproveitá-las mais tarde. Porque só os sapatos de borracha são dignos de minhas favoritas. E mesmo calçando-os, fico estudando os chutes. Necessário valorizá-las como merecem, ir trabalhando os pontapés com cautela, até que a borracha se aproxime de leve e atinja a tampinha e a faça subir, voar, pequenas distâncias atravessando na noite. Só o barulho da borracha no chute e depois o barulho da tampinha aterrisando. E um depois do outro, os dois se procuram, os dois se encontram, se juntam os dois, se prendem, se integram, amorosamente. É preciso sentir a beleza de uma tampinha na noite, estirada na calçada. Sem o quê, impossível entender meu trabalho.
Às tampinhas comuns não ligo. Ordinárias, aparecem à toa, à toa. Vadias da calçada. Não as abandono, porém. Sirvo-me delas para experimentos, estado rude dos meus chutes em potencial. Porque desenvolvo variações, aprendo descobrindo chutes, chaleiras, usando o calcanhar, os lados dos pés. Com o direito, com o esquerdo, meio de lado… Tentativas.
Consigo, por exemplo, embocá-las nos bueiros da rua. Se é impossível trabalhar na calçada, passo para o asfalto e fico a chutar. Muito bom pela madrugada, quando os carros são poucos e a luz dos postes se atira sobre as tampinhas no asfalto.
Muito injusto esquecer-me de que as de cerveja preta são interessantes. Igualmente. Não posso desprezá-las. Elas com seus símbolos no meio. Uma cabeça de bovino ou muar. Também me dedico com simpatia às de cerveja preta. Provavelmente porque me lembram serões, almoços improvisados, trechos duros da vida.
Havia no quartel uma caixa delas. Reservadas para sargentos do dia. Cada um tinha direito a uma. Na geladeira do aprovisionamento sempre havia. Difícil cavar cerveja preta. O comandante me encarregou de tomar conta do aprovisionamento, ajudando o sargento Cunha. Pagar o mantimento ao pessoal do rancho. Boa vida. Meu lugar bem que era outro, lá na secretaria. Datilografando, esquentando a cabeça com números e preços na máquina de calcular. Mas eu ensinava jiu-jítsu aos filhos do comandante, era peixe… As cervejas pretas eram inacessíveis. Todos queriam. Os homens viviam de olho naquilo.
— Se sumir, desconta-se na folha de pagamento.
Na minha folha de pagamento, é claro. Ordem de não sei quem.
Eu não era tão trouxa nem tão caxias. Guiava, saía com o caminhão, apareciam virações.
— Você não é praça? Se vira.
Eu me defendia de acordo. Pois um dia, o sargento Cunha esqueceu-se de uma caixa no relatório. Ficavam cópias do relatório dentro do armário. Espiá-las. Era a primeira coisa que eu fazia no começo de cada mês. Às vezes, sobrava alguma coisa que faltava no relatório… Eu me ria.
— O sargento não é santo.
E quem é santo?
Disputa brava, então. Porque o homem percebia as minhas olhadelas no relatório. Um tapeando o outro, se escondendo. Faca de dois gumes.
— Fulano, você não viu uma lata de marmelada?
— Não senhor. Este mês não veio marmelada.
— Ah…
João Antônio, in Afinação e a arte de chutar tampinhas

Sarcástico

“Envelhecendo, aprendemos a converter nossos terrores em sarcasmos.”
E. M. Cioran

Os bichos vão para o céu?

Os bichos vão para o céu? Tenho um amigo que é pastor de uma comunidade protestante. Por favor, não confundir “protestante” com “evangélico”... Contou-me de uma velhinha solitária que tinha como seu único amigo um cãozinho. Ela o procurou aflita. Havia lido no livro de Apocalipse, capítulo 22, versículo 15, que não entrarão no céu “os cães, os feiticeiros, os impuros, os assassinos, os idólatras...”. Que os impuros, os assassinos, os idólatras não entrem no céu está muito certo. “Mas, reverendo”, ela dizia, “o meu cãozinho... A Bíblia está dizendo que o meu cãozinho não vai entrar no céu... Mas eu amo o meu cãozinho. O meu cãozinho me ama... O que será de mim sem o meu cãozinho?” Aí eu pergunto aos senhores, teólogos, estudiosos dos mistérios divinos: há, no céu, um lugar para os cãezinhos? Sei qual será a sua resposta. “No céu não há lugar para cãezinhos porque cãezinhos não têm alma. Somente os humanos a têm.” Acho que, teologicamente, segundo a tradição, os senhores estão certos. Nas inúmeras telas que os artistas pintaram da bem-aventurança celestial, por mais que procurasse, nunca encontrei animal algum. Aves, às quais são Francisco pregou (por que pregar-lhes, se elas não têm alma?), peixes, símbolos de Jesus Cristo, vacas, jumentos e ovelhas, que adoraram o Menino Jesus no presépio, todos eles serão reduzidos a nada. Não ressuscitarão no último dia. O céu será um mundo de almas desencarnadas. Não haverá beijos nem abraços. Falta às almas a materialidade necessária para beijos e abraços. Os senhores já observaram que no Credo Apostólico a “alma” não é sequer mencionada? Lá se fala em “ressurreição da carne”. É a carne que está destinada à eternidade. A carne é o mais alto desejo de Deus. Tanto assim que Ele se tornou carne, encarnou-se. A esperança é a volta ao Paraíso, onde havia bichos de todos os tipos. Se Deus os criou é porque Deus os desejava e deseja. Um céu vazio de animais é um céu de um Deus que fracassou. Ao final, Ele não consegue trazer de novo à vida aquilo que criou no princípio. Não. Herege que sou, direi à velhinha: “Fique tranquila. O seu cãozinho estará eternamente ao seu lado... Não só o seu cãozinho como também gatos, girafas, macacos, peixes, tucanos, patos e gansos... Deus gosta de bichos. Os bichos o louvam melhor que os humanos. Se Ele gosta de bichos eles serão ressuscitados no último dia...”.
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

Zeca Pagodinho - Atire A Primeira Pedra / Volta Por Cima

Para Maria da Graça


Agora, que chegaste à idade avançada de quinze anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no país das maravilhas. Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti. Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca. Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?”
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes consequências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave. A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon!” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gosta de gatos, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gatos se fosses eu?”
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! Mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: “Minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo”. Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente. E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.
Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”. Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: é feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.
Paulo Mendes Campos, in Elenco de cronistas modernos - 7

24/04/2016

A um Pierrô de Picasso

Pierrot (1918), de Pablo Picasso

Pierrô é desfigura errante,
andarejo de arrebol.
Vivendo do que desiste,
se expressa melhor em inseto.

Pierrô tem um rosto de água
que se aclara com a máscara.
Sua descor aparece
como um rosto de vidro na água.

Pierrô tem sua vareja íntima:
é viciado em raiz de parede.
Sua postura tem anos
de amorfo e deserto.

Pierrô tem o seu lado esquerdo
atrelado aos escombros.
E o outro lado aos escombros.
……………………………....
Solidão tem um rosto de antro.
Manoel de Barros

Para o amor nada é impossível

- Preciso encontrar alguém, Urso.
- Você já se encontrou, não? cê não acha sensacional ter a nossa própria solidão como companhia todos os dias?
- A solidão é uma pessoa?
- A minha solidão é a melhor companhia.
- Você arrumou alguém, Urso?
- Arrumei. Fiquei mais de dez anos só enfiando em buracos e voltando bêbado sozinho pra casa.
- Como é arrumar alguém? Como é gostar de alguém?
- Gostar de alguém é como escrever um poema bonito e sentir medo de perder. Então você coloca no bolso e passa a mão toda hora pra ver se ele ainda está lá segurando todo o sentimento.
- Bonito, cara. Muito gente te vê como porralouca, mas você é um escritor foda. Um baita cara com sensibilidade. Um dos melhores. Sujeito lírico mesmo.
- Sei…
- Preciso arrumar alguém.
- Já que você não se conforma com a própria solidão, arruma alguém que finja gostar dos teus poemas e te abrace todas as noites. Arruma alguém que minta bem. O amor também é isso: fingimento. Ele é mentiroso como um lobo em pele de cordeiro.
- Como assim?
- Você sabe que somos amigos, mas não curto teus poemas. São fracos demais. Não tem estilo. É uma vibe descarada de Leminski.
- Tá bom. Você já teve alguém que fingia gostar dos teus escritos?
- Já, a minha primeira mulher dizia que eu era mais foda que Dostoiévski.
- Ela te amava?
- Por um tempo acreditei que sim. Por onde ela anda?
- Casou com o cara que considerava meu melhor amigo.
- Foda.
- É como te falei. O amor mente. Daqui a pouco você arruma uma que vai te achar genial por um tempo.
- Mas você diz que meus poemas são péssimos.
- Para o amor nada é impossível.
Diego Moraes, in ursocongelado.tumblr.com

Que humanidade é essa?

Se o homem não é capaz de organizar a economia mundial de modo a satisfazer a necessidade de uma humanidade que está morrendo de fome e de tudo, que humanidade é essa? Nós, que enchemos a boca com a palavra “humanidade”, creio que ainda não chegamos a isso, não somos seres humanos. Talvez um dia consigamos sê-lo, mas não somos, falta muitíssimo. O espetáculo do mundo está aí, e é uma coisa de arrepiar. Vivemos ao lado de tudo o que é negativo como se não tivesse nenhuma importância, a banalização do horror, a banalização da violência, da morte, principalmente se é a morte de outros, claro. É-nos indiferente que esteja morrendo gente em Sarajevo, e também não devemos falar só dessa cidade, porque o mundo é um imenso Sarajevo. Enquanto não despertar a consciência das pessoas, isso continuará assim. Porque muito do que se faz, se faz para manter todos nós na abulia, na falta de vontade, para diminuir nossa capacidade de intervenção cívica.
José Saramago, em entrevista a Canarias 7, em 20/02/1994

A partida


“Que culpa temos nós dessa planta da infância, de sua sedução, de seu viço e constância?”
(Jorge de Lima)

1
Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo; eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou pra me levar de volta; minha mão, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente; minha cabeça rolava entorpecida enquanto meus cabelos se deslocavam em grossas ondas sobre a curva úmida da fronte; deitei uma das faces contra o chão, mas meus olhos pouco apreenderam, sequer perderam a imobilidade ante o voo fugaz dos cílios; o ruído das batidas na porta vinha macio, aconchegava-se despojado de sentido, o floco de paina insinuava-se entre as curvas sinuosas da orelha onde por instantes adormecia; e o ruído se repetindo, sempre macio e manso, não me perturbava a doce embriaguez, nem minha sonolência, nem o disperso e esparso torvelinho sem acolhimento; meus olhos depois viram a maçaneta que girava, mas ela em movimento se esquecia na retina como um objeto sem vida, um som sem vibração, ou um sopro escuro no porão da memória; foram pancadas num momento que puseram em sobressalto e desespero as coisas letárgicas do meu quarto; num salto leve e silencioso, me pus de pé, me curvando pra pegar a toalha estendida no chão; apertei os olhos enquanto enxugava a mão, agitei em seguida a cabeça pra agitar meus olhos, apanhei a camisa jogada na cadeira, escondi na calça meu sexo roxo e obscuro, dei logo uns passos e abri uma das folhas me recuando atrás dela: era meu irmão mais velho que estava na porta; assim que ele entrou, ficamos de frente um para o outro, nossos olhos parados, era um espaço de terra seca que nos separava, tinha susto e espanto nesse pó, mas não era uma descoberta, nem sei o que era, e não nos dizíamos nada, até que ele estendeu os braços e fechou em silêncio as mãos fortes nos meus ombros e nós nos olhamos e num momento preciso nossas memórias nos assaltaram os olhos em atropelo, e eu vi de repente seus olhos se molharem, e foi então que ele me abraçou, e eu senti nos seus braços o peso dos braços encharcados da família inteira; voltamos a nos olhar e eu disse “não te esperava” foi o que eu disse confuso com o desajeito do que dizia e cheio de receio de me deixar escapar não importava com o que eu fosse lá dizer, mesmo assim eu repeti “não te esperava” foi isso o que eu disse mais uma vez e eu senti a força poderosa da família desabando sobre mim como um aguaceiro pesado enquanto ele dizia “nós te amamos muito, nós te amamos muito” e era tudo o que ele dizia enquanto me abraçava mais uma vez; ainda confuso, aturdido, mostrei-lhe a cadeira do canto, mas ele nem se mexeu e tirando o lenço do bolso ele disse “abotoe a camisa, André”.
Raduan Nassar, in Lavoura arcaica

Cervantes, 400 anos de morte: o Dom Quixote que viveu em Miguel de Cervantes

Miguel de Cervantes. Litogravura Não Assinada. 
Miguel de Cervantes

As mortes de Cervantes e Shakespeare ocorreram no mesmo dia e no mesmo ano, em 23 de abril de 1616. A fim de homenagear estes dois imensos nomes da literatura de todos os tempos, em 1995, a XXVIII Conferência Geral da UNESCO escolheu o dia 23 de abril como o Dia Internacional do Livro e dos Direitos Autorais. Na data, fica também homenageado outro escritor falecido naquela popularíssima data de 1616: o historiador peruano Inca Garcilaso de la Vega, dito o “príncipe dos escritores do novo mundo”. O 23 de abril é tão bem frequentado que William Wordsworth, grande poeta romântico inglês, também a escolheu para morrer, só que de 1850.
Cervantes é um fundador. Talvez seja isto que nos emocione tanto quando folheamos as páginas do Quixote ou das Novelas Exemplares. Virginia Woolf escreveu em seu diário que sempre derramava algumas lágrimas quando pegava seu exemplar do Quixote. Eu a entendo. Não sou fácil para chorar, mas as páginas finais do grande romance foram lidas com extrema dificuldade. As letras movimentavam-se levemente e às vezes sumiam enquanto eu fungava. Para quem ama a literatura, parece “forte demais” tomar contato com o primeiro romance efetivamente moderno, por mais arrevesado que ele nos pareça hoje. Talvez ele tenha sido um dos primeiros livros escritos contra outros, trata-se de uma obra escrita com raiva e graça, muita graça. As últimas edições brasileiras do Dom Quixote e das Novelas, publicadas pela recém falecida Cosac Naify, receberam tratamento digno da comicidade e profundidade cervantinas através do tradudor Ernani Ssó. Ninguém mais precisa ler as principais obras de Cervantes naqueles antigos e terríveis textos como os que eu li quando adolescente.

Acesse o link da matéria completa aqui.

23/04/2016

Areando as palavras

“As palavras, as palavras, pensou Nando. A luz só nasce dos monólogos. Firma-se em diálogos de monólogos ou em debates de monólogos. De palavras em debate não. Só areando todas as palavras de novo. Esfregando. Até reluzirem outra vez.”
Antonio Callado, in Quarup

Street Art, por Falko, em Garies, África do Sul



Fonte: www.streetartutopia.com

Morrer

O corneteiro tocou a diana – o toque de silêncio – pouco antes da alvorada. Delfino chorava. Pediu que trouxessem sua mulher, mas disseram que não. Marcos tinha sido o primeiro a chegar ao pátio, escoltado pelos guardas. Perguntou: “E não veio aquele covarde do promotor? Ele não era todo macho?” Delfino abraçou o sacerdote. Os caracóis perambulavam pelo muro branco do quartel de Matomoros. (Até esse momento, Suárez tinha pensado: que me fuzilar que nada. Mas agora seus joelhos tinham afrouxado.)
Do lado de fora, um menino estava sentado de costas contra o muro, com a cabeça grudada no muro, os olhos muito abertos, não podia piscar, não sentia o frio, e ao seu lado havia um cachorro com as orelhas em pé.
Deram cigarros aos três. “Não chora, Delfino”, disse Marcos. Os sacerdotes da Ordem das Mercês se despediram seis vezes.
– Não, padre – disse Marcos. – De costas, não. De frente.
Suárez achou que era melhor ajudar que lhe colocassem a venda nos olhos. As lágrimas de Delfino corriam por baixo da venda. Marcos não quis venda nenhuma. Suárez perguntou:
– Que horas são? Quanto falta?
– Cinco minutos.
Um pássaro brincava no céu escuro: abria e fechava as asas, anunciava com alegria o nascimento do dia. Eles viam o passarinho. Escutavam seu canto. Cantava como se estivesse chamando os três. Antes, na cela, Marcos quis voltar até as pessoas e os lugares aos quais pertencera, quando estava vivo; mas agora passeava os olhos pelos rostos dos soldados do pelotão, as duas filas de dez, um por um, todos iguais, e escutava gritar pelootãão, fiiiirmes, gritar fiila da freeente, gritar joelhos no chããão, via-os mover os ferrolhos das carabinas, os soldados a um metro e meio prontos para abrir um rombo no seu corpo, e o tempo todo se sentia longe dos soldados e longe da cerimônia e de tudo, estivera longe desde antes de xingar o promotor de filho da puta e de se plantar na frente do muro com as mãos atadas: longe, mas muito longe, muito mais além do que qualquer viagem e de qualquer tempo ou qualquer destino. Olhou para Delfino, que continuava chorando porque não entendia. Marcos tinha dito: “Os homens não choram”, mas na verdade tinha querido dizer: “Os mortos não choram, Delfino”. Marcos escutou gritar apooontaaaar e a vida não era um jogo de sombras na parede da memória, nem era um calor de fumaça de cigarro no peito, nem era nada. Então o oficial gritou fooogo e houve um silêncio longo e estúpido.
Quando explodiram os tiros, todos os tiros como um único tiro, a primeira claridade do dia já se arrastava, nebulosa, na altura do chão. O oficial disse termine e o cabo se inclinou sobre o corpo de Marcos. Marcos viu-o através da cortina de seus próprios cílios: viu-o pelo espaço de dois segundos, e apesar disso poderia descrevê-lo com todos os detalhes, como se tivesse olhado para ele durante anos. O cabo apertou os dentes e apontou no coração.
Eduardo Galeano, in Viramundo

Exortação

Em nome do teu nome,
Que é viril,
E leal,
E limpo, na concisa brevidade
— Homem, lembra-te bem —!
Sê viril,
E leal,
E limpo, na concisa condição.
Traz à compreensão
Todos os sentimentos recalcados
De que te sentes dono envergonhado;
Leva, dourado,
O sol da consciência
Às íntimas funduras do teu ser,
Onde moram
Esses monstros que temes enfrentar.
Os leões da caverna só devoram
Quem os ouve rugir e se recusa a entrar...”
Miguel Torga

A morte dos girassóis

Google Imagens

Anoitecia, eu estava no jardim. Passou um vizinho e ficou me olhando, pálido demais até para o anoitecer. Tanto que cheguei a me virar para trás, quem sabe alguma coisa além de mim no jardim. Mas havia apenas os brincos-de-princesa, a enredadeira subindo lenta pelos cordões, rosas cor-de-rosa, gladíolos desgrenhados. Eu disse oi, ele ficou mais pálido. Perguntei que-que foi, ele enfim suspirou: “Me disseram no Bonfim que você morreu na quinta-feira”. Eu disse ou pensei dizer ou de tal forma deveria ter dito que foi como se dissesse: “É verdade, morri sim. Isso que você está vendo é uma aparição, voltei porque não consigo me libertar do jardim, vou ficar aqui vagando feito Egum até desabrochar aquela rosa amarela plantada no dia de Oxum. Quando passar lá no Bonfim diz que sim, que morri mesmo, e já faz tempo, lá por agosto do ano passado. Aproveita e avisa o pessoal que é ótimo aqui do outro lado: enfim um lugar sem baixo astral”.
Acho que ele foi embora, ainda mais pálido. Ou eu fui, não importa.
Mudando de assunto sem mudar propriamente, tenho aprendido muito com o jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas.
Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo catita, parece que vai abrir.
Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada. Viajei por quase um mês no verão, quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados. Fiquei uma fera. Gritei com o pintor: “Mas o senhor não sabe que as plantas sentem dor que nem a gente?” O homem ficou me olhando tão pálido quanto aquele vizinho. Não, ele não sabe, entendi. E fui cuidar do que restava, que é sempre o que se deve fazer.
Porque tem outra coisa: girassol quando abre flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então, como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra, exausto da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto.
Alguns amarrei com cordões em estacas, mas havia um tão quebrado que nem dei muita atenção, parecia não valer a pena. Só apoie-o numa espada de são-jorge com jeito, e entreguei a Deus. Pois no dia seguinte, lá estava ele todo meio empinado de novo, tortíssimo, mas dispensando o apoio da espada. Foi crescendo assim precário, feinho, fragilíssimo. Quando parecia quase bom, cráu! Veio chuva medonha e deitou-o por terra. Pela manhã estava todo enlameado, mas firme. Aí me veio a ideia: cortei-o com cuidado e coloquei-o aos pés do Buda chinês de mãos quebradas que herdei de Vicente Pereira. Estava tão mal que o talo pendia cheio de ângulos das fraturas, a flor ficava assim meio de cabeça baixa e de costas para o Buda. Não havia como endireitá-lo.
Na manhã seguinte, juro, ele havia feito um giro completo sobre o próprio eixo e estava com a corola toda aberta, iluminada, voltada exatamente para o sorriso do Buda. Os dois pareciam sorrir um para o outro. Um com o talo torto, o outro com as mãos quebradas. Durou pouco, girassol dura pouco, uns três dias. Então peguei e joguei-o pétala por pétala, depois o talo e a corola entre as alamandas da sacada. Para que caíssem no canteiro lá embaixo e voltassem a ser pó, húmus misturado à terra. Depois não sei ao certo, voltasse à tona fazendo parte de uma rosa, palma-de-santarrita, lírio ou azaleia, vai saber que tramas armam as raízes lá embaixo no escuro, em segredo.
Ah, pede-se não enviar flores. Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu? Algumas pessoas acho que nunca. Mas não é para essas que escrevo.
Caio Fernando Abreu, in Zero Hora, de 18/03/1995

Larissa Baq e Pedro Altério • Sou eu agora

22/04/2016

Defenestração

Certas palavras tem o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias com todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra.
Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Aonde eles chegassem, tudo se complicaria.
- Os hermeneutas estão chegando!
- Ih, agora que ninguém vai entender mais nada…
Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
- Alô...
- O que é que você quer dizer com isso?
Traquinagem devia ser uma peça mecânica.
- Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.
Plúmbeo devia ser o barulho que um corpo faz ao cair na água.
Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração.
A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um certo tom lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres:
- Defenestras?
A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas… Ah, algumas defenestravam.
Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais.
Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? “Nestes termos, pede defenestração..” Era uma palavra cheia de implicações. Devo até tê-la usado uma ou outra vez, como em:
- Aquele é um defenestrado.
Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a palavra exata.
Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. “Defenestração” vem do francês “defenestration”. Substantivo feminino. Ato de atirar alguém ou algo pela janela.
Ato de atirar alguém ou algo pela janela!
Acabou a minha ignorância, mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração?
Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como o rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo.
- Les defenestrations. Devem ser proibidas.
- Sim; monsieur le Ministre.
- São um escândalo nacional. Ainda mais agora, com os novos prédios.
- Sim, monsieur le Ministre.
- Com prédios de três, quatro andares, ainda era admissível. Até divertido. Mas daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: “Interdit de defenestrer”. Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos.
Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez ainda persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes.
- É esta estranha vontade de jogar alguém ou algo pela janela, doutor…
- Hmm, O impulsus defenestrex de que nos fala Freud. Algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar – diz o analista, afastando se da janela.
Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada.
Na lua-de-mel, numa suíte matrimonial no 17º andar.
- Querida...
- Mmmm?
- Há uma coisa que eu preciso lhe dizer...
- Fala, amor.
- Sou um defenestrador.
E a noiva, em sua inocência, caminha para a cama:
- Estou pronta para experimentar tudo com você. Tudo!
Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e balbucia:
- Fui defenestrado...
Alguém comenta:
- Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela!
Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti.
Luís Fernando Veríssimo, in Comédias para se ler na escola

Mafalda

Leitura não é dever, é direito

“Mas não fiquem achando que eu acho que professor deve ler, e que aluno deve ler. Nada disso. Não se trata de dever. Leitura não é dever de ninguém. É um direito, isso sim, de todo cidadão, e por ele temos de lutar - isso sim, um dever. Até mesmo na guerrilha quotidiana da resistência miúda, fazendo questão de pegar livro na biblioteca, de levar livro para casa, de ler no ônibus, de dar livro de presente, de falar em livros com colegas e amigos, de desligar a tevê em troca de um livro na hora em que algo está chato (não é possível que todo mundo ache que nunca tem nada chato na televisão). E na estratégia mais ampla, frequentando livrarias nem que seja para folhear um livro e tirar uma casquinha, escrevendo para jornais e revistas para exigir mais espaço dedicado à literatura, cobrando dos candidatos a prefeito, vereador e deputado um compromisso público com o atendimento a esse direito em cada estado e município.”
Ana Maria Machado, in Texturas: sobre leituras e escritos