03/01/2024

Hollywood | 33


A cena da banheira era simples. Francine sentava-se dentro e Jack Bledsoe no chão, do lado de fora, recostado na banheira, enquanto Francine falava de várias coisas, principalmente sobre um assassino que vivia no prédio e se achava em liberdade condicional. O homem, que morava com uma velha, espancava-a continuamente. Ouviam-se o assassino e sua dona discutindo e se xingando através das paredes.
Pinchot me pedira para escrever diálogos de pessoas brigando do outro lado das paredes e eu lhe dera várias páginas. Basicamente, essa fora a parte mais gostosa da criação do argumento.
Muitas vezes, nessas pensões e apartamentos baratos, não se tinha nada a fazer quando se estava duro, morrendo de fome e reduzido à última garrafa. Não se tinha nada a fazer senão escutar aquelas discussões cabeludas. Elas faziam a gente compreender que não era o único desiludido do mundo, não era o único à beira da loucura.
Não podíamos ver a cena da banheira, porque não havia espaço suficiente lá dentro, por isso Sarah e eu ficamos esperando na porta da frente do apartamento, com a cozinha para um lado. Na verdade, trinta anos atrás eu tinha morado por pouco tempo naquele mesmo prédio da Rua Alvarado, com a dona sobre a qual escrevera o argumento. Era de fato estranho e arrepiante. “Tudo que passa, volta.” De uma maneira ou de outra. E trinta anos depois, o lugar parecia mais ou menos o mesmo. Só as pessoas que eu conhecera tinham todas morrido. A dona morrera três décadas atrás, e ali estava eu sentado, tomando uma bebida naquele mesmo prédio cheio de câmeras e som e técnicos. Bem, eu ia morrer também, muito breve. Sirva um por mim.
Preparavam comida na pequena cozinha, e a geladeira regurgitava de cervejas. Fiz algumas incursões por lá. Sarah encontrou pessoas com quem conversar. Tinha sorte. Toda vez que alguém falava comigo, eu sentia vontade de saltar pela janela ou descer no elevador. As pessoas simplesmente não tinham interesse algum. Talvez não devessem ter. Mas os animais, pássaros, até mesmo os insetos tinham. Eu não entendia.
Jon Pinchot continuava adiantado um dia em relação ao cronograma de filmagens, e eu estava satisfeito pra burro com isso. Tirava a Firepower do nosso pé. Os grandolas não apareciam. Tinham seus espias, é claro. Eu os via.
Alguns membros da equipe tinham livros meus. Pediam autógrafos. Os livros que traziam eram curiosos. Quer dizer, eu não os considerava os melhores. (Meu melhor livro é sempre o último que escrevi.) Alguns deles tinham um livro de minhas primeiras histórias pornográficas, Batendo Punheta no Demônio. Alguns livros de poemas, Mozart na Figueira e Você Deixaria Esse Homem Tomar Conta de sua Filhinha de Quatro Anos? Também A Latrina do Bar é Minha Capela.
O dia passava, em paz mas sem alegria.
Bela cena de banheira, eu pensava. Francine deve estar bem lavada a essa altura.
Jon Pinchot entrou correndo no quarto. Parecia descomposto. Até o zíper estava meio aberto. Despenteado. Os olhos pareciam ao mesmo tempo ensandecidos e vazios.
– Meu Deus! – disse. – Aqui está você!
– Como vai indo?
Ele se curvou sobre mim e me sussurrou no ouvido:
– É terrível, é de enlouquecer! Francine está preocupada com a possibilidade do bico do peito dela aparecer acima d’água! Fica perguntando: “Meus peitos estão aparecendo?”
– Que mal faz um peitinho?
Jon se curvou mais ainda.
– Ela não é mais tão jovem quanto gostaria... E Hyans odeia aquela iluminação... Não suporta a iluminação e está bebendo cada vez mais...
Hyans era o câmera. Ganhara quase todos os prêmios do ramo, um dos melhores câmeras vivos, mas, como a maioria das almas grandes, gostava de seu traguinho de vez em quando.
Jon prosseguiu, sussurrando freneticamente:
– E Jack não diz uma fala certa. Temos de cortar o tempo todo. Tem alguma coisa nas falas que incomoda ele, e ele fica com aquele sorriso idiota no rosto quando as diz.
– Qual é a fala?
– É: “Ele tem de masturbar o agente da condicional quando o cara aparece”.
– Tudo bem, experimente: “Ele tem de tocar punheta no agente da condicional quando o cara aparece.”
– Nossa, obrigado! ESTA VAI SER A 19a TOMADA!
– Meu Deus – eu disse.
– Me deseje sorte...
– Sorte…
Jon deixou o quarto. Sarah se aproximou.
– Que é que há?
– A 19a tomada. Francine está com medo de mostrar os peitos, Jack não consegue dizer sua fala e Hyans não gosta da iluminação.
– Francine precisa de um trago – ela disse. – Vai fazer ela se soltar.
– Hyans não precisa de um trago.
– Eu sei. E Jack vai conseguir dizer a fala quando Francine se soltar.
– Talvez.
Nesse momento Francine entrou no quarto. Parecia inteiramente perdida, completamente por fora. Usava um roupão, uma toalha amarrada na cabeça.
– Vou dizer a ela – disse Sarah.
Aproximou-se de Francine e falou-lhe baixinho. A outra escutou. Assentiu levemente com a cabeça, saiu do quarto por uma porta à esquerda. Num instante, Sarah emergiu da cozinha com uma xícara de café. Bem, tinha scotch, vodca, uísque e gim naquela cozinha. Sarah preparara alguma coisa. A porta abriu-se, fechou-se e a xícara de café desapareceu.
Sarah aproximou-se.
– Ela vai ficar bem agora...
Passaram-se dois ou três minutos, e a porta do quarto abriu-se de repente. Francine saiu e dirigiu-se para o banheiro e a câmera. Quando passava, seus olhos encontraram os de Sarah:
– Obrigada!
Bem, não havia nada a fazer senão ficar sentado e bater mais papo.
Eu não podia deixar de lançar uma olhada ao passado. Aquele era o mesmo prédio do qual eu fora despejado por levar três mulheres para meu quarto certa noite. Naquele tempo não tinha essa de Direitos do Inquilino.
– Sr. Chinaski – dissera a senhoria –, aqui moram pessoas religiosas, pessoas trabalhadoras, pessoas com filhos. Eu nunca recebi uma queixa dessas sobre outros inquilinos. E soube também que o senhor... aquelas cantorias, aqueles xingamentos... quebra-quebra... palavrões e risadas... Em toda a minha vida, eu jamais soube de nada parecido com o que aconteceu em seu quarto ontem à noite!
– Tudo bem, eu saio...
– Obrigada.
Eu devia estar louco. Sem me barbear. A camiseta cheia de buracos de cigarro. Meu único desejo era ter mais de uma garrafa na cômoda. Não era feito para o mundo nem o mundo pra mim, e encontrara outros como eu, e em sua maioria esses outros eram mulheres, mulheres com as quais a maioria dos homens jamais iria querer ficar num mesmo quarto, mas que eu adorava, elas me inspiravam, eu fazia teatro, xingava, saltava pelo quarto de cueca dizendo-lhes que era grande, mas só eu acreditava nisso. Elas apenas berravam: “Foda-se! Sirva mais um pouco de álcool!”. Aquelas donas do inferno, aquelas donas no inferno comigo.
Jon Pinchot entrou rápido no quarto:
– Deu tudo certo! Que dia! Agora, amanhã recomeçamos tudo!
– Agradeça a Sarah! – eu disse. – Ela sabe preparar uma bebida mágica.
– Quê?
– Ela soltou Francine com uma coisa numa xícara de café.
Jon voltou-se para Sarah.
– Muito obrigado...
– Disponha – respondeu Sarah.
– Nossa – disse Jon –, estou neste ramo há muito tempo e nunca fiz dezenove tomadas!
– Eu soube – eu disse – que Chaplin às vezes fazia cem tomadas até conseguir o que queria.
– Isso era Chaplin – disse Jon. – Cem tomadas, e nosso orçamento vai embora.
E foi isso aí por esse dia. A não ser por Sarah, que disse:
– Diabos, vamos ao Musso’s.
O que fizemos. E conseguimos uma mesa na Sala Velha e pedimos umas bebidas enquanto olhávamos o menu.
– Lembram? – perguntei. – Lembram dos velhos tempos quando a gente vinha aqui ver as pessoas nas mesas e tentar localizar os tipos, os atores, os diretores ou produtores, os tipos do pornô, os agentes, os aspirantes? E a gente pensava: “Veja só eles, discutindo suas negociatas de filmes, ou os contratos sobre seus últimos filmes”. Que toupeiras, que desajustados. Melhor desviar o olhar quando chegarem o peixe-espada e o linguado.
– A gente achava eles uns merdas – disse Sarah – e agora nós é que somos.
– Tudo que passa, volta...
– Certo! Acho que vou querer o linguado...
O garçom pairava acima de nós, arrastando os pés, franzindo o cenho, os pelos das sobrancelhas caindo sobre os olhos. Musso estava ali desde 1919, e tudo era um pé no saco para ele: nós, e todos os demais na casa. Eu concordava. Decidi pelo peixe-espada. Com batatas fritas.

Charles Bukowski, in Hollywood

02/01/2024

Zeca Baleiro | Quem Hoje Me Vê Ganhando

Grandes esperanças | 1


Sendo o sobrenome de meu pai Pirrip, e meu nome de batismo Philip, quando menino minhas tentativas de pronunciar os dois nomes não resultavam em nada mais longo nem mais explícito do que Pip. Por isso passei a denominar-me Pip, e assim vim a ser chamado.
Digo que Pirrip era o sobrenome de meu pai com base na sua lápide e na minha irmã — a sra. Joe Gargery, que se casou com o ferreiro. Como jamais vi meu pai nem minha mãe, e nunca vi retrato deles (pois que viveram muito antes do tempo das fotografias), minhas primeiras fantasias a respeito de sua aparência se fundavam, de modo nada razoável, nas suas lápides. A forma das letras na lápide de meu pai me inspirou a estranha ideia de que ele teria sido um homem quadrado, robusto, moreno, com cabelos negros crespos. A partir do aspecto e fraseado da inscrição, “Também Georgiana Esposa do Acima”, extraí a conclusão infantil de que minha mãe era sardenta e doente. Cinco pequenos losangos de pedra, cada um com cerca de meio metro de comprimento, dispostos numa fileira ordenada ao lado da sepultura dos dois, e dedicados à memória de cinco irmãozinhos meus — que desistiram de tentar viver excepcionalmente cedo nesse conflito universal — me inspiraram a convicção, à qual me apegava com fervor religioso, de que todos eles haviam nascido de costas, com as mãos nos bolsos das calças, e de lá jamais as tiraram neste estado da existência.
Nossa região era o charco junto ao rio, a uma distância, onde o rio fazia curva, de trinta quilômetros do mar. Minhas primeiras impressões vívidas e abrangentes da identidade das coisas, creio eu que as vivenciei numa memorável tarde fria e úmida, já perto do anoitecer. Nessa ocasião descobri com certeza que aquele lugar lúgubre, coberto de urtigas, era o campo-santo; e que Philip Pirrip, paroquiano de lá, e também Georgiana, esposa do acima, estavam mortos e enterrados; e que Alexandre, Bartholomew, Abraham, Tobias e Roger, filhos pequenos dos dois, também estavam mortos e enterrados; e que o descampado escuro e plano que se estendia além do campo-santo, pontuado por diques e outeiros e porteiras, com algumas cabeças de gado esparsas a pastar, era o charco; e que a linha plana e cor de chumbo mais além era o rio; e que aquele pasto selvagem e longínquo de onde vinha o vento era o mar; e que o serzinho estremecendo de medo de tudo isso, e começando a chorar, era Pip.
“Para com esse barulho!”, gritou uma voz terrível, e um homem veio vindo por entre as sepulturas ao lado do alpendre da igreja. “Fica quieto, seu diabrete, senão eu te corto a garganta!”
Um homem assustador, com uma roupa grosseira toda cinzenta, com um grande ferro na perna. Um homem sem chapéu, e com sapatos rasgados, e com um trapo velho amarrado em torno da cabeça. Um homem que havia afundado na água, e chafurdado na lama, e torcido o pé nas pedras, e se cortado nas pederneiras, e se espetado nas urtigas, e se rasgado nas urzes; que mancava, e estremecia, e rosnava; e que me olhava com olhar feroz, estalejando os dentes enquanto me agarrava pelo queixo.
“Ah! Não me corte a garganta, senhor”, implorei apavorado. “Por favor, não faça isso, senhor.”
“Diz o teu nome!”, ordenou o homem. “Depressa!”
“Pip, senhor.”
“De novo”, disse o homem, olhando-me fixamente. “Fala!”
“Pip. Pip, senhor!”
“Mostra onde tu moras”, disse o homem. “Aponta pro lugar!”
Indiquei a direção de nossa aldeia, na margem plana do rio, em meio a amieiros e árvores podadas, a quase dois quilômetros da igreja.
O homem, tendo me olhado por um momento, virou-me de cabeça para baixo e esvaziou-me os bolsos. Neles não havia nada além de um pedaço de pão. Quando a igreja se endireitou — pois ele foi tão repentino e forte que a fez virar de ponta-cabeça diante de mim, e vi o campanário debaixo de meus pés —, quando a igreja se endireitou, como eu dizia, dei por mim sentado numa lápide alta, tremendo, enquanto ele devorava o pão com avidez.
“Filhote de cachorro”, disse o homem, lambendo os beiços, “tuas bochecha é bem gorducha.”
Creio que eram mesmo gordas, embora na época eu fosse um menino pequeno para minha idade, e nada forte.
“Ora se eu não comia elas”, disse o homem, sacudindo a cabeça de modo ameaçador, “e posso muito bem comer, mesmo!”
Manifestei enfaticamente a esperança de que ele não fizesse tal coisa, e agarrei-me com mais força à lápide em que ele me colocara; em parte para não cair dela, em parte para não chorar.
“Escuta aqui!”, disse o homem. “Que é da tua mãe?”
“Ali, senhor!”, apontei.
Ele assustou-se, correu um pouco, parou e olhou para trás.
“Ali, senhor!”, expliquei, tímido. “Também Georgiana. É a minha mãe.”
“Ah!”, ele exclamou, voltando. “E aquele ali ao lado da tua mãe é o teu pai?”
“Sim, senhor”, respondi, “paroquiano de cá.”
“Ah!”, ele murmurou então, pensativo. “Tu vives com quem — se é que eu vou ser bonzinho e te deixar viver, coisa que ainda não decidi?”
“Minha irmã, senhor — a senhora Joe Gargery — mulher de Joe Gargery, o ferreiro, senhor.”
“Ferreiro, é?”, disse ele. E olhou para a própria perna.
Depois de olhar feroz para a perna e para mim algumas vezes, aproximou-se de minha lápide, segurou-me pelos dois braços e inclinou-me para trás até onde pôde fazê-lo, de modo que pudesse me olhar nos olhos do modo mais penetrante, enquanto os meus olhavam para os dele, impotentes.
“Escuta aqui”, disse ele, “o negócio é saber se te deixo viver ou não. Tu sabes o que é uma lima de ferro.”
“Sei, sim, senhor.”
“E sabes o que é comida.”
“Sei, sim, senhor.”
Depois de cada pergunta, ele me inclinava um pouco mais, de modo a acentuar minha sensação de impotência e perigo.
“Me traz uma lima.” Inclinou-me outra vez. “E me traz comida.” Inclinou-me outra vez. “Me traz as duas coisa.” Inclinou-me outra vez. “Senão eu te ranco o coração e o figo.” Inclinou-me outra vez.
Eu estava terrivelmente assustado, e tão tonto que me agarrei a ele com as duas mãos, dizendo: “Se o senhor por favor parar de me entortar, pode ser que eu não fique enjoado, e preste mais atenção no senhor”.
Ele me virou ao contrário com toda a força, de modo que a igreja pulou por cima de seu próprio cata-vento. Então me segurou pelos braços, de cabeça para cima, sobre a lápide, e continuou, ameaçador:
“Me traz amanhã, de manhã bem cedo, a lima e a comida. Leva tudo pra mim, na velha bateria acolá. Faz isso e não ouses dizer uma palavra a ninguém, nem dar a entender que encontraste uma pessoa como eu, nem pessoa nenhuma, que aí eu te deixo viver. Se não fizeres o que mando, ou se desviares do que eu te digo, por pouco que seja, teu coração e teu figo vai ser arrancado, assado e comido. Olha, eu não estou sozinho não, ao contrário do que podes estar pensando. Tem um rapaz escondido comigo, e em comparação com esse rapaz eu sou um anjo. Esse rapaz está ouvindo tudo que eu digo. Esse rapaz tem um jeito secreto que só ele sabe de pegar um garoto, e rancar o coração dele, e o figo dele. Não adianta tentar se esconder desse rapaz. O garoto pode trancar a porta, se enfiar na cama quentinha, se embrulhar todo nas coberta, puxar elas até cobrir a cabeça, crente que está muito confortável e bem protegido, mas aí esse rapaz entra sem fazer barulho, chega até ele e rasga ele ao meio. Eu estou no momento impedindo esse rapaz de fazer mal a ti, com muita dificuldade. É muito difícil impedir esse rapaz de te rasgar ao meio. E então, o que me dizes?”
Eu disse que ia lhe trazer a lima, e os restos de comida que conseguisse pegar, e viria a seu encontro na bateria de manhã cedinho.
“Diz que Deus te mate mortinho se não fizeres isso!”, disse o homem.
Obedeci, e ele me pôs no chão.
“Pois então”, insistiu, “lembra do que foi combinado, e lembra daquele rapaz, e vai pra casa!”
“Bo-boa noite, senhor”, gaguejei.
“Boa uma ova!”, exclamou, correndo a vista pela planície fria e úmida. “Eu queria ser um sapo. Ou então uma enguia!”
Enquanto abraçava o próprio corpo, que tremia, com os dois braços — apertando com força, como para não se desmanchar — seguia mancando até a mureta da igreja. Fiquei a vê-lo, contornando com cuidado as urtigas, por entre as sarças que cingiam os montículos verdes, e a meus olhos de criança ele dava a impressão de estar se esquivando das garras dos defuntos, que esticavam os braços cautelosos de suas sepulturas, para lhe agarrar o tornozelo e puxá-lo para dentro.
Chegando à mureta, passou por cima dela, como um homem cujas pernas estão dormentes e duras, e depois se virou para me procurar. Quando vi que ele se virava, voltei-me na direção de minha casa, e corri o mais depressa que pude correr. Mas pouco depois olhei para trás e vi que ele voltava para os lados do rio, ainda a abraçar-se com os dois braços, pondo com cuidado os pés feridos entre as pedras grandes postas aqui e ali no charco, para servirem de passadeiras quando chovia forte, ou quando subia a maré.
O charco era apenas uma longa linha horizontal negra quando parei para tentar encontrá-lo; e o rio não passava de mais uma linha horizontal, bem menos larga e menos negra; e o céu, só um feixe de linhas longas de um vermelho colérico, entremeadas com faixas negras e densas. Na margem do rio eu divisava, com dificuldade, os dois únicos vultos negros em toda a paisagem que pareciam estar em posição vertical; um deles era o farol que orientava os marinheiros — parecia um barril sem aros no alto de um poste — uma coisa feia quando vista de perto; o outro, um patíbulo onde pendiam umas correntes, no qual outrora fora enforcado um pirata. O homem seguia mancando em direção a esse patíbulo, como se fosse o pirata redivivo, que dele tendo descido agora voltava, para lá se pendurar outra vez. Esse pensamento fez-me muito mal; e, ao ver os bois levantando as cabeças e olhando para o homem, perguntei a mim mesmo se eles também teriam a mesma impressão. Corri a vista à minha volta, temendo deparar com o rapaz terrível, e não vi nenhum sinal dele. Porém, como estava com medo de novo, fui para casa correndo sem parar.

Charles Dickens, in Grandes esperanças

Calvin

 

Valorização

Pense mais no que possui do que no que não possui. Imagine o quão ansiosamente buscaria as coisas que selecionou como as melhores caso não as possuísse. Em compensação, dado que está satisfeito com elas, tome cuidado para não as valorizar a ponto de se perturbar caso as perca.

Marco Aurélio, in Meditações

Cândido ou o Otimismo | Capítulos 3 e 4


Como Cândido fugiu de entre os búlgaros, e o que se tornou

Nada era tão belo, tão lesto, tão brilhante, tão bem-ordenado quanto os dois exércitos. Os clarins, os pífaros, os oboés, os tambores, os canhões, formavam uma harmonia tal como nunca houve no inferno. Os canhões derrubaram de início cerca de seis mil homens de cada lado; em seguida a rajada de mosquetes tirou do melhor dos mundos por volta de dez mil malandros que lhe infectavam a superfície. A baioneta também foi a razão suficiente da morte de alguns milhares de homens. O total bem podia chegar a umas trinta mil almas. Cândido, que tremia como um filósofo, escondeu-se o melhor que pôde durante aquela carnificina heroica.
Finalmente, enquanto ambos os reis faziam cantar o Te Deum cada um em seu campo, ele tomou o partido de ir arrazoar em outro lugar sobre efeitos e causas. Passou por cima de montes de mortos e de moribundos e chegou primeiro a uma aldeia vizinha; ela estava em cinzas: era uma aldeia abar que os búlgaros haviam queimado, segundo as leis do direito público. Aqui, anciãos crivados de tiros olhavam morrer as suas mulheres degoladas, que mantinham os filhos nas mamas ensanguentadas; ali, moças estripadas depois de terem saciado as necessidades naturais de alguns heróis exalavam o último suspiro; outras, meio queimadas, gritavam que terminassem de matá-las. Cérebros estavam espalhados pela terra, ao lado de braços e pernas amputados.
Cândido fugiu o mais depressa que pôde para outra aldeia; ela pertencia aos búlgaros, e heróis abares haviam-na tratado da mesma forma. Cândido, sempre caminhando sobre membros palpitantes ou através de ruínas, deixou enfim o teatro da guerra, carregando umas provisõezinhas em seu embornal e não esquecendo nunca a srta. Cunegunda. Faltaram-lhe provisões quando chegou à Holanda; mas tendo ouvido dizer que todo mundo era rico nesse país, e que o povo dali era cristão, não teve dúvidas de que o tratariam tão bem quanto o fora no castelo do senhor barão antes que de lá fosse expulso pelos belos olhos da srta. Cunegunda.
Pediu esmola a várias personagens sisudas, que lhe responderam todas que, se ele continuasse a exercer esse ofício, iriam trancafiá-lo numa casa de correção para que aprendesse a viver.
Dirigiu-se depois a um homem que acabara de falar uma hora seguida sobre a caridade numa grande assembleia. Esse orador, olhando-o de atravessado, disse-lhe: “O que é que o senhor veio fazer aqui? Está aqui pela boa causa?”. “Não existe efeito sem causa”, respondeu modestamente Cândido, “tudo está encadeado necessariamente e arranjado em função do melhor. Foi preciso que eu fosse expulso de junto da senhorita Cunegunda, que tivesse passado pelo açoite, e é preciso que eu peça o meu pão até que possa ganhá-lo; tudo isso não podia ser de outra maneira.” “Meu amigo”, disse o orador, “o senhor acredita que o papa seja o Anticristo?” “Eu ainda não tinha ouvido dizer isso”, respondeu Cândido; “mas quer ele o seja, quer não, está me faltando pão.” “Não mereces comê-lo”, disse o outro; “vá, malandrinho, vá, miserável, não chegues perto de mim pelo resto de tua vida.” A mulher do orador, tendo posto a cabeça na janela e avistando um homem que duvidava que o papa fosse o Anticristo, derramou-lhe na cabeça um… cheio. Ó céu! A que excesso chega o zelo da religião nas mulheres!
Um homem que não tinha sido batizado, um bom anabatista chamado Tiago, viu a maneira cruel e ignominiosa com que assim se tratava um de seus irmãos, um ser de dois pés sem penas, que tinha uma alma; ele o levou à sua casa, limpou-o, deu-lhe pão e cerveja, presenteou-o com dois florins, e até quis ensinar-lhe a trabalhar nas suas manufaturas de tecidos da Pérsia que se fabricam na Holanda. Cândido, quase se prosternando diante dele, exclamou: “Mestre Pangloss bem que me dissera que tudo está pelo melhor no mundo, pois estou infinitamente mais comovido com a vossa extrema generosidade do que com a severidade daquele senhor de sobretudo preto e da senhora sua esposa”.
No dia seguinte, enquanto passeava, encontrou um mendigo coberto de pústulas, de olhos mortiços, com a ponta do nariz roída, a boca torta, dentes pretos e falando com uma voz estrangulada, atormentado por uma tosse violenta e cuspindo um dente a cada esforço.

Capítulo 4

Como Cândido encontrou o seu antigo mestre de filosofia, o dr. Pangloss, e o que disso adveio

Cândido, mais movido pela compaixão do que pelo horror, deu a esse espantoso mendigo os dois florins que recebera de seu honesto anabatista Tiago. O fantasma olhou para ele fixamente, verteu lágrimas e saltou-lhe ao pescoço. Cândido, apavorado, recuou. “Ah!”, disse o miserável ao outro miserável, “não estais mais reconhecendo o vosso querido Pangloss?” “Que ouço eu? O senhor, meu querido mestre! O senhor, nesse estado horrível! Que desgraça vos aconteceu? Por que não estais mais no mais belo dos castelos? O que aconteceu com a senhorita Cunegunda, a pérola das mocinhas, a obra-prima da natureza?” “Não aguento mais”, disse Pangloss. Imediatamente Cândido levou-o ao estábulo do anabatista, onde o fez comer um pouco de pão; e quando Pangloss já estava refeito: “E então”, disse-lhe ele, “Cunegunda?” “Morreu”, retomou o outro. Cândido desmaiou; o amigo o fez recobrar os sentidos com um pouco de vinagre ruim que se encontrava por acaso no estábulo. Cândido reabre os olhos. “Cunegunda está morta! Ah! Melhor dos mundos, onde estás? Mas de que doença ela morreu? Não seria por me ver expulso do castelo do senhor seu pai a grandes pontapés?” “Não”, disse Pangloss. “Ela foi estripada por soldados búlgaros, depois de ter sido violada tanto quanto se pode sê-lo; eles quebraram a cabeça do senhor barão, que queria defendê-la; a senhora baronesa foi cortada em pedaços; meu pobre pupilo, tratado exatamente como a irmã; e quanto ao castelo, não ficou pedra sobre pedra, nem uma cocheira, nem um carneiro, nem um pato, nem uma árvore; mas fomos bem vingados, pois os abares fizeram o mesmo num baronato vizinho que pertencia a um senhor búlgaro.”
Ao ouvir isso, Cândido desmaiou de novo; mas, voltando a si e tendo dito o que devia dizer, indagou-se sobre a causa e o efeito, e sobre a causa suficiente que tinha colocado Pangloss num estado tão lamentável. “Ah!”, disse o outro, “foi o amor; o amor, o consolador do gênero humano, o conservador do universo, a alma de todos os seres sensíveis, o terno amor.” “Pena!”, disse Cândido, “eu o conheci, esse amor, esse soberano dos corações, essa alma de nossa alma; ele nunca me trouxe nada além de um beijo e vinte pontapés na bunda. Como essa bela causa pôde produzir em vós um efeito tão abominável?”
Pangloss respondeu nestes termos: “Ó meu caro Cândido! Conhecestes Paquette, aquela bela acompanhante de nossa augusta baronesa; degustei em seus braços as delícias do paraíso, que produziram estes tormentos infernais pelos quais me vedes devorado. Ela estava infectada. Talvez já tenha morrido disso. Paquette tinha recebido essa dádiva de um franciscano muito sábio, que fora buscar sua fonte; pois ele a pegara de uma velha condessa, que a recebera de um capitão de cavalaria, que a devia a uma marquesa, que a pegara de um pajem, que a recebera de um jesuíta, que, sendo noviço, a havia contraído em linha direta de um dos companheiros de Cristóvão Colombo. Quanto a mim, não a passarei a ninguém, pois estou morrendo”.
“Ó Pangloss!”, exclamou Cândido, “aí está uma estranha genealogia! Não foi o diabo que esteve na origem disso?” “Não mesmo!”, replicou aquele grande homem. “Era uma coisa indispensável no melhor dos mundos, um ingrediente necessário; pois se Colombo não tivesse pegado, numa ilha da América, essa doença que envenena a fonte da geração, que muitas vezes até impede a geração, e que é evidentemente o oposto do grande escopo da natureza, não teríamos nem o chocolate nem a cochonilha. Há que se observar ainda que, até hoje, em nosso continente, essa doença nos é particular, como a controvérsia. Os turcos, os indianos, os persas, os chineses, os siameses, os japoneses não a conhecem ainda; mas há uma razão suficiente para que a conheçam, por sua vez, dentro de alguns séculos. Enquanto isso, ela fez um maravilhoso progresso entre nós, e principalmente nos grandes exércitos compostos de honestos estipendiários, bem-educados, que decidem do destino dos Estados; pode-se garantir que, quando trinta mil homens combatem em ordem de batalha enfileirados contra tropas de igual número, há cerca de vinte mil sifilíticos de cada lado.”
“Eis aí algo admirável”, disse Cândido, “mas é preciso curá-lo.” “E como posso fazê-lo?”, disse Pangloss. “Eu não tenho um tostão, meu amigo; e em toda a extensão deste globo, não se pode nem fazer uma sangria, nem tomar uma lavagem sem pagar, ou sem que haja alguém que pague por nós.”
Este último discurso determinou Cândido; ele foi lançar-se aos pés de seu caridoso anabatista Tiago e fez-lhe uma pintura tão comovente do estado a que seu amigo estava reduzido, que o bom homem não hesitou em recolher o dr. Pangloss; fê-lo tratar-se às suas expensas. Pangloss, no tratamento, só perdeu um olho e uma orelha. Ele escrevia bem e sabia perfeitamente a aritmética. O anabatista Tiago fez dele o seu guarda-livros. Ao cabo de dois meses, sendo obrigado a ir a Lisboa para cuidar dos negócios de seu comércio, levou em seu navio os dois filósofos; Pangloss explicou-lhe como tudo era o melhor possível. Tiago não era de sua opinião. “É preciso”, dizia ele, “que os homens tenham corrompido um pouco a natureza, pois não nasceram lobos e tornaram-se lobos. Deus não lhes deu canhões de vinte e quatro polegadas nem baionetas, e eles fizeram baionetas e canhões para se destruir. Eu poderia listar as bancarrotas, e a justiça que se apossa dos bens dos falidos para frustrar os credores.” “Tudo isso era indispensável”, repetia o doutor caolho, “e as desgraças particulares fazem o bem geral, de modo que quanto mais houver desgraça particular, mais tudo ficará bem.” Enquanto ele arrazoava, o céu escureceu, os ventos sopraram dos quatro cantos do mundo e o navio foi assaltado pela mais horrível tempestade, à vista do porto de Lisboa.

Voltaire, in Cândido ou o Otimismo

O vitral

Desde muito, ela sabia que o aniversário, este ano, seria num domingo. Mas só quando faltavam quatro ou seis semanas, começara a ver na coincidência uma promessa de alegrias incomuns e convidara o esposo a tirarem um retrato. Acreditava que este haveria de apreender seu júbilo, do mesmo modo que o da Primeira Comunhão retivera para sempre os cânticos. — Ora... Temos tantos... — respondera o homem. Se tivéssemos filhos... Aí, bem. Mas nós dois! Para que retratos? Dois velhos! A mão esquerda, erguida, com o indicador e o médio afastados, parecia fazer da solidão uma coisa tangível — e ela se reconhecera com tristeza no dedo menor, mais fino e recurvo. Prendera grampos aos cabelos negros, lisos, partidos ao meio, e levantara-se. — Está bem. Você não quer...

(A voz nasalada, contida, era um velho sinal de desgosto.) — Suas tolices, Matilde... Quando é isso?
Como se a ideia a envergonhasse, ela inclinara a cabeça:
— Em setembro — dissera. No dia vinte e quatro. Cai num domingo e eu...
— Ah! Uma comemoração — interrompera o esposo. Vinte anos de casamento... Um retrato ameno e primaveril. Como nós.
Na véspera do aniversário, ao deitar-se, ela ainda lembrara essas palavras; mas purificara-se da ironia e as repetira em segredo, sentindo-se reconduzida ao estado de espírito que lhe advinha na infância, em noites semelhantes: um oscilar entre a espera de alegrias e o receio de não as obter. Agora, ali estava o domingo, claro e tépido, com réstias de sol no mosaico, no leito, nas paredes, mas não com as alegrias sonhadas, sem o que tudo o mais se tornava inexpressivo.
— Se você não quiser, eu não faço questão do retrato — disse ela. Foi tolice.
— O fotógrafo já deve estar esperando. Por que não muda o penteado?
Ainda há tempo.
— Não. Vou assim mesmo.
Abriu a porta, saíram. Flutuavam raras nuvens brancas; as folhas das aglaias tinham um brilho fosco. Ela deu o braço ao marido e sentiu, com espanto, uma anunciação de alegrias no ar, como se algo em seu íntimo aguardasse aquele gesto.
Seguiram. Soprou um vento brusco, uma janela se abriu, o sol flamejou nos vidros. Uma voz forte de mulher principiou a cantar, extinguiu-se, a música de um acordeão despontou indecisa, cresceu. E quando o sino da Matriz começou a vibrar, com uma paz inabalável e sóbria, ela verificou, exultante, que o retrato não ficaria vazio: a insubstancial riqueza daqueles minutos o animaria para sempre.
— Manhã linda! — murmurou. Hoje eu queria ser menina.
— Você é.
A afirmativa podia ser uma censura, mas foi como um descobrimento que Matilde a aceitou. Seu coração bateu forte, ela sentiu-se capaz de rir muito, de extensas caminhadas, e lamentou que o marido, circunspecto, mudo, estivesse alheio à sua exultação. Guardaria, assim, através dos anos, uma alegria solitária, da qual Antônio para sempre estaria ausente. Mas quem poderia assegurar, refletiu, que ele era, não um participante de seu júbilo, mas a causa mesma de tudo o que naquele instante sentia; e que, sem ele, o mundo e suas belezas não teriam sentido?
Estas perguntas tinham o peso de afirmativas e ela exclamou que se sentia feliz.
— Aproveite — aconselhou ele. Isso passa.
— Passa. Mas qualquer coisa disto ficará no retrato. Eu sei. As duas sombras, juntas, resvalavam no muro e na calçada, sobre a qual ressoavam seus passos.
— Não é possível guardar a mínima alegria — disse ele. Em coisa alguma. Nenhum vitral retém a claridade.
Cinco meninas apareceram na esquina, os vestidos de cambraia parecendo-lhes comunicar sua leveza, ruidosas, perseguindo-se, entregues à infância e ao domingo, que fluíam com força através delas. Atravessaram a rua, abriram um portão, desapareceram.
Ela apertou o braço do marido e sorriu, a sentir que um júbilo quase angustioso jorrava de seu íntimo. Compreendera que tudo aquilo era inapreensível: enganara-se ou subestimara o instante ao julgar que poderia guardá-lo. “Que este momento me possua, me ilumine e desapareça — pensava. Eu o vivi. Eu o estou vivendo.”
Sentia que a luz do sol a trespassava, como a um vitral.

Osman Lins, in Obra Completa

01/01/2024

Desafinado | Arpi Alto

Ventania

As casas são navios que, enquanto mergulhamos no sono, levantam âncora para a travessia da noite. A imagem é de uma novela de André Gide, mas qualquer um pode recriá-la na solidão do quarto. Mesmo antes de cerrarmos os olhos, a casa navega. Sentimos a flutuação silenciosa, e nos deixamos ir ao embalo desse deslocamento surdo, sobre águas oleosas e invisíveis. No dia seguinte, a vida está no mesmo lugar.
Tudo iria bem, não fosse esse sopro que faz estremecer levemente um galho de árvore e deposita uma primeira folha sobre o nosso rosto horizontal. Vem com ela um cheiro (ou sabor) acre de poeira, pois nessa fase da desintegração da consciência, paladar e olfato já se emaranharam numa percepção confusa, e não sabemos classificar a sensação. De qualquer modo, não é uma brisa tímida, que se detém um instante e se anula; é o vento organizado, que pretende conduzir também as árvores para o cruzeiro noturno, quando é sabido que árvores devem permanecer em vigília. Os troncos recusam, e ele, de mau, os desfolha, e pela janela aberta um pouco de árvore e de luta vem depositar-se na cama.
O corpo a corpo com as amendoeiras se ativa, e temos de fechar a janela, para que o tropel do combate não se instale em nosso peito. Agora a escuridão nos defende, mas pela frincha das venezianas começa a filtrar-se um rumor diverso, o vento é ao mesmo tempo irado e triste, silva mais agudo, e na madeira e no ar se esboçam ranhuras de pânico.
Não adiantou a providência, pois nesse momento, lá fora, são portas e janelas que estalam em várias direções. Também as casas foram atacadas, casas desprevenidas ou indefesas, que ainda não acabaram de ser construídas, e navegam sem equipagem. Os edifícios em formação tornam-se laboratório de ecos e fábrica de gritos, com esquadrias em alvoroço. Há uma porta bêbada, no centro da noite, batendo mais espetacularmente contra o marco, empenhada em abafar, sozinha, a bulha do vento, mas os pelotões agressores investem numa salva de injúrias e arrancam-na das dobradiças, num último estrondo.
E é o saque. A lingerie dos terraços vem para a rua, entre vasos e ramos de trepadeira, com outros objetos disparatados que foi possível subtrair aos interiores mal protegidos. Coisas cirandam no espaço, chocam-se contra postes, e, como o vento sabe furtar mas não sabe recolher, acabam dispersas no chão, despojos largados pelo vencido como pelo vencedor.
É a natureza roendo os bens do homem, divertindo-se em assustá-lo no escuro, convocando velhos medos, modelando fantasmas novos. Deitamo-nos tão seguros de nossa estabilidade em um mundo a que presidiam a lei e a técnica, nutríamos tamanha confiança nos materiais de construção e na ordem dos elementos, e bastou que certa massa de ar se deslocasse de maneira abrupta para que nossa calma, nossa segurança e mesmo nossa vida se vissem ameaçadas por um obscuro e implacável inimigo, a que nos submetemos. Porque não há outra coisa a fazer senão esperar que o furacão amaine sua cólera, depois de derrubar, aqui, a igreja evangélica Assembleia de Deus; mais adiante, a lona do circo Apolo, ferindo a uns, matando a outros, assustando todos. Perdemos o sono e o sentimento da nossa orgulhosa integração na cidade, pois toda a cidade curva a espinha sob essa visita errante, que brinca de assombração, de desabamento e de morte, e não podemos pensar em serviços públicos de proteção, já não somos donos da terra, mas apenas seres acuados no fundo do quarto de dormir, sem possibilidade de evasão. E há no vento, mais do que a ameaça que talvez não se cumpra, uma zombaria ruidosa, ávida por desmoralizar-nos.
Mas a risada e o furor se fatigam, e, aos poucos, o vento se contrai e retira-se. A grande frota silenciosa das casas retoma sua navegação, entre os restos de noite, e o sono volta a estender sobre nós, piedosamente, o seu feltro.

Carlos Drummond de Andrade, in Fala, Amendoeira

Pá, Pá, Pá

A americana estava há pouco tempo no Brasil. Queria aprender o português depressa, por isto prestava muita atenção em tudo que os outros diziam. Era daquelas americanas que prestam muita atenção.
Achava curioso, por exemplo, o “pois é”. Volta e meia, quando falava com brasileiros, ouvia o “pois é”. Era uma maneira tipicamente brasileira de não ficar quieto e ao mesmo tempo não dizer nada. Quando não sabia o que dizer, ou sabia mas tinha preguiça, o brasileiro dizia “pois é”. Ela não aguentava mais o “pois é”.
Também tinha dificuldade com o “pois sim” e o “pois não”. Uma vez quis saber se podia me perguntar uma coisa.
– Pois não – disse eu, polidamente.
– É exatamente isso! O que quer dizer “pois não”?
– Bom. Você me perguntou se podia fazer uma pergunta. Eu disse “pois não”.
Quer dizer, “pode, esteja à vontade, estou ouvindo, estou às suas ordens...”
– Em outras palavras, quer dizer “sim”.
– É.
– Então por que não se diz “pois sim”?
– Porque “pois sim” quer dizer “não”.
– O quê?!
– Se você disser alguma coisa que não é verdade, com a qual eu não concordo, ou acho difícil de acreditar, eu digo “pois sim”.
– Que significa “pois não”?
– Sim. Isto é, não. Porque “pois não” significa “sim”.
– Por quê?
– Porque o “pois”, no caso, dá o sentido contrário, entende? Quando se diz “pois não”, está-se dizendo que seria impossível, no caso, dizer “não”. Seria inconcebível dizer “não”. Eu dizer não? Aqui, ó.
– Onde?
– Nada. Esquece. Já “pois sim” quer dizer “ora, sim!”. “Ora se aceitar isso.” “Ora, não me faça rir. Rã, rã, rã.”
– “Pois” quer dizer “ora”?
– Ahn... Mais ou menos.
– Que língua!
Eu quase disse: “E vocês, que escrevem ‘tough’ e dizem ‘tâf'’?”, mas me contive. Afinal, as intenções dela eram boas. Queria aprender. Ela insistiu:
– Seria mais fácil não dizer o “pois”.
Eu já estava com preguiça.
– Pois é.
– Não me diz “pois é”!
Mas o que ela não entendia mesmo era o “pá, pá, pá”.
– Qual o significado exato de “pá, pá, pá”.
– Como é?
– “Pá, pá, pá”.
– “Pá” é pá. “Shovel”. Aquele negócio que a gente pega assim e...
– “Pá” eu sei o que é. Mas “pá” três vezes?
– Onde foi que você ouviu isso?
– É a coisa que eu mais ouço. Quando brasileiro começa a contar história, sempre entra o “pá, pá, pá”.
Como que para ilustrar nossa conversa, chegou-se a nós, providencialmente, outro brasileiro. E um brasileiro com história:
– Eu estava ali agora mesmo, tomando um cafezinho, quando chega o Túlio.
Conversa vai, conversa vem e coisa e tal e pá, pá, pá... Eu e a americana nos entreolhamos.
– Funciona como reticências – sugeri eu. – Significa, na verdade, três pontinhos. “Ponto, ponto, ponto.”
– Mas por que “pá” e não “pó”? Ou “pi” ou “pu”? Ou “et cétera”?
Me controlei para não dizer – “E o problema dos negros nos Estados Unidos?”.
Ela continuou:
– E por que tem que ser três vezes?
– Por causa do ritmo. “Pá, pá, pá.” Só “pá, pá” não dá.
– E por que “pá”?
– Porque sei lá – disse, didaticamente.
O outro continuava sua história. História de brasileiro não se interrompe facilmente.
– E aí o Túlio com uma lengalenga que vou te contar. Porque pá, pá, pá...
– É uma expressão utilitária – intervim. – Substitui várias palavras (no caso toda a estranha história do Túlio, que levaria muito tempo para contar) por apenas três. É um símbolo de garrulice vazia, que não merece ser reproduzida. São palavras que...
– Mas não são palavras. São só barulhos. “Pá, pá, pá.”
– Pois é – disse eu.
Ela foi embora, com a cabeça alta. Obviamente desistira dos brasileiros. Eu fui para o outro lado. Deixamos o amigo do Túlio papeando sozinho.

Luís Fernando Veríssimo, in Comédias Para se Ler na Escola

A vida tem marchado

A vida tem marchado como um desfile militar,
com seus horários,
com seus uniformes,
com suas armas de guerra
apontadas para a plateia,
que aplaude esse
sangue
que
não
é
seu.
Mas poderia.

Diego Ruas, in A Fome é a Mãe de Todas as Bombas 

A lua Io, de Júpiter, pela sonda Juno: uma obra de arte

Os juízes

Os juízes, doutores vindos da cidade grande, faziam questão de demonstrar que não eram do lugar, que estavam ali apenas de passagem, à espera de promoção. Eram posudos, ganjentos, diziam frases latinas em seus discursos, “fero fers tuli latum ferre”, quem com ferro fere com ferro será ferido; o latim estava errado, mas, como ninguém sabia, não fazia diferença. Os homens do lugar ficavam murchos diante do juiz, gaguejavam e chegavam mesmo a perder a fala.
Açougues eram lugares de horrores. Minha mulher, grávida pela primeira vez, desmaiou ao entrar num deles. As moscas, as carcaças de porcos e vacas penduradas em ganchos, o sangue pingando, os fígados sobre o balcão — um espetáculo surrealista. Juízo semelhante sobre os açougues emitiu a Adélia Prado. “O açougueiro e sua faca me expulsam, porque eu não tenho santidade, eu não sou digna de pôr os pés no lugar mais deprimente do mundo. Quando eu quero ficar humilde eu visito açougues, entro de um em um...” (Adélia Prado, Solte os cachorros, p. 9). De fato açougue é lugar de penitência. Se ainda se encontram açougues assim por este Brasil, imaginem como era antigamente. Para escapar do incômodo havia uma alternativa: comprar carne do vendedor ambulante, quase sempre um negro, pés descalços, calça arregaçada, equilibrando tabuleiro de madeira na cabeça, cheio de pedaços de carne, cobertos com folhas de bananeira, seguido por uma nuvem de moscas e cachorros, o que era normal. Empregado do açougueiro, ele apregoava a sua mercadoria: “Lombo de porco! Costela! Toicinho! Pernil! Fígado! Bucho!”. As donas de casa saíam à rua, ele tirava o tabuleiro da cabeça e elas escolhiam. Mas havia aqueles que preferiam ir aos açougues, minúsculos cômodos sem janelas com uma porta de grades à frente, sempre cheios de moscas.
Aconteceu que um juiz novo chegou à cidade cheio de boas intenções e se dispôs a se misturar com o povo. Saiu a caminhar tirando respeitosamente o chapéu para todos que encontrava. Foi indo assim até chegar ao Açougue Nossa Senhora da Misericórdia, propriedade do Tibúrcio, que acabara de matar um porco. A gritaria do porco, ouvida na cidade inteira, dispensava propaganda. Gritaria de porco — carne do porco no açougue do Tibúrcio. E lá estavam as duas metades, pendentes do teto, penduradas em ganchos. O juiz, para puxar conversa, afirmou com a autoridade da sua voz: “Então o senhor abate suínos!”. Tibúrcio perdeu a fala. Ficou gelado. Não sabia o que era “abate” nem “suíno”. Com certeza o meretríssimo o pegara em alguma infração da lei. O jeito era negar o crime. Gaguejou. “Não senhor, não senhor... Eu só mato porco...” .
Um outro caso de desencontro entre os homens do lugar e os juízes efêmeros se deu quando um roceiro que viera à cidade para comprar querosene, sal, rapadura e fumo de rolo se sentiu premido por uma urgência fisiológica inadiável. Sem alternativas, fez o que normalmente fazia na roça. Valendo-se de um muro de adobes caído entrou num terreno baldio onde o mato crescera, abaixou as calças, agachou-se e pôs-se a obrar. Vinha por aquela mesma rua um juiz com chapéu panamá e guarda-chuva enrolado que fazia as vezes de bengala, costume generalizado naquela época, que, vendo o homem fazendo o que fazia, horrorizou-se com tal falta de respeito, posto que era provável que por ali viessem a passar excelentíssimas senhoras. “O senhor não sabe que é contra a lei defecar em público?”, esbravejou o juiz. Sem saber o que era “defecar”, o roceiro entendeu a mensagem, e sem sair da sua posição deu uma lição de Filosofia do Direito ao juiz presunçoso: “Seu dotô, há necessidades que são mais fortes do que a lei...”.

Rubem Alves, in O Velho que Acordou Menino

A corrente do esforço humano



Certo episódio como epígrafe

Faz pouco mais de um ano, em uma das minhas raras idas ao Rio, cidade sem tantas reservas e preconceitos como São Paulo, fui convidado por um amigo para comer rabada à moda da casa num restaurante típico, bem sujinho por sinal. Meu amigo se fez acompanhar então de um editor carioca especializado na publicação de obras científicas. Cara pálida, o editor, mal se sentou à mesa, começou a discorrer exasperado sobre a precariedade das nossas condições médico-cirúrgicas (soube depois que ele, gravemente enfermo, estava desenganado), passando daí, extensivamente, a invectivar contra o brasileiro. Como a rabada demorava, na primeira brecha arrisquei uma tímida explicação, cujo único pecado foi eu misturar uns parcos condimentos de sociologia e economia no meu papo, dizendo sempre, enquanto me referia à nossa suposta comunidade: “Nós… nós… nós…”. E não tinha desfiado mais do que três contas de um rosário sobejamente conhecido, quando o editor carioca, sempre abatido, me cortou com estranha vitalidade:
“Nós, não. Eu sou europeu!”

Me lembro que em Pindorama, pequena cidade do interior paulista onde nasci e passei a infância, me lembro que até as mínimas coisas de uso trivial, como agulhas de coser, fossem de mão (inglesas) ou de máquina (alemãs), as coisas todas do dia a dia só eram boas, como de fato eram, se fossem estrangeiras. Os produtos alemães gozavam naqueles anos 40 de um prestígio especial. A marca Solingen, de tesouras e outros artefatos de metal, era conhecida do mais remoto homem da área rural. Aos brasileiros, na época, era permitida uma autoconfiança na qualidade da sua produção agrícola e das matérias-primas em geral que eram exportadas para os países industrializados.
No campo da produção cultural, as coisas se passavam mais ou menos do mesmo modo. Apesar do movimento vigoroso, mas incipiente (como incipiente a indústria de manufatura), no sentido de se imprimir um caráter próprio ao que fazíamos, continuávamos importando ou copiando o que era feito lá fora, sobretudo na França. Os brasileiros, além de confiarem no seu futebol, podiam se sentir seguros da sua música popular, do seu Carnaval exuberante, quando as escolas de samba, compostas no grosso por pretos, com passistas e requebros admiráveis, rendiam inclusive homenagem à aristocracia, desfilando nas ruas com fantasias de reis e rainhas.
Podiam acreditar também na excelência de um samba que tematizasse a beleza da “mulata”, as crenças afro-brasileiras, ou a miséria descarnada das favelas, realidades fascinantes sobretudo para estrangeiros à procura de manifestações “exóticas”, no caso cuidadosamente patrocinadas pela classe dominante nacional.
Manufaturados ou cultura, preferíamos então quase tudo que viesse de fora, do estrangeiro, da Europa. E o reverso dessas preferências não era só o desprezo pelo que produzíamos aqui, o reverso era também grande desrespeito por nós mesmos: éramos um povo indolente, lasso de costumes, de pouca inventividade, e outras pechas que maliciosamente nos atribuíam e que aceitávamos em decorrência de uma mitologia racial e de uma mitologia dos trópicos. Aquelas preferências confirmavam pois essas mitologias concebidas por europeus e introduzidas aos poucos entre nós, desde os primórdios pela catequese dos colonizadores e, depois, pela mediação da classe dominante brasileira, que se fazia educar na metrópole. Tanto que ainda hoje, quando alguma cidade do Sul do país se cobre de branco, em um desses raros dias de frio intenso, o orgulho nacional sobe uns graus em certos corações, desaparecendo com a mesma rapidez com que a neve se funde. Com a mesma exorbitância em relação ao clima, ou à etnia, passava-se conclusivamente na época da qualidade do produto para a avaliação do homem: bom era o produto importado, bom era o homem estrangeiro (europeu); ruim era o produto nacional, ruim era o próprio brasileiro. Interpretávamos corretamente então o papel que nos destinavam no contexto internacional. Com sua indústria tosca, o Brasil, em cada cidade ou vila, respondia eloquentemente a certa concepção racial, sentindo-se inferior. Mesmo porque o Brasil, ao mesmo tempo branco, negro e indígena, mas sobretudo pardo, não podia atender aos discutíveis padrões somáticos dos povos brancos supostamente superiores. É claro que, revigorados nas suas tradições racistas, ou então contaminados pela ideologia racial em voga, muitos brasileiros brancos deveriam ora sofrer a nostalgia de uma geografia perdida ora afagar no íntimo (embora nem sempre tão discretamente) suas origens europeias. Mas isso já é uma outra história.

Naqueles anos 40, o mundo estava sendo sacudido, os velhos impérios se desmoronando, novos polos de poder emergindo, novos impérios se esboçando, mas para nós prevalecia a estrutura de costume: o centro do mundo era a Europa (Paris o seu umbigo), o Brasil era parte da periferia, devendo ter os olhos submissos sempre voltados para a matriz. Matriz ao mesmo tempo única e polivalente, qualquer coisa assim beirando uma entidade atemporal, com nada antes, nem depois.

Apesar das mudanças ocorridas no pós-guerra, fossem as transformações no plano interno brasileiro, sobretudo a implantação de um parque industrial, fundamentado numa siderurgia própria e na transferência de técnicas devidamente acompanhadas de capitais estrangeiros altamente recicláveis; fosse o deslocamento dos polos de poder no plano internacional (URSS e EUA, mesmo com suas características e idiossincrasias culturais, seriam percebidos como prolongamento e desdobramento europeus, respectivamente); fossem enfim as transformações ocorridas na própria Europa (perda de hegemonia, situação política um tanto a reboque, “modernização” do seu velho colonialismo através das multinacionais etc.), o prestígio europeu ainda é enorme. Seja pelo seu acervo cultural, mais respeitado talvez que qualquer outro, ou pela sua matreirice política, capaz de lhe emprestar uns ares de autonomia e maturidade, a Europa desenvolvida de hoje continua como um dos referenciais do nosso “atraso”. Ainda recentemente, o humorista brasileiro Henfil, relatando uma viagem de volta, afirmou que saiu da Europa em 1980 e chegou ao Brasil em 1935.

A distância é sem dúvida grande, provavelmente até maior que a sugerida, desde que não se questione a noção de “progresso”, e que se aceite candidamente a Europa como referência, daí que o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, aludindo ao potencial destruidor da tecnologia, afirmou: “Isso não é civilização, francamente; isso é uma porcaria”.

Seja como for, nossas atitudes mudaram ou continuaram mudando nessas quatro décadas. No Brasil tropical, é maior hoje o número de brasileiros que não levam a sério o preconceito quanto ao clima como fator impeditivo de realizações, pelo contrário. O Egito antigo, também tropical, construiu — da perspectiva europeia — uma “grande civilização”. E, note-se, o povo egípcio da Antiguidade não era branco, uma informação que nos foi sonegada pelos manuais escolares. Aliás, é maior hoje, no Brasil multirracial, o número de brasileiros que não se sentem inferiores com sua cor ou com sua mestiçagem, vislumbrando-se na miscigenação uma das nossas melhores contribuições. Sabemos que os europeus, quanto à etnia, são também formados por grupos híbridos, como certas espigas de milho; como de resto foram híbridos todos os grupos humanos das chamadas “grandes civilizações” anteriores. Inclusive a cultura europeia, impregnada de judaísmo e cristianismo, não é mais que o desenvolvimento de uma complexa mistura de elementos provenientes de várias fontes, ou seja, ideias de outras geografias migraram para lá como a migração das andorinhas. Se a imagem é muito lírica, não abarcando ideias inquietantes, digamos que houve também por muitos séculos uma dispersão de vespas em plagas europeias. É bom lembrar que o sucesso europeu, sobretudo nórdico, que não se confunde com as civilizações mediterrâneas da Antiguidade (a Grécia antiga tinha vínculos inclusive com culturas orientais), é fenômeno recente. Na Idade Média, que a ótica dos historiadores ocidentais insiste — com tanto mouro pela frente — em só ver uma idade de trevas, os nórdicos, hoje mencionados como protótipo de “civilizados”, eram povos que estavam se iniciando na história dos vencedores.
Nossas atitudes continuam mudando, embora essas mudanças não possam ser generalizadas, longe disso. O consumidor comum, que não faz turismo no exterior, se é que alguma vez faz pelo Brasil, não costuma pensar em produtos importados e adquire sem relutância o que é fabricado atualmente no país. E cada vez mais cidadãos brasileiros vão introduzindo componentes sociais e políticos nos critérios de avaliação do que é produzido aqui, em geral de qualidade inferior ao similar de lá fora, mesmo quando a marca é multinacional, e é quase sempre. Compreendemos cada vez mais essas diferenças de qualidade, e concluímos cada vez menos nossa suposta inferioridade humana, excluídas as elites brancas. Suspeita-se também cada vez mais que o florescimento cultural de uma nação — respeitado o seu próprio esforço — só acontece com o seu domínio sobre outros povos. É só virar a cabeça sobre o ombro e olhar para trás. Por sinal, a expressão civilized world, tão cara aos ingleses educados, e que inevitavelmente marca os discursos presidenciais americanos, tem muito a ver com sua atuação, não exatamente edificante, entre os povos da “periferia”. A esse propósito, muitos historiadores revelam uma irresistível vocação para o luxo ao exaltarem as realizações dos “grandes homens”, das “grandes civilizações”, sem passarem pelo “anonimato” e pela “periferia”. “Grandes em quê? Grandes por quê? Grandes em relação a quê?” questiona a pensadora brasileira Marilena Chaui. “Grandes e poderosos, isto é, os dominantes, cuja ‘grandeza’ depende sempre da exploração e dominação dos ‘pequenos’”, sem direito à História. Daí que o homem comum assim como os povos periféricos jamais tiveram seus nomes inscritos como vencedores. Entretanto, quando se entra em uma residência bem posta, é legítimo perguntar, diante do orgulho do dono da casa, onde estão os anônimos que assentaram os tijolos. Como seria legítimo perguntar, num giro pelos países desenvolvidos, onde estão os povos, humilhados e ofendidos, que concorreram para o seu brilho.
Dramatizando um pouco mais, mas nunca o suficiente, seria interessante inventariar o que propiciou os grandes surtos culturais, sempre percebidos como expressões maiores da inteligência e da sensibilidade. Quem levasse a cabo essa tarefa só haveria de ouvir gemidos.
Sem a menor dúvida, os colonizadores europeus poderiam realizar sua “tarefa histórica” sem maiores rodeios — a ferro e fogo — como efetivamente fizeram. Coube porém a intelectuais europeus, o que choca mas não surpreende, elaborar uma imagem dos povos que justificasse e legitimasse essa dominação, convertendo-a em “tarefa civilizatória”.
Já no século XVI, o reverendo pe. Sepúlveda justificava o Império Espanhol nas Américas, declarando que o estado de pecado dos nativos faria deles, por um lado, objetos de catequese e, por outro, “instrumentos dotados de voz” (nome dado por Aristóteles aos escravos). Depois do “bom selvagem” de Rousseau, houve o Sexta-Feira de Defoe, um nativo bem menor que o grande Robinson que “criou o mundo do nada”. Melhor que a teologia e o romance, a ciência europeia realizou o seu papel legitimador: além das teorias raciais que privilegiavam o homem branco, a sociologia alemã subestimou o homem dos trópicos ao trabalhar uma explicação sobre o desenvolvimento dos povos a partir das condições geográficas; a antropologia social francesa explicou a “mentalidade primitiva” como pré-lógica; e os pensadores liberais provaram, num passe de mágica, que o liberalismo era verdadeiro na Europa e falso nas colônias.
Para ficarmos bem perto dos nossos dias, não foram os psicólogos sociais americanos que demonstraram que os orientais — os vietnamitas, of course —, devido à grande densidade demográfica, não valorizam a vida, acham a morte algo banal, e desconhecem a dor por ela causada? É de se supor que essas ideias, e muitas outras, foram em parte concebidas pelo pietismo cristão dos europeus, em parte pelo humanismo renascentista, e em parte sob a luz do Iluminismo, cujo clarão permitiu aprimorar também a racionalidade do capitalismo. Sem se confundirem com vespas, menos ainda como andorinhas, aquelas ideias todas migraram até nós, desde os primórdios, como aves de mau agouro, mas sobretudo como aves de rapina. Quebraram o nosso moral, levando-nos a recusar nossas próprias potencialidades humanas, tornando-nos dóceis e servis diante da vontade do colonizador. Aliás, ainda hoje, apesar de mudanças de atitudes, brasileiros, inclusive letrados, continuam a interiorizar ideias colonialistas, não tão grosseiras quanto as ostensivamente racistas. “Este não é um país sério” repete-se com frequência de norte a sul, e quem sabe até com certa exorbitância semântica, o que De Gaulle disse por ocasião da “Guerra da Lagosta”, quando Brasil e França disputavam sobre a pesca em águas territoriais brasileiras.
Homem por excelência da “grandeur” (mereceu uma cama de tamanho especial quando visitou o Brasil), De Gaulle, além de uma envergadura de dois metros, e não obstante autêntico estadista, resvalou no piadismo: existiriam países sérios e países que não são sérios.
Seríamos contudo parciais se não reconhecêssemos que muitos dos antídotos contra a ideologia colonialista nos foram fornecidos por europeus. Nesse sentido, se antes falamos de um modo um tanto pejorativo em importação e cópia, seria agora o momento de falarmos — sem arremedos — em absorção do que interessaria à suposta comunidade brasileira e a que tem legitimamente “direito”, seja à reflexão, à pesquisa, ou às conquistas técnicas (já que certas opções não teriam retorno) realizadas na Europa. Afinal, descartáveis ou não, as ideias são universais, no sentido de que sua produção dependeu da “periferia”, dos “pequenos”, de onde o acervo cultural, pelo menos, não ser patrimônio só da “matriz”, dos “grandes”, pertencendo antes à corrente do esforço humano, marcado por tantos erros e alguns acertos, sempre comovente quando percebido no seu conjunto.
Como comovente seria uma esteira ladeada por catadeiras de café, procurando deitar fora os grãos estragados e só deixando passar os sadios, reabastecendo-se no seu curso para repor os grãos sadios que porventura se estragassem com o tempo. Importaria então fazer uma triagem escrupulosa da “cultura europeia” para não se incorrer no cochilo do autor de Os sertões, marco do pensamento voltado para a terra e o homem brasileiros.
Mesmo com claras intenções científicas, afirmando inclusive que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, Euclides da Cunha deixou passar um grão virulentamente contagioso ao endossar a inferioridade racial da mestiçagem, confundido talvez por seus predecessores que escreviam a história do Brasil (Varnhagen, em especial), assim como por seus contemporâneos da imprensa, em geral porta-vozes eficientes dos preconceitos europeus.

“Brasil, país do futuro.” Num país de 120 milhões de habitantes, a mesma minoria, que domina no plano interno o grosso da população, se empenharia em reproduzir no plano externo o modelo de dominação. Tentando dar existência àquela profecia dos anos 40, enunciada por Stefan Zweig, um europeu, profecia que veio crescendo no mesmo ritmo da industrialização do país, os últimos governos de exceção acabaram por transferir suas obsessões a um suposto Brasil que, nas suas fantasias precoces de menino, vinha se apresentando sem qualquer pudor ao mundo como “potência emergente”. E quem fala em “potência”, segundo o jargão dos moralistas, está pensando na obscenidade do poder, investido de autoridade. A maioria dominante, por sinal, dividida, na medida em que é ameaçada, entre a cooperação com o capital estrangeiro e o posicionamento nacionalista, não só adotou a ideologia do desenvolvimentismo (o país tem de crescer a qualquer custo, conforme a concepção do “Brasil Grande”), mas ao mesmo tempo começou a incomodar, no plano externo, alguns humildes vizinhos sul-americanos, tentando por outro lado atravessar ousadamente o Atlântico, de olho numa fatia da África, exportando em manufaturados quase o equivalente ao que exporta em matérias-primas, vislumbrando até, no incipiente comércio de armas, uma galinha de ovos de ouro, sem falar que ensaia, de lápis sobre a orelha, uma meia dúzia de multinacionais. Dizem que o “milagre” acabou, mas o que não acabou e nem vai acabar é o sonho de grandeza: haverá com certeza novas arrancadas. E depois, é tudo tão imprevisível que até uma surpresa apocalíptica, aí pelo meio da década, pode dar uma ajuda generosa aos imediatistas da grandeza nacional.
No campo da produção cultural, a autoconfiança aumentou muito nas últimas décadas, fundamentada em parte nas atividades intelectuais, que se esforçam intensamente em esboçar a fisionomia brasileira, procurando descolonizar-se mentalmente, insistindo em que devemos nos voltar para a nossa realidade, tentando afirmar com decisão nossa própria personalidade, no que vêm conseguindo resultados realmente consideráveis. Mas, a longo prazo, tudo no fim converge, não importam os motivos: em meio à miséria de hoje, essas mesmas atividades, sobretudo as artísticas, mal suspeitam que já podem estar modelando a máscara de futuros homens arrogantes.

O pecado original. Pensando nas atuais hegemonias, ou nas futuras, e em como foram, são, ou serão transitórias tantas hegemonias ao longo da História (afinal, o que é um século, o que é um milênio, o que é qualquer medida como segmento de tempo?), somos remetidos para as inevitáveis relações de poder, sempre investidas de autoritarismo.
Supondo-se que todo homem seja portador de uma exigência ética, não há como estar de acordo com a dominação de uns sobre outros. Penso, como muitos, que seja possível imaginar caminhos diferentes para as relações entre indivíduos e entre povos, e penso mesmo que não existe nada mais belo e comovente do que perseguir utopias. Só que não seria fácil resistir à crença, como não se resiste a uma paixão, de que, em certo sentido, o homem é uma obra acabada, marcado não só pela sua experiência passada, mas marcado sobretudo — e definitivamente — pela sua dependência absoluta de valores, coluna vertebral de toda “ordem”, e encarnação por excelência das relações de poder. Incapaz de dispensá-los ao tentar organizar-se, é este o seu estigma; sempre às voltas com valores, vive aí sua grande aventura, mas também sua prisão. Pode ao reorganizar-se arrefecer desequilíbrios entre dominadores e dominados, pode inclusive subverter a “ordem” estabelecida, mas estaria sempre reproduzindo a estrutura de poder.
Se é assim, é também mais ou menos óbvio que, entre os dominados, só os tolos se comprometem com a “ordem” que os subjuga. Aos lúcidos, como sugeriu um pensador do século passado, tudo seria permitido.

Raduan Nassar, in Obra Completa