25/05/2024

Jacob Collier, John Legend & Tori Kelly | Bridge Over Troubled Water

A voz no que sonha

Eunápio narrou com muita imaginação uma suposta vida de Jâmblico de Caleis (c. 250-c. 325). Sabemos que foi discípulo de Porfírio, que o distinguiu; sabemos que foi mestre de neoplatonismo na Síria, onde juntamente com ele estudaram Teodoro de Asine, Dessipo, Sópatro, Eufrásio, Edésio, Eustácio. Sua obra fundamental foi um vasto comentário sobre a doutrina pitagórica, em dez livros dos quais conservamos cinco. Em sua minuciosa Biblioteca, Focio informa sobre a estranha derivação que Jâmblico imprimiu ao neoplatonismo: munido de traduções caldeias, inclinou-se para uma salvação através dos ritos, propugnou um misticismo mágico e enredou a salvação das almas em uma suspeitosa subestimação da sabedoria. Propôs-se a encabeçar uma forte reação místico-mágica contra a difusão do cristianismo, e chamou-se a si mesmo de “Novo Asclépio”. De seus sonhos de redenção, nada ficou de pé; porém em De mysteriis aegiptorum (se é que esta obra verdadeiramente lhe pertence) observou que no homem ocorrem os sonhos “divinos” em um estado intermediário entre o sono e a vigília, e que é por isso que se pode ouvir a voz de quem sonha: essa voz que se torna misteriosa (que se distorce), como estranhas se tornam as imagens percebidas.

Rodericus Bartius, Los que son números y los que no lo son, in Livro de Sonhos, de Jorge Luís Borges

O Realismo de Theo van Rysselberghe

Dario de Regoyos Tocando Guitarra (1882), de Theo van Rysselberghe

O prato de lentilhas

Numa destas minhas tábuas, falei há tempos de como nos assemelhávamos, os robôs e nós. Eles, com as suas inevitáveis conexões de sinais; nós com as nossas (inevitáveis) associações de ideias. Exemplo: sempre tive horror a lentilhas. Pelo seu gosto? Qual! Só por causa daquele malfadado texto bíblico…

Mário Quintana, in Caderno H

Parte IV | 5.


Acompanhei Leoazinha numa visita à Maternidade Jiabao, um consórcio sino-americano. Ela sempre quis um emprego lá, mas infelizmente nunca achou um jeito de conseguir.
Assim que entramos no saguão, senti que não parecia um hospital, mas sim um clube exclusivo de alto padrão. Apesar de estarmos em pleno verão, soprava ali um vento frio, a temperatura era agradável. Escutavam-se músicas de fundo, agradáveis e suaves, e pairava no ar o aroma de flores frescas. Na parede oposta à entrada, estava fixado o emblema azul-claro do hospital, e uma inscrição em cor-de-rosa que dizia: UM COMPROMISSO PARA A VIDA TODA, COM CONFIANÇA TOTAL. Duas moças bonitas, de jaleco e chapeuzinho brancos, atendiam os clientes, com sorriso amável e voz meiga.
Uma mulher de meia-idade, de jaleco e óculos brancos, aproximou-se e perguntou, cordial: “Em que posso ajudá-los?”.
“Nada, estamos só olhando”, respondi.
A mulher nos levou à área de espera no lado direito do saguão, onde havia poltronas de vime espaçosas e uma estante rústica cheia de revistas luxuosas sobre o tema materno-infantil. Na mesinha, havia livros ilustrados, com impressão caprichada, sobre o hospital.
A mulher trouxe dois copos de água gelada do bebedouro e nos deixou a sós, sempre sorridente.
Ao abrir um desses livros, vi a imagem de uma doutora de meia-idade, com a testa brilhante, sobrancelhas compridas e delicadas, olhar gentil, um par de óculos sem armação sobre o nariz, dentes brancos e ordenados e um sorriso lindo. Levava no peito um crachá com foto. Sobre seu ombro esquerdo, lia-se: “A Maternidade Sino-Americana Jiabao é um novo modelo de estabelecimento que atende suas demandas. Aqui não há a sensação de frieza, mas um ambiente aconchegante, harmonioso, sincero e familiar, onde você vai vivenciar um serviço verdadeiramente digno da nobreza…”. Sobre seu ombro direito, lia-se: “Observamos rigorosamente a Declaração de Genebra da Associação Médica Mundial de 1948 — exercer nossa profissão com consciência e dignidade; fazer da saúde dos pacientes nossa primeira preocupação; respeitar os segredos a nós confiados; manter, por todos os meios ao nosso alcance, a honra e as nobres tradições da profissão médica…”.
Olhei discretamente para Leoazinha e vi que ela folheava o livro do hospital e franzia com força as sobrancelhas.
Virei a página e vi uma obstetra de ar solene e confiável medindo com fita métrica a barriga saliente e lisa de uma gestante. A paciente tem cílios longos, nariz afilado, charmosos lábios carnudos, rosto corado, sem nenhum traço da fadiga ou da palidez das grávidas. Uma linha de texto atravessa o braço da médica e se estende sobre a barriga da paciente: “Mantemos o mais elevado respeito pela vida humana desde o momento da concepção”.
Um homem de estatura mediana, cabelos ralos e roupas esportivas de grife entrou no saguão com passos apressados. Pela expressão autoconfiante e a barriga um pouco proeminente, percebi tratar-se de um homem importante, se não fosse um alto funcionário, devia ser milionário. Evidentemente também podia ser um alto funcionário milionário. Com o braço esquerdo, enlaçava suavemente uma jovem alta e elegante, cuja cintura delicada balançava dentro de um gracioso vestido de seda amarelo-claro. Meu coração palpitou, porque reconheci que era Jovem Bi, a multitalentosa funcionária administrativa que Yuan Bochecha e meu primo contrataram para o ranário. Baixei minha cabeça às pressas e cobri mais da metade do rosto com o livro na mão.
Virei outra página, no canto inferior direito, sob uma linda barriga bojuda, havia cinco bebês nus sentados em fileira. Todos inclinavam a cabeça para a esquerda, como se alguém chamasse sua atenção naquela direção. As cabeças redondinhas, as bochechas rechonchudas, formavam um arco adorável. Embora não desse para ver suas expressões, aquele arco lembrava um sorriso inocente. Dos seus cabelos, três eram mais ralos, dois mais densos, dois pretos, um louro, outros dois castanho-claros. Todos tinham orelhas grandes, sinal de boa sorte. O bebê que consegue ter sua foto impressa nesse material deve ser muito afortunado. Aparentam ter cinco meses, mal conseguem ficar sentados, ainda não encontram uma boa posição, curvam a cintura. Todos são gordinhos como leitõezinhos roliços, na fresta de seus braços dá para ver a barriguinha rotunda. Os bumbuns ficaram espremidos e achatados, é graciosa a dobra entre as duas nádegas. No espaço à esquerda deles, um parágrafo de uma dúzia de linhas dizia: “Nosso serviço de obstetrícia, centrado na família, valoriza a comunicação entre gestantes ou parturientes e a equipe médica de alto nível, além de enfatizar a educação médica das pacientes”.
Aquele homem e Jovem Bi conversaram brevemente com uma atendente na recepção e foram conduzidos por uma moça elegante até o lado esquerdo do saguão. Era a área de espera reservada a VIPs, com um conjunto de sofás de espaldar alto, vermelho-tijolo. Na mesinha da frente havia um vaso com rosas cor de vinho. Mal se sentaram, o homem deu um espirro que quase me fez pular da poltrona. Esse espirro, afetado mas com um toque pessoal, parecia a explosão de um detonador, que ativou minha memória. Será que é ele?
“Conforme a fase de gravidez, médicos conduzirão conversas detalhadas com a paciente e sua família sobre as condições da mãe e do feto, a nutrição e os exercícios da gestante, entre outros temas.”
Queria muito comunicar minha descoberta a Leoazinha, mas ela folheava o livro com impaciência e resmungava: “E ainda chamam isso de hospital… Quem é que pode se dar ao luxo de ficar num hospital desses?…”. Ela estava de costas para o homem e Jovem Bi, completamente alheia a sua presença.
Talvez achando que o lugar chamava muita atenção, ele se levantou, pegou o braço de Jovem Bi e foi com ela em direção à cafeteria localizada no fundo do saguão. Uma divisória simples a separava do resto da sala, com alguns vasos de costelas-de-adão verdejantes e um frondoso fícus que quase encostava no teto. As paredes internas eram forradas de papel que imitava tijolos vermelhos, havia uma lareira. Na parede atrás do bar, nichos quadriculados cheios de bebidas finas. Um rapaz bonito, de gravata-borboleta preta, preparava o café. O aroma de grãos de alta qualidade, misturado à fragrância das flores, chegou até nós trazendo bafejos de sofisticação.
“Além disso, o hospital oferece uma simulação de parto no terceiro trimestre de gestação, nossos médicos e enfermeiros, conforme suas condições físicas, elaborarão com você um plano de parto, e um curso para a futura mãe, tudo isso visa reforçar os detalhes de comunicação, proporcionando à gestante e à parturiente oportunidades de expressar plenamente suas demandas, preocupações e dúvidas…”
Sentado ali, com uma xícara de café na mão, ele conversava cordialmente com Jovem Bi. Era ele, era ele mesmo! Uma pessoa até poderia modificar seu tom de voz, mas jamais o som espontâneo de um espirro. Uma pessoa bem que poderia fazer plástica para aumentar as dobrinhas na pálpebra, mas cirurgia nenhuma, por melhor que seja, mudará seu jeito de olhar. A uma distância de vinte metros de mim, ali estava ele conversando e rindo distraído, sem imaginar que um amigo de infância o observava. E assim, aquele Xiao Lábio Inferior, sem dobrinha na pálpebra, cruel e impiedoso, aos poucos transparecia no corpo daquele homem rico.
“Sem chance!” Leoazinha jogou o folheto na mesinha, recostou-se na poltrona e disse com frustração: “Todos têm doutorado nos Estados Unidos, mestrado na França, lecionam em faculdades de medicina… A melhor equipe médica do país… Eu, aqui, só serviria para lavar privada…”.
Embora fôssemos conterrâneos, embora tivéssemos morado em Pequim por longo tempo, nunca o tinha visto antes. Ainda me lembro que, quando ele se formou na universidade, o pai dele saiu às ruas gritando: “O meu filho vai trabalhar no Conselho de Estado!”. Mais tarde ouvi dizer que, depois de alguns anos naquele órgão, ele virou assessor de um ministro. Em algum momento ele foi despachado como secretário adjunto do Partido para não sei onde e, por fim, dizem que se tornou empresário, trabalhava com desenvolvimento imobiliário e ficou rico, tinha bilhões na conta…
A mesma moça elegante que os havia conduzido foi encontrá-los e levou-os para o fundo do saguão. Fechei o livro e vi na contracapa as mãos de uma médica e de uma paciente carinhosamente sobrepostas na barriga saliente. O texto acima da foto dizia: “Consideramos a gestante e seu bebê membros de nossa própria família, fazemos nosso serviço com extrema atenção a cada detalhe. Nesta casa você vai experimentar o ambiente mais aconchegante, usufruir da mais zelosa atenção e dos melhores cuidados”.
Saímos do hospital e Leoazinha, angustiada, maldizia sem parar as modernidades através de pontos de vista anacrônicos, repletos de conotações políticas. Como eu tinha outra coisa em mente, não quis dizer nada. Mas a ladainha ainda iria longe e já estava difícil de aguentar, daí intervim: “Tudo bem, minha senhora, pare de azedar as uvas!”.
Por incrível que pareça, ela não ficou chateada. Só deu um sorriso amarelo: “Uma médica caipira como eu só serve para criar rãs na empresa de Yuan Bochecha”.
“Voltamos para cá a fim de curtir a aposentadoria, não para trabalhar”, lembrei.
“Mas precisamos achar uma ocupação. E se eu trabalhar de babá de recém-nascidos?”
“Pare com isso. Sabe quem eu vi agora há pouco?”
“Quem?”
“Xiao Lábio Inferior, agora conhecido como Xiao Verão-Primavera. Ele fez plástica, mas consegui reconhecê-lo assim mesmo.”
“Não é possível! Agora que está rico, por que voltaria para cá? Será que você não se enganou?”
“Meus olhos até poderiam se enganar, mas meu ouvido não. Aquele espirro dele, ninguém no mundo consegue fazer igual. Além do mais, seu jeito de olhar e de rir não mudou nada.”
“Quem sabe ele voltou para investir? Dizem que o distrito pode ser integrado ao município de Qingdao, se isso for verdade, o preço da terra e dos imóveis vai disparar!”
“Mas sabe quem estava com ele?”, perguntei.
“Como vou saber?”
“Era Jovem Bi.”
“Quem?”
“Jovem Bi, a moça que trabalha no ranário de Bochecha.”
“Oh, assim que botei os olhos nela sabia que era uma vadia! Deve ter alguma sujeira entre essa moça, seu primo e Yuan Bochecha.”

Mo Yan, in As rãs

Erasmo Carlos e Chico Buarque | Olha

abaixo o além

de dia
céu com nuvens
ou céu sem
de noite
não tendo nuvens
estrela
sempre tem

quem me dera
um céu vazio
azul isento
de sentimento
e de cio

isso sim me assombra e deslumbra
como é que o som penetra na sombra
e a pena sai da penumbra?

A morte, a gente comemora.
No meu peito, cai a Roma,
que, caída embora,
nenhum bárbaro doma.

As romãs que assim tivermos
e os esplendores da pessoa,
a impropriedade dos termos,
a quem doer, doa.

Paulo Leminski, in Toda Poesia

A Contadora de Filmes | [20]


Foi na Écran que eu descobri que a maioria dos atores e atrizes famosos usavam nomes fictícios, porque os deles, os reais, eram tão feios como o meu. Ou até mais. Como exemplo dos exemplos havia Pola Negri, a grande diva do cinema mudo. Eu sempre havia gostado muito do seu nome, achava que era perfeito para uma atriz. Mas um belo dia descobri com horror que era pseudônimo, e que seu verdadeiro nome era Apolônia Chavulez. Não podia ser verdade, me disse consternada. Com aquele nome a coitadinha não teria graça nem piscando as pestanas.
Meu outro desencanto foi quando soube que Anthony Quinn, um de meus atores favoritos, na verdade se chamava Antonio Quiñones.
Que jeito de perder o glamour!
Alguém depois me disse que os artistas de todos os ramos usavam pseudônimos.
Que além dos poetas como Pablo Neruda (Neftalí Reyes) e Gabriela Mistral (de nome Lucila Godoy), até os cantores usavam. Principalmente todos esses cantores da “nova onda”, como eram chamados, e que começavam a ser ouvidos a cada instante em cada uma das emissoras do país.
E como exemplo, me deram três joias:
Um sujeito que se chamava Patrício Núñez se batizou como Pat Henry; Pat Henry e seus Diabos Azuis. Outro, um tal de Javier Astudillo Zapata, passou a se chamar Danny Chilean. E uma colegial, Gladis Lycavecchi, se converteu numa grande estrela da canção e das fotonovelas com o artístico nome de Sussy Veccky.
Foi assim que, para não ficar por baixo, comecei a procurar meu pseudônimo artístico. Depois de muito pensar, inventar e compor nomes – alguns tirados da revista Écran, outros do santoral do calendário e até de uma velha Bíblia que havia em casa, única herança do meu avô paterno –, nenhum me convencia. Até que uma tarde ouvi a vizinha ilustrada da viela falando com meu pai:
“Sua filha é uma fada contando filmes, vizinho, e sua varinha mágica é a palavra. Com ela, nos transporta.”
Então, tive a ideia. Acendeu a luz do sótão, como dizia meu irmão maior. Eu ia me chamar Fada Docine.
Fada Docine.
Repeti o nome várias vezes e achei que soava bem; deixava inclusive um sabor afrancesado na boca.
E o melhor é que não tinha nenhum eme.

Hernán Rivera Letelier, in A Contadora de Filmes

Piratas do Tietê, de Laerte

Capítulo 140 | Que Explica o Anterior

Há coisas que melhor se dizem calando; tal é a matéria do capítulo anterior. Podem entendê-lo os ambiciosos malogrados. Se a paixão do poder é a mais forte de todas, como alguns inculcam, imaginem o desespero, a dor, o abatimento do dia em que perdi a cadeira da Câmara dos Deputados. Iam-se-me as esperanças todas; terminava a carreira política. E notem que o Quincas Borba, por induções filosóficas que fez, achou que a minha ambição não era a paixão verdadeira do poder, mas um capricho, um desejo de folgar. Na opinião dele, este sentimento, não sendo mais profundo que o outro, amofina muito mais, porque orça pelo amor que as mulheres têm às rendas e toucados. Um Cromwell ou um Bonaparte, acrescentava ele, por isso mesmo que os queima a paixão do poder, lá chegam à fina força ou pela escada da direita, ou pela da esquerda. Não era assim o meu sentimento; este, não tendo em si a mesma força, não tem a mesma certeza do resultado; e dai a maior aflição, o maior desencanto, a maior tristeza. O meu sentimento, segundo o Humanitismo...
– Vai para o diabo com o teu Humanitismo, interrompi-o; estou farto de filosofias que me não levam a coisa nenhuma.
A dureza da interrupção, tratando-se de tamanho filósofo, equivalia a um descaso; mas ele próprio desculpou a irritação com que lhe falei. Trouxeram-nos café; era uma hora da tarde, estávamos na minha sala de estudo, uma bela sala, que dava para o fundo da chácara, bons livros, objetos d'arte, um Voltaire entre eles, um Voltaire de bronze, que nessa ocasião parecia acentuar o risinho de sarcasmo, com que me olhava, o ladrão; cadeiras excelentes; fora, o sol, um grande sol, que o Quincas Borba, não sei se por chalaça ou poesia, chamou um dos ministros da natureza; corria um vento fresco, o céu estava nitidamente azul. De cada janela, – eram três – pendia uma gaiola com pássaros, que chilreavam as suas óperas rústicas. Tudo tinha a aparência de uma conspiração das coisas contra o homem; e, conquanto eu estivesse na minha sala, olhando para a minha chácara, sentado na minha cadeira, ouvindo meus pássaros ao pé dos meus livros, alumiado pelo meu sol, não chegava a curar-me das saudades daquela outra cadeira, que não era minha.

Machado de Assis, in Memórias Póstumas de Brás Cubas

O japonês dos olhos redondos




Meu amigo e informante almoça comigo aos domingos em minha casa. Ele é desquitado, não tem filhos, eu, um solteirão. Ele vive de rendas, poucas, eu sou tradutor, tenho algumas economias além da casa própria. Nada nos aflige em particular; nem a velhice um dia — já passamos os quarenta, somos contemporâneos, a data exata de nosso nascimento vai mais por conta da imaginação do que dos fatos; com isso mostro-me francamente otimista, não acho que estamos nos saindo assim tão mal; fazemos o nosso cooper na pista do parque Ibirapuera nas manhãs de domingo e depois do chuveiro nos premiamos com um bom almoço comprado no restaurante da rua de trás; a que sai da avenida larga, aquela avenida extensa onde um dia existiu apenas o leito para as águas sujas do córrego do Sapateiro. Digo que meu amigo além de amigo é informante porque é ele que aos domingos reapresenta o mundo e as coisas para mim. Não que eu não tenha ideias. Como não? E muitas! Mas ele, por assim dizer, é quem anuncia primeiro, ele que primeiro assinala, descreve, interpreta. Eu me resguardo. Quase sempre me calo. Mas quando a discordância é muita, respondo. Em suma: ele que me informa verdadeiramente sobre as coisas, eu simplesmente reajo. O que tenho e o que sei são em princípio para o meu uso. Deixo que as impressões se acumulem, deixo que desçam fundo e formem um depósito. É o meu amigo que faz nascer, por oposição, o meu mundo desse depósito, tudo: uma espécie de vórtice ao contrário que se pusesse em movimento por efeito de alguma palavra sua e, em margens circulares cada vez mais amplas, fosse largando sucessivamente: minha casa, o bairro, suas ruas, enfim as ideias, as cidades, fortificações concêntricas, perfeitamente estruturadas que ninguém diria pudessem brotar da natureza até certo ponto amorfa como vem a ser a dos depósitos. Sendo esse o caso, eu dependendo da sua informação para colocar a minha, tenho-me na conta e acertadamente, de seu contra-informante. Não deve causar espécie a ideia de eu procurar definir nossas manifestações recíprocas de amizade como atos de informação e contra-informação. Afinal somos, como todos em quem esbarramos andando por aí mais ou menos de pé, os transeuntes da contra-revolução de 64 (que meu amigo insiste em chamar de revolução).
Veios desgarrados e insubmissos do córrego do Sapateiro ou de algum outro que eu nunca soube, fizeram — ajudados pelos aguaceiros de verão — o seu trabalho de sapa no subsolo do meu terreno. Metade do muro da frente desabou. Contratei dois pedreiros que amanhã tornam a erguê-lo, talvez mova um processo contra a Prefeitura por perdas e danos, mas hoje: Uma paisagem nova abre-se para mim e meu amigo. Defronte, a casa do tintureiro torna-se próxima e animada. O tintureiro, coisa que nunca me ocorreu, também não trabalha ao domingos. Anda de lá para cá na sua propriedade, ergue-se, senta-se, almoça, cuida da sua cerca-viva de azaleias. Sorri, cumprimenta:
— Meu amigo, duríssimo e preciso, informa-me no ato: — Dissimulado como todos os japoneses. Reparou no sorriso?
Calo-me como é de meu feitio.
— Reparou no sorriso?
De início acho mais prudente responder-lhe com outra pergunta para ver se o distraio das vertentes sem volta onde usualmente sua retórica imbatível o lança. Arrisco:
— Que sorriso?
— Pergunta estapafúrdia! E grosseira se me permite a franqueza! De quem havia de ser o sorriso? O seu? Não gastaria um perdigoto para descrevê-lo! O do muro caído? Sorriem os muros por acaso? E ainda que assim fosse, teria esse muro em especial, razões particulares para sorrir?
Permaneço razoavelmente calmo. Mastigo minha lasanha, bebo um gole do tinto, brinco com o guardanapo. Ouso mesmo a barbaridade do lugar-comum:
— Parece que vai chover.
Meu informante lambe o dedo indicador e o espeta para fora da janela na mornidão do dia para ver de que lado vem o vento; não vem de nenhum. Na casa defronte observa-o o vizinho tintureiro, o sorriso aumenta, quase um riso. Meu amigo recolhe o dedo sobressaltado; volta à carga:
— Você tem ainda o desplante de me perguntar que sorriso?
Faz calor na sala, acho-me antecipadamente cansado e concedo: — Suponho que queira se referir ao tintureiro meu vizinho, não? — Japonês!
Sinto-me no direito de manifestar meu espanto jogando o guardanapo com força sobre a mesa. Meu amigo o ignora e volta à carga: — Reparou no sorriso? Se não reparou há pouco tem oportunidade agora pois o dissimulado continua de boca aberta!
Apesar de ser impossível ao vizinho pegar o conteúdo das palavras de meu informante, eu, como forma de compensação, cumprimento-o várias vezes, aceno-lhe, agito aflitivamente o guardanapo como se fosse uma bandeirinha de sinaleiro.
— Vai em frente, vai em frente — provoca meu amigo. — Só falta você se jogar pela janela e ir lhe lamber os pés! Inocente útil! E se fosse um espião?
— Um espião!? — Confundo-me, interrompo-me, vejo que me deixei apanhar numa armadilha. É preciso voltar atrás. Retomar o fio. Afasto o copo de vinho, procuro ficar lúcido como um filamento aceso, falo escandindo as sílabas:
— Meu caro, o que o leva a supor que estamos diante de um tintureiro japonês?
Meu amigo e informante responde limpidament , os olhos postos no outro lado da rua: — Reparou na natureza do sorriso?
— Muito franco, muito aberto, se quer saber. Particularmente amigável. — Perfeitamente, aí reside a completa dissimulação; aí também começa a pista. Meu Deus, meu Deus! Você é mesmo um simples de coração! Um sorriso dissimulado que se mostrasse francamente dissimulado, o seria? hein? Sua lógica perfeita mantém minha boca fechada.
— Um sorriso dissimuladamente franco, por sua vez, teria alguma coisa a ver com esse caso? Não, claro, porque um sorriso dessa espécie nada mais é que o de um caráter franco que por pudor se oculta, disfarça por timidez suas manifestações mais sinceras, está me seguindo? Aprovo com a cabeça e tomo mais vinho.
— Agora, o que me diz de um sorriso francamente franco? Hum? Aliso a toalha da mesa e me permito regurgitar de forma audível para mostrar que não apenas estou na minha casa como estou muito à vontade na minha casa. Mas meu amigo encontra-se surdo para tudo que não diga respeito à sua cerrada argumentação; continua:
— É na manifestação absoluta de franqueza, no sorriso inteiramente aberto sem qualquer hesitação que igualmente se manifesta a máxima dissimulação é lógico!
Sendo assim, irritado no limite da cólera eu o interrompo:
— Muito bem! E aonde está querendo chegar?
Meu amigo pede calma; repete a lasanha, está seguro como em raros domingos eu o vi e particularmente satisfeito:
— Meu caro, não estou querendo chegar porque já cheguei. O sorriso perfeitamente franco desse seu vizinho tintureiro naturalmente não faz mais do que exprimir a capacidade para a perfeita dissimulação, própria da raça!
— Que raça?
— Recomeçamos como no caso do sorriso? Que raça, que raça!
— Amarela, amarela! Japonesa, japonesa! Preciso ficar aqui repetindo como um disco quebrado? Amarela! Amarela! Japonesa! Japonesa!
Respiro fundo, enxugo o suor da testa com a ponta do guardanapo, um gesto que reconheço desagradável e que nunca pensei fazer diante de terceiros. Meu amigo desvia os olhos de mim com uma ponta de repugnância em uma dessas manifestações espontâneas de rejeição pelo outro que mesmo a maior amizade não consegue sempre ocultar. Pergunto, novamente destacando as sílabas:
— O que o leva a supor que tenha diante dos olhos, ali defronte, um cidadão japonês?
— Ora, ora! Não bastasse o sorriso, a profissão!
— E por que os tintureiros teriam que ser necessariamente japoneses? — Meu caro, não necessariamente. Mas veja, sem querer chamá-lo de ignorante, suponho que você conheça algo sobre imigração japonesa, as diversas profissões ocupadas no Estado de S. Paulo no meio urbano depois que os descendentes dos primeiros japoneses, deixando a lavoura...
— Basta!
— Pois bem, basta. Não pensei em ofendê-lo. Mas quando se junta a essa característica ocupacional típica, outra característica também típica, étnica ou cultural, como queira, o sorriso dissimulado, o que mais precisa para formar um juízo?
Sinto que a minha jugular lateja. Nunca pensei até o dia de hoje na minha jugular, nunca pensei em nomeá-la, tenho até dúvidas se é a jugular mesmo, mas algo no meu pescoço pula de forma insistente como se fosse a qualquer momento escapar do estojo da pele, minhas palavras se atropelam, afasto o copo de vinho, digo respirando fundo:
— Se outros sinais não lhe foram suficientes, tenho o prazer aqui agora de lhe afirmar que ali defronte acha-se um tintureiro brasileiro! Um tintureiro brasileiro, nem mais nem menos!
— Um nisei, quer você dizer?
— Não, não é um nisei o que eu quero dizer. Trata-se de um tintureiro brasileiro, brasileiro! Cujo pai porém, além de não ter sido um japonês, também não foi um português! Ou africano, ou italiano!
— Ah, ah, e como então se chama esse senhor “brasileiro”? — Meu amigo aspeia a palavra no ar com grande habilidade cênica.
— Marcus Czestochowska! não sei se pronuncio certo, o que não vem ao caso.
— E como vem! Divina Providência! Czestochowska, Kurosawa! O que quer mais?
— Como o que quero?
— Então, não conhece o diretor japonês de cinema, Akira Kurosawa? Não percebe que se trata de nomes gêmeos, com o mesmo peso sonoro, provindos do mesmo chão?
Estou farto e não o escondo:
— Não seja imbecil, é um nome polonês, aliás o nome de uma cidade da Polônia. Nunca ouviu falar de Matka Boska Czestochowska, analfabeto? É a Virgem Maria, é uma imagem da Virgem Maria que existe pendurada numa igreja em Czestochowska! Provavelmente a ideia de adotar o nome da cidade como nome de família vem de algum ascendente mais remoto que simples pais ou avós, arrastado, quem sabe, por irresistível surto de nacionalismo exaltado ou catolicismo triunfalista, que sei eu?
Meu amigo balança a cabeça penalizado por mim e por meu empenho. Não serão questiúnculas, ciscos como esses que o irão demover quando algo verdadeiramente grande se acha à sua frente. Não ele! Enumera em voz alta contando nos dedos:
— O sorriso, a profissão, a geminação sonora, três dados. Como não bastassem, o quarto e que arrasta e confirma os outros três: a ocultação da nacionalidade (com ou sem adulteração de documentos o que aqui é irrelevante). Oh, meu Deus, se fosse no tempo da guerra quando o Brasil declarou guerra ao Eixo eu simplesmente denunciaria e mandaria prender esse japonês!
Mas as suponho coloridas, são varejeiras, mil, as asas irisadas, batem na parte interna do crânio, as asas como mica ao sol, cintilam, fracionam-se em mil outras, enchem-se a cabeça de som, cascalho e loucura. Agarro-me aos fiapos de razão que sobram, procuro manter-me à tona, contra-argumento: — Espere que o homem se vire para nós, olhe, vem vindo para mexer de novo na cerca, aproveite agora que está bem de frente; observe: que cor tem o seu rost? é amarelo? pálido? negro? Meu informante retruca sem medo: — Rosado, não o nego. E não teria por quê. Ganho forças paulatinamente, continuo:
— Bem, agora preste muita atenção. E os seus olhos, serão oblíquos? amendoados? puxados? entrefechados?
Meu amigo dá um pequeno salto e sufoca um grito que me parece de exultação e que talvez pela proximidade do assunto me lembra muito o sinal de luta dos samurais como sempre vejo no cinema. Ele investe: — Era por aqui que você queria me pegar? Oh, meu Deus mas a que primarismo chegamos! Para você então o real é o imediatamente dado, suponho? Na sua idade! Não quero saber de conversa fiada; insisto: — Seus olhos, seus olhos, responda-me! — Com prazer, com muito prazer! Redondos, REDONDOS!
As moscas varejeiras retornam pelos ouvidos nas palavras de meu amigo, entram e dançam dentro da cabeça. Mas eu quase mecanicamente vou em frente: — A cor?
Meu amigo informa-me com a segurança e a alegria de um colorista nato:
— Azuis, azuis! Você duvida? Olhe lá em frente!
Do outro lado da rua, no jardim da casa oposta, os olhos de meu querido vizinho Marcus Czestochowska reluzem como dois faroletes celestes, cintilam em nossa direção curiosos. Já perceberam uma movimentação ativa demais para uma simples mesa de almoço. Meu amigo agora fará sua preleção final:
— Você talvez veja pouco televisão, talvez a julgue um divertimento menor, um veículo plebeu. É pena. Se a visse com regularidade como eu, talvez soubesse que durante muito tempo teve enorme sucesso aqui no país um seriado japonês, um desenho animado em episódios chamado “Taro Kid”. Pois bem, o herói desse seriado japonês tinha que tipo de olhos? Puxados, por acaso? Redondos, absolutamente redondos! Mesmo hoje se você ligar a televisão para ver desenho japonês não vai ver coisa diferente. Mas o “Taro Kid” é que chamou primeiro atenção para o fato, por isso eu cito. Se você além disso deixasse essa inércia, descolasse o traseiro aí de Vila Nova e fosse dar uma volta pela Liberdade, veria muitos outros desenhos japoneses onde os heróis sempre, com raríssimas exceções, têm os olhos? — Absolutamente redondos — respondo com um fio de voz.
— Você em sua cegueira dirá que isso acontece por motivos de aculturação, exportação, etc. etc. Invocará (pois passei a conhecê-lo bem de 64 para cá) mil fatores heterogêneos, indústria, capital, alteridade, interculturalidade, com a maior sem-cerimônia. E botará esse equipamento todo em cena, para quê? Para complicá-la. E tudo isso com que finalidade? Recusar mais uma vez teimosamente.
— A perfeita dissimulação!
— Própria da raça!
— Amarela! Mas meu amigo ainda não terminou:
— E a coisa não fica só ao nível da imagem cinematográfica, não senhor, irradia-se para o humano, lá chega, penetra a carne, o conteúdo mesmo dessa imagem de cinema! Você naturalmente (ou pelo menos assim espero) já leu alguma coisa sobre imigração japonesa nos Estados Unidos? — Não tive a oportunidade.
— É pena, é pena. Pois bem, informo-lhe; não irá perder a informação, não por mim. A coisa é a seguinte: mesmo sem nenhum casamento misto, sem nenhum fator de miscigenação, alguns traços físicos desses imigrantes começam a mudar, inicialmente constatou-se a alteração na altura média, devida provavelmente à alimentação diversa, ao clima etc. Agora ouça. Acho-me imóvel com a cabeça ligeiramente estendida para meu amigo de forma que o sol quente da tarde se abate sobre minhas orelhas, elas ardem fundo como duas línguas de fogo, duas labaredas apertando-me o crânio, para todos os efeitos sou mesmo “todo ouvidos”.
— Ouça —, insiste mais uma vez meu amigo, não satisfeito com minha docilidade acesa e visível. — Ouça, ouça que tudo é ganho. Você (e não se é cientista, mesmo de domingo aqui como eu, se não se tem muito de imaginação criadora, se não se lança um grão de audácia dentro do rigor lógico!), você já pensou a que níveis extensos de dissimulação, a apropriação e controle dessa possibilidade de modificação dos caracteres físicos pode chegar? A miscigenação, e que seria à primeira vista a dissimulação mais evidente, fácil e completa, é bem outra coisa, na verdade a nega e por isso deve ser posta de lado nessa ordem de raciocínio. Pois no caso da miscigenação, a desaparição de características raciais se irá dar não por sua ocultação — o que aqui nos interessa — mas pela sua “confusão”, pela sua “imersão” ou “solubilidade” em contato com outros genes, seria portanto na verdade a extinção da própria dissimulação, marca distintiva do biótipo em pauta (-e nessa altura meu informante faz uma pequena pausa, dá uma piscadela e aponta de forma significativa com o queixo, a casa defronte -). Já pensou como o controle e desenvolvimento dessa possibilidade de alteração física sem cruzamento vem a ser tão mais grave exatamente na medida em que ocorre por assim dizer, na superfície, permanece externa, manipula o fisionômico para fazê-lo funcionar como cortina de fumaça? Permita-me a veleidade agora de passar de cientista a poeta! Pense, ao pensar nessa espécie de disfarce, na natureza dissimulada dos biombos, dos gestos rituais para o preparo de um cachimbo de ópio (resvalei para os chineses, não importa), nas engenhosas silenciosas portas (ou paredes!) corrediças de papel de arroz (volto aos japoneses com sua arquitetura escancaradamente dissimulada) , em suma: pense em tudo isso e pense mais; pense em como irão funcionar essas possibilidades ainda em aberto: como uma máscara de infinitos recursos onde por trás se há de esconder sempre, em quaisquer circunstâncias... Completo porque não há mesmo outra coisa a fazer: — O japonês, o amarelo, o oriental.
— Isso — reforça satisfeito meu informante e encerra a preleção com uma exortação carinhosa:
— Assim, não se deixe perturbar pelo fato dos olhinhos de seu vizinho serem azuis, muito menos se abale com o fato de serem redondos! Indo por essa ordem de raciocínio, por que haveria de espantá-lo a circunstância de estarem tais olhos embutidos numa face rosada e provavelmente (daqui de longe não posso afirmar com segurança) pintalgada de sardas? e (veja que a nada temo, que nada evito em minha descrição), circundada por cabelos vermelhos encaracolados e, vou mais longe, vou mais longe, tudo isso sustentado por uma coluna vertebral e mais duas pernas que, somadas, totalizam um conjunto de pelo menos metro e noventa e lá vai pedrada? E se eu nada temo, por que iria você se perturbar? Siga o meu exemplo, olhe em frente, no sentido literal e figurado do termo porque ambos se ajustam à situação. Olhe em frente e fique alerta: alerta sim, mas para o significado oculto de tudo isso, a significação subjacente. Em suma, analise com isenção e livre de paixões esse curioso espaço que proveitosamente se abre à nossa frente para o nosso mútuo regozijo intelectual. Observe nele a rigorosa não-coincidência entre a imagem média do japonês comum e a rica e complicada configuração de variegadas cores que se movimenta para lá da cerca-viva de azaleias! E garanto que se você estiver descansado e livre de preconceito, se o tinto não lhe tiver subido à cabeça, saberá sem dúvida chegar à conclusão correta.
Uma pausa se dependura no ar parado como bicho preguiça. Migalhas de pão e salpicos de molho e vinho sujaram a toalha. Meu amigo e informante não teme a interrupção de nossa amizade. É antiga como o bairro, tem seus hábitos, seus desacordos que sempre voltam, alguns mais profundos e definitivos do que esse, como a estória da contra-revolução à qual meu parceiro de mesa sempre tira o aposto com a teatralidade de quem desembainha a espada e separa de golpe uma cabeça do tronco. Ele sem dúvida foi talhado para as situações absolutas e o que irá permanecer é a sua lógica de ferro, sua lógica fechada de algemas, perfeita como a circunferência do olho azul que distingo entre uma azaleia e outra, saltando espantado no puro amarelo do verão.
Disse que minha qualidade de contra-informante nascia e se desenvolvia a partir da informação, prestada pelo meu companheiro de almoço de domingo. Isso é verdade. Todavia não disse que ultrapassada a primeira fase, do diálogo audível, a outra desenvolve-se sempre resistente mas invisível. Minha contra-informação como o subsolo de meu terreno tem um tipo de porosidade que a permite se mover perpetuamente e mover aquilo que sustenta. O bairro, o município e o mundo, as fortificações em que me apóio vogam docemente, talvez não resistam, mas disso eu gosto. Isso é a razão. Isso é comigo. Me abro reflexivamente sem forças, cedo porque minha formação é como essa terra preta do bairro, não presta, não edificará cidades ou códigos. Não ficará.

Zulmira Ribeiro Tavares, in Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século

24/05/2024

Titãs | Insensível

O elefante

Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.

Carlos Drummond de Andrade, in A rosa do povo

Aturar os maus

Deuses são imortais, porém não se incomodam por precisarem tolerar por um longo período os homens como são, majoritariamente maus. Pelo contrário: cuidam deles de diferentes formas. Em contrapartida, você, destinado a perecer tão cedo, está cansado de aturar os maus mesmo sendo um deles?

Marco Aurélio, in Meditações

Isto não é

Meus heróis civilizadores

Não existe redenção para as grandes tragédias, mas a vingança sublime e a única forma de transcendência dos homens ao desmazelo da vida é transformar a má fortuna e a dor em beleza, civilização e arte. Os meus heróis civilizadores não frequentaram bibliotecas, não discutiram a alta filosofia nas academias e universidades, não escreveram tratados iluministas, não pintaram os quadros do Renascimento, não escreveram romances, não compuseram sinfonias, não conduziram exércitos em grandes guerras, não redigiram leis, não fundaram empresas, não elaboraram tratados e constituições e não planejaram monumentos, edifícios e pontes.
Os homens que me civilizaram chegaram às praias do meu país nos porões infectos dos tumbeiros e foram vendidos e marcados feito gado no mercado.
Eu fui civilizado pelo rufar dos tambores misteriosos, pelo toque de São Bento Grande no berimbau de cabaça, pela dança desafiadora do Obá dos Obás, pelo bailado da dona do afefé – sagrado vento – e pelo xaxará do senhor da varíola, a quem reverencio e peço a calma para não estranhar o mundo – Atotô!
Aprendi a olhar com admiração os homens ao conhecer os dribles de Mané, a ginga de Pastinha, a sabedoria de Menininha, a força de Candeia, os versos de Silas, o miudinho de Argemiro, as esculturas de Mestre Didi, as toalhas rendadas de Tia Prisciliana, o cachimbo de Dona Eulália, o canto de Anescar, o tempero da Iyá Bassê, o lamento dos vissungos, o machado do jongo, as folhas de Ossain e os cantos de evocação de Oxupá, dindinha Lua.
Quem me criou não tinha educação formal e não me deu o Quixote, o Crime e Castigo, o Dom Casmurro, o Grande Sertão e outros tantos grandes livros que, como esses, eu li um dia e passei a amar. Quem me criou, porém, me contou das artimanhas de Exu, da flecha certeira de Oxóssi, dos amores de Ogum, das mulheres de Xangô, do tronco forte de Tempo e do pano branco de Lemba – e eu passei a gostar de ouvir e inventar histórias, no alargamento da vida.
Quem me criou não me levou aos teatros, não me apresentou a grandes óperas e não me presenteou com discos de sublimes sinfonias – que dessas coisas quem me criou não sabia. Mas quem me conduziu cantou, para confortar as minhas noites, sambas, toadas, jongos, afoxés, cirandas, maracatus, alujás, calangos, xibas e xotes – e eu fui apaziguando a alma com os sons do meu povo.
E é por isso, por essas áfricas que me fizeram como sou, que gosto da rua, do mercado, dos amigos, da gente miúda feito eu, do porre, da bola, do beijo, da troça, da raça, do sol, da cachaça, da carne, da alegria, da subversão, da insubmissão, da guerrilha, do vento, da aldeia, do mistério, da mistura, do dendê, das pernas tortas, do português torto, da língua do Congo e do pranto do banzo.
E eu me pego todo dia a orar a Zâmbi por um Brasil mais tolerante com o seu povo. Há que se lamentar e reverenciar – todos os dias – o martírio dos tumbeiros, fazer do tronco do castigo o totem da humanidade e louvar a todos os quilombolas, de ontem e de hoje, que me ensinaram a amar a terra e celebrar a vitória da vida sobre a morte – lição maior de Licutam, Luísa Mahin, Zomadônu e Zacimba Gaba. O Brasil haverá de saber quem eles são.
É só assim que a gente afaga o tempo, serpenteia a dor e apascenta, entre um tombo e outro, o olhar sobre a belezura do que pode ser o mundo.

Luiz Antonio Simas, in Pedrinhas miudinhas – Ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros

Antes do nascer do sol




Ó céu acima de mim, céu puro, profundo! Ó abismo de luz! Olhando-te, estremeço de divinos desejos.
Lançar-me à tua altura — eis a minha profundeza! Ocultar-me em tua pureza — eis a minha inocência!
O deus é encoberto por sua beleza: assim escondes tuas estrelas. Não falas: assim me proclamas tua sabedoria.
Mudo sobre o mar estrondeante surgiste hoje para mim, teu amor e teu pudor trazem revelação à minha alma estrondeante.
Que tenhas chegado a mim lindamente, encoberto em tua beleza, que me fales mudamente, manifesto em tua sabedoria:
Oh, como não adivinharia eu as vergonhas de tua alma? Antes do sol vieste a mim, o mais solitário.
Somos amigos desde o começo: tristeza, horror e profundeza temos em comum; também o sol temos em comum.
Não falamos um ao outro, porque sabemos coisas demais —: silenciamo-nos, sorrimos um para o outro o que sabemos.
Não és a luz para meu fogo? Não tens a alma irmã do meu entendimento?103
Juntos aprendemos tudo; juntos aprendemos a subir acima de nós, até nós mesmos, e a sorrir desanuviados:—
— sorrir desanuviados para baixo, de olhos luminosos e de imensa distância, quando abaixo de nós coação, finalidade e culpa embaciam como chuva.
E, caminhando eu sozinho: de quem tinha fome a minha alma, à noite e por sendas erradas? E, subindo eu montanhas, quem buscava eu, senão a ti, pelas montanhas?
E todo o meu caminhar e subir montanhas: apenas necessidade, recurso de um canhestro: — somente voar deseja a minha vontade, voar para dentro de ti!
E quem mais odiei do que as nuvens passageiras e tudo que te mancha? E meu próprio ódio também odiei, pois te manchava!
Tenho aversão às nuvens passageiras, sorrateiros felinos rapaces: elas tiram de ti e de mim o que nos é comum — o imenso, ilimitado dizer Sim e Amém.
Temos aversão a esses mediadores e intromissores, as nuvens passageiras: esses meio-isso, meio-aquilo, que não aprenderam a abençoar, nem a amaldiçoar a fundo.
Eu preferiria estar num barril sob o céu fechado, estar num abismo sem céu, a ver-te maculado de nuvens que passam, ó céu de luz!
E muitas vezes desejei atá-las com os arames de ouro dos raios e, como o trovão, bater o tambor sobre as caldeiras de seus ventres: —
— um timbaleiro irritado, porque elas me roubam teu Sim e Amém, ó céu sobre mim, puro, luminoso! Abismo de luz! — porque elas te roubam meu Sim e Amém.
Pois ainda prefiro barulho, trovão e maldições do tempo a essa ponderada, vacilante quietude felina; e entre os homens também odeio mais que tudo os pisa-mansinho, meio-isso, meio-aquilo e duvidosas, vacilantes nuvens que passam.
E “quem não pode abençoar, deve aprender a amaldiçoar” — esse claro ensinamento me veio de um claro céu, mesmo em noites escuras essa estrela se acha em meu céu.
Mas eu sou alguém que abençoa e diz Sim quando estás ao meu redor, ó céu puro, ó luminoso! Abismo de luz! — a todos os abismos levo o meu Sim abençoador.
Tornei-me alguém que abençoa e diz Sim: para isso pelejei muito tempo e fui um lutador, de modo a um dia ter as mãos livres para abençoar.
Mas eis minha bênção: estar sobre cada coisa como seu próprio céu, seu teto abobadado, sua redoma de cor anil, sua perene certeza: e bem-aventurado é quem assim abençoa!
Pois todas as coisas são batizadas na fonte da eternidade e além do bem e do mal; mas os próprios bem e mal são apenas sombras intermédias, abafadas aflições e nuvens que passam.
Em verdade, trata-se de uma bênção e não de uma blasfêmia, quando ensino que “sobre todas as coisas está o céu Acaso, o céu Inocência, o céu Contingência, o céu Exuberância”.
“Lady Contingência” — eis a mais velha aristocracia do mundo, que devolvi a todas as coisas, ao redimi-las da servidão à finalidade.
Essa liberdade e serenidade celeste eu pus como redoma cor de anil sobre todas as coisas, ao ensinar que acima e por meio delas não existe uma “vontade eterna” a querer.
Essa exuberância e essa tolice eu pus no lugar dessa vontade, ao ensinar que “em tudo, uma coisa é impossível — racionalidade!”.
Um pouco de razão, é verdade, uma semente de sabedoria espalhada de estrela em estrela — esse fermento se acha misturado a todas as coisas: por causa da tolice,104 a sabedoria se acha misturada a todas as coisas!
Um pouco de sabedoria é possível; mas esta bem-aventurada certeza encontrei em todas as coisas: elas ainda preferem — dançar com os pés do acaso.
Ó céu acima de mim, céu puro, elevado! Esta é para mim a tua pureza, não haver eterna aranha e teias de aranha da razão: —
— seres para mim um local de dança para divinos acasos, seres uma mesa divina para divinos dados e jogadores de dados! —
Mas enrubesces? Disse eu algo indizível? Blasfemei, ao querer te abençoar?
Ou é a vergonha por estarmos a sós que te fez enrubescer? — Mandas-me silenciar e partir porque agora — o dia chega?
O mundo é fundo —: mais fundo do que jamais pensou o dia. Nem tudo pode se expressar diante do dia. Mas o dia chega: separemo-nos, então!
Ó céu acima de mim, envergonhado e ardente! Ó felicidade minha, antes do nascer do sol! O dia chega: separemo-nos, então! —

Assim falou Zaratustra.

Friedrich Nietzsche, in Assim falou Zaratustra