24/05/2015
Encontrada carta escrita por Einstein, em 1951, a alunos gaúchos

Uma
carta escrita há quase 65 anos pelo físico alemão Albert Einstein
foi encontrada dentro de um cofre no Colégio Anchieta, de
Porto Alegre – RS.
O documento datilografado, assinado à mão pelo cientista, contém
uma mensagem aos alunos.
A
direção da escola contratou a perita judicial e grafologista Liane
Pereira, que garantiu a autenticidade do documento.
Junto
com a carta havia uma foto do cientista, também assinada. Réplicas
das relíquias estão expostas no museu da escola, dentro de uma
redoma de vidro. A
tradução do texto escrito em alemão é a seguinte:
“Quem
conheceu a alegria da compreensão conquistou um amigo infalível
para a vida. O pensar é para o homem, o que é voar para os
pássaros. Não toma como exemplo a galinha quando podes ser uma
cotovia.”
Matéria
completa aqui.
O Teatro Mágico - Perdoando o Adeus
Meu
Deus!
Sei que não sei rezar
Como viver então?
Não é só pra pedir por mim
E por outros
Mas pra confortar
Acalentar e agradecer
Dentro de nós
Dentro de nós [Gritam, lutam, choram, sangram, esquecem]
Dentro de nós [Juram, julgam, sonham, ganham, perdem]
Rogai por mim!
Vou tentar rezar agora
Despudoradamente, em público
Reclamar, da vida o desatino
E talvez dizer já seja uma reza...
Já seja uma reza
Já seja uma oração: dentro de nós...
Dentro de nós [juram, julgam]
Dentro de nós [Gritam, lutam, choram, sangram, esquecem]
Dentro de nós [Juram, julgam, sonham, ganham, perdem]
A vida anuncia que renuncia a morte
A vida anuncia que renuncia a morte
A vida anuncia...
Que renuncia a morte [dentro de nós]
Sei que não sei rezar
Como viver então?
Não é só pra pedir por mim
E por outros
Mas pra confortar
Acalentar e agradecer
Dentro de nós
Dentro de nós [Gritam, lutam, choram, sangram, esquecem]
Dentro de nós [Juram, julgam, sonham, ganham, perdem]
Rogai por mim!
Vou tentar rezar agora
Despudoradamente, em público
Reclamar, da vida o desatino
E talvez dizer já seja uma reza...
Já seja uma reza
Já seja uma oração: dentro de nós...
Dentro de nós [juram, julgam]
Dentro de nós [Gritam, lutam, choram, sangram, esquecem]
Dentro de nós [Juram, julgam, sonham, ganham, perdem]
A vida anuncia que renuncia a morte
A vida anuncia que renuncia a morte
A vida anuncia...
Que renuncia a morte [dentro de nós]
Alegria solitária
“Mesmo
minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria
solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente
todo embrulhado com papel enfeitado de presente nas mãos - e não
ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em
situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o
tom de tragédia, então raramente embrulho com papel de presente os
meus sentimentos.”
Clarice
Lispector
Diálogo entre dois mendigos num bar qualquer de São Paulo
“– Sabe? Eu descobri como funciona esse esquema.
– Ah,
é?
–
Você
já viu aquele planetinha daquele
livro do Pequeno Príncipe?
– Sei,
acho que me lembro.
O
outro faz um gesto com as mãos formando uma esfera no ar.
–
É
um planetinha, pequeno… Tem uma flor e acho que uma casinha… É assim.
Diz
isso projetando a pequena esfera na direção de Júnior.
– Sei,
sei…
– É
isso, porra! É isso…
–
Entendo.
–
Entende,
nada. Entende?!
O
outro faz um gesto de desprezo que desmancha a esfera.
– Eles
botaram a gente aqui.
–
Claro…
–
Deus
botou a gente nesse planetinha do
caralho. Do caralho do Pequeno Príncipe. Aí ele falou: Meu amigo, tudo isso é seu. Tem ali uma plantinha de merda que dá um gruto gostoso. Ali tem uma vaquinha de bosta que dá leite. E tem trigo para fazer o pão. Até
aí tudo bem né?
– É
tudo o que precisamos…
– É,
mas ai ele mostra um buraco na terra. Um buraco feito uma cova.
–
Certo…
–
Então
ele diz: Tudo isso é seu. E ainda vou te mandar uma mulher e uma crianças... Isso
eu acho que é só pra encher nosso saco e distrair a gente dessa
merda toda. Assim não sacamos o esquema, tá ligado?
– E
qual é o esquema?
– Posso
continuar?
–
Claro!
–
Então
faz favor de não ficar me interrompendo. Bom! Aí Deus explica o
esquema. Ele diz: Meu filho, tudo isso é seu. A única coisa que você precisa fazer é tapar aquele buraco. A tal cova que eu te falei.
– Sei.
– Pois
então. Cada vez que esse homenzinho tapa a porra do buraco, acaba
fazendo outro do mesmo tamanho. Percebe?
–
Entendo.
–
Então.
É isso. É isso sem fim. Tapa um buraco, faz outro igual. Tapa um,
faz outro. Até o dia em que o infeliz morre. Só assim você pode
tapar um buraco sem fazer outro igual. O buraco é sob medida.
–
Legal.
–
Porra!
Legal, o caralho!
– A
história, quis dizer.
– Ou
seja, é pau no teu cu. Percebe? É isso. Pra Deus nós somos apenas
os que podem tapar o buraco que ele não consegui tapar. Entende? É
como na obra. Se falta areia, cê não faz parede. Não adianta
tijolo, nem cimento. Eu acho que Deus errou nos cálculos. Aí, como
já estava de saco cheio, inventou a gente. Tipo umas formigas. Uns
formigões, sacou?”
Lourenço
Mutarelli,
in A arte de
produzir efeito sem causa
23/05/2015
Orquestra Ouro Preto e o concreto The Beatles em Natal e Mossoró


Foto: Rafael Motta
A
Orquestra Ouro Preto apresenta em Natal
e
Mossoró a série de concertos The Beatles, nos dias 25 e 26 de maio,
respectivamente. A entrada é gratuita, com distribuição de
ingressos uma hora antes dos concertos. Em Natal, o concerto acontece
na segunda-feira (25), às 20h, no Teatro Alberto Maranhão. Já em
Mossoró a apresentação será no Teatro Municipal Dix-Huit, na
terça-feira (26), às 20h30, entrada
gratuita.
Sucesso
de crítica e público, a série The Beatles percorreu diversas
cidades, incluindo participação na última edição da
International Beatle Week – tradicional evento inglês dedicado à
obra dos Beatles – em Liverpool. Dialogando os universos da música
erudita e popular, o concerto propõe uma vibrante viagem sonora pela
biografia musical do quarteto de Liverpool, a partir de uma
combinação inusitada: a união, em um mesmo palco, de uma orquestra
(composta por 20 músicos) e uma banda de rock.
O
repertório da apresentação abrange todo o período de produção
artística dos Beatles, de grandes sucessos que há muito fazem parte
do imaginário coletivo até canções menos conhecidas, em arranjos
inéditos. Destaque para Day Tripper, Yesterday, Help, Eleanor Rigby,
Something e Hey Jude. Os arranjos ficaram a cargo do violinista
Mateus Freire.
Apresentação
Operário
do canto, me apresento
sem marca ou cicatriz, limpas as mãos,
minha alma lima, a face descoberta,
aberto o peito, e — expresso documento —
a palavra conforme o pensamento.
sem marca ou cicatriz, limpas as mãos,
minha alma lima, a face descoberta,
aberto o peito, e — expresso documento —
a palavra conforme o pensamento.
Geir
Campos
Contabilidade tétrica
Quem
defende as barbaridades cometidas pelo regime militar no Brasil
costuma invocar os mortos pela ação dos que contestavam o regime.
Assim, reduz-se tudo a uma contabilidade tétrica: meus mortos contra
os seus. Pode-se discutir se a luta armada contra o poder ilegítimo
foi uma opção correta ou não, mas não há equivalência possível
entre os mortos de um lado e de outro. Não apenas porque houve mais
mortes de um só lado, mas por uma diferença essencial entre o que
se pode chamar, com alguma literatice, de os arcos de cumplicidade.
O
arco de cumplicidade dos atentados contra o regime era limitado à
iniciativa, errada ou não, de grupos ou indivíduos clandestinos. Já
o arco de cumplicidade na morte de contestadores do regime era
enorme, era o estado brasileiro. Quando falamos nos “porões da
ditadura” em que pessoas eram seviciadas e mortas, nem sempre nos
lembramos que as salas de tortura eram em prédios públicos, ou
pagas pelo poder público – quer dizer, por todos nós.
A
cumplicidade com o que acontecia nos “porões”, em muitos casos,
foi consentida, mesmo que disfarçada. Ainda está para ser
investigada a participação de empresários e outros civis na
chamada Operação Bandeirantes durante o pior período da repressão,
por exemplo. Mas a cumplicidade da maioria com um estado assassino só
existiu porque o cidadão comum pouco sabia do que estava
acontecendo.
A
contabilidade tétrica visa a nivelar o campo dessa batalha
retroativa pela memória do País e igualar os dois arcos de
cumplicidade. Não distingue os mortos nem como morreram. Todas as
mortes foram lamentáveis, mas os mortos nas salas de martírio do
estado ou num confronto com as forças do estado na selva em que
ninguém sobreviveu ou teve direito a uma sepultura significam mais,
para qualquer consciência civilizada, do que os outros. O que se
quer saber, hoje, é exatamente do que fomos cúmplices
involuntários.
Luís
Fernando Veríssimo, in cultura.estadao.com.br, 01/05/2014
As fronteiras do homem
“Recebo
de Paris jornais que me envia Rosário Fusco. Num deles, uma
entrevista de Ciccioli. Diz ele: 'As fronteiras do homem é o
inumano. É o monstro. É a abjeção. O vício. Assim, para investir
o homem no que ele tem de mais luminoso e de mais puro, tenho
necessidade de monstros’. Mas isso já não me parece tão novo...”
Lúcio
Cardoso,
in Diários
O surrealismo de Salvador Dali

A tentação de Santo Antão (1946), de Salvador Dali
“A
diferença entre mim e os surrealistas é que eu sou um surrealista.”
Salvador
Dali
Arte é espírito
“Arte
é espírito, e o espírito não precisa, em absoluto, de se sentir
obrigado a servir a sociedade, a coletividade. A meu ver, não tem
direito a fazê-lo, devido à sua liberdade e à sua nobreza.”
Thomas
Mann
22/05/2015
O primeiro beijo
Os
dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o
namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto:
ciúme.
-
Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com
isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma
mulher antes de me beijar? Ele foi simples:
-
Sim, já beijei antes uma mulher.
-
Quem era ela? perguntou com dor.
Ele
tentou contar toscamente, não sabia como dizer.
O
ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no
meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no
rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso
como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e
apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir era difícil
no meio da balbúrdia dos companheiros.
E
mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais
alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida!
como deixava a garganta seca.
E
nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez.
Depois de reunida na boca ardente engolia-a lentamente, outra vez e
mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma
sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo
todo.
A
brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se
quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca
saliva que pacientemente juntava.
E
se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de
deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo
esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de
anos.
Não
sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água,
pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela
procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando,
farejando.
O
instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da
estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num
filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas
ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de
todos.
De
olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao
orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu,
escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta
encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia
abrir os olhos.
Abriu-os
e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu
que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía
a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos
lábios um contato gélido, mais frio do que a água.
E
soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher
de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.
Intuitivamente,
confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma
mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da
vida... Olhou a estátua nua.
Ele
a havia beijado.
Sofreu
um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e
tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um
passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia.
Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre
antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca
lhe tinha acontecido.
Estava
de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração
batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era
inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo,
num equilíbrio frágil.
Até
que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele
a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho
antes jamais sentido: ele…
Ele
se tornara homem.
Clarice
Lispector, in Felicidade clandestina
Perguntas
“Vivendo,
se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores
perguntas.”
Fala
de Riobaldo,
in Grande
Sertão: Veredas,
de
Guimarães
Rosa
Somente se queixa de amorosas esquivanças
Ditoso
seja aquele que somente
Se queixa de amorosas esquivanças;
Pois por elas não perde as esperanças
De poder nalgum tempo ser contente.
Ditoso seja quem estando ausente
Não sente mais que a pena das lembranças;
Porqu'inda que se tema de mudanças,
Menos se teme a dor quando se sente.
Ditoso seja, enfim, qualquer estado,
Onde enganos, desprezos e isenção
Trazem um coração atormentado.
Mas triste quem se sente magoado
De erros em que não pode haver perdão
Sem ficar na alma a mágoa do pecado.
Se queixa de amorosas esquivanças;
Pois por elas não perde as esperanças
De poder nalgum tempo ser contente.
Ditoso seja quem estando ausente
Não sente mais que a pena das lembranças;
Porqu'inda que se tema de mudanças,
Menos se teme a dor quando se sente.
Ditoso seja, enfim, qualquer estado,
Onde enganos, desprezos e isenção
Trazem um coração atormentado.
Mas triste quem se sente magoado
De erros em que não pode haver perdão
Sem ficar na alma a mágoa do pecado.
Luís
Vaz de Camões
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