03/10/2025

Capítulo 1 – Correndo


“Boqueteiro filho da puta” era minha expressão preferida e, aos 8 anos, eu a usava em tom de afronta. Eu era uma pestinha desbocada e atrevida e soltava essa expressão com uma das mãos no quadril, exibindo o dedo do meio e, às vezes, mostrando a língua. Se a situação fosse particularmente complicada, chamava minha irmã mais velha, Anita, para ajudar. Ela metia medo em qualquer garoto, garota, mulher, homem e cachorro em Central Falls, Rhode Island. Anita deixava as unhas compridas para brigar melhor. Era durona, cheia de estilo, talentosa e bem… raivosa. “Vou chamar minha irmã Anita pra acabar com você”, eu dizia, confiante. Mas, sendo três anos mais velha que eu, ela não estava sempre por perto para me proteger.
Enquanto Anita era lutadora, estilosa, tão amada e admirada quanto temida, eu não era nenhuma dessas coisas. Eu era a amiga para todas as horas, competitiva, porém tímida. Quando ganhava concursos de soletração, exibia minha estrelinha dourada para todo mundo ver. Era meu jeito de fazer as pessoas se lembrarem de quem diabos eu era.
Quando estava na terceira série, desafiei o garoto mais veloz da Hunt Street School, em Central Falls, para uma corrida na hora do recreio. Estávamos no ápice do inverno, e todo mundo foi assistir. Eu tinha meu grupo, composto em sua maioria por meninas, e ele tinha o dele, formado por... bem... todos os outros. Meus sapatos eram dois tamanhos menores do que o meu pé, e minhas meias estavam rasgadas bem na parte que deveria cobrir os dedos. Então tirei meus sapatos e as meias e entreguei para a minha amiga Rosie, que disse: “Arrasa com ele!”
Não arrasei com ele. Deu empate, o que para a azarona que eu era estava ótimo, mas para ele foi humilhante. Depois disso, foi a maior confusão. Toda criança na escola começou a entoar: “Revanche! Revanche!”, e: “Vamos lá, Chris, não deixa essa garota te vencer!” Observei aquela multidão rindo, me encarando e sussurrando: “Você não pode deixar essa preta te vencer!”
Quando os professores ouviram a confusão e me viram de pés descalços, precisei ficar de castigo no cantinho. Envergonhada. Como se tivesse feito algo errado. Por que todo aquele julgamento? Eu sofria bullying o tempo todo. Aquilo era mais uma face do trauma que estava vivendo — minhas roupas, meu cabelo, minha fome —, com minha vida familiar sendo a pior delas. A revolta, a raiva e a competitividade sendo minhas únicas armas. Meu arsenal. E, quando digo que usava cada ferramenta daquele arsenal todos os dias, não estou exagerando.
No fim de cada dia de aula, precisávamos fazer fila na porta dos fundos e esperar até que o último sinal tocasse. A professora abria a porta e todos saíam correndo para casa. Todo mundo ficava animado porque era o fim do dia de aula. Todo mundo, menos eu. Tanto quanto possível, empurrava meus colegas, quase chegando ao início da fila à força, não me importando nem um pouco se ficavam irritados comigo, porque, quando aquele sinal tocava, eu precisava correr, precisava fugir.
Na minha sala, tinha um menino das ilhas de Cabo Verde, que fica na costa oeste da África. Ele era negro e português e tão retinto quanto eu. Mas ele não queria se misturar com afro-americanos, um pensamento que mais tarde descobri ser muito comum entre os cabo-verdianos de Central Falls. Era comum eles se autodeclararem portugueses. Eles detestavam que os chamassem de negros.
Então meu colega “português” e oito ou nove garotos brancos da minha turma faziam seu ritual diário de fim de aula, me perseguindo como cães perseguem a caça. Quando o sinal tocava, era um deus nos acuda, comigo correndo, literalmente, para salvar minha vida. Para a gangue de garotos, era um momento divertido e sádico. Todo dia, a mesma loucura. O mesmo trauma. Eu, em disparada como Wilma Rudolph ou Flo-Jo,* e eles logo atrás.
Enquanto me perseguiam, pegavam o que quer que encontrassem no chão para jogar em mim: pedras, tijolos, galhos de árvore, pilhas, pinhas, qualquer coisa que seus olhos malignos avistassem. Mas me perseguir e atirar projéteis contra mim não era suficiente. Seus gritos maldosos eram direcionados ao alvo de todo aquele ódio: “Sua preta feia. Você é feia pra caralho. Vá se foder!”
Mas graças a Deus eu era rápida. Precisava correr muito pela Eben Brown Lane, o caminho que eu fazia por ser um atalho para chegar em casa, uma rua idílica que parecia saída de uma cena de A família Sol-Lá-Si-Dó. Às vezes, os garotos se escondiam atrás de casas nessa rua, e eu precisava me esgueirar e escapar de algum jeito. Eu estava sendo caçada. Quando chegava em casa, estava um desastre ambulante, chorosa e com o nariz escorrendo… todo santo dia.
Um dia, após uma nevasca, havia tanta neve acumulada nas ruas que qualquer um podia se esconder atrás dos montes gigantes que pareciam estar por toda parte. Meus sapatos tinham buracos enormes na sola, e eu não podia correr com eles porque meus pés doeriam mais do que já doíam normalmente. Por isso, eu costumava tirar os sapatos quando corria para salvar minha pele, levando-os nas mãos. Mas naquele dia, com montanhas de neve por toda parte, não pude fazer isso.
Foi então que eles me pegaram. E, quando conseguiram, seguraram meus braços para trás e me levaram até o líder, o garoto cabo-verdiano. Não vou citar nomes porque, bem… a raça dele é bem mais importante para esta história.
— Ela é feia! Crioula** de merda! — disse ele.
Meu coração estava batendo muito forte. Eu pedia a Deus em silêncio que alguém viesse me salvar.
E as outras vozes diziam ao meu redor: “O que vamos fazer com ela?”, “Isso aí!”, “Você, você, você é feia pra caralho!”, “Você é feia! Você é feia!”.
— Não entendo por que você diz isso — argumentei com o líder, o garoto “português”. — Você também é negro!
Quando falei isso, todos congelaram e caíram em um silêncio mortal. Por uma fração de segundo, era como se estivéssemos em um filme, enquanto os garotos, agora silenciosos, olhavam para o menino “português”, ávidos para responder a qualquer comando que ele desse.
— Você também é negro! — Dessa vez eu gritei, chamando-o pelo nome.
O grupo permaneceu em silêncio. Tão quietinhos.
Ele olhou de um garoto branco para o outro, assustado e fazendo de tudo para encontrar uma maneira de esconder a verdade que eu acabara de soltar. O tipo de verdade enraizada em um ódio de si mesmo que preferiríamos levar para o túmulo. Por fim, ele gritou, irado:
— Nunca mais me chame de negro, porra! Eu não sou negro! Sou “português”!!!
E me deu um soco muito forte no braço. Então baixou o olhar, envergonhado por ser exposto. Como se eu tivesse revelado a sua verdade mais incômoda, mais dolorosa.
— Dá o fora daqui!
Eles me jogaram na neve e a chutaram em mim. Meu braço se retesou. Estava doendo. Fui andando para casa, completamente humilhada.
No dia seguinte, não queria ir à escola. Minha mãe estava lavando roupa em uma daquelas velhas máquinas de lavar manuais em que era necessário puxar as roupas por um espremedor.
— O que aconteceu com você? — perguntou ela.
— Mamãe, aqueles garotos na escola querem me matar! Eles me perseguem todo dia depois da aula.
Depois de esconder por meses, enfim contei a ela meu trauma diário.
— Vahla — a pronúncia sulista do meu nome —, não corre mais desses filhos da mãe. Tá me ouvindo? Quando o sinal tocar você VEM ANDANDO pra casa! Se eles mexerem com você, acabe com eles.
Com “acabar com eles” ela queria dizer “espetar”. Mas, se você já viu uma agulha de crochê, entende que minha mãe estava apenas sendo ética. Elas não são nem um pouco afiadas! Ela me deu uma e me disse para guardá-la no bolso. Era de um azul brilhante.
— Não volte aqui choramingando por causa desses garotos ou vou te dar uma surra.
Ela falava sério. Aquela era uma mulher mãe de seis filhos. Ela não tinha tempo para ir à escola todo dia e lutar nossas batalhas. Precisava muito que eu soubesse me defender. Mesmo que tivesse que me ameaçar para que eu reagisse.
No dia seguinte, foi necessário cada osso, músculo e célula do meu corpo para que eu caminhasse quando o sinal tocou. Ouvi as vozes dos garotos atrás de mim. Senti a fúria deles. O ódio. Mas andei o mais lentamente possível. Tão lenta que mal me movia. Meus dedos seguravam firme a agulha de crochê azul-brilhante no bolso. As vozes ficaram mais altas e mais próximas. Por fim, senti alguém agarrar meu braço com violência, e então uma fúria, uma determinação, uma exaustão tomaram conta de mim.
Eu sussurrei:
— Se não tirar as mãos de mim, vou acabar com você.
O garoto me olhou aterrorizado, analisando meu rosto para saber se eu falava sério. Era sério. Ele me soltou e os outros se afastaram, rindo. O ritual de perseguir a garota negra de cabelo duro de repente perdeu o encanto.
Anos depois, durante uma conversa com Will Smith no set de Esquadrão suicida, tive uma epifania. Ele me perguntou:
— Viola, quem é você?
— Como assim? Eu sou eu — respondi com uma confiança forjada.
Ele perguntou outra vez:
— Não, mas quem é você?
— O que quer dizer com isso?
— Olha, eu sempre vou ser o garoto de 15 anos que levou um pé na bunda da namorada. Sempre serei esse garoto. Então, quem é você?
Quem sou eu? Fiquei calada, e mais uma vez aquela memória indestrutível me atingiu. Então despejei tudo:
— Sou a garotinha que corria para casa todo dia no terceiro ano porque uns garotos me odiavam por eu… não ser bonita. Por eu ser… negra.
Will me encarou como se estivesse me vendo pela primeira vez e só assentiu. Senti um nó na garganta, as lágrimas se formando. Memórias são imortais. São imperecíveis e precisas. Têm o poder de dar alegria e perspectiva em tempos difíceis. Ou podem sufocar. Definir você de uma maneira que tem mais a ver com a percepção limitada das pessoas do que com a verdade.
Lá estava eu, uma atriz de carreira consolidada, trabalhos na ­Broadway, premiada e reconhecida pela reputação de conferir profissionalismo e excelência a qualquer projeto de que participava. Por Deus, até a Oprah sabia quem eu era. Mesmo assim, sentada ali conversando com Will Smith, eu ainda era aquela garotinha negra assustada do terceiro ano. E embora estivesse a muitos anos e muitos quilômetros de Central Falls, Rhode Island, nunca tinha parado de correr. Meus pés só tinham parado de se mover.
Eu tinha toda a força física do mundo, mas não havia adquirido o domínio da coragem. Essa é a memória que me define. Mais do que o xixi na cama, a pobreza, a fome, o abuso sexual e a violência doméstica. É uma memória poderosa porque foi a primeira vez que meu espírito e meu coração foram aniquilados. Eu me defini pelo medo que sentia e pela fúria que recebia daqueles garotos. Eu me sentia feia. Me sentia indesejada até mesmo por Deus. Queria tanto me encaixar naquele mundo, mas em vez disso estava sendo expelida feito vômito. Quem eu era os ofendia. A memória se enraizou em mim e se espalhou por toda a minha existência. Também não ajudava o fato de estar correndo de volta para um lar onde não encontrava proteção. Um lar que parecia validar todas as coisas horríveis que aqueles garotos diziam sobre mim.
Aos 28 anos, despertei para a dura e impactante verdade de que minha jornada e tudo o que eu estava fazendo na vida tinham como objetivo curar aquela garota de 8 anos. Aquela Viola do terceiro ano que sempre terminava derrotada, caída no chão. Queria voltar e gritar para ela: “Pare de correr!”
Queria curar suas feridas, a exclusão. Isso até que um terapeuta me perguntou, alguns anos atrás:
— Por que está tentando curá-la? Acho ela bem durona. Ela so­breviveu.
Isso me atingiu como um raio. Fiquei sem palavras. O quê? Aquela pobre garotinha “cor de chocolate” de Central Falls? Ela é uma sobrevivente?
Ele se inclinou para a frente como se fosse me contar um grande segredo, ou resolver o maior obstáculo da minha existência:
— Você consegue abraçá-la? Consegue deixar que ela abrace VOCÊ? Consegue deixar que se empolgue com a mulher de 53 anos que vai se tornar? Pode deixar que ela dê um gritinho de empolgação por isso?
Fiquei ali de braços cruzados. De jeito nenhum! Fui eu que consegui. Eu tenho a autoridade. Olhei para o espaço vazio ao meu lado no divã e vi minha eu mais jovem com muita nitidez. Ela estava sentada ali esperando… para ser acolhida? Para ser reconhecida? Esperando que a deixassem entrar.
O terapeuta se inclinou na minha direção, me encarando, firme, decidido e persistente, e observou:
— É a de 53 anos que precisa de ajuda.
Silêncio foi tudo que consegui oferecer como resposta.
— Aquela garotinha SOBREVIVEU!!!!!! — disse ele enfaticamente.
Mantive meus braços cruzados. Rígida.
Ele se endireitou e esperou que meus braços se descruzassem. O que não aconteceu.
A parte final do caminho para me encontrar seria deixar que aquela garota de 8 anos entrasse, convidá-la para experimentar a alegria que ela tanto desejava, lhe mostrar como era se sentir viva de verdade. O objetivo é encontrar um lar para ela. Um local de paz onde o passado não limite a Viola de AGORA, onde eu me aproprie da minha história.
Nas minhas palestras, o título é sempre o mesmo: “A jornada do herói”. Aprendi com o escritor Joseph Campbell que o herói é uma pessoa nascida em um mundo no qual não se encaixa. É então invocado para a aventura que reluta em aceitar. Qual é a aventura? A revolucionária transformação do self, seu ser interior. O objetivo é encontrar o elixir. A poção mágica que é a resposta para acessar o self. Então ele volta “para casa”, para sua vida comum agora transformada, e compartilha sua história de sobrevivência com os outros.
É exatamente assim que descrevo minha história. Quando criança, senti que meu chamado era me tornar atriz. Não era. Era maior que isso. Era maior que meu sucesso. Maior que as expectativas do mundo. Era maior do que eu, bem maior do que qualquer coisa que imaginei um dia. Era a completa aceitação do que Deus planejou para o meu ser. Mesmo as partes que tinham rachaduras e onde o encaixe não estava certo. Era a aceitação radical da minha existência, sem desculpas e com propriedade. Naquele dia no consultório do terapeuta, vi aquela garotinha muito nitidamente. Podia ouvi-la dizer: Você é o meu lar. Deixe-me entrar.
Quando mesmo assim ela não recebeu um abraço, reagiu com mais intensidade.
Aquela eu mais jovem estava sentada lá dizendo: E aí? Você não vai me deixar entrar? Já cumpri a porra da minha parte na corrida! Passei o bastão pra você! Todos aqueles boqueteiros filhos da puta! Merda! Sei que eu não me encaixava, mas, cara, eu te trouxe até AQUI! Dizer àqueles garotos para “beijar minha bunda negra”?!! O choro! O xixi na cama! Eu ainda a vejo sentada, me encarando, braços caídos na lateral do corpo, com seu cabelo natural e jeans de segunda mão. Esperando…
Minha jornada era como um filme de guerra, em que no final o herói foi tão machucado e ferido, está tão traumatizado por testemunhar incontáveis mortes e atos de destruição e tão desgastado que não consegue mais voltar a ser o mesmo de antes.
Ela pode até ter visto a própria morte, mas foi ressuscitada de alguma forma. Mas, para me lançar NAQUELA jornada, precisaria estar armada com a coragem de uma leoa.
Cara, eu preferiria lutar dez rounds contra Mike Tyson a encarar algumas verdades que estavam adormecidas dentro de mim. Pelo menos eu daria trabalho para Mike. Mas essa batalha interna, esse conflito interno, eu não conseguia encarar.
Naquele dia no consultório do terapeuta, o objetivo era óbvio e repetitivo. Indivíduos que estão na jornada, cedo ou tarde, passam por um batismo de fogo. É o momento em que estão prestes a perder a vida e, milagrosa e corajosamente, encontram a resposta que dá sentido à existência deles. E esse sentido, essa resposta, os salva.
Nas palavras de Joseph Campbell em O herói de mil faces: “O chamado da aventura significa que o destino convocou o herói. O herói, deus ou deusa, homem ou mulher, a figura de um mito ou o sonhador num sonho, descobre e assimila seu oposto (seu próprio eu insuspeitado), quer ­engolindo-o, quer sendo engolido por ele.”***
Ainda vejo com nitidez minha eu mais jovem daquele dia fatídico no consultório do meu terapeuta. Aquela menina se levanta, chorosa, de um monte de neve. Puta da vida, ela grita:
— Vadia!!! Eu não vou ser engolida!

__________________________
*Wilma Rudolph (1940-1994) e Florence Griffith-Joyner (1959-1998), conhecida como Flo-Jo, foram importantes velocistas norte-americanas, ganhadoras de diversas medalhas olímpicas. [N. da T.]
** As palavras nigga ou nigger em inglês, também conhecidas como n-word devido à recusa política de pessoas em escrevê-las ou pronunciá-las, são insultos raciais bastante ofensivos e seu uso pejorativo é altamente condenável. Nesta edição, o termo foi traduzido de modo a contextualizar o leitor brasileiro da especificidade de seus usos na comunidade afro-americana. [N. da E.]
*** CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1989.

Viola Davis, em Em Busca de Mim

02/10/2025

Mazin Silva e Nelson Faria | Um Café Lá Em Casa

Diário de Bernardo Soares

61.

É nobre ser tímido, ilustre não saber agir, grande não ter jeito para viver.
Só o Tédio, que é um afastamento, e a Arte, que é um desdém, douram de uma semelhança de contentamento a nossa.
Fogos-fátuos que a nossa podridão geral, são ao menos luz nas nossas trevas.
Só a infelicidade elementar e o tédio puro das infelicidades contínuas, é heráldico como o são descendentes de heróis longínquos.
Sou um poço de gestos que nem em mim se esboçaram todos, de palavras que nem pensei pondo curvas nos meus lábios, de sonhos que me esqueci de sonhar até ao fim.
Sou ruínas de edifícios que nunca foram mais do que essas ruínas, que alguém se fartou, no meio de construí-las, de pensar em que construía.
Não nos esqueçamos de odiar os que gozam porque gozam, de desprezar os que são alegres, porque não soubemos ser, nós, alegres como eles... Esse sonho falso, esse ódio fraco não é senão o pedestal tosco e sujo da terra em que se finca e sobre o qual, altiva e única, a estátua do nosso Tédio se ergue, escuro vulto cuja face um sorriso impenetrável nimba vagamente de segredo.
Benditos os que não confiam a vida a ninguém.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

São Bernardo


II

Abandonei a empresa, mas um dia destes ouvi novo pio de coruja — e iniciei a composição de repente, valendo-me dos meus próprios recursos e sem indagar se isto me traz qualquer vantagem, direta ou indireta.
Afinal foi bom privar-me da cooperação de padre Silvestre, de João Nogueira e do Gondim. Há fatos que eu não revelaria, cara a cara, a ninguém. Vou narrá-los porque a obra será publicada com pseudônimo. E se souberem que o autor sou eu, naturalmente me chamarão potoqueiro.
Continuemos. Tenciono contar a minha história. Difícil. Talvez deixe de mencionar particularidades úteis, que me pareçam acessórias e dispensáveis. Também pode ser que, habituado a tratar com matutos, não confie suficientemente na compreensão dos leitores e repita passagens insignificantes. De resto isto vai arranjado sem nenhuma ordem, como se vê. Não importa. Na opinião dos caboclos que me servem, todo o caminho dá na venda.
Aqui sentado à mesa da sala de jantar, fumando cachimbo e bebendo café, suspendo às vezes o trabalho moroso, olho a folhagem das laranjeiras que a noite enegrece, digo a mim mesmo que esta pena é um objeto pesado. Não estou acostumado a pensar. Levanto-me, chego à janela que deita para a horta. Casimiro Lopes pergunta se me falta alguma coisa.
— Não.
Casimiro Lopes acocora-se num canto. Volto a sentar-me, releio estes períodos chinfrins.
Ora vejam. Se eu possuísse metade da instrução de Madalena, encoivarava isto brincando. Reconheço finalmente que aquela papelada tinha préstimo.
O que é certo é que, a respeito de letras, sou versado em estatística, pecuária, agricultura, escrituração mercantil, conhecimentos inúteis neste gênero. Recorrendo a eles, arrisco-me a usar expressões técnicas, desconhecidas do público, e a ser tido por pedante. Saindo daí, a minha ignorância é completa. E não vou, está claro, aos cinquenta anos, munir-me de noções que não obtive na mocidade.
Não obtive, porque elas não me tentavam e porque me orientei num sentido diferente. O meu fito na vida foi apossar-me das terras de S. Bernardo, construir esta casa, plantar algodão, plantar mamona, levantar a serraria e o descaroçador, introduzir nestas brenhas a pomicultura e a avicultura, adquirir um rebanho bovino regular. Tudo isso é fácil quando está terminado e embira-se em duas linhas, mas para o sujeito que vai começar, olha os quatro cantos e não tem em que se pegue, as dificuldades são terríveis. Há também a capela, que fiz por insinuações de padre Silvestre.
Ocupado com esses empreendimentos, não alcancei a ciência de João Nogueira nem as tolices do Gondim. As pessoas que me lerem terão, pois, a bondade de traduzir isto em linguagem literária, se quiserem. Se não quiserem, pouco se perde. Não pretendo bancar escritor. É tarde para mudar de profissão. E o pequeno que ali está chorando necessita quem o encaminhe e lhe ensine as regras de bem viver.
— Então para que escreve?
— Sei lá!
O pior é que já estraguei diversas folhas e ainda não principiei.
— Maria das Dores, outra xícara de café.
Dois capítulos perdidos. Talvez não fosse mau aproveitar os do Gondim, depois de expurgados.

Graciliano Ramos, em São Bernardo

1588 – La Habana

São Marcial contra as formigas

As formigas devoradoras continuam assustando as pessoas e corroendo as paredes. Cortam árvores, arrasam plantios e engolem frutas e milhos e a carne dos distraídos.
Tendo em vista a ineficácia de Simão, santo padroeiro, o cabildo escolhe, por unanimidade, outro protetor.
A cidade promete que cada ano celebrará sua festa e guardará seu dia. São Marcial é o novo escudo de La Habana contra os avanços das formigas bibijaguas. São Marcial, que há três séculos foi bispo de Limoges, tem fama de especialista; e a ele se atribui grande influência junto ao Senhor.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Do impossível convívio

O mais trágico dessas reuniões sociais é que elas são compostas unicamente de terceiros.

Mário Quintana, em Caderno H

O Apanhador no Campo de Centeio


22

Quando voltei ela já havia tirado o travesseiro de cima da cabeça – sabia que ela ia tirar – mas ainda não queria olhar para mim, embora estivesse deitada de costas e tudo. Quando dei a volta na cama e me sentei outra vez, ela virou o rosto para o outro lado. Estava me dando um gelo danado. Igualzinho ao time de esgrima do Pencey, quando esqueci os floretes no metrô.
– Como vai a Hazel Weatherfield? – perguntei. – Escreveu mais alguma estória sobre ela? A que você me mandou está na minha mala, lá na estação. É muito boa.
– Papai vai te matar.
Puxa, quando ela enfia uma coisa na cabeça é duro de tirar.
– Não, não vai me matar nada. Na pior das hipóteses, vai me dar outra bronca daquelas e aí me manda para a porcaria daquela academia militar. É só o que ele vai fazer comigo. E, em primeiro lugar, não vou nem estar por aqui. Vou estar muito longe... Provavelmente vou estar naquele rancho, lá no Colorado.
– Deixa de piada. Você nem sabe montar a cavalo.
– Quem é que não sabe? É claro que sei. Naturalmente que sei. É o tipo do troço que se aprende em dois minutos. Para de mexer nisso.
Ela estava escarafunchando de novo o curativo do braço.
– Quem é que cortou o teu cabelo desse jeito? – perguntei. Só então tinha reparado no corte do cabelo imbecil que ela estava usando. Era curto demais.
– Não é da tua conta.
Ela também sabe se fazer de besta. Sabe ser malcriada quando quer.
– Aposto que você foi novamente reprovado em todas as matérias – ela disse, ainda com aquela voz malcriada.
De certo modo, era até meio gozado. De vez em quando ela fala igualzinho a uma droga de uma professora, e não passa de uma criancinha.
– Não, não fui. Passei em inglês – respondi. Aí só de farra, dei um beliscão na bundinha dela. Estava deitada de lado, com o bumbum meio levantado. Ela quase não tem bunda. Não belisquei com força, mas ela tentou acertar minha mão e errou.
Aí, de repente, ela disse:
– Por quê que você fez isso?
Ela queria dizer, por quê que eu tinha novamente levado bomba. O jeito que ela falou me deixou meio triste.
– Ora, Phoebe, pelo amor de Deus, não me pergunta isso! Estou cansado de todo mundo me perguntar a mesma coisa. Tem um milhão de razões. É um dos piores colégios em que eu já estive. Está cheio de cretinos e de sujeitos perversos. Nunca vi tanta gente ruim na minha vida. Por exemplo, se tinha um grupo batendo papo no quarto dum colega e alguém queria entrar, ninguém deixava, se fosse um cara chato e cheio de espinha. Todo o mundo estava sempre fechando a porta quando alguém queria entrar. Tinha uma porcaria duma sociedade secreta que me convidou para ser membro, e eu não tive coragem de recusar. E tinha esse camarada morrinha e cheio de espinha, o Robert Ackley, que queria fazer parte da tal sociedade. Vivia pedindo para entrar e sendo barrado. Só porque era um bolha e tinha a cara cheia de espinhas. Não gosto nem de falar no assunto. Era um colégio nojento. Pode acreditar no que eu digo.
Ela não disse nada, mas estava me escutando. Pelo jeito da cabeça dela, dava para ver que estava prestando atenção. Ela sempre presta atenção quando a gente lhe diz alguma coisa. E o gozado é que ela quase sempre entende o troço que a gente está falando. Entende mesmo.
Continuei a falar sobre o Pencey. Me deu vontade.
– Até os dois professores simpáticos da escola também eram uns cretinos. Tinha esse sujeito velho, o Professor Spencer. A mulher dele vivia dando chocolate quente e outros troços à gente, e eles eram mesmo muito simpáticos. Mas você devia ver ele quando o diretor, o tal do Thurmer, entrava na aula de história e se sentava numa carteira lá no fundo. Ele vivia entrando e sentando no fundo da sala, e ficava lá uma meia hora. Devia achar que estava inspecionando incógnito ou coisa que o valha. Depois de estar sentado algum tempo lá atrás, ele começava a interromper a aula do velho Spencer com as piadas mais bestas. Aí o velho Spencer quase se estourava de tanto rir e tudo, como se o Thurmer fosse uma bosta dum príncipe ou coisa parecida.
– Não diz nome feio.
– Era de fazer a gente vomitar, juro que era. Aí veio o Dia dos Veteranos. Eles lá comemoram esse troço. É o dia em que todos os trouxas que foram alunos do Pencey, aí por volta de 1776, aparecem e se metem por tudo quanto é canto, com as mulheres, os filhos e todo mundo. Você devia ter visto o camarada que me apareceu, um sujeito já com uns cinquenta anos de idade. Sabe o que ele fez? Bateu no nosso quarto e perguntou se a gente dava licença dele ir ao banheiro. O banheiro era lá no fundo do corredor, não sei por que diabo veio perguntar logo a nós. Sabe o quê que ele disse? Que queria ver se achava as iniciais que tinha gravado na porta de uma das privadas. Pois é, tinha gravado a droga das iniciais dele na porta de uma das privadas, há uns noventa anos, e queria ver se continuavam no mesmo lugar. Aí, meu companheiro de quarto e eu levamos o sujeito até o banheiro e tudo, e tivemos de ficar ali parados enquanto ele catava as iniciais nas portas de todas as latrinas. E não parou de falar o tempo todo, contando que a melhor época da vida dele foi a que passou no Pencey, e nos deu um bocado de conselhos para o futuro e tudo. Puxa, você não faz ideia como ele me deprimiu! Não quer dizer que ele fosse um mau sujeito – não, não era. Mas não é preciso ser um mau sujeito para deprimir a gente. Um cara pode ser bom e mesmo assim deprimir os outros. Para deprimir alguém, basta um sujeito ficar dando uns conselhos cretinos ao mesmo tempo em que procura as iniciais dele na porta de uma privada – basta isso. Não sei. Talvez não tivesse sido tão chato assim se pelo menos ele não estivesse completamente sem fôlego só de subir a escada. O tempo todo que ele ficou procurando as iniciais estava respirando com a maior dificuldade, as narinas dum jeito engraçado, enquanto dizia a mim e ao Stradlater para aproveitarmos o Pencey ao máximo. Puxa, Phoebe! Nem sei explicar. Eu simplesmente não gostava de nada que estava acontecendo no Pencey. Não sei explicar direito.
Phoebe falou alguma coisa que eu não consegui entender. Estava com o lado da boca grudado no travesseiro e, por isso, eu não podia entender direito o que ela dizia.
– O quê? – perguntei. – Tira a boca daí. Não posso entender nada do que você fala, com a boca desse jeito.
– Você não gosta de nada que está acontecendo.
Quando ela disse isso, fiquei ainda mais deprimido.
– Gosto sim. Gosto. É claro que gosto. Não diga isso. Droga, por que você tem que dizer um troço desses?
– Porque você não gosta. Você não gosta de nenhum colégio. Você não gosta de um milhão de coisas. Não gosta mesmo.
– Gosto! Aí é que você se engana... aí é que você está completamente enganada. Pomba, por quê que você diz isso?
Puxa, como ela estava me deprimindo.
– Porque não gosta. Então me diz uma coisa de que você goste.
– Uma coisa? Uma coisa que eu gosto? Está bem.
O problema é que não estava conseguindo me concentrar. Às vezes é duro da gente se concentrar.
– Quer dizer, uma coisa que eu goste muito? – perguntei.
Mas ela não me respondeu. Estava numa posição esquisita, lá longe, do outro lado da cama, a uns mil quilômetros de distância.
– Vambora, responde – falei. – Uma coisa que eu goste muito, ou só uma coisa que eu goste?
– Que goste muito.
– Está bem.
Mas o problema é que eu não conseguia me concentrar. O mais que consegui lembrar foi das duas freiras que andavam coletando dinheiro naquelas cestinhas velhas. Principalmente daquela dos óculos com aro de ferro. E dum garoto que eu conheci no Elkton Hills. Lá no Elkton Hills tinha esse garoto, chamado James Castle, que cismou de não retirar o que ele tinha dito sobre outro garoto muito mascarado, o Phil Stabile. O James Castle tinha dito que ele era muito mascarado e um dos amigos nojentos do Stabile cagüetou tudo. Aí o Stabile e mais uma meia dúzia de sacanas amigos dele foram até o quarto do James Castle, entraram e trancaram a droga da porta, e tentaram obrigá-lo a retirar o que ele tinha dito, mas ele não retirou. Aí eles se serviram. Nem conto o que fizeram com ele - é nojento demais - mas nem assim ele retirou as palavras, o James Castle velho de guerra. E só vendo o James Castle. Era um magricela, todo raquítico, com uns pulsos da grossura de um lápis. Finalmente, em vez de retirar o que tinha dito, o que ele fez foi pular pela janela. Eu estava no meio do banho e tudo, e mesmo assim escutei o baque do corpo lá em baixo. Mas pensei só que alguma coisa tinha caído pela janela, um rádio, ou uma mesa, ou coisa que o valha, e não um garoto. Aí ouvi todo mundo correndo pelo corredor e se despencando escada abaixo. Botei o roupão e também desci correndo, e lá estava o James Castle, caído bem nos degraus de pedra e tudo. Estava morto, os dentes e o sangue espalhados por todo lado, e ninguém nem ao menos chegava perto dele. Estava com um suéter de gola alta que eu havia emprestado a ele. E não aconteceu nada com os caras que estavam no quarto dele, só foram expulsos do colégio. Nem ao menos foram presos.
Isso foi tudo que me veio à cabeça. As duas freirinhas que encontrei no restaurante e esse garoto, o James Castle, que conheci no Elkton Hills. O gozado é que eu mal conhecia o James Castle, pra dizer a verdade. Era um desses camaradas quietos pra chuchu. Era meu colega na classe de matemática, mas se sentava do outro lado da sala e raramente se levantava para responder a uma pergunta ou para ir ao quadro-negro. Tem uns sujeitos na escola que quase nunca respondem a uma pergunta ou vão ao quadro-negro. Acho que a única vez que conversamos foi quando ele veio pedir emprestado meu suéter de gola alta. Por um triz não caí duro de surpresa quando ele me pediu. Me lembro que estava escovando os dentes, no banheiro, quando ele veio pedir o troço. Contou que um primo dele vinha apanhá-lo para dar um passeio de carro e tudo. Eu nem ao menos sabia que ele sabia que eu tinha um suéter de gola alta. Só sabia que o nome dele vinha bem na frente do meu na lista de chamada. Cabel, R.; Cabel, W.; Castle; Caulfield – ainda me lembro disso. Pra dizer a verdade, quase que não emprestei o suéter. Só porque não conhecia ele direito.
– O quê? – perguntei à Phoebe. Ela tinha me dito alguma coisa que eu não ouvi.
– Você não consegue nem pensar numa coisa.
– Consigo, sim. Consigo.
– Bom, então diz.
– Gosto do Allie – respondi. – E gosto de fazer o que estou fazendo agora. De sentar aqui com você, conversando e pensando numa porção de troços, e...
– O Allie já morreu... Você sempre diz isso! Se alguém já morreu e tudo, e está no céu, então não é mais...
– Sei que o Allie já morreu! Você acha que eu não sei? Mas mesmo assim posso continuar gostando dele, não posso? Pomba, só porque uma pessoa morreu não quer dizer que a gente tem que deixar de gostar dela... Principalmente se era mil vezes melhor do que as pessoas que a gente conhece, e que estão vivas e tudo.
A Phoebe ficou calada. Quando não consegue pensar numa coisa pra dizer, ela trata de ficar caladinha.
– De qualquer maneira, gosto disso aqui, agora. Assim como estou agora. Sentado aqui contigo, batendo papo e só...
– Mas isso não é uma coisa!
– É muita coisa! Claro que é! Por quê que não ia ser? As pessoas nunca acham que um troço assim é alguma coisa. Já estou ficando cheio disso.
– Para de dizer coisa feia. Tá bem, então diz outro troço. Uma coisa que você quer ser. Assim como cientista... Ou advogado, ou coisa parecida.
– Eu não podia ser cientista. Não sou bom em ciências.
– Então advogado, igual ao papai e tudo.
– Não tenho nada contra os advogados, mas o negócio não me atrai. Até que é bacana quando um advogado está sempre salvando a vida dos sujeitos inocentes e coisas assim, mas um cara que é advogado não faz nada disso. Só faz ganhar um dinheirão, e jogar golfe, e jogar bridge, e comprar carros, e beber martinis, e fazer pinta de bacana. Mesmo se a gente salvasse as vidas dos sujeitos e tudo, como é que ia saber se estava fazendo o troço porque queria mesmo salvar a vida deles, ou porque queria era ser um advogado bom pra burro, pra todo mundo bater nas costas da gente e dar parabéns no tribunal quando acaba a porcaria do julgamento, os repórteres e tudo, como aparece na droga dos filmes? Como é que eu ia saber se não era na verdade um cretino? O problema é que não ia saber.
Não sei muito bem se a danada da Phoebe entendeu o que eu estava dizendo. Ela é muito criança e tudo. Mas, pelo menos, estava escutando. Se uma pessoa pelo menos presta atenção, aí não é tão ruim.
– Papai vai te matar. Vai te matar.
Mas eu nem estava ouvindo. Estava pensando noutro troço, uma coisa amalucada.
– Você sabe o quê que eu quero ser? - perguntei a ela. – Sabe o que é que eu queria ser? Se pudesse fazer a merda da escolha?
– O quê? Para de dizer nome feio.
– Você conhece aquela cantiga: "Se alguém agarra alguém atravessando o campo de centeio"? Eu queria...
– A cantiga é "Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio"! – ela disse. – É dum poema do Robert Burns.
– Eu sei que é dum poema do Robert Burns.
Mas ela tinha razão. É mesmo "Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio". Mas eu não sabia direito.
– Pensei que era "Se alguém agarra alguém" – falei. – Seja lá como for, fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.
A danada da Phoebe ficou calada um tempão. Aí, quando resolveu falar, foi para dizer: – Papai vai te matar.
– Tou pouco ligando se ele me matar – respondi.
Aí me levantei da cama, porque queria telefonar para um sujeito que tinha sido meu professor de inglês no Elkton Hills, um tal de Antolini. Tinha saído do Elkton Hills e agora vivia em Nova York.
– Tenho de dar um telefonema – disse a ela. – Volto num instante. Não dorme não.
Não queria que ela pegasse no sono enquanto eu estava na sala de visitas. Sabia que ela não ia dormir, mas falei assim mesmo, só para ter certeza.
Enquanto ia andando para a porta, ela me chamou e eu me virei. Estava sentada na cama, toda empertigada. Estava tão bonita.
– Tem uma colega minha, a Phyllis Margulies, que está me ensinando a arrotar – ela disse. – Escuta.
Prestei atenção e ouvi alguma coisa, mas não era lá nada de excepcional.
– Muito bem – falei.
Aí fui para a sala e telefonei para o tal do Professor Antolini.

J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio

01/10/2025

Hermeto Pascoal & Grupo | Essa foi Demais

Lero-lero

Sou brasileiro
de estatura mediana
gosto muito de fulana
mas sicrana é quem me quer
porque no amor
quem perde quase sempre ganha
veja só que coisa estranha
saia dessa se puder.

Eu sou poeta
e não nego minha raça
faço verso por pirraça
e também por precisão
de pé quebrado
verso branco rima rica
negaceio dou a dica
tenho a minha solução.

Não guardo mágoa
não blasfemo não pondero
não tolero lero-lero
devo nada pra ninguém
sou esforçado
minha vida levo a muque
do batente pro batuque
faço como me convém.

Sou brasileiro
tatu-peba taturana
bom de bola ruim de grana
tabuada sei de cor
4 x 7
28 noves fora
ou a onça me devora
ou no fim vou rir melhor.

Não entro em rifa
não adoço não tempero
não remarco o marco zero
se falei não volto atrás
por onde passo
deixo rastro deito fama
desarrumo toda trama
desacato satanás.

Diz um ditado
natural da minha terra
bom cabrito é o que mais berra
onde canta o sabiá
desacredito
no azar da minha sina
tico-tico de rapina
ninguém leva o meu fubá.

Cacaso (musicado por Edu Lobo)

Boas Entradas num Boteco do Leblon

— E aí, tudo bem na passagem de ano?
— Tudo bem, na maior tranquilidade, gostei muito dos fogos.
— Tranquilidade? Tu chama aquilo de tranquilidade? Onde é que você foi?
— Lugar nenhum, fiquei em casa. Tranquilidade. Segurança contratado pelo condomínio, porteiro treinado, tevezinha malocada no elevador e em cada andar e tevezão em casa. Umas garrafinhas de champanhe pro pessoal mais fresco, uma garrafa de uísque pra mim, melhor programa não pode haver.
— Ah, em casa, malandro? Não tem nada a ver, tu tinha era que estar lá pessoalmente.
— Otário. Papo de otário. Otário e reacionário.
— Otário? Otário e reacionário? Otário e reacionário é quem fica em casa, podendo curtir a beleza do espetáculo ao vivo, é um dos privilégios de morar no Rio de Janeiro.
— Otário e reacionário. Só não digo burro porque te conheço e sei que tu não é burro. Otário e reacionário. É como jogo pela tevê. Claro que se vê o jogo pela tevê muito melhor que no estádio. E mais barato. Cada um traz sua caixinha de cerveja, morre nuns cinco paus para a vaquinha do sinal da tevê e assiste tudo sem se preocupar com bala perdida ou torcida assassina. Otário e reacionário é o que você é. Não digo bem reacionário, digo retrógrado. Pronto, retrógrado, defasado com seu tempo.
— Desculpe, mas no caso eu acho que otário é você.
— Olha aqui, não vamos discutir, porque tu vai se dar mal e eu prezo muito tua amizade pra querer te melindrar. Mas eu, podendo assistir tudo no conforto e na segurança de minha casa, numa zorra de um telão que eu comprei e não me arrependo, foi a melhor coisa que eu já fiz, eu, podendo estar aqui na maior, sem preocupação, vou pra rua, ser figurante gratuito da tevê? Porque isso é o que vocês são, figurantes gratuitos das tevês. Elas vão lá e ainda chamam você de galera, eu não suporto que me chamem de galera. “Olha lá a galera aplaudindo os fogos”, não sei o quê. Isso não tá com nada, cara, o futuro já chegou e é diferente. Burrice sair de casa, o Rio está se constituindo numa experiência do futuro. O Rio e São Paulo e acho que tem outras cidades brasileiras no mesmo caminho, a tendência natural do futuro é essa. Eu sou muito otimista, acho que a informática e as comunicações vão resolver tudo, inclusive o problema das drogas. Nosso conceito de cidade está ultrapassado, nós precisamos acabar de equacionar a cidade do futuro, é só ver as possibilidades. Por exemplo, quem precisa sair de casa?
— Você acha que o sujeito não deve sair de casa?
— O mínimo possível. Não precisa.
— Quer dizer que, por exemplo, acabam as visitas e os papos, acabam os restaurantes?
— Aí é que eu digo que tu é retrógrado. Tu não já leu nos jornais, não? Está desaparecendo o restaurante, agora o sujeito recebe tudo em casa e, se quiser, muitos restaurantes oferecem o mesmo serviço, com garçom e tudo. O restaurante que não se adaptar pode ficar lá desertinho a noite toda, que ninguém mais vai ser maluco de sair de noite, a cidade do futuro é outra, te situa, cara.
— Quer dizer que tu acha que agora, por exemplo, pra conversar com os amigos o sujeito vai ter que promover reuniões em casa. Por aí já se vê que tua tese é furada. Pra fazer reunião em casa é preciso que os outros participantes saiam das suas. Portanto, alguém sai de casa. Esquema furado.
— Desculpe, mas você não está confirmando tua inteligência. Ninguém precisa sair de casa. Tu sabe meu telão? Se eu quiser, eu ligo ele no meu computador e, com uma webcam instalada, converso com dois ou três amigos ao mesmo tempo, até as famílias inteiras, sem sair de casa. Sacou?
— Mas isso é uma maluquice. Quer dizer que acha que...
— Maluquice é a sua, que não vê que a realidade é outra. Tu manja o Skype?
— Eu sei, é um programa de computador pro camarada falar.
— E de graça! E é um programa que ainda pode ser considerado primitivo, ainda vai melhorar muito. Pois outro dia, o Lustosa, a mulher dele e o filho mais velho e o Lafayette, aquele coroa baiano que imita Dorival Caymmi, todo mundo ficou conversando pelo Skype horas, como se estivessem aqui na sala. É só botar umas boas caixas de som, um bom microfone e a reunião está pronta, com muito mais conforto e sem precisar sair de casa, dá até para fazer degustação de vinhos, cada qual com sua garrafinha em casa.
— Que horror, eu acho isso o fim.
— É o que eu digo: reacionário, não vê que os tempos são outros. Agora a gente pode dar até uma festa assim. Tenho certeza de que daqui a no máximo uns cinco anos, quando o cara quiser dar uma festa, é só combinar ligar os computadores e os telões e todo mundo participa da festa, sem precisar botar os pés fora de casa. Não, tu tá por fora. Reacionário, retrógrado, pessimista. Tudo vai melhorar, vá por mim. Até o país como um todo vai melhorar.
— Como é que tu sabe?
— O Homem garantiu, tu não viu, não? E, quando ele garante, tu sabe como é, ele faz. O futuro é belo, cara, tu é reacionário.

João Ubaldo Ribeiro, em O rei da noite

Carta VI


Meu querido Vermelindo,

Fiquei satisfeito de saber que a idade e a profissão de seu paciente tornam possível, embora não garantam, que ele seja convocado para o serviço militar. Gostaríamos que ele ficasse num completo estado de incerteza, de modo que a sua mente fique cheia de imagens contraditórias do futuro, sendo que cada uma delas desperte nele esperança ou medo. Não há nada mais eficaz que o suspense e a ansiedade para bloquear a mente humana contra o Inimigo. Ele quer que os homens fiquem preocupados com o que fazem; nosso negócio é fazer com que fiquem constantemente pensando sobre o que vai acontecer com eles.
É claro que o seu paciente já terá se convencido de que precisa se submeter com paciência à vontade do Inimigo. O que o Inimigo quer dizer com isso é essencialmente que ele deve aceitar com paciência a tribulação que lhe sobreveio — a ansiedade e o suspense atuais. É sobre isso que ele deve dizer: “Seja feita a tua vontade” e, pela tarefa diária de suportar isso que o pão de cada dia será providenciado. O seu negócio é garantir que o paciente nunca pense no medo presente como a cruz que lhe foi designada, mas apenas nas coisas que o deixam temeroso. Deixe-o considerá-las como sendo as suas cruzes: não o deixe pensar que, já que são incompatíveis, elas não podem todas acontecer com ele, e faça-o praticar a coragem e a paciência em relação a elas, mesmo antes de acontecerem. Porque uma resignação real, ao mesmo tempo, para com uma dúzia de situações diferentes e hipotéticas, é quase impossível, sendo que o Inimigo não ajuda muito aqueles que tentam ficar nesse estado de conformação. A resignação ao sofrimento presente e real, mesmo quando esse sofrimento consiste basicamente no medo, é mais cômoda e geralmente é auxiliada por essa ação direta.
Há uma lei espiritual importante envolvida aqui. Expliquei que você pode enfraquecer as orações do seu paciente desviando a atenção dele do Inimigo em si, para atentar sobre os seus próprios estados mentais em relação a ele. Por outro lado, o medo se torna mais fácil de dominar quando a mente do paciente é desviada da coisa temida para o medo em si, considerado um estado presente e indesejável de sua própria mente — e quando ele se refere ao medo como a cruz que lhe foi designada, passa inevitavelmente a pensar nisso como um estado de espírito. Por isso, é possível formular a seguinte regra geral: em todas as atividades mentais que favorecem a nossa causa, encoraje o paciente a não atentar para si mesmo, e sim a concentrar-se no objeto; mas, no caso daquelas atividades que favorecem o Inimigo, leve-o a concentrar-se só em si. Faça com que um insulto ou o corpo de uma mulher prendam tanto a atenção dele no objeto, que ele não chegue a pensar algo como: “estou entrando agora em um estado chamado Raiva — ou no estado chamado Luxúria”. Em contrapartida, faça-o refletir em termos como: “agora, meus sentimentos estão se tornando mais puros, ou mais generosos”, e, então, fixe a sua atenção dentro dele mesmo para que não consiga mais olhar para além de si a ponto de enxergar nosso Inimigo ou seu próximo.
Com relação à atitude mais genérica dele em relação à guerra, você não deve confiar demais naqueles sentimentos de ódio que os humanos estão muito interessados em discutir nos periódicos cristãos ou anticristãos. Em sua angústia, o paciente pode, é claro, sentir-se encorajado a retaliar por meio de alguns sentimentos vingativos direcionados aos líderes germânicos, e isso, até certo ponto, é bom. Mas se trata normalmente de um tipo de ódio melodramático ou mítico direcionado a bodes expiatórios imaginários. Ele nunca topou com tais pessoas na vida real — elas são figuras leigas, moldadas a partir do que ele extrai dos jornais. Os resultados desses ódios fantasiosos são muitas vezes os mais decepcionantes e, dentre todos os seres humanos, os ingleses são, com respeito a isso, os mais deploráveis fracotes. São criaturas daquele tipo miserável que proclamam em alta voz que a tortura seria pouco para os seus inimigos, mas logo em seguida oferecem chá e cigarros ao primeiro piloto alemão ferido que aparece na porta dos fundos.
Faça você o que fizer, sempre haverá alguma benevolência, bem como alguma malícia na alma do seu paciente. O negócio é direcionar a malícia para os seus vizinhos, com quem ele topa todos os dias, e transferir sua benevolência a circunstâncias remotas, dirigindo-a a pessoas que ele não conhece. Assim, a malícia se torna totalmente real e a benevolência, em grande parte, imaginária. Não há nenhuma vantagem em inflamar o seu ódio contra os alemães se, ao mesmo tempo, um hábito pernicioso de caridade estiver tomando forma entre ele e sua mãe, seu chefe e o homem com quem ele topa no trem. Pense no seu homem como uma série de círculos concêntricos, sendo que a sua vontade é o mais interno, o seu intelecto vem logo depois e, finalmente, sua fantasia. Não é de se esperar que se possa excluir imediatamente de todos os círculos tudo que cheira ao Inimigo, mas você deve continuar a transferir todas as virtudes para círculos externos até que eles finalmente estejam no círculo da fantasia, e todas as qualidades desejáveis para dentro da Vontade. Somente quando alcançam a Vontade e são ali incorporadas em hábitos é que as virtudes se tornam realmente fatais para nós. (É claro que não estou me referindo ao que o paciente toma erroneamente por sua Vontade, aquela fúria de resoluções e de dentes cerrados, e sim ao centro real, aquilo que o Inimigo chama de Coração.) Todos os tipos de virtudes pintadas na fantasia, aprovadas pelo intelecto ou, em certa medida, amadas e admiradas, afastarão uma pessoa da casa de Nosso Pai: na verdade, elas poderão torná-lo mais divertido quando chegar lá.

Com carinho,
Seu tio, Maldanado

C. S. Lewis, em Cartas de um diabo a seu aprendiz

Hagar, o Horrível

Capítulo 8 – Razão Contra Sandice

Já o leitor compreendeu que era a Razão que voltava à casa, e convidava a Sandice a sair, clamando, e com melhor jus, as palavras de Tartufo:
La maison est à moi, c'est à vous d'' sortir.
Mas é sestro antigo da Sandice criar amor às casas alheias, de modo que, apenas senhora de uma, dificilmente lha farão despejar. É sestro; não se tira daí; há muito que lhe calejou a vergonha. Agora, se advertirmos no imenso número de casas que ocupa, umas de vez, outras durante as suas estações calmosas, concluiremos que esta amável peregrina é o terror dos proprietários. No nosso caso, houve quase um distúrbio à porta do meu cérebro, porque a adventícia não queria entregar a casa, e a dona não cedia da intenção de tomar o que era seu. Afinal, já a Sandice se contentava com um cantinho no sótão.
– Não, senhora, replicou a Razão, estou cansada de lhe ceder sótãos, cansada e experimentada, o que você quer é passar mansamente do sótão à sala de jantar, daí à de visitas e ao resto.
– Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um mistério...
– Que mistério?
– De dois, emendou a Sandice; o da vida e o da morte; peço-lhe só uns dez minutos.
A Razão pôs-se a rir.
– Hás de ser sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa... sempre a mesma coisa.
E, dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fora; depois entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas súplicas, ainda grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a língua de fora, em ar de surriada, e foi andando... foi andando... Provavelmente andará até a consumação dos séculos.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas