05/12/2015

A fúria dos jovens e a paz dos velhos

Paris — Chamam-se ajoncs essas flores amarelas circulando os trilhos do TGV que me leva a Bordeaux. Não há nada no mundo tão amarelo quanto um ajonc, penso. E estendo as pernas enquanto fica para trás uma Paris quase em chamas, com milhares de estudantes em fúria pelas ruas. “Les jeunes, les jeunes en colère!”, gritam os franceses, enquanto a polícia baixa o pau no Boulevard Saint-Michel, carros são queimados e esbarro numa garota com a frase “pas de future!” pintada na cara. O trem deixa a Gare de Montparnasse, ligo o walkman para ouvir Barbara cantando “Marienbad” . Viajando para a Aquitânia, perto da Espanha, me afasto cada vez mais de Marienbad, cidade checa aonde nunca fui. A cólera dos estudantes ficou longe. Sinto-me solidário, voilà, mas ser estrangeiro me dá a liberdade enorme de ser apenas espectador. E para falar a verdade — a esta altura da vida, pouco além do meio da estrada — estou mais interessado em encontrar velhos em paz do que jovens em fúria…
Claire Cayron, minha tradutora francesa, me espera com um convite: visitar sua amiga Hélène, também tradutora, que mora na região de Périgord. Os nomes não me dizem nada, mas tudo sempre é bom chez Claire, eu concordo. O crepúsculo lentíssimo de abril desce atrás dos vidros, ouvimos Chico Buarque e espiamos as corças que às vezes saem do bosque, sempre nessa hora, para chegar perto da casa. Como se confiassem em nós, humanos medonhos. Pode ser tão doce a França, sabia?
Na manhã seguinte tomamos o carro pela estrada que persegue o rio Dordogne. Faço perguntas como uma criança ignorante: Périgord é a região onde foram encontrados os restos do homem de Cro-Magnon, nosso antepassado pré-histórico. Lugar sombrio, de energia estranha brotando de rochas, furnas, casas coladas às pedras. E Hélène, nessa mania francesa de afrancesar todos os nomes, é Helen Lane, a grande tradutora dos grandes latino-americanos (Octavio Paz, Vargas Llosa, Roa Bastos, García Márquez, Juan José Saer e muitos outros) para o inglês. Vive só numa cabana modestíssima, no fundo de um vale perdido no Périgord. Perto da origem? Na frente da casa esvoaça uma bandeira vermelha com dizeres em tibetano. Helen é budista, tem 84 anos.
Mas a pessoa que nos abre a porta, pequenina e sólida, de cabelos brancos e lisos cortados curtos com uma franja, tem um sorriso de menina. Olhos negros redondos, atentíssimos. Jovens, e sem cólera alguma. Ao lado do fogão ronrona seu companheiro, o gato Dagobert. Então, de repente, por um milagre feito faísca na cozinha dessa casa cheia de livros, ficamos subitamente os três — Helen, Dagobert, eu — amigos íntimos. Ela fala em francês, inglês, espanhol, italiano, e para minha surpresa até em português (traduziu Márcio de Souza e Nélida Piñon, de cuja generosidade lembra com carinho). Viveu no México, no Tibete, está de mudança para Albuquerque. Tem osteoporose, mostra o braço enfaixado enquanto serve o almoço que preparou e descreve rindo uma radiograf i a de sua própria coluna — “tão transparente, parecia de vidro”.
Na partida, ganho um presente: os poemas de Ryokan, monge budista zen do século XVIII. Desde então leio e releio este poema — no livro, em japonês e inglês — que tento precariamente traduzir para o português e deixar para vocês como outro presente, para que pensem em Helen Lane:

“Pensar viagens
toda noite me leva
a um pouso diferente mas o sonho que sonho
é sempre o mesmo: um lar.”

Lindo, não? Ah: pelos campos da França, os ajoncs continuam amarelos.
Caio Fernando Abreu, in Pequenas epifanias

04/12/2015

Superhomem - a canção - Gilberto Gil

Títulos

Não há escritor que não se debata com a difícil questão dos títulos de suas obras, sejam elas poemas, crônicas, contos, novelas ou romances. O título faz a primeira ponte com o mundo, é o primeiro gancho de interesse, a primeira luz do farol no nevoeiro. A obra está lá, enrodilhada em si mesma, mas escondida, e é preciso uma etiqueta, um visgo ou um guizo para que ela seja percebida pelo possível leitor. Nesse instante, o autor defronta-se com uma questão ética – ser fiel a si mesmo e à obra ou a esse fátuo e imponderável leitor.
O leitor é uma abstração. Só existe em potência. Cada uma das partes envolvidas no processo de criação e produção do livro idealiza um leitor. Assim, há o leitor ideal do autor, como também há o leitor ideal do editor, do distribuidor, do livreiro. E lá no fim do processo, há o leitor real, raro e esquivo, soterrado sob uma avalanche infinita de títulos. Vigiando a todos, como uma esfinge hierática e fatal, sorri o Mercado, esse deus insaciável, que controla o Portal da Cidade do Livro e que deseja títulos vistosos, agradáveis, comerciais.
Mas, às vezes, a obra – inteira e autônoma – recusa-se a essas vestimentas carnavalescas, não querendo chamar tanta atenção sobre si mesma. Indeciso diante do enigma, o autor só tem duas opções: deixar a matéria gerar o próprio nome ou fazer aderir um nome qualquer à matéria. Que ouvido sutil há de ter o autor para captar o murmúrio da obra! Que espírito pragmático há de ter o autor para etiquetar, sem nenhuma angústia, o que acabou de produzir!
Edgar Allan Poe dizia que um título deve prenunciar tudo o que uma obra contém. Mas Poe, nós sabemos, estava pensando no consumidor , estava ajudando a construir uma ética para as relações comerciais – se vendo um produto, ele deve ser honesto; não é justo vender gato por lebre. E foi com essa visada pragmática que ele criticou duramente o título genial de Nathaniel Hawthorne, Twice told tales! Ou terá sido por despeito?
Gabriel García Márquez optou por ser absolutamente honesto e fiel ao espírito da própria obra, intitulando uma novela de assassinato e paixão de Crônica de uma morte anunciada . Talvez um dos maiores achados na história dos títulos. E um dos melhores exemplos de que o único caminho para um escritor é a radicalidade, a coerência e a fidelidade à própria obra. Absolutamente fechada em si mesma, ela se encarregará de dar o bote sobre os leitores, conquistando-os aos milhares. Ou adormecendo, mofada, nos estoques das distribuidoras.
Se a palavra efetivamente tem poder, se nomes condicionam destinos, os escritores devem se preocupar seriamente com os títulos de seus livros, como os pais com os nomes de seus filhos. Mas, se a palavra é um mero signo, se ela simplesmente se cola às coisas, na inútil tentativa de dar-lhes uma significação, é melhor que eles não resistam ao canto de sereia do Mercado. A este último, no entanto, é necessário lembrar que um bom título não salva um mau livro, mas um mau título pode prejudicar um bom livro.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

O traço marcante de Portinari

Cavaleiros (1951), de Cândido Portinari

O visitante noturno

Enquanto dormes, teu Cuidado espera-te.
Despertas... e ei-lo sentado, ali, aos pés do leito.
Mas um dia darás um jeito nisso tudo...
Um dia, não despertas... Nunca mais!
Que fará ele, então, o teu Cuidado,
Da sua odienta fidelidade canina?
Do seu feroz silêncio? Do seu rosto sem cara?
Mário Quintana

Direitos de propriedade

“Como já observei, não é fácil encontrar um bom argumento para sustentar a alegação segundo a qual os direitos de propriedade são mais essenciais à liberdade daqueles que possuem propriedade do que uma redistribuição de propriedade o é para aqueles que são destituídos de propriedade.”
Samuel Fleischacker, in Uma breve história da justiça distributiva

Coisa importante: lembrar


“De uma coisa posso me orgulhar, caro neto: poucos chegam, como eu, a uma idade tão avançada, àquela idade que as pessoas costumam chamar de provecta. Mais: poucos mantêm tamanha lucidez. Não estou falando só em raciocinar, em pensar; estou falando em lembrar. Coisa importante, lembrar. Aquela coisa de “recordar é viver” não passa, naturalmente, de um lugar-comum que jovens como você considerariam até algo meio burro: se a gente se dedica a recordar, quanto tempo sobra para a vida propriamente dita? A vida, que, para vocês, transcorre principalmente no mundo exterior, no relacionamento com os outros? Esse cálculo precisa levar em conta a expectativa de vida, precisa quantificar (como?) prazeres e emoções. É difícil de fazer, exige uma contabilidade especial que não está ao alcance nem mesmo das pessoas vividas e supostamente sábias. Que eu saiba, não há nenhum programa de computador que possa ajudar — e, mesmo que houvesse, eu não saberia usá-lo, sou avesso a essas coisas. Vejo-me diante de uma espinhosa tarefa: combinar muito bem a vivência interior, representada sobretudo pela recordação e pela reflexão, com a vivência exterior, inevitavelmente limitada pela solidão, pela incapacidade física, pelo fato de que tenho mais amigos entre os mortos do que entre os vivos. E, de novo, qual a fórmula adequada para essa combinação? Setenta por cento de vivência interior com trinta por cento de vivência exterior? Quarenta por cento de interior com sessenta por cento de exterior? O clássico meio a meio? Ou quem sabe quarenta e cinco por cento de cada — os dez por cento que sobram ficando reservados para aquele misterioso e indefinido território que não é nem interior nem exterior, mas que pode estar em cima, embaixo, ou em dimensão nenhuma?
Não sei. Só sei que recordar é bom, e é das poucas possibilidades que me restam, de modo que recordo. É uma espécie de exercício emocional, é um estímulo para os meus cansados neurônios, mas é sobretudo um prazer. Um prazer melancólico, decerto, mas um prazer, sim, resultante da facilidade com que evoco pessoas, acontecimentos, lugares, uma facilidade que às vezes surpreende a mim próprio. Para alguns, mesmo não muito velhos, o rio da memória é um curso de água barrenta que flui, lento e ominoso, trazendo destroços, detritos, cadáveres, restos disso ou daquilo; para mim, não: é uma vigorosa corrente de água límpida e fresca. Dos barquinhos que nela alegres navegam, lembranças, às vezes melancólicas, mas em geral risonhas, acenam-me, gentis, amistosas. Estou falando, claro, de memórias remotas, daquelas que estão ligadas à minha juventude. As coisas do cotidiano, eu as esqueço com a maior facilidade. Esqueço de apagar a luz, esqueço onde larguei o relógio, esqueço de dar a descarga no vaso sanitário, esqueço até os nomes das pessoas da casa geriátrica onde resido — por opção minha, devo dizer: meus filhos prefeririam que eu continuasse no apartamento, ou então que fosse morar com eles, coisa que recusei: não quero dar trabalho a ninguém.
Esquecer, meu neto, é um truque que a natureza usa para nos desligar aos poucos da realidade da existência. Mas não precisamos encarar esse fato como coisa inevitável, mesmo porque lembrar pode ser uma coisa agradável, particularmente quando se traduz na possibilidade de narrar recordações para uma pessoa como tu, meu neto. Considero-te especial, mesmo que nossos encontros tenham sido raros, ou talvez exatamente por causa disso. Vimo-nos cinco ou seis vezes, não mais, e sempre rapidamente. Eu sabia que isso iria acontecer: quando teu pai, jovem médico, foi para os Estados Unidos, tive o pressentimento de que não mais voltaria. Dito e feito: fez uma carreira bem-sucedida, casou com uma colega médica, tornou-se tão americano que até fala com sotaque. Só retornava esporadicamente e por curtos períodos. Alegava que tinha compromissos, mas o fato é que aparentemente não se sentia muito bem aqui. Por quê, não sei, e nunca lhe perguntei. As relações entre pais e filhos muitas vezes estão envoltas em bruma misteriosa, na qual realidade e fantasia se misturam. Eu mesmo pouco posso te dizer de minha mãe (com quem, no entanto, convivi bastante e numa fase difícil de minha vida), e menos ainda de meu pai. Espero que entre nós seja diferente, e a carta que me mandaste reforça essa expectativa. Aliás, parabéns pelo teu português. Para quem nasceu e se criou nos Estados Unidos, é excelente. Teu pai se preocupou em te manter ligado às tuas raízes brasileiras, coisa que sempre admirei.”
Moacyr Scliar, in Eu vos abraço, milhões

Vivendo com os lobos - A incrível história de Werner Freund

Werner Freund, 79 anos, tem um dom único. O ex-paraquedista, e agora pesquisador de lobos da Alemanha pode se dar tão bem com os lobos, que é quase como se fosse um membro de sua matilha. Na verdade, há 40 longos anos começou a viver entre lobos e criá-los desde filhotes em seu santuário “Wolfspark”, localizado em Merzig, na província alemã do Sarre. A estreita relação entre Werner e seus lobos é bastante óbvia pelas fotos dele recostando-se sobre as patas traseiras e uivando, e dos animais selvagens que comem carne diretamente de sua boca.

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Os lobos são uma espécie geralmente temida; a chance de entrar em seu território e sair com vida é muito pequena. Mas as coisas são diferentes no caso de Werner. É como se eles tivessem o aceitado como um dos seus. Quando Werner está ao redor, seus lobos são realmente brincalhões, dóceis e submissos com ele. Talvez seja porque consegue demonstrar com sucesso o seu domínio como o macho alfa do grupo. O parque é habitado por lobos de seis espécies diferentes ao redor do mundo, incluindo Sibéria, Ártico, Canadá, Europa e Mongólia. Eles vieram em sua maioria adquiridos como filhotes de parques de animais ou zoológicos e criados na mão por Werner.

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Pode parecer grosseiro e desnecessário, mas há uma razão para que Werner alimente os lobos com a boca. A rotina de alimentação é única, ele uiva primeiro, chamando o grupo para vir comer a carne que ele comprou. A carne crua vem de uma fonte constante de veados abatidos que ele mantém para alimentar os animais. Os lobos famintos animadamente fazem o seu caminho, atendendo aos apelos do líder. Werner garante que mete mesmo seus dentes na carne primeiro, selando a sua posição como o macho dominante - como no mundo animal, onde o macho alfa sempre recebe o primeiro pedaço -. Os lobos famintos esperam obedientemente e só avançam na carne crua uma vez que ele permite que façam.

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Esta é a única forma que Werner pode ter certeza que manterá o respeito do grupo. E isso funciona. Quando os lobos não estão se alimentando, eles brincam com ele e com alegria lambem seu rosto como um sinal de subserviência e reconhecimento. Estes gestos, às vezes machucam Warner, já que são grandes animais e uma focinhada violenta pode ferir o tratador. Parece meio assustador, mas é nada mais do que uma saudação áspera. Werner tem várias cicatrizes e às vezes até fica com um olho roxo após esses encontros, mas diz que a intimidade é necessária para se tornar um com a matilha.
- “Se eu não viver como um lobo real, eu nunca seria capaz de me conectar com os lobos”, diz ele. Na verdade, ele está constantemente fazendo o papel. - “Percebi logo que os lobos dominantes se comportam arrogantemente com o resto. Como um ser humano, não sou arrogante, mas como um lobo eu sou. É a única maneira de manter a minha posição a frente do pelotão”. Então fica de quatro, rosna para um lobo ameaçador, desviar o olhar indiferente quando se aproxima um provocador e às vezes até mesmo recorre a mordidas.

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Werner diz que os lobos são uma espécie geralmente temida e a chance de entrar em seu território e sair com vida é muito pequena. O parque é habitado por lobos de seis espécies diferentes ao redor do mundo, incluindo Sibéria, Ártico, Canadá, Europa e Mongólia. Os animais vêm comer a carne crua da sua própria boca, e embora pareça desnecessário, é a forma que ele tem de selar sua posição como macho alfa da matilha e a certeza de ter o respeito do grupo. No mundo animal o macho alfa é quem recebe o primeiro pedaço da carne, enquanto os outros esperam pacientemente e só avançam na carne uma vez que ele permite que façam. Quando os lobos não estão se alimentando, eles brincam com Werner e com alegria lambem seu rosto como um sinal de subserviência e reconhecimento. “Se eu não viver como um lobo real, eu nunca serei capaz de me conectar com os lobos”, diz ele. “Percebi logo que os lobos dominantes se comportam arrogantemente com o resto. Como um ser humano, não sou arrogante, mas como um lobo eu sou. É a única maneira de manter a minha posição a frente do pelotão”. Então fica de quatro, rosna para um lobo ameaçador, desvia o olhar indiferente quando se aproxima um provocador e às vezes até mesmo recorre a mordidas.

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Werner diz não se meter nas disputas internas do grupo, pois a matilha muda frequentemente a posição de poder, portanto ele fica sempre atento para qualquer sinal que o possa alertar sobre uma mudança em sua posição. Aos olhos da matilha ele ainda é um estranho, mas com o lugar exclusivo logo acima do macho alfa, o único lobo com o qual Werner tem mais cautela no tratamento.
“Quando eu entro em seu território cercado, só me dirijo para o lobo alfa ou seu companheiro. Se eu for para os outros, pode ser lido como um ataque. Eu não quero desafiar suas hierarquias. O que eles fazem é problema deles e eu tento não me envolver em suas brigas. Se dois lobos se desentenderem e eu me meter entre eles a coisa pode ficar muito difícil para mim.”

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Werner criou o santuário de 25 hectares em 1972, e já cuidou de muitos animais desde então. Atualmente, existem cerca de 29 deles no Wolfspark. Se você pensava que era só nos filmes que homens se transformam em lobisomem, bem, Werner é o exemplo perfeito que pode acontecer na vida real.
- “Sim, eu sou um animal”, diz ele bastante animado. - “Quando não estou com os lobos, é claro que eu sou humano, mas com os lobos, eu sou um lobo”.
Fonte: www.mdig.com.br. Link aqui.

03/12/2015

A gente se acostuma até com o ruim

— Como você era tratado em McAlester?
— Oh, muito bem até. Tinha comida na hora certa, e roupa limpa e podia tomar banho. É um lugar bem confortável. Só o que era ruim era a falta de mulher. — Joad riu baixinho. — Uma vez um sujeito saiu de lá, em liberdade condicional, e um mês depois tava voltando. Então perguntaram pra ele: escute, por que você voltou? E ele disse: ora, por quê. Quando cheguei na casa de meus velhos fiquei mal como o diabo. Lá não tinha luz elétrica, nem chuveiro, nem nada. Não tinha livros pra gente ler e a comida era braba que lhe digo! Aqui, sim. Tinha de tudo. Então diss’que voltava pra onde tinha conforto e onde podia comer. Se sentiu muito mal em liberdade, sem saber o que fazer. Aí roubou um carro pra poder voltar. — Joad enrolou um cigarro, acendeu-o. — O sujeito não deixa de ter razão — disse. — Inda ontem de noite fiquei atarantado, pensando onde eu ia dormir. Comecei a pensar no que meu companheiro de cela faria. Eu e meus colegas da prisão tínhamos uma banda, e das boas. Alguém até disse que a gente devia tocar no rádio. E hoje de manhã não sabia a que horas me levantar. Fiquei esperando o sino tocar.
Casy riu, cacarejante.
— Quando a gente se acostuma, até o barulho de uma serraria faz falta.
John Steinbeck, in As vinhas da ira

DVD DOMINGUINHOS "ILUMINADO" - PARTE 01


02/12/2015

Notas de um velho safado (5)

A ideia de que o sofrimento só pertence aos nobres e aos talentosos e aos inteligentes, aos sensíveis e aos ousados e aos criativos – não há merda maior do que essa. Eles invadiram os bares ontem, com uma ordem da Suprema Corte nos bolsos; ancorados na mais alta corte na terra eles varriam as garotas de cima das mesas como moscas, como guardanapos usados, todas aquelas pobrezinhas gritando, os peitos imensos balançando em pânico, os traseiros enormes e voluptuosos retorcidos de surpresa, eles as varriam seminuas para dentro de carros e vans para serem fichadas, fotografadas e presas. Que desperdício. Que desperdício de belezas nota dez. Falando de indecência – os policiais eram a coisa mais indecente daquela noite. Uma pobre moça não pode mais ganhar seu dinheiro honestamente. Tudo o que estavam fazendo era dar uma noite excitante àqueles homens solitários. Só posso crer que os caras na Suprema Corte não conseguem mais levantar as pirocas.
Charles Bukowski, in Pedaços de um caderno manchado de vinho

A filosofia de uma osga

Venho estudando desde há semanas José Buchmann. Observo-o a mudar. Não é o mesmo homem que entrou nesta casa, seis, sete meses atrás. Algo, da mesma natureza poderosa das metamorfoses, vem operando no seu íntimo. É talvez, como nas crisálidas, o secreto alvoroço das enzimas dissolvendo órgãos. Podem argumentar que todos estamos em constante mutação. Sim, também eu não sou o mesmo de ontem. A única coisa que em mim não muda é o meu passado: a memória do meu passado humano. O passado costuma ser estável, está sempre lá, belo ou terrível, e lá ficará para sempre.
(Eu acreditava nisto antes de conhecer Félix Ventura.)
Ao chegarmos a velhos apenas nos resta a certeza de que em breve seremos ainda mais velhos. Dizer de alguém que é jovem não me parece uma expressão correcta. Alguém está jovem, isso sim, da mesma forma que um copo se mantém intacto momentos antes de se estilhaçar no chão. Mas perdoem-me a deriva; é nisto que dá quando uma osga se põe a filosofar. Voltemos, pois, a José Buchmann. Não estou a sugerir que dentro de alguns dias irrompa de dentro dele, sacudindo grandes asas multicores, uma imensa borboleta. Refiro-me a alterações mais subtis. Em primeiro lugar está a mudar de sotaque. Perdeu, vem perdendo, aquela pronúncia entre eslava e brasileira, meio doce, meio sibilante, que ao princípio tanto me desconcertou. Serve-se agora de um ritmo luandense, a condizer com as camisas de seda estampada e os sapatos desportivos que passou a vestir. Acho-o também mais expansivo. A rir, é já angolano. Além disso tirou o bigode. Ficou mais jovem. Apareceu-nos aqui em casa esta noite, após quase uma semana de ausência e mal o albino lhe abriu a porta, disparou:
– Estive na Chibia!
Vinha febril. Sentou-se no majestoso trono de verga que o bisavô do albino trouxe do Brasil. Cruzou as pernas, descruzou-as. Pediu um uísque. O meu amigo serviu-o, aborrecido. Santo Deus, o que fora ele fazer à Chibia?
– Fui visitar a campa do meu pai.
Como?! O outro engasgou-se. Qual pai, o fictício Mateus Buchmann?
– O meu pai! Mateus Buchmann pode ser uma ficção sua, aliás urdida com muita classe. Mas a campa, juro!, essa é bem real.
Abriu um envelope e tirou lá de dentro uma dúzia de fotografias, a cores, que espalhou sobre o tampo em vidro da pequena mesa de mogno. Na primeira imagem cabia um cemitério; na segunda podia ler-se a lápide de uma das campas: “Mateus Buchmann / 1905-1978.” As outras eram imagens da vila:
a) Casas baixas.
b) Ruas direitas, abertas com largueza para uma paisagem verde.
c) Ruas direitas, abertas com largueza para a paz imensa de um céu sem nuvens.
d) Galinhas ciscando em meio à poeira vermelha.
e) Um velho (mulato), sentado à mesa triste de um bar, o olhar pousado numa garrafa vazia.
f) Flores murchas num vaso. g) Uma enorme gaiola, sem pássaros.
h) Um par de botas, muito gastas, aguardando à soleira de uma casa.
Havia em todas as fotografias algo de crepuscular. Era o fim, ou era quase o fim, só não se percebia de quê.
– Eu insisti consigo, pedi-lhe, avisei-o para que nunca fosse à Chibia!
– Bem sei. Por isso fui...
O meu amigo abanou a cabeça. Não consegui perceber se estava furioso ou divertido ou ambas as coisas. Estudou demoradamente a fotografia da campa. Sorriu desarmado:
– Bom trabalho. E olhe que lhe falo como profissional. Dou-lhe os parabéns!
José Eduardo Agualusa, in O vendedor de passados

Problemas com o Arthurzinho

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Escrever é mais fácil que falar

O meu avô brincava muito comigo usando as palavras. Ele escrevia “azul” e me pedia para escrever outra palavra na frente. Eu escrevia “preto”. Ele falava: “O azul hoje é quase preto”. Ele fazia uma frase usando as duas palavras. Eu ficava incomodado como ele, com toda a palavra, dava conta de fazer uma frase. Com duas palavras, construía uma oração.
A metáfora é muito interessante para o escritor. A metáfora é onde o escritor se esconde e põe asas no leitor. Pela metáfora, eu me escondo, mas ao mesmo tempo ponho asas no leitor. Vai aonde você quiser. Você está livre para romper com tudo. Acho que o leitor é tão criador quanto o escritor. O leitor cria muito. É o que o Umberto Eco fala — a estrutura ausente na obra. Você gosta de uma obra não pelo que está escrito, mas pelo lugar que ela o levou a pensar. Isso é muito interessante.
Michel Foucault fala que o que lemos não é a frase que está escrita. Lemos o silêncio que existe entre as palavras. É ali que a literatura se faz. Vou falar bem francamente. Hoje, chego à conclusão de que escrevo porque quero dizer umas coisas e acho a palavra oral muito perigosa.
Escrever é mais fácil do que falar. Quando escrevo e não gosto do texto, eu o rasgo. Jogo fora, apago, deleto, sumo com aquilo. Mas quando falo uma coisa errada, não recolho a palavra nunca mais. Isso me incomoda muito. Sou extremamente silencioso em minha natureza. Tenho muito medo da palavra oral. Sinto muitas vezes que as palavras me ferem ou eu firo alguém com essa palavra. Não recolho nunca mais essa palavra que cai no ouvido do outro. Talvez escreva por medo da fala.
Bartolomeu Campos de Queirós, in Palestra no Teatro do Paiol, Curitiba - PR

01/12/2015

Adminimistério

Quando o mistério chegar,
já vai me encontrar dormindo,
metade dando pro sábado,
outra metade, domingo.
Não haja som nem silêncio,
quando o mistério aumentar.
Silêncio é coisa sem senso,
não cesso de observar.
Mistério, algo que, penso,
mais tempo, menos lugar.
Quando o mistério voltar,
meu sono esteja tão solto,
nem haja susto no mundo
que possa me sustentar.
Meia-noite, livro aberto.
Mariposas e mosquitos
pousam no texto incerto.
Seria o branco da folha,
luz que parece objeto?
Quem sabe o cheiro do preto,
que cai ali como um resto?
Ou seria que os insetos
descobriram parentesco
com as letras do alfabeto?
Paulo Leminski

As coisas começam do fim

“As coisas não começam do princípio como se cuida, senão do fim. O fim porque as empreendemos, começamos e prosseguimos, esse é o seu primeiro princípio, por isso ainda que sejam indiferentes, o fim, segundo é bom ou mau, as faz boas ou más.”
Padre Antônio Vieira, in Sermões

Nova Iorque


– São quatro segundos, caro amigo, quatro segundos de aflição que não dão para um pai-nosso. O amigo experimente, pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no PAM!, quatro segundos e o corpo despedaçado contra o cimento. Se quiser continuar a trabalhar aqui, invente uma oração, pense bem no que há-de pedir ao altíssimo, mas que seja em menos de quatro segundos.
Dois homens pendurados por arneses a oitenta metros de altura. Os que trabalham dentro chamam-lhes pardais com uma ironia desnecessária. Quarenta e oito horas semanais de equilibrismo pagas a quatro dólares, um bom emprego para quem acaba de chegar à cidade. A fome mata-se muitas vezes com números de circo, ser equilibrista ou palhaço é só uma questão de oportunidade.
– Quando o mundo foi feito, os homens foram postos na terra de pés assentes e medo das alturas. Os homens não são do alto, como os pássaros e os anjos, a vertigem foi-nos dada pela natureza para que não o esquecêssemos. Os homens que sobem demasiado alto são puxados para baixo pelo diabo, para baixo de tudo, para o inferno que procuram. A força da terra é força do diabo a chamar gente.
Karl tenta não ouvir o colega, concentra-se na janela e no rodo que faz deslizar com precisão. Este é o primeiro dia de trabalho e ensaia um desvelo que não lhe é comum. Por entre os movimentos do braço e o chiar da borracha contra o vidro, há palavras que lhe chegam e ficam às voltas na cabeça. Céu, cimento, diabo, inferno. Karl nunca esteve tão longe do chão em toda a vida, pouca gente esteve. As montanhas do seu país são uma coisa diferente, altas, sim, mas vão subindo devagar. Esta parede é demasiado vertical, como o degrau infinito de uma escada absurda, um degrau que é fácil descer.
– Eu não hei-de cair enquanto o mundo não se virar. Não há diabo que chegue ao santíssimo. Há quase um ano que trabalho nisto e deus nunca me deixou cair, um homem deve precaver-se e foi o que fiz. O pastor deu-me na mão uma pena de anjo, uma pena às cores de um anjo que o foi ver, e eu trago-a cosida ao peito. Esta pena é de puxar para deus. “Cose-a ao peito e nada te pode deitar abaixo, o coração há-de puxar-te sempre para cima enquanto a trouxeres contigo.” Foi o que me disse o pastor antes que eu aceitasse este trabalho. Uma parte do ordenado vai para a igreja, e mais que fosse, o favor de deus não tem preço e até os pardais podem cair sem penas de puxar para cima.
Tremem as pernas a Karl de frio ou medo, a esta altitude não há diferença. O vento anda com eles de manhã à noite, como um cão vadio que não tem para onde ir e se mete pelas pernas de quem trabalha. Karl dá por si a inventar orações, é um exercício difícil, reduzir a algumas frases tudo o que se quer pedir ao criador. Por fim decide-se e repete para si mesmo “Perdoa-me senhor, perdoa-me senhor, perdoa-me senhor...”, a fórmula é simples e tem a vantagem de poder ser usada também em quedas pequenas.
Nuno Camarneiro, in No meu peito não cabem pássaros

Projeto SUR-FAKE: sugados pelos smartphones

SUR-FAKE é um projeto fotográfico do francês Antoine Geiger, com imagens captadas este ano em Paris. A essência do projeto é registrar como as pessoas estão, cada vez mais, interligadas a esses dispositivos eletrônicos, a ponto de perderem a identidade, de serem sugados para dentro dos aparelhos. O artista teve como tema a seguinte frase Walter Benjamin, de 1935, mas tão atual:

“A humanidade, que na época de Homer era um objeto de contemplação para os deuses do Olimpo, é agora cada um por si. A sua autoalienação atingiu um grau tal que ele pode experimentar a sua própria destruição como prazer estético de primeira ordem.”
Walter Benjamin, in The work of art in the age of of its mechanical reproducibility 
Confira a seguir as imagens: 











Sítio do artista, aqui.

Farto

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Estou farto!! Farto de tudo, de todos e, essencialmente, de mim!
Ando farto do mundo, que, por sua vez, há de estar farto de mim com o mesmo asco. Estou farto deste mundo pródigo em ignorância, ganância, egoísmo, preconceito... Clichês da vida moderna, bem sei, mas clichês que assim o são por conta da nossa própria negligência, que consente, sem cerimônia, em quaisquer atrocidades repetidas por um tanto mais de vezes, reduzindo-as a banalidades da vida cotidiana. Enquanto não nos tocam, preferimos aceita-las a combatê-las.
Estou farto da vida, invariavelmente mal vivida, de cujo sentido - admitindo que haja um - desconfio. Confio mais na morte: objetiva, inevitável e redentora. Viver a vida é suportá-la. Até que a morte nos liberte.
Ando farto de pessoas arrogantes e prepotentes. Farto de “doutor” sem doutorado; de “excelências” canalhas e imorais; de “madamas” da alta, retificadas a bisturi, empetecadas e sem educação; de pirralhos de “iPhones” em punho e “Nikes” fosforescentes nos pés, cuspindo gírias e desaforos, com o respaldo econômico do papai - o doutor sem doutorado - e o afago complacente da mamãe - a madama empetecada.
Ando farto de doutos pedantes que regurgitam suas dúbias erudições apenas pela delícia de sobrelevarem-se diante de plateias ignaras - o que os torna seres desprezíveis, sem que sequer suspeitem, pois a vaidade os cega sobremaneira.
Estou farto de camisetas com dizeres em inglês e estampa de “estrelas e faixas”! Estou farto de não nos assumirmos brasileiros, de ansiarmos doentiamente ser americanos do norte, de nos envergonharmos de nosso vernáculo e propalar orgulhosamente “eu tò fasendo ingleiz no iazígi!”, de nos deixarmos aculturar tão passiva e ingenuamente por um império que, hoje, além do domínio econômico e militar, exerce um domínio cultural devastador sobre o mundo.
Ando farto de convenções sociais hipócritas que rechaçam com veemência o havido por “anormal”, farto de regras impostas por quem não as cumpre, farto de condutas “socialmente aceitáveis” que me soam inaceitáveis e ridículas! Estou irremediavelmente farto da tirania da opinião de Stendhal, da aristocracia de província de Ivan Turguêniev, de tudo que é vazio, superficial, fútil, insosso... Estou farto de embalagens, de indumentárias, de maquiagens; ardis para ocultar a essência - ou, o que talvez seja mais provável, a ausência dela.
Estou farto de sobrenomes tradicionais, de genealogias, de profissionais bem-sucedidos, de condições sociais. Somos a essência de nós mesmos, e, portanto, somos únicos, independentemente de um sobrenome, uma linhagem, um ofício ou uma classe econômica.
Estou farto de ver tanta gente, farta como eu, acuada pelos órgãos repressores oficiais e pela própria sociedade, impossibilitadas de reagir na proporção da violência que sofrem diariamente, sem que sejam condenadas sumariamente. Estou farto de a resiliência ganhar status de virtude, quando a indignação e a revolta - tão obsoletas e previamente censuradas, hoje, pelas “pessoas de bem” - poderiam mudar tudo para melhor para a imensa maioria das pessoas - inclusive para as “de bem”!
Ando farto, por fim, de mim mesmo, por ser protagonista involuntário, mas consciente, de parte daquilo que repudio e de que estou farto. Farto de mim por vociferar com a ira de um revolucionário e agir com a placidez de um bovino. Farto de não fazer nada a respeito. Mas é que eu estou farto... de tudo... da vida... do mundo... de mim...
Estou farto e cansado...
Não que eu esteja certo, apenas estou farto.
Leonard Von Mühlen, in obviousmag.org

Garoa

Tinha sido a última oportunidade. Agora, sabia. De qualquer maneira, pensou, poderia ter me poupado da humilhação do telefonema e do último diálogo, diálogo de mudos, na mesa do café. Sentia na boca um gosto de moeda velha e no corpo uma sensação de coisa quebrada. Não só na altura do peito, não: em todo o corpo: como se as vísceras se adiantassem à morte, antes da consciência decidir. Sem dúvida, tinha ainda muito que agradecer a muita gente, mas ele se lixava para isso. A garoa molhava-o com suavidade, molhava seus lábios, e ele teria preferido que a garoa não o tocasse daquele jeito tão conhecido. Ia descendo para a praia e depois afundou lentamente no mar sem nem ao menos tirar as mãos dos bolsos, e todo o tempo lamentava que a garoa se parecesse tanto à mulher que ele havia amado e inventado, e também lamentava entrar na morte com o rosto dela ocupando a totalidade da memória de sua passagem pela terra: o rosto dela com o pequeno talho no queixo e aquele desejo de invasão nos olhos.
Eduardo Galeano, in Vagamundo